Archive for the ‘Champagne’ Category

La Tâche: a Tarefa Divina

27 de Junho de 2019

Degustar um La Tache é sempre momento de reverência. Um vinho cheio de energia, opulência, mais óbvio que seu arquirrival Romanée-Conti, mas sempre grandioso. Da família DRC, é o mais superlativo, entregando generosidade, profundidade, além da elegância e mistério dos vinhos de Vosne. Foi o que aconteceu num belo jantar entre amigos numa vertical do mito contemplando anos de várias décadas. La Tache tem um rica história que começa com seu vinhedo original de 1,43 ha, acrescidos posteriormente com os vinhedos Les Gaudichots de 4.63 ha. Ver artigo la tache .

4f8bbd62-141c-4d5e-bd3d-b2785ea5b246um arsenal de taças

Para iniciar os trabalhos, nada como champagne da Belle Époque, Perrier Jouet Rosé 2005 em Magnum. Um champagne mantendo a elegância da Maison com partes equivalentes de Chardonnay e Pinot Noir. Passa pelo menos cinco anos sur lies, antes do dégorgement. Perfeito para aguçar as papilas.

img_6223uma noite mágica!

Enquanto isso, time em campo já perfilado. Parece que o camisa 10 vai ser o 76, mas haverá belas surpresas. Afinal, treino é treino, e jogo é jogo. Flights às cegas.

9e2984f5-32e8-4b72-8954-4e52bb5bd42aa imponência de uma bela adega

A degustação seguiu em quatro flights com três safras cada um. Como tivemos dois 88 e dois 00, eles foram separados entre os flights provando que em safras antigas, vale a garrafa e não exatamente a safra. Um dos 88 estava claramente cansado, enquanto o outro permitia uma análise mais apurada. Já os dois safra 2000 brilharam, mostrando o lado feminino deste Monopole DRC.

img_6229dada a largada …

De cara, a grande surpresa da noite, La Tache 1981, safras dos amigos Pedro e Ivan. Um tinto que envelheceu maravilhosamente numa garrafa muito bem conservada. Os aromas de adega úmida, toques terrosos, de especiarias,  e notas de chá, permeavam a taça. Tudo que se espera dos grandes vinhos de Vosne. Não é uma safra potente, mas de uma elegância ímpar. Levou o flight com folga. Já o 94, um vinho mais duro, viril, de acordo com os taninos da safra. É resistente ao tempo e precisa de pratos suculentos para equilibra-lo. Por fim, o 88 prejudicado. Claramente cansado, não permitiu uma  abordagem mais precisa.

img_6230mais uma bela surpresa neste 2000

Neste flight, o segundo 88 estava mais inteiro. É uma safra dura, difícil, mas já está devidamente evoluído. Mostra um lado mais masculino do La Tache. Já o 89, um vinho adorável, de taninos docéis. Não é um vinho de tanta potência, mas muito prazeroso. Por úlitmo, o belo La Tache 2000. Um vinho extremamente delicado com toques florais, lembrando um Saint Vivant. Um vinho de muita energia e frescor, mostrando que delicadeza também pode ser marcante. Vinho de grande profundidade, equilíbrio, e longevidade. Vai fácil em mais dez anos de adega.

Expressões opostas de uma mesma uva

Uma pausa para brancos, e que brancos! Num clima frio e austero, Raveneau faz um Chablis de exceção, verdadeira referência para esta nobre apelação que traz mineralidade e tensão a um branco cheio de energia. Já o DRC no sagrado santuário de Montrachet, mostra opulência, maciez, com plenos sabores e longa persistência. Aqui a diferença entre os terroirs não precisa ser explicada. As taças falam por si.

