Archive for Março, 2011

Vino Santo Trentino

31 de Março de 2011

Já mencionamos em post passado (Toscana: Vin Santo) uma das especialidades toscanas, chamada Vin Santo. Contudo, existe uma denominação muito pouco conhecida da região de Trentino-Alto Adige, chamada Vino Santo Trentino.

Tradição e raridade da enologia italiana

A produção é muito pequena, com produtores localizados na região de Valle dei Laghi (a oeste de Trento), que cultivam a casta autóctone Nosiola. A diferença do modelo toscano vai muito além das uvas. Sabemos que a Malvasia e Trebbiano são as uvas utilizadas na Toscana, enquanto neste caso, temos 100% Nosiola, com raras exceções. Podem eventualmente complementar o corte, outras uvas locais em até 15%, o que raramente ocorre.

Os cachos de Nosiola são colhidos em setembro ou outubro em ótimo estado de maturação. Em seguida, são postos para secar por um longo período (cinco a seis meses), bem maior do que o caso toscano. Na verdade, a vinificação só ocorrerá na época da semana santa, motivo principal do nome deste santo vinho. Para cem quilos de uvas frescas (antes da passificação), teremos de 15 a 18 litros de Vino Santo.

As condições climáticas propiciam o bom desenvolvimento da Botrytis Cinerea no período de appassimento. Mais uma diferença com o lado toscano.

Na cantina, desenvolve-se um longo período de fermentação e maturação do vinho em pequenos tonéis entre seis e oito anos.

O resultado é um Vino Santo com todas as características  de evolução, mostrando toques de mel, frutas secas, notas empireumáticas e os aromas elegantes advindos da Botrytis.

Infelizmente, ainda não temos exemplares no Brasil, sendo portanto, uma ótima dica de viagem para provarem in loco, preferencialmente, e porque não, trazerem algumas garrafas. Produtores como Gino Pedrotti e Giovanni Poli têm longa tradição nesta denominação.

 

Vinho do Porto: Estatísticas

28 de Março de 2011

Dados recentes (2009/2010) comprovam a importância do Vinho do Porto na região do Douro, com 773.708 hl (hectolitros) produzidos. Este número equivale a quase 60% do todo o vinho produzido no Douro (1.328.624 hectolitros). O Douro ainda é com folga a região mais produtiva de Portugal.

Números oficiais fornecidos pelo IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto) nos dão uma idéia de seu atual mercado:

Em 2010, cinco países incluindo Portugal, respondem por praticamente 80% do comércio de Vinho do Porto:

  • França ……………………………….. 28,5%
  • Holanda ……………………………… 14,2%
  • Portugal ……………………………… 14,0%
  • Bélgica ………………………………… 12,5%
  • Reino Unido ………………………… 10,4%

Esses números refletem o consumo maciço de Portos sem designação especial, ou seja, Tawnies e Rubies básicos.

Comercialização dos principais tipos de categoria especial de Portos em 2009:

  • Reino Unido ……………………………. 32,0%
  • França …………………………………….. 13,6%
  • Estados Unidos ……………………….. 12,1%
  • Portugal ………………………………….. 11,0%

 Esses países concentram 68,7% do comércio de Portos Especiais.

De toda a quantidade comercializada em 2009 de Portos de categoria especial (um milhão seiscentas e trinta e sete mil caixas de 12 garrafas), segue abaixo a participação de cada tipo:

  • Ruby Reserva ………………………………………………. 38,2%
  • Indicação de idade (10, 20, 30, 40 anos) ………. 25,9%
  • Porto LBV …………………………………………………….. 19,8%
  • Tawny Reserva ………………………………………………. 9,4%
  • Vintage …………………………………………………………… 5,1%
  • Colheita ………………………………………………………….. 1,6%

Por esses dados, percebemos a exclusividade de Vintages e Colheitas e compreendemos melhor seus preços. Portanto, quando beberem um Colheita, lembrem-se da raridade deste tipo de Porto.

Segundo dados de 2009, os Portos de categoria especial representam 33,3% dos valores comercializados de Vinho do Porto, e 17,6% em termos de produção (volume) neste mesmo ano.

Em breve, teremos uma série de artigos sobre vários aspectos de um dos vinhos mais adorados por ingleses e franceses, nascido das diferenças e conflitos dessas grandes nações, o Vinho do Porto.

Vinho em destaque: Allegrini Amarone 2006

24 de Março de 2011

Com o final do verão, os vinhos tintos tendem a ganhar mais força ainda, e para aqueles que gostam de Amarone, o grande tinto do Veneto, a safra de 2006 foi excepcional. Prova disso, é o Amarone do produtor Allegrini, um dos mais reputados em Valpolicella. Seu estilo está entre o moderno e tradicional.

Concentrado e Equilibrado

A safra de 2006 apresentou chuvas na medida e hora certas, ótima maturação fenólica e destacada amplitude térmica (diferença de temperatura entre dia e noite) no período de maturação das uvas, proporcionando um bom desenvolvimento de aromas e preservação da acidez.

Em artigo passado (ver post: Amarone: a DOCG mais esperada), falamos da elaboração do Amarone que envolve o processo de appassimento (período de três a quatro meses em que as uvas ficam secando em galpões arejados). A elevada porcentagem de Corvina (uva local) fornece corpo e estrutura ao vinho. Neste exemplar, temos 80% de Corvina, complementada pelas uvas autóctones, Rondinella e Oseleta.

