Archive for the ‘Vinho em Destaque’ Category

As novas leis do espumante Sekt

27 de Novembro de 2019

Sekt sempre foi sinônimo de espumante alemão sem nenhuma garantia de qualidade. Uvas diversas, procedências diversas, métodos de elaboração diversos, faziam deste espumante uma verdadeira incógnita em termos de qualidade. Era preciso conhecer bem os bons produtores que evidentemente tinham melhores critérios para elabora-los. Parece até um contrassenso dizer isso quando falamos do povo alemão, super organizado e muito criterioso, haja vista, sua legislação vinícola de um modo geral, bastante detalhista.

O fato é que o alemão sempre tomou muito Sekt, chegando ao consumo de cinco garrafas por habitante/ano. Só os três maiores grupos produtores de Sekt, elaboravam mais de 500 milhões de garrafas por ano. Vê-se que os alemães neste quesito não estavam muito preocupados com a qualidade.

No entanto, parece que a coisa está mudando, pois o consumo também já não é o mesmo. Segundo as últimas regulamentações, a lei para os Sekts ficou mais detalhada, separando o joio do trigo.

Como a lei alemão influencia muito a lei austríaca, falaremos das duas legislações conforme esquema abaixo.

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semelhança nas leis alemãs e austríacas 

Alemanha

Seguindo  o esquema acima da parte direita, começamos com a expressão Sekt. Aqui você está em terreno perigoso. As uvas nem sempre são alemães, o método geralmente é Charmat, e a qualidade é traduzida em preços baixos. Salvo exceções, fujam desta faixa de espumante.

Subindo um degrau da pirâmide, temos o termo German Sekt. A única garantia aqui é que as uvas são alemães, mas a qualidade é ainda muito incerta. Geralmente temos a uva Muller-Thurgau, absolutamente neutra, e o processo provável é o método Charmat. Novamente, bons exemplares são exceções.

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dados de um ótimo produtor

Na foto acima, Sekt bA, uva Riesling, região Rheingau, dosagem Brut, número de análise do espumante (A.P.Nr), vintage 2007. O termo Klassische Flaschengärung quer dizer Método Tradicional. Este espumante ficou 36 meses sur lies antes do dégorgement. Por isso, só foi analizado em 2011. Veja que o último número da análise refere-se ao ano 11. O Rheingau faz ótimos Sekts.

Finalmente um degrau acima, e temos um termo mais seguro, Sekt b.A., ou seja, vinhos de qualidade com a famosa numeração de análise, geralmente no contrarrótulo. As uvas procedem das treze regiões clássicas alemães e o método é quase sempre o método tradicional, o equivalente da espumatização em garrafa. Muitas vezes, vem escrito no rótulo o nome da uva ou uvas. Podemos já considerar um porto seguro.

Finalmente, a designação Winzersekt, uma expressão que quer dizer espumante elaborado pela propriedade. Aqui temos alta qualidade, geralmente com as uvas Riesling, embora outras uvas nobres como Chardonnay e Pinot Noir, possam fazer parte do blend. O método é exclusivamente Tradicional, elaborado na própria garrafa. Sempre um porto seguro.

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a escala de qualidade

Áustria 

Assim como na lei alemã, a designação Sekt não é garantia de qualidade. Segue os mesmos riscos da designação alemã com uvas podendo ser provenientes fora da Áustria. 

Semelhante ao modelo alemão, o termo Austrian Sekt só garante que as uvas são austríacas. O método de elaboração é o Charmat, sem nenhuma garantia de qualidade. O conhecimento do produtor é de suma importância.

Subindo na escala, o termo Klassic sugere um espumante datado onde o contato mínimo com as leveduras é de nove meses. As uvas são austríacas e o método pode ser Charmat ou de Transferência (um método tradicional que evita o remuage). Aqui já temos boa qualidade sem necessariamente complexidade.

Um degrau acima, o termo Reserve. É um espumante datado com um mínimo de dezoito meses sur lies, antes do dégorgement. Portanto, método tradicional com uvas austríacas. O espumante neste caso deve ser Brut, Extra-Brut ou Brut Nature. Nível de qualidade bastante confiável. 

O topo da pirâmide traz o termo Grosse Reserve. Neste caso, o espumante deve ser vintage e deve ter no mínimo trinta meses de contato sur lies. O método é o tradicional com a dosagem restrita em Brut, Extra-Brut ou Brut Nature. Deve também ser designando o Village correspondente ao vinhedo. Algo similiar em Champagne com as designações Premier Cru ou Grand Cru. Produto bastante confiável.

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Na foto acima, uma garrafa antiga de Sekt alemão com informações importantes. Vem da nobre região do Rheingau, a uva é Riesling, a dosagem é Brut, e o método é Charmat. A uva Riesling sempre dá credibilidade ao Sekt.

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Alemanha: uvas permitas e graus de dosagem

A semelhança das leis alemãs e austríacas é muito grande. A diferença básica está nas uvas permitidas, onde as autóctones de cada país faz a individualidade. Gruner Veltliner é a uva branca mais emblemática da Áustria, enquanto a Riesling é a mais nobre uva alemã.

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Áustria: uvas permitidas e graus de dosagem

Em termos globais, Sekt continua sendo um dos quatro espumantes mais produzidos e consumidos no mundo. Segundo dados de 2018, temos: 600 milhões de garrafas de Prosecco produzidos, 370 milhões para o Sekt, 315 milhões para Champagne, e 216 milhões para o Cava. Haja Borbulhas!

Top Ten Wine Spectator 2019

16 de Novembro de 2019

Todo final de ano a famosa revista americana lança sua lista Top 100 e dentro dela temos os dez melhores vinhos do ano, segundo seus critérios que além da qualidade, é levado em consideração preços e quantidades de caixas produzidas. A lista sempre é polêmica e tendenciosa para uma legião que não levam muito a sério a revista. De todo modo, sempre há um impacto na mídia e estamos aqui para comentar os dez mais.

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10° lugar – Almaviva Puente Alto 2016 – 95 pontos

Um dos ícones chilenos do nobre terroir de Puente Alto, especialmente para Cabernet Sauvignon. O toque chileno é dado por uma pequena proporção de Carmenère e às vezes, Cabernet Franc. É um vinho consistente safra após safra, merecendo sempre lugar de destaque.

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9° lugar – Penfolds Shiraz Barossa Valley RWT Bin 798 2017 – 96 pontos

O vinícola australiana Penfolds sempre tem vinhos especiais de grande destaque a começar pelo famoso Grange. Seu concorrente direto, o eleito Shiraz RWT (Red Winemaking Trial), tem a mesma força e classe, amadurecido em carvalho francês, enquanto o Grange amadurece em carvalho americano. Sempre um vinho sedutor e muito bem construído. 

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8° lugar – Chateau Pichon Baron 2016 – 96 pontos

Pichon Baron é um dos bem pontuados da bela safra 2016 em Bordeaux. Costuma ser um pouco sisudo em comparação a seu rival, Pichon Lalande. Nesta safra temos 85% Cabernet Sauvignon e 15% Merlot. Neste caso, um vinho elegante, bem desenhado, e com boa estrutura para envelhecimento. Um clássico de Pauillac.

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7° lugar – Ramey Chardonnay  Carneros Hyde Vineyard 2016 – 95 pontos

O vinhedo Hyde fica na entrada da Baia de San Pablo na AVA Carneros, beneficiando-se das frias brisas marinhas enevoadas. O vinho é feito à maneira bourguignonne com fermentação, bâtonnage e amadurecimento em barricas. São barricas francesas com baixa porcentagem de madeira nova. Tem um estilo mais elegante, fugindo dos padrões potentes de Chardonnay americano.

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6° lugar – Chateau de Beaucastel 2016 – 97 pontos

Um dos mais afamados e consistentes vinhos da apelação Chateauneuf-du-Pape. Um dos poucos que costuma trabalhar com as treze cepas autorizadas. As que dão mais caráter ao vinho são Grenache, Syrah, e Mourvèdre. Sua cuvée Hommage a Jacques Perrin, elaborada só em safras excepcionais, está na elite dos melhores Chateauneufs, juntamente com Henri Bonneau e Chateau Rayas.

wine spectator roederer l´ermitage brut5° lugar – Roederer Brut Anderson Valley L´Ermitage 2012

Espumante da Maison Roederer que faz o champagne Cristal, em sua famosa filial na Califórnia, no vale frio chamado Anderson Valley. Com as melhores seleções de Chardonnay e Pinot Noir em proporções iguais, o vinho base passa em grandes toneis de madeira francesa. O vinho fica em contato sur lies por cinco anos antes do dégorgement. Aromas e sabores  complexos, além de rica textura em boca.

