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Vinhos Antigos: Privilégio para poucos

21 de Maio de 2019

Vinho, quanto mais velho, melhor!. Uma das maiores mentiras no mundo de Bacco. Nem cinco por cento dos vinhos elaborados no mundo são aptos a longo envelhecimento em garrafa. Entretanto, uma pequena parcela de alguns chateaux, domaines, sobretudo franceses, tem esse privilégio. Privilégio maior ainda são aqueles poucos mortais que conseguem com certa regularidade provar destas preciosidades. Estas pessoas, além de desembolsarem milhares de dólares ou euros em leilões, adegas particulares oferecidas, e outras fontes não reveladas, correm grande riscos nas falsificações e no próprio estado de cada garrafa. Lembrando que, em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas.

Vencidos os problemas de grana, e muita grana diga-se de passagem, falsificações, e sorte com as garrafas, degustar esses vinhos é como visitar o céu de vez em quando. A maioria das pessoas só ouvem falar de alguns mitos como Petrus, Romanée-Conti, Latour, Margaux, e muitos outros figurões. Alguns mortais, em situações de rara felicidade conseguem provar uma dessas garrafas através de amigos, degustações especiais, ou presentes inesperados. Nessas situações, fica gravado na memória aquela garrafa, aqueles aromas, aqueles sabores, tudo inesquecível. E aí vem a pergunta: será que esta avaliação foi precisa numa análise fria do vinho, sem isenção, ou a emoção de estar cara a cara com o mito fala mais alto?

Seguindo este raciocínio, em degustação recente publicada neste blog, Bordeaux 82, o Paraíso existe!, tivemos quatro garrafas de Lafite 82 em quatro flights distintos. Uma garrafa diferente da outra. Uma espetacular, uma bouchonnée, uma com aromas estranhos, e uma ainda fechada, de evolução lenta. Se cada pessoa pudesse provar uma destas garrafas, talvez não distinguissem essas diferenças por estarem maravilhadas com o rótulo. Mesmo a garrafa bouchonnée, não é todo mundo que reconhece.

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se acertar a garrafa, beba de joelhos!

A safra 85 foi maravilhosa na Borgonha em particular. Lembro-me de um Romanée-Conti desta safra numa garrafa perfeita. Aromas terciários incríveis e inesquecíveis. Na foto acima, um Mazis-Chambertin do Négociant Leroy do Hospices de Beaune 85. Em três oportunidades tivemos: uma garrafa maravilhosa, e as outras duas muito boas, mas não esplendorosa como a primeira.

Dentro deste universo de vinhos de guarda, há alguns já acessíveis em tenra idade, embora possam envelhecer com propriedade. É o caso dos chateaux Haut Brion e Cheval Blanc que são adoráveis em qualquer momento. Basta uma boa decantação. Isso para ficar nestes dois exemplos. 

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este trio tem muita história

Os chamados La-La-Las, foto acima, dispensam comentários num dos vinhos mais espetaculares em termos de longevidade. A idade parece não chegar para essas crianças com aromas terciários incríveis e um equilíbrio de boca singular. Cada qual pode ter sua preferência, mas não vou fazer distinção entre eles, pois já provei vários de todos eles e sempre espetaculares. Para ficar em apenas três safras: 85, 88 e 90. A elegância e sutileza de aromas destes tintos, elevam a casta Syrah numa outra dimensão.

Por outro lado, os mitos Petrus e Romanée-Conti são vinhos difíceis na juventude, um tanto duros, sem muita conversa. Portanto, diante deles, só mesmo o tempo para lapidar essas joias e revelar todo seu esplendor. Muitas vezes, mais de vinte anos são necessários para todo esse processo. Some-se a isso, características especificas de safra que podem atenuar ou intensificar este período de maturação em garrafa. Lembrando do Mouton 1986, este é um caso clássico de difícil  amadurecimento por ser de uma safra de taninos extremamente potentes e de lenta evolução. 

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talvez o único que possa encarar o Petrus de frente!

Poderia escolhe inúmeros Bordeaux já degustados, mas preferi mostrar o Pomerol acima, o grande Lafleur. Vinho introspectivo como o rei Petrus e de lenta evolução. A destacada participação da Cabernet Franc confere elegância, mas a estrutura da Merlot com taninos poderosos lembra o rival maior. 90 é uma grande safra que está ainda em evolução. Precisa de pelo menos duas horas de decantação. Outras grandes safras brilham para este chateau como a mítica 82, 100 pontos inconteste.

Dentro da família DRC, o caso mais evidente e didático quanto à maturação e acessibilidade dos vinhos são os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux. O primeiro, um tinto acessível, sensual, em qualquer idade que abri-lo, salvo características específicas de safra. Já o Grands-Echezeaux é um vinho duro, viril, completamente oposto à feminilidade de seu parceiro de vinhedo. Aqui, as questões de terroir falam mais alto, já que o produtor e a técnica de vinificação são os mesmos. Domaine de la Romanée-Conti possui as melhores localizações destes dois Grands Crus, onde os vinhedos estão muito próximos. Grands-Echezeaux fica na parte de cima do Grand Cru Clos Vougeot, fazendo divisa. As parcelas DRC de Echezeaux ficam imediatamente a norte de Grands-Echezeaux, praticamente coladas em sua divisa. No entanto, sutilezas de solos, relevo e inclinação do terreno, resultam em relevantes diferenças entre os vinhos. Só a Borgonha propicia este mistério. 

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Madeira: um vinho indestrutível!

De todos os fortificados portugueses, o Madeira impressiona pela extrema longevidade, quase imortalidade. O exemplo são os Madeiras do século XIX, foto acima, parecendo não ligar para o tempo. Aromas e sabores fantásticos e um equilíbrio perfeito em boca. Sobretudo o Terrantez, um dos Madeiras mais raros, é da categoria Frasqueira ou o equivalente a um Vintage. O vinho é de uma só colheita e passa pelo menos vinte anos em canteiros (estrutura de ripas que sustentam as pipas para não encostarem no chão), antes do engarrafamento. Este período extremo de oxidação, fazem destes vinhos algo quase imortal.

Na evolução em garrafa de grandes vinhos, o tempo, o silêncio e a escuridão da adega, fazem a transformação de algo incompleto, com arestas, e certa introspecção. Lentamente, os ácidos e álcoois do vinho em meio aquoso se transformam em ésteres, formando o chamado bouquet. Esta é uma transformação lenta e gradual, onde esses mesmos ésteres se decompõem em ácidos e álcoois, recomeçando o ciclo novamente. A não perturbação da garrafa neste longo período é fundamental para o bom andamento das etapas.

Por outro lado, os taninos conjuntamente iniciam um processo de polimerização, formando longas cadeias moleculares. Num determinado momento, por peso próprio esses taninos começam a precipitar-se formando os famosos depósitos, também chamado de borra. Daí, a necessidade de decantação de vinhos antigos, a fim de separar as partes sólidas do líquido límpido. 

Ficamos na França para elucidar o assunto deste artigo, mas a Europa de um modo geral, permite o mesmo raciocínio para outros vinhos e vinhedos, embora o arsenal francês em quantidade e qualidade dos grandes vinhos de guarda seja incomparável aos demais países.

 

 

Petrus e os Três Reis de Pauillac

18 de Maio de 2019

Sabe aquele dia que nada pode dar errado. Você não quer correr riscos, nada de quase, nada de poderia ser melhor, ou seja, você põe o Dream Team em quadra. Para começar a escalação, que tal um Petrus 1955?

O problema agora é colocar companheiros à altura para dar liga. Só tem uma saída: convocar a tropa de elite de Pauillac, a começar pelo Lafite 59, um dos grandes destaques desta safra maravilhosa cheia de craques. Complementando o time, Mouton 82, uma das feras de outra safra mítica, e um bebezinho ainda engatinhando chamado Latour 1996, uma safra perfeita para este Chateau excepcional.

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Para o aquecimento deste timaço, foi convocado Comtes Lafon com seu maravilhoso Montrachet 2013. Seus últimos Montrachets tem estado com notas altíssimas, realmente numa grande fase. Seu estilo de certa opulência, oferece camadas de frutas acajuadas, toques de pâtisserie, textura macia e envolvente. Apesar de tenra idade, um Montrachet delicioso que acompanhou com distinção alguns crudos muito bem executados no restaurante Nino Cucina.

linguado e atum divinamente in natura

Voltando agora ao Dream Team, vamos falar do maior clássico de Pauillac, a disputa eterna entre Latour e Mouton, dois grandes Premier Grand Cru Classe. Na foto abaixo, duas grandes safras em momentos diferentes de evolução.

