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Bordeaux e sua evolução em garrafa

7 de Dezembro de 2019

Os chamados vinhos de guarda onde se incluem os Bordeaux naturalmente, passam por um processo longo de envelhecimento em garrafas na adega. É importante deixa-los descansar ao abrigo da luz e de vibrações, pois ocorre uma série de reações químicas dentro da garrafa. Em linhas gerais, os ácidos do vinho combinados com o álcool dissolvido na bebida, foram os chamados ésteres, substâncias muito aromáticas responsáveis  pelo chamado bouquet. Esse processo é longo e cíclico, onde novamente os ésteres se decompõem em água, componente presente em grande quantidade no vinho, para formar novamente ácidos e álcool que irão reagir novamente. É por isso que os chamados vinhos ex-chateau são tão valorizados, pois esta tranquilidade na adega, sem nenhuma interferência externa, garante a fidelidade do processo, sem interrupções. Portanto, eles evoluem mais lentamente mas principalmente, de maneira adequada.

Num ótimo jantar no restaurante Fasano, tivemos a oportunidade de testar vários Bordeaux em diferentes estágios de evolução. Experiência única e muito prazerosa. Antes porém, uma pausa para um champagne e um Montrachet divinos que iniciaram a festa dos bordaleses.

dégorgement em 2008

O brinde inicial já em alto nível, começou com um Dom Perignon Oenotheque 1996. Revisitado várias vezes, um champagne e safra excepcionais. Até 2008, as leveduras preservaram o vinho da oxidação. Daí em diante, uma lenta evolução em garrafa nas condições de uma boa adega. Um champagne de frescor incrível, dando um balanço preciso entre acidez e cremosidade. Seus aromas cítricos entremeados de mel e brioche são encantadores, mostrando bem a evolução dos grandes champagnes. Aliás, todas as cuvées de luxo são aptas a longo envelhecimento. Vale a pena!

mestre Beato em ação

Em seguida, uma double Magnum de Montrachet Marquis de Laguiche 2009. Joseph Drouhin é o maior proprietário de Montrachet com praticamente dois hectares das vinhas. Um Montrachet delicioso na bela safra 2009. Macio, amanteigado, toques de frutas secas e algo de compota de pêssegos. Muito envolvente em boca. Os Montrachets são fermentados em barricas e sofrem o processo de bâtonnage, no qual as borras são revolvidas constantemente no vinho, incorporando complexidade aromática e maciez. Um primor de vinho num ótimo momento para ser apreciado.

iguarias do Chef Luca Gozzani

Os pratos acima pedem brancos de grande estrutura como os Montrachets. São pratos intensos, de rica textura e finesse de sabores. À esquerda, um Wagyu crudo com lardo e um molho cremoso de queijo. Em seguida, um gnocchi gigante recheado com rabada e molho carbonara. Sobretudo a textura cremosa e rica de ambos os pratos se amalgamaram com a maciez e sabores do vinho. Espetacular!

img_7063poesia liquida

Dentre os grandes 61 bordaleses, certamemte Ducru-Beaucaillou está num seleto grupo de vinhos espetaculares. Após quase 60 anos de existência, o vinho atingiu um sublime grau de maturidade. Os aromas são de livro e espetaculares com todos os terciários dignos de um grande bordalês de margem esquerda. São notas sutis de cedro, adega úmida, cogumelos, nuances terrosas, café, o chamado cedar box, caixa de charutos, enfim, um profusão de aromas quase etéreos. Em boca, um equilíbrio perfeito com total polimerização dos taninos. Final de boca amplo e expansivo. Todos os protocolos de envelhecimento cumpridos. Um primor!

caminhos diferentes de evolução

Se existem dois vinhos de lenta evolução e excelente longevidade, ei-los acima representando as duas margens bordalesas. O Petrus 1970 é um dos mais perfeitos de toda a história com 99 pontos Parker. É um Petrus maduro e plenamente desenvolvido de aromas. Contudo, esta garrafa degustada estava abaixo das expectativas. Para começar, seu nível um pouco abaixo do normal, chegando quase ao ombro da garrafa. Seus aromas estavam até interessantes com muito terciário desenvolvido. Entretanto, a boca estava magra, meio sem vida, já com muita secura no final de boca, indício em que a fruta e vida do vinho estão se esvanecendo. Por isso que afirmamos: cada garrafa antiga é uma história!

Por outro lado, o Latour 66 estava íntegro, com bela evolução, um dos melhores deste ano que foi um dos destaques da década. Os aromas são encantadores denotando couro, toques animais, e notas de torrefação. Em boca seus taninos são polidos e ainda presentes. Muito equilibrado com final bem acabado. Um belo vinho mostrando toda a longevidade e consistência dos grandes Latour.

img_7071estrelas da safra 82

Dois ícones da histórica safra de 82. Mouton 82 sempre deslumbrante com aromas sedutores, boca macia e expansiva. Hoje, ainda mais prazeroso que o Latour 82, ainda em franco desenvolvimento.Esta garrafa em particular estava perfeita. No lado de Haut Brion, um vinho mais delicado, mas igualmente exuberante em aromas. Percebe-se claramente em boca, que é um vinho mais delgado e menos rico que os grandes de Pauillac. Uma questão de terroir. Novamente, uma garrafa perfeita e extremamente prazerosa. Um embate de gigantes!

Latour 82 em formato Imperial (6 litros)

Durante o desfile dos bordaleses foi aberta um Imperial de Latour, regando as taças dos convivas periodicamente. Além da evolução do vinho em garrafa, um outro componente importante é o formato da mesma. Nos grandes formatos onde evidentemente a massa líquida é maior, o vinho se desenvolve mais lentamente. Foi o que aconteceu com esta Imperial perfeita, não só a garrafa, mas a safra também. Um Latour lendário que vai marcar história por muitas décadas como um dos mais perfeitos Latour. Aromas elegantes que denotam entre outras coisas um traço de couro, de pelica, inconfundível. A boca é ampla, generosa, com taninos ultrafinos e em profusão. É muito prazeroso para ser tomado agora, mas vai evoluir por décadas certamente.

Como prato de resistência, tivemos uma costela de Wagyu divinamente assada, soltando-se do osso com extrema maciez. Sua força, sua riqueza de sabores, combinaram muito bem com estes dois Pauillac, tanto Latour como Mouton, mas com o Mouton parece que o casamente foi perfeito num belo fecho de refeição.

a importância das taças

As taças acima são do  produtor austríaco Schott Zwiesel com design perfeito. A bordaldesa maior é a linha mais refinada, semelhante à linha top da Riedel Sommelier. No entanto, para Bordeaux maduros com alto grau de evolução, a taça menor ao lado faz mais sentido, pois os aromas e nuances são muito etéreos, podendo se perder numa taça maior. Tudo isso nos olhos atentos do mestre Beato.

Da mesma forma, Beato aliou de forma admirável uma mesma taça para Sauternes e champagnes. O formato tulipa à direita é perfeito para os aromas dos principais champagnes, sobretudo numa fase mais jovem e com mais frescor. Do lado dos Sauternes, este formato tulipa é muito próximo da taça sommelier da Riedel para este tipo de vinho. Uma escolha muito bem pensada.

img_7079Petrus em Magnum e formato standard (750 ml)

Novamente os Petrus, agora uma Magnum safra 1995. Embora já com seus mais de 20 anos, este é um Petrus clássico que demanda tempo para sua perfeita evolução. Ainda com muita fruta, poucos aromas terciários, e taninos muito finos e bem firmes. Tudo indica que seu apogeu será alcançado em 2050. Os grandes Petrus se enquadram perfeitamente naquele quadro de lenta evolução. Uma grande promessa com 96 pontos Parker.

queijos artesanais e Yquem

Fechando a noite, a  rica doçura de um belo Yquem. Essa safra 2003 é bastante generosa em aromas e textura em boca. Embora possa ser guardado sem maiores problemas, é um Yquem já de boa evolução com aqueles toques de caramelo escuro. Rico em Botrytis, mel e frutas mais exóticas, foi um deleite com uma seleção de queijos brasileiros artesanais. A cremosidade e intensidade de sabores dos vários tipos degustados casou perfeitamente com a riqueza do vinho. O casamente de textura entre a maciez dos queijos e a untuosidade deste Yquem foi um dos pontos alto na harmonização. Agora é dormir com os anjos!

Agradecimentos a todos os confrades pela companhia, generosidade, e o alto astral de sempre. Que 2020 seja repleto de sucesso e ótimos encontros com este. Que Bacco nos ilumine neste ano vindouro. Abraço a todos!

