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Bordeaux e sua evolução em garrafa

7 de Dezembro de 2019

Os chamados vinhos de guarda onde se incluem os Bordeaux naturalmente, passam por um processo longo de envelhecimento em garrafas na adega. É importante deixa-los descansar ao abrigo da luz e de vibrações, pois ocorre uma série de reações químicas dentro da garrafa. Em linhas gerais, os ácidos do vinho combinados com o álcool dissolvido na bebida, foram os chamados ésteres, substâncias muito aromáticas responsáveis  pelo chamado bouquet. Esse processo é longo e cíclico, onde novamente os ésteres se decompõem em água, componente presente em grande quantidade no vinho, para formar novamente ácidos e álcool que irão reagir novamente. É por isso que os chamados vinhos ex-chateau são tão valorizados, pois esta tranquilidade na adega, sem nenhuma interferência externa, garante a fidelidade do processo, sem interrupções. Portanto, eles evoluem mais lentamente mas principalmente, de maneira adequada.

Num ótimo jantar no restaurante Fasano, tivemos a oportunidade de testar vários Bordeaux em diferentes estágios de evolução. Experiência única e muito prazerosa. Antes porém, uma pausa para um champagne e um Montrachet divinos que iniciaram a festa dos bordaleses.

dégorgement em 2008

O brinde inicial já em alto nível, começou com um Dom Perignon Oenotheque 1996. Revisitado várias vezes, um champagne e safra excepcionais. Até 2008, as leveduras preservaram o vinho da oxidação. Daí em diante, uma lenta evolução em garrafa nas condições de uma boa adega. Um champagne de frescor incrível, dando um balanço preciso entre acidez e cremosidade. Seus aromas cítricos entremeados de mel e brioche são encantadores, mostrando bem a evolução dos grandes champagnes. Aliás, todas as cuvées de luxo são aptas a longo envelhecimento. Vale a pena!

mestre Beato em ação

Em seguida, uma double Magnum de Montrachet Marquis de Laguiche 2009. Joseph Drouhin é o maior proprietário de Montrachet com praticamente dois hectares das vinhas. Um Montrachet delicioso na bela safra 2009. Macio, amanteigado, toques de frutas secas e algo de compota de pêssegos. Muito envolvente em boca. Os Montrachets são fermentados em barricas e sofrem o processo de bâtonnage, no qual as borras são revolvidas constantemente no vinho, incorporando complexidade aromática e maciez. Um primor de vinho num ótimo momento para ser apreciado.

iguarias do Chef Luca Gozzani

Os pratos acima pedem brancos de grande estrutura como os Montrachets. São pratos intensos, de rica textura e finesse de sabores. À esquerda, um Wagyu crudo com lardo e um molho cremoso de queijo. Em seguida, um gnocchi gigante recheado com rabada e molho carbonara. Sobretudo a textura cremosa e rica de ambos os pratos se amalgamaram com a maciez e sabores do vinho. Espetacular!

img_7063poesia liquida

Dentre os grandes 61 bordaleses, certamemte Ducru-Beaucaillou está num seleto grupo de vinhos espetaculares. Após quase 60 anos de existência, o vinho atingiu um sublime grau de maturidade. Os aromas são de livro e espetaculares com todos os terciários dignos de um grande bordalês de margem esquerda. São notas sutis de cedro, adega úmida, cogumelos, nuances terrosas, café, o chamado cedar box, caixa de charutos, enfim, um profusão de aromas quase etéreos. Em boca, um equilíbrio perfeito com total polimerização dos taninos. Final de boca amplo e expansivo. Todos os protocolos de envelhecimento cumpridos. Um primor!

caminhos diferentes de evolução

Se existem dois vinhos de lenta evolução e excelente longevidade, ei-los acima representando as duas margens bordalesas. O Petrus 1970 é um dos mais perfeitos de toda a história com 99 pontos Parker. É um Petrus maduro e plenamente desenvolvido de aromas. Contudo, esta garrafa degustada estava abaixo das expectativas. Para começar, seu nível um pouco abaixo do normal, chegando quase ao ombro da garrafa. Seus aromas estavam até interessantes com muito terciário desenvolvido. Entretanto, a boca estava magra, meio sem vida, já com muita secura no final de boca, indício em que a fruta e vida do vinho estão se esvanecendo. Por isso que afirmamos: cada garrafa antiga é uma história!

