Archive for the ‘Regiões Vinícolas’ Category

A ascensão do Chablis no Brasil

1 de Março de 2026

O romance de Tolstói Anna Karenina começa com uma das frases mais famosas da literatura. “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” O autor russo escreveu o livro cuja trama percorre sobre adultério, culpa e a impossibilidade de viver segundo as próprias regras num mundo cujas regras são maiores.

Na primeira parte do livro, em meio ao triângulo amoroso que envolve Anna, uma aristocrata casada, seu marido frio e burocrata Alexei Karenin, e o jovem oficial Conde Vronsky, dois personagens se sentam em um restaurante em Moscou. Um é da aristocracia, o outro, do campo. O garçom tártaro anuncia que tinham chegado ostras frescas.

Stepan “Stiva” Oblonsky, irmão de Anna e epítome do bon vivant, não hesita: ordena três dúzias e, após considerar um tinto, opta por um “Chablis clássico”. Tolstói compreendia o que a gastronomia francesa já consagrara: a simbiose entre o Chablis e as ostras é absoluta. Era o vinho preferido de Alice B. Toklas, cujo livro de receitas é um dos mais famosos e históricos do mundo.

Quase 150 anos depois, o brasileiro também tem aderido cada vez mais aos vinhos de Chablis, uma região situada ao norte da Borgonha, terra da uva branca chardonnay, fruto de solos antigos, resultado de conchas e demais restos marinhos que lá viveram.  Os vinhos brancos e de Chablis estão ganhando a preferência do brasileiro.

O consumo de vinhos brancos e espumantes no Brasil atingiu 30% de participação de mercado, alta de dez pontos percentuais em relação a 2019, segundo relatório da Ideal Bi Consultoria. Uma das razões o é a maior presença feminina nas escolhas: as mulheres representam 53% do mercado consumidor em 2024, seis pontos a mais do que em 2019. Os sommeliers que trabalham nas casas de frutos do mar de São Paulo e do Rio sabem o que isso significa na prática: a garrafa de branco que antes ficava parada na adega vende antes do fim da semana. E, com frequência crescente, a garrafa é de Chablis.

A região responde por um quarto de todos os vinhos de Borgonha importados pelo Brasil, segundo Anne Moreau, diretora de comunicação e marketing do Bureau Interprofissional dos Vinhos da Borgonha (BIVB), que visitou o país no ano passado. A Borgonha, por sua vez, representa um quarto dos rótulos franceses que chegam ao Brasil em valor. Ou seja: Chablis é um quarto de um quarto. Os dados de importação da consultoria Ideal Bi mostram aceleração ainda mais abrupta entre 2024 e 2025: crescimento de 56% em volume e 62% em valor para Chablis.

O que o comprador brasileiro está buscando, muitas vezes sem saber nomear, é o que a tradição chama de mineralidade (apesar de a literatura enológica disputar esse termo) e a acidez. A origem dessa qualidade é geológica, embora o mecanismo exato ainda seja disputado entre enólogos e geoquímicos. O solo predominante nas melhores parcelas de Chablis é o Kimmeridgiano, formado há mais de 150 milhões de anos quando um mar raso e morno cobria aquela parte da Europa. Jacques Fanet escreveu em Les terroirs du vin: “Os vinhedos da região de Chablis têm apenas uma religião: o Kimmeridgiano.”

Se terroir, o conceito que o solo em que a uva é plantada é a essência de um vinho e é algo inexplicável para a ciência, Chablis personifica este conceito como nenhum outro território. Os fósseis marinhos “teoricamente” seriam responsáveis pela tal mineralidade. O clima frio realça a acidez vibrante e os sabores frutados delicados que tornam os vinhos de Chablis tão singularmente puros e concentrados. O vinho da região foi copiado em boa parte do mundo – produtores espanhóis vendiam garrafas com esse nome, até a legislação europeia ter proibido, protegendo a denominação de origem francesa.

É o lugar da Borgonha (uma região com alto Ibope entre os enófilos) onde a vinificação em aço inoxidável é regra e não exceção — e onde a passagem por madeira nova continua sendo controversa entre os produtores. Combina com frutos do mar, salmão defumado, peixes grelhados ou cozidos. A versatilidade à mesa também permite que, com anos de adega, seja parceiro também de aves e cogumelos.

No Brasil, há uma variedade ampla de Chablis disponíveis em supermercados e importadoras, de preços e estilos diferentes. São todos bons? Não. Para quem quiser conhecer rótulos mais artesanais, vale a pena buscar os rótulos de entrada da cooperativa La Chablisienne (importados pela Clarets) e os do pequeno produtor Alain Gautheron (vindos ao Brasil pela Delacroix), assim como os Domaine Gueguen (importadora Nova Fazendinha). Têm bom preço, sendo os villages na casa dos 300 reais.