Léoville Las Cases e Alta Gastronomia

11 de Novembro de 2019

A realização de eventos enogastronômicos no Brasil é um fenômeno que foi se firmando pouco a pouco, sobretudo em São Paulo, Capital. Entretanto, unir com maestria os melhores vinhos do planeta e alta gastronomia era tarefa restrita às melhores mesas da Europa e Nova Iorque. A importadora Clarets de São Paulo numa ação pioneira tem mostrado ao longo de vários Wine Dinners com os melhores vinhos franceses sobretudo, que é possível unir comida e vinho no mais alto nível.

Pierre Grafeuille e suas 15 safras

Neste último evento de grande relevância do ano, um almoço muito especial foi realizado com perfeição e sincronismo no emblemático restaurante Fasano, unindo alta gastronomia do Chef Luca Gozzani e as melhores safras do pós-guerra do prestigiadíssimo Chateau Léoville Las Cases, importado pela Clarets. Uma brigada extremamente selecionada de sommeliers e garçons num serviço impecável de precisão e sequência, foi devidamente treinada a servir com perfeição 50 convidados ao mesmo tempo com pratos e vinhos respectivos a cada flight prescrito no menu. Uma verdadeira orquestra!

os bastidores do almoço

O carismático Manoel Beato como Mestre de Cerimônia e a presença ilustre de Monsieur Pierre Graffeuille, CEO do grupo Delon, completaram a perfeita sinfonia.

Chateau Léoville Las Cases é tratado como super deuxième, além do maior e mais regular entre os três Léovilles (temos ainda o Barton e Poyferré). Referência absoluta na comuna de Saint-Julien, disputa a maior reputação deste terroir com o Chateau Ducru-Beaucaillou, embora de estilos totalmente opostos.

a recepção com Blanc de Blancs e todos os flights identificados

Chateau Léoville Las Cases tem um estilo clássico do Médoc com certa austeridade na juventude, mas com um enorme poder de longevidade. Parte destas características se explica pela vizinhança do grande Chateau Latour, fazendo a divisa entre comunas, Pauillac e Saint-Julien. Neste sentido, parte do terreno do “Gran  Enclos”, coração do terroir do Chateau Latour, invade as terras de Léoville, desfrutando parcialmente deste terroir diferenciado. Terreno pedregoso e de excelente drenagem.

A recepção começou com o ótimo champagne Philipponnat Blanc de Blancs Extra-brut 2008 acompanhando alguns canapés como waffle de foie gras e croquetta de porco e mostarda. Um champagne leve e muito delicado que passou nove anos sur lies antes do dégorgement. Apresentava incrível frescor e uma juventude surpreendente. Mousse delicada um final seco e harmonioso. Fotos acima.

img_6951o flight dos vigorosos

Neste primeiro flight,  todo o vigor da juventude com vinhos em tenra idade. A safra 2013, uma safra difícil, era o mais acessível. Corpo médio, aromas delicados e uma estrutura que permite o vinho evoluir mais cedo. Mais alguns anos e já estará muito agradável. Já o 2015, um verdadeiro mamute. Uma concentração impressionante de frutas e taninos em profusão. Percebe-se seu extrato pela longa persistência aromática. Este é para esquecer na adega. E chega finalmente a primeira safra clássica, o ótimo ano 2010. Um vinho superequilibrado com taninos finos e muito harmônico em boca. Longe de seu apogeu, já percebemos todo seu potencial.

img_6950um flight beirando a perfeição

Chega o flight do almoço, safras praticamente perfeitas. Este Leoville 2000 impressiona pela juventude. Um vinho que não mostra a idade com muita fruta e leves traços terciários. Sua acidez e estrutura tânica permitem um longo amadurecimento em adega com apogue previsto para 2060. O vinho mais impressionante do painel. Já a safra 2005 segue o mesmo caminho da 2010. Um safra clássica de lento desenvolvimento. A pouca evolução mostrada no 2005, assegura que 2010 tem muito tempo pela frente. Por fim 2009, outra safra impressionante. A juventude e a acessibilidade deste vinho mostram muita maciez, muita fruta, e taninos de seda. Tem um grande potencial, mas já é delicioso para ser provado. Todos os componentes nivelados por cima numa safra histórica, 99 pontos.

img_6949um flight prazeroso no momento

Finalmente, chega o primeiro vinho claramente evoluído com seus aromas terciários. A safra 90 encontra-se num ótimo momento para ser provada e não deve ser guardada por muito tempo. Já tem uma borda claramente alaranjada, confirmando no nariz e na boca seus componentes perfeitamente integrados. Já a safra 95 tem aquela sisudez esperada. Um pouco fechado nos aromas e com seus taninos ainda indolentes. É um vinho que merece decantação e muita paciência. Seu par comparativo de 96 tem um perfil oposto. Taninos amigáveis e aromas cativantes ainda com muita fruta. Embora jovem, deve evoluir com competência e se tornar um dos grandes Léovilles da história.

img_6948os belos anos 80!

Chega finalmente o 82, safra mítica em Bordeaux. Este é mais um exemplo que a safra 90 apesar de toda a expectativa de amadurecimento, não chegará no mesmo nível de 82. Este Léoville 82 está prazeroso, com toques de evolução, mas conseguimos sentir que ele tem muito mais vida do que o próprio 90, mostrando a grandeza das chamadas safras históricas. O Leoville 86 mostra toda a austeridade deste ano. Com um perfil semelhante ao 95, mas de estrutura muito mais robusta. Um vinho que impressiona pela idade e pelo potencial que ainda tem pela frente. Muita paciência em adega. Por fim o Leoville 88, muito parecido em prontidão com a safra 90, embora não tenha tanta riqueza e complexidade. De todo modo, um belo Leoville para se apreciar no momento.

img_6947toda a experiência da terceira idade

Um flight maduro coroando essa linda degustação. A safra 61 imortaliza alguns vinhos como o Latour, por exemplo. No caso do Leoville, um vinho plenamente evoluído, sem arestas, e muito prazeroso. Neste trio temos aqueles aromas de caixa de charuto, empireumáticos, notas de chá, toques defumados, couro, confirmando sua nobre evolução. A safra de 70 é surpreendente e chega muito inteira para este Leoville. Sem nenhum sinal de decadência, ela tem equilíbrio, meio de boca, um final bastante prazeroso. Por fim o grande 75, uma das safras mais polêmicas em Bordeaux. E esse fica no time dos bons com um vinho claramente viril e masculino. Taninos firmes, como se espera neste ano, muita concentração, notas de café, e longa persistência aromática. Um final de prova que confirma claramente a longevidade de talvez o maior entre os Saint-Juliens, o Grand Vin de Léoville.

pratos especialmente criados para o evento

Falando agora da comida, o Chef Luca Gozzani se esmerou na elaboração do menu. Acima, temos um ótimo crudo de carne com creme de parmesão e cogumelos. Em seguida, o tutano gratinado com creme de açafrão. Ficou muito bem com o Leoville 2000. Na sequência, o gnocchi de batata recheado com stinco bovino, creme de ovos e panceta. Harmonizou muito bem com o Leoville 1990.

pratos sincronizados a cada flight

Continuando o sacrifício, peito de pato com mil folhas de abóbora e em seguida, polpetonne de cordeiro, sformato de foie gras e creme de pimentões. O peito de pato pela fibrosidade da carne foi muito bem com o Leoville 86, domando seus taninos. Já o Polpetonne foi bem com o último flight, especialmente os Leovilles 70 e 61. Adoçando o final do jantar, um canolo de zuccotto ao pistache, morango confitado e tuile de chocolate.

img_6941-1cloches a postos numa sincronia perfeita

Uma organização impecável, pouco vista no Brasil. Um evento deste porte alcança o sucesso nos mínimos detalhes. Ter um garçon para cada convidado com vinhos e pratos servidos no tempo exato, sem aquela preocupação chata do cliente ficar procurando o garçon por algum detalhe não estar sendo cumprido, não tem preço.

harmonização perfeita

Como toda refeição francesa, os queijos têm papel nobre na alta gastronomia. Uma seleção de queijos brasileiros premiados mundo afora foi divinamente acompanhada pelo espetacular Gewurztraminer SGN (Selection de Grains Nobles) de mestre Zind-Humbrecht, referência absoluta em vinhos alsacianos. O grande sommelier Manoel Beato caprichou nesta seleção, coroando de forma brilhante o final do evento.

Faltam palavras de agradecimentos ao simpático casal, Guilherme Lemes e Keren Marchioro, importadora Clarets. Muitos atenciosos, amáveis, e muito atentos a todos os detalhes do evento. A importadora Clarets firma-se cada vez mais no mercado com vinhos altamente diferenciados a preços sempre competitivos. Os muitos Wine Dinners são a cereja do bolo, confirmando sua distinção e relacionamento diferenciado com seus clientes. Uma grande honra estar presente nestes momentos.