Por outro lado, o Latour 66 estava íntegro, com bela evolução, um dos melhores deste ano que foi um dos destaques da década. Os aromas são encantadores denotando couro, toques animais, e notas de torrefação. Em boca seus taninos são polidos e ainda presentes. Muito equilibrado com final bem acabado. Um belo vinho mostrando toda a longevidade e consistência dos grandes Latour.

img_7071estrelas da safra 82

Dois ícones da histórica safra de 82. Mouton 82 sempre deslumbrante com aromas sedutores, boca macia e expansiva. Hoje, ainda mais prazeroso que o Latour 82, ainda em franco desenvolvimento.Esta garrafa em particular estava perfeita. No lado de Haut Brion, um vinho mais delicado, mas igualmente exuberante em aromas. Percebe-se claramente em boca, que é um vinho mais delgado e menos rico que os grandes de Pauillac. Uma questão de terroir. Novamente, uma garrafa perfeita e extremamente prazerosa. Um embate de gigantes!

Latour 82 em formato Imperial (6 litros)

Durante o desfile dos bordaleses foi aberta um Imperial de Latour, regando as taças dos convivas periodicamente. Além da evolução do vinho em garrafa, um outro componente importante é o formato da mesma. Nos grandes formatos onde evidentemente a massa líquida é maior, o vinho se desenvolve mais lentamente. Foi o que aconteceu com esta Imperial perfeita, não só a garrafa, mas a safra também. Um Latour lendário que vai marcar história por muitas décadas como um dos mais perfeitos Latour. Aromas elegantes que denotam entre outras coisas um traço de couro, de pelica, inconfundível. A boca é ampla, generosa, com taninos ultrafinos e em profusão. É muito prazeroso para ser tomado agora, mas vai evoluir por décadas certamente.

Como prato de resistência, tivemos uma costela de Wagyu divinamente assada, soltando-se do osso com extrema maciez. Sua força, sua riqueza de sabores, combinaram muito bem com estes dois Pauillac, tanto Latour como Mouton, mas com o Mouton parece que o casamente foi perfeito num belo fecho de refeição.

a importância das taças

As taças acima são do  produtor austríaco Schott Zwiesel com design perfeito. A bordaldesa maior é a linha mais refinada, semelhante à linha top da Riedel Sommelier. No entanto, para Bordeaux maduros com alto grau de evolução, a taça menor ao lado faz mais sentido, pois os aromas e nuances são muito etéreos, podendo se perder numa taça maior. Tudo isso nos olhos atentos do mestre Beato.

Da mesma forma, Beato aliou de forma admirável uma mesma taça para Sauternes e champagnes. O formato tulipa à direita é perfeito para os aromas dos principais champagnes, sobretudo numa fase mais jovem e com mais frescor. Do lado dos Sauternes, este formato tulipa é muito próximo da taça sommelier da Riedel para este tipo de vinho. Uma escolha muito bem pensada.

img_7079Petrus em Magnum e formato standard (750 ml)

Novamente os Petrus, agora uma Magnum safra 1995. Embora já com seus mais de 20 anos, este é um Petrus clássico que demanda tempo para sua perfeita evolução. Ainda com muita fruta, poucos aromas terciários, e taninos muito finos e bem firmes. Tudo indica que seu apogeu será alcançado em 2050. Os grandes Petrus se enquadram perfeitamente naquele quadro de lenta evolução. Uma grande promessa com 96 pontos Parker.

queijos artesanais e Yquem

Fechando a noite, a  rica doçura de um belo Yquem. Essa safra 2003 é bastante generosa em aromas e textura em boca. Embora possa ser guardado sem maiores problemas, é um Yquem já de boa evolução com aqueles toques de caramelo escuro. Rico em Botrytis, mel e frutas mais exóticas, foi um deleite com uma seleção de queijos brasileiros artesanais. A cremosidade e intensidade de sabores dos vários tipos degustados casou perfeitamente com a riqueza do vinho. O casamente de textura entre a maciez dos queijos e a untuosidade deste Yquem foi um dos pontos alto na harmonização. Agora é dormir com os anjos!

