Melhores da França – 2025

30 de Dezembro de 2025

Uma lista dos vinhos franceses que me chamaram a atenção nesse ano, buscando trazer nomes que estão sendo importados no Brasil, mesmo que estejam esgotados. Não há vinhos soberanos, aqueles que são de safras muito antigas ou de produtores sem representação no país.

Champagnes
O champanhe é um produto que sobreviveu à queda de reis, à ascensão da burguesia e a duas guerras mundiais para se tornar o símbolo universal da celebração. Tudo começa na França, com a geografia. Quando Clóvis, o primeiro rei dos Francos, foi batizado em Reims no ano de 496, a cidade tornou-se o palco obrigatório das coroações francesas por séculos.

Blanc de Blancs: Pierre Péters Grand Cru (Mistral); Bourg Sud 2021 La Rogerie (Maison Sirino); Les Gras d’Huile Maxime Oudiette (Maison Sirino); Unisson Franck Bonville (Wines4U); Revolution Doyard (Anima Vinum)

Blanc de noirs: Marie-Courtin, 2020 Champagne Cuvée Résonance (Cave Léman); Savart 1er Cru L’Ouverture (Anima Vinum); Marie-Courtin Efflorescence (Cave Léman)

Rosé: Elisabeth Salmon 2012 (Delacroix); Krug édition 27 (LVHM)

Pinot Meunier: Françoise Bedel Dis Vins Secret Extra Brut (Anima Vinum)

Assemblage: Jacquesson 746 (Delacroix); Jacquesson DT 742 (Delacroix); Bollinger Spécial Cuvée (Mistral); Bollinger La Grande Année 2014 (Mistral); Krug 172 (LVHM); Vilmart Grande Réserve (Tanyno)

Chablis

A safra 2024 foi minúscula, então olho no que tem no mercado.

Qualidade Preço: Chablis Gautheron (Delacroix)

Premiers Crus: Gautheron Montée de Tonerre 2022 (Delacroix); Cote de Lechet réserve bernard defaix 2022 (Tanyno)

Grands crus: Louis Michel Vaudesir 2021 (Elevage); Les Preuses 2021 Gautheron (Delacroix); Valmur 2020 Bessin Tremblay (Clarets); Les Clos 2017 William Fèvre (Grand Cru)

Borgonha

Côte de Nuits

Brancos: Morey Clos des Monts Luisants 2017 Ponsot

Tintos GCs: Clos de Tart 2019 (Clarets); Domaine Hudelot-Noellat Clos de Vougeot 2021 (Clarets);

Tintos PCs: Morey 1er Saint Denis 2021 (Dujac); Chambolle 1er cru Vogüé 2017 (Mistral); Chambolle Musigny Les Fuées 2022 Felettig (Maison Sirino); Morey Riottes 2022 Perrot Minot (Tanyno); Chambolle Combe Orveau 2013 Faiveley (Mistral)

Comunais: Chambolle Clos Village 2022 Felettig (Maison Sirino); Côte de Nuits Villages “Aux Vignottes” Antoine Lienhardt 2022 (Delacroix); Chambolle Combe Orveau 2022 Anne Gros (Tanyno); Vosne-Romanée C. Quatrain 2020, G. Mugneret

Bourgogne: Bourgogne 2020 Lafarge (Clarets); Bourgogne 2022 Perrot Minot (Tanyno)

Côte de Beaune

Brancos: Meursault Porusots 2018 Buisson Battault (Anima Vinum); Meursault 2020 Henri Germain (Clarets); Puligny Montrachet Sauzet 2021 (Clarets); Chassagne-Montrachet 1er Cru Vide-Bourse 2020 Pillot (Clarets); Puligny Montrachet Clos de la Folatiéres 2020 (Maison Sirino); Meursault Les Tillets 2021 Bernard Bonin; Meursault Charmes 2020 Matrot (Clarets)

Tintos: Volnay Taillepieds 2017 Roblet Monnot (011); Volnay Santenots de Millieu 2017 (Mistral); Pommard Clos des Epeneaux 2019 (Delacroix); Volnay 1er cru 2021 Michel Lafarge (Clarets);

Côte Chalonaise

Brancos: Mercurey les vignes de Maillonge Michel Juillot 2022 (Tanyno); Rully 1er Cru Margotés 2017 (Mistral); Domaine Dureuil-Janthial Rully Maizières (Clarets); Santenay Blanc Comme Dessus Pablo Chevrot (Anima Vinum)

Tintos: Mercurey Rouge Les Vignes de Maillonge 2022 (Tanyno); Côte Chalonnaise La Fortune 2019 (Mistral); Maranges sur chenes 2017 Pablo Chevrot (Anima Vinum)

Loire
Uma degustação de safras antigas, em branco e tinto, de Clos Rougeard mostrou como o sol brilha diferente para a propriedade, mas a região tem muita gente boa e com vinhos muito bons para a comida e clima brasileiros. Domaine Huët é uma escolha certeira.

Loire brancos: Clos Rougeard Brèzes 2018 (Clarets); Brèzes Guiberteau 2021 (011); Vouvray Le Haut Lieu 2022 Huët (Premium); Huet Vouvray Sec Le Mont 2019 (Premium Wines)

Loire tintos: Clos Rougeard Le Bourg 2018 (Clarets); Clos Rougeard Poyeux 2018 (Clarets)

Loire branco custo benefício: Saumur blanc Guiberteau (011)

Bordeaux
A região passa por uma crise histórica que poderá provocar mudanças tectónicas no sistema de venda en primeur. O Brasil tem recebido safras antigas, boa parte delas em boas condições de armazenamento, o que permite desfrutar esses vinhos com mais idade.

Tintos: Léoville Barton 1999 (Clarets); Pontet Canet 2001 (Tanyno); Cantemerle 2008 (World Wine); Vieux Chateau Saint André 2020 (Mistral); Chateau Pichon Lalande 2008

Brancos: Chevalier 2017 (World Wine); Larrivet Haut Brion 2022 (Clarets)

Tintos qualidade preço: Magence 2014 (Delacroix); Château Peybonhomme – Les Tours, 2022; Tronquoy 2013 (Clarets)

Brancos qualidade-preço: Magence 2019 (Delacroix)

Sobremesa: Rieussec 2010 (Mistral)

Rhône

Há alguns sobrenomes que se sobressaem, não importam terroir, safra.

Tintos: Saint Joseph 2015 Jean Louis Chave (Mistral); Châteauneuf du Pape 2020, Clos de Papes (Premium Wines)

Brancos: Hermitage 2012 Jean Louis Chave (Mistral); Chateau Beaucastel 2020 (Mistral); Châteauneuf du Pape 2021, Clos de Papes

Brancos qualidade preço: Saint Joseph Circa 2022 (Mistral)

Tintos qualidade preço: Saint-Joseph Pleine Lune 2019, Ferme des Sept Lunes (Delacroix)

Beaujolais

Gamay de alta qualidade e com preços atrativos com a escalada dos borgonhas.

Tintos: Moulin à Vent Les Trois Roches, 2022, Chermette (Wines4U); Fleurie Poncié, 2023 – Domaines Chermette (Wines4U); Brouilly La Croix des Rameaux 2022, Lapalu (Delacroix)

Alsácia

Os pinots noirs de Albert Mann ganham complexidade a cada safra, caso os preços fossem mais competitivos no Brasil, seriam uma bela aposta fora da Côte d´Or.

Brancos: Zind-Humbrecht Riesling Clos Windsbuhl Monopole 2019 (Clarets)

Tintos: Albert Mann Pinot Noir Clos De La Faille 2019 (Clarets)

Melhores de 2025 – Itália

20 de Dezembro de 2025

Num mundo em que cada vez mais champagnes se aproximam dos quatro dígitos, as borbulhas italianas têm um lugar crescente sobre a mesa.

Espumantes: Franciacorta Edea Mirabella  (Italy Import); Ferrari Brut (Vinheria Percussi); Ferrari Perlé 2018 (Vinheria Percussi)

Brancos

Nem só de chardonnay bourguignon se vive, nem também só de Valentini.

Autóctones: Valentini 2020 (Decanter); Vintage Tunina 2020 (Berkmann); Trebbiano d´abruzzo 2015 Emidio Pepe *(novo importador em breve)

Chardonnay: Cervaro della Salla 2020 (Berkmann); Gaia e Rey 2016 (Mistral); Were Dreams 2021 Jermann (Berkmann);  Ca del Bosco 2017 (Mistral)

Chardonnay qualidade preço: Kurtatsch 2023 (Italy Import); Primosic (VinVin&Co)

Etna qualidade preço branco: Pietradolce (Italy Import); Alta Mora (World Wine), Planeta (Grand Cru)

Etna bianco: Etna Bianco Superiore Contrada Salice 2023 (Mistral)

Sobremesa: Donnafugata Passito di Pantelleria “Ben Ryé” (World Wine); Vin Santo Fontodi 2001 (Mistral)

Tintos

Sul da Itália

Poucos terroirs têm ganho tanto refinamento nos últimos anos quanto o Sul da Itália, com destaque para o vulcânico terroir de Etna. Surpresa foi o Idda, parceria de Angelo Gaja  com Alberto Gracci, um vinho elegante e delicado, marcas registradas de Gaja.

Etna qualidade preço tinto: Pietradolce (Italy Import); Alta Mora (World Wine)

Etna rosso: Idda (Mistral); Pietradolce Santo Spirito 2020 (Italy Import)

Toscana

A mudança da legislação há uma década e meia e a criação do Gran Selezione trouxeram uma melhoria notável em uma série de produtores que já faziam um ótimo trabalho.

Chianti clássico: Fontodi 2021 (Mistral); Riecine 2022 (Italy Import); Tenuta di Corleone 2021 (Uva Vinhos); Mazzei Fonterutoli Chianti Classico (Grand Cru)

Chianti Riserva: Riecine 2021 (Italy Import); Caparsa 2019 (Tanyno)

Chianti Gran Selezione: San Lorenzo 2018 Castello di Ama (Mistral); Vigna del Sorbo 2020 (Mistral); Gran Selezione Vigneto Bellavista 2016 (Mistral)

Supertoscano 100% sangiovese: Montevertine 2016 (Decanter); Ceparello 2021 (decanter)

Supertoscano uvas internacionais: Petra di Petra 2020 (Italy Import); L´Apparita 2020 (Mistral)

Tinto qualidade preço: Belvento e Cileggio (Italy Import)

Rosso di Montalcino: Poggio di Sotto 2020 (Italy Import)

Brunello di Montalcino: —

Piemonte

Nos últimos dois anos, o mercado brasileiro recebeu um punhado de novos nomes que aumentaram a opção dos que gostam desses vinhos. Da volta de Giuseppe Mascarello e Giuseppe Cortese à chegada de Sottimano e Castello di Verduno (que com a ascensão de preços de Burlotto tem coisas a se conhecer…)

Dolcetto: Giuseppe Mascarello 2022 (Clarets); Ca di Press 2022 (Clarets); Giuseppe Cortese 2023 (Tanyno)

Barbera qualidade preço: Barbera d´alba Fratelli Alessandria (VinVin&co); Barbera d´alba Vajra (VinVin&co); Barbera d´alba 2022 Principiano Ferdinando (Italy Import); Barbera 2021 Giuseppe Cortese (Tanyno); Scarzello Superiore (Tanyno)

Barbera:  Luciano Sandrone 2022 (Clarets); Barbera Scudetto Giuseppe Mascarello (Clarets); Barbera Aves Burlotto (Clarets); Bricco dell’Uccellone 2020 (Tanyno); Ai Suma 2020 (Tanyno)

Nebbiolo qualidade preço: Principiano Ferdinando (Italy Import); Vajra (VinVin&Co); Castello di Verduno 2023 (Tanyno)

Nebbiolo: Langhe Rosso 2017 Roagna (Clarets); Giuseppe Mascarello 2022 (Clarets)

Barbaresco qualidade-preço: Ada Nada 2020 (Italy Import); Barbaresco 2021 Giuseppe Cortese (Tanyno); Produtori del Barbaresco 2021 (Vin Essence)

Barbaresco: Sottimano Currà 2019 (Tanyno); Sottimano Pajoré 2021( Tanyno);  Gaja 2020 (Mistral)

Barolo: Vigna Rionda 2017 Giovanni Rosso; Barolo Bricco delle Viole 2017  G.D.Vajra (VinVin&Co); Monvigliero 2021 Fratelli Alessandria (VinVin&Co); Scarzello Vigna Merenda 2016 (Tanyno); Monvigliero 2018 Castello di Verduno (Tanyno)

Melhores de 2025 – parte 1

19 de Dezembro de 2025

Uma lista de uma parte dos vinhos que me chamaram a atenção nesse ano, buscando trazer nomes que estão sendo importados no Brasil, mesmo que estejam esgotados. Não há vinhos soberanos, aqueles que são de safras muito antigas ou de produtores sem representação no país. Maior ausência são os Estados Unidos, mas bebi apenas vinhos da Califórnia de produtores sem importação no Brasil, como os excelentes Rhys. Itália ganhará um ranking à parte em breve, do sul ao norte, França, idem.

Alemanha

Num mundo em que se normalizou borgonha de entrada acima de R$ 500, a Alemanha tem ganho destaque na minha mesa e adega, com opções muito além da rainha das uvas, a riesling. Chardonnays e pinot de alta qualidade com preço ainda muito atraente.

Espumantes: Moritz Kissinger Blanc de Blancs Brut Nature (Maison Sirino)

Chardonnay: Moritz Kissinger 2021 (Maison Sirino); Weingut Martin Wassmer, 2021 Dottinger Castellberg Chardonnay GC (Cave Léman); Weingut Martin Wassmer SW (Cave Léman); Astheimer Chardonnay Fürst (Cave Léman)

Riesling qualidade preço: Hermann Ludes Mosel Riesling 2023 (Cave Léman); Hermann Ludes Thörnicher Ritsch Kabinett 2022 (Cave Léman); The Green Hill 2023 (Wines4U)

Riesling: Wittmann Morstein 2020 (Weinkeller); Kiedrich Gräfenberg Riesling Grosse Lage Trocken GG 2022 (Mistral); Clemens Busch VDP. Grosse Lage Marienburg Fahrlay GG Riesling Trocken 2022 (Premium Wines)

Tintos qualidade preço Jurgen Von der Mark Merdinger 2022 (Cave Léman); Ergenstein Pinot Noir 2021 (Cave Léman)

Tintos: Spätburgunder Hundsrück GG 2022 Fürst (Cave Léman)

Sobremesa: Wehlener Sonnenuhr Auslese Goldkapsel 2006 (Mistral); Zeltinger Sonnenuhr Riesling Auslese ** 2017 (Mistral)

Argentina
Uma degustação às cegas de Noemias mostra que a Malbec na Patagônia cria grandes vinhos. Um Estiba Reservada às cegas aprontou para margem esquerda de Bordeaux, safras novas desse vinho não decepcionam.

Brancos: Catena Zapata Adrianna Ch. White Bones 2015 (Mistral)

Tintos: Noemia 2022 (Vinoterra); A Lisa 2024 (Vinoterra); Catena Zapata Estiba Reservada 1997

Austrália

Tem muita coisa boa tinta no mundo dos cangurus.

Brancos: (nenhum bebido)

Tintos: Mount Edelstone Henschke (Mistral)

Brasil

Espumantes abaixo de 150 reais? Tem, aliás, o Danio Braga, Fasano e o Claude Troisgros já descobriram há anos.

Brancos: Pizzato Legno Chardonnay (Pizzato); Chardonay 2024 (Adolfo Lona)

Tintos: Baron 2020 (Adolfo Lona)

Espumantes: Trinta (Adolfo Lona); Brut Tradicional (Adolfo Lona)

Chile

Quebrada seca é o terroir em que se fazem os melhores brancos da América do Sul?

Brancos: Baettig Vino de Viñedo Los Parientes Chard 2022 (World Wine); Retamal Quebrada Seca 2021 (Decanter)

Tintos: Seña 2021

Espanha

Galicia desperta paixões, olhares e dinheiro, não à toa Vega Sicilia está com novo projeto para ser lançado em breve. E um tinto que merece atenção: uvas Garnacha de um vinhedo único, de mais de 100 anos de idade, plantado em altitudes muito elevadas. O tinto é vinificado em uma única barrica de carvalho de 4000 litros, produzindo quase 400 caixas de um vinho a se conhecer.

Brancos: Pazo Señorans Albariño 2013 (Mistral); 69 Arrobas 2022 Albamar (Oinos); Balado 2023 Zarate (Oinos)

Tintos: Espetacle 2007 (Mistral); La Rioja Alta 904 2015 (Zahil)

Qualidade preço: Albamar 2024 (Oinos); Dandelio Nanclares (Wines4U)

Hungria

Quando Vega Sicilia investe, não brinca.

Brancos: Oremus Petracs 2020 (MIstral)

Sobremesa: Tokaji Aszú 5 Puttonyos 1993m (Mistral)

Portugal

Muitas novidades e muitos vinhos bons na terrinha, que continua sendo um refúgio seguro diante da escalada de preços na Itália e na França.

Brancos: Dominío do Açor Cerceal 2022 (Clarets); Casa da Passarella O Oenólogo Encruzado 2020 (Premium Wines); Lobo de Vasconcellos LV Reserva Branco 2021 (Premium Wines); Fazendas da Areia Caracol dos Profetas (Emi Wines); Textura da Estrela (011)

Tintos: Quinta da Perdonda Dão DOC 1° Talhão (1948) 2018 (Premium Wines); Casa da Passarella O Fugitivo Vinhas Centenárias 2017 (Premium Wines); Quinta da Pellada 2016 (Mistral); Xisto Cru 2014 (Clarets)

Qualidade Preço: Susana Esteban em promoção na Adega Alentejana

O Tempo, a Obsessão e o Solista: A Filosofia Krug e a Narrativa de Quatro Safras

11 de Dezembro de 2025

No rarefeito universo dos vinhos, a Maison Krug ocupa uma posição diferenciada, seja nas borbulhas, seja entre vinhos tranquilos. É muito mais que quatro letras. Representa uma filosofia de tempo e individualidade que permanece inalterada desde sua fundação em 1843. Degustar uma sequência de safras como 1998, 2000, 2004 e 2006 de uma propriedade dessas é antes de tudo um privilégio e não é um exercício sensorial de comparação climática, mas uma imersão na visão de um homem que se recusou a aceitar a fatalidade das colheitas ruins. Para compreender o que está na taça durante essa degustação, com vinhos acima de 95 pontos, é preciso primeiro compreender a obsessão que forjou e se basear nos detalhes que John Gilman escreveu há alguns anos em uma visita à maison, em um artigo intitulado “A Bit More Detail on Champagne Krug”.

A história começa com Joseph Krug, um visionário nascido em Mainz que, após anos trabalhando na renomada casa Jacquesson, sentiu-se frustrado com a inconsistência da qualidade ditada pelos caprichos do clima em Champagne. Joseph dividiu sua produção em duas categorias distintas. A primeira, que ele chamou de Cuvée No. 1 (hoje a icônica Krug Grande Cuvée), seria a recriação anual da “Champagne perfeita”, uma orquestra sinfônica composta por mais de 120 vinhos de mais de 10 anos diferentes. A segunda, a Cuvée No. 2, seria o que hoje chamamos de Krug Vintage (ou Safrada).

Aqui reside a definição fundamental da filosofia Krug para suas safras: uma Krug Vintage não é criada apenas porque o ano foi “bom” ou tecnicamente perfeito. Um ano péssimo inviabiliza sua produção, mas é preciso mais. Ela é criada porque o ano tem uma história única a contar. Se a Grande Cuvée é a busca pela harmonia absoluta, a Krug Vintage é o momento do solista. É a interpretação de um ano específico através da lente intransigente da Krug.

Para compreender o peso de uma garrafa safrada da Krug, é preciso entender o rigor do momento de sua concepção. Segundo John Gilman, de View From the Cellar, a decisão de declarar um ano como “Vintage” não se baseia apenas na qualidade técnica. O Comitê avalia dois critérios supremos e inegociáveis:

  1. A Narrativa Única: A safra é expressiva o suficiente para contar uma “história única” através das lentes do artesanato Krug?
  2. A Integridade Estrutural (O Teste do Século): O vinho possui a estrutura necessária para evoluir graciosamente por uma janela de tempo extremamente longa? A Maison trabalha com a perspectiva de que uma Krug Vintage pode beber maravilhosamente bem por até um século. As decisões tomadas por Eric Lebel e Olivier Krug nas caves hoje serão julgadas pelos netos e bisnetos dos atuais clientes.

A filosofia da Krug dita que o vinho só é liberado quando está pronto para dar prazer, e não quando o mercado exige. Um exemplo clássico citado, que ilustra perfeitamente essa independência, foi o lançamento das safras de 1988 e 1989. Embora 1988 tenha vindo cronologicamente antes, o vinho apresentava-se “tenso, vivo e fechado” (tight and snappy) após seus dez anos regulamentares em cave. Em contrapartida, a safra de 1989, embora posterior, mostrava-se opulenta e generosa. A decisão da Maison? Inverter a ordem. A Krug lançou a 1989 primeiro e reteve a 1988 por vários anos adicionais nas caves de Reims, até que ela “desabrochasse”. Poucas casas no mundo teriam o capital financeiro e a disciplina para reter um estoque pronto em prol da perfeição sensorial.

Isso também explica a diferença da Krug 1989 para seus pares. Enquanto muitos Champagnes de 1989 de outros produtores eram maduros demais e já passaram do apogeu, a Krug 1989 mantém até hoje uma “espinha dorsal” de acidez e mineralidade que a preserva vibrante, provando que a seleção rigorosa de estrutura paga dividendos décadas depois.

Filosofia posta, o que une as safras de 1998, 2000, 2004 e 2006? O método. A Krug fermenta 100% de seus vinhos em pequenos barris de carvalho velho, boa parte deles com 20 anos de vida. O objetivo não é conferir sabor de madeira, longe disso, mas permitir uma micro-oxigenação que “imuniza” o vinho contra a oxidação futura, garantindo uma longevidade lendária.

A obsessão pelo detalhe é absoluta: cada parcela de vinhedo é vinificada separadamente. Um “Cru” não é tratado como um bloco monolítico; se uma parte do vinhedo tem uma exposição solar diferente, ela se torna um vinho separado. Essa abordagem “parcela por parcela” dá ao Chef de Cave e ao Comitê de Degustação, composto por seis pessoas, uma paleta de cores infinita para compor o retrato do ano. E, finalmente, há o tempo: uma Krug Vintage repousa nas caves de Reims por no mínimo dez anos antes de ver a luz do dia, desenvolvendo uma complexidade que poucos vinhos no mundo conseguem alcançar.

Ao analisar a sequência degustada, percebemos como a filosofia da casa se adapta para narrar quatro histórias climáticas radicalmente diferentes. A Krug atribui “apelidos” ou definições de personalidade para cada uma de suas safras, capturando a alma do vinho.

1998: Hommage au Chardonnay (Tributo ao Chardonnay) A safra de 1998 marca uma quebra de paradigma. Historicamente conhecida pelo domínio do Pinot Noir, a Krug viu-se diante de um ano de contrastes extremos: um agosto escaldante seguido de chuvas em setembro. Enquanto muitos produtores lutaram com a maturação, o Chardonnay da Krug, especialmente os vinhedos de Le Mesnil-sur-Oger, brilhou com uma pureza e frescor tão intensos que salvou o ano. O Comitê decidiu, em um gesto raro, dar ao Chardonnay o protagonismo absoluto (46% do corte). O resultado é um vinho de “classicismo e pureza”. Com quase três décadas de vida, está no seu platô. É a safra da precisão. Detalhe: apenas em 1981 o predomínio da Chardonnay foi tão expressivo no corte. Harmonização com codornas e morilles.

2000: Gourmandise Orageuse (Indulgência Tempestuosa) Se 1998 é a precisão clássica, 2000 é a generosidade caótica. O apelido “Tempestuosa” refere-se a uma temporada de cultivo imprevisível e difícil, que culminou em uma colheita que surpreendeu pela riqueza. A Krug 2000 é definida por sua opulência. É um vinho intenso e imediatamente gratificante e que, aos 25 anos, ainda esbanja juventude, eu a colocaria um degrauzinho acima da 1998. No nariz e na boca, explodem notas de caramelo, avelãs tostadas e frutas maduras. É uma safra que não pede licença; ela arrebata com acidez e um final longo. É o a maturidade com toque da juventude. É a prova de que o caos climático pode gerar um prazer profundo e hedonista. Harmonização com codornas e morilles.

2004: Lumière Fraîche (Luminosidade Fresca) Após o calor tórrido de 2003, o ano de 2004 trouxe um retorno ao equilíbrio e à frescura, mas com uma luminosidade fresca, cativante, pronta. A natureza foi generosa em quantidade e qualidade, permitindo que as uvas amadurecessem mantendo uma acidez elétrica. A Krug definiu esta safra como “Lumière Fraîche” para capturar sua tensão vibrante. A 2004 é estruturada e brilhante. O nariz é dominado por gengibre, frutas cítricas cristalizadas e um toque mentolado. Na boca, é vertical, direta e cristalina. Enquanto a 2000 é horizontal e ampla, a 2004 é um raio, prometendo uma evolução lenta e graciosa nas próximas décadas. Difícil resistir à sua juventude expansiva hoje. Ela tem um quê da 2002 (talvez a melhor da última década), mas em uma esfera inferior. Harmonização com vieiras e beurre blanc.