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4° lugar – Groth Cabernet Sauvignon Oakville Reserve 2016 – 96 pontos

Cabernet tradicional de Oakville, uma das mais prestigiadas AVAs americanas, onde temos vinícolas do porte de Harlan Estate, Screaming Eagle, e Opus One. Este Groth Reserve faz um Cabernet rico em aromas e apto a envelhecimento prolongado. Passa 22 meses em barricas de carvalho francês novas. A safra 85 é lendária com 98 pontos.

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3° lugar – San Giusto a Rentennano Chianti Classico 2016 – 95 pontos

O único italiano da lista, este Chianti Classico é da sub-região de Gaiole in Chianti. Terra de grandes vinícolas com Castello di Ama e Castello di Brolio. Neste exemplar temos 95% Sangiovese e 5% Canaiolo. Passa 10 meses em vários tipos de madeira: Botti, tonneaux e barricas. Taninos refinados e notas minerais. Bela expressão da Sangiovese.

wine spectator mayacamas Cabernet Sauvignon2° lugar – Mayacamas Cabernet Sauvignon Mount Veeder 2015 – 96 pontos

É um Cabernet de altitude para padrões de Napa com vinhedos entre 600 e 800 metros em solo vulcânico. Fica na sub-região de Mayacamas Moutains bordeando as comunas de Rutherford e Oakville. Passa 32 meses em madeira inerte, grandes toneis. Tem bom frescor e mineralidade.

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1° lugar – Chateau Leoville Barton Saint-Julien 2016 – 97 pontos

Embora a safra 2016 tenha sido muito boa para os Bordeaux, Leoville Barton, o vinho do ano pela Wine Spectator, não está no time de cima entre os melhores. O próprio Leoville Las Cases, o mais famoso da trilogia tem 100 pontos Parker nesta safra. No entanto, pelos critérios da revista que leva em conta além da nota, o preço e a disponibilidade em termos de quantidade, este chateau é um belo representante da comuna de Saint-Julien. Neste caso, o blend ficou com 86% Cabernet Sauvignon e 14% Merlot. É um vinho bem estruturado com taninos finos e firmes, garantindo uma boa longevidade. Apogeu previsto para 2046.

Como todo ano, a seleção é sempre polêmica, mas acho que poderia ter menos americanos e apenas um bordalês. No geral foram quatro americanos, três franceses, um chileno, um australiano e um italiano. Espanha e Portugal mereciam ter ao menos um representante. O foco neste ano foram os bordaleses e os grandes Cabernets da Califórnia. 

Logo mais, falaremos sobre os TOP 100 da revista que serão divulgados dia 18 de novembro. Vamos ver se há um equilíbrio maior numa amostragem mais ampla.

Melhores vinhos de 2019

6 de Novembro de 2019

Ao longo do ano provei muita coisa boa entre vinhos de sonhos, inacessíveis, seja pelo preço, seja pela dificuldade em encontra-los. Paralelamente, provei os vinhos terrenos, mais acessíveis e disponíveis no mercado brasileiro. Com a aproximação do final de ano, ficam algumas dicas para festas, presentes, e mesmo para seu consumo pessoal. São doze indicações, formando uma caixa de 2019 nos mais variados estilos.

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1 – Champagne Agrapart Mineral Extra-Brut Grand Cru 2012

Uma das mais badaladas e reputadas Maisons de Champagne na atualidade, muito bem pontuada nos melhores guias. Este provado e nomeada Cuvée Mineral, já o nome diz tudo. Extremamente mineral, seca, acidez incisiva, um autêntico Blanc de Blancs. Vale experimentar todos os outros champagnes da Casa trazidos com exclusividade pela importadora Juss Millesimes (www.juss-millesimes.com.br).

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2 – Nicolas Joly Coulée de Serrant 2011

Nicolas Joly dispensa comentários. Pai da Biodinâmica e exímio enólogo, faz um dos brancos mais espetaculares de toda a França dentro de Savennières no Vale do Loire com apelação própria Coulée de Serrant, um monopole com sete hectares de vinhas de cultivo esmerado. O vinho com a uva Chenin Blanc precisa ser decantado com horas de antecedência, antes do serviço. Vinho de grande complexidade e persistência aromática. Os outros vinhos de Nicolas Joly são igualmente de grande distinção. Trazidos pela importadora Clarets (www.clarets.com.br).

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 3 – Chateau Le Bon Pasteur 2007

Um Bordeaux relativamente pronto para ser tomado. Um dos clássicos de Pomerol onde a uva Merlot e Cabernet Franc moldam vinhos elegantes e macios. A safra 2007 ajuda na precocidade do vinho com taninos afáveis e aromas já desenvolvidos. Trazido pela importadora Clarets, muitos outros Bordeaux interessantes podem ser apreciados. Uma especialidade da Casa (www.clarets.com.br).

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4 – Chateau Gloria Saint-Julien 2010 

Um dos clássicos Crus Bourgeios de Saint-Julien, embora esta classificação seja um tanto polêmica. De fato, o chateau tem uma consistência muito boa, safra a após safra. Nesta 2010, uma safra clássica de grande longevidade. No momento, precisa ser devidamente decantado, mas já apresenta belos aromas e boa harmonia em boca, embora possa ser adegado por pelo menos mais dez anos. Dá uma boa ideia de um belo Grand Cru Classe. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

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5 – Benjamin Romeo La Viña de Andrés Romeo 2012 

Não é um vinho barato, mas é um baita Tempranillo. Um estilo moderno e extremamente elegante, sem exageros. Uma boa extração de frutas com muito cuidado e sutileza. A madeira empregada é francesa da mais alta qualidade, escolhida pessoalmente por Benjamin Romeo. Boca harmônica e longa persistência aromática. Trazido esse e outros da bodega pela importadora Premium (www.premiumwines.com.br). 

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6 – Porto Quinta do Noval LBV Unfiltered 2012 

Quinta do Noval, Casa de elite no cenário de vinhos do Porto. Esta talvez seja sua maior pechincha. Um LBV não filtrado que tem nível de muitos Vintages por aí. Extrema concentração, pureza de frutas, e muito expansivo em boca. Deve ser obrigatoriamente decantado e pode durar por longos anos em adega. Difícil bate-lo nesta categoria. Trazido pela Adega Alentejana (www.alentejana.com.br).

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7 – Maison Roche de Bellene Chambolle-Musigny Vieilles Vignes 2014 

Por ser um vinho comunal, impressiona muito bem. São vinhas entre 50 e 70 anos na comuna de Chambolle-Musigny. Um tinto robusto de frutas escuras e um toque terroso. Sai um pouco daquela feminilidade de Chambolle, mais muito elegante. Taninos muito finos e destacada persistência aromática. Um belo exemplar da Borgonha. Trazido pela importadora Premium (www.premiumwines.com.br).

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8 – Chateau Calon-Ségur 2009 

Um das safras históricas deste Chateau de Saint-Estèphe com 96 pontos Parker. Baseado em 90% Cabernet Sauvignon, complementado com Merlot e Petit Verdot. O vinho tem uma estrutura magnifica com taninos muito finos e uma bela acidez. Fatores estes que lhe conferem enorme longevidade. Os aromas ainda são um tanto tímidos, mas de muita classe. Uma das melhores pedidas desta bela safra. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

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9 – Casa Marin Pinot Noir Litoral 2013 – Vinci

Como é difícil encontrarmos um Pinot Noir fora da Borgonha. Na zona fria do Vale San Antônio no Chile, Casa Marin elabora algo interessante. Um Pinot Noir com frescor e aromas elegantes desta casta. Madeira bem colocada, vinho ainda jovem, mas com bom poder de fruta e notas defumadas bem mescladas ao conjunto. Bem equilibrado em boca. Uma opção segura e uma das referências na América do Sul. Seu Sauvignon Blanc também é ótimo. Importadora Vinci (www.vinci.com.br). 

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10 – Travaglini Gattinara 2013 – World Wine

Travaglini é um dos destaques na denominação Gattinara do Piemonte. Um Nebbiolo de clima alpino, menos encorpado que os clássicos Barbarescos e Barolos. Contudo, um vinho muito elegante e com toques terciários típicos da casta. Muito equilibrado e com boa persistência aromática. Boa pedida para pratos com trufas. Importadora World Wine (www.worldwine.com.br). 