Agradecimentos a todos os confrades pela companhia, generosidade, e o alto astral de sempre. Que 2020 seja repleto de sucesso e ótimos encontros com este. Que Bacco nos ilumine neste ano vindouro. Abraço a todos!

1945, o ano da Vitória!

19 de Janeiro de 2019

Só os vitoriosos nascem em 45, final da segunda guerra mundial, ano de criação da ONU, última safra do Romanée-Conti de parreiras pré-filoxeras com pouco mais de 600 garrafas elaboradas, além do maior dos Moutons elaborados até hoje.

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hoje é dia de maldade!

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Double Magnuns enfileiradas

Um dos confrades, nosso Professore, assim chamado carinhosamente, é um desses vitoriosos com uma carreira brilhante e muita história para contar e nos ensinar. Num almoço memorável, talvez na mais bela cobertura dos Jardins, desfilaram várias Double Magnuns de grandes Chateaux, inclusive uma 1945 em sua homenagem.     

Jamón de Bellota com Jacques Selosse

Começando a farra, uma seleção dos melhores Lieux-Dits de Jacques Selosse,  enólogo e proprietário que revolucionou a região de Champagne como produtor individual de destaque. Na cola dele, vieram outros tantos que fazem sucesso atualmente. Ele está para a excelência de produtor individual na região, assim como Gravner está para os vinhos laranjas. Resumindo, referência absoluta.

Jacques Selosse servidos:

  • Initial (champagne de entrada da Maison. Um Blanc de Blancs de muita pureza e frescor).
  • Lieu-Dit Les Carelles (um Blanc de Blancs de Mesnil sur Oger, o suprassumo da Côte de Blancs de extrema mineralidade).
  • Lieu-Dit Mareuil sur Aÿ (um Pinot Noir delicado e elegante).
  • Selosse V.O. (Version Originale, um blanc de Blancs de estilo oxidativo com safras mais antigas)

Tudo isso para entreter os convivas, acompanhando um Jamón cirurgicamente cortado in loco com a devida técnica espanhola. A peça tinha 60 meses de cura, tempo suficiente para sabores e aromas perfeitamente desenvolvidos. Um autêntico Pata Negra!

um dos Lieux-Dits

Já à mesa, seguiu-se um lauto almoço, numa sequência de pratos e vinhos muito bem arquitetada. Somente formatos Double Magnum de grandes safras e chateaux.

Doisy-Daëne 2001 – 95 pts com Foie Gras

A safra dispensa comentários, uma das históricas na região de Sauternes. Este produtor remete inexoravelmente ao professor Denis Dubourdieu, falecido recentemente, uma das maiores autoridades em vinhos bordaleses, sobretudo. A propriedade é da família. Com vinhedos localizados em Barsac, por questões de solo, elabora Sauternes delicados e de muita elegância. Um acompanhamento quase covarde com foie gras de entrada e bolo de pistache com creme ingles e ninho de caramelo na sobremesa. Não tinha como dar errado.

Montrachet Henri Boillot 2009 com Robalo, bottarga e champignos

Ele não é proprietário de vinhas nesta apelação, mas Henri Boillot faz um Montrachet elegante, de acordo com suas raízes em Puligny-Montrachet. Esta safra precoce e generosa mostra fruta exuberante e um trabalho notável com a barrica. Perfeita harmonia e equilíbrio. O robalo com bottarga e champignons complementou muito bem os sabores do vinho.