2006: Caprice Indulgent (Capricho Indulgente) Fechando a sequência, a safra de 2006 apresenta uma personalidade que flerta com o exagero, mas com a sofisticação da Krug. Foi um ano quente, com períodos secos e chuvosos intercalados, resultando em uvas de grande maturidade e concentração. Na definição da casa, “Caprice Indulgent” reflete um vinho que é redondo, generoso. Nesse caso, a garrafa não mostrou isso, um vinho ainda fechado, contido, como se fosse um Chevalier Montrachet de madame Leflaive ou o Bouchères de Jean Marc Roulot. Na sua infância Diferente da tensão elétrica da 2004 ou da elegância contida da 1998 ou do arrebatamento da 2000, a 2006, tímida, talvez esteja em sua transição. Harmonização com aves.

Degustar as quatro safras lado a lado é testemunhar a aplicação prática da filosofia de Joseph Krug. Não se trata de buscar um padrão imutável — para isso existe a Grande Cuvée — mas de permitir que o terroir e o clima ditem a narrativa. Da elegância focada no Chardonnay de 1998 à opulência tempestuosa de 2000, passando pela luminosidade vibrante de 2004 e chegando timidez de 2006, a Krug demonstra que uma “safrada” não é apenas um vinho datado; é a captura líquida da memória de um ano, imortalizada pela paciência e pela arte do assemblage.

Como dizia o Nelson, “me perdoem Selosse e os amantes das independentes, mas Krug é Krug”. Em tempos em que Montrachets de primeiro nível saem a mais de US$ 3 mil a garrafa, essas champagnes se tornam um refúgio seguro.

Como também dizia o Nelson: “É fácil agradar. Basta servir o melhor. Krug.”

John Gilman, as reflexões de um crítico de vinhos 2

11 de Dezembro de 2025

O paladar global está caminhando para uma tendência nos vinhos brancos. Vejo muitas pessoas buscando vinhos mais tensos, com acidez mais evidente. Vemos essa tendência na Borgonha e em todo o mundo. Jean-Louis Chave diz que hoje em dia é difícil vender o Hermitage Blanc. Como você vê isso?

A mudança na preferência dos consumidores por vinhos brancos mais frescos e vivos é um ótimo sinal, e é maravilhoso ver que tantos produtores também estão seguindo essa direção, elaborando vinhos com tanta precisão, mineralidade e tensão estrutural.

Concordo que os apreciadores de vinho hoje estão em busca de vinhos brancos mais crocantes, vibrantes e leves no palato, que, simplesmente, funcionam melhor com uma gama mais ampla de alimentos. Às vezes olho para trás e me pergunto como conseguia beber todos aqueles vinhos brancos mais ricos, pesados e macios na juventude, pois realmente os amava nos meus primeiros anos bebendo vinho!

Mas, voltando à declaração de Jean-Louis sobre a dificuldade de vender o Hermitage Blanc hoje, sou velho o suficiente para lembrar o quão difícil era vendê-lo na década de 1980, quando os vinhos eram mais crocantes e frescos do que são hoje, já que o aquecimento global ainda não havia começado a se impor em Hermitage. Gérard Chave, pai de Jean-Louis, fazia Hermitage Blanc absolutamente deslumbrantes naquela época — e ainda assim era praticamente impossível vender seus brancos. Eu frequentemente tinha duas ou três safras de Chave Blanc encalhadas nas prateleiras da loja.

E os preços naquela época eram verdadeiras pechinchas: Hermitage Blanc e Rouge de Chave custavam sempre o mesmo valor, por volta de US$ 35 a garrafa. Mesmo com os preços subindo um pouco no final da década, eu comprei uma caixa de Hermitage Rouge de Chave para minha adega todos os anos entre 1989 e 1997, porque era um dos maiores valores entre os vinhos tintos do mundo. Suspeito que Jean-Louis conseguiria vender todas as garrafas de vinho branco que produz hoje — se fossem vendidas por aqueles preços antigos!

Dito isso, o aquecimento global mudou completamente o Hermitage Blanc desde meados dos anos 1990, e o vinho agora é tão encorpado, opulento e relativamente alcoólico que provavelmente sou uma das poucas pessoas que nem o compraria para minha adega, mesmo a US$ 35 por garrafa. Simplesmente não gosto deles tão pesados e intensos. Antigamente, o Hermitage Blanc de Gérard Chave era tão fechado e estruturado em sua juventude — embora ainda fosse um vinho grande — que precisava ser guardado por no mínimo dez a quinze anos antes que alguém realmente pudesse apreciá-lo. Era simplesmente monolítico e impenetrável antes disso.

Participei de uma degustação vertical de Hermitage da Chave aqui em Nova York alguns anos antes da pandemia, e foi impressionante como os estilos dos vinhos brancos de Jean-Louis e de seu pai eram dramaticamente diferentes. Claro que parte disso se deve ao aquecimento global. Mas também devemos reconhecer que Hermitage Blanc e Hermitage Rouge jamais deveriam ter sido vendidos pelo mesmo preço, pois, para o meu paladar, os tintos são simplesmente vinhos intrinsecamente superiores — e a distância entre a qualidade final do Blanc e do Rouge parece aumentar a cada ano de mudança climática.

Para mim, hoje é em Saint-Péray que se produzem os melhores vinhos brancos do norte do Rhône, pois o clima lá é mais fresco, o que facilita muito a obtenção do corte, da frescor e da tensão nos vinhos — exatamente o que você observou com sabedoria ser a preferência do mercado atual.

Há muitos bons produtores e vinhos bem precificados ao redor do mundo. Qual é o seu conselho? O que você diria aos novos apreciadores? Explorar novas regiões?

Com certeza. Ainda há muitos vinhos excelentes sendo produzidos hoje em dia a preços razoáveis. Então, um jovem apreciador pode construir uma adega brilhante para os próximos anos simplesmente focando nos melhores produtores de regiões que ainda não enlouqueceram nos preços.

Você mencionou a família Chermette em Beaujolais. Tenho muito Cru Beaujolais na minha adega atualmente e gostaria de ter comprado mais no início da minha jornada como colecionador. Comecei a vender os vinhos de Pierre-Marie Chermette na safra de 1988, então os conheço há muito tempo — e sempre foram excelentes, com grande capacidade de envelhecimento. Beber um exemplo plenamente maduro de Cru Beaujolais de um dos principais produtores é algo maravilhoso, e hoje existem muitos deles: a família Chermette, Clos de la Roilette, Jean-Paul Brun, Pauline Passot, Château Thivin, Domaine des Billards, Daniel Bouland, Domaine du Pavillon de Chavannes são apenas alguns dos vignerons e vigneronnes que estão fazendo vinhos absolutamente deslumbrantes, dignos de serem guardados por dez a trinta anos.

E agora também temos algumas das melhores vinícolas da Côte d’Or produzindo Beaujolais. Joseph Drouhin sempre fez um excelente Beaujolais, e ele envelhece muito bem. Ainda estou bebendo os Crus de 2009 e 2010 da Drouhin da minha adega. Louis Boillot, Chantal e Frédéric Lafarge também estão fazendo Cru Beaujolais de alto nível para envelhecer.

Na Espanha, fora dos nomes mais consagrados e antigos, ainda é possível encontrar vinhos com ótimo custo-benefício — especialmente em regiões emergentes como a Galícia e as montanhas da Serra de Gredos. Você mencionou os vinhos de Alberto Nanclares, cujos Albariños são verdadeiramente mágicos e envelhecem facilmente por dez a vinte anos. E há outros grandes produtores de Albariño além de Alberto e sua esposa Silvia Prieto. Adoro os vinhos da Adegas Zárate, Palacio de Fefiñanes, Adegas Gran Vinum, Bodegas La Val, Do Ferreiro e vários outros. Suas cuvées de topo envelhecem lindamente e são excelentes investimentos. E, ao meu ver, os melhores vinhos da Galícia hoje estão sendo feitos em Ribeira Sacra e Bierzo.

Eulogio Pomares, da Adegas Zárate, iniciou um novo projeto em Ribeira Sacra chamado Quinta do Estranxeiro — e os vinhos são impressionantes (tanto os brancos quanto os tintos), com preços bastante acessíveis. Produtores como Envínate e Guímaro já são relativamente bem conhecidos por seus ótimos tintos da Ribeira Sacra — um pouco mais caros, mas ainda assim verdadeiras barganhas se comparados a preços de regiões mais famosas. A Adegas Algueira também faz vinhos excepcionais, mais uma vez, tanto brancos quanto tintos. E gosto bastante dos vinhos de produtores como Adega Damm, Castro Candaz, Divina Clementia e Dominio do Bibei.

Já em Bierzo, há pelo menos tantos bons produtores quanto em Ribeira Sacra — liderados por Raúl Pérez, Ricardo Pérez da Descendientes de José Palacios, Luna Beberide e a Virgen del Galir, vinícola do grupo Cuné em Valdeorras, que também está produzindo vinhos excelentes com preços relativamente muito acessíveis.

Você também mencionou Éric Texier. Adoro os vinhos do Éric e tenho vários na minha adega. Ele sempre foi particularmente atento à relação qualidade-preço, e, em especial, seus vinhos de Brézème estão entre os maiores achados do Vale do Rhône.

E você também citou os vinhos da Schloss Lieser. A Alemanha tem inúmeros grandes produtores hoje em dia e, como mencionei antes, até agora eles têm se saído relativamente bem na corrida contra o aquecimento global. É possível comprar vinhos no estilo clássico meio seco com ótimo preço, de produtores como Weingut Willi Schaefer — ou Rieslings secos ou doces de uma longa lista de vinícolas que estão no auge: Schloss Lieser, Julian Haart, Dönnhoff, Weiser-Künstler, Schäfer-Fröhlich, a família Zilliken, Maximin Grünhauser, entre muitos outros. Com certeza estou esquecendo dezenas que mereciam estar nessa lista.

Os vinhos alemães ainda representam ótimos valores hoje em dia, fora alguns dos nomes mais badalados. Portanto, esses vinhos seriam a base da minha adega se eu estivesse começando agora, jovem. O Riesling envelhece tanto quanto a maioria dos tintos — e melhora drasticamente com o tempo em adega — então há muitos tesouros a serem descobertos no futuro por aqueles que tiverem a sabedoria de comprá-lo agora.

Um dos maiores impactos de Robert Parker no mundo do vinho foi que muitas vinícolas e consultores passaram a fazer vinhos encorpados e potentes para garantir boas notas. Isso acabou? Ou Parker foi substituído pela “ansiedade” — já que no Brasil, por exemplo, muitas pessoas não querem esperar 10, 15 ou 20 anos para beber um grand cru, um Bordeaux ou um Vega?

Essa foi uma fase triste da, de outro modo, muito respeitável carreira de Robert Parker — quando seu paladar se deteriorou a ponto de ele passar a adorar vinhos grandes, alcoólicos e sobremaduros. Tenho uma teoria de que o desenvolvimento da gota teve algo a ver com isso, pois minha intuição me diz que os medicamentos que ele tomava para controlar a gota afetaram negativamente seu paladar na última década de sua atividade como crítico. Não sei se isso é um fato. Mas parece que o início da gota e sua paixão por vinhos mais alcoólicos e maduros coincidem no tempo.

De qualquer forma, não há dúvida de que produtores em regiões onde a influência de Parker era crucial para o sucesso financeiro começaram a moldar seus vinhos unicamente para impressionar esse novo paladar dele. Pessoas como Michel Rolland foram rápidas em capitalizar essas mudanças — e fizeram fortunas atendendo ao gosto de Parker naquela época. Pode-se até argumentar que Bordeaux nunca se recuperou disso. Helen Turley fez algo semelhante na Califórnia, aproveitando-se do apreço de Parker por seu estilo de vinho — e muitos proprietários gananciosos de vinícolas foram rápidos em contratá-la para aproveitar esse favoritismo. Isso funcionou bem para Rolland, Helen, Parker e os donos de vinícolas — mas deixou muitos colecionadores com adegas cheias de vinhos medíocres, na minha opinião.

Indo para a outra parte da sua pergunta, a relutância atual dos consumidores em envelhecer vinhos é uma das grandes questões incertas do nosso tempo. Isso é bom para o mundo do vinho ou é ruim?

Compreendo totalmente o impulso de querer beber vinhos cedo — também abri muito mais vinhos da safra 1985 da Borgonha nos primeiros anos do que deveria. Se eu tivesse guardado esses vinhos até hoje, com certeza estaria em ótima situação! Vou usar como desculpa o fato de que a safra de 1985 foi um ponto de virada na minha carreira no comércio de vinhos. A loja para a qual eu comprava vinhos na época nunca havia oferecido vinhos de alto nível da Borgonha antes de me contratar. Aí veio a safra de 1985 e eu arrisquei: achei que, se comprássemos os vinhos, os amantes da Borgonha encontrariam a loja. E foi exatamente o que aconteceu — embora meus chefes quase me demitissem quando viram os preços!

Mas eles me deram a chance de vender antes — e vendemos rapidamente. Alguns desses novos clientes me convidaram para entrar em um grupo de degustação às cegas. Eram, em sua maioria, médicos vinte ou trinta anos mais velhos que eu (eu tinha 26 anos na época), com adegas profundas, repletas de grandes vinhos. Lembro de alguns dos voos de vinhos do primeiro encontro: uma rodada com BV Private Reserve 1970 ladeado por Mouton e Pétrus da mesma safra; outra com Bonnes-Mares 1969 de Roumier ao lado de Richebourg 1969 de Jean Gros. Aprendi muito com esse grupo.

Mas eu precisava ter algo à altura para servir quando era minha vez de organizar uma degustação. Por isso, muitos dos meus melhores vinhos de 1985 da Borgonha foram servidos a esses médicos, pois eram deliciosos ainda jovens — e me permitiam retribuir a generosidade deles com algo igualmente deslumbrante.

Talvez eu não tivesse desenvolvido a mesma paixão por vinhos plenamente maduros se não tivesse sido incluído nesse grupo de degustação. Muita gente no comércio de vinhos se contenta em beber vinhos jovens — provam vinhos o dia inteiro e sempre sobra alguma garrafa aberta para levar para casa. Mas acho isso uma pena, pois vinhos clássicos, feitos de forma tradicional, são infinitamente mais complexos e gratificantes após dez ou vinte anos de adega. Depois que você tem essa experiência, é difícil voltar e encontrar o mesmo prazer em vinhos jovens — pelo menos para mim.

Mas a equação hoje é mais complicada. Primeiro, o vinho está muito mais caro. É muito mais difícil montar uma adega se você não for rico. O custo de vida subiu drasticamente nas últimas três décadas, e cada vez menos pessoas têm renda disponível para guardar caixas de vinho por 20 anos. Eu cresci na classe média, mas consegui formar uma adega porque, na época, o vinho ainda era acessível. Uma garrafa de Lynch-Bages 1985 custava US$ 18, e o Pichon-Lalande da mesma safra, US$ 22. Mesmo com um salário modesto, eu conseguia guardar algumas garrafas para longo prazo. A primeira garrafa de Chambertin de Rousseau que comprei (e foi um grande esforço!) custou US$ 65. Mas eu economizava em outras coisas — quase não tirava férias e nunca tive um carro novo. Mesmo hoje, dirijo bons carros — mas sempre usados.

Se eu estivesse começando agora, com o mesmo tipo de sacrifícios e salário, provavelmente conseguiria comprar uma fração mínima do que comprei nos anos 1980 e 1990. A não ser que focasse em outras regiões, diferentes de Bordeaux, Borgonha, Rhône e Califórnia.

Por isso faz total sentido que tantos jovens queiram beber seus vinhos especiais logo. Se gastam uma fortuna em uma garrafa, não querem enterrá-la na adega por 15 anos. O problema é que, se o vinho for clássico em estilo, ele foi feito para envelhecer — e não estará nem perto de seu melhor se aberto cedo.

E é importante reconhecer que o número de vinhos clássicos está crescendo nos últimos tempos, pois cada vez mais jovens enólogos querem deixar para trás a era Parker e retornar a vinhos estruturados de maneira tradicional. É por isso que os grandes produtores tradicionais de Rioja prestam um grande serviço aos consumidores — ainda fazem boa parte do envelhecimento em garrafa antes de lançar seus vinhos. Os preços subiram, claro — alguns mais do que outros —, mas ao menos permitem que o consumidor beba vinhos já maduros e entenda do que se trata.

Se voltarmos à máxima de Henri Jayer — de que tudo o que é grandioso em um vinho nasce no vinhedo, e não na adega —, podemos traçar uma linha entre os dois grandes estilos de vinho atuais. Um deles é o vinho feito no vinhedo, geralmente por jovens inspirados que buscam resgatar a era de ouro dos vinhos tradicionais. Um ótimo exemplo é o casal Sean e Joanna Castorani, da Model Farm, na Califórnia — jovens produtores que compreendem o valor dos vinhos clássicos e seguem esse caminho.

O outro grupo são os modernistas, que fazem vinhos na adega, ajustando tudo para que estejam prontos para beber jovens. Penso neles como os “produtores de fast food do vinho” — moldam seus produtos com técnicas de adega da mesma forma que McDonald’s ou Nabisco. São filosofias completamente diferentes. E eu, pessoalmente, acho a abordagem tradicionalista muito mais atraente.

Mas ela exige consumidores que entendam, apreciem e estejam dispostos (e possam) dar tempo ao vinho — porque os vinhos tradicionais são sempre mais estruturados quando jovens. E, sinceramente, não sei quantos jovens consumidores hoje compreendem isso e estão dispostos a esperar que esses vinhos desabrochem. Lembre-se: a maioria dos adultos hoje tem uma atenção de apenas sete segundos… por causa dos celulares!

O jornalismo de vinhos passou por muitas mudanças. O Wine Advocate foi comprado pelo Michelin, o Vinous organiza muitos eventos no X e no Instagram há muitos “críticos de vinho”. Como você vê essa tendência e seu impacto, considerando também que escrever sobre vinhos exige viagens, degustações — ou seja, custa caro? Está se tornando mais difícil manter a imparcialidade?

Mais uma vez, provavelmente não sou a melhor pessoa para responder a essa pergunta agora, já que não leio nenhum outro crítico ou jornalista de vinhos atualmente. Mas eu lia absolutamente tudo que era publicado quando trabalhava como comerciante e sommelier. Então eu sei muito bem como era “naquela época”.

Na verdade, foi a escrita de Robert Parker, no início de sua carreira, que realmente me fez considerar o comércio de vinhos como uma possível profissão. Eu lia The Wine Advocate de capa a capa a cada edição e ficava imaginando como seria provar todos aqueles vinhos históricos e grandiosos que ele descrevia. Vinhos como o Hermitage “La Chapelle” 1961 de Jaboulet, ou o Château Pétrus 1961, sempre mexiam com a minha imaginação. Eu queria experimentá-los.

Mas, como você corretamente apontou, mesmo naquela época já custava caro beber esses vinhos lendários — e hoje está ainda pior. Agora, tudo que é famoso no mundo do vinho tem preço voltado exclusivamente para os oligarcas do Putin ou o LeBron James e seus amigos!

Então, se alguém quiser entrar para o jornalismo de vinhos hoje, ou já vem de uma família rica e não precisa se preocupar com dinheiro, ou precisa criar um modelo de negócios que gere bastante receita para bancar todas as viagens e vinhos caros que precisa provar. Provavelmente tive sorte de nascer na época certa, pois mesmo os vinhos mais famosos não eram tão caros quando comecei na profissão, nas décadas de 1980 e 1990. À medida que fui ganhando experiência e reconhecimento, mais oportunidades surgiram para provar alguns dos maiores vinhos da história.

Hoje em dia, é por isso que vemos mais críticos de vinho organizando “eventos” — é uma maneira de ganhar dinheiro sério. Mas, para isso, é preciso cobrar caro — e muitas vezes os críticos dependem de “doações” das vinícolas para fornecer os vinhos para os eventos. Isso cria um conflito de interesse inerente logo de saída.

Além disso, os preços elevados desses eventos acabam excluindo uma porcentagem significativa de possíveis clientes, de modo que, no fim, você acaba cuidando apenas da elite super rica, pois seu modelo de negócios exige isso. E essa elite endinheirada pode ser facilmente ofendida — especialmente se for dona de vinícolas. Assim, a autocensura acaba se tornando inevitável em certas circunstâncias, caso o crítico escolha seguir esse caminho. Tudo vai bem… até chegar uma safra catastrófica como 2003 em Bordeaux!

De certa forma, fui afortunado por ter me apaixonado pela Borgonha muito cedo na carreira. Na época, a Borgonha era sempre considerada uma região “complicada” — o que, para mim, era parte de sua grande atração. Sempre haveria mais para aprender. E, como havia pouquíssima literatura de qualidade sobre Borgonha nos anos 1980, eu sempre imaginei que havia muito abaixo da superfície que os críticos da época simplesmente não compreendiam o suficiente para captar. E, de fato, isso se confirmou.

Como comerciante, vendi muitos grandes Borgonhas antigos a preços relativamente baixos durante a década de 1990, simplesmente porque a maioria dos profissionais do ramo — e praticamente todos os críticos — não entendiam os vinhos da região ou suas safras. Safras como 1972 foram minas de ouro para mim em meados dos anos 1990, pois ainda havia vinhos circulando nas adegas, e ninguém sabia o quão bons tinham se tornado após mais de vinte anos. O mesmo com os tintos de 1980, e os de 1987 — que eram vinhos médios, belíssimos, completos, mas que o mercado nova-iorquino não conseguia vender. Os importadores então liquidavam esses estoques, esperando compensar com margens maiores nas safras de 1988, 1989 e 1990.

Lembro de ter vendido centenas de caixas combinadas de Rousseau Chambertin e Clos de Bèze 1987 e Drouhin Musigny 1987 por US$ 40 a garrafa por volta de 1992–1993. Imagine conseguir esse volume desses vinhos hoje! Mas os importadores simplesmente não sabiam o quão bons eles eram.

Vender muito Borgonha me abriu as portas para degustações de altíssimo nível naquela época, o que me ajudou a desenvolver um conhecimento profundo de vinhos muito além da minha faixa salarial. Hoje isso seria impossível, a menos que a pessoa já fosse muito rica.

Por isso, realmente não sei qual será o futuro para os jovens que aspiram escrever sobre vinhos. Falar sobre os vinhos mais famosos do mundo — Latour, Lafite, La Tâche, Musigny — será praticamente impossível, a menos que você ou sua família já sejam ricos. Esses vinhos estão simplesmente caros demais. Isso significa que uma parte importante da memória institucional do mundo do vinho está condenada a desaparecer para os novos escritores — e isso já está acontecendo até certo ponto.

Quando conheço jovens críticos em degustações, fica evidente que eles não conhecem muitos desses vinhos. Como poderiam, com os preços de hoje?

Veja os Premier Crus de Bordeaux. Nos anos 1980, custavam cerca de US$ 75 por garrafa nos EUA (menos na Europa). Então dava para se dar ao luxo de comprar uma garrafa jovem e entender por que esses vinhos eram tão famosos. Hoje, uma garrafa de Lafite 2019 custa no mínimo US$ 500 ou US$ 600. Isso está completamente fora do alcance da maioria dos jovens — e o resultado é que eles simplesmente ignoram os vinhos de Bordeaux por completo.

Essa é uma das verdades que percebi ao longo das décadas no comércio de vinhos: se os jovens não conseguem ao menos provar os grandes vinhos de uma região, eles param de prestar atenção em todos os vinhos daquela região. Eles não querem se sentir sentados “na mesa das crianças”, do lado de fora de um restaurante estrelado, sendo servidos com McDonald’s — enquanto veem os ricos saboreando alta gastronomia pelas janelas!

Além disso, devemos lembrar que os Premier Crus de Bordeaux viraram ativos de investimento. Um cara do mercado financeiro compra cem caixas de cada um dos Premier Crus de uma safra badalada como 2010 ou 2019 e simplesmente deixa em um armazém até que se valorizem o suficiente para ele revender com lucro. Ele nem se importa se o vinho é bom ou não!

Nos anos 1990, você estava tão acostumado a beber vinhos do Coche-Dury que chegou a brincar: “Perrières de novo?”. Aqueles eram os bons tempos. Se você pudesse escolher 5 grandes garrafas que bebeu na vida, quais seriam?

Por um lado, essa é uma pergunta muito difícil para mim, já que certamente fui abençoado por ter bebido muitos vinhos verdadeiramente mágicos ao longo da minha longa carreira. Mas, se tiver que escolher um grande vinho que ainda se destaca, seria, sem dúvida, o Musigny “Vieilles Vignes” 1945 do Domaine Comte de Vogüé.

