Posts Tagged ‘merlot’
12 de Setembro de 2013
Esta é uma das receitas de Claude Troisgros no programa Que Marravilha! do canal GNT. É uma receita mineira com toque francês cujos os ingredientes e o modo de preparo estão no endereço abaixo, após a foto de prato já servido.

Picanha suína no lugar do lombo
O arroz de taioba foi substituído pelo risoto (técnica italiana). A propósito, taioba é uma folha grande, parecida com a couve, inclusive no sabor, mas com um final levemente amargo. As maçãs verdes substituem as tradicionais batatas, muito usadas na cozinha mineira. A picanha suína entra no lugar do lombo por ser uma carne mais saborosa e macia.
http://gnt.globo.com/receitas/Picanha-suina-ao-forno-servida-com-risoto-de-taioba.shtml
Pelos ingredientes apresentados, o prato é rico em sabor com toques claramente agridoces. Em termos de harmonização, eu faria mais uma modificação na receita, trocando o vinho tinto da marinada pelo vinho branco, pois os sabores principais do prato fluem melhor com a companhia de um branco. Contudo, precisa ser um branco de personalidade e boa textura. Minha primeira opção seria um Pinot Gris da Alsácia, preferencialmente do excelente produtor Zind-Humbrecht. Seus aromas ricos, textura macia, acidez no ponto certo e o característico toque de doçura, são perfeitos para o prato. Podemos pensar também num belo Borgonha branco da comuna de Meursault com características semelhantes. Um Viognier de boa textura e com leve passagem por barrica também é uma boa opção, embora o caráter floral seja mais incisivo. A apelação Condrieu no sul da França (Rhône) tem mais chances de sucesso.
Agora voltanto à receita original, marinada no vinho tinto, devemos manter a cor do vinho na harmonização. Pelo caráter agridoce do prato, precisa ser um vinho bastante rico em frutas, mantendo um belo frescor. Merlots mais potentes, tintos do Alentejo com muita fruta e jovens, tintos do sul da Itália como Primitivo de Manduria ou Negroamaro, são as opções imediatas. Para um vinho americano, um Zinfandel cheio de frutas é uma escolha interessante. Em resumo, equilibrar o caráter agridoce do prato é fundamental.
Etiquetas:alentejo, alsace, alsácia, claude troisgros, condrieu, enogastronomia, gnt, Harmonização, mel, merlot, meursault, negroamaro, Nelson Luiz Pereira, picanha, pinot gris, porco, primitivo, que marravilha, sommelier, taioba, tudo e nada, vinho sem segredo, viognier, zinfandel
Publicado em carnes, Enogastronomia, Harmonização | Leave a Comment »
9 de Setembro de 2013
Prato emblemático do nordeste e também com versões em Minas Gerais. O nome vem dos dois principais ingredientes da receita, feijão e arroz, bem típicos da dieta brasileira. Essa mistura, esse baião, é enriquecido com outros ingredientes como bacon, linguiça calabresa, carne seca ou carne de sol, cheiro verde, queijo coalho ou queijo minas, manteiga de garrafa, leite de coco, tomate, alho e cebola. Veja uma das versões no vídeo abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=aaa-SrrUFVQ
É um prato de muito sabor, bom corpo e com certa gordura dissolvida. Os sabores do bacon, calabresa e a carne seca são marcante e com caráter defumado. Portanto de início, podemos pensar num vinho tinto saboroso, intenso e com notas amadeiradas, casando com os toques defumados. Como trata-se de um prato relativamente rústico, devemos optar por vinhos sem grande pompa. Por exemplo, vinhos jovens alentejanos (sul de Portugal), novos, com muita fruta, bom teor alcoólico e com alguma passagem por madeira. Aliás, a carne suína e seus derivados são muito apreciados na região. Se a opção for um vinho branco, que seja um Chardonnay passado em barricas de carvalho. Ainda em Portugal, temos belos brancos barricados com a uva Encruzado no Dão, e Antão Vaz no Alentejo.