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11 – Domaine Ferret Pouilly-Fuissé 2011 – Mistral

Domaine Ferret é referência absoluta na apelação Pouilly-Fuissé com vinhos muito equilibrados e de grande classe. Este provado é dos mais simples e já muito bem construído. Suas outras tantas cuvées, uma melhor que a outra. Tem perfil para enfrentar um bom Premier Cru das famosas apelações de Beaune. Sempre um porto seguro. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

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12 – Zind-Humbrecht Muscat Goldert Grand Cru 2011

Muscat é uma das quatro castas nobres da Alsace, mas é a menos prestigiada. Neste exemplar do ótimo produtor Zind-Humbrecht ela alcança outra dimensão, dificilmente encontrada na maioria dos vinhos concorrentes. Trata-se de um vinhedo Grand Cru de solo calcário, o qual confere extrema elegância e mineralidade ao vinho. Tem um leve açúcar residual muito bem equilibrado por uma acidez vibrante. Seus aromas são típicos da casta, mas com muitas nuances. Vai muito bem com comidas asiáticas com toques agridoces. Importadora Clarets (www.clarets.com.br). 

Sempre que fazemos uma seleção, alguma injustiça, alguma falta, pode ser notada. Alguns outros vinhos poderiam ter entrado nesta caixa, mas os que estão aí são bem diversificados e devidamente testados. Tenho certeza que cada leitor irá em alguns deles ter seu gosto pessoal atendido. Que outros bons vinhos venham em 2020, já batendo em nossa porta!

 

 

Bordeaux Nota 100 numa das mãos

17 de Julho de 2019

Um vinho dito perfeito ou mais realisticamente que flerta com a perfeição, é por contraponto um vinho sem ressalvas. Se é difícil e subjetivo apontar suas qualidades, aromas e nuances, fica mais fácil não conseguir apontar algo que desagrade ou que deixe a desejar. Portanto, se não conseguimos tirar um único ponto de um determinado vinho, ele é um nota 100, símbolo da perfeição, tornando-se com o tempo uma lenda.

Quando comecei a provar grandes vinhos, após um breve espaço de tempo, fiz uma pequena lista de grandes nomes, achando que seriam os melhores para todo o sempre. Ledo engano, quanto mais provo, quanto mais repito aqueles mesmos vinhos que um dia endeusei de maneira absoluta, quanto mais sinto a evolução deles ao longo do tempo, mais dúvidas, mais dilemas, mais senões, turbilhonam a mente, sem uma conclusão definitiva. Além da emoção do momento, nunca devemos nos esquecer que obras de arte não se comparam, apenas estão a nosso alcance para serem apreciadas.

Neste sentido, faço uma nova lista, desta vez sem ilusões e conclusões definitivas, sabendo que além destes, tanto outros poderiam estar incluídos, e quem sabe com o tempo, esses mesmos vinhos seriam substituídos por outros. Enfim, vou me resumir a Bordeaux, um terroir de muitos notas 100, e neste caso apenas cinco, que cabem numa das mãos.

Deixei de lado mitos que com o tempo foram desaparecendo, ficando quase inacessíveis, e altamente sujeitos a falsificações. Vinhos que quem os provaram, ficou a lembrança inesquecível na pátina do tempo, como Margaux 1900, Cheval Blanc 1921, Mouton 1945, Petrus 1929. Todos eles imortais.

A lista abaixo é de ordem aleatória, cabendo a cada um com suas preferências pessoais, ordena-los a seu modo. São vinhos caros, difíceis de serem encontrados, mas ainda assim acessíveis para os entusiastas persistentes e tenazes. 

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Chateau Haut Brion 1989

Primeiramente, uma homenagem a este único Premier Grand Cru Classé de Graves na classificação de 1855. Um chateau altamente consistente na maioria das safras por suas elegância e empatia, mesmo em tenra idade. Nesta safra em particular, potencializa todas suas virtudes num vinho de muita força e presença. Um final muito bem acabado e radiante quase querendo dizer: a minha idade não é a que eu tenho, mas a que pareço.

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Chateau Mouton Rothschild 1986

Outro grande vinho da ótima década de 80. Mouton costuma ser um tinto muito inconstante, dependendo da safra, mas quando acerta, é excepcional. Este Mouton 86 é totalmente diferente em estilo do Haut Brion acima. Um vinho cheio de cerimônias e segredos, necessitando de algumas horas de decantação, obrigatoriamente. Um vinho que se mostra muito pouco ainda, mas dá uma aula de taninos e potência. Tem uma força e energia impressionantes, testando nossas paciência e curiosidade. Será certamente um daqueles vinhos imortais, atravessando décadas.

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Le Pin 1982

Falar dos melhores da mítica safra 82 é arrumar confusão e polêmica. Afinal, deslumbrantes chateaux desfilaram nesta safra com galhardia. Minha escolha foi para homenagear Pomerol e lembrar para alguns que o rei Petrus tem seus concorrentes. Le Pin tem uma produção diminuta, menor ainda que Petrus, e também trabalha com 100% Merlot. Sua história é mais recente, sendo um dos precursores dos chamados “vins de garage”. Nesta safra, ele se supera, mostrando toda a sensualidade e presença de um grande Pomerol. Lembrar que Petrus nesta safra foi abaixo das expectativas.

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Chateau Latour 1961

Numa relação de cinco grandes Bordeaux, não poderia deixar de estar presente o grande Latour, o senhor do Médoc. Outro vinho de consistência e longevidade impressionantes, safra após safra. Dentre muitos maravilhosos Latour, este impressiona pela rica estrutura e enorme longevidade, sem demonstrar as marcas do tempo. Taninos poderosos e ultrafinos permeiam a taça. Na mesma linha do Mouton 86, necessita de algumas horas de decantação. Um verdadeiro monumento a Bordeaux.

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Chateau Lafite Rothschild 1953

Este é outro Chateau que não poderia ficar de fora. O mais delicado, o mais sutil, o mais borgonhês de Pauillac. Escolhi esta safra porque é o melhor 53 para Parker. Uma safra não tão badalada, mas de belos vinhos. Poderia ter sido um 59, mas acho 53 um dedinho superior. Lafite é um vinho que envelhece magnificamente, mostrando todas suas sutilezas e segredos com um aporte de acidez que lhe conferem uma tensão no equilíbrio gustativo quase única. Seus toques orientais e de cedro no aroma são marcas registradas que denotam classe e distinção. 

Enfim, um preâmbulo para uma bela degustação que terremos em breve com esses tema. Evidentemente, não necessariamente esses vinhos, mas com certeza, preciosidades deste mesmo nível, marcando momentos inesquecíveis. Aguardem!

Zind-Humbrecht: Joias da Alsace

3 de Julho de 2019

Quando falamos dos melhores produtores da Alsácia, obrigatoriamente Zind-Humbrecht deve estar na lista entre os primeiros. Com vinhedos exclusivos e um Master of Wine como enólogo, Olivier Humbrecht faz vinhos que emocionam e traduzem o terroir de parcelas específicas com as castas mais nobres da região. Foi o que aconteceu numa bela degustação promovida pela Clarets (www.clarets.com.br), uma das importadoras mais sofisticadas da atualidade, sempre com vinhos exclusivos e preços bem competitivos no mercado.

prateleiras de grandes rótulos!

Alguns dos detalhes de importação são as caixas exclusivas de madeira do vinhos Zind-Humbrecht, vindas somente para o Brasil. No painel degustado, as quatro castas nobres foram apresentadas com vinhos de grande classe e variados graus de açúcar residual.

Zind-Humbrecht Riesling Turckheim 2016

2fcb4c28-ae31-4e03-b75d-4e4e9f6cf577um belo vinho de entrada

O Riesling acima é um dos vinhos da linha básica de Zind-Humbrecht, sendo o vinho de entrada da importadora Clarets. É um vinho de alto rendimento para os padrões do Domaine, acima de 60 hectolitros por hectare (hl/ha). O vinhedo vem de um setor de Turckheim chamado Herrenweg de solo pedregoso e clima relativamente quente. Portanto, as uvas aqui têm maturação mais precoce, originando vinhos não tão complexos como aqueles de vinhedos mais específicos. Uma boa dica para não errar na doçura do vinho são índices de 1 a 5 que Zind-Humbrecht coloca no rótulo, de acordo com o açúcar residual. Neste exemplar temos o índice 1, significando ser um estilo seco para padrões alsacianos.

Neste exemplar, percebemos claramente o poder de fruta deste vinho com notas de mel. Marca bem o estilo da Casa com uvas extremamente maduras e equilibradas, dando uma sugestão muito peculiar de doçura e grande pureza de aromas. Vai muito bem com comida chinesa, emblematizada pelos típicos molhos agridoces de textura compatível com o vinho.