Isa e suas criações …

Para acompanhar essas maravilhas, a anfitriã Isa nos brindou com um caldo de morilles para os flights iniciais do La Tache, enaltecendo os toques terciários dos vinhos. Já para a dupla de brancos, vieiras magistralmente ao ponto, estavam à altura dos grandes brancos da Borgonha.

img_6232flight equilibrado

Voltando à cena, este foi o flight mais equilibrado, embora o 2000 tenha dado mais um show. A safra 97 assim como 89, gerou vinhos de grande prazer, sem arestas, e muito agradáveis. No caso do 97, parece ter um pouco mais de extrato e estrutura. Ainda deve evoluir bem. Terminando com o 2001, este chega muito perto do 97. Um vinho ainda em evolução, mas com futuro promissor. No momento, ainda um pouco misterioso. Afinal, estamos falando de La Tache, um vinho que evolui por décadas. 

img_6234grandes promessas

Neste último flight, mais promessas que plenos prazeres, tendo claramente um infanticídio, La Tache 98. Uma safra de evolução lenta, um pouco duro no momento, e aromas ainda difíceis de se abrirem. No entanto, tem um bela estrutura para longa guarda.  Entre os 93 e 96, percebemos claramente a diferença de uma grande safra e outra de taninos mais duros como 93. Um vinho de grande extrato, mas que deve ser lapidado pelo tempo, amansando um pouco esses taninos um tanto nervosos. Já o 96 tem taninos e energia de sobra para galgar altos voos, mas a qualidade destes taninos é a diferença entre o couro rustico e a pelica. Uma textura prazerosa em boca neste 96 que merecidamente tem notas entre 94 e 97 pontos. O grande La Tache da noite em termos potenciais. 

a apoteose

Deixamos para o final, o La Tache 1976, um senhor de 43 anos e uma bela história de vida. Não teve como não lembrar do 81, o primeiro vinho do primeiro flight. Sem tecer comparações, pois obras de arte não se comparam, este senhor tem os traços da idade revelados em aromas terciários incríveis, pacientemente moldado pelo tempo. A boca é harmoniosa sem ser potente, mas com final tocante  e bem acabado. O silêncio depois de toma-lo diz tudo.

Para arrematar os últimos flights e este belo jantar, foi servida uma leitoa assada em seu próprio molho com couve e purê de banana da terra. A Isa realmente se superou!

combinação divina

final à francesa: prato de queijos

Fazendo um parêntese, entremeando o jantar foi servido uma porção de foie gras in natura com calda de caramelo e flor de sal. Nem precisa falar que acompanhou divinamente um belo Sauternes em garrafa double Magnum da histórica safra 2001. Nada mais, nada menos, que Chateau Climens, rei de Barsac. Embora de sub-regiões contiguas, os vinhos de Barsac costumam ser mais delicados que os untuosos Sauternes. Este em especial é 100% Semillon e um estágio em barricas por cerca de 20 meses. A delicadeza e profundidade deste vinho são marcantes com notas de mel, pâtisserie, e toques florais. Além do foie gras,  o vinho arrematou bem a sobremesa, p prato de queijos, e o final de prosa à mesa.

Agradecimentos a todos os confrades, especialmente aos anfitriões da casa que tão bem nos receberam. Degustação que deixará saudades, motivando os confrades a manter o alto nível dos temas que se segundo rumores, será Le Pin. Que Bacco nos ilumine!

Mouton Rothschild: do inferno ao céu

8 de Junho de 2019

Quando falamos de um dos cinco Premier Grand Cru Classé da classificação bordalesa de 1855, pensamos sempre na perfeição e em vinhos inesquecíveis. Porém, nem tudo são flores. O famoso Mouton Rothschild 1965 ficou marcado na história de Robert Parker como o pior Mouton já degustado. À época, ele concedeu a nota mínima de 50 pontos, execrando o vinho em comentários horripilantes. Neste contexto, resolvemos fazer uma pequena vertical de Mouton incluindo alguns velhinhos, entre eles o 65, mas também algo de maravilhoso como os Moutons 59 e 61, para não ficar uma má impressão do Chateau que realmente em algumas safras é espetacular.