Bar do Melo: Baião de Dois
Na América do Sul, um bom Malbec de Mendoza, preferencialmente do Valle de Uco com maior acidez, deve fazer boa parceira com o prato. Um belo produtor é Achaval Ferrer, trazido pela importadora Inovini (www.inovini.com.br). No Brasil, os bons Merlots encorpados da Serra Gaúcha como Miolo Terroir ou Desejo da Salton, são ótimas opções.
Da Itália, um bom Aglianico da Campania (sul do país) adequa-se bem ao prato. Do lado francês, vinhos do Rhône Sul, mesclando Grenache com Syrah, além de opções da Provence e Languedoc, são boas indicações. Uma bela dica é o produtor Montirius, biodinâmico da apelação Vacqueyras (sul do Rhône), tem a cuvée Garrigues da ótima safra de 2009. É comercializado pela importadora Decanter (www.decanter.com.br).
Para uma harmonização regional (nordeste), que tal um Shiraz do vale do São Francisco, ou mesmo algum blend de castas portuguesas, muito difundido na região. São vinhos geralmente jovens, com um lado frutado bastante presente.
Etiquetas:aglianico, alentejo, antão vaz, baião de dois, carne de sol, carne seca, chardonnay, dão, decanter, encruzado, enogastronomia, feijão de corda, grenache, Harmonização, languedoc, malbec, manteiga de garrafa, merlot, montirius, Nelson Luiz Pereira, provence, rhône, sommelier, syrah, tudo e nada, vacqueyras, vinho sem segredo
Publicado em carnes, Enogastronomia, Harmonização | Leave a Comment »
15 de Julho de 2013
Nesta última degustação na ABS-SP (10/07/13) com vinhos de Bordeaux, dois tintos foram destaques: Château Sociando-Mallet 2005, apelação Haut-Médoc e Château Prieuré-Lichine 2009, Troisième Grand Cru Classé de Margaux. Duas safras de prestígio, não tendo portanto as desculpas de fatores climáticos.

Bela safra a ser guardada
Ficou bem claro, as diferenças de estilo entre os dois vinhos. Prieuré-Lichine, mostrou as principais características de Margaux, com toques florais e de sous-bois (folhas secas e úmidas em decomposição), a textura macia em boca, taninos sedosos, e a expansão de um Grand Cru Classé. Um leve pecado, foi uma ponta de álcool a mais, deixando-o um pouco quente. É um dos melhores em toda a história do Château, merecendo de Parker a nota 93. Pessoalmente, fiquei em 91 pontos. Importado pela Casa Flora ou Porto a Porto (www.casaflora.com.br). 
Um Haut-Médoc de respeito
Passando agora ao Sociando-Mallet, ele tem a marca de um grande Saint-Estèphe. Embora pertença à apelação Haut-Médoc, ele fica muito próximo da comuna mencionada. Saint-Estèphe apresenta limites a sul pela vala de drenagem denominada Jalle du Breuil ou Chenal du Lazaret, e a norte, o canal denominado Estey d´Un. Pois bem, o Château Sociando-Mallet fica na comuna de Saint-Seurin-de-Cadourne, vizinha a norte de Saint-Estèphe. Propriedade de Jean Gautreau, este ex-Cru Bourgeois (retirou-se desta classificação após inúmeras confusões para uma nova reclassificação) é pessoalmente o melhor Château de margem esquerda, excetuando os Grands Crus Classés, embora às cegas, já tenha pregado muitas peças. A safra de 2005 mostra uma estrutura tânica vigorosa e bem delineada com taninos de grande qualidade. A acidez de Saint-Estèphe é bem marcada neste vinho, dando mais um componente de estrutura em busca da longevidade. É bom lembrar que o solo aqui é mais argiloso, proporcionando vinhos mais firmes e austeros. Os aromas são o clássico Cassis (frutas escuras), tabaco, couro, chocolate e ervas finas. Bons anos pela frente, se bem adegado. Parker cravou 91+ pontos. Pessoalmente, acho que ele merecia um pontinho a mais. Importado pela Mistral (www.mistral.com.br).
Etiquetas:bordeaux, cabernet sauvignon, casa flora, cru bourgeois, grand cru classé, graves, margaux, medoc, merlot, mistral, Nelson Luiz Pereira, porto a porto, prieuré-lichine, saint-estèphe, sociando mallet, sommelier, tudo e nada, vinho sem segredo
Publicado em Bordeaux, França, Regiões Vinícolas, Vinho em Destaque | 2 Comments »
4 de Julho de 2013