Zind-Humbrecht Muscat Goldert Grand Cru 2011

f6e5dc19-e410-441c-b835-2a7f62c3f6f7Muscat de alta classe

Aqui começamos a ter vinhedos mais específicos como este Grand Cru de Gueberschwihr chamado Goldert. Terroir de origem calcária em meio à argila em altitudes entre 250 e 350 metros, promovendo uma maturação tardia nas uvas. Temos neste exemplar 90% de Muscat Petits Grains e 10% Muscat Ottonel que exigem plena maturação. Um vinho com 6,5 g/l de açúcar residual, ainda no nível 1. Um branco extremamente delicado e elegante, qualidades difíceis de se atingir num Moscatel seco. Os aromas vão desde um cítrico delicado como lima, passando por ervas refrescantes como manjericão, notas de menta e de chá de camomila. Muito equilibrado em boca com final levemente off-dry. Vai muito bem com comida asiática envolvendo por exemplo, camarões e aspargos.

Zind-Humbrecht Pinot Gris Rangen de Thann Clos Saint Urban Grand Cru 2014

0443fb75-4d03-477b-92c0-9457614468acgrande personalidade

Um dos mais famosos terroirs, Clos Saint Urban vem de um solo vulcânico de altitudes entre 350 e 450 metros em terreno de forte declividade e ótima exposição solar. São apenas 2,7 hectares para a Pinot Gris de vinhas velhas plantadas em 1963 com rendimentos muito baixos de 25 hl/ha. Vinho de grande concentração e poder com 15,5° graus de álcool bem equilibrados. Um branco macio, ainda no índice 1 de doçura, e de longa persistência. Pode enfrentar pratos consistentes como pato, ganso, e receitas com postas de bacalhau. Um vinho altamente gastronômico que merece ser decantado por pelo menos uma hora.

Zind-Humbrecht Riesling Clos Windsbuhl 2014

649a13d6-b149-4f87-94e2-d795bf23a889grande mineralidade

Outro vinhedo notável alsaciano, Clos Windsbuhl dispensa comentários. Um terroir fortemente calcário em altitude de 350 metros com inclinações que podem chegar a 40%. A idade média das vinhas de 40 anos aporta rendimentos de 35 hl/ha. Um branco com 10 g/l de açúcar residual ainda no índice 1, mostra-se o mais seco e o mais mineral do painel. Uma acidez absurda com os toques característicos da Riesling de petrolato. Um branco que enfrenta muito bem pratos defumados como embutidos e salmão e molhos mais picantes. Outro branco que merece decantação.

Zind-Humbrecht Pinot Gris Clos Jebsal Vendange Tardive 2016

img_6260doçura agradável 

Outro terroir histórico da Alsácia, Clos Jebsal de apenas 1,3 hectares de vinhas plantadas em 1983 num terreno de argila e gesso com boa exposição solar e proteção dos ventos do norte. Nesta safra apresenta um rendimento de 45 hl/ha, gerando um vinho de Vendange Tardive com 49 g/l de açúcar residual. A doçura é perfeitamente equilibrada pela acidez num vinho elegante com toques florais, pêssegos, e de talco. Sua doçura e textura delicadas são perfeitas para acompanhar patês de caça, inclusive o foie gras alsaciano. 

Zind-Humbrecht Gewurztraminer Hengst SGN Grand Cru 2008

1aa56fcd-a5fa-48c4-9b3d-68c7b522fec8intensidade e concentração sublimes

Mais um vinhedo Grand Cru, da região de Wintzenheim, Hengst tem solos argilo-calcários de fosseis marinhos com vinhas de 47 anos e rendimentos de apenas 17 hl/ha. Neste exemplar de doçura sublime (166 g/l de açúcar residual), a ação da Botrytis se faz presente com toques de mel, flores e uma lichia bem elegante, fugindo daqueles Gewurzs comuns e sem classe. Nesta categoria máxima de maturação de uvas, Selection de Grains Nobles (SGN), a acidez, intensidade, e persistência aromática são notáveis, num final que lembra os grandes Sauternes. Evidentemente, é um grande companheiro de queijos azuis e mais especificamente do poderoso Munster.

Os preços que variam de 200 a pouco mais de 600 reais por garrafa podem ser consultados no site da importadora que por sua vez, tem uma politica de preços bem convidativa para clientes com forte fidelização. Vale a pena conferir.

Agradecimentos a toda equipe Clarets através do Anderson, Marcelo e demais integrantes, além do casal extremamente simpático e acolhedor, Guilherme Lemes e Keren Marchioro. Que venham outras tantas degustações de grandes rótulos!

 

Jules Lavalle: Classificação 1855

20 de Junho de 2019

Quando falamos de classificação de vinhos de 1855, já pensamos de imediato nos famosos Chateaux de Bordeaux de margem esquerda. Uma classificação polêmica e imutável, onde 61 chateaux foram listados em cinco categorias, levando em conta prestígio e preços dos vinhos na época, sobretudo. Entretanto, desta feita, estamos falando da Borgonha, de um pesquisador e estudioso da época, que deu as diretrizes de classificação e organização dos vinhedos da Côte d´Or, além de um belíssimo trabalho cartográfico. Estamos falando de Jules Lavalle, professor da escola de Medicina de Dijon, diretor do Jardim Botânico de Dijon, secretario da Sociedade de  Horticultura da Côte d´Or e membro da Sociedade de Geologia da França. Essa classificação abriu caminho para as futuras apelações de origem francesas da região, promulgadas em 1936.

A seguir, vamos analisar as principais comunas da Côte d´Or, comparando a classificação de Lavalle com a atual legislação da Borgonha, principalmente nas categorias Grand Cru e Premier. Lavalle propõe uma classificação em cinco níveis de categoria na seguinte ordem decrescente de importância e mérito: Tête de Cuvée, Première, Seconde, Troisième, et Quatrième Cuvée. As questões de terroir no sentido mais amplo da palavra foram consideradas, mencionando um termo que ele chama de finage, ou seja, a perfeita integração de uma comunidade rural com suas terras integradas num conjunto harmônico que engloba não só os vinhedos, como florestas, outras culturas paralelas, respeitando fauna e flora locais. Segue tabela comparativa abaixo: 

JULES LAVALLE

Clique acima para abrir arquivo

Já na primeira comuna ao norte da Côte de Nuits, Fixin, uma surpresa. O climat Clos de La Perrière era considerado por Lavalle como Tête de Cuvée, enquando na classificação atual, qualquer um dos climats de Fixin são no máximo, Premier Cru. Atualmente, uma comuna bem menos prestigiada que outrora.


Seguindo a rota a sul, a famosa comuna na sequência é Gevrey-Chambertin, uma das mais prestigiadas da Côte d´Or atualmente com nada menos que nove Grands Crus. No entanto, na época de Lavalle, somente dois dos atuais Grands Crus foram Tête de Cuvée, Chambertin e Clos de Bèze que de fato, são os climats mais importantes desta comuna. Realmente, é difícil ter um consenso de mesmo prestígio nos outros sete Grands Crus atualmente classificados.


Na sequência, temos a comuna de Morey-St-Denis com cinco Grands Crus na atualidade. Destes, somente Clos de Tart foi classificado por Lavalle como Cuvée de Tête. Clos des Lambrays, Clos de La Roche, Clos St Denis, e uma pequena parte de Bonnes Mares, ficaram longe da excelência. Clos de Tart bem o merece. É um vinho tão enigmático como o mítico Romanée-Conti e sua longa história dentro da Borgonha medieval é igualmente rica e brilhante.


Continuando a saga, Musigny é o grande vinho da comuna de Chambolle-Musigny. Sempre um vinho de grande prestígio, é o único que Lavalle classificou como Tête de Cuvée. Bonnes Mares, atualmente Grand Cru, e Les Amoureuses um super Premier Cru, foram considerados como Première Cuvée.


Quando se fala do Grand Cru Clos de Vougeot, falamos primeiramente de história, deixando o rigor técnico um pouco de lado. De fato, com cerca de 80 produtores fica difícil manter uma homogeneidade e um padrão elevado em todo o vinhedo que perfaz 50 hectares de vinhas, um verdadeiro latifúndio na Borgonha. Por isso, tanto a legislação atual como Lavalle, consideram Clos de Vougeot um patrimônio histórico inestimável com a classificação máxima. Lavalle utiliza um termo peculiar que ele chama de “Hors Ligne”, equivalente ao termo Tête de Cuvée.