mineralidade com sabores puros do mar

Para iniciar os trabalhos, a primeira baixa do almoço. Um Montrachet do produtor Ramonet 1995 oxidado, descendo a ladeira. Uma pena, pois em plena forma seria maravilhoso. Para recompensar e dar o troco à altura, um Krug Clos du Mesnil 2000 com 95 pontos despertou as papilas para sabores elegantes e estimulantes. Embora já com seus quase vinte anos, um champagne cheio de vida, mousse vivaz, equilíbrio perfeito, e aqueles toques cítricos com notas de gengibre. Final limpo, seco, mineral, quase cortante. Um espetáculo. Como diz a família Krug, é fácil me agradar, basta servir o melhor. Acompanhou muito bem alguns crudos de mare do restaurante Nino Cucina. Ver fotos acima, vieiras e atum.

img_6164os anos 60 nada dourados …

Neste primeiro flight, outra baixa de cara. O Mouton 64 nem foi para a mesa, tal o grau de oxidação do vinho. A grata surpresa foi o Mouton 62 em plena forma. Realmente, sua cor era mais intensa e com vivacidade surpreendente. Ele não tem a densidade das grandes safras, mas é equilibrado, elegante, e muito agradável no momento. Já o Mouton 63 num patamar inferior. Não estava comprometido, mas percebe-se a falta de extrato do vinho numa safra sem grandes emoções. Mais curto e bem menos rico que seu antecessor. Finalmente, o terror de Parker, Mouton 65. O bicho não é tão feio quanto parece, mas realmente nada animador. Seus aromas já evoluídos, não comprometem, mas a boca decepciona a cada instante que passa. É um vinho curto, sem fruta, deixando a boca seca. Seus poucos taninos são de péssima qualidade para a categoria do vinho, deixando um herbáceo desagradável no final de boca. Coitado do Parker …

belos pratos do Nino Cucina

Na foto acima, alguns pratos do Chef Rodolfo de Santis do Nino Cucina, sempre lotado. À esquerda, um tagliolini com molho de calabresa, massa fresca al dente. À direita, uma polenta taragna com vitela ao molho. Pratos muito bem executados, além da clássica sobremesa da Casa, torta della nonna com gianduia, última foto do artigo.

img_6166quase 200 pontos na mesa

Era para ser uma trinca, mas o Mouton 60 nem saiu na foto. Outra baixa lamentável. Um aroma forte de acetona com níveis de acidez volátil altíssimos. Finalmente, depois de alguns instantes no inferno e purgatório, eis que vamos para o céu. A dupla acima da foto, esta é bem afinada. O que impressiona de cara nos dois vinhos é a juventude desses senhores sexagenários sem nenhum sinal de decadência. O Mouton 61 neste embate parece estar um pouco mais pronto. Seus aromas são mais desenvolvidos, taninos finíssimos e de boa polimerização, além de um final harmônico e persistente. Por fim, o Mouton 59 com 100 pontos Parker, e um dos grandes da história. É só dar um pequeno zoom no Mouton 61 para chegar a ele. Tem uma cor mais marcante, seus aromas são um pouco mais fechados, e sua estrutura tânica é mais potente. Tanto o 61 como o 59 devem ser decantados por pelo menos uma hora antes do serviço. Dois tintos que realmente dignificam o prestígio deste grande Chateau.

img_6168dois grandes Sauternes

Podia ser uma parada realtivamente fácil para o grande Yquem, mas era outro vinho um pouco prejudicado. Embora da safra 99, sua cor estava evoluída demais para a idade e tinha um pontinha de acidez volátil acima do aceitável. Já o Rieussec 2005, em plena forma. Aromas intensos de pâtisserie, mel, flores. Boa untuosidade, bom frescor, e doçura agradável. Persistente e muito harmônico. Garrafa em excelente estado.