Châteaux do Médoc: Aristocracia e Imponência
Dentre os super segundos (super deuxièmes ou super seconds) da famosa classificação de 1855 dos vinhos do Médoc (a chamada margem esquerda de Bordeaux), talvez minha maior dúvida fique entre os châteaux Ducru-Beaucaillou e Léoville Las Cases, embora no fotochart, Léoville ganhe por uma cabeça. Contudo, é uma preferência estritamente pessoal e consequentemente, o rival acaba valorizando muito esta disputa. Portanto, vamos enaltecer alguns detalhes deste grande tinto medoquino da comuna de Saint-Julien. Esta comuna conta com oitocentos hectares de vinhas, dimensão semelhante à comuna de Pomerol, famosa na margem direita. Veja o vídeo abaixo, com o competente Bruno Borie, atual proprietário do château.
http://vimeo.com/12196433
Château Ducru-Beaucaillou possui setenta e cinco hectares de vinhas com idade média de trinta e cinco anos, distribuídas com forte densidade em torno de dez mil pés por hectare, onde as raízes atingem profundidades de seis metros em seu rico subsolo. Aliás, o solo deste vinhedo é lembrado no próprio nome, rico em boas pedras (beau caillou). O relevo deste solo pedregoso, bem drenado, é típico das chamadas “croupes de graves”, pequenas elevações do terreno, lembrando de certo modo belos campos de golfe.

Beaucaillou: as boas pedras do vinhedo
Nestas condições, a maturação da Cabernet Sauvignon é excelente, contando geralmente com setenta por cento do vinhedo. Praticamente, o restante é complementado pela Merlot e ínfimas parcelas de Petit Verdot, Cabernet Franc e Malbec. O vinho costuma amadurecer por dezoito meses em barricas bordalesas, sendo o percentual de renovação entre 50 e 80%, dependendo da potência da safra.

Destas grandes safras, talvez o melhor 1970 do médoc
É de fato um tinto de guarda, com inúmeros infanticídios antes dos dez anos de safra, infelizmente. Costuma conjugar a força de Saint-Estèphe com a elegância de Pauillac. Os aromas de frutas escuras, toques balsâmicos e o característico cedro, são típicos deste grande vinho. Rico em aromas terciários (cedar box ou caixa de charutos) em seu lento envelhecimento, é parceiro ideal com pratos elegantes acompanhados de trufas. Pela elegância e mistério, é muitas vezes comparado ao enigmático Château Lafite-Rothschild.
Provei recentemente a safra de 1999 com Dr. Cesar Pigati, diretor da ABS-SP, grande amigo e parceiro da boa gastronomia, e estava em grande forma. Não é uma safra excepcional, mas mantém o alto padrão do château. Maduro, com aromas terciários, mas com longa vida pela frente, pelo menos mais uns dez anos. Estrutura tânica de um autêntico Saint-Julien e persistência aromática notável. Enfim, todas as características de um grande margem esquerda.
Etiquetas:bordeaux, bruno borie, cabernet sauvigon, chateau lafite, croupes, ducru beaucaillou, graves, léoville las cases, margem esquerda, medoc, merlot, Nelson Luiz Pereira, saint-julien, sommelier, tudo e nada, vinho sem segredo
Publicado em Bordeaux, França, Regiões Vinícolas, Vinho em Destaque | Leave a Comment »
13 de Junho de 2013
Tenho ouvido falar em harmonizar carne de cordeiro com Pinot Noir. Nada contra com experiências, novas tentativas, e até acho que não há litígio neste encontro. Contudo, estamos fugindo das harmonizações clássicas, e cordeiro com vinhos de Bordeaux é uma delas. Quem vai contestar uma bela perna de cordeiro com um clássico Pauillac ou Saint-Julien, tintos à base de Cabernet Sauvignon da margem esquerda, conforme foto abaixo?

