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Arroz de pato: com qual vinho?

30 de Março de 2026

A origem da receita é desconhecida, ainda sendo razão de debate: uns apontam para o centro de Portugal, mais especificamente para Lafões; outros, mais recentemente, indicam que a criação do prato teria sido em Braga. Discordâncias históricas à parte, o arroz de pato (campeão de audiência do site há década) ganhou mesas de restaurantes e casas no século 20, com a necessidade de comer fora de casa e a consequente multiplicação dos restaurantes, relembrou o jornalista Dias Lopes em texto de 2017.

Arroz de pato do quinta do marquês, no km 53 da Castello Branco: uma preferência pessoal

Joana Simon, uma das maiores especialistas em enogastronomia, cujo livro “Vinho e Comida” é um dos melhores sobre o tema, relata que os mouros introduziram o cultivo do arroz em Portugal no início do século VIII, embora durante muito tempo tenha permanecido um alimento dos ricos. Tornou-se muito mais amplamente consumido durante o século XX, na sequência de um plano de gestão de terras e águas, impulsionado a partir de 1921 por grandes importações do Brasil e das colônias portuguesas na África.

É um prato simples, baseado em três ingredientes principais – o pato, o arroz e o chouriço. A maior parte das discussões, em Portugal, se refere ao arroz e ao vinho. O arroz tradicional utilizado é o carolino português, uma variedade de grão médio a longo, rica em amido, que absorve bem os sabores (não muito diferente de variedades de risotto como o carnaroli, mas com mais amido). No entanto, algumas pessoas utilizam o arroz agulha, de grão mais longo, que resulta numa textura menos cremosa. Quanto ao vinho, alguns utilizam vinho tinto, outros insistem no branco.

O arroz de pato é um prato bastante rico, mas versátil; por isso, pode aceitar vários estilos de vinho de acompanhamento. Joana Simon prefere tinto com ele, e normalmente português. “Gosto que o vinho tenha alguma acidez ou frescura mineral para cortar a riqueza, algo que Portugal faz bem, mas certamente não está sozinho. Para sugerir apenas duas regiões além das suas fronteiras: os Beaujolais Crus de vinhas velhas, de produtores como Jules Desjourneys e Château du Moulin-à-Vent; e o Priorat, sobretudo o Torres Mas de la Rosa 2017, um lote de Garnacha e Cariñena requintado e etéreo, em vez de uma potência típica do Priorat”, escreveu em um artigo na World of Fine Wine.

Além de acidez e mineralidade, há outros elementos que ajudam quando se quer pensar no vinho ao lado do prato. Uma variável é um certo grau de envelhecimento do vinho. Não é aconselhável um vinho muito jovem. Neste caso, os sabores da carne cozida e posteriormente assada, juntamente com os embutidos, não necessitam de taninos tão presentes. A acidez talvez seja mais importante para combater a gordura do prato.

Os taninos já pelo menos parcialmente polimerizados nos vinhos de certa evolução são suficientes para a suculência do prato. Além disso, os aromas terciários do vinho vão muito melhor com os sabores assados e defumados do prato. Um Reserva Ferreirinha com dez anos de idade por exemplo, seria maravilhoso. Outras alternativas portuguesas poderiam ser vinhos do Dão, de preferência os mais modernos com um pouco mais de potência, ou um belo Buçaco, naturalmente envelhecido, onde os sabores do Dão e Bairrada se fundem.

Saindo de Portugal, podemos ir para os italianos. A sangiovese, com sua acidez, é uma boa pedida, por exemplo num belo Brunello di Montalcino. Um Taurasi envelhecido com a uva Aglianico é outra bela pedida. Do lado espanhol, um Ribera del Duero, um Rioja Reserva ou Gran Reserva mais moderno, mais encorpado, também podem dar certo.

Quanto aos franceses, penso que o Rhône é a melhor opção. Um Cornas ou um bom Crozes-Hermitage com alguns anos de garrafa tem o perfil deste prato com as características da Syrah. Com um pouco mais de sofisticação, podemos tentar um Côte-Rôtie ou o grande Hermitage. No caso deste último, deve ser bem envelhecido para amansar sua potência.

Se a ideia for buscar vinhos do Novo Mundo, bom considerar que apenas os grandes tintos da região possuem capacidade para envelhecimento. Um Malbec da Bodega Achaval Ferrer, um Cabernet chileno de estirpe como o Casa Real Santa Rita, ou um Shiraz com toques de evolução como o sul-africano  da vinícola Neil Ellis.