Tokaji Aszu acima de seis puttonyos

Passando a régua e adoçando um pouco mais o almoço, um Tokaji raro de 1993 com uma bela carga de puttonyos, medida em peso húngara para definir o grau de botrytis nos vinhos Tokaji doces. O Aszu Eszencia é um nível acima de 6 puttonyos que não é mais produzido, estando atualmente fora da legislação. Um estilo diferente do Sauternes, onde temos menos untuosidade e mais acidez dada pela uva Furmint. Muito equilibrado e revigorante. Seus aromas de favo de mel e rapadura eram marcantes e intensos.

É sempre bom frisar a diferença entre Aszu Eszencia e Eszencia. O primeiro, já explicado acima, é bastante intenso, mas com nível de doçura abaixo do raro Eszencia que normalmente fica entre 2 e 3 graus de álcool somente. Sua doçura que pode chegar a 600 gramas de açúcar por litro é compensada por uma surreal acidez acima de 15 gramas por litro. Um néctar para ser sorvido calmamente.

Agradecimentos a todos os confrades pela excelente companhia e generosidade, especialmente a nosso Presidente e seu assessor direto que hoje estava impossível. Matou todos os vinhos, sem delongas e sem comparações com outras amostras. Preciso estudar mais para acompanhar este pessoal. Que Bacco sempre nos acompanhe, seja no céu ou no inferno …

Bordeaux 82, o Paraíso existe!

12 de Maio de 2019

O ano de 1982 só não foi perfeito porque nossa seleção do saudoso Telê Santana lamentavelmente não levou o título mundial. Em compensação, Bordeaux teve sua safra gloriosa, generosa, em ambas as margens com uma das colheitas mais fartas de todo o século XX. Podemos pensar em safras como 53, 55, 59 (minha safra), 90, 95, 96, e as minúsculas mas espetaculares safras 45 e 61. Entretanto, os prazeres de provar um 82 são notáveis com vinhos no auge de seu apogeu, sendo que alguns ainda chegando em seu momento perfeito.

As perspectivas desta safra na época não eram muito animadoras pela crítica especializada, dizendo ser uma safra de acidez discreta, não apta a longo envelhecimento. Eis que surge a opinião de um jovem advogado americano contrariando os papas da época, afirmando ser uma safra de fruta esplendorosa, taninos abundantes, de textura sedosa, e com um extrato fabuloso para décadas de envelhecimento. Surge a partir daí, o mito Robert Parker, um americano ditando regras em meio à soberba francesa. Sua influência chegou a tal ponto, que a precificação de cada safra em Bordeaux dependia diretamente de sua avaliação e comentários.

Após este prefácio, tudo isso foi confirmado num memorável jantar no restaurante Fasano com um menu coordenado para quatro grandes flights.

as preliminares do jantar

À espera dos convivas, mesa posta e alguns drinks estimulando os sentidos como o clássico Dry Martini. Na recepção, ainda fora da mesa, uma trilogia de champagnes dando o tom do evento, foto abaixo. Salon 97 ainda uma criança. Cheio de tensão e mineralidade, suas borbulhas exibiam a delicadeza de um dos mais longevos champagnes. Como contraste, mas igualmente brilhante, um Cristal 82 maduro de uma bela safra. Champagne gastronômico, frutas maduras, cheio de brioche e pâtisserie. Borbulhas um tanto discretas, mas com uma textura inigualável. No meio do caminho, um Dom Perignon 2000, sempre elegante, delicado e estimulante. Nada melhor para esquentar os motores!

trilogia em Champagne

Sem mais delongas, vamos ao desfile bordalês com muitas surpresas e algumas decepções, fatos inerentes, sobretudo em degustações às cegas. As garrafas foram abertas e checadas pelo competente sommelier Fábio Lima, sob a batuta do mestre Beato. O maître Almir, patrimônio da Casa, coordenou a sequência de pratos à mesa.

img_6068-1vizinhos num desempenho brilhante

Neste primeiro flight, a primeira baixa. Montrose estava prejudicado com um “elegante ” bouchonné. Já os dois vizinhos brilharam, pois estão lado a lado na divisa de comunas entre St Estèphe e Pauillac. Lafite 82 talvez em sua melhor garrafa na noite, pois tivemos quatro delas, manteve a hierarquia num vinho elegante e aristocrático. Cos d´Estournel ratificou sua nobreza numa das melhores safras de toda sua história. Vinho de uma riqueza impressionante, bem estruturado, e longe de qualquer sinal de decadência. A primeira grande surpresa do jantar.