É até uma história curiosa. Na época, eu trabalhava como comerciante em uma loja de vinhos em Manhattan, cujo dono era particularmente mesquinho e corrupto. Esse homem me ensinou muitas lições de vida — e nenhuma delas foi boa! Mas ele gostava de ganhar dinheiro, então me deixava fazer cerca de dois terços das compras da loja. A equipe costumava brincar que havia duas lojas dentro da loja: a loja dele, cheia de vinhos ruins, e a minha loja, repleta de tesouros do mundo do vinho.

Em certo momento, ele recebeu duas garrafas do Musigny 1945 de um fornecedor do mercado cinza em Londres, como compensação por um lote que havia chegado com menos garrafas do que o acordado. Quando as garrafas chegaram, estavam com nível baixo (cerca de 7 cm de ullage). Ele ligou para o fornecedor, recebeu um crédito pelas garrafas — e elas simplesmente ficaram paradas no estoque, sem serem vendidas.

Li a nota apaixonada de Michael Broadbent sobre esse vinho e fiquei curioso. Observei a cor das garrafas — já tinham cerca de 50 anos — e estavam perfeitas: vermelho cereja vibrante, cristalinas. Presumi que estavam em bom estado e ofereci comprá-las. Ele achou que estava me passando a perna e me vendeu as duas por US$ 125 cada.

Não queria abrir um vinho potencialmente grandioso sem amigos para compartilhar, então organizamos uma degustação em grupo com esse tema em Manhattan. Ainda me lembro de alguns dos vinhos que os amigos trouxeram para acompanhar o Musigny 1945: Clos Vougeot 1985 de Dr. Georges Mugneret, Musigny “Vieilles Vignes” 1972 do Comte de Vogüé, Bonnes-Mares 1966 do mesmo produtor, e um Richebourg 1980 da DRC. Nosso grupo sempre servia os vinhos do mais jovem ao mais antigo — então o 1945 foi o último a ser aberto.

O vinho estava perfeito! O perfume era tão doce e vibrante que encheu a sala assim que o vinho foi decantado. Continua sendo, até hoje, um dos maiores vinhos que já bebi. Acabei compartilhando a segunda garrafa com aquele grupo de médicos que me acolhera anos antes, num jantar de Natal alguns meses depois. Foi uma forma de agradecer pela generosidade deles ao longo dos anos — e essa segunda garrafa também estava perfeita.

Outra memória que certamente está entre as maiores foi o meu primeiro Henri Jayer da safra de 1985. O problema é que, nesse jantar, tivemos não apenas um, mas três vinhos de 1985 de Jayer, todos em um restaurante em Gevrey-Chambertin chamado Les Millésimes (hoje fechado). O restaurante tinha o Vosne-Romanée “Les Brûlées”, o Cros Parantoux e o Echézeaux de 1985 na carta — e organizamos um jantar com gente suficiente para provar os três juntos!

Naquele ponto da minha carreira, eu já havia provado vários vinhos de Jayer, mas principalmente de safras como 1987, 1982 e 1980 — que eram mais acessíveis. Todos brilhantes. Mas beber os três 1985 lado a lado foi um dos momentos mais marcantes da minha vida como apreciador.

Também devo mencionar um jantar de aniversário de 50 anos de um amigo, que organizamos há uns vinte anos. Cada um foi convidado a levar uma garrafa especial para compartilhar. Eu levei um Cros Parantoux 1990 de Méo-Camuzet — então já dá para imaginar o nível das garrafas na mesa.

Mas um dos convidados levou um Cabernet Sauvignon 1974 da Mayacamas, e o vinho foi uma das estrelas da noite! Isso reacendeu minha paixão por esses clássicos cabernets de Napa, que havia ficado adormecida por mais de vinte anos, já que meu foco profissional era a Borgonha. Mas, nos meus primeiros anos, esses vinhos tradicionais de Napa foram minha primeira paixão — e aquele 1974 me lembrou de sua grandeza.

Depois disso, comecei a escrever sobre essa era dourada dos cabernets e passei a comprar muito Mayacamas. Conheci Bob Travers enquanto escrevia sobre seu trabalho, e contei a ele essa história. Ele ficou muito feliz — sempre tive a impressão de que o trabalho dele foi pouco reconhecido pela geração dele. Os holofotes estavam sobre gente como Robert Mondavi, mestre das relações públicas. Já Bob Travers ficou quieto no Mount Veeder, fazendo os maiores cabernets da história da Califórnia — e quase ninguém percebeu.

Outra grande memória foi um jantar em Manhattan só com vinhos antigos da margem direita de Bordeaux, realizado perto do meu aniversário. O jantar era absurdamente caro para mim na época, mas a lista de vinhos era inacreditável: Cheval Blanc 1947 e 1949, Latour à Pomerol 1949 e 1961, Lafleur 1950 e outra safra, e Pétrus 1950 e 1961 — todos servidos em magnum. Para bancar isso, vendi meu pequeno estoque de Musignys jovens do Comte de Vogüé (1990, 1991 e 1993). Foi um ótimo negócio! Foi a única vez que provei o Pétrus 1961.

Mais ou menos na mesma época, organizei um jantar com Christophe Roumier em sua casa, em Chambolle-Musigny. Cada convidado levou uma garrafa especial. Começamos com um Meursault “Perrières” 1990 da Coche-Dury, e eu levei um Chambolle-Musigny “Les Amoureuses” 1962 da Joseph Drouhin. Tivemos vários outros grandes vinhos — e então Christophe abriu suas contribuições: Bonnes-Mares 1945, 1934 e 1928!

E preciso incluir minha lembrança mais recente de um “grande vinho”: foi no final da minha viagem à Borgonha, interrompida em dezembro de 2023. Você talvez se lembre — precisei ser hospitalizado logo após chegar a Beaune, com uma embolia pulmonar. Quase perdi a vida naquele dia — e foram os excelentes médicos do hospital de Beaune que me salvaram.

Eles insistiram que, depois de sair do hospital, eu não fizesse nada além de descansar. Sem degustações, sem jantares sofisticados — só repouso para me recuperar e estar forte o bastante para o voo de volta. Robert Drouhin e sua esposa souberam da minha hospitalização e me convidaram para almoçar com eles no dia anterior ao meu retorno. O filho deles, Philippe, também se juntou.

Robert Drouhin é uma das figuras mais importantes de sua geração na Borgonha. Muito do sucesso atual da região está ligado ao trabalho que ele e seus contemporâneos fizeram para ajudar a Borgonha a se reerguer após a devastação da Segunda Guerra Mundial. Eu já havia feito uma entrevista com ele no início daquele ano, o que me permitiu conhecê-lo melhor. Já tinha grande apreço pelos vinhos e pela importância da família Drouhin, mas a entrevista me ajudou a compreender como a região era diferente quando ele começou a comandar a maison e como os tempos eram difíceis no pós-guerra.

Foi com eles que almocei, com frango assado e queijos, acompanhados de um Musigny 1962 — um dos meus vinhos favoritos de todos os tempos. Foi um ótimo dia para estar vivo em Beaune.

12) Se você fosse sommelier hoje e fosse convidado a harmonizar vinhos com o menu servido no filme “A Festa de Babette”, quais seriam suas escolhas? (Clos Vougeot, com certeza — de quais produtores? Anne Gros, Mugneret-Gibourg, Hudelot-Noëllat — se li bem… Champagne Blanc de Blancs de quem? Jerez etc.)

Fico muito feliz por você ter feito essa pergunta — porque ela me lembrou que não assisto A Festa de Babette há uns 25 anos! Vou fazer questão de assistir de novo em breve. Sempre amei esse filme.

Considerando que Babette era uma grande chef francesa no filme, eu gostaria de manter a coerência cultural da narrativa e harmonizar os pratos com vinhos franceses, como ela mesma fez. Seria divertido escolher os vinhos mais espetaculares possíveis para acompanhar cada prato, mas isso iria contra tudo o que discutimos aqui sobre o quanto é triste que os vinhos mais famosos estejam hoje absurdamente caros.

Então aqui vai um cenário de harmonizações possível, com vinhos atuais que complementariam lindamente a cozinha da Babette — sem precisar esvaziar completamente a conta bancária:


Potage à la Tortue (sopa de tartaruga)

Champagne Corbon “Brut d’Autrefois” Blanc de Blancs NV

Sei que é servido um Amontillado no filme, mas eu começaria com um Champagne — e com características de envelhecimento. Essa cuvée de base solera feita por Agnès Corbon oferece exatamente isso.


Blinis com caviar e crème fraîche

Louis Roederer Brut Rosé Millésime 2008

Tendo começado com um Blanc de Blancs, agora eu gostaria de trazer mais presença de Pinot Noir para o Champagne. O Rosé Millésime da Roederer é tão elegante e vibrante que funcionaria perfeitamente aqui — e ainda antecipa o Clos Vougeot envelhecido que virá a seguir.


Codornas em massa folhada com foie gras e molho de trufas

Clos Vougeot 2000 – Domaine Georges Mugneret-Gibourg

Sei que esse vinho é caro hoje em dia, mas não queria quebrar o encanto do filme escolhendo um Clos Vougeot que não seja envelhecido. Pelo menos a safra 2000 não está entre as mais caras. E o Clos Vougeot tem que ser das irmãs Mugneret, porque elas fazem, hoje, o maior exemplo desse vinhedo em toda a Borgonha.


Salada de endívias

Sancerre “Monts Damnés” 2008 – Domaine François Cotat

A safra 2008 ainda está disponível no mercado, porque foi um ano menos maduro e, portanto, menos valorizado pelo mercado. Mas eu prefiro essas safras menos quentes para os vinhos do Cotat hoje em dia — e os tons herbáceos e botânicos do Monts Damnés, com a maturidade de 2008, seriam uma harmonização lindíssima com a endívia.


Bolo de rum com figos e cerejas cristalizadas

Château Climens 1988

Os Sauternes e Barsac envelhecidos ainda são relativamente fáceis de encontrar no mercado, então seria um desperdício servir um vinho mais jovem aqui. Adoro a elegância e leveza do Climens — cairia perfeitamente com a sobremesa.


Queijos curados (fromages affinés)

Domaine Huet “Clos de Bourg” Moelleux Première Trie 1989

Depois do Barsac com o bolo de rum, seria difícil voltar a um vinho seco. Então, mudaria de uva — e de região — e optaria por um Vouvray igualmente envelhecido. Os vinhos da Huet têm mais acidez, o que deixaria o paladar mais revigorado e equilibrado para o final do jantar.

Você já bebeu vinhos da América do Sul? Qual é a sua opinião?

É engraçado, porque eu conhecia e vendia razoavelmente bem os vinhos sul-americanos na época em que trabalhava como comerciante de vinhos, mas acabei perdendo o contato com o que vem acontecendo por lá depois que passei para a fase de escritor.

É uma pena, pois só cheguei a ver o início da renascença vinícola da região. Naquela época, eu vendia principalmente vinhos como Los Vascos, Santa Rita e Trapiche. Tive o bom senso de começar a oferecer os vinhos da Bodegas Weinert assim que ficaram disponíveis em Nova York — mas mesmo esses vinhos eram apenas a ponta do iceberg. Tenho certeza de que há muitos vinhos muito mais sérios sendo produzidos atualmente em toda a América do Sul, por parte dos melhores produtores.

Fui convidado para uma viagem ao Chile logo no início da minha carreira com a View From the Cellar, mas acabei pegando uma gripe e não pude ir. E, desde então, nunca mais tive a oportunidade de visitar a região. É uma grande lacuna no meu conhecimento de vinhos, e lamento não ter tido a chance de visitar antes de desenvolver Covid Longa, porque hoje é muito difícil para mim viajar — não consigo me imaginar fazendo uma viagem de degustação à América do Sul nas condições atuais.

Mas quem sabe, um dia, eles descubram um tratamento eficaz para todos nós que ainda sofremos com sintomas de Covid Longa ao redor do mundo — e eu finalmente terei a chance de visitar.

John Gilman, as reflexões de um crítico de vinhos (1)

11 de Julho de 2025

No início dos anos 2000, na primeira viagem à Borgonha, em visita a Frédéric Mugnier, em companhia de um grupo de franceses que tinha alocação anual do domaine, a conversa, ao término da degustação, recaiu sobre críticos de vinhos. Queriam saber do brasileiro que estava ali o que ele achava de críticos da Inglaterra, Estados Unidos e França. Citei minhas preferências — naquele momento Stephen Tanzer, Clive Coates e a idiossincrática LARVF. Um dos franceses disse que sentia falta de John Gilman na minha lista. Eu disse que não conhecia. Mugnier disse que Gilman escreveu um excelente artigo sobre seu Musigny.

Tudo na vida é subjetivo, do vinho que você escolhe beber, do prato que te emociona, dos autores da sua mesa de cabeceira e dos seus críticos de vinhos preferidos. Tenho muitas discordâncias de gosto com Gilman, mas seus textos e suas resenhas bimensais (http://www.viewfromthecellar.com/) são a minha leitura preferida do mundo do vinho. Anoto todos os produtores de que ele fala bem ou dedica artigos especiais. Dos albarinos de Alberto Nanclares aos beaujolais de Chermette, passando pelos borgonhas de Jobard, Cécille Tremblay (dadas décadas antes, quando os dois não tinham o status de hoje), a minha lista de débito com ele é infindável.

Levi Dalton, autor do extraordinário “I´ll drink to that” entrevistou há alguns anos Gilman, o episódio reconta a história de Gilman no mundo do vinho e ainda tem uma degustação de Vouvray do domaine Huët. Gilman é entrevistado pela primeira vez numa publicação brasileira e corro o risco de dizer que é mais longa entrevista que ele concedeu para um veículo de qualquer lugar do planeta. Gilman, aliás, tem um detalhe diferenciado e exposto publicamente em seu site: os quase vizinhos em Chambolle, Christophe Roumier e Frédéric Mugnier, são dois que recomendam suas resenhas, assim como Egon Müller, Véronique Drouhin e Kevin Harvey (Rhys Vineyards).

John Gilman em uma visita a Heitz Wine Cellars, com Kathleen Heitz, antes da venda da propriedade familiar

O senhor foi um dos que tiveram o privilégio de beber os vinhos de Henri Jayer logo no início e de conhecer um dos produtores lendários da região. O senhor conta em uma de suas publicações como foi um encontro com ele e uma degustação às cegas. O senhor poderia relembrá-la?

O encontro foi organizado pela Véronique Drouhin (família da maison Drouhin), ela se juntou a nós numa tarde, nos ajudando a traduzir para o Monsieur Jayer. A maioria das pessoas não sabe disso, mas antigamente a Maison Drouhin comprava seus Richebourg de Henri Jayer, antes de ele começar a engarrafá-los por conta própria. Eu havia bebido uma garrafa do Richebourg 1972 dos Drouhins em Nova York, mais ou menos um ano antes desta visita, e corretamente sugeri a Véronique que o vinho havia sido feito por Henri Jayer. De qualquer forma, três amigos e eu visitamos Véronique e Monsieur Jayer em uma tarde ensolarada de início de primavera em março de 2003. Nessa época, Henri já estava aposentado desde 1995 e parecia feliz em receber visitantes que conheciam seus vinhos, o que nós fizemos, já que era possível bebê-los regularmente nas cartas de vinhos da Borgonha naquela época e eles não eram tão caros. Então, bebíamos seus vinhos sempre que tínhamos oportunidade! Henri estava vestido com um suéter cinza-azulado que já tinha sido muito usado, e me lembro de apertar sua mão e ficar imediatamente impressionada com a força de seu aperto de mão – claramente as mãos de um homem que havia trabalhado suas próprias vinhas por mais de meio século! Tão diferente de conhecer Aubert de Villaine, por exemplo, que gerenciava aqueles que cuidavam de suas vinhas. Henri foi muito caloroso e generoso com seu tempo, e conversamos sobre sua carreira e suas opiniões sobre a posição da Borgonha enquanto a próxima geração começava a dar continuidade à história. Ele ficou muito satisfeito com a forma como pessoas como Véronique Drouhin, as irmãs Mugneret, Christophe Roumier e sua geração estavam salvaguardando o legado da Borgonha e sentia que o futuro da região estava em boas mãos.

Quando perguntamos a ele sobre uma safra antiga específica, ele abria seus cadernos e consultava diretamente as anotações que fizera sobre cada estação de cultivo e colheita ao longo de sua carreira. Ele era muito meticuloso com todos os aspectos de sua viticultura, o que provavelmente explicava a beleza estonteante de seus vinhos! Ele foi o primeiro viticultor que conheci que opinava que a vinificação não acrescenta nada à qualidade de um vinho; tudo o que vale a pena ter em um vinho é criado no vinhedo e o homem só pode atrapalhar, lá na adega, e subtrair de seu potencial. De qualquer forma, depois de conversarmos sobre sua carreira e filosofias por cerca de meia hora, ele perguntou: “Você gostaria de provar alguma coisa?”. Ele havia preparado três garrafas para nós e perguntou se gostaríamos de degustá-las às cegas. Éramos ávidos degustadores às cegas naquela época e todos nós achamos que seria divertido tentar adivinhar os vinhos. Se bem me lembro, o primeiro vinho que ele serviu foi seu Echézeaux de 1986, e eu consegui adivinhar este vinho. Não me lembro do segundo vinho, mas o terceiro foi o seu Cros Parantoux 2000, que um dos meus amigos também adivinhou rapidamente, visto que ele tinha uma adega muito profunda e tinha bebido uma garrafa deste vinho cerca de uma semana antes de partirmos para a Borgonha.

Assim, o Sr. Jayer ficou devidamente impressionado com a nossa experiência com os seus vinhos e generosamente continuou a encher-nos as taças até as três garrafas estarem completamente vazias e o sol começar a pôr-se no horizonte. Enquanto nos despedíamos dele à porta da sua casa, lembro-me de ter pensado que tinha acabado de passar duas horas e meia das horas mais memoráveis ​​da minha vida! Tive a sorte de partilhar um jantar com Henri e muitos outros amigos na casa de Véronique naquele novembro também, que foi a última vez que o vi, pois a sua saúde começou a deteriorar-se um pouco no ano seguinte e ele preferiu não receber visitas nos seus últimos dois anos. Ele faleceu em setembro de 2006, aos oitenta e quatro anos. O vigésimo aniversário da morte de Henri será em setembro do ano que vem e espero que os borgonheses façam algo especial para comemorar sua inestimável contribuição à profunda herança histórica da Borgonha.

Hoje em dia, os vinhos estão ficando mais caros a cada safra; um exemplo é o Côte d’Or. O Bourgogne Rouge de alguns produtores custamais de US$ 300 a garrafa. Savigny-lès-Beaune, há 20 anos, era Bize e Pavelot, e não era disputado como hoje. Produtores novos com pequenas produções, como Les Horées, Petit Roy, Kei Shiogai ganham espaço. Como o senhor vê isso? O vinho vai ficar ainda mais caro? As mídias sociais estão contribuindo para esse aumento?

O aumento dos preços dos vinhos da Borgonha tem sido um dos aspectos mais dolorosos dos últimos quinze anos da minha longa vida de bebedor de vinho. A Borgonha foi uma das primeiras paixões verdadeiras que tive na minha carreira, pois tive muita sorte de estar começando a ter alguma responsabilidade na minha posição no ramo quando a safra de 1985 da Borgonha foi lançada. Degustar aqueles belos vinhos jovens realmente mudou minha vida e, ainda jovem, decidi que me tornaria um especialista em Borgonha. Mas, agora, com os preços exorbitantes dos vinhos mais famosos da Borgonha, sinto-me tão distante emocionalmente da região, e é muito estranho ter um interesse meramente acadêmico por esses vinhos. Sei que há muitas outras pessoas com uma renda disponível muito maior do que eu e que ainda podem comprar esses vinhos, e como a oferta é relativamente pequena, suponho que fosse inevitável que um dia as elites mais ricas do mundo “descobrissem” a Borgonha e nos tirassem do mercado. E, a menos que ocorra algum tipo de colapso econômico global, os preços dos vinhos mais famosos da Borgonha provavelmente nunca cairão significativamente.

Mas,há outra parte da sua pergunta, que é sobre o advento de exemplares de Bourgogne Rouge e similares a US$ 300 por garrafa, o que é uma questão completamente diferente do Chambertin da família Rousseau, vendido por US$ 2.000 a garrafa. Toda a hierarquia de classificação do terroir na Borgonha se baseia na suposição de que o Bourgogne Rouge nunca pode ser um grande vinho, nunca, porque simplesmente não é feito de um grande terroir. Como acredito profundamente em terroir, nunca consigo imaginar a lógica de comprar uma garrafa de Bourgogne Rouge por US$ 300, não importa quem tenha feito o vinho. Continua sendo apenas Bourgogne Rouge! Lembro-me de estar em meados da década de 1990 em San Francisco com meus pais para o casamento de um amigo e parar em uma loja de vinhos que tinha laços estreitos com Martine Saunier, que era uma das importadoras de Henri Jayer na época. A loja tinha o Bourgogne Rouge 1990 do Monsieur Jayer à venda e comprei três garrafas pela quantia principesca de US$ 30 cada! Acabei dividindo com os pais do noivo e os meus depois da recepção do casamento e, sabe de uma coisa, eles acharam tudo normal, porque nem Henri Jayer conseguiria fazer um vinho excelente com o terroir de vinhedos do nível da Bourgogne Rouge!

Mas temos que lembrar que existem ótimos vinhos produzidos na Borgonha que ainda não são particularmente caros; basta pesquisar um pouco mais a fundo e procurar fora dos limites dos nomes e denominações mais sofisticados. Um dos meus favoritos atuais nesse sentido são os vinhos do Domaine Michel Juillot, em Mercurey. A família Juillot produz vinhos verdadeiramente estelares atualmente, e Mercurey parece ser uma comuna que se beneficiou (até agora) do aquecimento global. Voltando àquela primeira safra para mim, em 1985, lembro-me de vender os engarrafamentos Mercurey de 1985 da Maison Faiveley, ou de tentar vender, já que esses vinhos eram compactos, magros e duros desde o início, em uma safra que primava pela generosidade aveludada e pelos belos tons frutados na maioria das denominações. Muito diferente do que se encontra hoje em Mercurey, Rully ou Montagny, já que essas denominações mais frias produzem vinhos muito melhores hoje do que há trinta ou quarenta anos. Então, eu jamais, jamais compraria uma garrafa do Bourgogne Rouge de algum charlatão por US$ 300, quando poderia comprar de seis a doze garrafas de um belo tinto da família Juillot por aproximadamente o mesmo preço! E este é apenas um exemplo, pois também procuro em lugares como Auxey-Duresses, Pernand-Vergelesses ou Marsannay Pinot Noirs de ótima qualidade, que desenvolverão complexidade com o envelhecimento na garrafa. Nenhum Bourgogne Rouge de ninguém desenvolverá nem perto da mesma complexidade que esses vinhos, não importa o quão descaradamente alto o vigneron estabeleça o preço do seu exemplar de Bourgogne Rouge.

E, se alguém procura um ótimo pinot noir que envelheça e desenvolva complexidade com o armazenamento em adega, também existem outras regiões que podem ser procuradas e evitar os problemas de preços contemporâneos da Borgonha. Na minha opinião, os melhores exemplares de pinot noir de estilo clássico do Oregon ou das regiões mais frias da Califórnia nunca foram tão bons quanto são hoje. Há tantos produtores realmente excelentes disponíveis na costa oeste dos EUA. Os vinhos serão diferentes, em seus picos de maturidade, dos tintos da Borgonha, pois vêm de terroirs diferentes, mas serão vinhos verdadeiramente belos por si só e não terão nada do que se desculpar em comparação com a Borgonha. Produtores como Kelley Fox, Jim Anderson, Rhys Vineyards, Jamie Kutch, Littorai Vineyards e muitosoutros estão produzindo vinhos que são, na minha opinião, tão únicos e atraentes quanto todos os Borgonhas, exceto os melhores. Esses produtores da costa oeste talvez nunca produzam um vinho que alcance o nível de um grande Musigny, Clos St. Denis ou Chambertin, mas certamente seus vinhos se igualarão à maioria dos outros vinhos da Borgonha por uma fração do preço.

Como o senhor analisa o trabalho do sommelier hoje em dia? O mundo das redes sociais mudou o trabalho? Os preços exorbitantes mudaram a relação de poder e fizeram desaparecer velhas safras? 

