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Vinhos e Solos

15 de Fevereiro de 2020

Quando pensamos numa região francesa com tamanha variedade de vinhos, estilos e solos, além da extensão do rio Loire em todo seu percurso, percebemos melhor o conceito de terroir e sua interação com clima, solos e uvas.

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panorama geral da região

O Loire tem aproximadamente 57 mil hectares de vinhas com cerca de 50 apelações de vinhos. Seu percurso ronda perto de 800 quilômetros de extensão. Suas quatro cepas e quatro vinhos principais são pela ordem: Cabernet Franc, Chenin Blanc, Melon de Bourgogne (Muscadet), e Sauvignon Blanc. Por estas características seus melhores vinhos são brancos (41% à base de Chenin Blanc, um pouco de Muscadet e Sauvignon Blanc), tintos e rosés (43% à base de Cabernet Franc), e 14% de espumantes (localmente chamado de Fines Bulles).

De toda a produção, os franceses ficam com 79% (253 milhões de garrafas) e a exportação fica com 21% (67 milhões de garrafas), provando que os franceses entendem de vinhos de estilos variados e são muito gastronômicos. Os outros países não entenderam totalmente a questão, tendo muito a fazer em termos de exportação, sobretudo em países de terceiro mundo.

loire climas

Clima Atlântico sendo rechaçado ao longo do continente

Na região atlântica do Muscadet a infuência marinha é muito grande. À medida que vamos caminhando para Angers e Saumur,  esta influência vai diminuindo com maior impacto do clima continental. Aqui estão sobretudo as apelações Muscadet, Savennières (Chenin seco) e os famosos Coteaux du Layon, englobando Quarts de Chaume e Bonnezeaux.

loire geologia

A geologia comandando o terroir

Neste contexto, temos total infuência do maciço armoricano (massif armoricain), uma das mais antigas geologias com rochas ígneas do tipo granito, mica, e gneiss. Gera vinhos delgados e de muita boa acidez como o Muscadet. Em relação à Chenin Blanc, cepa do médio Loire, sob a ação do xisto (rocha metamórfica), gera Chenin Blanc seco de incrível acidez  e mineralidade como o Savennières. Já os doces Coteaux du Lyon com incrível acidez gera vinhos profundos e equilibrados. Os Quarts de Chaume e Bonnezeaux são vinhos intensos e profundos, segundo padrões do Loire.

Em contrapartida a região de Saumur e sobretudo Tours estão amplamente dominados pelo calcário da bacia parisiense (massif parisien), uma bacia sedimentar. Os vinhos têm muito boa acidez, mas são sutis e delicados. É o caso dos tintos à base de Cabernet Franc, e os Chenins sob a denominação Vouvray.

É facil fazer a experiência de um quarts de chaume com um vouvray moelleux. Os dois são Chenin Blanc, mas um de xisto, outro de calcário. O Quarts de Chaume vai parecer mais intenso e robusto, enquanto o Vouvray vai parecer mais delicado e elegante, embora com ótima acidez. Apesar da aparente fragilidade, o Vouvray suporta envelhecimento em garrafa bastante prolongado, por anos. É a expressão mais fiel dos vinhos alemães na França. Foto abaixo. 

um de xisto, outro de calcário

92042eb2-fae5-49ed-8ae1-bfd00d10f8e8a personalidade do calcário

O da esquerda feito no Valle de Uco, Argentina, o da direita, um típico Cabernet Franc de Tours. A leveza e a mineralidade dos dois são notáveis. O primeiro de uma área específica do Valle de Uco, Guatallary, é um terroir aluvial com presença de calcário ativo importante. O segundo nesta região de Tours, o calcário se faz presente, mostrando leveza e elegância. Em terras distantes entre si, o calcário une estilos de vinhos semelhantes. O primeiro é importado pela Grand Cru e o segundo importado pela World Wine (uma referência desta apelação). Fotos acima.