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o carneiro saltitante brilhou!

Neste segundo flight, mais uma baixa. O La Mission, um dos notas 100 de 82 estava um tanto estranho. Na verdade, seus aromas estavam muito redutivo, necessitando intensa oxigenação. Depois de um bom tempo na taça, mostrou sua elegância. Já o Mouton 82 quando a garrafa é perfeita, é um vinho quase imbatível. Exuberante, rico em aromas e uma textura extremamente sedosa. Outro grande que brilhou foi o Gruaud Larose que só não levou o flight, porque o Mouton estava perfeito. No entanto, este St Julien nesta safra especificamente, é um dos grandes destaques com uma consistência impressionante.

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aqui a hierarquia não foi respeitada

Embora os dois Premiers, Lafite e Mouton, sejam magníficos, estas duas garrafas não estavam em sua melhor forma, provando que em vinhos antigos, a garrafa é que manda e não a safra. Neste contexto, o Pichon nadou de braçadas numa garrafa magnífica. Realmente Pichon Lalande 82 é seguramente um dos cinco melhores  chateaux desta safra com uma elegância, equilíbrio e distinção, notáveis. É de fato, um super Deuxième. 

dois pratos de um menu em quatro atos

Num menu para vinhos desta estirpe, a delicadeza, sutileza e sintonia de sabores, devem andar em sincronismo. Para o primeiro prato, foi pensado algo que aguçasse os sabores terciários dos vinhos com uma Textura de Cogumelo. No segundo flight, para estimular e reavivar as papilas, um tartar de atum entrou em cena com vinhos mais frutados e de taninos mais dóceis. O terceiro prato, foto acima, era um risoto de pato com foie gras, valorizando os bordeaux de textura mais rica. Por fim, cordeiro em crosta de ervas e pistache, foto acima, dando suculência aos vinhos de taninos mais firmes e estruturados.

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St Estèphe brilhou novamente

Novamente uma baixa da degustação. Lafite 82 em sua terceira garrafa, com toques de oxidação e evolução estranha de aromas, algo resinoso. Leoville Las Cases 82, sempre um dos vinhos mais austero da safra, mas de muita sofisticação e sobriedade. Por fim, a segunda garrafa do Cos d´Estournel, magnífica. Levou o flight e se revelou de longe, a maior pechincha da noite. Um vinho que se encontra no seu esplendor com amplo platô de estabilização. Deve ainda dar muitas alegrias. 

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flight arrebatador 

Neste último flight, no apagar das luzes, eis que surge o único 86 da brincadeira. O grande Le Pin numa garrafa esplêndida. Só de peitar o grande Pichon, novamente numa garrafa perfeita, percebe-se a distinção deste grande Pomerol. O único margem direita e o único não 82, levou o prêmio da noite como melhor vinho, na opinião de muitos presentes. O Lafite também foi bem, embora de uma garrafa ainda meio tímida, frente ao desempenho perfeito de seus concorrentes de páreo. Pichon despediu-se glorioso nesta segunda garrafa, já deixando saudades de uma noite de sonhos.

A conversa continuou um pouco mais à mesa em meio a cafés, petits-fours, champagne, e grappas. Agradecimentos a todos os confrades, em especial ao Camarguinho, que com muita classe e fidalguia, proporcionou um encontro descontraído e bastante animado. Que o entusiasmo, generosidade, e cumplicidade, continuem reinando nesta confraria!