Para não correr grandes erros, vamos ficar com a receita do restaurante Bela Sintra, referência em comida portuguesa em São Paulo.

1 Tempere o pato com o vinho branco, 2 cebolas, o louro, a pimenta-do-reino, o salsão e as cenouras picadas.
2 Deixe marinar por 12 horas, coloque o pato em uma panela de pressão com os legumes, cubra com água, tempere com sal e cozinhe por 15 a 20 minutos.
3 Desfie a carne e reserve.
4 Refogue no azeite a cebola restante com o alho e o bacon, acrescente o arroz e junte 1 litro do caldo do cozimento do pato.
5 Quando o caldo estiver fervendo, acerte o sal e deixe o arroz cozinhar.
6 Depois de cozido, misture o pato desfiado com o arroz em uma travessa.
7 Finalize com as rodelas de cenoura e chouriço sobre o arroz e leve ao forno por aproximadamente 20 minutos.

Os barolos de Luciano Sandrone

13 de Junho de 2025

Quando a unificação italiana ocorreu na metade do século XIX, promovida pela Casa de Savoia, um vinho ganhou projeção à mesa entre os nobres: o barolo, feito com as uvas Nebbiolo, colhidas no Piemonte, norte do país. Escolhido pela dinastia real italiana, foi batizado como o vinho dos reis ou o rei dos vinhos.

Assim como as dinastias, o mais famoso vinho da Itália tem passado por transformações, seja pela emergência de uma nova geração de produtores, seja com os impactos das mudanças climáticas e dos preços cada vez mais elevados das terras, o que tem despertado a atenção de olhares estrangeiros.

Um dos capítulos da história dos últimos 50 anos de barolo e do vinho italiano é escrito pela família de Luciano Sandrone, cuja filha, Barbara, esteve recentemente em São Paulo, em evento da importadora Clarets. Quando a família Sandrone se mudou para a cidade de Barolo, tornou-se vizinha de Giacomo Borgogno, um dos mais famosos produtores da região. O pai de Luciano era carpinteiro, mas alergia ao pó de madeira e horas vendo o vinho sendo feito no vizinho levaram Luciano à enologia.

Aos 18 anos, bateu à porta do vizinho e conseguiu um emprego na linha de frente da produção de Giacamo Borgogno. Começou a guardar dinheiro e em 1977, aos 30 anos, comprou uma parcela de videiras em Cannubi Boschis, um pedaço de terra reputado pelos barolos ali plantados.

Um ano depois, em 1978, na sua garagem, começou a vinificar 1500 garrafas, mantendo em paralelo seu trabalho de enólogo nas vinícolas de Giacomo Borgogno e Marchesi di Barolo. “Ele precisava de dinheiro e queria fazer seus vinhos, seguir um caminho próprio e isso coincidiu com mudanças no cenário”, recorda-se Barbara.  

O vinho italiano no início dos anos 1980 começou a mudar. Em 1981, foi lançada a primeira Vinitaly, feira realizada na Itália com a intenção de reunir produtores de diferentes regiões do país e compradores de todos os países. Os vinhos de Luciano agradaram a compradores dos Estados Unidos e Suíça.

Em paralelo, a nova geração de viticultores adotava novas técnicas. Na maneira tradicional, os produtores usavam grandes toneis de madeira para envelhecer o barolo buscando obter garrafas que evoluíssem por anos. Já a nova geração buscava vinhos mais acessíveis na juventude e mais precisão na colheita e na adega. Luciano se tornou o que a literatura enológica chama de “barolos boys”, um movimento que chacoalhou a região, buscando incorporar novas tecnologias, tornando até hoje difícil definir a tênue linha entre modernistas e tradicionalistas.

Manteve um pé no moderno e outro na tradição. Barolos eram fermentados por até 30-50 dias, o que gerava vinhos extremamente tânicos e duros na juventude. Sandrone reduziu esse tempo para cerca de 10-12 dias, com controle rigoroso de temperatura, preservando o frescor da fruta e suavizando os taninos.  Entre os toneis dos tradicionalistas e as barricas francesas de 228 litros de modernistas, ficou no meio caminho: com barris de 500 litros para envelhecer seus vinhos.

Em 1990, um de seus vinhos recebeu 100 pontos, a nota máxima dada pelo crítico norte-americano Robert Parker. O reconhecimento fez com que pudesse se concentrar apenas em sua vinícola, que em 1999 deixou a garagem e ganhou espaço próprio.

