Archive for Setembro, 2019

A elite do Rhône e DRC de carona

7 de Setembro de 2019

Além da Bourgogne e Bordeaux, os franceses contam com o Rhône e seus belos vinhos, alguns deles muito especiais, tanto tintos como brancos. Num ótimo almoço no restaurante Vecchio Torino pudemos comprovar esta excelência com vinhos de tirar o fôlego.

 harmonização sensacional!

Não é todo dia que provamos um Hermitage branco, principalmente desta categoria. Uma seleção parcelar especial de Chapoutier com vinhas Marsanne praticamente centenárias em solo granítico. O vinho fermenta e estagia em barricas entre 10 e 12 meses com bâtonnages regulares. O resultado é um branco untuoso, macio, e super equilibrado. Deve ser decantado, pois seus aromas e sabores se revelam em camadas. Aromas florais, de mel, de resina, frutas secas, e algo mineral. Persistência aromática intensa e marcante. Os Hermitages brancos envelhecem muito bem, adquirindo sabores exóticos. Ficou muito bom com esta posta de bacalhau com trufas negras (foto acima), tanto em intensidade de sabores de ambos, como a harmonia de texturas. 100 pontos Parker. Espetacular!

outra harmonização de sucesso

Neste momento chega um intruso em meio aos vinhos do Rhône, sua Excelência Domaine de La Romanée Conti Montrachet 2011. Ainda novo e com muita vida pela frente. Poucas vezes vi um Montrachet DRC um pouco acanhado diante do suntuoso Ermitage branco acima descrito. Normalmente, estes DRCs são encorpados e bastante densos na família Montrachet. Entretanto, o Ermitage era mais denso ainda, deixando o DRC com certa leveza. De todo modo, sempre um grande vinho. Aromas elegantes, intensos, muito equilibrado em boca, e uma persistência aromática expansiva. Caiu muito bem com o ravióli de ricota com molho cremoso de queijo, de textura rica, assim como o vinho. Os sabores delicados do prato realçaram a imponência deste branco.

Rayas: um estilo único

Continuando o almoço, o Rhône-Sul foi representado pelo estupendo Chateau Rayas 2007. Um tinto elaborado com uvas  100% Grenache de parreiras antigas. O vinhedo possui um terroir único. Localizado no meio de um bosque com solo arenoso, sem aquele modelo clássico do Chateauneuf-du-Pape em solo de galets (pedras arredondadas). Nestas condições, a Grenache amadurece plenamente sem perder a acidez, já que as noites são relativamente frias com a presença da floresta. O vinho é pacientemente envelhecido em barricas usadas, sem jamais a madeira interferir em seus aromas. Um tinto macio, sedoso, de grande equilíbrio. Seus aromas são sedutores com frutas vermelhas decadentes em compota, lembrando morangos e framboesas. Seus toques de ervas e especiarias tem um ar provençal, embelezando o conjunto. Envelhece muito bem, adquirindo com o tempo toques de sous-bois e de caça. Exemplar magnifico!

hermitage climatsClimats da Montanha de Hermitage

Encerrando o almoço, o Rhône-Norte se faz presente com um magnifico nota 100, Paul Jaboulet La Chapelle 1978. Os tintos de Hermitage têm a fama de enorme longevidade, atravessando décadas em adega. Na foto acima, vemos os vários climats (parcelas) da imponente montanha de Hermitage. No Caso de La Chapelle, é uma cuvée dos melhores vinhedos tais como: Les Bessards, Le Méal, e les Greffieux, entre outros. Essa mescla de terroirs traz complexidade e estrutura ao vinho, proporcionando longa guarda. O único comparável a La Chapelle, são os vinhos do mestre Jean-Louis Chave, referência absoluta nesta apelação.

img_6608comparável ao lendário La Chapelle 1961

Este exemplar com quarenta anos estava magnifico, comparável ao mítico La Chapelle 1961. A cor já impressiona de cara. Estava bem menos evoluído que o Rayas 2007, provado lado a lado. Os aromas são de livros denotando frutas escuras em licor, alcaçuz, tostado de bacon, chocolate, especiarias, e uma nota da caça de envelhecimento perfeito. Combinou maravilhosamente com uma codorna assada com seu próprio molho. A boca é densa, harmoniosa, taninos de rolimã, e um final de prova sem fim. Um vinho praticamente imortal. Lembrando de um La Chapelle 1990 provado a pouco anos, entendemos claramente que estará no ponto por volta de 2030, outra safra estupenda. Não tem jeito, esses vinhos além de dinheiro, é preciso muita paciência para esperar o ponto certo. A recompensa vale a espera!