Só posso falar de Nova York nesse aspecto. Não estou muito bem informado sobre como andam as coisas no mundo dos sommeliers fora da minha cidade. Mas, aqui, os sommeliers ainda são os responsáveis ​​pela compra de vinhos e pela elaboração da carta de vinhos, então eles continuam sendo muito importantes. A maioria das pessoas não sabe disso, mas a maioria dos restaurantes nas cidades americanas lucra apenas com seus programas de bebidas, já que a comida tende a simplesmente atingir o ponto de equilíbrio entre receita e despesa. Portanto, ter um sommelier talentoso é fundamental para que um restaurante seja lucrativo e continue no mercado. E os melhores sommeliers conseguem encontrar safras mais antigas para preencher suas listas. Veja alguém como Pascaline Lepeltier, do restaurante Chambers, em Nova York; sua carta está sempre repleta de safras mais antigas e, muitas vezes, com preços bastante justos, o que é realmente o maior problema ao tentar beber vinhos envelhecidos em restaurantes. Como você mencionou, os preços exorbitantes dos vinhos mais sofisticados do mundo dos vinhos são exacerbados pelos preços nas cartas de vinhos dos restaurantes. Então, voltamos à mesma velha equação da realidade enófila atual, que geralmente só os clientes mais ricos podem beber safras mais antigas de vinhos famosos de cartas de vinhos. Quando eu ainda era comerciante de vinhos, tinha um cliente rico que me aterrorizava toda vez que saíamos para jantar juntos, como ele costumava dizer: “Eu nunca olho o preço de uma garrafa de vinho na carta, simplesmente procuro algo que eu queira beber com o jantar”. Geralmente éramos seis ou oito pessoas à mesa e dividíamos a conta, então os acréscimos que ele escolhia realmente abririam um rombo no meu orçamento para entretenimento.

Os melhores sommeliers do mundo são aqueles que também encontram vinhos prontos para o resto de seus clientes, não apenas para os mais ricos. Então, para responder à sua pergunta, pelo menos aqui em Nova York, os sommeliers continuarão sendo muito importantes para restaurantes que desejam permanecer lucrativos e não serem forçados a atender apenas às necessidades de seus clientes mais ricos. Mas, além de encontrar vinhos mais envelhecidos para os interessados, um sommelier é muito importante para estruturar sua carta de vinhos com vinhos que sejam bons para beber em qualquer idade e que combinem com a culinária de seu chef. Aqui nos EUA, há muitos restaurantes de grandes grupos corporativos e suas listas de vinhos são geralmente péssimas. Se o azar me faz comer em um desses restaurantes, muitas vezes acabo bebendo cerveja com o jantar, pois simplesmente não há uma única garrafa em suas cartas de vinhos que eu queira beber, a qualquer preço. O nível de relativa incompetência em vinhos no mundo da restauração americana é realmente espantoso – é o principal centro de lucro dos proprietários, e eles nem sequer tentam aprender nada sobre vinhos ou contratar alguém que entenda de vinhos para se esforçar. É como se tratassem os clientes como prisioneiros que terão de beber algo da carta, então que se dane, encha-os de cervejas caras de “marcas” como Caymus ou Mondavi.

A escassez de vinhos envelhecidos nas listas de restaurantes ao redor do mundo também é bastante evidente, e me sinto, pelo menos em parte, responsável por isso, pelo menos na Borgonha! Quando comecei a visitar a Borgonha todos os anos, na primavera de 1995, havia vários restaurantes que tinham vinhos envelhecidos disponíveis em suas listas e os preços eram muito justos. Então, meus clientes e eu pedíamos esses vinhos e contávamos aos nossos amigos. Infelizmente, com a alta dos preços na Borgonha, tornou-se economicamente inviável para os donos de restaurantes continuarem substituindo aqueles ótimos vinhos envelhecidos, pois os preços se tornaram impossíveis. E íamos com frequência a restaurantes que tinham Coche-Dury, Henri Jayer ou Michel Gaunoux envelhecidos em suas listas, pois achávamos que essa oportunidade não duraria para sempre e que poderíamos muito bem ser nós a beber aqueles vinhos! Infelizmente, estávamos certos e, eventualmente, essas adegas foram consumidas ou vendidas. Mas, até poucos anos atrás, eu ainda costumava ir à Rotisserie de Chambertin em Gevrey-Chambertin para jantar e degustar vinhos da região, pois eles ainda tinham uma boa seleção de vinhos antigos do Domaine Trapet em sua carta. Muitas vezes, eu jantava sozinho e bebia uma garrafa de “les Corbeaux” de Gevrey-Chambertin de 1969, 1971 ou 1972 com a refeição, já que não eram caros e os vinhos ainda estavam no auge. Aliás, jantei lá com tanta frequência nos últimos anos, antes da venda do restaurante, que no meu último almoço, o proprietário me deu uma garrafa de Corbeaux de 1978 para levar para casa como lembrança!

Mas, hoje em dia, geralmente nem olho com tanta atenção as cartas de vinhos quando saio para jantar em restaurantes, o que, admito, é muito menos comum agora que estou com sintomas de Covid longa. Minha estratégia quando estou em um restaurante agora é primeiro olhar atentamente para a carta de champanhe na maioria das vezes, já que o crescimento de produtores menores realmente talentosos e o renascimento de grandes casas tradicionais, como Louis Roederer tornam muito mais provável que eu encontre algo soberbo para beber com minha refeição na seção de champanhe. Se eu provavelmente terei um prato principal de carne vermelha, opto por um champanhe rosé, pois é extremamente flexível com todos os pratos da refeição. E geralmente estou apenas bebendo uma garrafa não vintage do produtor, já que há tantos realmente ótimos sendo feitos hoje em dia. É uma estratégia muito mais satisfatória do que tentar se arrastar por uma garrafa adocicada de Caymus Cabernet Sauvignon. Eu olho para champanhes sem safra da mesma forma que para vinhos regionais da Borgonha, que são os únicos que me interessam beber de cartas de vinhos hoje em dia quando estou jantando na região. Não só os premiers e grands crus são muito mais caros e fora da minha zona de conforto hoje em dia, como também são vinhos feitos para envelhecer por muito tempo e tudo o que se faz quando se bebe jovem é exibir o rótulo. Borgonha jovem e sofisticado realmente não tem um sabor tão bom, e eu preferiria beber um vinho comunal do mesmo produtor antes de pedir uma garrafa do Clos St. Jacques de dois ou três anos! Mas é preciso um sommelier talentoso para entender isso e encher sua carta com bons vinhos de aldeia, ou exemplos de topo de comunas onde os vinhos são geralmente mais bebíveis fora dos blocos, como Auxey-Duresses, Mercurey ou Marsannay.

Como o aquecimento global está transformando o mundo do vinho?

Não há nada que tenha afetado o mundo do vinho de forma mais profunda, e na maioria dos casos, negativa, do que o aquecimento global nos últimos trinta anos. Temos que entender que algumas regiões se beneficiaram de temperaturas mais altas e da mudança de estações em nosso planeta, com áreas como Alemanha, Champagne e Oregon provavelmente apresentando clima melhor e uvas mais maduras a cada ano. Quando comecei no comércio de vinhos, no início da década de 1980, a Alemanha podia ter duas ou talvez três grandes safras por década. No final da década de 1980, o aquecimento global já afetava as regiões vinícolas da Alemanha (e de outras partes do mundo) e, provavelmente a partir de 1989 ou 1990, vemos a tendência se acelerando. Hoje a Alemanha tem sete ou oito grandes safras a cada década. E as uma ou duas safras “malsucedidas” aqui tendem a ser porque estava muito quente ou muito seco, não muito frio, o que foi o caso durante os mil anos anteriores de cultivo de uvas para vinho na Alemanha! Portanto, fica claro que o aquecimento global teve um impacto profundo no mundo do vinho.

Mas, temos que lembrar que para cada região que se beneficiou do aquecimento acelerado do nosso planeta, provavelmente há três ou quatro que perderam drasticamente com as mudanças climáticas. Não consigo nem imaginar tentar ser um viticultor em regiões como Châteauneuf du Pape, Napa Valley ou Bordeaux hoje em dia! O clima mudou tão drasticamente nesses lugares que os viticultores realmente precisam criar novas estratégias para tentar superar o calor do nosso planeta e continuar a produzir bons vinhos. Muitos não conseguiram. De muitas maneiras, o problema aqui reside no “negócio” do vinho nessas regiões, já que os produtores buscaram “soluções comerciais” para combater o aquecimento global, em vez de refletir sobre suas práticas vitícolas e como estas poderiam ser melhor moldadas para compensar alguns dos efeitos mais debilitantes de um planeta cada vez mais em chamas. Muitas vezes, isso significa aumentar o orçamento de relações públicas ou contratar algum enólogo consultor da moda para tentar encobrir o fato de que seus vinhos agora têm um teor alcoólico muito mais alto e estão quase intragáveis ​​devido às mudanças climáticas. Provavelmente, grande parte da culpa pode ser atribuída a Robert Parker nos últimos dez anos de sua carreira, quando seu paladar em constante mudança não reconheceu as falhas inerentes a muitos desses vinhos com alto teor alcoólico, aos quais ele os elogiou e permitiu que continuassem a ser vendidos no mercado a preços cada vez mais altos, adiando o dia do acerto de contas para muitos produtores.

No mundo dos vinhos pós-Parker, vemos alguns críticos de vinho dispostos a continuar elogiando cegamente essas monstruosidades absurdas de álcool e compota de frutas causadas pelo aquecimento global. Na minha opinião, há muitos críticos de vinho que se veem como torcedores das vinícolas mais ricas do mundo, em vez de avaliadores honestos da qualidade intrínseca de um determinado vinho. É um sistema aparentemente corrupto. Mas o mundo do vinho hoje é simplesmente emblemático dos problemas muito maiores da corrupção e do pântano ético em que nos encontramos, à medida que o século XXI se transforma em um pesadelo distópico. Lembro-me de perguntar a Terry Leighton, da Kalin Cellars, como seus impressionantes cabernet sauvignons conseguiam exibir uma maturação fisiológica perfeita e ainda assim atingir apenas 12% de álcool na década de 1980. Naquela época, quase todos os outros grandes cabernets da Califórnia tinham rotineiramente entre 13% e 14% de octanas. Ele riu e simplesmente disse: “pergunte a alguns desses outros produtores sobre o tamanho de seus rendimentos!” O argumento dele era que os produtores poderiam amadurecer seus taninos sem álcool mais alto se mantivessem a produção mais baixa, mas isso reduziria os lucros, e os lucros eram muito mais importantes para a maioria dos proprietários do que a qualidade do vinho. E isso foi na segunda metade da década de 1980, quando o aquecimento global estava apenas começando. Imagine como a situação é ainda mais grave hoje, trinta e cinco anos depois das mudanças climáticas!

Heterônimos de um viticultor

4 de Julho de 2025

Quando criança, Paulo Nunes adorava passar horas jogando futebol com seus amigos de rua. Detestava quando seu pai e seu avó paravam a brincadeira e o puxavam para que os acompanhasse nas vinhas da família no Douro, norte de Portugal e região reputada pelos tintos e pelo vinho do porto. Jurou que, quando crescesse, faria de tudo na vida, menos trabalhar com vinhos. Fez Engenharia Alimentar. Ingressou um ano no teatro universitário, mas voltou aos caminhos da infância.

“Fracassei redondamente na minha jura”, diz sorrindo. Hoje ele é enólogo há 20 anos da Casa da Passarella, está à frente também no Dão de Quinta da Perdonda e já foi premiado algumas vezes por publicações portuguesas como o melhor produtor de vinhos de Portugal.  “O viticultor tem heterônimos, buscamos produzir em várias regiões e explorar as nuances e nossa vida tem muitos sacrifícios porque estamos a viajar para produzir ou para mostrar o que fazemos”, afirma Nunes, que perdeu os três primeiros aniversários da filha, em razão de viagens. “Tem de pôr a alma no que fazemos.”

Nos últimos anos, essa nova geração tem revolucionado o vinho português. “Antes se colocava carne em um moedor e saía um croquete, hoje um pedaço vira um presunto, outro vai à panela e outro é usado em um molho”, resume Nunes, cujos vinhos no Brasil são importados pela Premium Wines.

Manuel Lobo de Vasconcellos, à frente da Lobo de Vasconcellos Wines no Dão (vinhos também importados no Brasil pela Premium Wines), é de uma família há oito gerações no mundo do vinho, mas representa a primeira que ingressou em Enologia. Cursar a universidade fez com que buscasse uma novidade: escavou a vinícola familiar no Dão para mapear o subsolo, estudar a mineralidade e as variedades mais adaptadas. Nunca na história de 200 anos da propriedade tinha sido feito isso.

“Saber o que se passa vários palmos abaixo do chão e conhecer bem os solos consegue colocar cada casta no lugar certo, sem ter necessidade de fazer determinadas correções à superfície. É bom para o produtor, bom para a vida do solo e, claro, bom para a saúde do consumidor”, diz.

O aquecimento global tem trazido desafios. “As férias de verão estão mais difíceis de serem marcadas, tenho saído com a família em julho, em vez de agosto ou setembro”, afirma Lobo de Vasconcellos. As situações extremas – como chuvas, granizo ou temperaturas acima de 35 graus – têm sido mais frequentes. Isso faz com que se busquem solos que tenham mais capacidade de reter chuva em áreas em que a estiagem é mais prolongada. “Outra opção é plantar uvas em altitudes mais elevadas.”

A receita da nova geração inclui ainda recuperar antigas maneiras de fazer vinhos e trabalhar com uvas menos badaladas.  Depois de rodar 80 mil quilômetros por ano como consultores de vinícolas em diferentes terroirs, Jorge Rosa Santos e Rui Lopes criaram em 2016 a Lés-a-Lés, um projeto com o desejo de recuperar castas antigas, regiões e estilos de vinhos esquecidos do país. Para estampar os rótulos, a escolha foi o desenho de um bilhete de trem, uma homenagem aos deslocamentos da dupla. Com cerca de 20 mil garrafas, a dupla faz brancos e tintos que exploram uvas e terroirs menos badalados.

Um exemplo é o branco Quinta das Marés com as castas Jampal e Vital de vinhedos ao sopé de Montejunto, uma serra calcária na Extremadura. Outro é o Medieval de Ourém, que carrega uma história singular. Séculos atrás, monges da ordem cisterciense transmitiram aos portugueses o método de vinificação aprendido na Borgonha: uvas brancas e tintas eram cofermentadas e depois passavam por barricas. Jorge e Rui resolveram fazer o mesmo dos antepassados. Esses vinhos chegam em breve ao Brasil pela primeira vez por meio da importadora @emiwine, de Emiliana Medauer.

As novidades também chegam do outro lado do Atlântico. O casal carioca Rafael e Juliana Kelman está se aventurando com uma vinícola no Dão desde 2013. Juliana trocou a publicidade pelo mundo do vinho, Rafael ainda concilia o universo da eletricidade no Brasil com algumas idas para Portugal.  A escolha do país não foi aleatória.

Juliana foi em busca de seus laços familiares. Viram uma quinta à venda no Dão. Assinaram o cheque. São seis hectares, com vinhas plantadas em 2000 com castas tradicionais, incluindo Touriga Nacional e nesse caso também a touriga brasileira. Os vinhos dos Kelman, cujo enólogo é Antonio Narciso, não chegam ainda ao Brasil, estão em busca de importadora.

Os barolos de Luciano Sandrone

13 de Junho de 2025

Quando a unificação italiana ocorreu na metade do século XIX, promovida pela Casa de Savoia, um vinho ganhou projeção à mesa entre os nobres: o barolo, feito com as uvas Nebbiolo, colhidas no Piemonte, norte do país. Escolhido pela dinastia real italiana, foi batizado como o vinho dos reis ou o rei dos vinhos.

Assim como as dinastias, o mais famoso vinho da Itália tem passado por transformações, seja pela emergência de uma nova geração de produtores, seja com os impactos das mudanças climáticas e dos preços cada vez mais elevados das terras, o que tem despertado a atenção de olhares estrangeiros.

Um dos capítulos da história dos últimos 50 anos de barolo e do vinho italiano é escrito pela família de Luciano Sandrone, cuja filha, Barbara, esteve recentemente em São Paulo, em evento da importadora Clarets. Quando a família Sandrone se mudou para a cidade de Barolo, tornou-se vizinha de Giacomo Borgogno, um dos mais famosos produtores da região. O pai de Luciano era carpinteiro, mas alergia ao pó de madeira e horas vendo o vinho sendo feito no vizinho levaram Luciano à enologia.

Aos 18 anos, bateu à porta do vizinho e conseguiu um emprego na linha de frente da produção de Giacamo Borgogno. Começou a guardar dinheiro e em 1977, aos 30 anos, comprou uma parcela de videiras em Cannubi Boschis, um pedaço de terra reputado pelos barolos ali plantados.

Um ano depois, em 1978, na sua garagem, começou a vinificar 1500 garrafas, mantendo em paralelo seu trabalho de enólogo nas vinícolas de Giacomo Borgogno e Marchesi di Barolo. “Ele precisava de dinheiro e queria fazer seus vinhos, seguir um caminho próprio e isso coincidiu com mudanças no cenário”, recorda-se Barbara.  

O vinho italiano no início dos anos 1980 começou a mudar. Em 1981, foi lançada a primeira Vinitaly, feira realizada na Itália com a intenção de reunir produtores de diferentes regiões do país e compradores de todos os países. Os vinhos de Luciano agradaram a compradores dos Estados Unidos e Suíça.

Em paralelo, a nova geração de viticultores adotava novas técnicas. Na maneira tradicional, os produtores usavam grandes toneis de madeira para envelhecer o barolo buscando obter garrafas que evoluíssem por anos. Já a nova geração buscava vinhos mais acessíveis na juventude e mais precisão na colheita e na adega. Luciano se tornou o que a literatura enológica chama de “barolos boys”, um movimento que chacoalhou a região, buscando incorporar novas tecnologias, tornando até hoje difícil definir a tênue linha entre modernistas e tradicionalistas.

Manteve um pé no moderno e outro na tradição. Barolos eram fermentados por até 30-50 dias, o que gerava vinhos extremamente tânicos e duros na juventude. Sandrone reduziu esse tempo para cerca de 10-12 dias, com controle rigoroso de temperatura, preservando o frescor da fruta e suavizando os taninos.  Entre os toneis dos tradicionalistas e as barricas francesas de 228 litros de modernistas, ficou no meio caminho: com barris de 500 litros para envelhecer seus vinhos.

Em 1990, um de seus vinhos recebeu 100 pontos, a nota máxima dada pelo crítico norte-americano Robert Parker. O reconhecimento fez com que pudesse se concentrar apenas em sua vinícola, que em 1999 deixou a garagem e ganhou espaço próprio.

Luciano morreu em 2023. Antes, em 2017, fez uma alteração histórica no seu rótulo mais famoso: Cannubi Boschis foi batizado de Aleste, a junção dos nomes da terceira geração, Alessia e Stefano, filhos de Barbara. Alessia trabalha na vinificação, Stefano estuda economia agrária. Integram a terceira geração da vinícola familiar, cuja produção é de pouco mais de 140 mil garrafas. “Sempre foi uma preocupação manter a produção familiar”, diz. O ambiente mudou nas últimas décadas.

Um hectare de terra em Barolo custa milhões de euros e atrai o olhar de empresários do mundo todo em um ambiente que tradicionalmente estava nas mãos de agricultores. “Por enquanto a região tem conseguido manter suas raízes, mas há muitos empresários que cobiçam a região para fazer vinhos”, diz Barbara.

Não é a única ameaça. O aquecimento global tem mudado não apenas a data das férias da família, mas também trazido outras preocupações: redes de proteção têm sido colocadas para evitar que a irradiação solar provoque manchas nas videiras e traga doenças. Ainda não é possível avaliar a nova técnica. “Nos últimos três anos, foi uma sucessão de eventos, um ano teve muita chuva, em outro, muito sol, em outro granizo”, afirma. A data de colheita em um ano pode ser em outubro, em outro, em novembro.

Com grande potencial de envelhecimento, os barolos são vinhos que ganham com anos ou décadas de adega. A nova geração tem paciência? “Sim, mas temos visto que muitos nos Estados Unidos, depois da pandemia, passaram a dar menos atenção à enogastronomia. O vinho italiano ganha muito com a comida. Já os asiáticos estão cada vez mais atentos a combinar sua culinária com nossos vinhos”, diz Barbara, que depois do Brasil tem viagem marcada para o Japão. A garagem da família Sandrone ganhou o mundo.

Clássicas mesas numa São Paulo gourmetizada

13 de Junho de 2025

(original publicado em https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/)

Cerca de 60% das empresas não sobrevivem após cinco anos no Brasil, segundo dados do IBGE. No setor gastronômico, a mortalidade empresarial é ainda mais alta: sete em cada dez negócios fecham as portas antes de completar o quinto aniversário. Depois da pandemia, a matemática se tornou ainda mais problemática. Quem sobrevive décadas na cidade de São Paulo tem uma legião de assíduos frequentadores ou tem buscado se readaptar.

Fundado em 1970, na rua Treze de Maio, no bairro do Bixiga, região central de São Paulo, o Mexilhão (@mexilhaorestaurante) nasceu com uma proposta inusitada para uma área conhecida pela quantidade de cantinas italianas: oferecer frutos do mar e pratos tradicionais. Aqui não se esperem espumas ou outras acrobacias, muito menos design e arquitetura. As mesas e a decoração não mudaram desde o começo. No Mexilhão, oferecem-se pratos que sumiram de muitos outros endereços, como o camarão à grega, e abundância, um substantivo cada vez mais escasso. “Aqui não tem miséria”, como disse um amigo em recente almoço de meio de semana lá, em que se comeu uma paella para dois e ainda se levou a sobra para o almoço e janta do dia seguintes.

O frango de televisão de cachorro foi gourmetizado há tempos em São Paulo, mas ainda vive no Brazeiro (obrazeiro), na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, onde se pode comer um frango assado e polenta frita em um ambiente que se mantém simples e despojado desde sua fundação em 1969. O sucesso da casa, cujo frango assado para duas pessoas custa 66 reais, levou à abertura de uma filial no Morumbi.

Nos Jardins, o Z-Deli (@zdelirestaurante) nasceu em 1981 oferecendo comida judaica. Fechou em 2023 para reforma e reabriu no fim do ano passado, com uma proposta diferente: pratos judaicos continuam no cardápio, totalmente reformulado sob o conceito de um bistrô sem frescura com comida da Europa Oriental, com preços e comida de ótima qualidade preço para uma cidade cada vez mais cara. Isso quer dizer o quê? Kibe cru de atum, alcachofras empanadas cobertas de queijo pecorino e aioli, latkes (panquecas de batata), peixe do dia com batatas fritas, hambúrguer. As caçarolas estão sob o comando do ótimo chef Benê Souza, que antes estava no Virado, no Largo do Arouche. Problema aqui são as longas filas. Nesse caso, a ideia é chegar ao meio dia ou reservar ou então se buscar uma mesa no meio da tarde.

No início de 1994, quando o Brasil vivia ainda os primeiros meses do plano Real, Giuseppe Rosa, aos 52 anos, abriu o Vecchio Torino (@vecchiotorinooficial). Pensou inicialmente em fazer um restaurante somente com pratos de sua cidade natal, Turim. Terminou optando por um cardápio mais abrangente, mas com foco no Norte da Itália. Arregimentou fãs ardorosos e também críticos contumazes. Uns se locupletam nos sabores familiares e emocionais, outros criticam o ambiente kitsch, os preços, as idiossincrasias, a preferência pelos clientes antigos que são assíduos e seriam privilegiados. Aos 31 anos, o Vecchio Torino mantém um gnocchi delicado e saboroso.

O que é um clássico? Na literatura, o escritor Italo Calvino sentenciou que é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. Nos restaurantes, podem ser os endereços que trazem recordações, como as madeleines do escritor francês Marcel Proust.

Grazie, Giuseppe!

1 de Março de 2025

Cerca de 60% das empresas não sobrevivem após cinco anos no Brasil, segundo dados do IBGE. No setor gastronômico, a mortalidade empresarial é ainda mais alta: sete em cada dez negócios fecham as portas antes de completar o quinto aniversário. Quem sobrevive mais de três décadas então merece atenção especial, ainda mais quando sua história é recheada de mitos. Nossa, aquele restaurante? Mas é caro, não? É démodé, né? Não perdeu a mão?

No início de 1994, quando o Brasil vivia ainda os primeiros meses do plano Real, Giuseppe Rosa, aos 52 anos, abriu o Vecchio Torino. Pensou inicialmente em fazer um restaurante somente com pratos de sua cidade, Turim. Terminou optando por um cardápio mais abrangente, composto basicamente de pratos do Norte da Itália.

Arregimentou fãs ardorosos e também críticos contumazes. Uns se locupletam nos sabores familiares e emocionais, outros criticam o ambiente kitsch, os preços, as idiossincrasias, a preferência pelos clientes antigos que são assíduos e seriam privilegiados. “Faz tempo que não vai?”. “Lembra a minha infância, mas faz década”. “Tá na hora de voltar, não?” “Quando fui lá, eu era estagiário.” “Cada gnocchi eram dez reais.”

Quatro amigos resolveram tirar a teima numa sexta-feira do verão paulistano, ao redor de vinhos italianos e a comida de Giuseppe Rosa. O ambiente nesses anos mudou pouco: tem um quê dos anos pré-Real (a proteção de pano das cadeiras) com o kitsch que combina reproduções de quadros e uma cozinha simples, sem rococós.

O couvert vem à mesa: antepastos italianos e pão fresco com manteiga. “Fazia tempo mesmo que eu não via aqui, a gente chegava no meio da tarde de um domingo e eu perdia o domingo aqui.”