Nas comunas de Flagey-Echezeaux e Vosne-Romanée, tratadas atualmente como uma só com o nome mais prestigiado, Vosne-Romanée, temos oito Grands Crus na legislação vigente, ou seja, Romanée-Conti, La Tache, Richebourg, Romanée-St-Vivant, Echezeaux, Grands-Echezeaux, La Romanée, e La Grande Rue. Lavalle foi bem rigoroso, listando sem contestação como  Tête de Cuvée os vinhedos Romanée-Conti, Grands-Echezeaux, e La Romanée. Em seguida fez questão de classificar parcialmente como Tête de Cuvée os vinhedos La Tache, a parte original sem a participação de Les Gaudichots, atualmente totalmente fundido com o nome La Tache. O mesmo critério foi usado para Richebourg. A porção denominada Les Richebourgs foi considerada Tête de Cuvée, mas parte Les Veroilles, hoje incorporado ao vinhedo original, foi considerada Première Cuvée. Os vinhedos La Grande Rue e Romanée-St-Vivant foram considerados como Première Cuvée. Por fim, o vasto vinhedo Echezeaux, dividido por Lavalle em várias parcelas, foi considerado Premiére Cuvée, sendo algumas delas ainda abaixo desta classificação.


Fazendo um parêntese na comparação Echezeaux e Grands-Echezeaux, fica muito claro a enorme diferença de força, concentração, profundidade, entre esse dois vinhos degustados lado a lado, sobretudo se forem DRC, suas melhores interpretações. O Echezeaux parece de fato um Premier Cru, frente ao poderoso Grands-Echezeaux, um verdadeiro Grand Cru.


Terminando a Côte de Nuits, a última comuna de Nuits-St-Georges revela grandes surpresas. Na atual legislação, não há nenhum Grand Cru, embora tenhamos vários Premiers Crus. Já para Lavalle, muitas parcelas foram classificadas como Tête de Cuvée. As mais famosas são Les Saint Georges com toda a justiça, Les Pruliers, Les Vaucrains, e Les Poirets (Porrets), entre outras. De fato, uma comuna bem mais prestigiada no passado.


Iniciando a Côte de Beaune no sentido norte-sul, começamos pelas comunas contíguas Ladoix, Aloxe-Corton, e Pernand-Vergelesses. Evidentemente, aqui os Grands Crus Corton para tintos, e Corton-Charlemagne para brancos, são os mais prestigiados. Entretanto, Lavalle classifica somente algumas parcelas destes vinhedos, os chamados lieux-dits, como Tête de Cuvée: Le Chaumes, Le Charlemagne, Le Corton, Les Renardes, e Le Clos du Roi.


Descendo em direção ao sul, temos a comuna de Savigny-Les-Beaune com vinhos deliciosos, mas nenhum Grand Cru. Somente Premier Cru na classificação atual em concordância com Lavalle na época. Sem surpresas.


Seguindo a sequência, temos a vasta comuna de Beaune, emblematizada pelos vinhos do Hospices de Beaune. Na legislação atual, não temos nenhum Grand Cru, somente Premier Cru. Para Lavalle, alguns lieux-dits merecem destaque com a classificação Tête de Cuvée, tais como, Aux Cras, Champs Pimont, Les Fèves, e Les Grèves. Le Clos des Mouches, vinhedo de muito prestígio nos vinhos de Drouhin, foi classificado como Première Cuvée.


Em seguida, temos a comuna de Pommard, os tintos mais rústicos da Borgonha numa sintonia fina. Chamados também, os “Barolos” da região. Nenhuma surpresa, nenhum Tête de Cuvée, nenhum Grand Cru na legislação atual. Destaques para os vinhedos Les Grands Epenots e Les Rugiens.


Ao lado de Pommard, a comuna de Volnay com vinhos completamente diferentes onde a delicadeza impera. Nenhum Grand Cru na legislação atual, embora com muitos Premier Cru. Já para Lavalle alguns vinhedos especiais com a classificação Tête de Cuvée. São eles: Les Caillerets, Champans, Les Santenots, e Clos des Santenots. Curiosamente, Clos des Chenes e Clos des Ducs não eram tão prestigiados como na atualidade.


Em Meursault, começam os grandes brancos da Côte de Beaune, embora sem nenhum Grand Cru na legislação atual. Para Lavalle, os climats Perriéres e Clos des Perrières são diferenciados, merecendo a classificação Tête de Cuvée. No mais, sem surpresas.


Seguinda a rota, vamos para Puligny-Montrachet. Aqui, embora tendo quatro Grands Crus de primeira grandeza: Montrachet, Chevalier-Montrachet, Batard-Montrachet e Bienvenues-Batard Montrachet, Lavalle só considera o grande Montrachet como Tête de Cuvée. Os demais são todos Première Cuvée. Pessoalmente, achei muito rigorosa a classificação, pois esses vinhedos embora com características próprias, são espetaculares nos principais Domaines.


Em Chassagne-Montrachet, a comuna vizinha, o mesmo critério. Somente o Le Montrachet foi considerado como Tête de Cuvée por Lavalle. No entanto, ele faz menção especial para alguns Premier Cru, tais como, Clos Saint-Jean, Morgeot La Boudriotte, e Morgeot Clos Pitois.


Na última comuna da Côte de Beaune, Santenay, sem maiores surpresas. Nenhum Grand Cru na classificação atual com alguns Premiers Crus. Para Lavalle, menção especial para os vinhedos Les Gravières e Clos de Tavannes.


Concluindo, as classificações evoluem com o tempo, ditadas pelas fusões de terroir, pelas modificações ocorridas nos climats, sobretudo pela intervenção humana, inerente a perpetuação das práticas vitivinícolas de acordo com as mudanças do homem moderno, sempre na adequação do vinho de acordo com seu tempo.

Vinhos Antigos: Privilégio para poucos

21 de Maio de 2019

Vinho, quanto mais velho, melhor!. Uma das maiores mentiras no mundo de Bacco. Nem cinco por cento dos vinhos elaborados no mundo são aptos a longo envelhecimento em garrafa. Entretanto, uma pequena parcela de alguns chateaux, domaines, sobretudo franceses, tem esse privilégio. Privilégio maior ainda são aqueles poucos mortais que conseguem com certa regularidade provar destas preciosidades. Estas pessoas, além de desembolsarem milhares de dólares ou euros em leilões, adegas particulares oferecidas, e outras fontes não reveladas, correm grande riscos nas falsificações e no próprio estado de cada garrafa. Lembrando que, em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas.

Vencidos os problemas de grana, e muita grana diga-se de passagem, falsificações, e sorte com as garrafas, degustar esses vinhos é como visitar o céu de vez em quando. A maioria das pessoas só ouvem falar de alguns mitos como Petrus, Romanée-Conti, Latour, Margaux, e muitos outros figurões. Alguns mortais, em situações de rara felicidade conseguem provar uma dessas garrafas através de amigos, degustações especiais, ou presentes inesperados. Nessas situações, fica gravado na memória aquela garrafa, aqueles aromas, aqueles sabores, tudo inesquecível. E aí vem a pergunta: será que esta avaliação foi precisa numa análise fria do vinho, sem isenção, ou a emoção de estar cara a cara com o mito fala mais alto?

Seguindo este raciocínio, em degustação recente publicada neste blog, Bordeaux 82, o Paraíso existe!, tivemos quatro garrafas de Lafite 82 em quatro flights distintos. Uma garrafa diferente da outra. Uma espetacular, uma bouchonnée, uma com aromas estranhos, e uma ainda fechada, de evolução lenta. Se cada pessoa pudesse provar uma destas garrafas, talvez não distinguissem essas diferenças por estarem maravilhadas com o rótulo. Mesmo a garrafa bouchonnée, não é todo mundo que reconhece.

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se acertar a garrafa, beba de joelhos!

A safra 85 foi maravilhosa na Borgonha em particular. Lembro-me de um Romanée-Conti desta safra numa garrafa perfeita. Aromas terciários incríveis e inesquecíveis. Na foto acima, um Mazis-Chambertin do Négociant Leroy do Hospices de Beaune 85. Em três oportunidades tivemos: uma garrafa maravilhosa, e as outras duas muito boas, mas não esplendorosa como a primeira.

Dentro deste universo de vinhos de guarda, há alguns já acessíveis em tenra idade, embora possam envelhecer com propriedade. É o caso dos chateaux Haut Brion e Cheval Blanc que são adoráveis em qualquer momento. Basta uma boa decantação. Isso para ficar nestes dois exemplos. 