Cabernet Franc

No caso da Cabernet Franc, a mesma coisa. Apelações como Chinon e Bourgueil de Tours, sobretudo, são de uma delicadeza que a Cabernet Franc não encontra em outras paragens. É o solo calcário comandando o estilo delicado e elegante do vinho. Já os tintos de Saumur-Champigny são dominados mais pelo xisto que encomtrar em Saumur, portanto um pouco mais intensos e estruturados.

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bem típico da apelação

Sauvignon Blanc

No caso do Sauvignon Blanc do extremo Loire, bem a leste, as apelações Sancerre e Pouilly-Fumé são muito interessantes. A própria apelação Pouilly-Fumé em determinados solos lembram os bons Chablis pela mineralidade, embora de cepas diferentes. Num destes solos calcários, temos o Kimmeridgiano ou Kimméridgen, o qual são solos de animais marinhos (ostras, sobretudo) calcinados na rocha. São os solos encontrados em Chablis e na própria apelação Pouilly-Fumé, que conferem aos vinhos a incrível mineralidade. 

fbd58601-33cc-4dac-82ff-c32bf4e2df18muito típico de Vouvray

Um belo espumante elaborado pelo método clássico com notas de mel e brioche, lembrando alguns champagnes. Importado pela Mistral.

Fines Bulles

Podemos dividir os espumantes em apelações mais conhecidas e regionais. Por exemplo: Anjou e Cremant de Loire. No primeiro, o solo é dominado por xistos, conferindo aromas de damascos e mel, e uma presença mais floral da Sauvignon e Chardonnay. São espumantes mais densos que os demais. Já Cremant de Loire, os solos são muito variados, mas os espumantes costumam ser mais estruturados que a média da região.

Os espumantes de Saumur vêm de solos de transição com um pouco de xisto e a maioria calcário. São espumantes de médio corpo com notas de frutas brancas, amêndoas grelhadas e baunilha.

Por fim, os espumantes de Touraine e Vouvray. São feitos pelo método champenoise, sobretudo os Vouvray. As notas são de mel, brioche e frutas em compotas. São delicados e elegantes, regidos pelo calcário.

img_7317vinho verde típico com leveza e off-dry

Este Vinho Verde elaborado pela Adega Guimarães dá uma boa ideia de tipicidade, frescor e leveza. Trazido pela importadora Grand Cru.

Vinho Verde x Mucadet

A região do Vinho Verde em Portugal tem influência oceânica e origens antigas do mesmo maciço que a região do Nantes, Maciço Armocariano, ou seja, granito. Só que esta região está na latitude 41 a 42 N, enquanto Nantes, a região do Muscadet está na latitude 47 N. As uvas também não são as mesmas. Enquanto na região do vinhos verdes, temos Arinto, Trajadura, Loureio e Azal, entre outras, a região de Muscadet tem uma só uva que se chama Melon de Bourgogne, uma uva bem mais discreta. Com isso, a região dos vinhos verdes com uvas mais aromáticas e latitude mais baixa, consegue elaborar vinhos aromaticamente mais expressivos, embora conserve leveza e acidez. Já a região do Muscadet, bem mais fria e uma uva menos expressiva, dá vinhos mais discretos aromaticamente, também com muita acidez. Portanto, o perfil do vinho em termos de leveza e frescor se conserva nos dois casos, pelo subsolo granítico. 

A Hierarquia em Pomerol

31 de Janeiro de 2020

Embora tenhamos os tintos mais caros entre a elite de toda região bordalesa, Pomerol não dispõe de uma classificação oficial até hoje. Em 1855, época da primeira grande classificação dos vinhos bordaleses, Pomerol gozava de pouco prestígio e o grande rei Petrus não havia nascido. 

Com cerca de 800 hectares de vinhas, Pomerol é menor que qualquer comuna famosa do aristocrático Médoc. As propriedades são muito pequenas, sendo a maioria com menos de dez hectares. A uva praticamente é uma só, a sensual Merlot, complementada por pequenas proporções de Cabernet Franc e eventualmente, uma pitada de Cabernet Sauvignon. Nessas condições Pomerol tem um ar borgonhês dentro de Bordeaux.