Finalmente, chega o último amigo. Emidio Pepe e seu trebbiano abruzzo 2015. “Eu sou mais Valentini, mas queria trazer esse aqui.” Servem-se as taças. “É um branco com alma de tinto, abrirá com o tempo, aqui tem tudo e um pouco mais.”

E o que comeremos? Gnocchi de entrada? Sim, sempre. “Talvez queira de entrada e de prato principal.” Pensa-se na arquitetura da refeição. Pede-se para abrir o rosso di Montalcino 2020 de Poggio di Sotto.

Chegam os pratos de gnocchi. Sente-se o aroma do molho fresco de tomates. Leva-se a massa à boca. “Nossa, isso tem o mesmo gosto da infância!” Come-se. Aprecia-se. Rememora-se. “Isso aí é um elogio forte, hein. A volta à infância.” “Tem Proust aí na versão italiana da nonna.”

Branco ou tinto? “Prefiro o gnocchi com o trebbiano”, diz um. Outro aquiesce. “Mas o tinto tem uma acidez aqui, não sei, não”, afirma outro.

Tempo de pedir para abrir a terceira garrafa: poderi alto conterno, Cicala 2001, um monforte d´alba há anos adegado, pronto para ser aberto em um momento diferenciado. Uns pedem o brasato, outros a codorna com risoto de trufas negras.

O vinho ainda jovem, com a elegância de uma Nebbiolo bem cultivada, o prato? “Não preciso aproximar do rosto para sentir a trufa.” “Isso aqui tá muito bom, hein, cacete.” Terminam-se os pratos. “Porra, podíamos vir aqui todo o mês hein!”

Aos 31 anos, o Vecchio Torino mantém uma cozinha de alto nível, com um gnocchi emocional e pratos muito equilibrados. É caro? Assim como vários outros da cidade, mas aqui há detalhes e diferenças que não se encontram nos outros. Quando vem a conta, não se sente, ou melhor, se faz uma pergunta: quando voltaremos?

Quando você fala isso em SP?

Grazie, Giuseppe!

As krugs entre Chambolles

22 de Novembro de 2024

A ideia original era realçar as sutilezas de Chambolle-Musigny e pôr em perspectiva uma degustação ocorrida dez anos antes, mas intenções se esvaem nos céus quando o início se faz com as quatro letras do universo enófilo: Krug.

Se na bíblia do enófilo deveria estar inscrito que tudo se inicia com Champagne (duas exceções à regra, ambas italianas), no Gênesis do afortunado deveria estar que iniciar com Krug é certeza de ver o céu, mesmo sob mau comportamento.

O primeiro duelo trouxe uma Krug antiga (156? Ou 164?) – cujo rótulo não tem a marcação da edição e comprada fora não trazia nenhuma outra indicação – e uma jovem – a edição 171, assemblage de 131 vinhos de 12 anos diferentes, sendo o mais novo de 2015, enquanto o mais antigo data de 2000.

Na juventude, a Krug esbanja acidez, cítricos e o toque exótico de gengibre, enquanto a maturidade concede a grandeza que o tempo permite apenas alguns chegarem. Na linguagem cinéfila: Margaret Qualley, protagonista de ‘A Substância’, que interpreta uma versão mais jovem personagem de Demi Moore; já a com idade me remeteria à Grace Kelly de “Janela Indiscreta”, na cena em que ela leva uma quentinha e um Montrachet ao fotógrafo voyeur.

Há muitas incertezas na vida, mas uma certeza enófila: uma Krug jovem sempre deixará incomodadas as próximas garrafas, uma bem conservada e com alguns anos de adega se torna um dos vinhos grandiosos, com poucos rivais no mundo em brancos, tintos. Num mundo em que Montrachets saem por preços cada vez mais astronômicos, um champagne desse se torna uma saída infalível. Ambas podem sobreviver décadas e podem acompanhar de salmão defumado a foie gras, de peixes a aves, do silêncio à contemplação, na dor e na alegria.

O que pode ser melhor depois dessa abertura? Uma Krug de uma safra excelente, como a 2008. Aí é melhor deixar com o especialista que Olivier Krug chamou de “o nerd do mundo do vinho” – Mr. John Gilman, nota de 2023, com 98 pontos e que ele classificou que sua janela de consumo se abre em 2030. “The 2008 Vintage bottling from Krug just continues to get better each time I am fortunate enough to taste it. I last tasted this wine a year ago and it has not seemingly aged a bit since that time, as it remains a glorious vintage here that will demand plenty of patience before it properly blossoms. The bouquet remains beautifully precise and bottomless, offering up scents of apple, tart pear, lemon, a beautiful base of chalky minerality, patissière, dried flowers, blossoming smokiness, just a touch of caraway seed in the upper register. On the palate the wine is deep, full-bodied and structured, with a snappy girdle of acidity, a rock solid core, great mineral drive and grip, elegant mousse and a very, long, bright and seamlessly balanced finish of enormous potential complexity. All this great, great vintage of Krug needs is more time alone in the cellar.”

Parêntesis: (1) A envelhecida chamou tanto a atenção de um amigo, que ele, que mal pega o celular sobre a mesa, passou minutos tentando decifrar de que edição era a Krug. 2) Depois de ter bebido 4 rótulos da casa em duas semanas, eu, obrigado a dar notas, daria de 95 a 98 às quatro, com uma briga dura entre a envelhecida e a Rosé edição 24 no segundo lugar, mas as quatro entre as quatro melhores do ano em borbulhas, com a 2008 o melhor vinho que eu bebi esse ano, se a memória não falha.)

No capítulo dos brancos, tivemos três estilos de Chardonnay. O novo mundista Montelena, uma propriedade histórica da Califórnia, participante do Julgamento de Paris, em 1976, ganhador daquela degustação. Um vinho interessante a US$ 40, mas se entrevê que hoje alguns outros californianos jogam numa outra liga e poderão dar trabalho, às cegas, aos bourguignons (e não é só rótulo de Rajat Parr e seu ótimo Sandhi).

Sylvain Pataille e seu Marsannay branco da safra 2020 ainda mostra contenção, um vinho a se reencontrar porque aqui está um dos poucos produtores da Borgonha que vinificam bem em branco, tinto e rosé e em três uvas (seus aligotés são muito bons). Há estrutura aqui.

Às cegas chega o belo vinho de Tissot, Les Graviers, da safra 2020, um Jura que em tempos de provável guerra comercial entre Estados Unidos e seus parceiros poderá se tornar um imbatível qualidade preço, ainda mais diante do câmbio em que os próximos contêineres bourguignons serão fechados…

Passados champagnes e brancos, chega a hora do tema do encontro: pelos campos do senhor. Antes de passar aos dois protagonistas, a abertura com Anne Gros e seu chambolle combe orveau 2017, um elegante e delicado vinho, com toque de violeta e ainda fruta negra. O Brasil recebeu tantos novos produtores da Borgonha e Anne ainda não tem seus vinhos representados de forma contínua e adequada no Brasil, uma pena. Seu Richebourg 2000 é um dos grandes vinhos bebidos pelo site.

Feita a introdução à cidadela cujos vinhos são descritos como os mais femininos da Borgonha, chega a hora dos protagonistas: chambolles 2009, um de Frédéric Mugnier, outro de Christophe Roumier, quase vizinhos na cidade de pouco mais de 250 habitantes.

Há dez anos, no chef Vivi, levei às cegas as duas garrafas para o Nelson experimentar. Ele nunca tinha tomado Mugnier, só ouvia minhas juras de amor ao produtor e tinha clara preferência por Roumier na village. Terminada a degustação, retirado o papel alumínio, Nelson se viu confuso sobre o que ele achava e disse: “agora, entendi sua paixão.” Escreveu a degustação no site, “Chambolle pelo maestro Mugnier“, irritou alguns, ao escrever: “Já o meu favorito a priori, antes da degustação começar, perdeu-se um pouco em sua tipicidade. A despeito de ser um belo vinho, mostrou-se como uma mulher muito austera, fria, tentando sustentar uma seriedade que não possui. Faltou feminilidade. De fato, de início, um pouco fechado e misterioso, tanto em boca, como nos aromas. Seus taninos, bem presentes, pareciam por demais extraídos.”

Dez anos e duas outras garrafas depois, Roumier e Mugnier se confrontaram com vinhos de 15 anos de envelhecimento. Mugnier, com um vinho ainda jovem, em que os terciários mal aparecem, faz um estilo mais feminino, mais floral, com a cor muito mais tênue e uma discreta mineralidade; já Roumier ao longo das horas vai numa miríade de fruta em compota, um leve floral, mais mineralidade, com algo indecifrável, cor muito mais negra na taça. Para este aqui, a maior diferença dos dois está no uso de Fuées na assemblage por Roumier e não apenas no desengace total ou parcial, que faz com que degustação às cegas seja facilmente perceptível na cor.

Um dos melhores crus de Chambolle, ao lado de Cras (Amoureuses joga em outra liga), Fuées tem uma mineralidade distinta, mas pela sua parcela estar no pedaço mais íngreme do terroir Christophe julga que ele não estaria à altura de ser vinificado em separado. Usa no assemblage de seu chambolle, seu cartão de visitas.

A visitar o domaine, minha pergunta seria: qual Fuées Roumier tem reverência? Acredito que seja o de Mugnier, que a partir de 2005 começou a fazer um Fuées impressionante, assim como o Bonnes Mares seu evoluiu absurdamente a partir da safra 2011, com as uvas superando 35 anos. Na visita a Frédéric, alguns anos atrás, perguntei o que ele achava dos vinhos do vizinho: “muito bons”. Faltou perguntar qual Cras era de sua preferência. A resposta eu imagino.

Mugnier ou Roumier? Uma parte da mesa foi prum lado, outra, pro outro. Eu? Há dez anos, eu teria um vencedor, hoje eu deixei a conjunção alternativa no dicionário e me perco entre as nuances dos dois.

Roumier e Mugnier ou Mugnier e Roumier.

Nuits à Babette

3 de Novembro de 2024

Comida e arte chegaram ao ápice na história do cinema em 1987 com “A festa de Babette”, que levou o oscar de melhor filme estrangeiro daquele ano e consagrou a literatura de Isak Dinesen, classificada por um crítico do NY Times como “delicada como um cristal de Veneza”.

Numa vila puritana, cercada de preconceitos, Babette resolve gastar todo o dinheiro ganho em um prêmio em uma noite para os habitantes daquele vilarejo, como uma forma de gratidão aos que lhe deram teto, depois de sua saída da França como foragida política. Em um menu e vinhos selecionados (o mundo de hoje impede que sopas de tartarugas sejam feitas), ela desfila seu talento para sair do comum. Ao fim, quando descobrem que Babette gastou todos os francos no jantar, uma das irmãs que a recebe declara: “você será pobre para o resto da vida”. Ao que Babette responde olhando as estrelas: “um artista nunca é pobre”. Nem quem tem amigos que valorizam as histórias.

Degustações temáticas são sempre uma forma de dialogar seja com quem está presente seja com quem está ausente. Os detalhes que as conduzem têm uma história particular que remonta às madeleines de Proust. Cada garrafa, cada prato conduz a um elo como uma Sherazade aprisionada em Baco.

No início, antes da champagne, o endereço: Emiliano, a mesa preferida há anos, seja quando o Nelson era autor, seja quando assumiu o lema. Agora sob o comando da chef Vivi e do sommellier Luis Otavio Álvares Cruz, melhor serviço de vinho de terra brasilis.

No Gêmesis do enófilo, tudo se inicia pela champagne. Há cerca de dez anos, o Nelson escreveu em um post que havia tomado uma champagne “emocionante”. Era a Jacquesson 736. Quando ele me ligou para falar de um jantar de que ele tinha participado, perguntei se era emocionante mesmo. “Prove!”. Tenho-a provado há dez anos. Aqui tivemos um confronto entre a 744, que ganhou muito com três anos de adega, e a 746, que é um enigma para mim depois de quatro garrafas abertas. Com predominância de Chardonnay (43%), 30% Meunier e 27% Pinot Noir, é exuberante, mas mostra um lado mais raso que outras cuveés da casa. Safra ou transição? Acho que até responder a essa pergunta eu terei de abrir algumas 746, hoje importadas corretamente pela Delacroix.

Sentados ao redor da mesa, com o menu da chef Vivi, partitura do Luis Otavio, tivemos o primeiro prato: ravioli de camarão com seu bisque. Dois pulignys: o de Boyer, importado pela Cave Leman, com seu cítrico ao fundo, e o belo Clos de Noyers Brets 2020 de Alvina Pernot. A família Rockmann e família Pernot têm uma história com essa cidadela e com os Pernots: meu pai não era de vinho, mas algumas garrafas ele carregava consigo. Numa das idas e vindas da UTI, ele se lembrou de um branco que eu tinha aberto com ele dois meses antes – Champs Canet de Paul Pernot. Ele disse que queria beber quando saísse. Não saiu, mas os Pernots ficaram sempre na memória afetiva, mas com a troca de Paul por Alvina, a talentosa neta.

À elegância de Puligny se somam dois champagnes rosés e uma focaccia selada com dados de polvo, páprica, pimentão vermelho e cebola roxa assada. No início dos anos 2000, Billecart Salmon rosé estava nas mesas dos bons restaurantes de São Paulo, tanto era assim que meu pai me deu uma garrafa quando eu comecei a trabalhar no Valor Econômico em dezembro de 2000. Por anos, sempre a tive com carinho.

Se o Silvio Santos comandasse um programa de auditório sobre vinhos, as quatro notas que ele pediria para o maestro Zezinho seriam facilmente detectáveis: K R U G. Como dizia o Nelson, é fácil agradar, só servir a perfeição, Krug. Ou outra frase: “me desculpe os independentes e os Selosses, mas Krug paira acima de todos”. A harmonização realça o toque exótico dessa champagne.

 Chega a hora dos tintos. Na pensão Santo André, um terroir criava discussões intermináveis envoltas em fumaça azul do fumo de Vuelta Abajo: Nuits Saint Georges. Para o Nelson, Gouges e Les Saint Georges. Para mim, havia muito mais do que o centro da vila e o sobrenome preferido dele. Havia o centro da vila, mas o lado de prémeaux, do lado de Beaune, palco de vários monopoles, havia o lado mais próximo de Vosne Romanée.

Na última vez que nos encontramos, num almoço no Evvai, em dezembro de 2019, combinamos de marcar duas degustações: uma de Clos de Tart, outra de Nuits. Cinco anos depois, saiu uma, sem a presença dele, com dois Nuits mais próximos de Beaune (clos de la Maréchale 2010 de Fréd Mugnier e o Vieilles Vignes 2005 de Prieuré Roch, uvas mais antigas do monopole Clos de Corvées), com um de centro de vila (les Saint Georges do maior produtor do cru mais famoso do vilarejo) e o único não cru, o Vieilles vignes 2019 de Chevillon (que era o produtor que o Nelson mais queria beber do terroir, depois de um confrade ter dito que ele deveria experimentar.) Outro parêntesis: se em Volnay minha dúvida eterna é ducs ou chênes nos Lafarges, em Nuits é Cailles ou Vaucrains dos Chevillons.

Para os quatro nuits, um arroz vermelho de pato confitado e um flat iron selado com cogumelos, roti de porcini e folhas de pak chai. Cada um com sua nuance, apesar de o Nuits de chevillon ter desagradado parte da mesa. Achei os quatro vinhos notas de uma partitura de elegância, mesmo sendo uma village rústica para os padrões e para as mãos das outras cidades mais famosas da Côte de Nuits.

Na sobremesa, a participação de Alois Kracher, um austríaco que faz alguns dos melhores vinhos de sobremesa do planeta e que por uma conjunção astral era o único vinho de sobremesa que meu pai se recordava depois de comer uma torta de maçã da Confeitaria Christina. Mas nesse caso, o do Emiliano, tivemos minha sobremesa favorita nas mesas paulistanas, mesmo com minha intolerância a lactose: bolo de tâmaras com calda de caramelo, baunilha e flor de sal.

Chega-se ao fim de uma festa de Babette. Como escreveu Oscar Wilde, hoje em dia conhecemos o preço de tudo e o valor de nada. Detalhes. Restaurar e recuperar ânimos na ansiedade do dia a dia e fazer esquecer os dramas da existência cotidiana ajudam a buscar a felicidade, que Guimarães Rosa dizia que “se acha é em horinhas de descuido”.

O que é a vida? Nos encontros e desencontros dela, recorro sempre a Guimarães em seu “Grande Sertão Veredas”. “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida.”

La,la,la (e la), a partitura dos Guigal

25 de Agosto de 2024

No mundo musical, La La La pode ser cantada no chuveiro acompanhando de Beatles a Simon Garfunkel, no universo de Baco está relacionada a um terroir, a um produtor e a três vinhedos míticos. Em 1961, aos 17 anos, Marcel Guigal assumiu por conta da cegueira repentina e inesperada de seu pai, Etienne, o comando da propriedade familiar, nascida em 1946.

A primeira aquisição especial foi uma parcela de um hectare de vinhedos monopole, ou seja, exclusividade da família: La Mouline, um histórico terroir do Rhône, cuja história remonta mais de dois milênios. Etienne vinificou pela primeira vez seu primeiro La em 1966, vinhedo único da Côte Blonde, cujas vinhas datam de 1893, uma das primeiras plantações pós-filoxera na Côte-Rôtie. Recebe a maior percentagem de Viognier, 11%, sendo o restante de syrah, tratamento de 42 meses de madeira.

Quando soube que seria pai, Marcel resolveu plantar vinhedos em La Landonne, em homenagem ao herdeiro: Philippe nasceu em janeiro de 1975, mesmo mês em que as primeiras videiras do segundo La foram plantadas em uma terra que havia três décadas não produzia uvas. É o único não monopólio da casa, o único vinhedo classificado oficialmente e o único que recebe 100% Syrah, com tratamento de 42 meses de madeira. A primeira safra fermentada pelos Guigal foi a de 1978.

Em 1985, completou-se a trilogia: com a aquisição de La Turque dos Vidal-Fleury. Também da Côte Brune, como o La Landonne, esse vinhedo recebe 7% de viognier e também tratamento de 42 meses de madeira.

Em pouco tempo, os vinhos atraíram a atenção de Robert Parker, que ganhou status na safra 1982 em Bordeaux, mas cujo coração bate mais forte pelo Rhône. Depois de beber algumas safras da trilogia, sentenciou em sua Wine Advocate: não há nenhum enólogo na Terra que tenha produzido tantos vinhos atraentes, independentemente das condições da colheita, como Marcel Guigal.

Os três vinhos se destacam em uma harmonização como steak au poivre, que destaca as especiarias. Cabe destacar que as condições de produção têm suas particularidades: Neste terroir, as inclinações de terreno pode chegar a 60° graus em sub-solo granítico e solos metamórficos de micaxistos. A chamada Côte Brune possui óxido de ferro em sua composição, tornando os vinhos mais escuros e viris. Já a chamada Côte Blonde, apresenta um perfil mais calcário, dando elegância aos vinhos.

La Mouline é o mais elegante e delicado, La Landonne, o mais possante e estruturado, La Turque, a conjunção da elegância e a potência. São vinhos grandiosos. Um privilégio poder participar de uma degustação com os 3 sobre a mesa: La Turque 2005 tem tudo que um vinho pode querer; o La Mouline 2010, a delicadeza e a elegância e que ganhará muito em cinco anos; La Landonne 2011 mostra toda a pujança e a exuberância da syrah tratada com esmero. O vencedor? Os participantes.

Assim como Hollywood tem ampliado suas trilogias, os Guigal também seguem o caminho: em 2021, anunciaram a aquisição de um vinhedo a que chamaram de La Reynarde, como o riacho que corre entre Côte Brune e Côte Blonde. (O lugar foi tornado feminino e batizado ‘La Reynarde’ para permanecer dentro da família de vinhedos únicos Côte-Rôties comumente conhecidos como ‘os LaLas). As uvas virão de um terreno em Fongeant, entre vinhedos de Jean-Paul Jamet e Jean-Luc Jamet. A primeira safra, de 2022, chegará ao mercado em 2026. La Reynarde é uma homenagem aos filhos gêmeos de Philippe Guigal, Charles et Etienne. Eles nasceram em 2010, mesmo ano em que o terreno foi liberado para plantio.

Que a família Guigal continue crescendo e vinificando com esmero! Baco só pode agradecer.

PS: Mr. Gilman, o bastião do classicismo da crítica internacional, tem tido que os vinhos pós 2000 dos Guigal têm ficado muito mais acessíveis que os dos anos 1980. Quem sabe eu não tenha a sorte de poder discordar ou concordar de John Gilman, que acha os vinhos de Jean Louis Chave mais pesados que os do pai, Gerard. O La Turque 1988, bebido na casa do Nelson, é o melhor vinho que eu tive o prazer e o privilégio de beber.

Domínio do Açor, uma águia portuguesa em pleno voo

2 de Agosto de 2024

Há três anos, um grupo de investidores brasileiros resolveu unir a paixão pelo vinho com o trabalho de colocar adiante uma vinícola. Olharam oportunidades na Itália, mas a ocasião se fez presente em Portugal, mais precisamente, no Dão. Guilherme Corrêa, que por anos construiu um portfólio superlativo na Decanter (Valentini, Soldera, Mascarellos etc…) e morava havia algum tempo em Portugal, onde é um dos sócios da distribuidora Temple Wines, descobriu que estava à venda a Quinta Mendes Pereira, situada junto à vila de Oliveira do Conde, com vinhas velhas com mais de 60 anos.

Assinado o cheque, a primeira decisão foi o nome: domínio de açor (ave de rapina e não tem a ver com as ilhas que formam o arquipélago dos Açores). A segunda decisão foi buscar um enólogo. Guilherme gostava do trabalho de Luis Lopes, que estagiou na Borgonha com Dominique Lafon, na Nova Zelândia na Martinborough Vineyards, passou pela Alemanha e depois ficou nove anos na Quinta da Pellada, cujos vinhos brancos e tintos são referência.

Enviou uma mensagem pelo linkedin para Luis Lopes, que estranhou receber a mensagem para conversarem pela rede social corporativa. Marcaram um encontro e acertaram os ponteiros. Para mostrar a ideia do que ambicionava, Guilherme fez uma prova às cegas com Luis e apresentou um branco para o enólogo. “Dá para fazer um vinho desses?”, questionou, depois de mostrar que se tratava do albilo branco do Dominio de Aguila, uma propriedade que tem reescrito a história dos vinhos espanhóis, com brancos, rosado e tintos de exceção, feitos no terroir de Ribeira del Duero.

Com essa referência e a ideia extrair o melhor do solo de origem granítica, a intenção era fazer o Dominio de Açor se tornar referência no terroir, buscando mineralidade, elegância, baixa produção, num estilo bourguignon na terrinha. Contrataram Pedro Parra para o estudo geológico. Um dia antes de abrir os buracos e avaliar o terreno, Parra chamou Guilherme para o quarto. “Guilherme, nós nos conhecemos há muito tempo, mas serei honesto: se o terroir não for bom, eu vou dizer que não vai dar pra fazer grandes vinhos, tá?”, disse.

Meses antes, tinha ido para o Napa Valley para fazer uma avaliação depois que um investidor tinha posto US$ 100 milhões na aquisição da propriedade, mas foi frio na resposta a ele: “o subsolo não é para grandes vinhos”. Guilherme achou que seria uma moleza. Ouviu as frases com um suor frio. Pedro amava o granito, considera estes solos entre os melhores do mundo, ao lado do calcário, para lograr vinhos de elegância, frescura e mineralidade. Mas agora, depois do alerta em viva voz, vinha a dúvida, a ser resolvida com o estudo de caso no dia seguinte. Não dormiu a noite.

Luís Lopes, enólogo chefe

Mal tomou o café da manhã. Acordou com o coração agitado e receoso de que Parra não desse o aval e ele tivesse uma dor de cabeça para repassar aos investidores. Quando Parra, enfiado em um dos buracos, o chamou, foi correndo com o coração na mão e os dedos cruzados. Parra mostrou os quartzos que ficavam à vista. “Aqui dá para fazer grandes vinhos”, disse. Guilherme suspirou.  

De 11 parcelas, através do estudo de granulometria e condutividade eletromagnética dos solos, Pedro Parra identificou que 55% corresponde a nível Grand Cru de quartzo. “O que faz o grande vinho, a mineralidade não é a pedra, mas a degradação dela ao longo dos milhares de anos”, ensinou a Guilherme. O cuidado com as vinhas foi completado com a contratação de Marco Simoniti, que podou por dez anos as vinhas de Marcelle Bizou Leroy e hoje cuida das videiras do DRC.

A primeira safra foi a de 2021. Os vinhos já estão ganhando a atenção da mídia internacional, mas, principalmente os tintos, ainda estão se acertando. Daqui vão sair vinhos muito mais caros e disputados no mercado mundial.