Menos de 2% da produção é voltada aos sete grands crus: Blanchot, Bougros, Grenouilles, Valmur, Preuses, Vaudésir, e Les Clos.

Bougros
O mais a oeste é um vinhedo íngreme, criando vinhos mais suaves e gordos. São mais amigáveis ​​na juventude do que alguns dos Grand Crus.

Preuses
No geral, tendem a ser vinhos elegantes, redondos e com aromas delicados.

Vaudésir
É chamado por alguns de “Vale do Vaudésir”, pois a colina Grand Cru foi erodida para formar um pequeno vale. A erosão significa que partes da vinha têm mais argila no solo do que a maioria dos Grand Crus. O resultado é um vinho de equilíbrio, com elegante mineralidade e concentração de fruta.

Grenouilles
O menor dos Grand Crus, Grenouilles está localizado ao longo da margem do rio Serein; o nome da vinha na verdade significa “rãs”. Como as vinhas estão voltadas a sul, recebem sol o dia todo, criando um vinho maduro e frutado.

Valmur
Situado entre Grenouilles e Les Clos, Valmur está também em um “mini-vale”, esculpido pela erosão. Muitas vezes precisa de tempo para envelhecer, já que esses vinhos ácidos são poderosos e austeros na juventude.

Les Clos
Dos Grand Crus, Les Clos é o maior, mais conhecido e indiscutivelmente o melhor. Tem um declive aberto virado a sudoeste, permitindo que a vinha tenha exposição ao sol quente e abundante da tarde. Isso é importante para o amadurecimento em Chablis frescos e dá aos vinhos Les Clos aquele inebriante empurrão entre opulência e acidez fina.

Blanchot
Mais a leste dos Grand Crus, Blanchot contorna a encosta da colina para o lado sudeste, ao contrário de seus vizinhos. Isso torna os vinhos Blanchot menos frutados e poderosos, mais leves e mais ácidos, com notas cítricas ácidas, esses vinhos amadurecem mais rápido.

Os segredos do terroir são delineados com perfeição com dois produtores: Raveaneau e Dauvissat. Dauvissat possui 12 hectares de vinhas perfeitamente localizadas entre Premier Cru (6 ha), Grand Cru (2,7 ha) e o restante de apelação Chablis, elabora 80000 garrafas por ano. A idade média das vinhas é alta, em torno de 40 anos. A fermentação e amadurecimento do vinho é feita com madeira inerte. Barricas entre 6 e 8 anos de idade. A micro-oxigenação é importante para o Chablis, quebrando sua dureza, sua austeridade. Vincent vai mais longe, utilizando 10% de madeira nova, uma perigosa ousadia. A malolática ocorre de maneira espontânea. Seus vinhos aliam pureza, força e profundidade. Destaque para o Premier Cru La Forest, um vinho fora da curva para sua categoria.

Raveneau tem a mesma filosofia de rival no bom sentido da palavra, fidelidade ao terroir. Vinhas antigas, muito bem localizadas e um trabalho importante de barricas inertes para uma bem-vinda micro-oxigenação. Muitas das barricas tem uma particularidade de tamanho, tendo metade da capacidade das barricas normais. São chamadas “feuillettes”. Numa sintonia fina, digamos que Raveneau elabora um Chablis um pouco mais cortante que Dauvissat. Contudo, é uma impressão pessoal. São 30000 garrafas por ano, quase um terço do que Dauvissat produz. Se Dauvissat tem La Forest, Raveneau tem Butteaux e Montée de Tonnerre, empatados na categoria Premier Cru. 

Heterônimos de um viticultor

4 de Julho de 2025

Quando criança, Paulo Nunes adorava passar horas jogando futebol com seus amigos de rua. Detestava quando seu pai e seu avó paravam a brincadeira e o puxavam para que os acompanhasse nas vinhas da família no Douro, norte de Portugal e região reputada pelos tintos e pelo vinho do porto. Jurou que, quando crescesse, faria de tudo na vida, menos trabalhar com vinhos. Fez Engenharia Alimentar. Ingressou um ano no teatro universitário, mas voltou aos caminhos da infância.