Bordeaux em quatro atos

27 de Abril de 2019

Neste cenário paradisíaco  aconteceu um belo almoço envolvendo Grand Cru Classés de Bordeaux, tanto da  margem direita, como da margem esquerda, em flights às cegas. A despeito da colocação  e preferência de cada um, não houve vencedores e perdedores. Todos os tintos mostraram seu valor, tipicidade de terroir, e porque são considerados ícones nas mais rigorosas avaliações da crítica especializada.

 

exclusividade para doze convidados

 

abrindo e encerrando o evento

Antes dos flights propriamente dito, a recepção foi regada a Dom Perignon 2006, uma safra generosa em aromas com certo toque de tropicalidade em seu estilo, geralmente mais austero. Champagne de 96 pontos já muito prazeroso no momento, mas com bom potencial de guarda.

Passando a régua, já com as sobremesas e charutos, um bebezinho em magnum foi servido para deleite dos convivas, Taylor´s Port Vintage 2003. Outra safra generosa em aromas, de grande corpo e concentração, mas ainda em tenra idade. Deve evoluir por décadas em garrafa, entrando na galeria dos grandes Vintages da Casa, a qual é uma de suas especialidades.

algumas das delicias do Chef Magaldi

O Chef Magaldi do buffet Fasano abrilhantou o almoço numa sucessão de pratos muitos bem executados. Alguns dos destaques que combinaram muito bem com os vinhos servidos foram o ravióli de zampone com ossobuco, e um corte de Wagyu ultra maturado e marmorizado de uma maciez e sabores impressionantes. Grande Magaldi!

img_6016confronto de margens

Sem mais delongas, vamos ao primeiro flight, num par de Moutons, ladeado por um Pomerol, Chateau L´Evangile. Na preferência dos convivas, L´Evangile ganhou com folga. Pudera, com 95 pontos Parker numa das melhores safras de Pomerol, o vinho esbanja fruta, certa maciez em boca, embora possa envelhecer com propriedade por longos anos. Com 72% Merlot e 28% Cabernet Franc, seu balanço entre graciosidade dada pela Merlot e uma certa estrutura e elegância advinda da Cabernet Franc, garantiram o primeiro lugar. 

Quanto aos Moutons, são muito parecidos em notas, 97 pontos para o 98, e 94 pontos para o de safra 96. A safra 98 para a margem esquerda, proporcionou vinhos um pouco mais duros, de taninos de longa guarda, razão pela qual o 96 mostrou-se mais gracioso, mais abordável no momento. Dois belos Moutons que devem envelhecer com muita dignidade.

img_6017sua Majestade, Chateau Latour

Um trio de Latours deu um ar de imponência à degustação. O Latour 88 já apresenta boa maturidade, embora possa envelhecer com tranquilidade por longos anos. Sua estrutura tânica e seu toque aromático de couro fino são notáveis. Foi o mais pronto do trio. A grande surpresa do flight foi a diferença de garrafas entre os dois 90 acima, provando mais uma vez que em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. Uma delas estava divina, vinho elegante, taninos de rara textura, e longo em boca. Já o outro exemplar de mesmo ano, parecia um pouco cansado, com aromas evoluídos para esta idade de garrafa. Davam a impressão de dois vinhos de safras diferentes, bastante didático.

img_6018Destaque para o Chateau Margaux

No terceiro flight, aparece um vinho de 100 pontos, Chateau Margaux 1990. Em todas as avaliações de Parker, consistentemente 100 pontos com apogeu previsto para 2040. Uma das grandes safras deste Chateau com taninos de veludo. Boca perfeita, aromas elegantes envolvendo cedar box, especiarias, e um toque de sous-bois. Longa persistência aromática e um final arrebatador.