 Gruaud-Larose 1945 – 96 pts e trufas negras

Este chateau é um dos destaques na histórica safra de 1945 com vinhos memoráveis e altamente disputados em leilões mundo afora. O vinho estava um pouco cansado, mas sem nenhum defeito. Um nariz nobre de Bordeaux evoluído onde o tabaco, finos tostados e toques balsâmicos, se destacavam. Um tinto de 74 anos que mostra claramente tratar-se de uma safra excepcional e de um extrato fabuloso. Uma bela homenagem a nosso aniversariante e anfitrião. O tagliolini com trufas negras frescas só valorizou ainda mais o vinho. Ponto alto do almoço!

DRC Romanée-Saint-Vivant 1983 – coelho com risoto

Num almoço desses tinha que aparecer um DRC, preferencialmente pronto e evoluído. Este Romanée-Saint-Vivant 1983 cumpriu bem a missão. Taninos estruturados e resolvidos, boca macia, e os aromas de um grand Vosne-Romanée. Toques terrosos, de sous-bois, e de flores secas, permeavam a taça. Um demonstração de força e elegância muito bem balanceadas. Um saboroso coelho com risoto tinha a força exata para o vinho.

Chateau Ducru-Beaucaillou 1982 – 96 pts e Kobe Beef

Referência da comuna de Saint-Julien, Ducru-Beaucaillou prima pela elegância e altivez. Lembrado por Parker como Lafite de Saint-Julien, este 82 estava um espetáculo. Provalvemente pelo formato (double magnum), ainda tinha taninos a resolver. Uma estrutura de boca fantástica com taninos finos, acidez vibrante, e longa persistência final. Bem adegado, ainda vai longe e ratifica porque 1982 é uma das maiores safras do século XX. Um tenro Kobe Beef enalteceu a nobreza do vinho.          

Petrus 1976 – 92 pts em double magnum

Passando a régua, um Gran Finale com o maior de Pomerol, rei Petrus na mesa safra 1976. Mais do que uma safra notável, o segredo de tomar um bom Petrus é ele estar evoluído, maduro, sem a sisudez que lhe é peculiar. Algo terroso e de trufas, um lado mineral importante, e taninos bem delineados, formaram um belo conjunto deste mito bordalês. 

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Porto Croft Vintage 1960 – duas garrafas, duas histórias

Com uma bela seleção de queijos, um Vintage maduro se fez presente, Croft 1960. No alto de seus 58 anos, o Vintage se transforma em algo gracioso, perdendo aquele poder e potência da juventude. Seus aromas são mais etéreos, toques florais aparecem, e a boca incrivelmente sedosa. Aquela geleia de frutas da juventude muda para frutas em licor. Coisas que só a idade e o tempo são capazes de transformar. Vale a nota da diferença entre garrafas. Uma mais evoluída que a outra, mostrando que em vinhos antigos não existem garrafas iguais.

fecho de ouro

Para os mais insistentes, um Havana ao cair da tarde encerrando as conversas. Marc DRC 1991, uma Grappa de luxo, como diriam os italianos. O figurado H. Upmann Reserva, um tabaco envelhecido do excepcional terroir de Vuelta Abajo, Cuba, estava à altura da Eau-de-Vie.

Todas as bênçãos do mundo ao nosso aniversariante, anfitrião impecável, e daqueles amigos que a gente não esquece. Vida longa com muitas comemorações como esta. Em nome de todos os presentes, agradecimentos eternos. Viva 1945!

A inesquecível seleção de 82

19 de Março de 2017

Eu também lembro do Zico, Sócrates, Falcão e tantos outros craques. Seleção que marcou época, mas não levou. Entretanto, outro time de estrelas lá da França continua batendo um bolão. São os Bordeaux desta mítica safra em plena forma. Tudo isso para comemorar o aniversário de um grande confrade, que tanto no pessoal, como no profissional, parafraseando o Faustão, merece vinhos deste quilate.

montrachet drc 1989

tudo que um Chardonnay quer ser quando crescer

Sabedor do tema, além de grande conhecedor de vinhos, não deixou por menos. Logo de cara, sem muito alarde como é de seu feitio, serviu de entrada um estupendo Montrachet DRC 1989. Lapsos à parte, não me recordo de provar um DRC tão impressionante  e acima de tudo, tão bem adegado. A cor já de certa evolução lembrava de algum modo Sauternes. Inclusive no aroma, tinha uma pontinha de Botrytis. Multifacetado, notas de damasco, frutas secas, mel, um fundo tostado, marron glaçé, esses aromas permeavam e se entrelaçavam nas taças. O tom do almoço estava dado.