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este trio tem muita história

Os chamados La-La-Las, foto acima, dispensam comentários num dos vinhos mais espetaculares em termos de longevidade. A idade parece não chegar para essas crianças com aromas terciários incríveis e um equilíbrio de boca singular. Cada qual pode ter sua preferência, mas não vou fazer distinção entre eles, pois já provei vários de todos eles e sempre espetaculares. Para ficar em apenas três safras: 85, 88 e 90. A elegância e sutileza de aromas destes tintos, elevam a casta Syrah numa outra dimensão.

Por outro lado, os mitos Petrus e Romanée-Conti são vinhos difíceis na juventude, um tanto duros, sem muita conversa. Portanto, diante deles, só mesmo o tempo para lapidar essas joias e revelar todo seu esplendor. Muitas vezes, mais de vinte anos são necessários para todo esse processo. Some-se a isso, características especificas de safra que podem atenuar ou intensificar este período de maturação em garrafa. Lembrando do Mouton 1986, este é um caso clássico de difícil  amadurecimento por ser de uma safra de taninos extremamente potentes e de lenta evolução. 

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talvez o único que possa encarar o Petrus de frente!

Poderia escolhe inúmeros Bordeaux já degustados, mas preferi mostrar o Pomerol acima, o grande Lafleur. Vinho introspectivo como o rei Petrus e de lenta evolução. A destacada participação da Cabernet Franc confere elegância, mas a estrutura da Merlot com taninos poderosos lembra o rival maior. 90 é uma grande safra que está ainda em evolução. Precisa de pelo menos duas horas de decantação. Outras grandes safras brilham para este chateau como a mítica 82, 100 pontos inconteste.

Dentro da família DRC, o caso mais evidente e didático quanto à maturação e acessibilidade dos vinhos são os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux. O primeiro, um tinto acessível, sensual, em qualquer idade que abri-lo, salvo características específicas de safra. Já o Grands-Echezeaux é um vinho duro, viril, completamente oposto à feminilidade de seu parceiro de vinhedo. Aqui, as questões de terroir falam mais alto, já que o produtor e a técnica de vinificação são os mesmos. Domaine de la Romanée-Conti possui as melhores localizações destes dois Grands Crus, onde os vinhedos estão muito próximos. Grands-Echezeaux fica na parte de cima do Grand Cru Clos Vougeot, fazendo divisa. As parcelas DRC de Echezeaux ficam imediatamente a norte de Grands-Echezeaux, praticamente coladas em sua divisa. No entanto, sutilezas de solos, relevo e inclinação do terreno, resultam em relevantes diferenças entre os vinhos. Só a Borgonha propicia este mistério. 

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Madeira: um vinho indestrutível!

De todos os fortificados portugueses, o Madeira impressiona pela extrema longevidade, quase imortalidade. O exemplo são os Madeiras do século XIX, foto acima, parecendo não ligar para o tempo. Aromas e sabores fantásticos e um equilíbrio perfeito em boca. Sobretudo o Terrantez, um dos Madeiras mais raros, é da categoria Frasqueira ou o equivalente a um Vintage. O vinho é de uma só colheita e passa pelo menos vinte anos em canteiros (estrutura de ripas que sustentam as pipas para não encostarem no chão), antes do engarrafamento. Este período extremo de oxidação, fazem destes vinhos algo quase imortal.

Na evolução em garrafa de grandes vinhos, o tempo, o silêncio e a escuridão da adega, fazem a transformação de algo incompleto, com arestas, e certa introspecção. Lentamente, os ácidos e álcoois do vinho em meio aquoso se transformam em ésteres, formando o chamado bouquet. Esta é uma transformação lenta e gradual, onde esses mesmos ésteres se decompõem em ácidos e álcoois, recomeçando o ciclo novamente. A não perturbação da garrafa neste longo período é fundamental para o bom andamento das etapas.

Por outro lado, os taninos conjuntamente iniciam um processo de polimerização, formando longas cadeias moleculares. Num determinado momento, por peso próprio esses taninos começam a precipitar-se formando os famosos depósitos, também chamado de borra. Daí, a necessidade de decantação de vinhos antigos, a fim de separar as partes sólidas do líquido límpido. 

Ficamos na França para elucidar o assunto deste artigo, mas a Europa de um modo geral, permite o mesmo raciocínio para outros vinhos e vinhedos, embora o arsenal francês em quantidade e qualidade dos grandes vinhos de guarda seja incomparável aos demais países.

 

 

Montrachet, Mer et Soleil

31 de Dezembro de 2018

Em meio a um cenário cinematográfico, nossa confraria desembarcou em Angra dos Reis para a última degustação de 2018. Numa organização impecável nas dependências do hotel Fasano, começaram a cintilar nas taças o brilho do melhor Chardonnay do mundo, sua majestade, Montrachet.

77727c88-0b6e-4476-9035-cab5b9be08aataças harmonicamente dispostas

Foram 19 Montrachets numa ampla variação de estilos distribuídos em seis flights às cegas. Os vinhos se dividiram sob as duas metades do vinhedo de aproximadamente oito hectares. Uma parte em Chassagne-Montrachet chamado Le Montrachet, e outra parte em Puligny-Montrachet, de vinhos teoricamente mais sutis. Os mapas abaixo, elucidam o fato.

Montrachet Maptudo gira ao redor dele

Para uma melhor visualização, clique no link abaixo onde aparece a área e a posição de cada produtor em uma das partes do vinhedo. São parcelas muito reduzidas tratadas como um verdadeiro jardim pelo viticultor.

Vale ressaltar que existem 18 proprietários e 26 produtores ligados às vinhas do vinhedo Montrachet. Portanto, aqueles que não possuem vinhas pode negociar as uvas ou os vinhos que são vinificados de acordo com rótulos acordados. É o caso de algumas garrafas nesta degustação.

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4f4bb681-315d-422e-9608-26db097bfb88primeiro flight

Muito equilíbrio entre Henri Boillot e Bouchard Père & Fils, mas Marc Colin é excelente. Por estar menos pronto, não encantou tanto, embora com grande potencial.

Marc Colin 2011 – extremamente mineral – apogeu em 2040 – nota 97 pontos. Sua produção é ridícula num dos mais exclusivos Montrachets. Fica na parte superior do lado esquerdo em Chassagne-Montrachet.

Bouchard Père & Fils 2011 – menos de um hectare de vinhas na parte leste do vinhedo em Puligny-Montrachet. Com 92 pontos, teoricamente parece ser o mais pronto do flight.

Henri Boillot 2011 – com 95 pontos, é um dos grandes destaques da safra num Montrachet elegante, bem ao estilo Puligny-Montrachet. Suas uvas são compradas para uma criteriosa vinificação e produção diminuta.

81362647-435f-4871-8ca2-f7d44f7ef9d2segundo flight

Fontaine-Gagnard 2011 – apogeu em 2035 – 95 pontos. Sua área de vinhas não chega a um décimo de hectare, situada no lado de Chassagne-Montrachet, vizinha às vinhas de Domaine Leflaive. Baixíssima produção.

Louis Jadot 2011 – Com 94 pontos, foi o grande destaque do flight. Um dos grandes negociantes na Borgonha, costuma comprar uvas e educar seus próprios vinhos.

Morey-Nominé 2007 – Pena que este vinho estava oxidado. Não é proprietário de vinhas e as informações sobre seus métodos são escassas.

f8277aa6-a073-455d-a306-b42355784e82terceiro flight

Um trio de titãs de estilos diferentes, mas igualmente deliciosos. Juntamente com o quinto flight, foram vinhos destacados na degustação.

Comtes Lafon 2011 – 93 pontos – com pouco mais de um terço de hectare, Lafon tem vinhas situadas no lado de Chassagne-Montrachet e elabora um estilo cremoso e sedutor.

Ramonet 2011 – 95 pontos – com área de vinhas semelhante a Lafon, sua localização encontra-se em Puligny-Montrachet. Num estilo muito elegante e incisivo, sua acidez refrescante tem um inconfundível toque cítrico.

Etienne Sauzet 2011 – 92 pontos –  Com vinhas na região de Chassagne e Puligny-Montrachet, deve cultivar vinhas no vinhedo Montrachet em parceria. Nesta safra em particular, parece que abusou um pouco da madeira mais evidente.

6383d374-7a32-43b5-9999-55f77149ed48menu variado e preciso

Em meio a tantos vinhos, um menu cheio de surpresas e texturas. Os pratos sutis de entrada aguçaram mais a mineralidade e o frescor dos vinhos, sobretudo os do lado de Puligny-Montrachet. 