Cordeiro e o inseparável alecrim
Além da trama da carne de cordeiro ser mais fechada, as ervas são temperos praticamente insubstituíveis em sua preparação, sobretudo o alecrim. E tudo isso tem haver com a família dos Cabernets, rico em pirazinas, substâncias que reverberam os temperos do prato. A textura e suculência de um cordeiro bem preparado vai de encontro com a boa estrutura tânica de um tinto bordalês. Estas características estão longe demais com vinhos calcados na delicada Pinot Noir.
Já costeletas de cordeiro (foto abaixo), que são cortes grelhados e não assados, possuem mais gordura e devem ser consumidos mal passados ou no máximo, ao ponto, preservando toda a suculência da carne.

Gordura em volta da carne
Aqui, um bom Chinon, Bourgueil ou Saumur-Champigny, com concentração e boa estrutura tânica vai muito bem. Produtores como Domaine Breton e Thierry Germain, comentados em artigos anteriores, são exemplos clássicos. Esses Cabernets Franc do Loire, além de possuírem corpo adequado ao prato, apresentam um frescor e acidez na medida certa para combater a deliciosa gordura deste corte. É lógico que as ervas como tempero, novamente vão de mãos dadas com o vinho. Se houver um molho para as costeletas mais frutado, muitos vezes incluindo um redução de vinho do Porto, os Bordeaux de margem direita, calcados na casta Merlot, são companheiros ideais, pois sempre têm uma parcela de Cabernet Franc imbutida no corte. Portanto, Pomerol ou Saint-Emilion são pedidas certas. Saindo da França, um corte bordalês de Bolgheri com a habitual acidez italiana, pode surpreender.
Por último, a chanfana de carneiro, famosa na região da Bairrada em Portugal, conforme foto abaixo. É um prato típico, feito em panela de barro, cozido lentamente no vinho tinto e muito temperos. Os tintos bairradinos, calcados na uva baga, ricos em acidez e taninos potentes, são os parceiros ideais.

Prato rico em sabores
Outras alternativas fora do contexto local seriam vinhos potentes de certa rusticidade como o provençal Bandol, baseado na casta Mourvèdre, Brunello di Montalcino de estilo clássico, ou um Tempranillo de Toro, denominação vizinha a Ribera del Duero.
Quanto à Pinot Noir, aves de um modo geral, vão muito bem, sobretudo os borgonhas em receitas mais refinadas. Se quiserem insistir com cordeiro, as comunas de Pommard e Nuits-Saint-Georges apresentam exemplares mais tânicos e potentes.
Etiquetas:baga, bairrada, bolgheri, bordeaux, bourgueil, brunello di montalcino, cabernet franc, cabernet sauvignon, carneiro, chinon, cordeiro, costeletas, domaine breton, enogastronomia, Harmonização, merlot, mourvèdre, Nelson Luiz Pereira, nuits-saint-georges, pauillac, pinot noir, pomerol, pommard, saint-emilion, saint-julien, sommelier, tempranillo, thierry germain, toro, tudo e nada, vinho sem segredo
Publicado em carnes, Enogastronomia, Harmonização | Leave a Comment »
3 de Junho de 2013
Dentre as várias classificações na famosa região vinícola de Bordeaux, uma das mais polêmicas e porque não dizer das mais confusas, é a dos vinhos de Saint-Emilion, sub-região importante da chamada margem direita. Esta classificação criada em 1954, prometia ser revisada de dez em dez anos, acompanhando a evolução dos principais châteaux. Tudo corria relativamente bem até que em 2006, houve confusão generalizada, acabando nos tribunais da região. Somente em 2012, foi promulgada uma nova classificação, selecionando dezoito Premiers Grands Crus Classés e sessenta e quatro Grands Crus Classés, conforme tabela abaixo. É só clicar.
http://www.vins-saint-emilion.com/sites/default/files/vins-de-saint-emilion-classement-2012.pdf
É bom salientar que esta nomenclatura vale só para os vinhos de Saint-Emilion. A famosa classificação de 1855, referentes ao vinhos do Médoc, tem outro tipo de nomenclatura. Por isso, muitas vezes a confusão de vários termos. O pomposo termo Grand Cru Classe em Saint-Emilion na prática, não quer dizer muita coisa. Portanto, dentre esses sessenta e quatro châteaux descritos, talvez uma dúzia faça jus ao título. Por exemplo, château Berliquet, Pavie Decesse, Fonroque, Fombrauge, Clos de l´Oratoire, Couvent des Jacobins, La Dominique, Grand Mayne, La Serre e Clos des Jacobins.