Luciano morreu em 2023. Antes, em 2017, fez uma alteração histórica no seu rótulo mais famoso: Cannubi Boschis foi batizado de Aleste, a junção dos nomes da terceira geração, Alessia e Stefano, filhos de Barbara. Alessia trabalha na vinificação, Stefano estuda economia agrária. Integram a terceira geração da vinícola familiar, cuja produção é de pouco mais de 140 mil garrafas. “Sempre foi uma preocupação manter a produção familiar”, diz. O ambiente mudou nas últimas décadas.

Um hectare de terra em Barolo custa milhões de euros e atrai o olhar de empresários do mundo todo em um ambiente que tradicionalmente estava nas mãos de agricultores. “Por enquanto a região tem conseguido manter suas raízes, mas há muitos empresários que cobiçam a região para fazer vinhos”, diz Barbara.

Não é a única ameaça. O aquecimento global tem mudado não apenas a data das férias da família, mas também trazido outras preocupações: redes de proteção têm sido colocadas para evitar que a irradiação solar provoque manchas nas videiras e traga doenças. Ainda não é possível avaliar a nova técnica. “Nos últimos três anos, foi uma sucessão de eventos, um ano teve muita chuva, em outro, muito sol, em outro granizo”, afirma. A data de colheita em um ano pode ser em outubro, em outro, em novembro.

Com grande potencial de envelhecimento, os barolos são vinhos que ganham com anos ou décadas de adega. A nova geração tem paciência? “Sim, mas temos visto que muitos nos Estados Unidos, depois da pandemia, passaram a dar menos atenção à enogastronomia. O vinho italiano ganha muito com a comida. Já os asiáticos estão cada vez mais atentos a combinar sua culinária com nossos vinhos”, diz Barbara, que depois do Brasil tem viagem marcada para o Japão. A garagem da família Sandrone ganhou o mundo.

Clássicas mesas numa São Paulo gourmetizada

13 de Junho de 2025

(original publicado em https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/)

Cerca de 60% das empresas não sobrevivem após cinco anos no Brasil, segundo dados do IBGE. No setor gastronômico, a mortalidade empresarial é ainda mais alta: sete em cada dez negócios fecham as portas antes de completar o quinto aniversário. Depois da pandemia, a matemática se tornou ainda mais problemática. Quem sobrevive décadas na cidade de São Paulo tem uma legião de assíduos frequentadores ou tem buscado se readaptar.

Fundado em 1970, na rua Treze de Maio, no bairro do Bixiga, região central de São Paulo, o Mexilhão (@mexilhaorestaurante) nasceu com uma proposta inusitada para uma área conhecida pela quantidade de cantinas italianas: oferecer frutos do mar e pratos tradicionais. Aqui não se esperem espumas ou outras acrobacias, muito menos design e arquitetura. As mesas e a decoração não mudaram desde o começo. No Mexilhão, oferecem-se pratos que sumiram de muitos outros endereços, como o camarão à grega, e abundância, um substantivo cada vez mais escasso. “Aqui não tem miséria”, como disse um amigo em recente almoço de meio de semana lá, em que se comeu uma paella para dois e ainda se levou a sobra para o almoço e janta do dia seguintes.

O frango de televisão de cachorro foi gourmetizado há tempos em São Paulo, mas ainda vive no Brazeiro (obrazeiro), na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, onde se pode comer um frango assado e polenta frita em um ambiente que se mantém simples e despojado desde sua fundação em 1969. O sucesso da casa, cujo frango assado para duas pessoas custa 66 reais, levou à abertura de uma filial no Morumbi.

Nos Jardins, o Z-Deli (@zdelirestaurante) nasceu em 1981 oferecendo comida judaica. Fechou em 2023 para reforma e reabriu no fim do ano passado, com uma proposta diferente: pratos judaicos continuam no cardápio, totalmente reformulado sob o conceito de um bistrô sem frescura com comida da Europa Oriental, com preços e comida de ótima qualidade preço para uma cidade cada vez mais cara. Isso quer dizer o quê? Kibe cru de atum, alcachofras empanadas cobertas de queijo pecorino e aioli, latkes (panquecas de batata), peixe do dia com batatas fritas, hambúrguer. As caçarolas estão sob o comando do ótimo chef Benê Souza, que antes estava no Virado, no Largo do Arouche. Problema aqui são as longas filas. Nesse caso, a ideia é chegar ao meio dia ou reservar ou então se buscar uma mesa no meio da tarde.