“Fracassei redondamente na minha jura”, diz sorrindo. Hoje ele é enólogo há 20 anos da Casa da Passarella, está à frente também no Dão de Quinta da Perdonda e já foi premiado algumas vezes por publicações portuguesas como o melhor produtor de vinhos de Portugal.  “O viticultor tem heterônimos, buscamos produzir em várias regiões e explorar as nuances e nossa vida tem muitos sacrifícios porque estamos a viajar para produzir ou para mostrar o que fazemos”, afirma Nunes, que perdeu os três primeiros aniversários da filha, em razão de viagens. “Tem de pôr a alma no que fazemos.”

Nos últimos anos, essa nova geração tem revolucionado o vinho português. “Antes se colocava carne em um moedor e saía um croquete, hoje um pedaço vira um presunto, outro vai à panela e outro é usado em um molho”, resume Nunes, cujos vinhos no Brasil são importados pela Premium Wines.

Manuel Lobo de Vasconcellos, à frente da Lobo de Vasconcellos Wines no Dão (vinhos também importados no Brasil pela Premium Wines), é de uma família há oito gerações no mundo do vinho, mas representa a primeira que ingressou em Enologia. Cursar a universidade fez com que buscasse uma novidade: escavou a vinícola familiar no Dão para mapear o subsolo, estudar a mineralidade e as variedades mais adaptadas. Nunca na história de 200 anos da propriedade tinha sido feito isso.

“Saber o que se passa vários palmos abaixo do chão e conhecer bem os solos consegue colocar cada casta no lugar certo, sem ter necessidade de fazer determinadas correções à superfície. É bom para o produtor, bom para a vida do solo e, claro, bom para a saúde do consumidor”, diz.

O aquecimento global tem trazido desafios. “As férias de verão estão mais difíceis de serem marcadas, tenho saído com a família em julho, em vez de agosto ou setembro”, afirma Lobo de Vasconcellos. As situações extremas – como chuvas, granizo ou temperaturas acima de 35 graus – têm sido mais frequentes. Isso faz com que se busquem solos que tenham mais capacidade de reter chuva em áreas em que a estiagem é mais prolongada. “Outra opção é plantar uvas em altitudes mais elevadas.”

A receita da nova geração inclui ainda recuperar antigas maneiras de fazer vinhos e trabalhar com uvas menos badaladas.  Depois de rodar 80 mil quilômetros por ano como consultores de vinícolas em diferentes terroirs, Jorge Rosa Santos e Rui Lopes criaram em 2016 a Lés-a-Lés, um projeto com o desejo de recuperar castas antigas, regiões e estilos de vinhos esquecidos do país. Para estampar os rótulos, a escolha foi o desenho de um bilhete de trem, uma homenagem aos deslocamentos da dupla. Com cerca de 20 mil garrafas, a dupla faz brancos e tintos que exploram uvas e terroirs menos badalados.

Um exemplo é o branco Quinta das Marés com as castas Jampal e Vital de vinhedos ao sopé de Montejunto, uma serra calcária na Extremadura. Outro é o Medieval de Ourém, que carrega uma história singular. Séculos atrás, monges da ordem cisterciense transmitiram aos portugueses o método de vinificação aprendido na Borgonha: uvas brancas e tintas eram cofermentadas e depois passavam por barricas. Jorge e Rui resolveram fazer o mesmo dos antepassados. Esses vinhos chegam em breve ao Brasil pela primeira vez por meio da importadora @emiwine, de Emiliana Medauer.

As novidades também chegam do outro lado do Atlântico. O casal carioca Rafael e Juliana Kelman está se aventurando com uma vinícola no Dão desde 2013. Juliana trocou a publicidade pelo mundo do vinho, Rafael ainda concilia o universo da eletricidade no Brasil com algumas idas para Portugal.  A escolha do país não foi aleatória.

Juliana foi em busca de seus laços familiares. Viram uma quinta à venda no Dão. Assinaram o cheque. São seis hectares, com vinhas plantadas em 2000 com castas tradicionais, incluindo Touriga Nacional e nesse caso também a touriga brasileira. Os vinhos dos Kelman, cujo enólogo é Antonio Narciso, não chegam ainda ao Brasil, estão em busca de importadora.

Os barolos de Luciano Sandrone

13 de Junho de 2025

Quando a unificação italiana ocorreu na metade do século XIX, promovida pela Casa de Savoia, um vinho ganhou projeção à mesa entre os nobres: o barolo, feito com as uvas Nebbiolo, colhidas no Piemonte, norte do país. Escolhido pela dinastia real italiana, foi batizado como o vinho dos reis ou o rei dos vinhos.

Assim como as dinastias, o mais famoso vinho da Itália tem passado por transformações, seja pela emergência de uma nova geração de produtores, seja com os impactos das mudanças climáticas e dos preços cada vez mais elevados das terras, o que tem despertado a atenção de olhares estrangeiros.