O Cerceal Vinha Ruína vem de uma parcela de 2,8 hectares com idade de 33 anos. Revela de forma enfática a mineralidade de granito molhado e o lado citrico e de zestes de laranja da casta no nariz. Esse aqui eu colocaria às cegas com o Dominio de Aguila branco. O encruzado é um vinho com sotaque bourguignon, com textura elegante, persistência e a segunda safra mostra um salto em relação à primeira, de 2021. Um branco que crescerá com mais de cinco anos de adega. Nos tintos, o potencial é grande, com um vinhas velhas que chegará a ser um dos grandes vinhos de Portugal.

Em três anos, uma revolução silenciosa se iniciou. Voará bem alto.

Às cegas entre grands crus de Chablis

15 de Junho de 2024

Chablis é um dos mais inconfudíveis vinhos do planeta vitis e talvez o que mais sofra nos últimos anos do aquecimento global. A sutileza, o nervo preciso, os aromas quase etéreos, o sabor pulsante sem ser agressivo. A essência sem máscaras, sem subterfúgios. Se terroir parece algo inexplicável, Chablis personifica este conceito como nenhum outro território de vinhas.

Localizada no meio do caminho entre Beaune e Paris, a região tem uma particularidade em relação aos vinhos da Côte d´ Or: o clima é mais frio, rigoroso O solo contém uma mistura judiciosa de argila e calcário, culminando no que chamamos Kimeridgiano (Kimméridgien), fosséis marinhos calcinados no marga, característicos das porções de terra dos grands crus da região.

Em 5,8 mil hectares, apenas 1,5% da produção total é destinada aos sete grands crus, que são: Blanchot, Bougros, Grenouilles, Valmur, Preuses, Vaudésir, e Les Clos.


Em relação aos grands crus, segundo Clive Coates e Jasper Morris, dois dos mais profundos conhecedores e historiadores e degustadores da região:


Bougros
O mais a oeste é um vinhedo íngreme, criando vinhos mais suaves e gordos. São mais amigáveis ​​na juventude do que alguns dos Grand Crus.

Preuses
No geral, tendem a ser vinhos elegantes, redondos e com aromas delicados.


Vaudésir
É chamado por alguns de “Vale do Vaudésir”, pois a colina Grand Cru foi erodida para formar um pequeno vale. A erosão significa que partes da vinha têm mais argila no solo do que a maioria dos Grand Crus. O resultado é um vinho de equilíbrio, com elegante mineralidade e concentração de fruta.


Grenouilles
O menor dos Grand Crus, Grenouilles está localizado ao longo da margem do rio Serein; o nome da vinha na verdade significa “rãs”. Como as vinhas estão voltadas a sul, recebem sol o dia todo, criando um vinho maduro e frutado.

Valmur
Situado entre Grenouilles e Les Clos, Valmur está também em um “mini-vale”, esculpido pela erosão. Muitas vezes precisa de tempo para envelhecer, já que esses vinhos ácidos são poderosos e austeros na juventude.

Les Clos
Dos Grand Crus, Les Clos é o maior, mais conhecido e indiscutivelmente o melhor. Tem um declive aberto virado a sudoeste, permitindo que a vinha tenha exposição ao sol quente e abundante da tarde. Isso é importante para o amadurecimento em Chablis frescos e dá aos vinhos Les Clos aquele inebriante empurrão entre opulência e acidez fina.

Blanchot
Mais a leste dos Grand Crus, Blanchot contorna a encosta da colina para o lado sudeste, ao contrário de seus vizinhos. Isso torna os vinhos Blanchot menos frutados e poderosos, mais leves e mais ácidos, com notas cítricas ácidas, esses vinhos amadurecem mais rápido.

Às cegas

No Bistro de Paris, foram selecionados cinco grands crus de safras recentes (apenas um 2021 e quatro da safra 2020, considerada excelente para a região). Participaram da degustação: Vaudesir, do domaine Gautheron, importado pela delacroix e o único 2021 do painel; Valmur e Les Clos do Domaine Moreau, da Sonoma; Droin com seu Hommage a Louis (havia uma disputa entre a aduana francesa e a legislação local em relação se o vinhedo estava mesmo em les Clos, em maio ela foi resolvida e a partir da safra 2023 ele poderá usar o vinhedo grand cru mais famoso no rótulo), trazido pela Mistral; Valmur de Bessin Tremblay, da Clarets. A degustação foi feita em taças riedel wings, importadas pela Mistral, detalhe importante. Grandes vinhos merecem taças apropriadas.



O resultado? A safra 2020 produziu grandes vinhos e o exemplar da 2021 aponta que essa safra tem muitos predicados, apesar de ter sido despercebida pela mídia, que se apaixonou pela 2022. Vamos aos vinhos: às cegas, Valmur de Moreau e o Vaudesir de Gautheron dividiram os dois primeiros lugares. Também são os dois mais baratos no painel, com preços ao redor de 750 reais a garrafa (em um momento em que borgonhas sobem de preço a cada safra e o câmbio chegou perto dos R$ 5,5, esses dois são excelentes qualidade-preços). Às cegas, achei que fossem os dois clos presentes à degustação, que teve o Droin em terceiro lugar, Bessin Tremblay com seu Valmur em quarto, e Moreau com seu Les Clos em quinto. Mas não há perdedores: foi uma degustação de alto nível, com vinhos que pontuariam acima dos 93 pontos, se vinho fosse basquete, e o escritor, estatístico.

Campeão da noite

Os quatro produtores são de destaque na região e estão entre os melhores que circulam os guias fora as duas unanimidades: Raveneau e Dauvissat, cujos vinhos na juventude podem ficar para trás, mas com o tempo ganham camadas e camadas que só os grandes atingem, sejam os premiers crus, sejam os Les Clos de ambos, que às cegas podem se transformar em uma guerra de foice na escuridão, como sempre dizia o mestre Nelson. Eu participei de uma dessas e a cada gole mudava de opinião.

Depois de bebidos solo, foi a vez da harmonização enogastronômica. Primeiro, foram ostras frescas do litoral paulista. O forte caráter iodado das ostras frescas, além da salinidade, exige mineralidade e os chablis são uma alternativa clássica e perfeita, ainda mais nesse tipo de degustação em que se trata de grands crus de primeiro nível. Os grands crus da região ainda são ótimos para ostras gratinadas, cuja textura e sabor são mais ricos. ((As opções à mesa para ostras também podem se estender dos clássicos Muscadets do extremo oeste do Loire (prefêrencia pelos de Sèvre et Maine sur lies), passando por Pouilly-Fumé (outro extremo do Loire), Savennières (Chenin Blanc bem seco), ou para quem prioriza sofisticação, um champagne Blanc de Blancs (elaborado só com Chardonnay)). 

Depois os chablis ainda ganharam a companhia de um ótimo peixe no sal, mostrando toda a versatilidade que a chardonnay do terroir chablisienne oferece nas mãos certas.

Uma noite para repetir a cada safra!

James Bond e a licença para beber

15 de Junho de 2024

O último filme do agente secreto com licença para matar, o vigésimo quinto da série, com Daniel Craig em sua última aparição como James Bond, teve um final tão impactante que até hoje não consegui rever, mas foi brindado pelo espião, nascido na guerra fria e agora às voltas com terroristas sem pátria, com uma garrafa de Château Angelus, bebida quando ele chega de surpresa à casa de M, que estava preparando o jantar. O mesmo bordeaux tinha sido o escolhido da estreia de Craig no papel, em “Casino Royale”, brindada primeiro com Bollinger, depois com o chateau de Hubert de Boüard. No trem em que o leva a Montenegro, onde irá disputar partidas de pôquer, Bond pede uma garrafa de Château Ângelus 1982 para acompanhar o cordeiro que ele e Vesper comem.

Na hora de gravar “Casino Royale”, os produtores da série ligaram para o proprietário do renomado château, classificado como um premier cru classe B de Saint-Émillion, Hubert de Bouard sugeriu a safra 1990, outra das maiores da história. Agradeceram, mas fizeram um pedido: James Bond tem um apreço especial pela safra 1982, que começa a ganhar maturidade agora. Pedido aceito. Bouard veria as garrafas de Ângelus 1982 subirem de preço depois da aparição, segundo reportagem da inglesa Decanter no fim de 2006, quando “Casino Royale” chegou à telona.

Mas a maior paixão de Bond, além do dry Martini, são os champagnes. Aí sobra diversidade: em “Dr. No” e em “Goldfinger”, Dom Pérignon (LVHM do Brasil) é a eleita, sendo que Bond revela sua preferência pela safra 1953. No início de Goldfinger, quando está na cama com sua primeira loira do filme, ele fica indignado com a temperatura da garrafa. Ameaça levantar da cama, mas ela quer que ele continue. “Há coisas que não se podem fazer na vida, uma delas é beber Dom Pérignon na temperatura errada”, diz Bond, indo para a geladeira, onde em segundos é atingido na cabeça pelo seu mais carismático vilão. Meu Bond e filme preferidos fazem com que a Dom Pérignon 1953 (em condições pristinas) seja o vinho que eu escolheria na última refeição. Estou também na companhia de Marilyn Monroe.

Em “Moscou contra 007”, Bond, no luxuoso vagão restaurante do trem que corta os Bálcãs, pede para acompanhar seu linguado grelhado um Blanc de blancs (uma champagne feita apenas com uvas brancas). Na mesa, vem a Comtes de Taittinger, da Taittinger. Já o acompanhante na mesa pede um chianti. Ao que o garçom atônito retruca: “chianti branco?”. “Não, tinto”. Seria a senha para descobrir que o loiro alto que se fazia passar por amigo no fundo era um espião inimigo.

Outra preferência no mundo dos espumantes é a Bollinger, que até confecciona rótulo e assemblage especiais para um vinho dedicado aos fãs da série e das borbulhas mais preciosas do mundo. Depois de ter sido mantido em solitária, espancado, ficado sem comida no início de “Die another Day”, Bond redobra o fôlego, foge da prisão, cruza o mar e chega a um luxuoso hotel de Hong Kong, onde faz uma série de pedidos ao gerente. No fim, frisa: “e, não se esqueça, uma garrafa de Bollinger 1961, se você tiver uma ainda.”

A conta? Por 25 filmes, foi para a rainha. Agora irá para o rei.

A Alemanha da Cave Leman

28 de Maio de 2024

Há 100 anos, quando se ia jantar no Ritz e se folheava a carta de vinhos, os preços de rieslings alemães se destacavam, com cifrões mais altos que os franceses, fossem eles da borgonha ou do rhône. Chamada pelos críticos de rainha das uvas, a riesling, com seu alto potencial de envelhecimento e versatilidade ímpar sobre a mesa, ganhava páginas em vários restaurantes mundo afora.

Vieram os anos 1960 e 1970 e os vários Liebfraumilch começaram a ganhar as gôndolas do mundo, chegando a alcançar perto de 60% de todos os vinhos exportados pela Alemanha. Em grande maioria, os produtores usavam Müller-Thurgau, Kerner, Sylvaner e quase nada, ou nada, de Riesling, em vinhos que custavam pouco, eram leves e doces e deixaram milhões de consumidores com a ideia de que vinho alemão não era sinônimo de qualidade. Aqui no Brasil a garrafa azul fez vítimas também.

Se a França e principalmente a Borgonha vivem hoje o ápice da popularidade, com uma vertiginosa ascensão de preços, a Alemanha, apesar de uma alta de preços nos últimos anos, é hoje o mais subestimado produtor de vinhos do planeta vitis. Foi isso que conversávamos na última segunda-feira de maio de 2024 em meio a rótulos tedescos importados pela @caveleman, de Marcio Morelli, que está construindo um portfólio de vinhos alemães que fará história no país.

Há estilos, mãos, filosofias e terroirs tão diferentes, que se comprova que a qualidade não está apenas na riesling, mas em chardonnay e pinot noir. No princípio, a única intrusa na degustação: champagne, Marie Courtin, Efflorescence, safra 2017, terroir da Côte des Bars (Aube). Dominique Moreau criou a casa em 2005 em um terroir com fama para a produção de pinot noir, videiras de 45 anos.

Dominique faz vários cuvées, mas a maior parte de sua pequena produção é dividida entre seus cuvées Résonance e Éfflorescence, a primeira fermentada em aço inoxidável e envelhecida por 24 meses sur lattes (período de tempo no qual as garrafas de Champagne ficam armazenadas em posição horizontal, como parte do processo de produção que inclui a segunda fermentação, chamada na região de prise de mousse), e o último é fermentado e envelhecido em barricas usadas, seguido de 36 meses sur lattes. Dominique Moreau faz belos vinhos, sempre extraindo um lado elegante e floral em suas criações (a rosé Indulgence é obrigatória). Na Éfflorescence, o lado floral delicado está ali. Tentaria harmonizar com codornas e morilles.

Da Champagne vamos para a Alemanha. Primeira parada: Rheingau. Hans Josef Becker, apelidado de Ha-Jo. São pouco mais de dez hectares de uvas, 80% delas riesling, com produção tradicional, mantidas em contato com as leveduras o máximo de tempo possível. “Meus vinhos são ricos e potentes, não precisam de açúcar residual”, disse ele a Stephan Reinhardt, no excelente “The Finest Wines of Germany”. O Spatlese trocken Wallufer Walkkeberg er 2012 tem um aroma que mescla maracujá, mel, toque floral e na boca a mineralidade da pedra de ardósia. Harmonizaria com as ostras do Baru Marisqueria. Que beleza de riesling!

Segunda parada: wasenhaus. Christoph Wolber e Alexander Götze administram essa vinícola em Staufen, ao sul de Freiburg i. Amigos desde os estudos de enologia em Beaune, na Borgonha, fundaram a propriedade em 2010. Trabalharem por lá em grandes domaines como Pierre Morey, Comte Armand, De Montille e Leflaive, e decidiram regressar à Alemanha, onde criaram a Wasenhaus . Escolheram a região vitivinícola de Baden, num vale que os separa das montanhas francesas dos Vosges e dos vinhedos da Alsácia. A primeira safra Wasenhaus é 2016. Em pouco tempo, eles fizeram barulho. Diga-se de passagem: aqui não são apenas os tintos que merecem mergulho, o chardonnay é uma beleza, com uma mineralidade instigante ao fundo, feito para frutos do mar e para a comida do Sororoca ou o ótimo peixe do Virado.

No capítulo tintos, o grand ordinaire é um glou glou delicioso, extremamente perigoso, com um claro defeito: deveria ser em garrafas magnums. O spatburgundner 2021 é um belo vinho, elegante e às cegas também provocaria confusão em uma degustação com pinots franceses. Pureza de fruta, pitangas, elegância. Põe no seu caderninho, virão outros rótulos dessa casa, que merecerá post à parte porque aqui nós estamos falando de um dos produtores de elite da Alemanha.

O estilo da Wasenhaus é bem diferente do clássico de Martin Wassmer, o que prova que Marcio Morelli vai aos poucos compondo uma sinfonia de notas que ao fim criam uma melodia de se aplaudir de pé. Dois destaques de Wassmer: o excelente Schlatter, que em 2018 está pronto (apesar de que em três a cinco anos ele ganhará toques terciários bem instigantes) e em 2019 ainda esbanja juventude. Hedonismo agora ou amanhã? A 391 reais se torna uma excelente qualidade preço. Harmonizaria com o shoulder de wagyu do Virado.

No nível grand cru, a contraposição entre Castellberg 2015 e o 2014 Maltesergarten, dois belos pinots, com minha preferência recaindo sobre o último, um terroir que fica entre a floresta negra e o vale do reno. Com dez anos de vida, ainda está na juventude, tem um final de boca que mostra profundidade e, claramente, demonstra por que a Alemanha é o mais subestimado dos produtores de vinhos brancos e tintos do planeta vitis.

Que os átrios e os ventrículos de Marcio Morelli continuem pulsando e fazendo com que a Alemanha chegue ao Brasil em sua melhor forma. Os apreciadores de Baco só podem agradecer. Virão ainda muitas novidades da Cave Leman, de Baden a Franken. Se Adolar Herman fez história nos anos 2000, agora um sobrenome italiano escreverá as linhas tedescas por aqui.

Prost!

Didier Depond, o maestro da Salon

14 de Abril de 2024

Na primeira semana de setembro de 2023, Didier Depond foi ao Palácio do Eliseu, centro do poder da França, entregar uma garrafa especial: uma Salon 1948, degolada 75 anos depois da colheita, o presente do presidente Macron ao rei Charles III. Adam Brett Smith, da importadora Corney & Barrow, uma das fornecedoras da Coroa inglesa, tinha visto Salon e Delamotte presentes em várias comemorações do hoje rei, desde a época do casamento com Diana e do nascimento dos filhos. “Podia ter sido tantos presentes, mas foi uma Salon, motivo de orgulho, se viu que o rei tinha a marca como sua champagne particular”

O governo francês queria uma magnum da Salon 1948, mas a versão em 750 ml era a única disponível. A garrafa foi degolada em 1 de setembro de 2023 e entregue ao rei Charles III em 20 de setembro.

“Salon, Romanée Conti e Pétrus são os três símbolos mundiais da enologia francesa”, comenta Depond, desde 1997 à frente de Salon e de Delamotte. Possui no coração essa safra da Salon como a sua preferida. “É a minha queridinha, hoje está em um ponto excelente para ser degustada”, diz sorrindo. Tem uma das mais desafiadoras missões do mundo do vinho: decretar se uma safra esta à altura ou não para ser declarada de excelência e então se transformar em Salon.

Nascida em 1905 para ser a marca privada da família, Eugene Aimé Salon revolucionou a região reputada por criar um espumante à base da assemblage com uma ideia inovadora: uma champagne com uma uva (chardonnay), um vinhedo (Le Mesnil), uma safra. Criou-se uma blanc de blancs mítica. De 1905 até hoje, em quase 120 anos de história, menos de 50 safras foram declaradas à altura de uma Salon. Até agora foram 43, número que irá subir para 44, porque a safra 2014 também se tornará Salon. (Curiosidade: a degustação na Salon é feito com taças de riesling da Schott zwiesel)

A preferida de Depond e servida em almoço para amigos em São Paulo

A escolha de declarar se a Salon será comercializada é formada a partir da opinião de três pessoas: Depond, o chef da cave e seu sub. Ele diz que dorme tranquilamente na noite anterior ao dia em que se experimentam as uvas e os vinhos que poderão ser engarrafados. “Faz parte do trabalho, mas degustamos as 19 parcelas que compõem o vinho, discutimos e usamos nossa memória das safras anteriores.”

Cerca de 70% das uvas que podem se transformar em Salon são compradas de produtores locais, sendo que cerca de 70% dessa produção de terceiros acaba ficando nas mãos da própria Salon. “Além da supervisão muito próxima, nós também estamos na terra desses parceiros que às vezes não têm como fazer o trabalho eles mesmos. É um trabalho baseado na excelência”, analisa. São cerca de 19 parcelas que são usadas na Salon. Quando a qualidade das uvas não está à altura da champagne criada por Aimée Salon, as uvas podem ou não ir para a Delamotte.

Depond diz que seu trabalho deu a oportunidade de degustar Salons de diferentes décadas, com exceção das produzidas nas décadas de 1920 e 1930, bebidas pelos alemães na segunda guerra mundial, quando parte da França foi ocupada pelos nazistas. Mas comparar é tarefa impossível. “Os mundos enológicos de 1905, 1999 e de hoje são totalmente diferentes, tudo mudou.”

O aquecimento global não tem influenciado na qualidade das uvas e do vinho produzido, mas na data de colheita, que tem sido cada vez mais precoce. Traz também novas preocupações, que exigirão atenção nos próximos anos. “Era outubro, depois veio ser setembro e agora pode ser agosto, e a parte mais visível está nos vinhedos, com a vegetação que cerca as videiras, o que pode trazer novas espécies de plantas, novos insetos e novas doenças”, diz.

Depond não se esquece do dia de 1988 em que pisou em Brasilia e viu de perto a arquitetura de Oscar Niemeyer. Não se esquece também das ruas históricas de Ouro Preto e de Salvador. Nem que se alfabetizou aos cinco anos com um livro traduzido do português sobre três garotos na Amazônia, escrito por An-to-ni-e-ta Di-as de Mo-ra-es, soletra ele com seu sotaque francês. Acorda todos os dias de manhã com uma playlist em que se destacam músicas de bossa nova. Adora também as composições de Chico Buarque, mas nunca encontrou o cantor, que tem uma apartamento no coração de Paris, na île Saint Louis, onde passa alguns meses do ano.

Depond diz preferir degustar Salon com pelo menos 15 anos de adega, melhor ainda com duas décadas de envelhecimento, quando a mineralidade do terroir se transforma nos aromas secundários. Em algumas safras, como 2008, o potencial é tão grande, que eles tomaram a decisão de vinificar apenas em magnum, o que permitirá que na garrafa a lenta passagem do tempo faça-a ganhar ainda mais complexidade.

Nas últimas décadas, o mundo da champagne tem assistido à expansão das grandes marcas de luxo. A LVHM é dona de Dom Pérignon, Krug e outras. Hoje estaria responsável por cerca de um terço das pouco mais de 300 milhões de garrafas anuais produzidas na região. A Artemis recentemente adquiriu dos irmãos Chiquet a Jacquesson. Isso muda alguma coisa? “A distribuição da champagne aumentou por causa dessa chegada e isso contribuiu para que aumentássemos nossa inserção. Em 1997, quando cheguei aqui, vendíamos praticamente para menos de dez países, com grande parte da produção direcionada para a França.”

Hoje 30% do mercado de Salon e Delamotte está nas mãos de clientes japoneses. Depond viaja, pelo menos, duas vezes ao ano para o Japão. A produção da primeira está em 60 mil garrafas, a segunda, em cerca de 800 mil. “A culinária japonesa se harmoniza muito bem com nossos vinhos, seja a fria, seja a quente”, afirma. Considera que as duas marcas, pertencentes à Laurent Perrier, são seus dois filhos. “Um é mais iluminado que o outro, mas tenho muito orgulho do que fiz com a Delamotte”, afirma. Quando assumiu as duas casas, a Delamotte produzia oito diferentes cuvées. Cortou pela metade e buscou desenvolver uma blanc de blancs com uvas dos seis vinhedos grands crus da Côte de Blanc. A ideia deu certo na safra 2008, quando a casa obteve parcelas em Chouilly e Oiry, que puderam ser adicionadas às uvas de Le Mesnil-sur-Oger, Avize, Cramant e Oger.

Em recente almoço em Paris, com o amigo Aubert de Villaine, que por décadas esteve à frente do Domaine Romanée Conti, Villaine gostou tanto da safra 2018 do blanc de blancs da Delamotte que pediu algumas garrafas. Os dois discutiram as dores de comandarem duas casas que têm dificuldade para atender a novos pedidos. A falsificação das garrafas não é uma preocupação da Salon. “A pressão das garrafas torna isso um grande obstáculo para os fraudadores.”

Krug, a arte da assemblage

6 de Abril de 2024

Nas cuvées de luxo de Champagne, Krug e Salon têm um lugar especial entre os afortunados enófilos que podem comprá-las. Salon é reputada pela sua singularidade: uma uva, um terroir, uma safra, tendo feito isso desde a primeira safra 1905 (74 anos antes da Clos de Mesnil); enquanto Krug tem em seu cartão de visita a arte da assemblage, desejo do fundador da casa, Joseph Krug, cuja visão foi recriar a cada ano, pela mescla de uvas, a melhor expressão do que a região de Champagne pode oferecer.

A intenção veio depois de uma experiência de mais de uma década na Jacquesson, que naquele momento era uma das mais famosas maisons de Champagne, sendo a preferida de Napoleão. “Tínhamos dificuldade para entender por que ele deixou a Jacquesson que era um grande endereço, mas, ao abrir arquivos e encontrarmos algumas cartas que ele escreveu depois de sua saída, vimos que ele escutava muitos reclamando da falta de consistência dos vinhos e que não se conseguia extrair o melhor todo o ano para os clientes. Há cartas dos Jacquessons escrevendo para ele não perder tempo que a safra decide a qualidade”, disse Olivier Krug em entrevista ao vinography.

Foi assim que ele resolveu empreender em seu próprio endereço e surgiu o cartão de visita: Grande Cuvée, cuja primeira edição foi baseada na safra de 1845 e que pode ser uma mescla de mais de 120 tipos de vinhos de reserva de mais de 15 safras diferentes. A ideia é oferecer um vinho capaz de chamar a atenção ao primeiro gole, com versatilidade para escoltar diferentes tipos de pratos e que possa envelhecer à perfeição. Para cristalizar sua filosofia, Joseph Krug escreveu o que pensava ser as diretrizes de como se fazer um grande champagne em seu caderno pessoal, que pode ser visto ainda hoje em visita à Maison.

Algumas das máximas, escritas em 1848: “sempre vá atrás do melhor produto, nunca conte com o acaso”; “Em princípio, uma boa casa deve oferecer duas safras da mesma composição e qualidade”, continuou Krug. “O primeiro será recriado todos os anos e é o mais difícil de fazer. Equilibraremos o que a natureza nos deu com vinho reservado e maduro, e o blend oferecerá a melhor qualidade em cada ano. A segunda será igual à primeira, mas ligada às circunstâncias do ano em questão.”