Tour de Force de Pauillac

Falar de Mouton 82 é falar de um tinto perfeito, 100 pontos inconteste, e uma das safras históricas deste Chateau. O vinho é exuberante em aromas, taninos que deslizam como rolimãs, boca absolutamente perfeita e final longo, macio, luxuriante. Uma bela garrafa em plena forma. Já seu oponente, um monstrinho que destruirá tudo pela frente em 2040, seu apogeu previsto. Um mar de taninos ultrafinos a serem lapidados lentamente nas sonolentas adegas mundo afora. Um Bordeaux à moda antiga onde os tintos não passavam de 12,5 graus de álcool. Equilíbrio perfeito e grande expansão em boca. Será certamente um dos Latours históricos de 2030 em diante. Neste embate você vê claramente como nasce uma estrela e ao mesmo tempo, o apogeu de outra estrela de brilho intenso. Ainda bem que neste caso, não precisamos de anos-luz para atingir o esplendor.

aqui não há perdedores

Mais do que comparar essas duas obras de arte acima, é poder divagar sobre a essência destes respectivos terroirs únicos dentro de si mesmos. Se pensarmos em Pauillac como a grande comuna do Médoc e a força dos vinhos de margem esquerda, os exemplos de Latour e Mouton encaixam-se perfeitamente neste cenário com vinhos pujantes e de grande torque. São exemplos mais que didáticos para enaltecer as características de um grande Pauillac. Já no caso de Lafite, outro Premier Grand Cru Classé de Pauillac, tudo muda, a exceção acontece. Os solos de Lafite tem um cascalho fino misturado com areia e importantes camadas de calcário. Essa configuração confere leveza ao vinho e ao mesmo tempo, elegância, acidez, tensão, dada pelo calcário, fazendo de Lafite o Borgonha do Médoc. É um vinho cheio de sutilezas e um certo mistério brilhantemente demonstrado neste 1959. Um tinto que foi crescendo no decanter por horas, seduzindo cada vez mais os convivas com uma finalização impecável. Um Lafite histórico!

pratos requintados

Fazendo uma pausa para o menu degustado, dois destaques do almoço com os Bordeaux. O tortelli de vitela com cogumelos à esquerda da foto acima, ficou divino com os velhinhos bordaleses, Lafite e Petrus. Enquanto isso, a paleta de vitela ensopada, cozida lentamente com guarnição de polenta cremosa, deu as mãos ao grande Mouton 82 de ricos sabores. Parabéns ao Chef Rodolfo de Santis.

Partindo agora para o grande Petrus 1955, é fundamental ressaltar o prazer de provar um Petrus pronto, sem aquelas amarras que este Pomerol costuma nos receber em tenra idade. Petrus é outra exceção de terroir dentro de Pomerol. Quando pensamos nesta comuna, lembramos de tintos afáveis, macios, generosos e acessíveis em aromas e sabores, os quais são regidos pela presença marcante da casta Merlot. No entanto, o terroir de Petrus busca o ponto mais alto de Pomerol numa solo único de argila azul, de drenagem muito particular onde mesmo em anos secos, o suprimento de água para as raízes das velhas vinhas é garantido. Essa condição faz do Merlot de Petrus uma uva de grande estrutura, austera, rica em taninos, muito mais semelhante a um Cabernet Sauvginon, proporcionando tintos de grande poder de longevidade.

solos: Lafite e Petrus, respectivamente

Voltando aos vinhos propriamente dito, estavam maravilhosos. Os toques de incenso, cedro, ervas finas, especiarias, tabaco, permeavam a taça de Lafite. Boca delicada, elegante, ao mesmo tempo tensa, com uma acidez de aço. Um Pauillac fora da curva. Já o rei Petrus, altivo, toques minerais, terrosos, profundos, um núcleo frutado extremamente elegante. Em boca, uma estrutura tânica magnifica, quase imortal. Persistência aromática expansiva, extremamente harmônico. 

Neste último embate, ficou claramente marcado o lado masculino, viril, de Pomerol, neste terroir único de Petrus. Por outro lado, a feminilidade, a sutileza, de Pauillac, foi enaltecida pelo elegante Lafite. Características antagônicas a seus respectivos terroirs que fazem destes ícones, tintos de enorme personalidade. Um final de prova triunfante.

Fica até deselegante falar dos valores que envolvem estas preciosidades, mas a generosidade dos confrades presentes não tem preço. Obrigado pela companhia, a boa conversa de sempre, e o privilégio de constantemente dividir os prazeres da mesa e do copo com grandes amigos. Que Bacco nos proteja!

Petrus e a argila azul

7 de Abril de 2019

Fazer um time de Petrus do goleiro ao ponta esquerda não é tarefa corriqueira. O dream team foi composto pelas safras 70, 75, 76, 81, 83, 89, 90, 97, 98, 99, e um 2009, praticamente um feto. Além destes, um Saute-Loup 2010 em Magnum, vinho da família do rei Petrus, pouco conhecido na mídia.

52d7d9d7-f42e-4e4e-9578-c9bd80677b29o time todo no restaurante Parigi

Evidentemente, precisamos aguçar as papilas, antes de enfrentar esta seleção. Nada melhor que dois champagnes Dom Perignon safras 96 e 98 de longo tempo sur lies. A primeira 98 trata-se de um Oenothèque, antiga nomenclatura, e um maravilhoso 96 P2, nova nomenclatura para as chamadas “plenitudes”.

12 anos sur lies

Dois champagnes maravilhosos, mas de estilos diferentes. O 96 é extremamente mineral, agudo, de muita leveza, e longa persistência aromática. Já o 98, mais vinoso, mais gastronômico, e cheio de brioches. A preferência é pessoal, mas o 96 impressiona pela vivacidade com 97 pontos.

16 anos sur lies

img_5937velhinhos de respeito

Abrindo a degustação, este primeiro flight mostrou didaticamente a evolução de um vinho de guarda. Todos os principais aromas terciários estavam lá, adega úmida, cogumelos, trufas, notas de chá, especiarias, ou seja, os deliciosos aromas etéreos. O 83 é discretamente mais concentrado que o 81, mas ambos deliciosos.

img_5938trio de respeito, mostrando a força deste vinho

Neste segundo flight, subimos de patamar. O 97 e 99, num estilo mais abordável, de certa maciez, mostrou bela concentração de aromas e taninos finos. O 99 com um pouco mais de riqueza e estrutura, embora o 97 seja mais prazeroso no momento. Falando agora do 98, um verdadeiro mamute com 98+ pontos e um largo caminho a percorrer, buscando um apogeu esplendoroso. A estrutura tânica deste vinho impressiona e garante esta enorme longevidade. Para toma-lo agora com algum prazer, é necessário uma decantação de pelo menos três horas. Paciência com este monstro!

img_5941200 pontos na mesa

Neste terceiro flight, vinhos perfeitos, a despeito de estarem longe de seu apogeu. O 90 tem um lado mais delicado, bela acidez, e um equilíbrio perfeito. Já o 89, um tinto de mais opulência, uma riqueza de fruta extraordinária, e longa persistência final. A garrafa estava um pouco prejudicada com certa turbidez. De todo modo, um embate espetacular sem vencedores.

img_5942um trio para selar uma grande degustação

Neste ultimo flight, ficamos com os vinhos mais longevos e de grande pontuação, verdadeiros mitos deste grande terroir. O 76 menos badalado, mostrou bela evolução, com todos os componentes bem balanceados, maciez notável, e grande classe. Ótimo para ser apreciado no momento. O 75 de estilo parecido com o 98 acima descrito, tem um força extraordinária com taninos impressionantes. Já entrando em seu apogeu, é vinho quase imortal, sem nenhum sinal de decadência. Tinto impressionante. Deixamos para o fim, o melhor do almoço, o magnifico e feminino Petrus 70. Uma verdadeira poesia liquida com lindos toques de alcaçuz. Macio, sedutor, envolvente, uma das safras perfeitas de Petrus com 99 pontos. Não me perguntem onde o Parker tirou um ponto desta maravilha. O homem realmente é chato e exigente com os grandes Bordeaux.