A melhor adega em Alphaville

2 de Novembro de 2019

Alguns tesouros ficam muito bem guardados em lugares que menos se esperam. É o caso de um dos meus confrades que estoca em caixas de madeira originais na maioria de sua coleção, mais de dez mil garrafas de vinhos de primeiro escalão. Sua paixão pelo vinho é antiga e desde então, vem abocanhando em vários leilões as melhores ampolas do planeta. Abaixo, um pequena amostra de seu arsenal.

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DRC em caixas originais

Num belo almoço em sua propriedade, desfrutamos um pouco da França entre Bordeaux, Bourgogne e Champagne. Para começar um velho conhecido, Dom Perignon Oenotheque 1996 com 12 anos sur lies antes do dégorgement.

a antiga nomenclatura das plenitudes

Equivalente nos dias de hoje à P2, este é um champagne de safra excepcional. Muito frescor, mousse aveludada, mostrando muita juventude. O contato sur lies preserva o champagne da oxidação, fornecendo textura macia e aromas incríveis. Nada melhor para dar inicio a um belo almoço.

bela combinação

O único branco do almoço brilhou com seus 14 anos de idade. Um Batard-Montrachet 2005 de Madame Leflaive. Mesmo em Batard, sua textura continua elegante, mostrando o estilo do domaine. Muito bem conservada, esta garrafa mostrava muita juventude. Aromas envolvendo cítricos, frutas secas, e um tostado muito fino. O equilíbrio em boca é notável com uma acidez refrescante e textura aveludada sem ser pesada. Fez um belo par com o risoto zafferano e trufas brancas.

img_6869um Mouton histórico!

Só deu tempo de decanta-lo por três horas. Um monstrinho engarrafado com um montanha de taninos. Talvez seja o sucessor do grande Latour 61, um vinho que esta se abrindo aos poucos numa lenta evolução. Dos nota 100 de Parker, este Mouton 86 está no topo da lista com previsão de apogeu para 2050 embora já o tenha feito para 2090. Já decantaram este vinho em Magnum por 48 horas. Esta garrafa provada estava perfeita com seus aromas terciários começando a aparecer. Notas de café, couro, caixa de charutos e um núcleo frutado muito intenso. Seus taninos são abundantes e muito finos, de textura muito agradável. Parece que começa a se desenhar uma fase de franco amadurecimento. Um tinto para quem tem paciência em adega.

Panceta crocante e brioche com ovos e trufas

Alguns dos pratos do almoço que foram muito bem com o champagne e o branco Batard-Montrachet. A gordura e os sabores da panceta foram escoltados pelo belo frescor do champagne e seus aromas de panificação e tostados. Já o brioche com ovos e trufas brancas foram de encontro ao sabores do Batard, além da  harmonia de texturas.

uma bela fromagerie

Além do almoço em si, vale a pena mostrarmos a sala de queijos do anfitrião onde são afinados peças de parmegiano reggiano por longos anos. São prateleiras com queijos de data de maturação diferentes com controle de temperatura e umidade. Pouco a pouco eles vão apurando e concentrando sabores. É o chamado affinage para os franceses. Existem alguns com nove anos de amadurecimento ricos em tirosina. São cristais de aminoácidos (proteínas) que provocam uma agradável salivação, enriquecendo a percepção dos sabores.

a vez dos velhinhos

Em safras antigas o que vale são boas garrafas e não grandes safras. Neste páreo entre os velhinhos, destaque para o Lafite 1967, totalmente evoluído em uma safra inexpressiva. A garrafa muito bem conservada mostrou um Lafite etéreo com seus terciários de notas terrosas, minerais, de chá e ervas finas. Percebe-se na boca a idade que pesa e não sem tempo, mas seu pedigree fala mais alto, mostrando que é um verdadeiro Premier Grand Cru Classé. Com as trufas fica maravilhoso.

Já o La Mission 1955 é um dos notas 100 deste chateau e o melhor entre todos os 1955. Lembro-me de uma garrafa tomada na França que estava maravilhosa. Um Bordeaux tão delicado que lembrava a textura dos grandes borgonhas. Este provado na foto acima, já estava bem evoluído, sobretudo na boca com a acidez desequilibrada. Os aromas ainda tinham notas de torrefação e um leve couro. Com certeza, já teve dias melhores.

Vale dizer que este vinho não é uma garrafa do chateau. Nesta época ainda era possível comprar barricas dos grandes chateaux de Bordeaux e engarrafa-las com o selo do négociant. No caso, um famoso comerciante belga, Vandermeulen,  que engarrafava vários chateaux famosos, dentre eles o La Mission. São vinhos de grande reputação com valores condizentes aos grandes chateaux no mercado. É que realmente esta garrafa não era daquelas especiais, onde vinho está perfeito.

img_6881bela surpresa do almoço por sua exuberância

Um Pomerol clássico com o corte de 80% Merlot e 20% Cabernet Franc. O vinho estagia entre 16 e 18 meses em barricas novas. Nesta bela safra 2000, o vinho encontra-se na juventude com muita fruta escura em geleia e lindos toques florais. A madeira é fina com taninos bem polidos. Deve ser decantado por duas horas, devendo envelhecer bem por pelo menos mais dez anos. São 5,9 hectares de vinhas produzindo em torno de 2400 caixans por ano. Tem uma vizinhança nobre ao lado de Trotanoy e Chateau Clinet.

img_6883Yquem nos seus melhores anos

O grande fecho de refeição se faz com Yquem, sobretudo este de safra 1990, uma das melhores do século passado. Embora já entrando nos seus 30 anos, está muma fase transitória entre a juventude e maturidade. Sua cor começa a ficar um pouco mais escura, lembrando caramelo. E é exatamente este sabor que ele transmite na taça. Muito bem equilibrado, seu teor alcoólico não passa dos 13 graus. Boa untuosidade com acidez compatível ao teor de açúcar. Foi muito bem com as frutas flambadas e o sorvete de creme.

Agradecimentos aos presentes e sobretudo ao anfitrião que nos recebeu com muito carinho. Com Champagne, Bordeaux e Bourgogne, fica tudo ainda mais especial. Teremos que voltar mais vezes, pois seu arsenal é poderoso. Que Bacco seja o guardião desta bela adega!

Supertoscanos em clima de Fazenda

18 de Setembro de 2019

Em almoço memorável, a confraria se reuniu na bela fazenda de um dos amigos para saborear pratos de raiz, campesinos, e de grande fartura. Neste contexto, os vinhos italianos são imbatíveis na enogastronomia, sobretudo os supertoscanos. Com um belo arsenal tanto de Bolgheri (litoral), como Chianti Classico (região de colinas), os vinhos desfilaram com sucesso em belos duelos.

Tudo começou numa degustação às cegas na adega da fazenda com três dos melhores Merlots italianos e mais um intruso de Bolgheri chamado Lodovico com as uvas Cabernet Franc e uma pitada de Petit Verdot.

img_6640dois terroir litorâneos 

Neste embate, o Tua Rita Redigaffi 100% Merlot, vem da região de Maremma a sul de Bolgheri, no vilarejo de Suvereto. O vinho impressiona pela juventude, começando pela cor ainda escura e intensa. Taninos bem presentes e de fina textura, mostrando força e um frescor incrível. Já o grande Masseto, outro Merlot in pureza, mostra um perfil mais internacional, elegante, de madeira fina, maciez notável, e já muito prazeroso no momento, embora possa envelhecer com nobreza. Um belo começo.

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Bolgheri versus região do Chianti Classico

Aqui tivemos o intruso chamado Lodovico, ícone da Tenuta Biserno, localizada na alta Maremma, entre Bolgheri e Bibbona. Baseado na casta Cabernet Franc, é um vinho que prima mais pela elegância e não tanto pela potência. Bem equilibrado com notas de madeira fina, além dos toques de ervas e especiarias. Mais um supertoscano de classe. Do outro lado, o grande L´Apparita, Merlot in pureza do prestigiadíssimo Castello di Ama. Um vinho de muita presença, muita fruta escura, e uma acidez notável que se diferenciava dos demais. Não pende para um padrão internacional, sendo fiel a suas raízes e terroir. Uma dupla que ficou um degrau abaixo, segundo os confrades.

alguns dos pratos do almoço

Carne de porco, frango caipira, lasanha, e uma série de outras iguarias, deram sequência ao almoço com grande fartura. Os supertoscanos tinham força e acidez suficientes para as harmonizações com seus toques de ervas e especiarias, quase temperando os pratos.

grandes feras à mesa

Embora a foto engane, o Masseto é garrafa standard (750 ml), o Ornellaia é Magnum, e o Sassicaia, double Magnum. Este Masseto 2006 tem 100 pontos Parker e realmente, um grande vinho. Já delicioso para beber agora, embora possa envelhecer tranquilamente por mais uma década. Um vinho macio, potente ser ser enjoativo, muito equilibrado e com taninos finíssimos. Pena que era a menor garrafa. 