Château Pavie: Polêmico, porém marcante
Já no grupo dos dezoito Premiers Grands Crus Classés, a confiabilidade é praticamente total. Vinhos de terroir, profundos, embora de estilos diversos. Evidentemente, Cheval Blanc e Ausone marcaram supremacia durante décadas com a designação A, diferenciando-se dos demais. Na classificação atual, ganharam a companhia dos châteaux Pavie (acima) e Angelus (abaixo) com a mesma designação. Se estão à altura, só o tempo dirá, mas os preços certamente subirão com o novo status.

Château Angélus: em ótima forma
Angelus parece ser mais europeu, mais sóbrio, enquanto Pavie é mais direto, mais exuberante, mais invasivo. Talvez a grande proporção de Cabernet Franc no corte do Angelus, explique esta finesse, esta elegância, semelhante ao corte do grande Cheval Blanc. Do lado de Pavie, a grande proporção de Merlot, é responsável pela fruta exuberante, taninos dóceis, e textura macia, mesmo relativamente novo. Não nos esqueçamos que na famosa degustação às cegas, onde o plebeu Château Reignac balançou grandes nomes da margem direita e esquerda num artigo deste mesmo blog intulado: “Degustação às cegas: Existem Experts?”, o grande vencedor na média foi o Château Angelus, descrito como um vinho elegante e equilibrado. O equilíbrio entre argila, calcário e areia, nas várias partes da colina em seus vinhedos parece ser a chave do grande sucesso e ascensão.
Em tempo, a apelação rival de Pomerol continua sem classificação oficial. A única certeza é que Château Petrus segue seu reinado, seguido de perto pelo Château Le Pin, pelo menos em preços.
Etiquetas:angelus, ausone, cabernet franc, cheval blanc, grand cru classé, le pin, merlot, Nelson Luiz Pereira, pavie, petrus, pomerol, saint-emilion, sommelier, terroir, tudo e nada, vinho sem segredo
Publicado em Bordeaux, França, Regiões Vinícolas | Leave a Comment »
15 de Maio de 2013
A eterna disputa entre Borgonha e Bordeaux pela excelência em vinhos é apaixonante, misteriosa e muitas vezes acaba em discussões calorosas sem um final conclusivo. São dúvidas ou comparações sem sentido, do tipo: loira ou morena, praia ou montanha, clássico ou moderno, e assim por diante.
O terroir borgonhês é de concepção mais simples de ser entendido, mais clássico, embora fazer o simples tenha seus mistérios. Temos geralmente, terrenos pequenos, poucos hectares (menos de uma dezena), em uma colina bem posicionada (Côte de Nuits), bem drenada e bem balanceada na sua composição de solo. Em suma, é o esquema clássico de um grande terroir, trabalhando com uma só uva (Pinot Noir).
Já em Bordeaux, tudo muda. Temos mais de uma uva, os terrenos são bem maiores, divididos em parcelas, conforme esquema abaixo, referente ao Château Lagrange (Troisième Grand Cru Classé do Médoc, Saint-Julien). Todos os grandes chãteaux tem esquema semelhante de parcelas em seus vinhedos (plan parcellaire).