Um pouco mais de Petrus …

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Petrus: a Chave para o Céu

Petrus está para Pomerol, assim como Yquem está para Sauternes. São Chateaux hors-concours que dispensam apresentações por seus respectivos terroirs únicos. No caso de Petrus, seu solo é composto de uma argila azulada rica em ferro no platô de um outeiro numa altitude de 40 metros em relação ao nível do mar. Isso confere ao vinho uma riqueza de cor extraordinária e muda as características principais da Merlot, uva altamente majoritária na composição do vinho. No caso, é um Merlot rico em taninos, lembrando pela estrutura um Cabernet Sauvignon. Outra curiosidade é que depois de 60 a 80 centimetros abaixo do solo, esta argila se torna dura, não permitindo um aprofundamento das raízes. Portanto, elas crescem lateralmente, fazendo com que o espaçamento entre as vinhas seja maior que o habitual.

É um vinho de maturação lenta, sobretudo nas grandes safras, capaz de envelhecer por décadas. Somente o Chateau Lafleur possui estrutura semelhante.

O sucesso do vinho em termos de história é relativamente recente, já que Pomerol não possui nenhuma classificação oficial em Bordeaux. Somente depois da segunda guerra mundial, Petrus ganhou fama e prestígio no mundo quando foi apresentado na Casa Branca, onde as recepções eram regadas pelo tinto de Pomerol. Em especial, a família Kennedy era fã do vinho.

http://www.rendezvous.com.br/o-mito-petrus-com-olivier-berrouet/
O Link acima traz uma reportagem técnica muito detalhada com o atual enólogo do Petrus, Olivier Berrouet, filho do grande enólogo do Petrus, Jean-Claude Berrouet que produziu 45 safras do mítico vinho.

Por fim, os agradecimentos pela imensa generosidade dos confrades em proporcionar este encontro inesquecível. Independente do alto nível dos vinhos, a conversa e integração do grupo é o mais importante nesses encontros. Saúde a todos! 

A sublimação da Grenache

10 de Fevereiro de 2019

O tema foi uma bela incursão pelo Rhône-Sul em busca de maravilhosos Chateauneuf-du-Pape, apelação emblemática e de grande heterogeneidade. Portanto, neste almoço no restaurante Gero, somente a fina flor de chateaux exclusivos onde a Grenache se manifesta magistralmente. Evidentemente, a maioria são blends na qual esta cepa predomina e imprime seu estilo franco e cheio de frutas em compotas. 

Oenothèque: antiga nomenclatura

Nada como abrir os trabalhos com Dom Pérignon, especialmente este Oenothèque com dégorgement feito em 2008 da bela safra 1996. Portanto, 12 anos sur lies, o que equivale a um P2 da nomenclatura atual. Champagne perfeito, perlage notável, mousse agradável e sedosa, os aromas delicados de pralina e toques amendoados, final rico e persistente. Não é a toa que trata-se das melhores cuvées produzidas  deste champagne de luxo nas últimas décadas com 97 pontos e muita vida pela frente.

bela harmonização

Em seguida, este branco exótico de vinhas antigas 100% Roussanne, o melhor branco do Chateau de Beaucastel. Vinho denso, concentrado, com toques de caramelo, flores, e algo balsâmico. Em boca, um pouco cansado devido à baixa acidez. Estes vinhos do sul do Rhône, normalmente pecam na longevidade por falta de frescor. Mesmo assim, ainda num ponto bom de ser apreciado, sobretudo acompanhando um belo Vitello Tonnato, brilhantemente executado. Harmonização surpreendente.

img_5651safra 2003: generosa

Já neste primeiro flight, o trio acima mostrou a que veio. Todos de alta gama com uma estrutura impressionante. O Beaucastel à esquerda, trata-se da cuvée Hommage a Jacques Perrin, só produzida em safras excepcionais como 2003. O fato curioso é que nesta cuvée há alta porcentagem de Mourvèdre, uva musculosa e tânica. Neste blend temos, 40% Mourvèdre, 40% Grenache, 10% Syrah, e 10% Counoise. Um vinho denso, taninos presentes, e o menos pronto do painel. Vai mais dez anos em adega, sossegado. 95 pontos Parker.

Chateau Pegau Cuvée da Capo, segundo vinho do flight, é outro vinho excepcional na concepção clássica de um Chateauneuf. Estão presentes as treze uvas da apelação, todas de vinhas centenárias nesta cuvée topo de gama. As uvas vêm de três terroirs consagrados, inclusive La Crau, um dos mais reputados da região. O vinho tem uma vinificação clássica, amadurecido em grandes tonéis. Muita fruta em compota, especiarias, garrigue (aroma de ervas provençais), e um equilíbrio notável em boca. Extremamente prazeroso no momento. 100 pontos Parker.

Roger Sabon é outro domaine de ponta com esta cuvée especial denominada “Le Secrets des Sabon” de vinhas centenárias com 95% de Grenache. Seria um fecho maravilhoso se o vinho não estivesse parcialmente oxidado, sobretudo em boca. Seus aromas tinham incríveis toques de cacau, além de taninos super polidos. Uma pena esta garrafa não estar em forma. 96 pontos Parker.

img_5654300 pontos na mesa

Segundo flight perfeito com vinhos magníficos em sua concepção na mítica safra 1990. Les Cailloux Cuvée Centenaire parte de vinhas antigas com 125 anos, sendo 85% Grenache e 15% Mourvèdre com rendimentos ínfimos de 15 hl/ha. O vinho tem uma riqueza de frutas extraordinária com toques de especiarias, alcaçuz e minerais. Boca macia, bem equilibrado, taninos absolutamente fundidos ao conjunto, e longa persistência final.

Nesta Cuvée des Célestins do gênio Henri Bonneau, ele seleciona as melhores barricas de safras excepcionais como 1990. É um blend de 90% Grenache complementada por um mix de Mourvèdre, Syrah, Counoise e Vaccarese. As uvas não são desengaçadas tal a maturidade do cacho na hora da colheita. Sempre com taninos presentes e de fina textura, seu equilíbrio é perfeito com notas de frutas em compota, especiarias, leves notas de estrebaria e um fundo de sous-bois. Uma pequena obra de arte.

O terceiro vinho completa a trilogia, Domaine de Marcoux Vieilles Vignes 1990. Com vinhas centenárias 100% Grenache, localizadas em três grandes terroirs da apelação, incluindo o imponente La Crau, o vinho tem uma vinificação clássica passando 18 meses em um mix de tanques de cimento e velhos toneis de carvalho. Um tinto super elegante, sensual, mostrando frutas em licor, alcaçuz, e finas notas de ervas e especiarias. Boca perfeita e final longo. Difícil definir o melhor, mas no momento só Henri Bonneau tem taninos mais presentes, capazes de boa evolução em adega.

img_5655flight surpreendente!

Pode não ter sido tecnicamente perfeito, mais foi o flight mais surpreendente pela presença de quase um intruso no páreo que foi colocado totalmente às cegas. Começando pelo Henri Bonneau com a mesma cuvée des Célestins dez anos mais nova, safra 2000. Está mais vigoroso que o 1990 por ser mais jovem, mas a concentração e qualidade de safra, um pouco abaixo, como era de se esperar. Mesmo assim, 94 pontos Parker.

Agora vamos falar de Rayas e suas surpresas. Chateau Rayas é algo fora da curva em Chateauneuf-du-Pape. Sua delicadeza e elegância fazem dele o Borgonha da região. Elaborado com uvas 100% Grenache de parreiras antigas num terroir único na região. O vinhedo de solo predominantemente arenoso fica em meio a um bosque, onde os dias são quentes e as noites frias, provocando a bem-vinda amplitude térmica, preservando a acidez das uvas sem prejuízo para sua plena maturação. Com 97 pontos Parker, este Rayas 2005 estava uma loucura. Aromas sedutores com notas balsâmicas, de frutas em compota, especiarias finas e um toque terroso notável. Taninos sedosos, totalmente fundidos ao conjunto, e um final de rara harmonia. Sempre um prazer provar um Rayas!