A edição 171, baseada na safra 2015, sete anos de envelhecimento nas caves da Krug, é uma mescla de 131 vinhos de 12 diferentes safras, sendo a mais jovem, 2015, a mais antiga, 2000. É integrada por um corte de 45% Pinot Noir, 37% Chardonnay e 18% Meunier (a Krug se destaca ao usar essa casta, que foi relegada por grande parte das maisons, entrando apenas em quantidades muito pequenas na composição dessas casas).

“Eu fico feliz quando alguém sente os aromas da Krug pela prmeira vez e diz que o que ele está sentindo é diferente e aí quer sentir mais e mais. É uma mescla de uvas da região e uma homenagem ao terroir da Champagne, com cada parcela sendo mantida separada durante a vinificação e a maturação e depois é feita a assemblage”, disse Julie Cavil em entrevista a William Kelley em 2020, quando ela se tornou a primeira mulher a assumir a posição de chefe da cave da Krug.

Bebidas recentemente, a Krug 171 e a 2003 mostraram por que essa casa é para alguns a melhor da Champagne. A 171 tem um tamanho equilíbrio que denota parecer pronta para o consumo, mas a beleza da juventude irá ao longo dos anos ganhar a maturidade de uma espumante que mescla profundidade e elegância. Nem se sente a dificuldade do ano, quente e com uma chuva providencial em agosto. Num ano que representou dificuldades para Champagne devido a uma certa falta de tensão, ela comentou para a The World of Fine Wine: “Não houve bloqueio de maturidade; estava quente, mas sem extremos durante a maturação. Usamos nossos vinhos de reserva para trazer os famosos limão e toranja. Então tivemos que misturar com 2014, 2008, 2004, que são safras mais frescas.”

O ano de 2003 foi tórrido, a safra da canicule, um calor que assolou a França e matou mais de 50 idosos. Com dez anos de envelhecimento nas caves, é mescla de Pinot Noir (46%), Chardonnay (29%) e Meunier (25%). No nariz, aromas de frutos secos, brioche, leve toque de cogumelos, num ótimo ponto de consumo.

Já dizia o Nelson: “É fácil agradar. Basta servir o melhor. Krug. Irrepreensível.”

A arte do restaurante secreto

30 de Março de 2024

(fotos: nadia jung – @nadiajungfotografia – também publicado em pisandoemuvas.com)

Em seu “The Art of the Restaurateur”, de 2012, Nicholas Lander discorre sobre o papel que os restaurateurs têm tido desde a década de 1970. Crítico do FT por mais de duas décadas e marido de Jancis Robinson, que escreve a coluna de vinhos também no FT, o melhor jornal do planeta, Lander escreve que no início os restaurateurs eram o centro dos endereços que abriam as portas, com os chefs relegados às caçarolas. Isso começou a mudar nos anos 70 com a entronização de Paul Bocuse no fim daquela década, processo que ganhou degraus a partir dos anos 80, com Joel Robuchon e seu mítico Jamin (que Geoffroy Delacroix e madame Roberta Sudbrack tiveram a sorte e o privilégio de conhecer).

Hoje os chefs estão na televisão, aberta ou no streaming, nas revistas de fofocas, nas listas da Forbes. Ter restaurante é ser da hype. Lander, que no início dos anos 80 foi dono do L’Escargot no Soho, em Londres, escreve que nesse contexto ficou subestimada e pouco detalhada a figura do restaurateur, cujo substantivo é derivado do verbo em francês “restaurer” e cujo papel era restaurar a saúde dos viajantes que passavam por percalços nas estradas francesas do século XVIII. Subestimado ficou, mas a figura continua a existir e evoluir em maneiras fascinantes, segundo ele.

Pensei no livro, nas colunas de Lander (a ele e madame Sudbrack devo a dica de ter ido ao L´Astrance, em Paris, cujo endereço atual é o mesmo que décadas antes Robuchon usou para se tornar o maior de todos em Jamin), ao refletir sobre um recente jantar em São Paulo, em um “restaurante secreto”, na definição irônica de uma das convidadas. Não há placa na porta, não há preços, não há críticos se debruçando sobre o que comeram. A razão é simples: é a residência do anfitrião, que abre as portas para amigos e nesses almoços ou jantares cozinha para eles, abre garrafas e compartilha momentos.


Na Bíblia, no Gênesis diz-se que se criaram primeiro o céu e a terra. Aqui o gênese começa com as borbulhas francesas da região da Champagne. Tudo caminhava serenamente, até que o anfitrião resolveu escrever o gênesis do enófilo (pelo menos desse aqui). Pediu para abrir uma Krug édition 171. A nossa (minha) bíblia, permitida pela revolução protestante do século XVI, deveria começar com: “No princípio, há a Krug”. Não à toa o cachorro da casa recebe o nome da Maison de excelência, cujo mestre ensinou uma vez: “É fácil agradar. Só servir Krug.”

As Krugs grandes cuvées são geralmente arredias quando novas, exigem alguns anos de envelhecimento, mas tal o equilíbrio dessa 171, cujo ano base é 2015, que se sai com a convicção de que essa poderá ser desfrutada do hoje aos 100 anos. A comparação entre a Krug, a Krug 2003 (já com seus toques de envelhecimento e a serenidade de quem está no apogeu) e a Dom Pérignon 2012 (que me parece um degrauzinho acima da 2008 e no mesmo patamar da 1996; a P2 vai ser mítica) ganhou a companhia de blinis, creme azedo e caviar. Aqui devo me desculpar ao anfitrião e à Nadia pelo fato de ter sido glutão demais nesse capítulo e sujado a mesa do restaurante secreto.

A casquinha de siri chega à mesa com um puligny montrachet 2014, premier cru Champs Canet, de Jean Marc Boillot, branco para limpar o palato, um coadjuvante do que virá a seguir. Nas taças, o Chevalier les demoiselles de Louis Latour, 0,5 hectare de uma parcela murada dentro do grand cru mais elegante que a Côte de Beaune tem (aqui finesse sobressai, enquanto no Montrachet a textura ganha contornos especiais, sendo um comparativo com a de Hermitage branco) e o Pucelles 2010 de madame anne Leflaive.

Há alguns terroirs premiers crus que jogam numa liga à parte: Perrières em Meursault e Pucelles em Puligny são dois deles. Quando vignerons de excelência como Jean Marc Roulot e Anne Leflaive os vinificam, o resultado é ímpar. Para escoltar os dois brancos, vieiras grelhadas à perfeição e enfusionadas sob especiarias asiáticas com lascas de trufas. Madame Anne Leflaive, no céus dos artistas, deve ter gostado.


As taças agora ganham um tinto especial da Bourgogne: o terroir de Chambolle Musigny Les Amoureuses. Aqui a feminilidade da comuna de Chambolle-Musigny é exacerbada ao extremo. O solo de Les Amoureuses é composto entre outros componentes de um calcário ativo, além de destacada pedregosidade, gerando vinhos de extrema elegância. Algo semelhante ocorre no Grand Cru branco Chevalier-Montrachet, de singular delicadeza, sublimada de maneira brilhante pelo Domaine Leflaive.

Os aromas de rosas, frutas delicadas, alcaçuz, especiarias sutis, toque defumado, leve terroso e um toque de couro estão no 2008 de Frédéric Mugnier. O vinho aparenta de início uma certa fragilidade. Ledo engano, sua estrutura devidamente camuflada gera grande persistência e expansão em boca. Sua acidez é a chave para a longevidade. Seus delicados toques florais marcam de forma incontestável seu terroir. Ao seu lado, o capricho de Domaine Bertagna safra 2019, 139 garrafas produzidas. Para a harmonização, uma lasanha de codorna.

O anfitrião decide às cegas abrir uma garrafa, outra, às cegas, também surge. Primeiro, um Margaux 1986, depois um Nuits Saint Georges Clos de La Maréchale 2006, a terceira safra do cru que por décadas ficou em lease para os Faiveleys, mas Frédéric Mugnier recuperou em 2004.

Chega a hora da sobremesa. Torta de limão, prenúncio de mais um confronto: Yquem 98 e um BA alemão 2009 de Zöller. E de saideira ainda teve Jérome Prévost e seu La Closerie Béguines 2019, um capricho feito nos 2 hectares cultivados de pinot meunier.

Restaurar e recuperar ânimos na ansiedade do dia a dia em um restaurante secreto e fazer esquecer os dramas da existência cotidiana ajudam a buscar a felicidade, que Guimarães Rosa dizia que “se acha é em horinhas de descuido”. Eu acrescentaria que também nos restaurantes secretos, que esbanjam generosidade.

Privilegiados são os que têm abertas as portas.

Aniversário às cegas

6 de Março de 2024

Se Deus for de Chassagne, Volnay ou Beaujolais, já comecei desde essa terça-feira à noite a pedir clemência para não ir ao inferno. Em uma degustação de alto nível de Côte de Beaune e Gamay na terça à tarde, eu nunca cuspi tanto vinho bom na vida, incluindo-se vinhos de Lafarge, um dos domaines preferidos do site, mas a razão era nobre: aniversário de um confrade. Menu às claras, vinhos às cegas, todos da adega de @alejugdar, safra 1973. Vinho com segredo aniversaria, mas os presenteados foram os cinco convidados para o jantar, no ristorantino.

Atraso inevitável diante de uma tempestade em São Paulo, mas a correria foi brindada com um espumante. Champagne? Tudo levava a crer que sim, mas será? Não havia um toque que experimentamos no riserva dal fondatore 2007, brilhante blanc de blancs de Ferrari, de Trento, norte da Itália? Uma cremosidade, um toque de fruta seca, um cítrico. Peraí: isso é mesmo um blanc de blancs? Sim, parece com essa tensão, mineralidade, não?

Não. Trata se de um blanc de noirs, cujas uvas de pinot noir vêm de Dizy, mais especificamente da número um do site: jacquesson, que mudou de mãos depois do impecável trabalho dos irmãos Chiquet. Safra 2013. Intensidade, mineralidade, persistência de um champagne que, esperamos, a artemis nao os torne de bilionários. Um abre alas de primeira e um contraponto aos blanc de blancs da casa, que revolucionou a região com o lançamento da série 700. (tem post aqui no site com detalhes sobre a champagne preferida de Napoleão). Esse champagne com uns aninhos mais de adega e umas trufas brancas de alba…

No primeiro tempo do menu, um tartare de atum, chegou à mesa uma taça com um espumante cuja perlage e efervescência denotavam a timidez do envelhecimento. Aromas de frutas secas, mel, com um leve sous bois, acidez ainda marcante. E aí? Agora um corte? Quantos anos? 20? Não, 25, né? Acho que mais de 30, né? É Champagne? Parece ser, não?

Não. São borbulhas italianas, mais especificamente oriundas da denominação mais reputada pelos espumantes da Velha Bota: Franciacorta. O produtor? O mais premiado na Itália por seus espumantes: ca del bosco. O rótulo: Annamaria Clementi, homenagem à matriarca da família, feita desde 1979 e apenas engarrafada quando o ano é excelente. É fruto da seleção mais especial da casa e a maior rival de ferrari, sendo a preferida da crítica inglesa Jancis Robinson. Safra 1999, corte de chardonnay, pinot bianco e pinot nero. Mais uma prova de que a Itália produz espumantes que rivalizam com os franceses sobre a mesa e às cegas te põem em enrascadas.

Segundo tempo do menu, uma espécie de carpaccio de finas fatias de pato ao forno, abobrinha, mel e laranja. A harmonização é com um vinho cujo aroma na taça mostra o toque de petrolato, característico da riesling. Mas estamos na Alsácia ou na Alemanha ou na Áustria? Na boca, a delicadeza e a elegância (que os franceses não se aborreçam) que aponta para os tedescos. Quanto custa isso? Dá para comprar de caixa? Qual terroir? Mosel, não?

Não. Estamos em Rheinhessen, nas mãos de Wittman, do vinhedo GG (seria o correspondente ao grand cru francês) de Morstein, safra 2018. A delicadeza e elegância desse riesling me deixam com vontade de colocá-lo às cegas com um riesling de Markus Molitor. É um dos três melhores rieslings bebidos pelo site desde 2020. Com o tempo, ele ganhará muito mais complexidade e camadas. Feito para o peixe cru do Sororoca?

Terceiro tempo: saboroso taglioglini nero com frutos do mar ganha a companhia de um vinho branco que vem de um decanter. Nos aromas, parecemos estar na Borgonha, mas estamos mesmo? Vinhocomsegredo é famoso pelas pegadinhas. É Portugal? Então vou morar lá. Não é francês? É? Meursault, tem elegância do Clos de Bouchères do Roulot, não? Tem um caju, um mineral, um toque de bala toffle, um herbáceo. Que é isso?  Parece Chassagne, não?

Não. Clos Vougeot e Corton Charlemagne padecem do mesmo mal: grandes áreas, muitos produtores, poucos se sobressaem, são grands crus cujos resultados são desiguais, mas existem referências absolutas nas duas denominações. Coche Dury, Lalou Bize Leroy e Bonneau du Martray (tem post no site escrito pelo Nelson) jogam na liga dos Cortons que fariam Carlos Magno brindar a unificação europeia com o vinho.

Esse 2007 é um Borgonha que conjuga tudo que faz o chardonnay na Côte de Beaune atingir o ápice: persistência, complexidade, elegância, camadas que vão e voltam em um conjunto de rara delicadeza. Já ouviu falar de mão de ferro em luva de veludo? Aula de Borgonha branco, com um uso de madeira de aplaudir de pé (o Criots Batard Montrachet 2004 de Fontaine Gagnard, bebido poucas horas antes, foi esquecido diante desse branco grandioso).

Quarto tempo: codorna desossada servida com o próprio molho e cogumelos. Chega uma taça que denota que deveremos ter Borgonha. Mas não é nebbiolo? Não parece no aroma. O toque de chá preto, leve carne, alcaçuz denotam um pinot, mas o aniversariante é de pegadinhas. Não é gamay? Se tiver um produtor que faz gamay assim, me manda o endereço. É gevrey? Não parece. É Vosne? Mas e as especiarias? Não é chambolle, pela elegância?

Não. Estamos em Vosne Romanée, mais precisamente no melhor (sim, aqui tomamos partido) premier cru da terra em que não existem vinhos comuns: Malconsorts. Safra 2008, domaine montille, que ainda faz um malconsorts especial, denominado de Christianne, homenagem à esposa de Hubert de Montille, parcela que está colada ao la Tâche. Um Borgonha no seu momento de degustação.

Quinto tempo: filé Rossini com lascas de tartufo nero. Aqui entra mais um tinto cujo aroma de pitanga lembra a Borgonha de novo. Mas é uma pegadinha? lembra que ele levou aquele moulin do Foillard? Porra. Mas isso é pinot. Onde estamos? Volnay? Não. Estamos em chambolle musigny, nas mãos de Faiveley, no premier cru de Combe Orveau, safra 2013. E logo ele ganha a companhia de um tinto servido do decanter.

Estamos em Bordeaux? A mulher do Nelson diria que sim, porque estamos com aroma de bolsa e sapato de couro velhos. Ou é italiano? Ou é californiano?

Não, é bordeaux mesmo e não é qualquer um: chateau Margaux, a referência de Margaux, um dos cinco premiers grands crus classés e um dos quatro classificados em 1855 (Mouton levou apenas em 1973). Nesse momento, sempre recordo das tardes da pensão Santo André ou da Vila Madalena, quando fumávamos depois da refeição e o Nelson brindava com comentários. Os grandes Bordeaux vão além do departamento de bolsas e sapatos das mulheres e se estendem por outras áreas, como a de tabacaria, da caixa de charuto aos puros tabacos de Havana. Margaux tem um conjunto de elegância e potência que lembra um Cohiba. Foi o vinho que deixei na taça no final para arrematar após a sobremesa. Pode nessa safra não ser um gigante, mas é sempre um vinho a se reverenciar.

Sexto round: pudim de pistache com mel e um vinho de sobremesa de elegância. Markus Molitor e seu zeltinger scholsberg auslese 2017, dois asteriscos, que mostram a maturidade mais tardia das uvas e a seleção especial de colheita de um produtor perfeccionista ao extremo.

Chegamos ao fim de uma festa de babette. Ao término, ao andar pelas ruas para chegar em casa, só se pode contemplar as estrelas e rememorar os vinhos, a comida, os amigos e os momentos compartilhados. O que é a vida?

Um brinde a vinho com segredo, que venham outros aniversários e que Baco nos proteja! Com e sem segredo!

Brions, mitos franceses

12 de Novembro de 2023

(publicado originalmente no @pisandoemuvas em outubro de 2022 na vinda de Guillaume ao Brasil)

A produção de vinhos na França tem alguns mitos que pairam no lugar mais alto da constelação de estrelas que posicionam o hexágono como o terroir mais cobiçado do planeta vitis. Em uma terra de tanta tradição e de tantas histórias, em Bordeaux, a primeira estrela no firmamento chama-se Haut-Brion. Embora com as primeiras vinhas plantadas em 1423, lá se vão quase 500 anos, quando o vinho despontou em 1525, sendo reverenciado nas cortes inglesas da época e a partir dele promovendo-os pelos quatro quantos do mundo.

Na polêmica classificação de 1855, o único fora do Médoc fazendo parte do seleto grupo dos cinco primeiros da lista era o Haut Brion, cuja localização é muito particular, nos subúrbios da cidade de Bordeaux. O terreno localiza-se a 27 metros acima do nível do mar com camadas profundas de cascalho importantes e bem posicionadas. Areia e argila predominam no solo, favorecendo o bom desenvolvimento da Merlot, cepa de grande importância no corte, pareando a composição com a robusta Cabernet Sauvignon. Pequenas parcelas de Cabernet Franc e Petit Verdot completam a sinfonia. Esse corte favorece tanto a maciez e sensualidade de aromas, como a precocidade do vinho, sem aquela austeridade típica dos tintos do Médoc, sobretudo quando novos. Evidentemente, é peça importante e principal na tradicional classificação de Graves de 1959, juntamente com seu concorrente direto e vizinho ilustre, o destacado La Mission.

Degustação em outubro de 2022/ Foto Nadia Jung

Outra particularidade importante é sua versão homônima em branco. Praticamente uma unanimidade, é o melhor branco seco entre todos os Bordeaux, balanceando de forma magistral as uvas Sémillon e Sauvignon Blanc, fermentadas em barrica. O vinho permanece nas barricas (50% novas) entre 9 e 12 meses. É bom lembrar que as vinhas para esses vinhos brancos somam menos de três hectares (2,87 ha), contra 48 hectares para os tintos. Sem mais delongas, vamos aos vinhos.

Haut Brion está com o domaine Clarence Dillon desde 1935. A família, do príncipe de Luxemburgo, ampliou sua constelação de estrelas, ao adquirir em 1983 o vizinho ilustre, quase de frente: La Mission Haut Brion, um dos chateaux mais reivindicados para ocupar a posição de Premier Grand Cru Classé. Embora seja um chateau de Graves, mais especificamente de Pessac-Léognan, fica difícil manter só o Haut Brion, seu rival vizinho, como exceção na lista dos grandes do Médoc.

Segundo a crítica especializada, inclusive Parker, La Mission Haut Brion tem um estilo mais potente que seu arquirrival Haut Brion com maior estrutura tânica, sobretudo. Sua area de vinhas tintas é 25,44 ha (48% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot e 11% Cabernet Franc). São 5000 a 5600 caixa por ano. 100% carvalho novo com 22 meses de maturação. Aqui outra particularidade: a produção dos melhores brancos de Bordeaux ao lado de Hautr Brion. Em uma área de vinhas brancas de 3,74 ha (63% Sémillon e 37% Sauvignon Blanc), são 550 a 650 caixas por ano. 100% carvalho novo de 13 a 16 meses de maturação. Vale lembrar que a partir de 2009 passamos a ter o La Mission Haut Brion Blanc, até então conhecido como Laville Haut Brion.

Não bastasse ter duas estrelas em Bordeaux, a família decidiu expandir seus tentáculos à margem direita, mais espeficamente em Saint Émillion, com a aquisição do Chateau Tertre Daugay, que no início dos anos 1900 tinha suas uvas mais valorizadas que o Ausone. A propriedade foi rebatizada de Quintus e, com duas aquisições posteriores de propriedades vizinhas, soma hoje 45 hectares. Produz um saint emillion de ótima qualidade, com mineralidade.

Uma particularidade: a família Delmas, há 3 gerações, cuida da parte enológica dos vinhos de Clarence Dillon. Não se contrata assessoria externa, uma prática recorrente em Bordeaux, seja em grandes, seja em menos conhecidos.

Na degustação da Clarets, tivemos a oportunidade de degustar:

Dragon de Quintus – safra 2013, 57% de merlot, 30% de cabernet franc e o restante de cabernet sauvignon, 25% de madeira nova. Leve couro, toque de violeta, vinho mais em conta de uma família mítica bordalesa.


Quintus 2013 – Especiarias com uma mineralidade ao fundo, toques mais terrosos. Vinho promissor e que ganhará nas próximas safras.

La Chapelle La Mission 2011 – O Chateau La Tour Haut Brion era um chateau independente ligado ao La Mission. Até 2005, sua última safra, foi considerado tradicionalmente como segundo vinho do La Mission. A partir de 2006, deixa de existir La Tour Haut Brion para ser nomeado o Chateau La Chapelle La Mission Haut Brion como segundo vinho. Safra 2011 foi marcada pela estiagem mais longa em uma primavera, mas aqui mão e terroir fazem a diferença e mostram que até um segundo vinho tem a elegância do La Mission.

Haut Brion 2002 – A safra 2002 foi uma das mais difíceis de Bordeaux nesse século, mas aqui talvez esteja o melhor exemplar desse ano, rival de Latour, que também se sobressaiu. Um vinho elegante, com a maciez do terroir. Um bordeaux de primeiríssima linha com aromas e boca desenvolvidos é uma experiência civilizatória.

Clarté Haut Brion – La Mission e Haut Brion produzem, cada um, cerca de 5 mil garrafas de vinhos brancos em uma safra. Como a produção não é grande, decidiram vinificar em conjunto o segundo vinho – La Clarté, quase um corte meio a meio de sémillon e sauvignon blanc. Belo branco de Bordeaux, elegante, gastronômico, para moqueca. Aqui se mostra por que em brancos Péssac gravita acima das demais.

Sorte e azar de Michel Gros

12 de Novembro de 2023

A família Gros é uma das mais confiáveis da Bourgogne. Os irmãos Anne Françoise, Bernard e Michel e a prima Anne fazem vinhos elegantes e refinados em cada um de seus vinhedos e vinícolas. A prima Anne e Michel disputam quem é melhor, com vantagem para o lado feminino, que possui uma ótima parcela de Richebourg e um raro e excelente Vosne-Romanée Les Barreaux, um village que fica pertinho de Richebourg e do mítico Cros Parentoux.

Michel Gros não teve a mesma sorte. Foi num sorteio com o irmão Bernard que ele perdeu a parcela de 0,2 hectares de Richebourg e ficou com o monopólio de Clos de Réas, um vinhedo premier cru murado na entrada de Vosne-Romanée, que fica de frente ao Domaine Leroy e à prefeitura da cidade onde se diz que não existem vinhos comuns.

O Clos de Réas propicia um vinho profundo, elegante e com grande potencial de envelhecimento, talvez o melhor custo-benefício em premier cru de Vosne Romanée. Nas safras ruins, se vê o bom produtor. Um 2004, com um quase imperceptível toque vegetal da pior safra dos últimos 20 anos, se mostra muito bom, abrindo agora seus aromas terciários. O 2015 é um vinho generoso, amplo e refinado, que deverá atingir seu pico na metade da próxima década.

Foi num sorteio que os Gros decidiram não dividir o monopole Clos de Réas e que o Richebourg foi paras mãos do irmão de Michel

O Aux Brulées é um vinho mais acessível quando jovem, com um leve defumado e uma fruta mais evidente, está um pequeno degrau abaixo do Réas, mas é outro excelente premier cru nas mãos de Michel Gros, com uma vantagem: envelhece mais rapidamente, o que permite que seja bebido mais rapidamente. O 2007, uma safra não no mesmo de outras como 2002, 2005 e 2009, mas que produziu vinhos que desenvolvem aromas terciários com menos tempo em garrafa, está delicioso. O 2015 mostra que será um grande vinho, quase comparável ao ótimo 2005, que já ostenta aromas terciários e as especiarias asiáticas tão frequentes nos Vosnes de alto calibre.

Mas não são apenas os Vosnes que impressionam na visita à cave. O Nuits Saint-Georges village é um ótimo vinho, com o peso do terroir, mas um lado mais elegante que o centro da cidade, por estar mais perto da fronteira com Vosne. O Nuits premier cru é um vinho mais robusto, elegante e profundo, mais uma prova de que o estilo de Michel Gros destaca o terroir bourguignon em qualquer um de seus solos. No nível básico, a novidade é o Bourgogne Haute Cote de Nuits monopólio Fontaine Saint Martin (quatro hectares em Pinot Noir e três em chardonnay), um excelente vinho de entrada. O solo aqui tem uma mistura semelhante à encontrada na montanha de Corton. Até 2014 ele fazia a assemblage desse terroir dentro de seu Haut Côte de Nuits básico, mas a partir de 2015 começou a vinificar em separado. O vinho recebe de 20% a 30% de madeira nova e estagia em madeira por 18 meses.