Médoc: Predominância da Cabernet Sauvignon
Só para nos posicionarmos melhor, estamos falando de Borgonha tinto e vinhos da margem esquerda de Bordeaux (Médoc). Voltando ao esquema acima, cada parcela de vinha de um château bordalês seria um vinhedo específico no terroir borgonhês. Portanto, há uma filosofia de concepção completamente diferente entre estes dois grandes terroirs. Em Bordeaux, temos uma vinificação separada, parcela por parcela, semelhante ao que acontece com os vinhos-bases em Champagne. Então, depois de tudo vinificado separadamente, teremos vários lotes de Cabernet Sauvignon, vários lotes de Merlot, vários lotes de Cabernet Franc e/ou Petit Verdot em menor número. Continuando o raciocínio, o bordalês tem a convicção que a Cabernet Sauvignon sozinha é incompleta, tem arestas a serem aparadas, aromas e texturas a serem adicionados. Devemos lembrar que a Cabernet Sauvignon é majoritária no corte bordalês de margem esquerda. Daí, a necessidade de mesclar uvas como a Merlot, principalmente. De fato, esta uva fornece fundamentalmente maior maciez ao conjunto, agregando também certa complexidade aromática. O grande problema é saber qual a melhor proporção entre as uvas e quais os melhores lotes de cada uma delas que devem entrar nesta mistura (o famoso assemblage). E este é o pulo do gato para os grandes Bordeaux. Diante de vinhos recém-nascidos, os provadores devem ter extrema sensibilidade em avaliar a potência de cada safra e vislumbrar seu desenvolvimento depois das uvas mescladas e consequentemente, o vinho amadurecido em barricas de carvalho. É um trabalho de grande responsabilidade e que requer vivência de várias safras num mesmo château. Tudo que sobrou deste assemblage rigoroso para o chamado “Grand Vin” será novamente avaliado para os chamados segundos vinhos de cada château.

Clos de Vougeot: Fragmentado em mais de oitenta produtores
Voltando à comparação filosófica com a Borgonha, o terreno especificamente que seria cada parcela de um vinhedo bordalês não assume tanta importância como uma parcela na Borgonha. O fator humano no terroir bordalês compromete-se com mais esta missão em harmonizar as várias parcelas da melhor forma possível. Filosofando mais uma vez, o maior Grand Cru da Borgonha, Clos de Vougeot com cinquenta hectares de vinhas, seria razoavelmente compatível para padrões bordaleses. E nesta filosofia bordalesa, eles reuniriam todas as parcelas dos cerca de oitenta produtores deste Grand Cru, fariam um grande assemblage, e designariam um Grand Vin e um segundo vinho. Na média, provavelmente seria um vinho bem melhor que muitos dos Clos de Vougeot de produtores duvidosos. Entretanto, provavelmente seria derrotado por um Clos de Vougeot como Méo-Camuzet. Voltamos à eterna questão: Loira ou Morena?
Etiquetas:assemblage, bordeaux, borgonha, bourgogne, cabernet sauvignon, côte de nuits, chateau lagrange, clos de vougeot, grand cru classé, méo camuzet, medoc, merlot, Nelson Luiz Pereira, petit verdot, pinot noir, saint-julien, sommelier, terroir, tudo e nada, vinho sem segredo
Publicado em Bordeaux, Borgonha, França, Regiões Vinícolas | Leave a Comment »
2 de Maio de 2013
Dentre as principais regiões da ilha Norte, Hawkes Bay é importante e respeitada por consistentes tintos calcados no corte bordalês. Seu famoso solo de cascalho denominado Gimblett Road contribui para este sucesso. Além das castas Cabernet Sauvignon e Merlot principalmente, há também cultivo da Chardonnay com certo êxito. Outra casta tinta com bons exemplares é a Shiraz. O mapa abaixo ilustra as regiões.