A surpresa ficou para o último vinho,  Pignan 2006, o segundo vinho do Chateau Rayas. O nome vem de três pinheiros que circundam o bosque ao redor do vinhedo. São uvas também 100% Grenache da parte norte do vinhedo com parreiras antigas e uma pequena parte, mais jovens. O vinho passa cerca de 16 meses em toneis de carvalho. Este exemplar estava divino pela prontidão do vinho. Em relação ao Rayas 2005, parecia um mais antigo de grande safra como 1990. Uma grata surpresa, provando ser este chateau, talvez o maior mito da apelação. Grande fecho de prova!

um intruso bordalês …

No apagar das luzes, eis que surge um bordalês para deleite de todos. Simplesmente um Petrus 1959, minha safra, engarrafado por Négociant, fato corriqueiro à época. Já comentei outras vezes, mais do que uma grande safra de Petrus, é ter a oportunidade de aprecia-lo já desenvolvido, já evoluído, entendendo assim a grandeza deste vinho. Os aromas eram deliciosos com muita trufa negra, toques terrosos, fruta em licor, e notas de cacau. Em boca, um pouco cansado, mas extremamente harmonioso, com tudo no lugar. Não está no time de cima dos grandes 1959, mas tem uma elegância e imponência ímpares. 

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Um dos pratos escolhidos pelos confrades foi o Bollito Misto (foto acima), sempre bem executado no restaurante Gero. Agradecimentos a toda equipe liderada pelo carismático Maître Ismael, além do trabalho primoroso de sommellerie de Felipe Ferragone na abertura e serviço de todos os vinhos.

60 anos transformam tudo

Nesses dois exemplares acima de Yquem, percebemos a grandeza de vinhos ícones que marcam a história de uma apelação. É impressionante como Yquem se impõe aos demais Sauternes. Neste exemplar de 1943, as décadas o transformam em outro vinho. O equilíbrio de açúcar e acidez é divino, numa harmonia notável. As notas de caramelo, melaço, toques de resina, são precisas e bem delineadas. Boca harmoniosa, expansiva, e quase imortal. Seu par à direita, ainda está na fase infantil, com notas de mel e crème brûlée. Intenso e com grande potencial de guarda.

bela combinação

Finalmente, para encerrarmos a aula sobre Botrytis, nada melhor que um belo Tokaji Aszu Eszencia 1993. Esta classificação não existe mais atualmente. Aszu Eszencia tem uma concentração de Botrytis entre 7 e 8 puttonyos (medida em peso de uvas botrytisadas). Este ainda feito à moda antiga, tem aquele charmoso toque oxidativo, lembrando frutas secas e damascos. Sua doçura é perfeitamente equilibrada pela incrível acidez da uva Furmint. Disznókó é uma das mais reputadas vinícolas com vinhedos históricos na região. A safra de 1993 é altamente pontuada como neste caso, 95 pontos. O nível de doçura e a textura do pudim de pistache foi de encontro às características do vinho.

Depois de quinze belas garrafas devidamente selecionadas, só resta-me agradecer aos confrades pela imensa generosidade e companhia. Um adendo deve ser feito a nosso Presidente, Mr. Parkus. O homem está insuportável em suas aferições às cegas, matando todos os flights degustados com segurança e argumentações precisas. Por enquanto, estou tranquilo, pois graças a Deus, ele ainda não escreve nada. Viva o Presidente! Saúde a todos!

1945, o ano da Vitória!

19 de Janeiro de 2019

Só os vitoriosos nascem em 45, final da segunda guerra mundial, ano de criação da ONU, última safra do Romanée-Conti de parreiras pré-filoxeras com pouco mais de 600 garrafas elaboradas, além do maior dos Moutons elaborados até hoje.

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hoje é dia de maldade!

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Double Magnuns enfileiradas

Um dos confrades, nosso Professore, assim chamado carinhosamente, é um desses vitoriosos com uma carreira brilhante e muita história para contar e nos ensinar. Num almoço memorável, talvez na mais bela cobertura dos Jardins, desfilaram várias Double Magnuns de grandes Chateaux, inclusive uma 1945 em sua homenagem.     

Jamón de Bellota com Jacques Selosse

Começando a farra, uma seleção dos melhores Lieux-Dits de Jacques Selosse,  enólogo e proprietário que revolucionou a região de Champagne como produtor individual de destaque. Na cola dele, vieram outros tantos que fazem sucesso atualmente. Ele está para a excelência de produtor individual na região, assim como Gravner está para os vinhos laranjas. Resumindo, referência absoluta.

Jacques Selosse servidos:

  • Initial (champagne de entrada da Maison. Um Blanc de Blancs de muita pureza e frescor).
  • Lieu-Dit Les Carelles (um Blanc de Blancs de Mesnil sur Oger, o suprassumo da Côte de Blancs de extrema mineralidade).
  • Lieu-Dit Mareuil sur Aÿ (um Pinot Noir delicado e elegante).
  • Selosse V.O. (Version Originale, um blanc de Blancs de estilo oxidativo com safras mais antigas)

Tudo isso para entreter os convivas, acompanhando um Jamón cirurgicamente cortado in loco com a devida técnica espanhola. A peça tinha 60 meses de cura, tempo suficiente para sabores e aromas perfeitamente desenvolvidos. Um autêntico Pata Negra!

um dos Lieux-Dits

Já à mesa, seguiu-se um lauto almoço, numa sequência de pratos e vinhos muito bem arquitetada. Somente formatos Double Magnum de grandes safras e chateaux.

Doisy-Daëne 2001 – 95 pts com Foie Gras

A safra dispensa comentários, uma das históricas na região de Sauternes. Este produtor remete inexoravelmente ao professor Denis Dubourdieu, falecido recentemente, uma das maiores autoridades em vinhos bordaleses, sobretudo. A propriedade é da família. Com vinhedos localizados em Barsac, por questões de solo, elabora Sauternes delicados e de muita elegância. Um acompanhamento quase covarde com foie gras de entrada e bolo de pistache com creme ingles e ninho de caramelo na sobremesa. Não tinha como dar errado.

Montrachet Henri Boillot 2009 com Robalo, bottarga e champignos

Ele não é proprietário de vinhas nesta apelação, mas Henri Boillot faz um Montrachet elegante, de acordo com suas raízes em Puligny-Montrachet. Esta safra precoce e generosa mostra fruta exuberante e um trabalho notável com a barrica. Perfeita harmonia e equilíbrio. O robalo com bottarga e champignons complementou muito bem os sabores do vinho.

 Gruaud-Larose 1945 – 96 pts e trufas negras

Este chateau é um dos destaques na histórica safra de 1945 com vinhos memoráveis e altamente disputados em leilões mundo afora. O vinho estava um pouco cansado, mas sem nenhum defeito. Um nariz nobre de Bordeaux evoluído onde o tabaco, finos tostados e toques balsâmicos, se destacavam. Um tinto de 74 anos que mostra claramente tratar-se de uma safra excepcional e de um extrato fabuloso. Uma bela homenagem a nosso aniversariante e anfitrião. O tagliolini com trufas negras frescas só valorizou ainda mais o vinho. Ponto alto do almoço!

DRC Romanée-Saint-Vivant 1983 – coelho com risoto

Num almoço desses tinha que aparecer um DRC, preferencialmente pronto e evoluído. Este Romanée-Saint-Vivant 1983 cumpriu bem a missão. Taninos estruturados e resolvidos, boca macia, e os aromas de um grand Vosne-Romanée. Toques terrosos, de sous-bois, e de flores secas, permeavam a taça. Um demonstração de força e elegância muito bem balanceadas. Um saboroso coelho com risoto tinha a força exata para o vinho.

Chateau Ducru-Beaucaillou 1982 – 96 pts e Kobe Beef

Referência da comuna de Saint-Julien, Ducru-Beaucaillou prima pela elegância e altivez. Lembrado por Parker como Lafite de Saint-Julien, este 82 estava um espetáculo. Provalvemente pelo formato (double magnum), ainda tinha taninos a resolver. Uma estrutura de boca fantástica com taninos finos, acidez vibrante, e longa persistência final. Bem adegado, ainda vai longe e ratifica porque 1982 é uma das maiores safras do século XX. Um tenro Kobe Beef enalteceu a nobreza do vinho.          

Petrus 1976 – 92 pts em double magnum

Passando a régua, um Gran Finale com o maior de Pomerol, rei Petrus na mesa safra 1976. Mais do que uma safra notável, o segredo de tomar um bom Petrus é ele estar evoluído, maduro, sem a sisudez que lhe é peculiar. Algo terroso e de trufas, um lado mineral importante, e taninos bem delineados, formaram um belo conjunto deste mito bordalês. 