Yquem: dois nota 100

o Yquem à esquerda da foto é da safra 2001, uma das mais perfeitas deste novo século. O 2015 à direita da foto, foi provado semana passada, também um nota 100. A diferença dos dois além dos catorze anos que os separam, portanto falta evolução no mais novo, talvez seja mais no estilo de cada um. O 2001 é um Yquem clássico, untuoso, imponente, e de grande presença em boca. Já o 2015, parece ter mais frescor, uma textura mais delgada, e portanto menos impositivo nas harmonizações. Talvez um pato com laranja para o 2015, enquanto um potente queijo Roquefort para o 2001. Contudo, a equivalência entre os dois, só o tempo dirá. 

aromas etéreos para encerrar o dia

Passando a régua, nada melhor que uma boa conversa ao redor de Puros e destilados. Neste caso, um Montecristo edição especial (foto acima) inspirado no ícone Montecristo n°2. Este Gran Pirâmides tem bitola um pouco maior, mantendo o modelo figurado. Ring 57 contra ring 52 do Montecristo clássico. A mistura de tabaco é especialíssima e de muita elegância, fugindo da potência do módulo clássico. Para acompanhar, a elite dos Cognacs: Louis XIII da Remy Martin e Richard da Hennessy. Blends da mais alta qualidade com misturas de cognacs antigos, alguns centenários. Elegância e suavidade que acompanhou bem o Montecristo Gran Pirâmides.

São nesses almoços que percebemos que nossa maior riqueza são os amigos em torno de uma mesa, onde os problemas e nossas diferenças ficam esquecidos. O que impera nesses momentos são a generosidade e o congraçamento entre todos. Que Bacco nos ilumine!

Montagne de Corton e suas três faces

5 de Setembro de 2019

O terroir na Borgonha nunca foi fácil de entender, mas tem algumas regiões onde tudo fica mais complicado. É o caso da Montagne de Corton onde temos várias inclinações, altitudes e exposições, permitindo a elaboração de dois Grands Crus, um tinto e um branco, fato único no cenário bourguignon.

montagne de corton

as três comunas que rodeiam a montanha

De acordo com o mapa acima, nas três comunas que rodeiam a montanha, temos a apelação Grand Cru, tanto de tinto, como de branco. Aloxe-Corton em destaque no mapa, é a comuna principal. Veremos abaixo em detalhe, cada uma delas.  

aloxe corton e pernand vergelessesapelações em lados opostos da Montanha

Aloxe-Corton

Os brancos aqui são raros pelas características do solo, em sua maioria mais argiloso e com alguma pedregosidade. Na parte alta da montanha temos a presença de calcário  e sílex (pedregoso), favorecendo a produção de brancos. Em resumo, perto do cume, predominância de brancos da apelação Corton-Charlemagne. Pode haver nesta área tintos mais leves com a apelação Corton Grand Cru. Já no meio da colina para baixo temos exclusivamente o tinto Grand Cru sob a apelação Grand Cru. Vinhedos como Le Clos de Roi, Les Renardes, e Les Bressardes, são famosos pelos melhores Cortons tintos.

Leroy: a perfeição em Corton-Charlemagne

Os vinhos abaixo e acima são de grande distinção e exclusividade. Este branco Corton-Charlemagne de Madame Leroy é suntuoso, de uma presença em boca magnifica, aliando com precisão potência e elegância. As vinhas não chegam a meio hectare de área, produzindo pouco mais de 1800 garrafas. Uma raridade!