Ilha Norte: berço da viticultura neozelandesa
Auckland assim como Hawkes Bay foram o berço da viticultura da Nova Zelândia. No lado oposto à Hawkes Bay, Auckland é banhada pela mar da Tasmânia e portanto, menos protegida de ventos úmidos e frios, embora este efeito seja muito menos preocupante no que acontece na ilha Sul. Os vinhos seguem a mesma linha de tintos e brancos de Hawkes Bay, porém sem o mesmo brilho, exceto alguns casos pontuais.
Gisborne, a região mais oriental da ilha Norte, é quente e ensolarada, produzindo vinhos mais em quantidade que em qualidade. Os brancos são o destaque com as castas Chardonnay, Gewürztraminer e Muller-Thurgau. São no geral, vinhos redondos e agradáveis. A propósito, vale a pena lembrar de uma das perguntas na prova escrita do concurso mundial de sommeliers em Atenas quando Enrico Bernardo sagrou-se campeão: Qual a região vinícola do mundo que recebe os primeiros raios de sol? Resposta: Gisborne.
A região de Waikato na baía de Plenty já foi um importante centro vinícola. Atualmente, sua produção é inexpressiva cultivando Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc e principalmente Chardonnay, seu vinho mais emblemático.
Finalmente, a região de Wellington e Wairarapa, conhecida também como Martinborough. Esta região é a mais fria da ilha Norte onde a Pinot Noir parece ter se dado bem. Tanto o clima como o solo relativamente frios, ajudam o pleno amadurecimento da casta. A referência neste sentido é a vinícola Martinborough Vineyards, mencionada em artigo anterior. Para as castas brancas, existem belos exemplares de Chardonnay e Sauvignon Blanc.
Próximo post, regiões da ilha Sul.
Etiquetas:auckland, cabernet sauvignon, chardonnay, enrico bernardo, gisborne, hawkes bay, martinborough, merlot, Nelson Luiz Pereira, new zealand, nova zelândia, pinot noir, sauvignon blanc, shiraz, sommelier, tudo e nada, vinho sem segredo, waikato, wairarapa, wellington
Publicado em Nova Zelândia, Regiões Vinícolas | Leave a Comment »
15 de Abril de 2013
Estudos recentes mostram o panorama atual do vinhedo europeu, destacando-se os principais países como Espanha, França e Itália. O quadro abaixo mostra as principais uvas plantadas em milhares de hectares.

Uvas espanholas no topo da lista
Para quem já sabia, a uva branca espanhola Airén reina absoluta no vinhedo espanhol, sobretudo nas regiões de La Mancha e Valdepeñas. Embora com produção bem mais modesta que de outros tempos, ainda se presta para vinhos baratos, para misturas com outras castas, e também para destilação na elaboração de Brandies, inclusive no famoso Brandy de Jerez. Esta uva sozinha apresenta o dobro de área plantada de toda a Alemanha.
Outra espanhola no topo da lista é a onipresente Tempranillo. Com vários sinônimos por toda a Espanha, ganhou fama e prestígio sobretudo nas regiões de Rioja e Ribera del Duero. Nos últimos tempos, ganhou força nas regiões de La Mancha e Castilla y Léon.
A Merlot continua sendo a grande tinta francesa, inclusive na região de Bordeaux, embora a Cabernet Sauvginon tenha sua força. Aliás, estas duas castas bordalesas ganham prestígio na Itália, principalmente na região da Toscana com os famosos e badalados supertoscanos.
A Grenache ou Garnacha divide sua fama entre Espanha e França. Belos exemplares espanhóis são elaborados com vinhas velhas, enquanto do lado francês, o Rhône Sul e Languedoc respondem por sua expansão.
A insípida Trebbiano ou Ugni Blanc vem caindo cada vez mais em território italiano. Do lado francês, o firme cultivo está baseado no grande destilado do país, o todo poderoso Cognac.
Dentre as tintas italianas, a Sangiovese continua absoluta não só na Toscana, bem como em toda a Itália Central. Emilia-Romagna e Marche principalmente, são regiões de grande cultivo.
Pinot Noir e Gamay fecham a lista em disputa acirrada não só na Borgonha, berço das duas cepas, como em várias apelações no vale do Loire.
Etiquetas:airén, bordeaux, borgonha, cabernet sauvignon, cognac, gamay, garnacha, grenache, jerez, merlot, Nelson Luiz Pereira, pinot noir, ribera del duero, rioja, sangiovese, sommelier, tempranillo, toscana, trebbiano, tudo e nada, ugni blanc, vinho sem segredo
Publicado em Assuntos Técnicos | Leave a Comment »
11 de Abril de 2013
Dos muitos ditados sobre vinhos, um dos mais ilusórios é o que diz: “Vinho, quanto mais velho, melhor”. Na prática, isso vale para cerca de dois porcento dos vinhos produzidos no planeta. Poucos passam dos dez anos em plena forma, sem sinais de declínio. Portanto, quando nos deparamos com essas raridades, vale a pena comentá-las.