Um dos capítulos da história dos últimos 50 anos de barolo e do vinho italiano é escrito pela família de Luciano Sandrone, cuja filha, Barbara, esteve recentemente em São Paulo, em evento da importadora Clarets. Quando a família Sandrone se mudou para a cidade de Barolo, tornou-se vizinha de Giacomo Borgogno, um dos mais famosos produtores da região. O pai de Luciano era carpinteiro, mas alergia ao pó de madeira e horas vendo o vinho sendo feito no vizinho levaram Luciano à enologia.

Aos 18 anos, bateu à porta do vizinho e conseguiu um emprego na linha de frente da produção de Giacamo Borgogno. Começou a guardar dinheiro e em 1977, aos 30 anos, comprou uma parcela de videiras em Cannubi Boschis, um pedaço de terra reputado pelos barolos ali plantados.

Um ano depois, em 1978, na sua garagem, começou a vinificar 1500 garrafas, mantendo em paralelo seu trabalho de enólogo nas vinícolas de Giacomo Borgogno e Marchesi di Barolo. “Ele precisava de dinheiro e queria fazer seus vinhos, seguir um caminho próprio e isso coincidiu com mudanças no cenário”, recorda-se Barbara.  

O vinho italiano no início dos anos 1980 começou a mudar. Em 1981, foi lançada a primeira Vinitaly, feira realizada na Itália com a intenção de reunir produtores de diferentes regiões do país e compradores de todos os países. Os vinhos de Luciano agradaram a compradores dos Estados Unidos e Suíça.

Em paralelo, a nova geração de viticultores adotava novas técnicas. Na maneira tradicional, os produtores usavam grandes toneis de madeira para envelhecer o barolo buscando obter garrafas que evoluíssem por anos. Já a nova geração buscava vinhos mais acessíveis na juventude e mais precisão na colheita e na adega. Luciano se tornou o que a literatura enológica chama de “barolos boys”, um movimento que chacoalhou a região, buscando incorporar novas tecnologias, tornando até hoje difícil definir a tênue linha entre modernistas e tradicionalistas.

Manteve um pé no moderno e outro na tradição. Barolos eram fermentados por até 30-50 dias, o que gerava vinhos extremamente tânicos e duros na juventude. Sandrone reduziu esse tempo para cerca de 10-12 dias, com controle rigoroso de temperatura, preservando o frescor da fruta e suavizando os taninos.  Entre os toneis dos tradicionalistas e as barricas francesas de 228 litros de modernistas, ficou no meio caminho: com barris de 500 litros para envelhecer seus vinhos.

Em 1990, um de seus vinhos recebeu 100 pontos, a nota máxima dada pelo crítico norte-americano Robert Parker. O reconhecimento fez com que pudesse se concentrar apenas em sua vinícola, que em 1999 deixou a garagem e ganhou espaço próprio.

Luciano morreu em 2023. Antes, em 2017, fez uma alteração histórica no seu rótulo mais famoso: Cannubi Boschis foi batizado de Aleste, a junção dos nomes da terceira geração, Alessia e Stefano, filhos de Barbara. Alessia trabalha na vinificação, Stefano estuda economia agrária. Integram a terceira geração da vinícola familiar, cuja produção é de pouco mais de 140 mil garrafas. “Sempre foi uma preocupação manter a produção familiar”, diz. O ambiente mudou nas últimas décadas.

Um hectare de terra em Barolo custa milhões de euros e atrai o olhar de empresários do mundo todo em um ambiente que tradicionalmente estava nas mãos de agricultores. “Por enquanto a região tem conseguido manter suas raízes, mas há muitos empresários que cobiçam a região para fazer vinhos”, diz Barbara.

Não é a única ameaça. O aquecimento global tem mudado não apenas a data das férias da família, mas também trazido outras preocupações: redes de proteção têm sido colocadas para evitar que a irradiação solar provoque manchas nas videiras e traga doenças. Ainda não é possível avaliar a nova técnica. “Nos últimos três anos, foi uma sucessão de eventos, um ano teve muita chuva, em outro, muito sol, em outro granizo”, afirma. A data de colheita em um ano pode ser em outubro, em outro, em novembro.

Com grande potencial de envelhecimento, os barolos são vinhos que ganham com anos ou décadas de adega. A nova geração tem paciência? “Sim, mas temos visto que muitos nos Estados Unidos, depois da pandemia, passaram a dar menos atenção à enogastronomia. O vinho italiano ganha muito com a comida. Já os asiáticos estão cada vez mais atentos a combinar sua culinária com nossos vinhos”, diz Barbara, que depois do Brasil tem viagem marcada para o Japão. A garagem da família Sandrone ganhou o mundo.