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Porto Croft Vintage 1960 – duas garrafas, duas histórias

Com uma bela seleção de queijos, um Vintage maduro se fez presente, Croft 1960. No alto de seus 58 anos, o Vintage se transforma em algo gracioso, perdendo aquele poder e potência da juventude. Seus aromas são mais etéreos, toques florais aparecem, e a boca incrivelmente sedosa. Aquela geleia de frutas da juventude muda para frutas em licor. Coisas que só a idade e o tempo são capazes de transformar. Vale a nota da diferença entre garrafas. Uma mais evoluída que a outra, mostrando que em vinhos antigos não existem garrafas iguais.

fecho de ouro

Para os mais insistentes, um Havana ao cair da tarde encerrando as conversas. Marc DRC 1991, uma Grappa de luxo, como diriam os italianos. O figurado H. Upmann Reserva, um tabaco envelhecido do excepcional terroir de Vuelta Abajo, Cuba, estava à altura da Eau-de-Vie.

Todas as bênçãos do mundo ao nosso aniversariante, anfitrião impecável, e daqueles amigos que a gente não esquece. Vida longa com muitas comemorações como esta. Em nome de todos os presentes, agradecimentos eternos. Viva 1945!

Petrus: a Chave para o Paraíso

1 de Dezembro de 2018

Não está explícito, mas o rótulo mostra a chave do céu. Degustar Petrus é sempre um momento de tensão onde a disputa (esplendor x expectativa) ganha proporções monumentais. De fato, um dos Bordeaux mais caros da história, valendo milhares de dólares uma garrafa, se espera sempre fogos de artifício. 

Embora Petrus seja elaborado quase exclusivamente com uvas Merlot, seu terroir proporciona vinhos de grande estrutura de taninos, capazes de envelhecer por décadas, sobretudo nas grandes safras. É um tinto geralmente fechado na juventude que lentamente vai adquirindo evolução em garrafa. Seu apogeu ocorre com pelo menos dez, quinze anos de safra. Nos grandes anos, esse tempo pode facilmente dobrar.

Para entender melhor este intrincado terroir, favor acessar link deste blog Petrus e a Argila Azul

Além do link, o vidéo abaixo ajuda elucidar o assunto.

Numa degustação memorável na Trattoria Fasano, algumas raras garrafas de Petrus envelhecido desfilaram pelas taças em cinco flights didaticamente escolhidos, mostrando vários estilos e períodos diferentes de evolução.

img_5372uma década de evolução

Embora 11 anos os separem, o 88 tem cores mais intensas na taça. Parece menos evoluído, com muita mineralidade, e uma montanha de taninos. Deve ser obrigatoriamente decantado por duas horas. Talvez a nota um pouco menor que o 99 de Parker deva-se a uma excessiva extração na vinificação. Já o 99 mais jovem, é muito mais prazeroso. Seus taninos são dóceis e sedosos. Muita fruta no aroma, num momento ótimo para ser apreciado. Um belo começo com esse 99 surpreendendo a todos.

img_5373a complicada década de 70

Este flight mostra claramente o quão longevo são os grandes terroirs como Petrus. Vinhos de anos complicados, já envelhecidos, mais de 40 anos, e ainda assim deliciosos e interessantes. O 76 segue o estilo do prazer como 99. Ainda com fruta, maciez em boca, e aromas delicados. Sem nenhum sinal de decadência. É muito melhor provar um Petrus plenamente evoluído de uma safra pouco badalada do que tomar uma grande safra ainda com aromas e sabores fechados. Já o 73, um ano complicado para Bordeaux, Petrus foi o vinho da safra. Estava um pouco turvo na taça, mas com uma força extraordinária para sua idade. Bastante terciários no aroma e um final de boca relativamente seco, denotando que a fruta já está indo embora. Melhor tomar, não há porque esperar.

img_5375só o devido tempo para aproximá-los

Quase 20 anos entre as safras, demonstra claramente que Petrus precisa de tempo em adega. Este 98 à esquerda, é um mamute, um vinho quase perfeito (98 pontos Parker), mas que precisa de longo tempo em adega para domar esta montanha de taninos. Muita fruta concentrada no aroma, além de notas de café e chocolate escuro. Previsão de apogeu para 2040. Quem viver, verá!

Já o 82 é puro deleite. Aromas terciários dos grandes Bordeaux e boca macia com taninos aveludados. Falta talvez um pouco mais de concentração das grandes safras, mas sua elegância compensa. Mesmo na margem direita, Petrus não foi dos mais expressivos na mítica safra 82. Está num momento ótimo para ser apreciado e foi para muitos, o vinho mais prazeroso do almoço.

img_5377200 pontos na mesa!

Aqui, só jogando a moeda para cima, cara ou coroa. Dois monstros engarrafados, demonstrando que Petrus nas grandes safras molda vinhos indestrutíveis. São 200 pontos incontestáveis, mas que precisam de décadas em adega para revelarem tudo que sabem. Vai ser uma tortura espera-los. Talvez o 89 seja mais prazeroso no momento. Parece ser mais macio, mais dócil. Já o 90 tem mais frescor, mais austeridade, mas impressiona muito por sua estrutura. Seu apogeu está prevista para 2054. Prova-los agora significa decanta-los por horas para conseguir arrancar alguns segredos. Tecnicamente, um flight perfeito!

alguns dos pratos para o desfile bordalês 

Entre um flight e outro, pappardelle com ragu de pato e polpettone com batatas ao forno, foram algumas das delicias servidas na Trattoria Fasano num serviço sempre atencioso. 

a turma toda e as rolhas impecáveis

Um dos confrades mostrou sua habilidade em abrir vinhos antigos. Rapidez e eficiência que poucos sommeliers profissionais demonstram na prática.

img_5383aqui se separam os homens dos meninos

Um final apoteótico. Dois velhinhos em plena forma, mostrando claramente que idade não tem limites. Um com quase 50 anos, outro com pouco mais de 50 anos. Duas extraordinárias safras de Petrus com praticamente 100 pontos cada uma, e sendo as duas, os melhores vinhos das respectivas safras em Bordeaux.

Os estilos são totalmente diferentes, mas igualmente encantadores. O 75 é um vinho mais viril, cheio de taninos, ao estilo 88 comentado acima. Estava um pouco turvo na taça, mas com uma estrutura espetacular, embora haja melhores garrafas. Mesmo assim, um grande vinho. Já o 64, o mais velhinho, tem um vigor espetacular com muita elegância. Segue o estilo do 99, mas com mais extrato e estrutura. Nenhum sinal de decadência e com muita fruta nos aromas, embora seus terciários sejam maravilhosos. Além disso, a safra de nosso querido Beato. Não podia terminar melhor!

doçura e amargor sublimes!

Calma, ainda falta a sobremesa e o costumeiro Yquem para encerrar a festa bordalesa. Mas nosso maestro não ia trazer qualquer Yquem. Tinha que ser algo especial como a safra 83, superior a 82 no que diz respeito a Sauternes. O que tem diferente neste 83 é sua agradável acidez, frescor, o que o torna muito mais equilibrado em açúcares. Fez par perfeito com o Tiramisu da casa. Aliás, um dos melhores da cidade. Embora não seja uma harmonização clássica, este  Yquem e este tiramisu em particular, tinha uma sintonia em níveis de açúcar, além dos lado cítrico do vinho complementar bem o sabor do cacau.

Esta confraria se supera a cada evento. Depois do paraíso, não conheço outros caminhos. Mas desses confrades, não podemos duvidar de nada. O imponderável sempre acontece. Obrigado a todos vocês mais uma vez pela companhia e incrível generosidade. Que Bacco nos proteja sempre!

Cabernet Franc em Pomerol

16 de Setembro de 2018

Seus vinhos são elegantes e longevos, mas a Cabernet Franc não costuma ser protagonista nos cortes bordaleses, mesmo na chamada margem direita dominada pela Merlot. Entretanto, quatro exemplos incontestáveis de vinhos consagrados pela história, refletem a importância desta cepa capaz de expressar-se com muita personalidade, conforme o contexto da situação.

Chateau Angelus, Chateau Cheval Blanc, Chateau Ausone, e Chateau Lafleur, apresentam altas proporções de Cabernet Franc em seus cortes, moldando tintos com personalidade diferente, de acordo com o respectivo terroir. O Cascalho em solo arenoso no extremo oeste de St Emilion, gera vinhos elegantes e sutis como Cheval Blanc. Já o calcário próximo à cidade de St Emilion, molda tintos mais viris, de grande mineralidade, como Ausone. Por fim, os solos pedregosos e argilosos de Lafleur geram vinhos densos, ricos em taninos, um tanto fechados na juventude, capazes de envelhecer por décadas em adega. Em todos os casos, a Cabernet Franc proporciona a estrutura e elegância ao blend, contando sempre com a redondez da Merlot. Lafleur acaba sendo neste grupo o único representante de Pomerol.