Já os outros dois, não são de grandes safras pontuadas, mas primam por enorme elegância. Os dois são de Bolgheri, sendo o Ornellaia 2002 um corte bordalês de margem esquerda com predominância da Cabernet Sauvignon. Esta safra não conferiu tanto extrato ao vinho, mas percebe-se a fineza de taninos e a harmonia em boca. Já o Sassicaia 2001 é sempre um porto seguro. Baseado na casta Cabernet Sauvignon e uma pequena porção de Cabernet Franc, o vinho tem sempre aquela classe francesa com taninos bem moldados e a força dos grandes Cabernets. Para muitos, foi o vinho do almoço, reforçando a bela conservação e evolução das garrafas em grandes formatos.

img_6645-1elite francesa

Dois grandes Borgonhas passaram para refrescar a festa. O da esquerda, talvez o melhor vinhedo Premier Cru de Madame Leflaive, Les Pucelles. Vigoroso, persistente, harmônico, sem perder a habitual elegância. Já o Corton-Charlemagne, uma surpresa. Domaine Ponsot, um dos maiores especialista na comuna de tintos de Morey-St-Denis, aventurou-se em Corton-Charlemagne e se deu bem. Um Corton mais cremoso que o habitual, sobretudo pela safra 2015, generosa para brancos. Aromas de frutas deliciosos, muito equilibrado, inclusive na madeira, e persistência aromática prolongada. Bela quebra de protocolo!

fechando a tarde em alto nível

Para encerrar o almoço, nada melhor que um guéridon de queijos franceses e um Madeira D´Oliveira do século XIX. É desnecessário descrever o vinho, pois é indescritível. Aromas terciários fabulosos adquiridos em mais de 20 anos em canteiros (pipas de madeira sobre travas em sótãos), além de mais de século em garrafa. O tipo Sercial é definido como meio seco. Realmente, uma pequena doçura, magistralmente equilibrada por uma monumental acidez. Um vinho imortal!

Para finalizar com os Puros, um Fine de Bourgogne Domaine de La Romanée-Conti safra 1979, engarrafada em 1999. São as sobras dos barris dos Grands Crus do Domaine com as borras que são destilados e envelhecidos em madeira por longos períodos. Uma experiência sensacional!

Agradecimentos a todos os confrades presentes, sentindo imensamente a falta dos ausentes. Em especial, agradecimentos ao casal anfitrião que nos receberam com muito carinho e generosidade. Que a confraria desfrute de novos encontros como este. Saudações de Bacco!

 

Margaux e seu super Deuxième

30 de Julho de 2019

Quando falamos de segundos vinhos de Bordeaux, sabemos que normalmente a diferença para o Grand Vin é notável, pois em última análise, o segundo vinho é a rejeição do vinho principal. Contudo, há exceções como o Les Forts de Latour, segundo vinho do Chateau Latour, sempre muito bem pontuado e com alta consistência. Nesta linha de raciocínio, devemos incluir o Pavillon Rouge de Margaux, pois sua qualidade lado a lado com o Grand Vin é marcante e incontestável. Foi o que aconteceu num belo almoço no Ristorantino, coordenado pela excelente sommelière Juliana Carani, mulher do mestre Manoel Beato.

bela harmonização

Como sempre de início, um branquinho para fazer a boca. Seguindo o script, um belo Bordeaux blanc do Chateau Pape Clément safra 2010. Seu blend é composto de 50% Sauvignon Blanc, 40% Sémillon, e 10% Sauvignon Gris. O vinho é fermentado e amadurecido em barricas francesas com o devido bâtonnage (revolvimento das borras). Seu nariz é rico em frutas amarelas como pêssegos e ameixas, notas de pâtisserie, manteiga, baunilha e mel. Boca de certa untuosidade dada pela presença da Sémillon e o trabalho de barrica. Final longo e com aromas de certa evolução. Não convém guarda-lo por muito tempo, pois já é delicioso no momento. Foi muito bem com um Cacio e Pepe (foto acima) bem delicado do menu proposto.

img_6416flight surpreendente

Neste primeiro flight, o mais surpreendente do almoço, a maioria da mesa confundiu o Pavillon com o Grand Vin de 100 pontos. Diante do fato, dá pra ver o nível deste segundo vinho. É bem verdade que esta garrafa de Pavillon Rouge, além da safra excepcional, veio diretamente do Chateau, um diferencial importante. Tanto a longevidade como a complexidade deste segundo vinho são notáveis e surpreendentes. Prova disso, que a nota deste Pavillon Rouge 90 pelo Parker é de 86 pontos, sendo considerado um vinho velho em seu patamar final de evolução. Avaliação totalmente contrária desta garrafa degustada. 

Um pouco de história …

A história do segundo vinho do Chateau Margaux, Pavillon Rouge, começa no final do século XIX e a primeira menção deste nome data de 1908. Entre as décadas de 30 e final de 70, o vinho não foi elaborado, tendo seu ressurgimento em 1978. Segundo o próprio Chateau, a produção do Grand Vin corresponde a 40% do total das vinhas, enquanto o Pavillon Rouge fica com 50% do total. Atualmente, existe um terceiro vinho que fica com os 10% restantes. Donde se conclui que boa parte das vinhas é dedicada ao segundo vinho, fugindo daquele critério básico de elabora-lo a partir somente da rejeição de lotes do Grand Vin. Portanto, é um segundo vinho diferenciado com bom poder de longevidade.

flight extremamente didático

Na comparação entre as safras 95 e 96 segundo o mestre Beato, os 95 geralmente são vinhos um tanto duros e inrustidos. Já os 96 são vinhos femininos, acessíveis, e muito prazerosos de serem provados. Isso ficou absolutamente claro nas taças, sendo o 96 um vinho de 100 pontos, o vinho do almoço como unanimidade.

Vale dizer que o 95 cresceu muito na taça com tempo, provando que ele precisa de tempo de adega para sua perfeita evolução, além de longa decantação para prova-lo no momento. O Margaux 96 já é delicioso, mas deve evoluir por décadas ganhando seus lindos toques terciários. O risoto de pato (foto acima) acompanhou muito bem este par de vinhos.

um intruso no ninho

Seria um flight clássico a disputa dos Margaux 82 e 83 se não fosse a presença do Pavillon Rouge 2009 novamente. É claro que ficou fácil de aponta-lo no páreo já que era extremamente jovem. Contudo, no mesmo nível de qualidade dos demais vinhos com grande concentração de sabor. Bela harmonização com costeletas de cordeiro à milanesa e lentilhas du Puy (foto acima).

Para minha surpresa, confundi as safras 82 e 83 com percepções totalmente contrárias as que sempre me recordaram em outros momentos. A safra 83 costuma ser elegante, delicada, e até um pouco misteriosa, sendo este ano muito bem avaliado para a apelação Margaux. Já o Margaux 82 sempre me pareceu um vinho duro, muito masculino para os padrões do Chateau. Diante do fato, o único que realmente apontou com convicção as taças corretas foi nosso Presidente, sempre nos surpreendendo em degustações às cegas. Aliás, agradecimentos especiais  a ele pelo vinhos selecionados, especialmente estes Pavillons maravilhosos ex-chateau, divinamente bem conservados. Uma verdadeira aula!

Licoroso e seleção de queijos

Para finalizar o almoço, mais um nota 100 na parada. Bem ao estilo PX (Pedro Ximenez), este licoroso de Jerez à base de Moscatel. Um vinho untuoso, de extrema presença em boca, e de longa persistência aromática. Trata-se de uma Cuvée especial denominada Toneles. Falando um pouco sobre o processo de elaboração, essas uvas são colhidas maduras e postas para solear em esteiras durante algumas semanas, tornando-se quase passas. O mosto rico em açucares e ácidos é posto para fermentar de maneira muito lenta. A fortificação acontece no início da fermentação, deixando no produto final cerca de 420 g/l de açúcar residual. O vinho apesar de doce, tem um equilíbrio muito bom devido a uma acidez de 10 g/l, a qual lhe confere um belo frescor, não o deixando enjoativo. 

Além da potência do vinho em si, sua alta complexidade aromática dá-se pelo sistema Solera de partidas muito antigas, podendo chegar a cem anos, ou seja, à medida que vão sendo sacados alguns lotes de vinho para o engarrafamento, vinhos novos são repostos na Solera para serem “educados” pelos mais antigos. É uma maneira contínua de renovar o sistema, mantendo a lenta evolução dos vinhos. Nestas soleras antigas, as sacas são muito criteriosas em partidas diminutas, pois os vinhos que serão repostos precisam ter alta qualidade equivalente ao nível da solera.