caviar beluga

o brilho do ouro negro

Antes dos tintos porém, outra surpresa. Porções generosas de caviar iraniano Beluga com champagne rosé. De fato, não é uma harmonização fácil. Pessoalmente, acho que nada se compara a uma autêntica vodka gelada (-20°C), cortando com competência o intenso sabor da aguaria. Insistindo no vinho, vale a experiência de defronta-lo com um Riesling extremamente seco e mineral da Maison Trimbach, o fabuloso Clos Ste-Hune. Nosso confrade Ivan, apreciador destes alsacianos, pode se encarregar deste desafio.

ristorantino margaux pichon

quando o segundo escalão se destaca

Feitas as considerações iniciais, vamos ao desfile que foi realizado por algumas duplas. Primeiramente, Chateau Margaux e Pichon Lalande. Este tinto de Pauillac é sério candidato ao status de Premier Grand Cru Classe. Especialmente nesta safra, Pichon Lalande mostra toda sua exuberância, equilíbrio e finesse. Um tinto encorpado, mostrando a força da comuna e de persistência muito longa. É sem dúvida, uma das referências desta safra.

ristorantino polenta com tallegio

polenta, taleggio e trufas

Já o Margaux, tem a desvantagem de não ser um grande ano para a comuna. A safra 83 é a grande pedida. Contudo, sua elegância e personalidade são notáveis. Talvez, a melhor garrafa desta safra que eu já tenha tomado. Foi muito bem com o prato de entrada, uma polenta com queijo taleggio e trufas  negras  complementando.

ristorantino mouton e cheval

destaques da safra 82

Teoricamente, o flight acima é pra ser campeão. Contudo, em safras antigas o que manda mesmo são as grandes garrafas. E essas, não eram das melhores. O que valeu no Mouton foi seu incrível aroma de cacau, chocolate, assim que a taça chegou. No mais, se mostrou um pouco cansado, sem o mesmo brilho de outros exemplares. Já para o Cheval, a conversa foi diferente. Embora aromaticamente outras garrafas degustadas fossem mais exuberantes, em boca estava uma seda. Taninos finíssimos, equilíbrio fantástico e aquela elegância típica dos grandes Chevais.

ristorantino la mission e haut brion

os eternos rivais

Neste embate, infelizmente não houve disputa. A garrafa do La Mission estava levemente bouchonné, e como não existe mulher meio grávida, não vou comentar este vinho. Em compensação, Haut Brion nunca decepciona. Que tipicidade! que personalidade! Sempre equilibrado, sóbrio e marcante, sem ser invasivo. Acompanhou muito bem o risoto de faisão com radicchio, foto abaixo.

ristorantino risoto faisao e radicchio

Neste momento, o auge da expectativa. Sua majestade, rei Petrus entra em cena. Sempre se espera um pouco mais deste mito de Bordeaux. Sempre discreto nos aromas, percebe-se lentamente, um toque mineral, terroso, um pouco de chocolate, não muito intensos. Em boca seus taninos são presentes e de ótima textura. Muito equilibrado, persistente, e com muita vida pela frente. No final ele diz: vamos dar tempo ao tempo.

Quanto ao Ducru, as coisas estavam meio complicadas. Não nos aromas, e sim na boca. Ele apresentava uma acidez um pouco agressiva que inclusive, prejudicava seus taninos. Parece ser um problema de garrafa, pois já provei belos exemplares desta safra. Normalmente, é muito elegante, não muito encorpado, e rico em nuances. Pessoalmente, é o que mais se aproxima dos Lafites.

ristorantino petrus e ducru

Petrus intimidou o elegante Ducru

Como não tinha ninguém para fazer par com ele, Latour fez uma apresentação solo. Ainda bem, pois roubou a cena. É temeroso certas afirmações, mas Latour é o rei do Médoc. A consistência, a concentração, a personalidade, que este tinto entrega safra após safra é impressionante. E este 82, só mesmo o monumental 61 para superá-lo. Os aromas seguem um pouco a discrição do Petrus, mas os toques de cassis, especiarias, chocolate, e seu inconfundível toque de pelica(couro), são notáveis e marcantes. A boca une potência e elegância como poucos, culminando numa persistência de longa duração.

ristorantino latour

Nota 100 com louvor!