La,la,la (e la), a partitura dos Guigal

25 de Agosto de 2024

No mundo musical, La La La pode ser cantada no chuveiro acompanhando de Beatles a Simon Garfunkel, no universo de Baco está relacionada a um terroir, a um produtor e a três vinhedos míticos. Em 1961, aos 17 anos, Marcel Guigal assumiu por conta da cegueira repentina e inesperada de seu pai, Etienne, o comando da propriedade familiar, nascida em 1946.

A primeira aquisição especial foi uma parcela de um hectare de vinhedos monopole, ou seja, exclusividade da família: La Mouline, um histórico terroir do Rhône, cuja história remonta mais de dois milênios. Etienne vinificou pela primeira vez seu primeiro La em 1966, vinhedo único da Côte Blonde, cujas vinhas datam de 1893, uma das primeiras plantações pós-filoxera na Côte-Rôtie. Recebe a maior percentagem de Viognier, 11%, sendo o restante de syrah, tratamento de 42 meses de madeira.

Quando soube que seria pai, Marcel resolveu plantar vinhedos em La Landonne, em homenagem ao herdeiro: Philippe nasceu em janeiro de 1975, mesmo mês em que as primeiras videiras do segundo La foram plantadas em uma terra que havia três décadas não produzia uvas. É o único não monopólio da casa, o único vinhedo classificado oficialmente e o único que recebe 100% Syrah, com tratamento de 42 meses de madeira. A primeira safra fermentada pelos Guigal foi a de 1978.

Em 1985, completou-se a trilogia: com a aquisição de La Turque dos Vidal-Fleury. Também da Côte Brune, como o La Landonne, esse vinhedo recebe 7% de viognier e também tratamento de 42 meses de madeira.

Em pouco tempo, os vinhos atraíram a atenção de Robert Parker, que ganhou status na safra 1982 em Bordeaux, mas cujo coração bate mais forte pelo Rhône. Depois de beber algumas safras da trilogia, sentenciou em sua Wine Advocate: não há nenhum enólogo na Terra que tenha produzido tantos vinhos atraentes, independentemente das condições da colheita, como Marcel Guigal.

Os três vinhos se destacam em uma harmonização como steak au poivre, que destaca as especiarias. Cabe destacar que as condições de produção têm suas particularidades: Neste terroir, as inclinações de terreno pode chegar a 60° graus em sub-solo granítico e solos metamórficos de micaxistos. A chamada Côte Brune possui óxido de ferro em sua composição, tornando os vinhos mais escuros e viris. Já a chamada Côte Blonde, apresenta um perfil mais calcário, dando elegância aos vinhos.

La Mouline é o mais elegante e delicado, La Landonne, o mais possante e estruturado, La Turque, a conjunção da elegância e a potência. São vinhos grandiosos. Um privilégio poder participar de uma degustação com os 3 sobre a mesa: La Turque 2005 tem tudo que um vinho pode querer; o La Mouline 2010, a delicadeza e a elegância e que ganhará muito em cinco anos; La Landonne 2011 mostra toda a pujança e a exuberância da syrah tratada com esmero. O vencedor? Os participantes.

Assim como Hollywood tem ampliado suas trilogias, os Guigal também seguem o caminho: em 2021, anunciaram a aquisição de um vinhedo a que chamaram de La Reynarde, como o riacho que corre entre Côte Brune e Côte Blonde. (O lugar foi tornado feminino e batizado ‘La Reynarde’ para permanecer dentro da família de vinhedos únicos Côte-Rôties comumente conhecidos como ‘os LaLas). As uvas virão de um terreno em Fongeant, entre vinhedos de Jean-Paul Jamet e Jean-Luc Jamet. A primeira safra, de 2022, chegará ao mercado em 2026. La Reynarde é uma homenagem aos filhos gêmeos de Philippe Guigal, Charles et Etienne. Eles nasceram em 2010, mesmo ano em que o terreno foi liberado para plantio.

Que a família Guigal continue crescendo e vinificando com esmero! Baco só pode agradecer.

PS: Mr. Gilman, o bastião do classicismo da crítica internacional, tem tido que os vinhos pós 2000 dos Guigal têm ficado muito mais acessíveis que os dos anos 1980. Quem sabe eu não tenha a sorte de poder discordar ou concordar de John Gilman, que acha os vinhos de Jean Louis Chave mais pesados que os do pai, Gerard. O La Turque 1988, bebido na casa do Nelson, é o melhor vinho que eu tive o prazer e o privilégio de beber.