Foi neste contexto, que fizemos uma vertical de Lafleur de safras com perfis distintos, contanto um pouco a história deste grande tinto que muitos o comparam ao rei Petrus por sua austeridade na juventude e incrível capacidade de vencer o tempo. Num dos trechos do ótimo site (www.thewinecellarinsider.com), é dita a frase: “Lafleur is the one wine in Pomerol that not only rivals Petrus, it can even be better in certain vintages!”.

Chateau Lafleur possui cerca de 4,5 hectares de vinhas, aproximadamente um terço da área do Petrus, ficando a menos de um quilômetro de distância. Seu solo contem muitas pedras em meio a areia e argila em três configurações geológicas. Neste cenário, Cabernet Franc (50%) e Merlot  (50%) dividem a área de plantio com muitas videiras antigas. A média de idade é de 40 anos, mas há muitas vinhas centenárias que venceram a histórica geada de 1956. Isso gera mostos altamente concentrados com rendimentos baixíssimos por parreira. O vinho tem discreta passagem por madeira nova, entre 25 e 50% no máximo de barricas novas, conforme a safra. Por exemplo, a mítica safra de 82 onde o vinho tem 100 pontos, não há mais que 10% de barricas novas. A propósito, este vinho foi feito pelo enólogo do Petrus, Jean-Claude Berrouet. Christian Moueix, dono do Petrus, tem enorme respeito por este Chateau. É só prestar a atenção no rótulo do Dominus, sua propriedade em Napa Valley.

1970: o tricampeonato no México

Como já virou tradição na confraria, iniciamos os trabalhos com um Dom Perignon P3, nada mau!. Este conforme o contrarrótulo, passou 25 anos sur lies. Portanto, recebeu a rolha definitiva em 1995. Mesmo assim, já se passaram mais de 20 anos arrolhado. Ainda com borbulhas num sentido mais frisante, porém com um vinho-base de alta qualidade. Os sabores cítricos, mel, frutas secas, e brioche, explodiam na boca. Mousse ultra delicada e bastante expansivo em boca. Quase 50 anos muito bem vividos!

img_5096safras bem distintas

Na foto acima, além de 96 não ser uma grande safra para o Chateau, a garrafa estava prejudicada. No mínimo, uma leve oxidação. Os aromas terciários já estavam bem desenvolvidos, mas o final de boca era seco, praticamente sem fruta. Em compensação, o Lafleur 95 estava um deslumbre, embora extremamente novo. Ele tem 96 pontos Parker com previsão de apogeu em 2040. O que mais impressiona neste vinho é sua estrutura tânica. Taninos em profusão de textura notavelmente polida. Muita expansão em boca e um equilíbrio fantástico. Merece ser decantado por pelo menos duas horas.

img_5097safras abordáveis

Flight de vinhos muito agradáveis, já praticamente prontos para serem apreciados. A safra 97 mais precoce, tem seus terciários bem fundido com a fruta, um vinho macio, mas sem grande persistência. Já o Lafleur 99 tem mais estrutura. Também já muito agradável, mas tem alguns anos para envelhecer. Taninos polidos e um belo equilíbrio. Os dois acompanharam bem o Stinco de cordeiro desossado com polenta, foto abaixo.

img_5095cozinha clássica e precisa

Abaixo, o flight mais esperado com o estupendo Lafleur 82. Os dois vinhos são bem pontuados e estão próximos de seus respectivos apogeus. Os aromas terciários do 88 são encantadores com toques de terrosos, de torrefação e algo de couro. O Lafleur 82 tem todos esses terciários, mas ainda uma fruta vibrante lembrando compota de ameixas. Em boca, continua a superioridade em relação ao 88 com mais expansão e taninos ainda presentes, embora de textura irrepreensível. De fato, características de um verdadeira nota 100.

img_5098o flight mais esperado

Devido a um confrade desavisado, tivemos que provar um La Fleur-Petrus 1970. Ele confundiu o nome do vinho nesta degustação, mas ninguém reclamou. Novamente 70 abrindo e fechando o almoço. O vinho estava divino com todos aqueles terciários maravilhosos do Bordeaux: couro, tabaco, especiarias, torrefação e um fundo mineral. Totalmente resolvido, estava em plena forma. Este Chateau está tão perto do Petrus como o Lafleur, mas seu corte de uvas segue a tradição de Pomerol, 80% Merlot e 20% Cabernet Franc. Estilo bem distinto de seus vizinhos com muita sensualidade da Merlot.

img_5099velhinho em plena forma

Nessa altura do campeonato, o pessoal ainda estava com sede. Não teve jeito, tivemos que abrir uma Double Magnum de Lafleur 1990. Não estava tão pronta como o 82, mas muito mais acessível que o 95. Embora seu apogeu esteja previsto para 2040, este exemplar com 97+ pontos Parker estava bem agradável no momento. Seus taninos são de seda e um equilíbrio fantástico em boca. Ainda pode desenvolver certos aromas, mas seus terciários bem mesclados com a fruta já são deliciosos. Acompanhou muito bem o contrafilé ao ponto assado em forno josper do restaurante Parigi. Aliás, um belo serviço de vinho e mesa.

os taninos agradeceram o ponto da carne

Como ninguém é de ferro, chegou a hora da sobremesa. Em mais uma tradição da confraria, Porto Vintage tem que ser 1963. Um belo Taylor´s devidamente decantado e com os aromas e sabores condizentes de um Porto com mais de meio século. Neste estágio, os taninos estão resolvidos e os aromas plenamente desenvolvidos. Acompanhou divinamente o tiramisu da casa “comme il faut”.

olha a cor deste 63!

Estava difícil de sair da mesa, pois sua majestade Yquem pede passagem. A safra de 90 é praticamente perfeita com um vinho complexo e de longa guarda. Esta garrafa em questão já estava relativamente evoluída com seus deliciosos aromas de mel resinoso, compota de damascos, figos, e toques de curry. Seu equilíbrio entre álcool, açúcar e acidez é notável. Acompanhou bem a clássica tarte tatin do Parigi.

a sublimação da doçura

Ainda deu tempo para mais um dedo de prosa com um Jurançon, famoso vinho doce do sudoeste francês com a uva Petit Manseng colhida tardiamente. Neste exemplar da foto abaixo, temos o mestre do Loire, Didier Dagueneau, com seu fabuloso Les Jardins de Babylone safra 2004.

img_5106mais uma joia da França

Este é um vinhedo de apenas três hectares com a uva Petit Manseng de difícil cultivo e amadurecimento. Elas são colhidas perfeitamente maduras com ótimos níveis de acidez e açúcar. O vinho mostra deliciosas notas de mel, de frutas cítricas, Gran Marnier, e um frescor muito agradável equilibrando perfeitamente o açúcar. Sem nenhum sinal de decadência, tem fôlego para mais alguns anos em adega. 

Por fim, restam os agradecimentos a todos os confrades pela enorme generosidade, além da conversa sempre animada. O tema foi extremamente didático e criativo, já que Lafleur não é dos vinhos mais badalados, se comparado a outras estrelas de Pomerol. Que Bacco sempre nos proteja e nos guie para novas descobertas! Saúde a todos!

Vosne-Romanée brilha em Saint-Vivant

10 de Junho de 2018

Como em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns, nada mau uma vertical de Romanée-Saint-Vivant (RSV) com vinhos dos prestigiadíssimos Domaine Leroy e Domaine de La Romanée-Conti. De quebra, um La Tâche 1990, um Petrus 1955 e um Vintage Port Graham 1966, para emoldurar ainda mais um brilhante almoço no restaurante Gero em São Paulo.

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vosne-romanee grand cruRomanée-St-Vivant: nobre vizinhança

Para começar os trabalhos, dois brancos de Beaune de safras e apelações diferentes, conforme foto abaixo. O da esquerda, um Meursault Perrières 2011 de Maison Leroy, não Domaine. Embora Meursault tenha vinhos de rica textura, nesta safra mostra-se um branco mais delgado, elegante, e mineral. Não é um vinho de grande persistência, mas muito bem construído, e com incrível frescor.