Este Amarone apresente um cor rubi intensa, sem halo de evolução. Seus aromas ainda um pouco fechados, mostram frutas em geléia, chocolate, alcaçuz e notas de especiarias. Encorpado, intenso, macio e persistente. Apesar de um pouco quente (teor alcoólico de 15,9º), característica bem típica deste tipo de vinho, sua acidez se faz presente com boa presença de taninos bem trabalhados, proporcionando um conjunto harmônico. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos uma hora. Sua estrutura permite uma guarda de pelo menos dez anos.

Robert Parker confere a este vinho 94 pontos, comparados somente à mítica safra de 1990. Embora Parker goste de vinhos potentes, concordo plenamente com sua nota, podendo eventualmente ter uma margem de erro de dois pontos. Grande exemplar desta denominação. Importado pela Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Enogastronomia: A Pensão Humaitá

21 de Março de 2011

Falar da saudosa Pensão Humaitá é falar de seu mentor, João Fernando de Almeida Prado, mais conhecido por Yan de Almeida Prado. Intelectual, bibliófilo, historiador e participante ativo da Semana de Arte Moderna, aproveitou seu período de estudos na Europa no começo do século passado, para aprimorar seus conhecimentos em torno do vinho e da boa mesa. Tinha contatos preciosos para abastecer sua refinada adega e partilhá-la com sabedoria entre seus confrades e amigos. Um destes confrades foi o ilustre médico Sérgio de Paula Santos, pessoa de fino trato, um dos atributos para fazer parte deste seleto grupo de amigos. Sem estrelismos, sem mídia, sem segundos e terceiros interesses, a Pensão Humaitá foi durante muitos anos uma aula de bom gosto, boa conversa, boa mesa e bons vinhos. Tudo muito discreto e simples como são as boas coisas da vida.

Yan e Dr. Sérgio sentados ao fundo

A famosa Pensão surgiu na década de trinta do século passado e o nome foi fruto de sua localização, esquina da Av. Brigadeiro Luis Antônio com rua Humaitá. Entretanto, o batismo deu-se anos depois com a participação de Marcelino de Carvalho, um dos maiores conhecedores de Vinho do Porto na época.

Por mais de cinquenta anos, Yan recebeu seus amigos para o almoço aos sábados. Embora em certa época, tenha mudado de endereço na rua Guaianases num bonito casarão, o nome permaneceu. Entre os confrades mais assíduos, além do Dr. Sérgio, nomes como Leonardo Arroyo, Francisco Matarazzo Sobrinho (Ciccillo Matarazzo), João de Scantimburgo, José Tavares de Miranda, Olinto Moura, Octales Marcondes e evidentemente, Marcelino de Carvalho, abrilhantaram o grupo.

No almoço aos sábados, os primeiros a chegarem, eram muitas vezes recebidos de pijama pelo anfitrião, cuidando de rosas em seu jardim, uma de suas paixões. O aperitivo era sempre regado a champagne e não se fumava antes e nem durante a refeição, somente ao término e fora da mesa.

Passava-se à sala de refeições ao comando de Yan com a recorrente exortação, “Vamos ao sacrifício”. Geralmente, o serviço constava de três pratos: uma pequena entrada, um segundo prato (uma massa, um suflê ou um mexido de ovos, especialidade de Consuelo, grande cozinheira espanhola que não deixou receitas. Era analfabeta) e o chamado prato de resistência (uma ave, peixe ou carne, sempre acompanhado por arroz. O anfitrião e alguns confrades eram do Vale do Paraíba). Em seguida, eram servidos queijos, frutas e sobremesas.

Comia-se muito bem, mas sem exageros. Os pratos eram acompanhados por belos vinhos, normalmente franceses, entre os quais, grandes Bordeaux, os preferidos do anfitrião. Ao final, um Yquem poderia estar sobre a mesa. Portos e Madeiras eram rotineiros para finalizar as tardes de sábado.

Todos os anos, quando Yan aniversariava, os pensionistas o presenteavam com algumas caixas de champagne Cristal, que seriam naturalmente consumidas ao longo do ano.

A adega de Yan sempre foi um mistério. De lá proliferaram grandes châteaux de Bordeaux, de safras bem escolhidas, e muitas vezes emocionantes, coincidindo com as datas de nascimento de vários confrades. Numa passagem citada por Dr. Sérgio, quando regressou de uma bela viagem pela Borgonha, contou a Yan sobre os vinhos bebidos num lauto jantar. Yan tempos depois, serviu um almoço com os mesmos vinhos, de safras muito melhores, sem dizer uma palavra.

Esta foi uma pequena homenagem a pessoas que souberam fazer da enogastronomia, momentos de amizade, de confraternização, de respeito aos prazeres da vida e de civilidade. Yan ao morrer teve a sabedoria de sorver as últimas garrafas com amigos, deixando apenas em sua misteriosa adega, alguns exemplares sem expressão.

Para aqueles que desejam mais detalhes sobre a Pensão e outros assuntos ligados à cultura, história e engastronomia, uma série de pequenos livros a bons preços de Sérgio de Paula Santos, ainda estão disponíveis nas principais livrarias.