Enfim, um vinho que impactou a todos por sua potência e equilíbrio. Bom parceiro para charutos, como disse um dos confrades, além de queijos curados (foto acima) e geleias. Pode ser surpreendente por contraste com sorvetes de ameixa, banana, ou outras frutas passas. 

Agradecimentos a todos os confrades pela companhia, generosidade e boa conversa. Margaux é sempre um tema apaixonante, provando mais uma vez sua elegância e personalidade única. Que Bacco nos guie por caminhos sempre surpreendentes!

Musigny e seus arredores

10 de Julho de 2019

Segundo Hugh Johnson, Musigny pode ser o melhor, se não for o mais poderoso, entre todos os tintos da Borgonha. Realiza na boca o que se chama “cauda de pavão”, abrindo sabores em leque. Um tinto profundo e muito elegante. Seria o Margaux da Côte de Nuits. Alguns produtores com produções diminutas fazem dele um dos tintos mais raros e cobiçados da Terra Santa.

musigny les petitsClos de Vougeot: vizinhança

A exclusividade não é tanta quando se trata de Comte Vogüé com as maiores parcelas em Musigny. Além disso, a porção Les Petits Musigny é seu monopólio, totalizando uma área de pouco mais de sete hectares em todos os setores. Resumindo, Vogüé domina 70% de todo o Grand Cru Musigny.

musigny grand crunobres parcelas

  1. Domaine Comte Georges de Vogüé – 2.9273 ha
  2. Domaine J.F. Mugnier – 1.1358 ha
  3. Maison Joseph Drouhin – 0.6720 ha
  4. Domaine Leroy – 0.2700 ha
  5. Domaine Vougeraie – 0.2104 ha
  6. Maison Louis Jadot – 0.1665 ha
  7. Domaine Faiveley – 0.1318 ha
  8. Domaine Drouhin-Laroze – 0.1193 ha
  9. Domaine Georges Roumier – 0.0996 ha

Para quem acha que Musigny Leroy é o limite da exclusividade, veja a parcela de Georges Roumier com praticamente um décimo de hectare, ou seja, mil metros quadrados de vinhedo, um verdadeiro jardim. Isso é apenas um terço da área de Madame Leroy, onde seu Musigny é o Grand Cru tinto mais exclusivo. Resumindo, uma loucura!

img_6309Exclusividade à toda prova: 300 garrafas por safra

pode chegar a mais de 60 mil reais a garrafa!

 

Terroir/solo/geologia

A parte de Vogué, Les Petits Musigny, é um terreno mais baixo, mais pedregoso, mais argiloso, e com menos calcário ativo. Portanto, gera vinhos com mais potência e menos finesse. Ao contrário, Le Musigny tem um aclive em média 12% mais alto. Aqui a proporção de calcário sobre a argila é maior com presença de fosseis marinhos tipo Ostrea acuminata, gerando vinhos de grande finesse. Dá para entender porque Vogué faz vinhos mais duros e menos elegantes do que por exemplo, Roumier e Mugnier. Segundo Vogué, o fato de Petits Musigny fazer parte de seus vinhos, não é fator relevante no caráter dos mesmos. O mais importante é a filosofia do produtor. Cada um tire suas conclusões …

Existe uma pequena parcela de Musigny Blanc exclusiva de Vogué de apenas 0,65 hectare, sob a apelação Bourgogne Blanc. É um vinho interessante, mas abaixo dos Corton-Charlemagne e da família dos Montrachets.

Voltando ao tinto, e falando de Musigny, já que Petits Musigny é só Vogué, o vinho se desenvolve lentamente ao longo dos anos em adega. Na juventude, pode lembrar um Bonnes Mares num vinho mais masculino e de grande potência. Com a idade, ganha finesse e riqueza de aromas, lembrando de certo modo o Les Amoureuses. 

Voltando à comparação do Chateau Margaux, este grande Premier Grand Cru Classé se destaca na sua comuna tida como de tintos elegantes, pela alta porporçao de Cabernet Sauvignon que lhe dá uma estrutura e poder de longevidade impressionantes. Na definição de Paul Pontallier, já falecido, Margaux tem a graciosidade de uma bailarina com a sustentação e força de quem a segura, ou seja, ele transmite finesse que se esconde atrás de uma força fabulosa. Os outros vinhos da comuna não têm esta força, à exceção do Chateau Palmer em algumas safras. De mesma forma, Musigny Grand Cru é visto em comparação à sua vizinhança de mesma apelação.

Seus concorrentes de comuna

img_5762todos espetaculares, nível Grand Cru

Les Amoureuses, localizado logo abaixo de Musigny (ver mapa acima), tem um solo bastante pedregoso com boa proporção de calcário ativo. Um vinho de grande finesse, delicado ao extremo. Podemos dizer que sua delicadeza é tal que fica próxima á uma linha comum por sua suposta fragilidade. Contudo, é preciso prestar atenção, pois é uma delicadeza de profundidade e bela estrutura para envelhecer. Aqui a acidez, muito mais que seus delicados taninos, fornecem bons anos de vida em adega. Como classificação é um Premier Cru, mas juntamente com Cros Parantoux de Vosne Romanée, e Clos St Jacques do grande Rousseau em Chambertin, forma a trilogia dos “falsos” Grands Crus.

BONNES MARES MAPvinhedo Bonnes Mares – Vogué 

img_6140belas safras

O Outro Grand Cru de Chambolle-Musigny é Bonnes Mares com a curiosidade de uma pequena parte do vinhedo estar em Morey-St-Denis. No mapa acima, a parte de Bonnes Mares assinalada é do Domaine Vogué, setor à esquerda do mapa, denominado Terre Rouge. Um solo mais pesado que gera vinhos mais duros, bem ao estilo Vogué. Já o setor à direita caminhando para Clos de Tart em Morey-St-Denis, tem solo com mais calcário e minerais, gerando vinhos de grande finesse, denominado Terre Blanche. Os melhores produtores como Roumier e Mugnier têm parcelas dos dois lados e vinhos de grande equilíbrio e longevidade. Domaine Dujac também é destaque neste Grand Cru (foto acima).

Enogastronomia

Para acompanhar um Musigny, aves, cogumelos e trufas, são belos ingredientes, sobretudo com bons anos de adega. Para os queijos, um Brie de Meaux ou um Reblochon não muito curados, é um bom fecho de refeição. Como entrada, creme com funghi porcini pode ser divino.

galinha d´angola com morilles e os queijos acima

A textura e os sabores acima vão muito bem com os aromas e sabores de um Musigny envelhecido. Seus toques terrosos e de caça adaptam-se perfeitamente com os cogumelos e os toques de frutas secas dos queijos.

carlos aldo conterno 71

grandes velhinhos!

Tá certo que em vinhos antigos a garrafa conta muito, e este Musigny do Hudelot de 50 anos estava ótimo. Tudo no lugar, ainda com fruta, e seus toques de sous-bois e de caça. Muito equilibrado, final bem acabado, e persistência aromática longa. Mais uma prova que os grandes vinhos, especialmente Musigny, envelhecem com muita propriedade. 

Viva a Bourgogne! Berço Espiritual da Pinot Noir!

Zind-Humbrecht: Joias da Alsace

3 de Julho de 2019

Quando falamos dos melhores produtores da Alsácia, obrigatoriamente Zind-Humbrecht deve estar na lista entre os primeiros. Com vinhedos exclusivos e um Master of Wine como enólogo, Olivier Humbrecht faz vinhos que emocionam e traduzem o terroir de parcelas específicas com as castas mais nobres da região. Foi o que aconteceu numa bela degustação promovida pela Clarets (www.clarets.com.br), uma das importadoras mais sofisticadas da atualidade, sempre com vinhos exclusivos e preços bem competitivos no mercado.

prateleiras de grandes rótulos!

Alguns dos detalhes de importação são as caixas exclusivas de madeira do vinhos Zind-Humbrecht, vindas somente para o Brasil. No painel degustado, as quatro castas nobres foram apresentadas com vinhos de grande classe e variados graus de açúcar residual.

Zind-Humbrecht Riesling Turckheim 2016

2fcb4c28-ae31-4e03-b75d-4e4e9f6cf577um belo vinho de entrada

O Riesling acima é um dos vinhos da linha básica de Zind-Humbrecht, sendo o vinho de entrada da importadora Clarets. É um vinho de alto rendimento para os padrões do Domaine, acima de 60 hectolitros por hectare (hl/ha). O vinhedo vem de um setor de Turckheim chamado Herrenweg de solo pedregoso e clima relativamente quente. Portanto, as uvas aqui têm maturação mais precoce, originando vinhos não tão complexos como aqueles de vinhedos mais específicos. Uma boa dica para não errar na doçura do vinho são índices de 1 a 5 que Zind-Humbrecht coloca no rótulo, de acordo com o açúcar residual. Neste exemplar temos o índice 1, significando ser um estilo seco para padrões alsacianos.