Fechou o almoço comme il faut!, acompanhando um tenro cabrito ao forno com ervas, guarnecido por um tagliolini al dente. Os taninos do Latour foram devidamente abrandados pela fibrosidade e suculência da carne.

ristorantino cabrito e massa

carne e massa perfeitos

Encerrando a orgia, o nível se manteve alto. Um Yquem 1990, quase uma criança ao lado de um grande Madeira do século XIX. Falar de Yquem é retórica, é o rei dos vinhos botrytisados, decantado em prosa e verso. Este da safra 90 tem 99 pontos. A própria classificação de 1855 já segure sua superioridade, separando-o dos demais chateaux.

ristorantino vinhos doces

vinhos que atravessam décadas …

Madeira sim, esse precisamos falar. Um dos vinhos mais injustiçados e esquecidos pela maioria dos consumidores. Se existe um vinho capaz de atravessar séculos, este vinho é o autêntico Madeira. Existem quatro tipos nobres relacionados com suas respectivas uvas e em grau de doçura crescente: Sercial, Verdelho, Boal e Malmsey. Os dois primeiros vão muito bem com sopas exóticas e patês de caça. Já Boal e Malmsey acompanham bem os doces, sobretudo bolos e tortas de frutas secas como nozes e tâmaras.

Chegando ao nosso Madeira, Terrantez é a quinta uva nem relacionada atualmente. Encontra-se praticamente extinta na ilha. Seus vinhos são de uma acidez notável e seus aromas etéreos se proliferam na taça. Sua doçura fica entre o Verdelho e Boal. É o grande Madeira a ser desvendado. A raridade deste vinho e o respeito que o cerca, provocam alguns ditados como este: “Se tiveres uvas Terrantez, não as comas nem as dês, pois para o vinho Deus as fez”. Como se vê, terminamos no céu …

Abraços a todos os confrades, sobretudo ao aniversariante, que reflete vivamente a qualidade e longevidade dos vinhos desfilados. Vida longa a todos!

Bordeaux 1961: Adagio

21 de Agosto de 2015

Passado o primeiro ato, vamos rumo à apoteose com seis Bordeaux de tirar o fôlego. Na verdade cinco, pois havia um intruso no caminho. Contudo, suas credenciais permitiam tal ousadia. Trata-se do La Chapelle 1961, o Hermitage do século do produtor Paul Jaboulet. Esse não precisa ser convidado.

As duas joias de Saint-Julien

Pessoalmente, os châteaux acima representam o que há de melhor no nobre comuna de Saint-Julien. O primeiro, Léoville Las Cases, é vizinho de comuna do consagrado Latour em Pauillac, tendo muitas vezes esse estilo viril, clássico, e com um poder de longevidade imenso. Mas não se esqueçam, estamos na safra 1961 e suas armadilhas. E desta feita, o château errou a mão. Sua cor é escura, pouco evoluída para a idade, mas os aromas tem toques tostados e herbáceos que incomodam um pouco. Em boca, percebemos uma estrutura tânica de extração em demasia. Tem força, tem poder, mas quiseram fazer parece-lo o que efetivamente não é. Lógico que a comparação com os demais é cruel. Contudo, quem tem uma garrafa desta devidamente adegada, numa degustação solo pode ser fascinante. Agora quem ainda não comprou, compre uma de seu rival que comentaremos a seguir. Este é tiro certo!

Château Ducru-Beaucaillou 1961, que marravilha Claude! Esse é daqueles vinhos que sabe aliar potencia e elegância como poucos. Aromas multifacetados com frutas deliciosas, tostado fino, caixa de charuto, especiarias e uma madeira de cedro que é marca registrada deste Bordeaux. Encorpado na medida certa, muito equilibrado em seus componentes e uma persistência aromática notável que se esvai com muita classe, deixando saudades. Um grande cinquentão!