Embora a Merlot assuma um papel de maciez, aparando as arestas no corte bordalês, aqui em Pomerol ela assume uma postura diferente, mais estruturada, criando um poder de longevidade aos vinhos, sobretudo quando falamos do rei Petrus. Aliás, Parker define três grupos de Pomerol bastante distintos em estilos. O primeiro, do time de cima, fica com Petrus, Lafleur e Trotanoy. São vinhos extremamente estruturados, longevos e com grande carga tânica. Lafleur por exemplo, é o único que consegue ombrear-se em estilo ao astro maior. Já Trotanoy, é o mais acessível dos três, embora com ampla capacidade de envelhecimento. 

96384eba-7f42-4730-9cf1-238a0925fb4e-1uma das grandes safras de Trotanoy!

Um segundo grupo de vinhos mais macios e abordáveis, estão como exemplo os chateaux L´Evangile e La Conseillante, mais próximos do que conhecemos como Merlot propriamente dito. Finalmente, um terceiro grupo de Pomerol que se parece mais com os vinhos do Médoc. Aqui a proporção de Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon é mais acentuada, embora a Merlot continue sendo majoritária. O famoso Vieux Chateau Certan (VCC) é o exemplo mais emblemático.

Em termos de classificação, nada oficial até o momento, mas assim como na região de Sauternes, o todo poderoso Yquem é considerado soberano na região, o rei Petrus tem o mesmo prestígio entre os principais Pomerol. Assim como Yquem, Petrus deu fama à região, sobretudo a partir da segunda metade do século passado. 

Existem muitas tentativas de classificação onde escritores famosos deram seus palpites e justificativas. Falando de Parker, um dos maiores conhecedores da matéria, vamos a um estudo recente baseado em notas dos principais chateaux.

pomerol 1995 a 2008

classificação técnica entre 2016 e 1995

pomerol 2

La Violette e Hosanna são grandes destaques

Sem nenhuma surpresa, o primeiro lugar ficou com Petrus, um tinto muito estruturado, mas que demanda tempo para seu total desenvolvimento. Outro fator impeditivo é seu preço, sempre muito alto.

Com média de notas praticamente encostada no astro maior, L´Eglise Clinet surpreende outros potenciais candidatos ao segundo posto com um vinho baseado em Merlot e com enorme potencial de envelhecimento.

img_6906Lafleur, o grande rival de Petrus!

Em terceiro lugar sem nenhuma surpresa, o grande Lafleur. Talvez o único da turma a bater de frente com o Petrus, sobretudo por sua austeridade e longevidade. Tem alta porporção de Cabernet Franc no corte num vinho enigmático.

Com as vinhas reavivadas recentemente, La Violette voltou a brilhar com notas altíssimas. Um vinho 100% Merlot de rendimentos muito baixos e alta concentração. É necessária a decantação para safras jovens, bem como para as mais antigas com muito sedimentos. São apenas 1,68 hectare de um vinho impactante, assumindo o quarto lugar.

Do mesmo produtor de Vieux-Chateau-Certan, Le Pin é um vinho de boutique com produções baixíssimas, entre 600 e 700 caixas por safra. Um vinho 100% Merlot de alta classe e concentração. As safras 82, 89 e 90, são históricas. Em termos de preços, até mais caro em algumas safras do que seu grande rival Petrus. Fica em quinto lugar.

Com vinhedos muito próximos a Petrus, Hosanna assume o sexto lugar. Suas vinhas foram usadas para outros chateaux na região num passado recente. Em 1999 parte do vinhedo foi para a família Moueix e desde então, o chateau assume incrível regularidade e precisão. O blend  é composto por 70% Merlot  de vinhas velhas e 30% Cabernet Franc plantadas na década de setenta. Um vinho elegante e sedutor.

Em sétimo lugar, Chateau Trotanoy é classicamente um dos rivais de Petrus, juntamente com Lafleur. Sua posição nesta tabela deve-se a uma certa irregularidade nas safras. No entanto em algumas, consegue superar o astro maior. Pertence a família Moueix. Importado pela Clarets (www.clarets.com.br). 

img_7072uma das safras mais perfeitas do astro-rei

Em oitavo lugar, Vieux-Chateau-Certan é classicamente um dos grandes da região, na elite de Pomerol. Com participação das Cabernets no corte, este chateau tem um viés de margem esquerda, lembrando algo do Médoc. Algumas safras perfeitas e com preços bem convidativos, dada a fama da região. A safra de 90 é extremamente prazerosa e um dos destaques deste grande ano.