O da direita, estamos no terroir de Chassagne-Montrachet num Premier Cru de vinhedo único, La Romanée. Percebe-se os toques de madeira elegante e uma rica textura em boca.  A safra 2015 é poderosa, rica em aromas, e expansiva em boca. Nesta comuna, já temos os indícios dos grandes brancos Montrachet.

img_4740terroirs de texturas cremosas

Para começar a brincadeira, um trio do final dos anos 80 em safras de respeito: 88, 89 e 90, conforme foto abaixo. Nas duas pontas, Domaine Leroy e seu RSV com menos de três mil garrafas por safra. Ao centro, um RSV do DRC safra 89. O mais prazeroso, o mais pronto, com belos toques florais e de especiarias. Boca sedosa, um final longo e muito bem equilibrado. Já o 88 Leroy, ainda um tinto arredio, taninos presentes, e aromas um pouco fechado, embora com notas de manteiga de cacau deliciosas. É realmente um safra dura com muitas dúvidas se ela abrirá totalmente algum dia. Um vinho para ser decantado e altamente gastronômico.

Por fim, o Leroy RSV 1990. Um tinto majestoso, embora ainda não totalmente pronto. Portentosa estrutura tânica, mas de textura primorosa. Precisa de tempo na taça para se expressar, mas seus toques de especiarias, flores e de café, são notáveis. Mais alguns anos, e tudo estará em perfeita harmonia. O mais completo do trio. 

img_47431uma trinca de 30 anos

Seguindo a vertical, mais um trio, agora do meio dos anos 2000, todos DRC. O didatismo deste trio é de livro. A safra 2004 é uma safra de clima frio com alta acidez. Percebe-se claramente estes fatores neste tinto, embora com uma elegância e delicadeza ímpares. Já o 2007, uma safra mais quente, a maciez, a generosidade dos aromas, os taninos macios e resolvidos, o tornam um vinho envolvente. Muito prazeroso no momento. Por fim, o monumental RSV 2005 com uma riqueza e estrutura invejáveis. Um tinto ainda saindo da juventude, mas com um futuro brilhante. Seus ricos aromas de cerejas, florais, e de especiarias, o credenciam a uma complexidade terciária de grande distinção. Precisa de pelo menos mais dez anos para se tornar um dos grandes RSV da família DRC.

img_4748juventude de elegância

entre um gole e outro …

Entre as sequências de flights, alguns pratos fizeram sucesso com os vinhos. A massa da esquerda (paccheri, uma espécie de rigatoni mais largo), foto acima, com molho de vitela, e a galinha d´angola com molho de seu próprio assado, acompanharam bem os tintos envelhecidos de Vosne-Romanée.

Não exatamente na sequência, mas uma dupla a mais de Saint-Vivants DRC, foto abaixo. A pronta e acessível safra 2000 com seus toques de especiarias, chocolate e sous-bois. Talvez o mais pronto entre todos provados, já com seus 18 anos. Em compensação, RSV 1996 vai no estilo do 2005, robusto e cheio de vida. Embora com quase dez anos, dá para perceber claramente como é lenta a evolução em garrafa de um DRC. O 96 está um pouco mais aberto em relação ao 2005, mas ainda tem muito a evoluir. Seus toques terrosos, de tabaco, e finas especiarias, são muito harmoniosos.

Concluindo, os RSV Domaine Leroy 1990 e este DRC 1996 foram os melhores do almoço. Logicamente, o RSV 2005 é uma grande promessa!

img_4753potenciais diferentes de safras

A foto abaixo lembra bem duas grandes seleções de futebol como Brasil e Alemanha. Grandes títulos, passados gloriosos, e tradição de longa data. Contudo, em alguns embates na história, acontece um 7×1 da forma mais surpreendente possível. Foi o que aconteceu com este Petrus 1955 que estava perfeito. Não que o La Tâche 1990 não seja um grande vinho e com certeza, tomado isoladamente, arranque suspiros dos mais exigentes amantes do vinho. Mas o fato é que o Petrus fez 5×0 em vinte minutos. Não dava mais para alcançar, acabou o jogo. Que vinho fantástico! com seus aromas de adega úmida, cogumelos, trufas, chocolate, café, e vai por aí  afora. Mais um vinho de curriculum. 

img_4751aqui foi mais ou menos os 7×1, lembram?

O vinho de encerramento depois deste Petrus não poderia ser apenas ótimo. Tinha que ser algo impactante. Eis que chega à mesa um Vintage Port 1966 da tradicionalíssima Casa de Porto Graham, outra maravilha. Como é bom provar um Vintage em sua plenitude com todas as vicissitudes do tempo!

Sabe aquele Porto onde o álcool está totalmente integrado à massa vínica em perfeito equilíbrio!. Pois bem, este vinho tinha tudo isso com taninos totalmente polimerizados e em harmonia com seus outros componentes. Um licor de frutas negras sensacional, especiarias, toques de torrefação lembrando café, chocolate e notas balsâmicas. Acompanhou muito bem o bolo de aniversário com chocolate amargo de um querido confrade de humor peculiar. Vida longa a você meu amigo!

img_4739o auge de um Vintage Port!

Para esticar um pouco mais o papo, Panna Cotta de saída, cafés, e alguns Cohibas de estirpe, o belo Talismán Edición Limitada 2017 Ring 54. Um charuto super elegante do começo ao fim, mantendo como poucos, potência e elegância no mais alto nível.

Alguns Negronis para refrescar porque ninguém é de ferro!

O barquinho vai, a noitinha cai …

E assim mais um encontro memorável com amigos de generosidade extrema, alto astral, desfrutando os prazeres da mesa e vinhos que nos fazem pensar. Agradecimentos a nosso grande Maestro que sempre turbina nossos encontros. Saúde a todos e que Bacco nos proteja!

Festa bordalesa com certeza!

28 de Novembro de 2017

Dando prosseguimento ao inesquecível verão de 42, vamos agora entrar no time bordalês, liderado pelo rei Petrus. Para aquecer os motores, uma pequena prova às cegas: Montrose 89, Vieux Chateau Certan 90, e Mouton 90. É evidente que o Mouton deste ano ficou na rabeira. É misterioso como este vinho  consegue ser desapontador. O ano de 90 é maravilhoso, todos os outros Premiers têm pontuações altíssimas. Margaux é nota 100 e Latour outra maravilha, mas no caso do Mouton erraram a mão feio numa safra gloriosa. Tomado sozinho, é um vinho agradável, bem equilibrado, porém sem o punch de um grande Mouton. Isso fica muito claro quando comparado lado a lado com outros chateaux de mesmo ano. Falta meio de boca.   

gero margem esquerda

neste caso, a hierarquia se inverte   

Em compensação, O Montrose 89 é espetacular. Com notas sucessivamente aumentadas por Parker ao longo dos anos, Montrose tem a maciez e aquela explosão de frutas bem de acordo com a safra 89. Ele até chega a fugir um pouco de seu estilo mais austero e fechado. Tem grande presença em boca, taninos abundantes e ultra polidos, acidez na medida certa, e uma expansão final extremamente harmoniosa. O melhor de tudo, é que no ano seguinte repetiram a fórmula. Montrose 90 também é estupendo.

gero pomerol 89 e 90

o rei Petrus intimida os companheiros

O terceiro vinho, Vieux Chateau Certan 90 têm duas enormes vantagens. Esta muito prazeroso de ser tomado e tem um preço bem camarada para um Bordeaux 90 com aromas terciários. Ainda com um bom núcleo frutado, os aromas de tabaco e de couro são sedutores. Muito bem equilibrado, este Pomerol tem um certo jeitão de margem esquerda. Muito provavelmente, pela alta proporção de Cabernets, tanto Cabernet Franc, como Cabernet Sauvignon. Enfrentou bem o Montrose 89 (nota 100) por um preço bem abaixo. No máximo, metade do valor.    

gero bordaleses 89 e 90

a turma toda na foto

Após longa decantação, a magnum de Petrus 1989 foi servida. Na extensa fila de notas 100 do rei de Pomerol, Parker coloca o 89 no topo, junto com o 90 e 2000. Ao contrário do Montrose de mesmo ano, ainda não quer muita conversa. Troca algumas palavras e basta. Êta cara difícil!. O vinho tem uma força extraordinária. Parece que ele está preso numa camisa de força, pronto a explodir a qualquer momento. É por isso que Petrus é Pomerol, e não Merlot. Aquela montanha de taninos, aquela estrutura portentosa, não tem muita a ver com os Merlots comuns que esbanjam suavidade e maciez. Quem tiver paciência, estará diante de um dos maiores tintos já elaborados. Auge previsto para 2040. Proporcionalmente, bem mais acessível que o 90, um ano mais novo, com previsão para 2065. É meus amigos, o jeito é esquece-lo na adega.

gero linguine e ragu de coelho

linguine e ragu de coelho

Mais um belo prato do restaurante Gero, bela massa com molho substancioso. Sem modismos, sem frescura, comida com gosto de comida. Coisas de quem entendo do riscado.    