Quebrando a tradição de Vosne-Romanée, Domaine de la Romanée-Conti numa aquisição minúscula no terroir de Corton começou elaborar a partir 2009 o Grand Cru tinto Corton em três dos principais Climats com apenas 2,27 hectares de vinhas (Clos du Roi, Bressandes, e Renardes). Sem dúvida, uma cuvée especialíssima com a marca DRC (foto abaixo).

CORTON DRC

a nova joia DRC fora de Vosne-Romanée

Pernand-Vergelesses

Esta porção por detrás da montanha faz a vez do que conhecemos como Hautes Côtes de Beaune com vinhedos de orientação quase oposta a Aloxe-Corton, na confluência de três vales formados por Savigny-Les-Beaune, Pernand-Vergelesses e a própria Montagne de Corton.

Como vemos no mapa acima, até recentemente, havia a apelação Charlemagne para brancos Grands Crus, absorvida agora por Corton-Charlemagne. Portanto, a famosa lista dos 33 Grands Crus da Borgonha, baixou para 32 Climats. Devido à exposição dos vinhedos, aliados a solos com forte presença do calcário e sílex, os brancos predominam amplamente com a apelação Grand Cru Corton-Charlemagne, embora haja algum tinto sob a apelação Corton Grand Cru. Evidentemente, um Corton de mais acidez e taninos um tanto ríspidos.

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uma raridade em tinto

Ladoix Serrignya comuna menos prestigiada

Ladoix-Serrigny

Obedecendo o mesmo raciocínio de Aloxe-Corton, Ladoix-Serrigny produz brancos Grand Cru Corton-Charlemagne nas partes mais altas da colina com solos ricos em pedra calcária e sílex. Nas partes imediatamente mais baixos, a argila favorece a produção de tintos Grand Cru Corton. Há em pontos isolados a produção de branco Grand Cru Corton. Em comparação com a comuna vizinha, os vinhos não são tão impactantes.

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exemplar raro de Corton branco

Montagne de Corton-expositionsas várias exposições da montanha

Do esquema acima, percebemos que as orientações leste e sudeste são mais favoráveis ao perfeito amadurecimento da Pinot Noir nas comunas de Aloxe-Corton e Ladoix-Serrigny com vários vinhedos da apelação Corton Grand Cru.

Já os vinhedos de orientação sul e sudoeste são mais frios, favorecendo o plantio da Chardonnay. Portanto, temos vinhedos Grand Cru Corton-Charlemagne e diminutas parcelas de Corton branco. A apelação Le Charlemagne Grand Cru foi absorvida pela apelação Corton-Charlemagne. 

Corton Blanc Grand Cru

Apenas um pequena parcela da apelação Corton é destinada aos brancos. Temos 91,53 hectares para os tintos e apenas 4,08 hectares para brancos. Esses brancos concentram-se nas comunas de Vergennes e Languettes. 

Enfim, um terroir bastante complexo em torno desta montanha que nos mostra muito bem os critérios para se plantar Chardonnay e Pinot Noir,  as duas uvas principais da Borgonha, num terreno que alterna calcário e argila, aliados a diferentes altitudes e exposições, formando um mosaico intrincado de Climats, a essência dos mistérios fascinantes da Montagne de Corton.

Romanée-Conti e seus súditos

1 de Setembro de 2019

A família DRC é sempre cobiçada em seus seis Grands Crus de Vosne-Romanée com vinhedos contíguos com cerca de 25 hectares no total. O centro gravitacional de todos eles é o mítico Romanée-Conti, um Monopole de 1,8 hectare. O outro Monopole é La Tache, de área bem maior, mas igualmente divino. Os demais Grands Crus dividem com outros produtores o espaço de suas respectivas apelações, embora sempre com amplo destaque.

e94bf8c2-35f1-42b2-bf54-174f55cc3aa8os melhores vinhedos em grandes safras

Num ato de imensa generosidade, nosso Presidente abriu sua adega pensando no melhor, e dividindo entre amigos sua seleta coleção DRC com seu astro maior, sua Majestade Romanée-Conti em três grandes safras. Além disso, safras que permitem comprovar a imensa longevidade destes vinhos, ainda num estágio inicial de evolução, longe de sua fase final de total esplendor.