Um dos mais antigos chateaux em Pomerol, L´Evangile assume o nono lugar. No começo do século passado era considerado um vinho de elite juntamente com Petrus e Vieux-Chateau-Certan. Tem um corte clássico com 80% de Merlot e 20% Cabernet Franc. Suas vinhas estão localizadas próximas a Saint-Emilion, bem perto de Cheval Blanc. Apesar de certa irregularidade nas safras, é um vinho sedutor e que envelhece bem.

Em décimo lugar, Chateau Clinet é um dos mais antigos da região. Muito bem localizado, tem uma das vinhas de Merlot mais antigas, plantadas em 1934, conhecida como ¨La Grand Vigne”. Tem uma porcentagem importante de Cabernet Sauvignon para padrões da região. A partir de 2004, mudanças importantes nas vinhas e na cantina, elevaram seu padrão de qualidade.

Comentado em detalhes os dez primeiros tintos deste estudo recente de Parker, os outros dez chateaux incluem nomes de peso como La Conseillante, La Fleur-Petrus e Latour à Pomerol. Enfim, um estudo recente, técnico, e que mostra a elite desta região modesta em tamanho, mas com alto grau de qualidade.

Outras tentativas de classificação foram sugeridas por dois famosos Master of Wine, Clive Coates e Mary Ewing-Mulligan´s. O primeiro um inglês famoso por sua especialidade na Borgonha. Já a segunda é uma autora americana ligada a vários órgãos internacionais, entre eles, Wine & Spirit Education Trust.


Clive Coates

First Growth: somente Petrus.

Outstanding Growth: L´Evangile, La Fleur-Petrus, Lafleur, Latour à Pomerol, Trotanoy e Vieux Chateau Certan.

Exceptional Growth: Le Pin, Certan de May, Clinet, La Conseillante, Clos L´Eglise, La Fleur de Gay e Gazin.

Very Fine Growth: Hosanna, Bon-Pasteur, Le Gay, Nenin, entre outros.


Mary Ewing-Mulligan´s

Class One: Petrus e Lafleur.

Class Two: Trotanoy, L´Evangile, Vieux Chateau Certan, L´Eglise Clinet, Clinet, La Fleur-Petrus, Clos l´Eglise, La Conseillante, Certan de May, Latour à Pomerol, Nenin e La Fleur de Gay.

Class Three: Petit-Village, Feytit-Clinet, Rouget, Bon-Pasteur, La Croix du Casse, Gazin, Grave à Pomerol, Hosanna, Le Gay e La Croix de Gay.


Percebe-se que estas classificações não são tão técnicas quanto a de Parker. Entre outros fatores, entra em conta a história e tradição do chateau. Hosanna tem classificação discreta nos dois casos por ser um fenômeno recente na história. O mesmo podemos dizer de La Violette, um chateau extremamente jovem. O próprio Latour à Pomerol bem classificado, foi grande em outras épocas de safras mais antigas. Certan de May acompanha este raciocínio. Le Pin por ter surgido como “vinho de garagem”, tem pouco impacto numa classificação tradicional.

Enfim, tentamos dar uma ideia dos principais chateaux da região, enfatizando não só a tradição, mas o progresso na região em fazer vinhos modernos e impactantes. Numa coisa todos concordam, Petrus continua sendo o Rei!

Chardonnay e suas versões

28 de Janeiro de 2020

No segundo encontro da confraria este ano, por sinal bastante modesto para os padrões da mesma, tivemos apenas quatro confrades no elegante Tessen, comida japonesa bem executada. Neste caso, o assunto são brancos e eles vieram em várias versões e idades.

bela combinação

De início uma grata surpresa, um Dom Perignon 1976 em perfeito estado. Algo surpreendente para um vinho antigo, sobretudo champagnes que costumam sofrer com o tempo. Neste caso a conservação foi perfeita, inclusive a mousse e perlage. Um champagne elegante com lindos toques terciários onde o mel, gengibre e cítricos estavam em harmonia. A mineralidade e a bela acidez caminharam muito bem com os sashimis de robalo e salmão (foto acima).