Neste exemplar, percebemos claramente o poder de fruta deste vinho com notas de mel. Marca bem o estilo da Casa com uvas extremamente maduras e equilibradas, dando uma sugestão muito peculiar de doçura e grande pureza de aromas. Vai muito bem com comida chinesa, emblematizada pelos típicos molhos agridoces de textura compatível com o vinho.

Zind-Humbrecht Muscat Goldert Grand Cru 2011

f6e5dc19-e410-441c-b835-2a7f62c3f6f7Muscat de alta classe

Aqui começamos a ter vinhedos mais específicos como este Grand Cru de Gueberschwihr chamado Goldert. Terroir de origem calcária em meio à argila em altitudes entre 250 e 350 metros, promovendo uma maturação tardia nas uvas. Temos neste exemplar 90% de Muscat Petits Grains e 10% Muscat Ottonel que exigem plena maturação. Um vinho com 6,5 g/l de açúcar residual, ainda no nível 1. Um branco extremamente delicado e elegante, qualidades difíceis de se atingir num Moscatel seco. Os aromas vão desde um cítrico delicado como lima, passando por ervas refrescantes como manjericão, notas de menta e de chá de camomila. Muito equilibrado em boca com final levemente off-dry. Vai muito bem com comida asiática envolvendo por exemplo, camarões e aspargos.

Zind-Humbrecht Pinot Gris Rangen de Thann Clos Saint Urban Grand Cru 2014

0443fb75-4d03-477b-92c0-9457614468acgrande personalidade

Um dos mais famosos terroirs, Clos Saint Urban vem de um solo vulcânico de altitudes entre 350 e 450 metros em terreno de forte declividade e ótima exposição solar. São apenas 2,7 hectares para a Pinot Gris de vinhas velhas plantadas em 1963 com rendimentos muito baixos de 25 hl/ha. Vinho de grande concentração e poder com 15,5° graus de álcool bem equilibrados. Um branco macio, ainda no índice 1 de doçura, e de longa persistência. Pode enfrentar pratos consistentes como pato, ganso, e receitas com postas de bacalhau. Um vinho altamente gastronômico que merece ser decantado por pelo menos uma hora.

Zind-Humbrecht Riesling Clos Windsbuhl 2014

649a13d6-b149-4f87-94e2-d795bf23a889grande mineralidade

Outro vinhedo notável alsaciano, Clos Windsbuhl dispensa comentários. Um terroir fortemente calcário em altitude de 350 metros com inclinações que podem chegar a 40%. A idade média das vinhas de 40 anos aporta rendimentos de 35 hl/ha. Um branco com 10 g/l de açúcar residual ainda no índice 1, mostra-se o mais seco e o mais mineral do painel. Uma acidez absurda com os toques característicos da Riesling de petrolato. Um branco que enfrenta muito bem pratos defumados como embutidos e salmão e molhos mais picantes. Outro branco que merece decantação.

Zind-Humbrecht Pinot Gris Clos Jebsal Vendange Tardive 2016

img_6260doçura agradável 

Outro terroir histórico da Alsácia, Clos Jebsal de apenas 1,3 hectares de vinhas plantadas em 1983 num terreno de argila e gesso com boa exposição solar e proteção dos ventos do norte. Nesta safra apresenta um rendimento de 45 hl/ha, gerando um vinho de Vendange Tardive com 49 g/l de açúcar residual. A doçura é perfeitamente equilibrada pela acidez num vinho elegante com toques florais, pêssegos, e de talco. Sua doçura e textura delicadas são perfeitas para acompanhar patês de caça, inclusive o foie gras alsaciano. 

Zind-Humbrecht Gewurztraminer Hengst SGN Grand Cru 2008

1aa56fcd-a5fa-48c4-9b3d-68c7b522fec8intensidade e concentração sublimes

Mais um vinhedo Grand Cru, da região de Wintzenheim, Hengst tem solos argilo-calcários de fosseis marinhos com vinhas de 47 anos e rendimentos de apenas 17 hl/ha. Neste exemplar de doçura sublime (166 g/l de açúcar residual), a ação da Botrytis se faz presente com toques de mel, flores e uma lichia bem elegante, fugindo daqueles Gewurzs comuns e sem classe. Nesta categoria máxima de maturação de uvas, Selection de Grains Nobles (SGN), a acidez, intensidade, e persistência aromática são notáveis, num final que lembra os grandes Sauternes. Evidentemente, é um grande companheiro de queijos azuis e mais especificamente do poderoso Munster.

Os preços que variam de 200 a pouco mais de 600 reais por garrafa podem ser consultados no site da importadora que por sua vez, tem uma politica de preços bem convidativa para clientes com forte fidelização. Vale a pena conferir.

Agradecimentos a toda equipe Clarets através do Anderson, Marcelo e demais integrantes, além do casal extremamente simpático e acolhedor, Guilherme Lemes e Keren Marchioro. Que venham outras tantas degustações de grandes rótulos!

 

La Tâche: a Tarefa Divina

27 de Junho de 2019

Degustar um La Tache é sempre momento de reverência. Um vinho cheio de energia, opulência, mais óbvio que seu arquirrival Romanée-Conti, mas sempre grandioso. Da família DRC, é o mais superlativo, entregando generosidade, profundidade, além da elegância e mistério dos vinhos de Vosne. Foi o que aconteceu num belo jantar entre amigos numa vertical do mito contemplando anos de várias décadas. La Tache tem um rica história que começa com seu vinhedo original de 1,43 ha, acrescidos posteriormente com os vinhedos Les Gaudichots de 4.63 ha. Ver artigo la tache .

4f8bbd62-141c-4d5e-bd3d-b2785ea5b246um arsenal de taças

Para iniciar os trabalhos, nada como champagne da Belle Époque, Perrier Jouet Rosé 2005 em Magnum. Um champagne mantendo a elegância da Maison com partes equivalentes de Chardonnay e Pinot Noir. Passa pelo menos cinco anos sur lies, antes do dégorgement. Perfeito para aguçar as papilas.

img_6223uma noite mágica!

Enquanto isso, time em campo já perfilado. Parece que o camisa 10 vai ser o 76, mas haverá belas surpresas. Afinal, treino é treino, e jogo é jogo. Flights às cegas.

9e2984f5-32e8-4b72-8954-4e52bb5bd42aa imponência de uma bela adega

A degustação seguiu em quatro flights com três safras cada um. Como tivemos dois 88 e dois 00, eles foram separados entre os flights provando que em safras antigas, vale a garrafa e não exatamente a safra. Um dos 88 estava claramente cansado, enquanto o outro permitia uma análise mais apurada. Já os dois safra 2000 brilharam, mostrando o lado feminino deste Monopole DRC.

img_6229dada a largada …

De cara, a grande surpresa da noite, La Tache 1981, safras dos amigos Pedro e Ivan. Um tinto que envelheceu maravilhosamente numa garrafa muito bem conservada. Os aromas de adega úmida, toques terrosos, de especiarias,  e notas de chá, permeavam a taça. Tudo que se espera dos grandes vinhos de Vosne. Não é uma safra potente, mas de uma elegância ímpar. Levou o flight com folga. Já o 94, um vinho mais duro, viril, de acordo com os taninos da safra. É resistente ao tempo e precisa de pratos suculentos para equilibra-lo. Por fim, o 88 prejudicado. Claramente cansado, não permitiu uma  abordagem mais precisa.

img_6230mais uma bela surpresa neste 2000

Neste flight, o segundo 88 estava mais inteiro. É uma safra dura, difícil, mas já está devidamente evoluído. Mostra um lado mais masculino do La Tache. Já o 89, um vinho adorável, de taninos docéis. Não é um vinho de tanta potência, mas muito prazeroso. Por úlitmo, o belo La Tache 2000. Um vinho extremamente delicado com toques florais, lembrando um Saint Vivant. Um vinho de muita energia e frescor, mostrando que delicadeza também pode ser marcante. Vinho de grande profundidade, equilíbrio, e longevidade. Vai fácil em mais dez anos de adega.

Expressões opostas de uma mesma uva

Uma pausa para brancos, e que brancos! Num clima frio e austero, Raveneau faz um Chablis de exceção, verdadeira referência para esta nobre apelação que traz mineralidade e tensão a um branco cheio de energia. Já o DRC no sagrado santuário de Montrachet, mostra opulência, maciez, com plenos sabores e longa persistência. Aqui a diferença entre os terroirs não precisa ser explicada. As taças falam por si.