Os outros dois do páreo não eram do mesmo nível de perfeição. O Haut Brion 86 que alguns acharam um pouco cansado, estava delicioso mesmo assim. Talvez pela safra, potente em taninos, o vinho ainda apresenta um estrutura impressionante com mais de trinta anos. Os aromas de cacau, couro e incenso, ratificam a elegância deste Chateau. Quanto ao Latour 93, o infanticídio do almoço. Muito novo para um Latour num dos melhores vinhos da difícil safra 1993. Um tinto ainda com taninos potentes, aromas um tanto fechados, embora muito elegante. Vinho de longa decantação para ser apreciado no momento.

img_6023Pavie, o único em Magnum do painel

Chateau Pavie 2004 degustado em Magnum, mostrou a sensualidade da margem direita. Fruta deliciosa com toques florais e uma boca firme, embora sedutora, num blend que além da majoritária Merlot, conta com as duas Cabernets, Franc e Sauvignon, proporcionando mais estrutura. Deve envelhecer bem em adega.

Chateau Haut Brion 2000, outro infanticídio com apogeu prevista para 2050. Um vinho praticamente perfeito com 99+ pontos Parker. Gostaria de saber de onde ele tirou um ponto deste vinho. Boca grandiosa, equilíbrio perfeito, e longa persistência final. Os aromas ainda são tímidos, mas com muita tipicidade. Ervas, estrebaria e um toque de tabaco. Um grande vinho, ainda muito longe do que pode oferecer de pleno prazer. 

Por fim, a grande injustiça do almoço, ficando na lanterna deste flight. É bem verdade que 95 não é uma grande safra deste Chateau. Contudo, Cheval Blanc é um dos vinhos mais elegantes entre todos os Bordeaux. Um bouquet fino, ricos em ervas e especiarias. Em boca, taninos delicados, bem integrados, e um equilíbrio dos grandes vinhos. Talvez, pelo nível alcoólico do pessoal nesta altura do campeonato, esses detalhes passaram desapercebidos.

img_6026mais um embate entre margens

Deu tempo ainda para mais uma dupla poderosa com 95 pontos cada um. No caso do Mouton, a safra 95 proporciona vinhos muito macios, elegantes e de taninos suaves. É um vinho muito gostoso de ser tomado com as notas de cassis, café e um leve toque de tabaco que será amplificado com o tempo em garrafa. No caso do Valandraud 2000, a maciez e sensualidade continuam por uma questão de terroir, onde a Merlot confere maciez e elegância, enquanto a Cabernet Franc aporta estrutura e firmeza ao conjunto. 

De todo modo, foram flights diversificados, curiosos em certos aspectos, mostrando a grandeza e pluralidade da mais fina região de tintos do mundo. Agradecimentos a todos os confrades, que proporcionaram momentos de alegria e descontração.

a hora da fumaça!

Já fora da mesa, cafés, fortificados e destilados entraram em ação. Cohibas das mais variadas bitolas, inclusive Behikes estavam à disposição. Grappas Poli, das mais refinadas da Itália estavam presentes nas versões com e sem madeira. Um pouco mais de conversas, piadas e risadas. Essa é a essência da vida.

img_6030para aqueles que ainda tinham sede!

No apagar das luzes, para os que tinham sede e alguns amigos de última hora, foram abertas mais duas garrafas dos rivais, Bordeaux e Bourgogne. Maison Leroy e seu elegante Volnay, um tinto  de Beaune dos mais delicados, convivendo com os vinhos de Meursault. Safra precoce e já bastante abordável. No lado bordalês, um dos destaques da safra 2003. Um vinho cheio de vida, rico em frutas e toques empireumáticos, lembrando café e notas tostadas. Boca ampla, cheia de taninos finos, e final expansivo.

Hora de ir pra casa e sonhar com os anjos. Agradecimentos especiais ao anfitrião pela imensa generosidade e simpatia em nos agradar sem limites. Que Bacco nos proteja e nos proporcione mais encontros memoráveis. Abraços a todos!

Petrus e a argila azul

7 de Abril de 2019

Fazer um time de Petrus do goleiro ao ponta esquerda não é tarefa corriqueira. O dream team foi composto pelas safras 70, 75, 76, 81, 83, 89, 90, 97, 98, 99, e um 2009, praticamente um feto. Além destes, um Saute-Loup 2010 em Magnum, vinho da família do rei Petrus, pouco conhecido na mídia.