Dependendo do ano, Dom Perignon costuma ter um pouco mais de Chardonnay ou Pinot Noir, não fugindo muito dos 50% para cada uma das cepas. Neste caso, parece que o Chardonnay se sobrepôs um pouco, mantendo frescor e ótima longevidade. Nenhum sinal de decadência, numa conservação perfeita.

o sushi pede brancos de maior textura

Não é muito meu estilo, mas o Marcassin costuma estar em destaque nos grandes brancos californianos. Esse da safra 2009 tem 98 pontos. Encorpado, rico em aromas, textura macia e final longo. Particularmente, acho um pouco invasivo e com madeira demais para este refinamento pretendido. Em todo caso é um belo vinho e tem seus fãs mundo afora.

Um vinho de Sonoma Coast, a oeste de Napa Valley, aproveitando o clima mais fresco, dada a proximidade do litoral frio nesta latitude. O vinho fermenta em barricas e passa mais doze meses amadurecendo em barricas francesas novas. O Pinot Noir, sua versão tinta, é altamente pontuado também. 

img_7239produção minúscula na elite dos Chardonnays

Aí chega o grande chardonnay na mesa, Jacques Carillon, especialista na comuna de Puligny-Montrachet com seu exclusivo Grand Cru Bienvenues Batard-Montrachet na bela safra 2010 com 96 pontos, mas de estilo totalmente diferente do americano. Um branco elegante com mineralidade e muito frescor. Tem a leveza dos Pulignys e este Grand Cru fica a leste de Batard-Montrachet, do lado da comuna de Puligny. Faz divisa também com Les Pucelles, um dos mais prestigiados Premier Cru de Puligny-Montrachet. Sua produção é minúscula, um barril por safra, de vinhas com 48 anos de idade na média, num vinhedo de apenas 0,12 hectare. O vinho amadurece em barricas francesas por doze meses, sendo apenas 20% novas. Um dos grandes brancos da terra santa nesta safra. Para quem faz vinho desde 1520, parece que tem jeito pro negócio …

o primeiro incógnito do ano

O vinho acima foi servido às cegas, induzindo a ser um Pinot Noir pelo formato da garrafa. No entanto, os aromas eram dominados por Brett com toques animais e de defumação. Pelos aromas e densidade em boca, lembrava um Syrah, mas era um Cabernet Franc nacional elaborado pela Leiteria e Laticinios Pardinho. O vinhedo é do sul, de Campos de Cima da Serra, região gaúcha de altitude, próxima à serra catarinense.

O vinho é até agradável para quem gosta de Brett e aromas evoluídos, mas falta fruta e frescor, mais um indício da polêmica levedura. De todo modo, valeu pelo exercício de degustação às cegas. Mais uma vez um brasileiro pouco divulgado e difícil de ser encontrado.

Enfim, uma comida leve, papo descontraído, aquecendo os motores para um ano que promete grandes degustações, belos encontros e ótimas garrafas. Que Bacco nos ilumine!

Saladas Clássicas

25 de Janeiro de 2020

Este é o nongentésimo (900°) artigo de Vinho Sem Segredo após dez anos na mídia. Aproveitando o verão, falaremos de saladas clássicas de boa consistência. Aquelas que por si só já são uma refeição. Geralmente incluem alguma proteína, podendo dispensar outros pratos, por ser uma refeição completa. É lógico que a escolha do vinho é fundamental para fecharmos o assunto por completo.

salada de bacalhau

Salada de Bacalhau

É quase uma versão da tradicional bacalhoada servida fria. Os ingredientes são muito parecidos com o bacalhau em lascas, batatas, azeitonas, pimentão vermelho facilitando a digestão, além do azeite e temperos clássicos. Neste caso, um bom Chardonnay relativamente encorpado e com alguma passagem por barrica pode acompanhar muito bem, sobretudo se for realmente o único prato da refeição. Alvarinhos mais encorpados e de personalidade costumam dar certo.