Didier Dagueneau Silex 2005
Morto há poucos anos em um acidente de ultraleve, Didier Dagueneau foi um dos mais talentosos vinicultores do Loire, notadamente da apelação Pouilly-Fumé, que ele fazia questão de nominá-la Blanc Fumé de Pouilly. Sua cuvée Silex faz menção a um dos famosos terroirs da apelação com solo pedregoso de nome homônimo. Apesar de seus oito anos de safra, a fruta delicada estava bem presente, envolta num mineralidade extremamente elegante. O equilíbrio é seu ponto alto, com final persistente, harmônico e em plena forma. Vinhas antigas, uma grande safra e um vinicultor brilhante, geralmente culminam nestas maravilhas.

Vega-Sicilia Valbuena 5º Año 1999
Este é um daqueles segundos vinhos que só dignifica o grand vin que está por trás. Geralmente, são vinhas mais jovens, partidas que não estão à altura do grande Vega, pois a exigência é cruel. Mas é com este rigor, que grandes nomes são feitos, mesmo em seus exemplares mais humildes. Nesta safra, foram mescladas as uvas Tempranillo (80%), Merlot e Malbec (20%). Seu amadurecimento em madeira, extremamente peculiar, deu-se com cinco meses em tonéis de 20.000 litros, seguido em barricas novas de carvalho americano e francês por dezesseis meses, e voltando aos tonéis até o ano de 2002, antes do engarrafamento. Só começou a ser comercializado em 2004.
Esta amosta, com seus catorze anos de safra, diga-se de passagem, não foi uma grande safra, não mostrou sinais da idade. Aliás, esta é uma marca registrada da bodega Vega-Sicilia. Nunca tente adivinhar um Vega pela cor. Deve haver alguma magia no amadurecimento longo em madeira. Voltando à cor, ainda tinha traços violáceos. Os aromas finos mesclavam com maestria fruta e madeira num final balsâmico. Novamente, o equilíbrio de boca notável. Nada era muito potente, mas extremamente fino.

Henri Gouges Nuits-St-Georges Premier Cru Clos des Porrets 1998
Para muitos, guardar borgonhas tintos pode ser uma temeridade. São muito frágeis, delicados e com pouca estrutura tânica. Porém, nunca duvide de um Nuits-St-Georges, principalmente um Henri Gouges. Este exemplar com uma cor impressionante tinha taninos de um autêntico Barolo. Firme, musculoso e profundo. Seus aromas terrosos, de cerejas escuras e alcaçuz eram os mais destacados. Grande equilíbrio e persistência, mostrando outras facetas da Pinot Noir.
Sedimentos deixados pelo tempo
Pela foto acima, não há como deixar de decantar um vinho desses. Mais um contradição para aqueles que dizem que borgonhas não se decantam. Produtores e terroirs diferenciados nunca seguem regras. Eles caminham longe da padronização, por isso são únicos.
Etiquetas:didier dagueneau, henri gouges, malbec, merlot, mineralidade, Nelson Luiz Pereira, nuits-saint-georges, pinot noir, pouilly-fumé, premier cru, sauvignon blanc, sílex, sommelier, tempranillo, terroir, tudo e nada, vega sicilia, vinho sem segredo
Publicado em Assuntos Técnicos, Vinho em Destaque | 6 Comments »