DRC PRODUÇÃO

Em sua retaguarda, as três joias foram escoltadas por duas grandes safras de dois de seus familiares, La Tache 1990 e o lendário Romanée-St-Vivant 1978. A sublimação da Pinot Noir foi alcançada em aromas e sabores multifacetados.

um dos grandes Meursaults de Lafon

Iniciando os trabalhos, um belo Meursault do Domaine Lafon em seu vinhedo Charmes. Safra gloriosa com muita fruta e generosidade. Apenas 1,71 hectare de puro “charme”. A textura clássica dos brancos desta apelação num balanço muito bom de acidez. Um toque cítrico de limão siciliano sensacional. Fico na dúvida se vale a pena envelhece-lo, pois está arrasador. Acompanhou bem os pratos de entrada, inclusive esta sublime burrata. O almoço transcorreu no Nino Cucina.

texturas bem harmonizadas

Antes de entrarmos nas três joias, vamos falar deste sublime La Tache 1990. Servido às cegas com os três Romanée-Conti, foi fácil identifica-lo por sua riqueza aromática e sua textura mais ampla em boca. Um vinho suntuoso com todos os predicados de Vosne-Romanée. Os toques de especiarias, sous-bois, chocolate amargo (cacau), e algo de incenso, permeavam a taça. Embora já delicioso, deve evoluir por algumas décadas, pois seu extrato é fabuloso. Persistência aromática ampla.

img_6582a tríplice coroa

Aqui um embate de gigantes, mostrando que Romanée-Conti é vinho para várias décadas de envelhecimento. Todos pareciam ainda muito jovens, como muita fruta, sem nenhum sinal de decadência. Os aromas de cerejas negras, flores, alcaçuz, café, variavam de um para outro de forma cíclica, sempre crescendo na taça. O 88 era o mais pronto e o mais delicado, contrariando as características da safra. Taninos delicados, menos encorpado, embora esta leveza seja uma característica intrínseca deste vinho. Já o 89 parecia ser o menos pronto, taninos ainda firmes e abundantes. Tinha um certo ar masculino, mas sempre mantendo a sutileza. Por fim o 90 parecia mais perto da perfeição. Uma sutileza, uma delicadeza, mas ao mesmo tempo uma força e profundidade extraordinárias. Enfim, Romanée-Conti é sempre um vinho enigmático que caminha no lado da sutileza e elegância, e nunca no caminho da força e da potência. Mesmo em safras não tão badaladas são necessários pelo menos vinte anos para poder avalia-lo com algum critério. 

Saint-Vivant e as trufas

Para finalizar a sequência de grandes vinhos, só mesmo um exceção poderia fazer frente ao trio de ouro degustado. Para isso, entra em cena o espetacular DRC Romanée-St-Vivant 1978, um ano histórico na Borgonha. E de fato, a taça mostra todo este deslumbramento. Esse sim, no ponto de ser bebido, no auge de seus 40 anos. Os terciários explodem na taça sem perder a riqueza de fruta no conjunto. Rosas, especiarias, toques empireumáticos, e uma elegância sem fim. Um dos vinhos mais perfeitos de todos os tempos. Não é a toa que o mestre Henri Jayer coloca seu Richebourg 78 como o vinho perfeito. Com esta massa com trufas ficou realmente divino. Belo fecho de almoço!

img_6584ainda no berçário

Outro branco que deve envelhecer por décadas, mas está delicioso no momento. Com 144 g/l de açúcar residual e um teor álcool de 13,9° graus, perfeitamente balanceados por uma acidez tartárica de 6 g/l, este Yquem fornece elegância e frescor admiráveis. Não tem a untuosidade do mítico Yquem 2001, também 100 pontos, mas esbanja vivacidade e juventude. Neste momento, deve acompanhar bem uma mousse de maracujá ou um sorvete de natas. Apogeu previsto para 2065. 

Mais um almoço glorioso com tintos sublimes da Borgonha em safras magníficas. Novamente, agradecimentos profundos ao nosso Presidente que soube como ninguém conduzir esta degustação com vinhos em grande momento de evolução, num ato de imensa generosidade. Que Bacco nos ilumine sempre nestes caminhos!


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