O prato de massa e de atum trabalharam mais a textura e força dos vinhos, favorecendo os Montrachet do lado de Chassagne-Montrachet. DRC e Lafon brilharam nesta harmonização.

8034e6e0-4613-4e46-81fb-2adf13a18179quarto flight

Vincent Girardin 2011 – a grafia Le Montrachet sugere o lado oeste do vinhedo, Chassagne-Montrachet. Apesar de não ser proprietário, trabalha com uvas selecionadas, elaborando vários Grands Crus da “família Montrachet”. Foi destaque do flight.

Jean Chartron 2011 – 90 pontos. Poucas informações sobre o produtor, sugerindo uvas compradas ou vinhos que ele próprio educou. Sem grande destaque.

Jacques Prieur 2011 – 94 pontos – Com quase 0,4 hectare de vinhas no lado de Chassagne-Montrachet, mostra-se com boa presença e poder em boca.  Ainda novo, seu apogeu está prevista para 2030.

dab20b4a-b1fb-4b1b-8a88-0d72f653fa27quinto flight

Marques de Laguiche 2011 – 97 pontos – é o grande vinho desta safra num Montrachet com a maior área de vinhas, pouco mais de dois hectares no setor de Puligny-Montrachet. Com um estilo elegante imprimido por Drouhin, tem a personalidade dos Montrachets, já bastante acessível na juventude. 

Louis Latour 2011 – 92 pontos – Partilha vinhas de quatro parcelas do lado de Puligny-Montrachet. Costuma ser um Montrachet elegante. Costuma surpreender aqueles que só acreditam em produtores com vinhedos próprios.

Lucien Le Moine 2011 – 95 pontos – Com vinhas do lado de Chassagne-Montrachet, mostrou-se encorpado e intenso, sendo um grande destaque no flight. É uma pequena Maison situada em Beaune que só trabalha com vinhos Grand Cru e Premier Cru. Tem grande prestígio.

3741478d-fdeb-4fa6-b29c-d9bc1e59d9e6sexto flight. Pintou o campeão!

Baron Thénard 2011 – com pouco mais de 1,8 hectare de vinhas, é o segundo maior em área deste vinhedo. Situado no lado de Chassagne-Montrachet, seu vinho não costuma arrancar suspiros. É considerado o patinho feio da apelação.

Domaine Leflaive 2011 – 93 pontos – com menos de um décimo de hectare de vinhas, é um dos mais exclusivos Montrachets. Embora suas vinhas estejam do lado de Chassagne-Montrachet, a elegância de Madame Leflaive prevalece. Seu Chevalier-Montrachet costuma superá-lo, um vinho que beira a perfeição. 

DRC Montrachet 2011 – 97 pontos – é um dos destaques desta safra com rendimentos baixissimos, 37 hl/ha. Com três parcelas espalhadas no lado de Chassagne-Montrachet, este vinho costuma ser imponente e untuoso. Surpresa não ter ganhado a degustação, pois sua força é extraordinária.

Marc Rougeot-Dupin 2007 – Trata-se de um vinho de négociant numa safra precoce e muito bem pontuada. Essa é a grande explicação para o campeão. Neste momento e para esta garrafa perfeita da degustação, o vinho encontra-se no auge com seus aromas e sabores plenamente desenvolvidos. Numa degustação futura com esses mesmos vinhos, talvez possa ser uma decepção por já estar numa fase decadente. De todo modo, a verdade está na taça!

Parafraseando o autor inglês Hugh Johnson, quando for removido o último estrato geológico e cair a última gota de chuva sobre a Terra, ainda não se saberá porque a França é a grande Mestra dos vinhos. Esta confraria sabe …

Feliz Ano Novo a todos os confrades e a todos os leitores que pacientemente partilham das histórias de Vinho Sem Segredo ao longo do ano. Que venha 2019!

Mission quase Impossível!

19 de Dezembro de 2018

Muito se fala da reclassificação dos Chateaux em Bordeaux. Afinal, muita coisa mudou do fim do século XIX para cá. Um dos chateaux mais reivindicados para ocupar a posição de Premier Grand Cru Classé é o Chateau La Mission Haut Brion. Embora seja um chateau de Graves, mais especificamente de Pessac-Léognan, fica difícil manter só o Haut Brion, seu rival vizinho, como exceção na lista dos grandes do Médoc.

Nesta degustação que iremos comentar a seguir, fica mais uma vez provado, sua extrema qualidade, tradição, e consistência, safra após safra. As semelhanças de solos e da própria composição do corte bordalês, o deixa em pé de igualdade com o grande Haut Brion, embora a diferença de estilo entre os dois seja marcante. Segundo a crítica especializada, inclusive Parker, La Mission Haut Brion tem um estilo mais potente que seu arquirrival Haut Brion com maior estrutura tânica, sobretudo.

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parte do La Mission colada em Haut Brion

Esclarecendo o mapa acima, Chateau La Tour Haut Brion era um chateau independente ligado ao La Mission. E assim, até 2005, sua última safra, foi considerado tradicionalmente como segundo vinho do La Mission. A partir de 2006, deixa de existir La Tour Haut Brion para ser nomeado o Chateau La Chapelle La Mission Haut Brion como segundo vinho do La Mission.

Chateau La Mission Haut Brion

Área de vinhas tintas: 25,44 ha (48% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot e 11% Cabernet Franc). 5000 a 5600 caixa por ano. 100% carvalho novo com 22 meses de maturação.

Área de vinhas brancas: 3,74 ha (63% Sémillon e 37% Sauvignon Blanc). 550 a 650 caixas por ano. 100% carvalho novo de 13 a 16 meses de maturação. Vale lembrar que a partir de 2009 passamos a ter o La Mission Haut Brion Blanc, até então conhecido como Laville Haut Brion.

Feitas as devidas considerações, vamos aos flights degustados, mostrando características de safra e sua evolução em garrafa, principalmente em anos mais antigos. De modo geral, os vinhos surpreenderam muito em termos de conservação e longevidade. A década de 70 por exemplo, apresentou vários anos abaixo da média com notas desanimadores para a maioria dos chateaux. Com exceção da safra 69 com problemas de rolha afundada e entrada de ar na garrafa, além da oxidação do grande 75, os demais apresentaram um desempenho bastante satisfatório.

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La Mission 68, plenamente evoluído, mas sem sinais de oxidação. As safras 72 e 80 apresentaram um pouco mais de extrato e meio de boca, embora também já plenamente evoluídas. O 69 apresentou problemas nesta garrafa, conforme descrito acima. Começo animador!

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Um flight que poderia ser catastrófico, mostrou-se com muita consistência, embora com vinhos plenamente evoluídos. O La Mission 73 abaixo da média, mas o 74 surpreendeu pela elegância. O 77 e 84 se portaram muito bem, de acordo com as expectativas das safras. O 74 não aparece na foto.

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No flight acima, muito equilíbrio. Embora sem nenhum grande vinho, eles estavam corretos e plenamente evoluídos. 67 e 70, um pouco abaixo em termos de concentração. O 76 surpreendeu positivamente numa safra crítica. Por fim, o 81 um pouco acima dos outros, mais estruturado e vigoroso.

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É lógico que neste flight, a superioridade da dupla 78 e 85 foi marcante. La Mission 66 ainda com aromas deliciosos, embora bastante frágil nesta altura da vida. La Mission 78 tem uma estrutura impressionante. Parece não sentir o peso da idade com taninos poderosos. Já o 85, mais prazeroso, com menos arestas e aromas de grande finesse com toques terrosos e de estrabaria. Um salto considerável na degustação.

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Este flight só não se equiparou com o anterior porque o La Mission 75 estava oxidado, uma pena. A safra 79 bastante agradável, mas a dupla 82 e 83 se destacaram para encerrar a degustação. O La Mission 82 foi o mais próximo do monstruoso 78 com muita estrutura e vigor. Seus taninos são de uma textura incrível. O La Mission 83 embora delicioso e muito bem equilibrado, foi eclipsado pelo 82 bem a seu lado. De todo modo, um belo vinho.