Isa e suas criações …

Para acompanhar essas maravilhas, a anfitriã Isa nos brindou com um caldo de morilles para os flights iniciais do La Tache, enaltecendo os toques terciários dos vinhos. Já para a dupla de brancos, vieiras magistralmente ao ponto, estavam à altura dos grandes brancos da Borgonha.

img_6232flight equilibrado

Voltando à cena, este foi o flight mais equilibrado, embora o 2000 tenha dado mais um show. A safra 97 assim como 89, gerou vinhos de grande prazer, sem arestas, e muito agradáveis. No caso do 97, parece ter um pouco mais de extrato e estrutura. Ainda deve evoluir bem. Terminando com o 2001, este chega muito perto do 97. Um vinho ainda em evolução, mas com futuro promissor. No momento, ainda um pouco misterioso. Afinal, estamos falando de La Tache, um vinho que evolui por décadas. 

img_6234grandes promessas

Neste último flight, mais promessas que plenos prazeres, tendo claramente um infanticídio, La Tache 98. Uma safra de evolução lenta, um pouco duro no momento, e aromas ainda difíceis de se abrirem. No entanto, tem um bela estrutura para longa guarda.  Entre os 93 e 96, percebemos claramente a diferença de uma grande safra e outra de taninos mais duros como 93. Um vinho de grande extrato, mas que deve ser lapidado pelo tempo, amansando um pouco esses taninos um tanto nervosos. Já o 96 tem taninos e energia de sobra para galgar altos voos, mas a qualidade destes taninos é a diferença entre o couro rustico e a pelica. Uma textura prazerosa em boca neste 96 que merecidamente tem notas entre 94 e 97 pontos. O grande La Tache da noite em termos potenciais. 

a apoteose

Deixamos para o final, o La Tache 1976, um senhor de 43 anos e uma bela história de vida. Não teve como não lembrar do 81, o primeiro vinho do primeiro flight. Sem tecer comparações, pois obras de arte não se comparam, este senhor tem os traços da idade revelados em aromas terciários incríveis, pacientemente moldado pelo tempo. A boca é harmoniosa sem ser potente, mas com final tocante  e bem acabado. O silêncio depois de toma-lo diz tudo.

Para arrematar os últimos flights e este belo jantar, foi servida uma leitoa assada em seu próprio molho com couve e purê de banana da terra. A Isa realmente se superou!

combinação divina

final à francesa: prato de queijos

Fazendo um parêntese, entremeando o jantar foi servido uma porção de foie gras in natura com calda de caramelo e flor de sal. Nem precisa falar que acompanhou divinamente um belo Sauternes em garrafa double Magnum da histórica safra 2001. Nada mais, nada menos, que Chateau Climens, rei de Barsac. Embora de sub-regiões contiguas, os vinhos de Barsac costumam ser mais delicados que os untuosos Sauternes. Este em especial é 100% Semillon e um estágio em barricas por cerca de 20 meses. A delicadeza e profundidade deste vinho são marcantes com notas de mel, pâtisserie, e toques florais. Além do foie gras,  o vinho arrematou bem a sobremesa, p prato de queijos, e o final de prosa à mesa.

Agradecimentos a todos os confrades, especialmente aos anfitriões da casa que tão bem nos receberam. Degustação que deixará saudades, motivando os confrades a manter o alto nível dos temas que se segundo rumores, será Le Pin. Que Bacco nos ilumine!

Latour e algumas preciosidades

17 de Março de 2019

Quando um Latour está sobre a mesa, os demais vinhos o reverenciam, independente de seus pedigrees. Entre champagnes, Domaine Leflaive, e outros margens esquerdas de prestígio, ele reinou absoluto. Antes de falarmos dele, algumas borbulhas, e brancos da Borgonha, deram início a um belo almoço no Ristorantino, Jardins.

estilos de champagne

Neste primeiro embate, grandes surpresas. Sempre tive em mente um estilo delicado e elegante para a cuvée de luxo Dom Pérignon, mas não pensei que fosse tanto. No confronto acima, Dom Pérignon conseguiu ser mais delicado que o Blanc de Blancs Robert Moncuit, um Grand Cru de Le Mesnil sur Oger, terroir de prestígio da Côte de Blancs, mesmas terras do Champagne Salon. Embora fosse 100% Chardonnay, o champagne Robert Moncuit tinha uma estrutura invejável com uma bela acidez. Seu estilo mais gastronômico pede pratos como ostras gratinadas, por exemplo. Encarou com galhardia o todo poderoso champagne da Maison Moët & Chandon.

frutos do mar num caldo com fregolas 

Dando sequência, uma dupla de brancos da Côte de Beaune, dois Premiers Crus. Um de Meursault, do vinhedo Genevrières do Hospices de Beaune 2001, e o grande Puligny-Montrachet Les Pucelles 2002 de Madame Leflaive, seu melhor Premier Cru. Aqui a disputa foi meio desigual. Primeiro pela questão de safras, agravado pela garrafa de Meursault fora de sua melhor forma, ou seja, um vinho um pouco cansado. O Les Pucelles em ótima forma, deu um banho de equilíbrio e elegância numa safra de grande destaque. Embora um Meursault com problemas, ficou notória a diferença de texturas entre os vinhos com o Puligny-Montrachet mais leve e elegante. O prato acima de frutos do mar deu eco aos sabores dos vinhos.

img_5823embate de gigantes

Nesta altura, o ponto marcante do almoço, dois belos Premiers Grands Crus Classés da mítica safra 1959. Latour neste ano foi um dos destaques com 96 pontos, um vinho quase perfeito. É impressionante seu vigor, sem nenhum sinal de decadência. Pelo contrário, esbanja juventude com taninos finíssimos. Bela expansão de boca com aromas multifacetados. Uma garrafa perfeita, assim como o Chateau Margaux a seu lado. Este, talvez tenha sido a melhor garrafa de Margaux 59 que já provei. O vinho estava divino com aromas plenamente desenvolvido, além de perfeitamente macio e envolvente no palato. Mesmo assim, não foi páreo para o Senhor do Médoc, sua majestade Latour.

alguns dos pratos do Ristorantino

Na foto acima, massa com ragu de pato e costela assada com lentilhas, acompanharam bem a força e elegância dos vinhos. Taninos mais polimerizados e aromas terciários pedem pratos com este tipo de perfil. Agradecimentos especiais a toda brigada do Ristorantino pelo serviço dos vinhos e atenção aos detalhes e taças.

img_58221982 na berlinda

Começando pelo Beychevelle 82, talvez a maior safra de toda a história do Chateau, é um vinho encantador, com a complexidade esperada de um Bordeaux envelhecido, sobretudo se tomado sozinho. Entretanto, deu um azar danado de estar ao lado deste gigante, inclusive na garrafa, uma double magnum magnífica, perfeitamente conservada do grande Latour. Pode ser considerado o vinho mais perfeito entre os grandes de 82. Uma cor inacreditavelmente jovem, taninos polidos, o fino aroma de pelica dos grandes Latour, e uma boca perfeita em equilíbrio e expansão. Embora ainda com muita vida pela frente, me pareceu mais acessível que o grande 59 comentado a pouco.

l´Enclos: a essência de Latour

A genialidade do terroir

Os vinhas em torno do Chateau, a construção principal propriamente dita, somam algo com 47 hectares denominado l´Enclos, foto acima. Um terroir único com quinze metros de profundidade de pedras, argila e areia, proporcionando uma drenagem excelente no terreno, e ao mesmo tempo, retendo um mínimo de reserva hídrica para os anos mais secos. Neste sentido, é o melhor solo do mundo para o cultivo da Cabernet Sauvignon que no caso do vinhedo l´Enclos, perfaz cerca de 80% da área. A alta porcentagem de pedras (50 a 80%) está entremeada entre areia e argila, formando as chamadas “croupes graveleuses”, leves ondulações no terreno, semelhante a campos de golfe. Esta maravilha esculpida ao longo de dois milhões de anos, tem pedras originárias dos Pirineus (divisa com a Espanha) e do maciço central ( terras francesas onde se cultiva o melhor carvalho do mundo), devido a cataclismos de outras eras geológicas.

Para alguns especialistas em solos de viticultura, l´Enclos é o melhor terroir de todo o Médoc, considerando  que o fator drenagem do terreno é o mais relevante na escolha dos melhores terrenos de margem esquerda. Lembrando o velho ditado médocain: “o solo do Médoc muda a cada passo”.

 e aquele Yquem para finalizar …

Embora 1946 não tenha sido uma grande safra em Sauternes, Yquem é sempre soberano. Sem aquela untuosidade dada pelos anos onde a Botrytis é mais intensa, é um Yquem elegante com perfeito equilíbrio entre acidez e açúcar. Uma garrafa muito bem conservada acompanhando uma seleção de queijos e sobremesas diversas. Doçuras e contrastes  em perfeita harmonia.