M. Roulot

11 de Novembro de 2023

(publicado originalmente em outubro de 2017 na última visita ao domaine)

A vida do Domaine Roulot sofreu uma reviravolta em 1982, quando Guy Roulot morreu precocentemente aos 53 anos de idade. Jean Marc, seu filho e o natural herdeiro, queria ser ator e tinha deixado Meursault e partido para Paris para estudar no Le Conservatoire. Naquele mesmo ano, quando seu pai estava de cama, ele tinha participado da colheita, mas, com a morte do seu pai, a família decidiu nomear Ted Lemon como o diretor do Domaine. Duas safras depois, Franck Gux, primo de Jean Marc, assumiu os vinhedos até que, em 1989, Jean Marc Roulot decidiu deixar a atuação de lado e resolveu voltar à origem. Queria provar que sabia fazer vinhos.

Degustação dos vinhos da safra 2019/Video Nadia Jung

As mudanças foram feitas aos poucos. O tempo de afinamento nas barricas subiu de 11 meses para 18 meses, incluindo-se aí o Bourgogne branco, feito com vinhedos atrás do Domaine, um vinho de jardim. A biodinâmica foi sendo adotada aos poucos. O percentual de madeira foi sendo ajustado para cada vinho; grosso modo, o Bourgogne branco recebe cerca de 10%, os villages, 15% a 20%, os premiers crus 25% a 30%. Batônnage pode ser feita, mas depende de julgamento, não é ciência.

O Domaine expandiu seu portfólio no fim dos anos 2000, quando o Domaine Seguin Manoel foi vendido para investidores americanos, que financiaram a aquisição para Roulot e Lafon, que dividiram parcelas. Foi assim que Jean Marc oferece há cinco anos o Clos de Bouchères, o Meursault village, o R, um premier cru com assemblage de vinhedos da região, e ainda abriu um braço negociante com dois grands crus: o Corton e o Chevalier-Montrachet. Desses dois pouco se vê no mercado, já que boa parte das garrafas é dos investidores que financiaram a aquisição. “Não sei o que fazem com seus vinhos”, brinca Roulot, que diz receber dezenas de novas ofertas de expansão do Domaine. “Mas é preciso crescer com inteligência.”

O Bourgogne é um Bourgogne de jardim, um vinho que bate grande parte dos Meursaults existentes, com uma grande capacidade de envelhecimento e uma elegância rara. Um cartão de visita de gente grande. Vem de 4 hectares. Clos de Bouchères é um monopole de 1,37 hectares que chegou às mãos de Jean Marc há pouco tempo, mas já se mostra como um dos melhores terroirs dessa cidadela que não tem grands crus na legislação, por um capricho da complexa legislação francesa e bourguignonne. Esse 2019 é uma criança de berço, mineral, com uma leve especiaria e a complexidade que exige o melhor da culinária.

No livro de @khiemle com perfis de alguns dos melhores domaines da Borgonha, Jean Marc é questionado sobre a arte de harmonizar comida e vinho. Refere-se a um episódio com o mítico Alain Senderens, que por anos manteve uma mesa estrelada quase de frente à Igreja de Madeleine, onde anos antes Steven Spurrier fez história. Na metade dos anos 1990, Jean Marc foi convidado por Senderens para testar algumas harmonizações com a lagosta à baunilha, um dos pratos que trouxeram fama ao chef, considerado na França como o mestre da enogastronomia por longos anos. “Eu fiquei estupefacto porque ele conseguiu ter êxito em fazer transcender o Meursault 1984, que bebido sozinho, não era grandioso.”

Os últimos anos têm trazido vários desafios climáticos. Além dos baixos rendimentos, o Domaine teve de tomar a difícil decisão de tirar as videiras de Tillets em 2015, que tinham sido plantadas em 1970, por constatar que elas estavam cansadas e mais aptas a sofrerem com o clima. O replantio tem sido feito aos poucos, o que fará com que o vinho só seja produzido na próxima década. “Essa é uma das decisões mais dolorosas que um produtor tem de tomar, mas é preciso pensar no longo prazo”, diz.

Roulot também busca se dedicar à atuação e ao cinema, do qual participou de dois filmes recentes, “Diplomacia”, sobre a tentativa fracassada de um general alemão de explodir Paris nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, e “Ce qui nous Lie”, uma história de uma família bourguignone de Meursault que perde o pai viticultor e começa a discutir se mantém a tradição e continua vinificando ou vende a propriedade de olho na oferta astronômica. A história condiz bem com o futuro da Bourgogne.

Pouco mais de 25 anos depois de ter assumido o comando do Domaine, Jean Marc Roulot provou que sabe fazer vinho. Mais: está entre os melhores produtores de vinhos brancos do planeta. Torturado fosse a nomear cinco produtores da Bourgogne, ele estaria na minha lista. Todos seus vinhos são brilhantes, do Bourgogne branco, que vale por um Meursault, ao Perrières, um grand cru em tudo, menos no rótulo. Se um dia vir uma garrafa, com mais idade no restaurante, não hesite: abra a carteira. Roulot faz vinhos de emoção. Não à toa Frédéric Mugnier, quando decidiu fazer um vinho branco, foi conversar com Jean Marc. “Faz tempo que não o vejo”, diz Roulot. Os amantes da sétima arte e de Baco torcem para que Roulot continue atuando e vinificando.

François Bertheau: On y va

11 de Novembro de 2023

Uma das menores cidades da Bourgogne, com pouco mais de 300 habitantes, Chambolle-Musigny produz os mais delicados, finos e femininos vinhos da região. Por entre as ruas, deparam-se com sobrenomes famosos: Mugnier, Roumier, Barthod, Amiot-Servelle, Vogüé, cada um com seu estilo e seus vinhedos. Atrás do restaurante Chambolle, cuja carta de vinhos tem uma das mais completas seleções de rótulos dessa cidadela, fica o Domaine François Bertheau, que só produz Chambolles, com exceção da vinificação de uma pequena parcela de Aligoté, mas esse para consumo próprio.

Ao contrário de seus pares midiáticos, Bertheau, cujos vinhos não são vendidos no Brasil, está fora do radar das principais publicações e evita participar das degustações promovidas pelos guias franceses. Grande parte da produção é exportada para os Estados Unidos, Japão e Europa. Aqui são produzidos um Chambolle-Musigny, um Chambolle Premier Cru (assemblage de Groseilles, Baudes, Noirots and Gruenchers), o Chambolle Musigny Les Charmes, o Les Amoureuses e o Bonnes Mares, mescla entre a terra branca e a vermelha desse grand cru. A vinificação é quase igual para todos, com uso mínimo de madeira, de até 10% a 15%, para que a delicadeza e a sutileza possam transparecer na taça.

François, que assumiu o Domaine em 2003 do seu pai Pierre, faz Chambolles delicados e sutis, com preços que podem ser considerados uma barganha se comparados aos de Mugnier e Roumier, apesar de o primeiro ser líder inconteste nos quesitos: emoção, sutileza, coração e mente.  Há uma particularidade: não há marcação nos barris, Bertheau sabe de cor onde cada vinho repousa, um segredo de um meticuloso e perfeccionista viticultor que gosta de ter controle de cada etapa.

O sucesso das últimas safras fez com que ele não venda mais seus vinhos no Domaine, cujas últimas safras tiveram perdas por causa das condições climáticas, principalmente em 2016, quando os rendimentos foram até 50% menores. A safra 2016 é considerada clássica. O Chambolle-Musigny é vinho delicado e sutil. O Chambolle-Musigny Premier Cru é um degrau acima, um vinho que conjuga fruta, mineralidade e aromas florais, uma aposta certeira para se comprar de caixa. O Les Charmes é um vinho abordável, refinado.

Um dos mais reputados crus da Bourgogne, Les Amoureuses é um terroir mítico. Quatro produtores têm boa parte de seus vinhedos na parcela mais próxima de Musigny, a melhor. Um deles é Bertheau, os outros três são Mugnier, Roumier e Vogüé. Cada um extrai um vinho diferente. Mugnier caminha na linha tênue que separa o encantamento da mediocridade, com um vinho absolutamente espetacular, a essência de um Bourgogne grandioso. Bertheau faz um meio caminho entre a delicadeza de Mugnier e as mãos de Christophe Roumier.

O Bonnes Mares é um vinho colhido em vinhedos de Morey Saint Denis e Chambolle-Musigny, com terras marrons e brancas, um vinho mais possante, rústico em comparação aos outros dois, mas muito bom. A degustação chega ao fim, mas antes de despedir peço um pequeno favor: uma taça a mais de Amoureuses. A vida fica muito mais fácil assim.

Clos de Tart, monopole histórico

10 de Novembro de 2023

Qual o vinho que fez você se apaixonar pela Bourgogne? No meu caso, foi um Clos de Tart 1998, bebido em 2008. Com dez anos de vida, mostrava aromas florais, animais, minerais, de trufas. Na boca, era interminável, tão longo que logo se apontava um defeito: aquele vinho devia ser feito em garrafas Magnum ou double Magnum, assim haveria mais e mais para beber.

Mapa do “assemblage” da safra 16

Qual o melhor vinho jovem bebido? Também no meu caso foi outro Clos de Tart, dessa vez 2005, bebido com menos de três anos de vida, um infanticídio consentido por um amigo de um vinho soberbo, com taninos de seda envolto em um corpo possante, aromas de violeta com trufas e uma fruta que não terminava. Também vinha com o mesmo defeito: a garrafa tinha apenas 750 mililitros e era compartilhada em cinco.

Ambos foram feitos por Sylvain Pitiot, que assumiu o comando do Domaine em 1996, tendo aí feito sua primeira safra. Estudioso da região, com livros e mapas publicados, dividiu os 7,5 hectares do terroir, o maior grand cru em monopólio da Bourgogne, em seis parcelas, com cada uma propiciando um lado para o grande vinho. Depois da “assemblage” das seis parcelas, o Tart é vinificado em 100% de madeira nova por 18 meses até ser comercializado.

O comando do Domaine mudou há dois anos: Sylvain Pitiot se aposentou e agora trabalha de consultor em alguns projetos sociais pelo mundo, tem viajado para o Tibet. Jacques Devauges, que fazia os vinhos do Domaine Clos de l´Arlot (cujo branco em Nuits Saint Georges despertou a vontade de Frédéric Mugnier de criar o Maréchale branco) assumiu a vinificação (deixou o comando do Clos de Tart em 2021 para assumir o vizinho Clos de Lambrays).

Desvauges não fez grandes mudanças, nem alterando a degustação que é feita com exclusivas meia garrafas. Nos tempos de Pitiot, se fazia uma piada dizendo que o Tart era Clos de Tard, se referindo à preferência de Pitiot por colher as uvas mais tarde do que seus vizinhos, em alguns casos uma semana depois do vizinho Clos de Lambraÿs. Agora a data de colheita está igual aos outros. “Não se pode fazer mais essa brincadeira”, sorri Devauges.

A degustação da safra 2016, em barril, é didática. Começa com a parcela que fica perto da RN 74 ao lado do Bonnes Mares de Bruno Clair. Passa pela parcela mais ao norte em que o Clos fica próxima do solo vermelho de Bonnes Mares, um outro vinho, e vai até o outro lado do muro em que o vizinho é o Lambrays. Daria para fazer seis vinhos diferentes, tais as nuances do terroir. “Seria estupidez, juntos eles criam um vinho único”, destaca. Para um amigo, o Tart é o custo benefício quando o bolso não é fundo o suficiente para se comprar um Romanée-Conti. Alia a potência de um Chambertin com a elegância de um Musigny. Vizinho do Lambraÿs, ele é mais incisivo, mais profundo e mais complexo que o rival de mureta. Nos anos menos solares, como 1998, 2001, 2008, produz vinhos de se perder o fôlego.

O 2016 esbanja fruta, um fim longo e taninos suaves, enquanto o 2015 mostra como é primário, com uma fruta interminável e um leve toque de chocolate. O Domaine, que mantém em repouso por 30 anos até a comercialização, seu Marc de Bourgogne, começou a partir de 2011 a produzir um Fine de Bourgogne, que será vendido apenas em 2041. As quantidades são ínfimas. Encontrá-lo é uma tarefa difícil, o lugar mais apropriado na Bourgogne é na Athaeneum, em Beaune.

Vendido no fim de outubro de 2018 por 250 milhões de euros para François Pinaud, dono do Château Latour e do Domaine Eugénie (ex-René Engel, em Vosne Romanée), o Tart tem tudo para continuar no seleto grupo dos grandes vinhos da Bourgogne. Só falta ganhar na mega sena para comprar apenas garrafas magnums.

Domaine Fourrier: a regra Soldera

10 de Novembro de 2023

Gianfranco Soldera faz um dos mais famosos vinhos da Itália. Os críticos gostam de dizer que, mais do que um brunello, ele faz um brunello de assinatura Soldera. Há uma regra aos que o visitam:  não se cospe o que se bebe ali. Porque Soldera diz que só se cospe vinho ruim. Quem quiser cuspir o faça em outro lugar e não o faça perder tempo. Na Bourgogne, não se aplica a regra da Toscana, mas não pude deixar de pensar nisso, ao sair, às 11 horas da manhã de uma terça-feira de outubro da degustação de mais de 20 rótulos do Domaine Fourrier e de seu braço de negociantes. Bebi todos.

Jean Marie Fourrier assumiu o comando do Domaine em 1995, depois de um estágio de três anos no fim da década de 1980 com a lenda Henri Jayer, do qual se lembra mais dos esporros levados do que dos ensinamentos recebidos. Ao contrário de Jayer, não usa 100% de madeira nova, Fourrier busca usar 20% no máximo em cada um de seus vinhos, sejam eles apelações village, sejam grands crus.


Pouco conhecido nos restaurantes e nos cavistas da França, fora do radar dos guias franceses, ele tem seus vinhos disputados no mundo inteiro. Agora a tarefa de comprá-los tornou-se mais fácil: em 2011, ele adicionou um braço negociante, com foco em comprar uvas de terroirs em Chambolle-Musigny, Vosne-Romaneé e ampliar sua coleção de grands crus. Assim Fourrier hoje produz no lado negociante alguns reputados vinhos: faz Amoureuses, Chambertin, Charmes-Chambertin, Latricières. Os vinhos estão um pequeno degrau abaixo dos do Domaine, mas daqui uns anos talvez estejam no mesmo patamar.
Na didática e extensa degustação da safra 2016, em barril, algumas estrelas se destacam. O Gevrey Chambertin Vielles Vignes, de vinhedos plantados entre 1928 e 1955, é um dos melhores villages de toda a Bourgogne, refinado, profundo, gastronômico e o mais fácil de ser encontrado no mercado (o Domaine tem vinhos vendidos desde o fim de 2020 no Brasil pela clarets.com.br).


O Aux Échezeaux proporciona um vinho mais fácil, mais redondo. O Vougeot Petits Vougeots vem de um vinhedo bem perto de Amoureuses, com alguns vinhedos com mais de 80 anos. O Chambolle Musigny Les Gruenchers conjuga o lado mineral (terroir próximo de Fuées) com a delicadeza de Charmes, outro vizinho.

Entre os premiers crus de Gevrey, o Goulots se destaca pela mineralidade, o Combe aux Moines, pelo lado mais masculino e animal, o Cherbaudes, pela elegância, o Champeaux, pela concentração fruto dos vinhedos com quase 100 anos de vida, e o estupendo Clos Saint Jacques, pela complexidade. Um dos cinco proprietários desse mítico terroir, que produz um vinho que para muitos é um grand cru, o Saint Jacques de Fourrier tem algumas uvas plantadas em 1910, o que permite, em alguns casos, como na safra 2015, produzir algumas poucas garrafas de Clos Saint Jacques Vignes Centenaires. Ele é o menor produtor da apelação, com 0,89 hectares. Aqui está o grande rival do Rousseau, em um estilo bem diferente. Provocação: Fourrier é Mugnier, Rousseau é Roumier?

O Griottes Chambertin, um dos mais raros grands crus de Gevrey, cuja produção total soma 1000 caixas em um bom ano, tem toda a elegância desse terroir, em um estilo diferente do produzido pelos Dugats. A paleta dos grands crus, ampliada pelo lado negociante, tem dois destaques: o Amoureuses (sim, para mim é um grand cru, apesar de a legislação dizer que não), um vinho que ainda ganhará muito com as mãos de Fourrier, e um grandioso Chambertin.

Não sei por quê, mas minha sensação foi próxima à que tive quando visitei Frédéric Mugnier, o que não pude deixar de compartilhar na visita. Os vinhos de Fourrier são sutis, delicados, elegantes, emocionantes, não têm peso, nem álcool, que são poemas líquidos e que integram uma partitura, cada um compondo uma música de uma trilha sonora criada por um maestro. Assim como não se jogam fora livros que fizeram sua vida, não se deixam de lado amizades de anos, não se esquecem músicas da adolescência, não se cospem vinhos de gênios.

Latour-Giraud: Meursaults fora do radar

9 de Novembro de 2023

(Originalmente publicado em pisandoemuvas.com)

Há produtores que estão fora do radar das principais publicações, não fazem barulho como outros vizinhos, nem têm suas alocações vendidas meses antes de os vinhos chegarem às prateleiras. Quando aparecem notas a seu respeito, ganham curtos parágrafos, mesmo que elogiosos. Esse é o caso do Domaine Latour-Giraud, com mais de três séculos de história e com a maior área de produção de Genevrières, prestigiado premier cru de Meursault, hoje uma das cidades mais disputadas pelos enófilos por causa dos vinhos cada vez mais estrelados de Jean Marc Roulot, Arnaud Ente, Coche Dury.

Pierre Latour comanda o Domaine Latour-Giraud, que fica na antiga rua que abrigava um leprosário em Meursault. Hoje a rue de l´hopital não existe mais, tendo sido substituída por uma vicinal que corta a cidade e a interliga às cidades de Volnay e Puligny-Montrachet. Nem o GPS tem o Domaine no seu radar. Sorte que o senhor parado por nós sabia como se chegar lá.

Pierre Latour é um homem de cerca de 60 anos, educado e curioso. Nunca tinha recebido brasileiros e queria saber o que nos tinha levado lá. Com cerca de 85% da produção voltada para brancos e 15% para tintos, o Domaine faz Meursaults em um estilo diferente dos feitos por Roulot. Talvez um estilo entre Roulot e Lafon. São vinhos brancos feitos para a guarda, com fruta e um estilo menos mineral, muito gastronômicos. A safra 2014 é considerada por ele uma das melhores dos últimos anos. Em 2015, são vinhos mais acessíveis na juventude, talvez semelhantes aos 2009, sem grande capacidade de envelhecimento.

O Meursault Cuvée Charles Maxime é daqueles vinhos que os críticos pontuam com 89 a 90 pontos, mas que são a mostra de que pontos funcionam no basquete, não nas taças. Um chardonnay gastronômico, opulento, refinado e mineral, de comprar de caixa. O Les Narvaux é mais mineral, outro também para se comprar de caixa. No terreno dos premiers crus, o primeiro a desfilar é o raro Bouchères, com um toque mais acentuado de frutas secas; o próximo é o Poruzots, mais gordo; depois chega o suculento e profundo Charmes.

Pierre Latour comenta que o preço da terra na Bourgogne está cada vez mais alto. Um hectare de premier cru Charmes, em Meursault, pode custar um milhão de euros, o que cria um grande problema para os domaines familiares. A lei de transmissão na França recolhe 30% dos bens a serem herdados para seus cofres e põe pressão sobre o futuro em uma atividade de capital intensivo e sujeita às intempéries da natureza. Pressão ainda maior desde o início da década, quando as safras foram menores do que a média.

O preço alto do terroir faz com que a geração que assume um Domaine tenha de desenhar estratégias para se manter no comando: pode-se vender parte do estoque nas caves, pode-se vender 20% a 30% do domaine para outros viticultores, pode-se chegar até a vender o Domaine todo, tentação para pessoas que nunca viram um cheque tão alto. “Isso preocupa muito e isso traz grandes problemas para a Bourgogne, que é artesanal”, diz Pierre, pai de duas meninas. Ele quer manter a tradição familiar.

Antes de chegar ao Meursault Genevrières, a razão de nossa visita ao Domaine, Pierre Latour abre um Puligny Champs Canet, um dos mais refinados Pulignys, com um toque floral delicado. “É bom ter a oportunidade de fazer um vinho fora de Meursault”, afirma. Com dois hectares e meio de Genevrières, ele resolveu vinificar duas parcelas desse terroir: a normal e a chamada Cuvée des Pierres, geralmente quatro barris de vinho, com as uvas com mais de 50 anos. São dois vinhos distintos, ambos refinados, elétricos, com acidez que mostra um potencial de envelhecimento superior a uma década. Muito interessante seria colocá-lo às cegas em uma degustação com o Perriéres de Jean Marc Roulot.


Os vinhos não vêm para o Brasil, mas são facilmente encontrados nos Estados Unidos e se configuram em barganhas em relação aos preços que Roulot e companhia estão cotados hoje. Pierre Latour não está no radar de muitos, mas definitivamente entrou no meu.

Merci beaucoup, Joël Robuchon

9 de Novembro de 2023

(Originalmente publicado em pisandoemuvas.com em 6 de agosto de 2018, na morte de Joël Robuchon)

Houve um tempo em que não existiam aplicativos, em que a internet ainda engatinhava, em que as companhias aéreas não cobravam para se marcar o assento, em que não havia Trivago e afins, em que o São Paulo era campeão ano sim, ano sim. Faz quase uma década e meia. Foi quando pisei pela primeira vez no Atelier de Joël Robuchon (naquele momento havia apenas um, em Saint-Germain), dica de Amauri de Faria, que, sempre escasso em elogios, disse que Röbuchon e Senderens eram obrigatórios e que o primeiro não errava, quaisquer endereços colocasse seu nome.

A reserva foi marcada para meio dia e meia. A pé cumpri o quilômetro que distanciava o hotel até o endereço em que minha vida mudou. Sentei-me num balcão. Ofereceram uma taça de champagne: Bruno Paillard première cuvée (vendida pela sempre confiável Taste Vin). Abri o cardápio, mas não cheguei a prestar atenção, porque queria saber do garçom o que ele recomendava naquela quinta-feira. Havia uma proposta de alguns pratos que tinham ficado famosos nas mãos de Robuchon.

E o prato principal, um cordeiro de leite, viria com o purê de batata, que poderia ser repetido quantas vezes fosse necessário, não haveria problemas, assegurou o garçom. “O que tem num purê de tão especial?”, perguntei, sem saber de um dos pratos assinatura do chef. “O senhor saberá”, sorriu.

Os lagostins em raviolis trufados e couve flor vieram, o atum, o caranguejo real, veio também pela primeira vez um Meursault. Conhecia de nome a vila da Bourgogne. O produtor era então um desconhecido: Jean Marc Roulot. O vinhedo ainda mais ininteligível: Clos Tessons de mon Plaisir. “Bate muito premier cru às cegas”, disse o sommelier. Me fiz de entendido, mas quando levei à boca entendi que havia vinhos sobrenaturais, que talvez se chamassem premiers crus.


Vieram o cordeiro de leite e o purê. Na primeira garfada, veio o silêncio. Na segunda, a emoção. Na terceira, a constatação: comida e vinho podiam rimar com algo indecifrável, que levava a imagens, sons, gostos, prazeres, amores, emoções, livros, filmes. Perdi o chão. Fui arrebatado por uma paixão incontrolável que une  comida e vinho. Paixão que só cresce, mas que começou mesmo ali na esquina da rue Montalembert número cinco, a alguns quarteirões do Sena.

Por anos, mandei uma legião de amigos e amigas irem para Paris e descobrirem Robuchon, de quem até Odete Roithman, protagonizada pela genial Beatriz Segal, era fã. Não tive a oportunidade, a idade, o conhecimento ou o dinheiro para descobrir Robuchon no Jamin, onde ele fez sua fama e onde ele comandava a cozinha todos os dias com rigor, técnica e emoção. Roberta Sudbrack teve essa sorte.


Eu tenho outra sorte: a de ter por tantos e tantos anos vivido a arte de Roberta, autodidata que aprendeu lendo os livros do hoje lendário Robuchon, no RS, na Lineu Paula Machado, 916, que por tanto tempo chamei de minha casa no Rio de Janeiro.

Espero que minha sorte seja ainda maior e que possa viver muito mais da arte de Roberta no seu novo endereço no Jardim Botânico, onde ela alça novos voos, feliz da vida.

A lenda Robuchon, chamado de maior chef do século XX por publicações francesas, sobreviverá em seus discípulos e nas memórias de quem passou por suas mesas e suas criações.

Merci beaucoup!

PS: quem quiser ter um gostinho do que foi o Jamim, leia esse texto aqui: https://bradspurgeon.com/articles-as-opposed-to-posts/a-dinner-at-robuchons-jamin/