Por fim, ainda deu tempo de dar uma passadinha em 1978 com o fabuloso La Mission, outro colecionador de notas 100 de Parker. Este em questão tem 96 pontos com enorme vantagem de estar pronto e absolutamente delicioso. É sério candidato ao vinho da safra 78. Longe de qualquer indício de decadência, este La Mission tem aromas e sabores multifacetados com o típico tabaco, defumados, estrebaria, e outras cositas próprias de sua apelação Pessac-Léognan. O eterno rival e vizinho de parede do altivo Haut Brion. Parede é força de expressão, basta atravessar a rua.

Em resumo, uma aula de Bordeaux  com suas contradições e exceções. Senão vejamos, Montrose é um clássico Saint-Estèphe austero, mas a safra 89 quebra um pouco essa austeridade, dando suavidade ao vinho. Os dois de Pomerol fogem um pouco da costumeira maciez e feminilidade da apelação. Petrus, por características únicas de terroir e VCC, pela proporção de Cabernets.   

Ainda falando de Pomerol, este VCC 1990 seria mais austero com a maciça maioria de outros vinhos da comuna, sobretudo da precoce safra 89. Como ele bateu de frente com o Petrus 89, os papeis se inverteram. Ele virou a mocinha do casal. A situação faz o ladrão!

Senhores, caros confrades, mais uma vez meus agradecimentos. Essas aulas que vocês proporcionam valem muito mais que todos os livros e tratados sobre vinhos. Saúde a todos!

Petrus x Médoc

31 de Outubro de 2017

Mais um belo jantar preparado pelo Chef Laurent Suaudeau, um dos mais clássicos franceses radicado em nosso país, escoltando cinco bordaleses de primeiro escalão num bom momento de evolução em garrafa de safras não tão badaladas. É nessas horas que vemos toda a categoria desses vinhos e sua capacidade de envelhecer longamente em adega. Antes porém, um Champagne e um Meursault fizeram as honras da casa recepcionando os convivas.

champagne e bottarga

Na foto acima, Louis Roederer Cristal Rosé 2005 em Magnum. Um dos diferenciais deste incrível champagne é ser elaborado com maceração pelicular da Pinot Noir, ou seja, um rosé de saignée. Na grande maioria dos champagnes rosés, o método normalmente usado é de assemblage, misturando um pouco de vinho tinto no mosto incolor apenas para tingi-lo devidamente. Além disso, sua categoria Brut está no limite do açúcar residual permitido, entre 11 e 12 gramas por litro. O blend é feito com 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. O vinho permanece cerca de quatro anos sur lies antes do dégorgement. O resultado é um champagne de estrutura, macio, com a elegância da Maison acima de tudo. Mousse muito delicada e um final harmônico, mesclando frescor e uma sensação off-dry. Acompanhou bem uma das entradas (foto acima), lâminas de bottarga com purê de batata, mostrando personalidade. 

bisque de camarão e Meursault. Hum !!!

Nesta combinação tem um pequeno detalhe. O Meursault é do Roulot e a bisque, do Laurent. Isso pode fazer uma enorme diferença. Este Premier Cru Le Porusot tem uma diminuta área de 0,42 hectare. Seu estilo é muito mineral, um toque alimonado, e uma textura não tão untuosa como um Lafon, por exemplo. A porcentagem de barrica nova no processo é bem pequena, da ordem de 15 a 20%. Muito equilibrado, super bem acabado e complementou divinamente uma das entradas (foto acima), panelinha de vongole e camarão. 

Nessa altura do campeonato, todos já olhando para os decanters na mesa de apoio com os cinco vinhos devidamente livres de seus sedimentos.

carlos lafite e margaux 79

safra que pode surpreender

Abrindo os trabalhos, lado a lado, Lafite e Margaux com quase 40 anos. O Lafite 79 mostrou toda a evolução de um grande Bordeaux. Aromas terciários plenos, taninos polimerizados, um toque de cedro muito elegante. Enfim, o vinho mais pronto no momento e com incrível prazer. É sem dúvida, o mais delicado e elegante entre os grandes Pauillac. Já o Margaux 79, surpreendeu positivamente. Uma safra que muita gente não dá bola, mas no caso de Margaux apresenta grande estrutura. Seus taninos ainda não estão totalmente resolvidos. Os aromas muito elegantes do Margaux lembram um toque floral e de sous-bois, entre outros. Já pode ser bebido, mas evolui por pelo menos cinco anos. Tem 93 pontos Parker.

carlos mouton 87 e latour 94

a força de Pauillac

Neste segundo flight, a maior disparidade. Tanto em evolução, como diferenças de safra. Mouton 87 numa safra com muitos problemas. Por ser uma safra relativamente precoce e sem muita concentração, seu melhor momento certamente passou. Ainda longe de qualquer indicio de oxidação, não foi tão longo em boca. Já o Latour 94, foi o infanticídio da noite. Outra safra não muito badalada, mas com 94 pontos Parker. Cor ainda escura, aromas um pouco fechado, foi se abrindo aos poucos. Uma montanha de taninos para ser trabalhada ao longo do tempo. Aromas clássicos com um toque de cassis, couro fino, mineral, e tabaco. Longo em boca, precisa dormir pelo menos mais dez anos em adega. Latour é Latour.

carlos bouef bourguignon

boeuf bourguignon comme il faut

Acima, um dos pratos do mestre Laurent, o clássico cozido borgonhês para cutucar um pouco os bordaleses. Sem nenhum problema de harmonização, quando já bem evoluídos, os bordaleses pegam um pouco a delicadeza da Borgonha.

carlos petrus 80

um dos mitos de Bordeaux

Abram alas para sua majestade, Rei Petrus. É mais ou menos assim que pensamos quando ele chega à mesa. Para começar, esta safra mostra uma boa estratégia para aqueles que desejam prova-lo  pelo menos uma vez. Não é tão cara como outras safras badaladas e tem a vantagem de estar pronto, sem muitas arestas. Com seus 37 anos, é muito prazeroso de toma-lo. Ainda com muita fruta, toques terrosos e de adega úmida, seus taninos são sedosos, e um final complexo. Pela expectativa da safra, surpreendeu positivamente. Além disso, título do artigo, enfrentou sozinho os quatro da margem esquerda com altivez.

Ainda deu tempo de dar um pulinho na safra 99 com dois grandes chateaux, Haut-Brion de Graves, e Ausone de Saint-Emilion.

carlos ausone e haut brion 99

já chegando nos seus 20 anos!

Outra safra que muitas vezes passa esquecida em Bordeaux. Os dois chateaux acima ainda muito novos, provando mais uma vez a enorme longevidade desses vinhos. Haut-Brion sempre prazeroso com seus toques terrosos e de estrebaria. Segue o perfil elegante, não muito encorpado, mas extremamente equilibrado. Devidamente decantado por duas horas, pode ser muito agradável no momento. Já o Ausone, foi outro infanticídio. Um vinho com 95 pontos Parker de taninos abundantes e muito finos. Fruta escura concentrada, um toque mineral esfumaçado, faltando claramente integração entre seus componentes. Lembra um pouco os aromas do Troplong Mondot, outro grande St-Emilion. Com a devida paciência, será um dos grandes Ausones, fechando o século passado.

carlos yquem 87

o melhor final de festa bordalês

Falar que Yquem é um grande Sauternes, um vinho maravilhoso, é chover no molhado. O que novamente surpreendeu positivamente neste exemplar foi a safra 87, outra vez pouco badalada. Um vinho pronto, não muito untuoso, mas com aromas delicados e muito harmônicos. Um toque sutil de mel, caramelo e marron glacé. Final não muito longo, mas extremamente prazeroso.

carlos noval vintage 1970

Madelaine, Porto e Latour ao fundo

Na foto acima, o brinde final. Quinta do Noval Vintage 1970 devidamente decantado. A cor é bem mais delicada que o decanter da foto, no caso Latour 94. Noval é uma Casa de elegância impar. Notas balsâmicas e de frutas em compota permeiam seus aromas. Boca ampla, de grande equilíbrio, e terrivelmente persistente. As madeleines não são de Proust, mas do mestre Laurent. Um Gran Finale!    


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