Bordeaux 61: Aqui está a perfeição

Os detalhes fazem a diferença. Porém, aqui, só no fotochart. Foi sem dúvida, a disputa mais acirrada, cabeça a cabeça. Lindos Bordeaux, maduros, suaves, profundos e inesquecíveis. Não há palavras para esses gigantes. Embora todos os aromas terciários clássicos desta comuna estejam presentes, tais como, trufas, toques terrosos, animais, ervas finas, entre outros, a fruta ainda está presente, o frescor é incrível e os taninos são verdadeiras rolimãs em boca. Mais uma vez pessoalmente, pendi para o Haut-Brion, mas o La Mission valorizou muito esta escolha. Isto é de fato o que se espera de um Bordeaux de longo envelhecimento. Bebe-los agora é a recompensa pela paciência e sabedoria. Nem é preciso dizer: os dois com 100 pontos absolutos de Robert Parker.

Bordeaux e Rhône em vinhos de legenda

Neste grand finale, não dá mais para pontuar. São vinhos fora da curva, incomparáveis. Começando pelo La Chapelle, também 1961. Já impressiona pela profunda cor escura, mostrando o poder de longevidade dos Hermitages. Os aromas que mesclam frutas escuras em geleia, especiarias, defumados, balsâmicos e algo de charcuterie (embutidos), estavam presentes. Em boca, potente, taninos em profusão e um equilíbrio dos grandes vinhos. Pessoalmente, apesar de grande, achei este exemplar um pouco cansado. De fato, o histórico destas garrafas é sempre um mistério que culmina no famoso ditado: “Em vinhos antigos, não existem grandes safras e sim, grandes garrafas”.

E finalmente chegamos ao monumental Chateau Latour 1961. Esse é aquele vinho que você prova e fica sem reação. Silêncio absoluto. É imponente, te cumprimenta à distância, exige um certo protocolo, mas é maravilhoso! Não sei ainda onde ele vai chegar, mas certamente o destino final é o paraíso. Que cor! que aromas maravilhosos do mais autêntico cassis, cedro, minerais como grafite, terroso, toques de cacau, chocolate escuro, e assim vai. A boca é como um bailarino segurando a moça com mão forte, mas transmitindo extrema delicadeza e elegância. E aí você degusta, ele passa, mas ele fica, fica, … Não entenderam? prove uma garrafa. Garanto que até 2040 a magia não acaba.

Um pouquinho de paciência, pois não terminou. Próximo artigo, o grande Latour à Pomerol, Scion e dois Sauternes daqueles. Não percam!

Ducru-Beaucaillou: Um Super Deuxième

4 de Julho de 2013

Châteaux do Médoc: Aristocracia e Imponência

Dentre os super segundos (super deuxièmes ou super seconds) da famosa classificação de 1855 dos vinhos do Médoc (a chamada margem esquerda de Bordeaux), talvez minha maior dúvida  fique entre os châteaux Ducru-Beaucaillou e Léoville Las Cases, embora no fotochart, Léoville ganhe por uma cabeça. Contudo, é uma preferência estritamente pessoal e consequentemente, o rival acaba valorizando muito esta disputa. Portanto, vamos enaltecer alguns detalhes deste grande tinto medoquino da comuna de Saint-Julien. Esta comuna conta com oitocentos hectares de vinhas, dimensão semelhante à comuna de Pomerol, famosa na margem direita. Veja o vídeo abaixo, com o competente Bruno Borie, atual proprietário do château.

http://vimeo.com/12196433

Château Ducru-Beaucaillou possui setenta e cinco hectares de vinhas com idade média de trinta e cinco anos, distribuídas com forte densidade em torno de dez mil pés por hectare, onde as raízes atingem profundidades de seis metros em seu rico subsolo. Aliás, o solo deste vinhedo é lembrado no próprio nome, rico em boas pedras (beau caillou). O relevo deste solo pedregoso, bem drenado, é típico das chamadas “croupes de graves”, pequenas elevações do terreno, lembrando de certo modo belos campos de golfe.