Enfim, mais um encontro memorável com amigos generosos, partilhando experiências e laços de amizade em torno do vinho e da boa mesa. Abraços a todos e que Bacco continue com suas bênçãos!

Leroy e DRC: a perfeição tem preço

8 de Fevereiro de 2019

Quando falamos da Borgonha em vinhos de alto nível, estamos falando de produtores pontuais, especialistas em suas respectivas comunas, as chamadas referências. Neste sentido, há grandes nomes com pontuações altíssimas na crítica especializada e uma consistência notável em várias safras. Contudo, há duas joias que se destacam dos demais. Domaine de La Romanée-Conti com seis Grands Crus irrepreensíveis e Madame Leroy, sobretudo seus vinhos de Domaine e os assombrosos Auvenay, seu Domaine particular.

Em grande jantar realizado no restaurante Fasano, uma série deles desfilaram para escoltar um menu com trufas negras. Para encorpar o time, alguns outros borgonhas fizeram companhia, além dos dois grandes Barolos da família Conterno: Monfortino e Aldo Conterno Granbussia.

img_5627quebra de hierarquia

Antes dos tintos, um trio de brancos aguçaram as papilas com alguns petiscos de entrada, ainda fora da mesa. A dupla acima mostra claramente que alguns produtores se destacam sobremaneira mesmo em terroirs hierarquicamente inferiores. Como comparar um Meursault com o todo poderoso Montrachet. Este 2010 de Louis Jadot tem 98 pontos e é um dos destaques da safra. Evidentemente um grande vinho, bem equilibrado, toques elegantes de barrica, mas não está no time de cima dos melhores Montrachets. Já o Meursault do Roulot é um vinho mágico. Este em particular é um Monopole chamado Clos des Bouchères 2012 com somente 1,37 hectare de vinhas. Um branco vibrante, um toque cítrico elegante, textura rica em boca sem ser pesado. Final persistente e harmonioso. Somente Coche-Dury para ombreá-lo. 

harmonização divina

Só mesmo o vinho acima para fazer esquecer Roulot. Este Domaine Leroy Corton-Charlemagne 2009 degustado várias vezes é um vinho a ser batido. Moldado pela Madame, tem uma textura rica e intensa. As pitangas, frutas secas, notas finamente tostadas sobressaem na taça. Desde sua entrada em boca com uma acidez refrescante, até sua persistência aromática intensa, é um branco sem defeitos. Tudo nele é rico e magnífico. Acompanhou divinamente o tartar de atum com foie gras (foto acima). 

img_5632longevidade para poucos

Começa a sequencia de tintos de forma arrasadora. Dois DRCs Romanée-St-Vivant antigos com dez anos separando as safras. O de safra 88 estava mais evoluído que seu par mais antigo, a começar pela cor. Este safra é classicamente um ano de taninos mais duros, difíceis de amadurecer plenamente. É um belo vinho, mas sem grandes emoções. Se estivesse sozinho, talvez tivesse brilhado mais. Deu azar pela comparação, pois o Romanée-St-Vivant 78 é um vinho mítico. Felizmente, degustado algumas vezes, é sempre grandioso. Seu aroma é um roseiral cheio de nuances e especiarias finas. A boca é um sonho com taninos de seda. Equilíbrio perfeito e um final de boca grandioso. Ainda encontra-se pleno em seu esplendor. Talvez seja um daqueles vinhos imortais. Segundo o próprio Henri Jayer, seu Richebourg 78  que vale uma pequena fortuna nos leilões, foi seu melhor vinho elaborado. Realmente, uma safra mítica!

img_5636Babette se renderia ao Richebourg

Neste embate de gigantes, surge o melhor Richebourg DRC que já provei, safra 90. Ele estava tão delicado que parecia feito pela Madame Leroy. Um vinho encantador com taninos delicados, aromas de carne, terroso, e especiarias doces. Consegue superar o La Tache 90, tarefa para poucos. Já o Clos Vougeot 90 da Madame, Babette não aprovaria. O vinho estava meio sem graça, sem o charme costumeiro deste Domaine. Pode até ser um problema de garrafa, mas estava meio blasé, embora sem defeitos.

Chambertin divino

A baixa da noite aconteceu neste flight acima. Domaine des Chezeaux elaborado pelo Domaine Ponsot estava turvo e com aromas bem estranhos, lembrando um daqueles Barolos rústicos. Pela densidade e concentração, parece ser um grande Chambertin, afinal tem 98 pontos. Contudo, certamente é um problema de garrafa. Fazendo um parêntese, Este Domaine des Chezeaux possui a maior área de vinhas do Grand Cru Griotte-Chambertin. Entretanto, ele delega a vinificação para o Domaine Ponsot com 0,89 hectare, e Domaine Rene Leclerc com 0,68 hectare. Um vinho a ser testado novamente.

Em compensação, Domaine Leroy Chambertin 1990 deu um banho de elegância. Dos Grands Crus do Domaine, só perder em exclusividade para o Musigny. Este Chambertin tem apenas meio hectare de vinhas. Não é o melhor dos Chambertin desta safra, mas a garrafa estava divina. Toda a delicadeza de aroma da Madame com notas de cerejas escuras, florais, madeira finamente tostada, e um fundo mineral sutil. É um vinho que prima mais pela elegância do que pela potência. Final equilibrado e super harmonioso. Um dos destaques da noite.

promessas de adega

Neste penúltimo flight, uma avaliação de longevidade. La Tache é sempre La Tache, um vinho charmoso, elegante, com seus toques orientais de incenso, especiarias finas, e notas terrosas. Embora não seja uma safra grandiosa, 2007 gera vinhos precoces e graciosos. Seu par Echezeaux do excelente Domaine Liger Belair respeitou a hierarquia, embora seja de uma safra brilhante, 2009. Muita fruta no nariz, aromas limpos e de grande pureza com notas florais e de alcaçuz. Em boca, seus taninos são finos, acidez equilibrada e ótima persistência aromática. Um vinho que merece adega por uns dez anos. No caso do La Tache, já está prazeroso, mas evolui com dignidade como é de se esperar de um vinho deste naipe.

img_5639Monfortino numa noite feliz!

No último flight, Barolos de outro planeta. Simplesmente, obras-primas da família Conterno. Aldo Conterno com seu Granbussia 2001 e Giacomo Conterno com o caríssimo Monfortino Riserva 1999. Este Monfortino estava tão elegante que parecia ter sido feito pelo Aldo. O vinho é possante com uma montanha de taninos super bem polidos. Foi o melhor Monfortino que já provei. Longo, persistente, e sem aquela costumeira nota de oxidação e extração excessiva que costuma ter neste mítico Barolo. Já o Granbussia não estava em grande forma, parecia um garrafa um pouco cansada. A próprio cor estava mais evoluída. No entanto, também um grande Barolo, mas sem o brilho costumeiro. As notas confirmam a superioridade do Monfortino com 98 pontos, contra 94 pontos do Granbussia.

trufas e La Mission

Para encerrar a orgia, um bordalês não podia faltar. E ele veio grandioso, La Mission Haut Brion 1998. Um Pessac-Léognan de peso, imponente, taninos densos e finos. Seus aromas de chocolate, couro, estrabaria, e toques de tabaco. Boca harmônica, grandiosa, e de longa persistência. Tem 98 pontos Parker e um dos destaques desta safra. O pessoal nesta altura do campeonato nem deu muita bola pra ele. Ainda bem que não fui na conversa deles. Coloquei o DRC Saint Vivant  1978 logo de cara. Esse eles vão lembrar para sempre.

Quanto ao Fasano, destaque para toda equipe, especialmente o maître Almir Paiva e o competente sommelier Fábio Lima, sempre muito preciso. Todos os pratos do menu com pratos trufados acompanharam bem os vinhos, executados com maestria pelo Chef Luca Gozzani. Destaques para os pratos fotografados pela ordem: ovo crocante com funghi porcini, costeletas de cordeiro com molho do próprio assado, e pastel com queijo taleggio. 

Agradecimentos a todos os confrades presentes numa noite muito animada. Os vinhos escolhidos sempre com imensa generosidade ratificaram um jantar inesquecível. Mais uma vez, muito honrado em ser sommelier deste grupo de craques que não tomam vinhos caros para exibição, e sim pelo profundo conhecimento do grupo. 2019 promete, sempre com a proteção de Bacco! Saúde a todos!


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