IMG_5434o rival chegou para o almoço

Para enfrentar 20 safras de La Mission, o rival Haut Brion precisou apresentar-se no formato Imperial com a safra inquestionável de 1998. Apesar de mais jovem do que a média degustada dos La Mission, o vinho estava esplendoroso com 99 pontos Parker. No momento, tem muita fruta, muitos taninos finíssimos, e todo o perfil aromático dos grandes Haut Brion. Mesmo com 20 anos de idade, tem vigor de sobra para mais 20 anos em adega. Sem dúvida, será um dos grandes Haut Brion da história deste belíssimo Chateau.

recordando Babette …

No preâmbulo do almoço, foi servido um autêntico Caviar Beluga, impecavelmente fresco, fazendo par e à altura do champagne Cristal 2009, nota 95+ Parker. Aromas e texturas se fundiram perfeitamente, num final limpo e de grande frescor. Não sei o caviar, mas o champagne melhorou muito em relação ao filme …

fazenda sertao la mission 66 a 75La Mission Ato 1

Acima e abaixo, fotos da turma. Muito interessante esta experiência de uma vertical longa, passando pelas décadas de 60 ,70, e 85. Os vinhos foram decantados perto do momento da degustação, exceto safras como 75, 78, 82 e 85, abertas com mais antecedência, devido ao vigor das mesmas.

fazenda sertao la mission 76 a 85La Mission Ato 2

Fechamos o ano em alto estilo, confirmando o viés francófilo desta turma. Safras garimpadas com muita dedicação e conhecimento, procurando garrafas de ótimo estado e procedência segura. O nível de vinho nas garrafas surpreendeu positivamente e não tivemos nenhum bouchonné. 

um fantasma apareceu!

No apagar das luzes, eis que surge um Madeira 1880. Que elegância, que equilíbrio, que profundidade. Um Terrantez, uva praticamente extinta na ilha, provando que esses vinhos são realmente imortais. Eu não acredito em bruxas, mas elas existem …

Agradecimentos sinceros pela presença e generosidade de todos ao longo do ano, e em especial ao anfitrião, que nos recebeu com muito carinho, cuidando de todos os detalhes. Que venha 2019 com muita força, capaz de superar um ano tão intenso como 2018. Boas Festas a todos!

Minha Seleção 2018 ABS-SP

28 de Novembro de 2018

Como um dos Diretores de Degustação da ABS-SP, neste artigo faço uma seleção dos dez melhores vinhos degustados na entidade ao longo de 2018. Alguns dos critérios escolhidos foram preço acessível, disponibilidade do produto, originalidade, e uma seleção com vários tipos de vinhos. É evidente que se trata de uma escolha pessoal onde alguns outros vinhos também interessantes ficaram de fora. Enfim, os dez escolhidos seguem abaixo.

1. Huet Vouvray Pétillant Brut 2007

Este é o único espumante da lista, e ainda assim um Pétillant (pouquíssimo gás dissolvido no vinho). Essa era a maneira tradicional de se elaborar Vouvray na chamada Old School. Apelação importante do Loire onde reina a casta Chenin Blanc. O produtor dispensa comentários, Domaine Huet. Esse vinho, a princípio um branco tranquilo, é engarrafado com algum açúcar residual natural, muito comum na região. Com o passar do anos em adega, ele adquire uma pequena quantidade de gás dissolvida, resultado de lenta fermentação daquele açúcar residual pelas leveduras naturais presentes no vinho. O resultado é um vinho extremamente gastronômico, de rica textura, e leve efervescência das borbulhas. Aromas elegantes e complexos denotando mel de flor de laranjeira, maracujá, amêndoas, e notas de pâtisserie. Pode ser uma bela opção para entradas com foie gras ou patês de caça, especialmente aves. Um vinho que vale no mínimo, pela curiosidade. Importadora Premium (www.premiumwines.com.br). 

2. Viña Aquitania Sol de Sol Chardonnay 2009

Se não for o melhor, está entre os melhores Chardonnays chilenos. Mais do que ser muito bom, provou que pode envelhecer bem, pois este exemplar com quase dez anos, estava em seu esplendor. Ainda muito rico em frutas tropicais, madeira bem integrada, e um equilíbrio notável. Tem um estilo europeu, bem diferente do que se espera de um vinho chileno. Já um clássico do Chile, é elaborado com uvas do frio Valle de Malleco, bem ao sul do país. Importadora Zahil.

ABS 2018 RICCITELLI SEMILLON

Descorchados: 92 pontos

3. Matias Riccitelli Old Vines Sémillon 2017

Um branco que foge totalmente dos padrões argentinos, velhas vinhas de Sémillon plantadas no anos 70 na fria região da Patagônia, bem ao sul do país. O vinho é amadurecido por seis meses em barricas  (60%) e tanques de concreto (40%). O contato com as leveduras após a fermentação por algumas semanas, confere textura e complexidade ao conjunto. Bela riqueza aromática, mesclando ervas, mel, baunilha, e pêssegos. Sempre macio, sem perder o fresco. Notável persistência aromática. Importadora Winebrands.

 

números 4 e 6

4. Travaglini Gattinara DOCG 2012

Travaglini é a grande referência quando falamos de Nebbiolo da DOCG Gattinara. Localizada bem ao norte da denominação Barolo, seus vinhos primam muito mais pela elegância e sutileza, do que pela potência. Com toques florais e de alcaçuz, este tinto é muito equilibrado e elegante. Seus taninos são delicados para a casta em questão, além de expansivo em boca. Preço bem razoável para Nebbiolos deste porte. Importadora World Wine.

5. Cantina Cellaro Due Lune IGT 2013

Com a Sicilia em voga, este é o segundo de uma série de italianos da lista. Um corte clássico da ilha com Nerello Mascalese predominando (70%) e Nero d´Avola como coadjuvante (30%). O vinho passa cerca de oito meses em barricas francesas. Um tinto moderno, mas de muita tipicidade, com bom poder de fruta, toques tostados elegantes, florais, e chocolate escuro. Bem balanceado em boca, taninos de boa textura, e final bem acabado. Preço bem honesto para o que oferece. Importadora Casa Flora.

6. Castellare di Castellina Chianti Classico 2014

Dos vários toscanos degustados ao longo de 2018, este Chianti Classico chamou a atenção pela elegância e por seu preço honesto. Madeira bem colocada, aromas típicos da Sangiovese, e taninos muito bem moldados. Seu belo frescor o torna muito gastronômico. Vinícola tradicional da região histórica de Castellina in Chianti. Importadora Mistral.

 

números 5 e 7

7. Chateau Fayau Bordeaux Superieur 2015

Premiando a bela safra 2015 de tintos bordaleses, este Chateau relativamente simples, mostrou tipicidade, equilíbrio, elegância, e sobretudo bom preço. Neste típico corte bordalês, uma expressiva porcentagem de Cabernet Franc presente, dá um toque a mais de elegância ao conjunto. Pronto para ser tomado. Importadora Mistral.

8. Vinhas da Ciderma Grande Reserva 2007

Nas últimas degustações do ano, apareceu este belo tinto do Douro com castas locais, esbanjando classe e vivacidade. Embora já com dez anos de evolução, não denuncia a idade. Muita fruta no aroma, toques resinosos e de alcaçuz com taninos de ótima textura. Madeira bem equilibrada e bela expansão em boca. Ótimo momento para ser apreciado. Importadora Premium.

 

números 9 e 10

9. Quinta do Noval Porto LBV Unfiltered 2009

Podemos considera-lo como um mini-vintage, tal a concentração e qualidade deste Porto. Cor retinta, aromas de frutas escuras, toques florais, de torrefação e algo mineral. Seus taninos são densos e muito bem construídos. Doçura e equilíbrio notáveis, além de uma bela persistência aromática. Convém decanta-lo para aeração e também na separação dos sedimentos, já que não é filtrado. Dentro da categoria LBV é dos mais distintos. Importadora Adega Alentejana (www.alentejana.com.br).

10. Alois Kracher Noble Reserve Trockenbeerenauslese 

Finalizando a lista, um belo vinho botrytisado da Áustria. O produtor Alois Kracher é referência na região de Burgenland, famosa pela regularidade em propiciar o fenômeno da “podridão nobre”. Num corte inusitado de Welschriesling (Riesling Itálico), Chardonnay, e Traminer, o vinho é maturado em grandes toneis de madeira inerte. Com 195 g/l de açúcar residual, sua doçura é perfeitamente equilibrada por uma revigorante acidez. Os aromas marcantes de Botrytis, mel, flores, e pêssegos, são notáveis. Untuoso em boca e de grande persistência aromática. Pela complexidade e estilo de vinho, tem um preço bem convidativo na importadora Mistral. Vale lembrar, neste tipo de vinho estamos falando em meia-garrafa.

Passando por vários tipos, estilos, preços, e regiões de vinhos, espero que esta lista possa ajuda-los nas compras e presentes no fim de ano com a aproximação das festas e comemorações. As safras e preços podem ter sido alteradas ao longo do ano, mas nada que prejudiquem a qualidade e indicação destes vinhos. A maioria varia entre 150 e 300 reais. Aproveitem!


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