 

Beaucaillou: as boas pedras do vinhedo

Nestas condições, a maturação da Cabernet Sauvignon é excelente, contando geralmente com setenta por cento do vinhedo. Praticamente, o restante é complementado pela Merlot e ínfimas parcelas de Petit Verdot, Cabernet Franc e Malbec. O vinho costuma amadurecer por dezoito meses em barricas bordalesas, sendo o percentual de renovação entre 50 e 80%, dependendo da potência da safra.

Destas grandes safras, talvez o melhor 1970 do médoc

É de fato um tinto de guarda, com inúmeros infanticídios antes dos dez anos de safra, infelizmente. Costuma conjugar a força de Saint-Estèphe com a elegância de Pauillac. Os aromas de frutas escuras, toques balsâmicos e o característico cedro, são típicos deste grande vinho. Rico em aromas terciários (cedar box ou caixa de charutos) em seu lento envelhecimento, é parceiro ideal com pratos elegantes acompanhados de trufas. Pela elegância e mistério, é muitas vezes comparado ao enigmático Château Lafite-Rothschild.

Provei recentemente a safra de 1999 com Dr. Cesar Pigati, diretor da ABS-SP, grande amigo e parceiro da boa gastronomia, e estava em grande forma. Não é uma safra excepcional, mas mantém o alto padrão do château. Maduro, com aromas terciários, mas com longa vida pela frente, pelo menos mais uns dez anos. Estrutura tânica de um autêntico Saint-Julien e persistência aromática notável. Enfim, todas as características de um grande margem esquerda.

Château Gruaud Larose

29 de Agosto de 2011

Cada uma das comunas do Médoc, a chamada margem esquerda de Bordeaux, elege ao longo do tempo, seus mais destacatos Grands Crus Classés. Em Saint-Julien,  os Châteaux Ducru-Beaucaillou, Léoville-Las-Cases e Gruaud Larose, formam o trio de ferro dos melhores deuxièmes desta comuna. A consistência destes vinhos mostra de forma enfática a regularidade de Saint-Julien apesar de na média, não serem tão brilhantes como Pauillac.

Gran Vin e seu Segundo Vinho

São 82 hectares de vinhas plantadas em terreno pedregoso (graves) com densidade de dez mil pés por hectare. A idade média é de 45 anos com evidente predomínio de Cabernet Sauvignon (57%), seguido por Merlot (30%), Cabernet Franc (8%), Petit Verdot (3%) e Malbec (2%). O vinho amadurece por cerca de dezoito  meses em barricas de carvalho, sendo 5O% novas. O segundo vinho, Sarget de Gruaud Larose, é elaborado desde 1979. A composição do vinho e o tempo de barrica apresentam pequenas variações de safra para safra.

Comuna de Saint-Julien vizinha à Pauillac

Na degustação da ABS-SP em 24 de agosto de 2011, ficaram reforçadas minhas impressões sobre Gruaud Larose. Embora seja um Bordeaux elegante, típico e bem equilibrado, exceto em safras muito especiais como 61, 82 e 90, por exemplo, onde é grandioso, eu o coloco numa categoria abaixo dos dois grandes vinhos de Saint-Julien, já citados no trio de ferro acima.

As safras degustadas na ABS de 2006, 2005 e 2004, estão num patamar abaixo da grande dupla de Saint-Julien (Ducru-Beaucaillou e Léoville Las Cases). Mesmo a safra de 2005, claramente superior às demais, não apresenta a profundidade dos grandes de Bordeaux. Que fique bem claro; é um vinho muito bem feito, equilibrado e elegante, mas num rigor bordalês, estamos falando de vinhos quase perfeitos. E este, não é o caso.

As impressões de Robert Parker ficam refletidas em suas notas, abaixo de 90 pontos para as três safras. Ele pode ser questionado  em quaisquer outros vinhos e regiões, mas para Bordeaux, não há ninguém tão imparcial e justo como Parker.  


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