Outras alternativas menos óbvias são os belos Riojas clássicos brancos como o grande Tondonia com a uva Viura. Ele tem passagem por madeira e os aromas são maravilhosos. Alguns bons vinhos laranjas do mercado do leste europeu, terroir específico para este tipo de vinho, são boas indicações. Para quem não sabe, o vinho laranja é um branco vinificado em contato com as cascas, fato inexistente nos brancos modernos de um modo geral. Este tipo de vinho tem estrutura, aromas e sabores, muito convidativos ao bacalhau.

salada niçoiseSalada Niçoise

Há algumas versões, mas a original vai tomates, azeitonas, ovo cozido, atum e/ou anchova, azeite, como principais ingredientes. O nome vem da cidade de Nice, Provence. Naturalmente, os brancos provençais são o casamento natural, além dos elegantes rosés da região. Brancos italianos da casta Vermentino são boas pedidas. Outros brancos italianos como Fiano de Avellino, Greco di Tufo e Verdicchio, são alternativas interessantes. Do lado português, o Dão branco com a casta Encruzado e os brancos da Bairrada com Arinto e Fernão Pires (também conhecida como Maria Gomes), completam a lista.

Se a opção for por um tinto, que seja leve e com baixos taninos. Gamay, Pinot Noir, e um Barbera bem frutado e fresco, são os mais indicados.

Caesar saladCeasar Salad

Salada criada por um imigrante italiano que tinha restaurantes no México e Estados Unidos. Há várias versões da salada que foi incrementada ao longo do tempo. A original diz ter alface, croutons, vários temperos como molho inglês, limão, azeite, alho, mostarda, pimenta, além de anchovas e parmesão. Outras versões admitem bacon ou pedacinhos de frango grelhado.

Aqui novamente o Chardonnay vai bem, mas não aquele encorpado como no caso da salada de bacalhau. Um Chardonnay mais leve, sem passagem por madeira, tem mais afinidade. Os brancos frescos de Finger Lakes, uma AVA americana a noroeste de New York, próxima ao loga Ontário, é uma boa pedida para os americanos. Seus Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling são bastante frescos. Um bom branco chileno dos vales frios deste país como Casablanca, Limari ou San Antônio, são boas opções.

Se a pedida for por espumantes, os brasileiros são ótimas opções. Dentre Cavas e Champagnes, opte por aqueles mais simples, sem muito contato sur lies. O frescor e a juventude falam melhor com o prato.

tabuleTabule

Tabule ou Taboouli como prato em si é mais um acompanhamento. Como ingredientes além do trigo, temos tomates, salsinha, suco de limão, hortelã, azeite e cebola. Uma salada bem fresca, perfeita para acompanhar quibes e esfirras. Como é um conjunto muito de verão, o vinho vai ser direcionado para os itens de maior consistência. No caso de quibes e esfirras, geralmente de carne, um tinto é mais adequado. Precisa ser um tinto aromático e delicado ao mesmo tempo. Aqui a Cabernet Franc entra muito bem com os típicos vinhos do Loire, Chinon e Bourgueil. Outras opções naturais seriam a Gamay (um bom Beaujolais) ou um Pinot Noir delicado. Pode ser um bom Borgonha despretensioso ou um neozelandês com madeira comedida. 

Como alternativa, vinhos rosés são boas opções, mas não muito delicados. Precisa ter um pouco de consistência, assim como os rosés do Rhône. Além deles, os rosés espanhóis são muito indicados, sobretudo os de Navarra. Geralmente, os rosés à base de Grenache tem a consistência certa para o prato.

Essas considerações valem também para o estimulante Steak Tartar. A diferença dele para o tabule com esfirras e quibes é que a proporção de carne em relação à salada é maior.

Quanto às saladas de um modo em geral, a grande preocupação é a acidez, notadamente do vinagre. Procure maneirar no uso do vinagre e se possível, substituir por algo mais delicado como o vinagre balsâmico, por exemplo. De resto, é se divertir e aproveitar o verão.