No início de 1994, quando o Brasil vivia ainda os primeiros meses do plano Real, Giuseppe Rosa, aos 52 anos, abriu o Vecchio Torino (@vecchiotorinooficial). Pensou inicialmente em fazer um restaurante somente com pratos de sua cidade natal, Turim. Terminou optando por um cardápio mais abrangente, mas com foco no Norte da Itália. Arregimentou fãs ardorosos e também críticos contumazes. Uns se locupletam nos sabores familiares e emocionais, outros criticam o ambiente kitsch, os preços, as idiossincrasias, a preferência pelos clientes antigos que são assíduos e seriam privilegiados. Aos 31 anos, o Vecchio Torino mantém um gnocchi delicado e saboroso.

O que é um clássico? Na literatura, o escritor Italo Calvino sentenciou que é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. Nos restaurantes, podem ser os endereços que trazem recordações, como as madeleines do escritor francês Marcel Proust.

Merci beaucoup, Joël Robuchon

9 de Novembro de 2023

(Originalmente publicado em pisandoemuvas.com em 6 de agosto de 2018, na morte de Joël Robuchon)

Houve um tempo em que não existiam aplicativos, em que a internet ainda engatinhava, em que as companhias aéreas não cobravam para se marcar o assento, em que não havia Trivago e afins, em que o São Paulo era campeão ano sim, ano sim. Faz quase uma década e meia. Foi quando pisei pela primeira vez no Atelier de Joël Robuchon (naquele momento havia apenas um, em Saint-Germain), dica de Amauri de Faria, que, sempre escasso em elogios, disse que Röbuchon e Senderens eram obrigatórios e que o primeiro não errava, quaisquer endereços colocasse seu nome.

A reserva foi marcada para meio dia e meia. A pé cumpri o quilômetro que distanciava o hotel até o endereço em que minha vida mudou. Sentei-me num balcão. Ofereceram uma taça de champagne: Bruno Paillard première cuvée (vendida pela sempre confiável Taste Vin). Abri o cardápio, mas não cheguei a prestar atenção, porque queria saber do garçom o que ele recomendava naquela quinta-feira. Havia uma proposta de alguns pratos que tinham ficado famosos nas mãos de Robuchon.

E o prato principal, um cordeiro de leite, viria com o purê de batata, que poderia ser repetido quantas vezes fosse necessário, não haveria problemas, assegurou o garçom. “O que tem num purê de tão especial?”, perguntei, sem saber de um dos pratos assinatura do chef. “O senhor saberá”, sorriu.

Os lagostins em raviolis trufados e couve flor vieram, o atum, o caranguejo real, veio também pela primeira vez um Meursault. Conhecia de nome a vila da Bourgogne. O produtor era então um desconhecido: Jean Marc Roulot. O vinhedo ainda mais ininteligível: Clos Tessons de mon Plaisir. “Bate muito premier cru às cegas”, disse o sommelier. Me fiz de entendido, mas quando levei à boca entendi que havia vinhos sobrenaturais, que talvez se chamassem premiers crus.


Vieram o cordeiro de leite e o purê. Na primeira garfada, veio o silêncio. Na segunda, a emoção. Na terceira, a constatação: comida e vinho podiam rimar com algo indecifrável, que levava a imagens, sons, gostos, prazeres, amores, emoções, livros, filmes. Perdi o chão. Fui arrebatado por uma paixão incontrolável que une  comida e vinho. Paixão que só cresce, mas que começou mesmo ali na esquina da rue Montalembert número cinco, a alguns quarteirões do Sena.

Por anos, mandei uma legião de amigos e amigas irem para Paris e descobrirem Robuchon, de quem até Odete Roithman, protagonizada pela genial Beatriz Segal, era fã. Não tive a oportunidade, a idade, o conhecimento ou o dinheiro para descobrir Robuchon no Jamin, onde ele fez sua fama e onde ele comandava a cozinha todos os dias com rigor, técnica e emoção. Roberta Sudbrack teve essa sorte.


Eu tenho outra sorte: a de ter por tantos e tantos anos vivido a arte de Roberta, autodidata que aprendeu lendo os livros do hoje lendário Robuchon, no RS, na Lineu Paula Machado, 916, que por tanto tempo chamei de minha casa no Rio de Janeiro.

Espero que minha sorte seja ainda maior e que possa viver muito mais da arte de Roberta no seu novo endereço no Jardim Botânico, onde ela alça novos voos, feliz da vida.

A lenda Robuchon, chamado de maior chef do século XX por publicações francesas, sobreviverá em seus discípulos e nas memórias de quem passou por suas mesas e suas criações.

Merci beaucoup!

PS: quem quiser ter um gostinho do que foi o Jamim, leia esse texto aqui: https://bradspurgeon.com/articles-as-opposed-to-posts/a-dinner-at-robuchons-jamin/