52d7d9d7-f42e-4e4e-9578-c9bd80677b29o time todo no restaurante Parigi

Evidentemente, precisamos aguçar as papilas, antes de enfrentar esta seleção. Nada melhor que dois champagnes Dom Perignon safras 96 e 98 de longo tempo sur lies. A primeira 98 trata-se de um Oenothèque, antiga nomenclatura, e um maravilhoso 96 P2, nova nomenclatura para as chamadas “plenitudes”.

12 anos sur lies

Dois champagnes maravilhosos, mas de estilos diferentes. O 96 é extremamente mineral, agudo, de muita leveza, e longa persistência aromática. Já o 98, mais vinoso, mais gastronômico, e cheio de brioches. A preferência é pessoal, mas o 96 impressiona pela vivacidade com 97 pontos.

16 anos sur lies

img_5937velhinhos de respeito

Abrindo a degustação, este primeiro flight mostrou didaticamente a evolução de um vinho de guarda. Todos os principais aromas terciários estavam lá, adega úmida, cogumelos, trufas, notas de chá, especiarias, ou seja, os deliciosos aromas etéreos. O 83 é discretamente mais concentrado que o 81, mas ambos deliciosos.

img_5938trio de respeito, mostrando a força deste vinho

Neste segundo flight, subimos de patamar. O 97 e 99, num estilo mais abordável, de certa maciez, mostrou bela concentração de aromas e taninos finos. O 99 com um pouco mais de riqueza e estrutura, embora o 97 seja mais prazeroso no momento. Falando agora do 98, um verdadeiro mamute com 98+ pontos e um largo caminho a percorrer, buscando um apogeu esplendoroso. A estrutura tânica deste vinho impressiona e garante esta enorme longevidade. Para toma-lo agora com algum prazer, é necessário uma decantação de pelo menos três horas. Paciência com este monstro!

img_5941200 pontos na mesa

Neste terceiro flight, vinhos perfeitos, a despeito de estarem longe de seu apogeu. O 90 tem um lado mais delicado, bela acidez, e um equilíbrio perfeito. Já o 89, um tinto de mais opulência, uma riqueza de fruta extraordinária, e longa persistência final. A garrafa estava um pouco prejudicada com certa turbidez. De todo modo, um embate espetacular sem vencedores.

img_5942um trio para selar uma grande degustação

Neste ultimo flight, ficamos com os vinhos mais longevos e de grande pontuação, verdadeiros mitos deste grande terroir. O 76 menos badalado, mostrou bela evolução, com todos os componentes bem balanceados, maciez notável, e grande classe. Ótimo para ser apreciado no momento. O 75 de estilo parecido com o 98 acima descrito, tem um força extraordinária com taninos impressionantes. Já entrando em seu apogeu, é vinho quase imortal, sem nenhum sinal de decadência. Tinto impressionante. Deixamos para o fim, o melhor do almoço, o magnifico e feminino Petrus 70. Uma verdadeira poesia liquida com lindos toques de alcaçuz. Macio, sedutor, envolvente, uma das safras perfeitas de Petrus com 99 pontos. Não me perguntem onde o Parker tirou um ponto desta maravilha. O homem realmente é chato e exigente com os grandes Bordeaux.

Um pouco mais de Petrus …

petrus pomerol

Petrus: a Chave para o Céu

Petrus está para Pomerol, assim como Yquem está para Sauternes. São Chateaux hors-concours que dispensam apresentações por seus respectivos terroirs únicos. No caso de Petrus, seu solo é composto de uma argila azulada rica em ferro no platô de um outeiro numa altitude de 40 metros em relação ao nível do mar. Isso confere ao vinho uma riqueza de cor extraordinária e muda as características principais da Merlot, uva altamente majoritária na composição do vinho. No caso, é um Merlot rico em taninos, lembrando pela estrutura um Cabernet Sauvignon. Outra curiosidade é que depois de 60 a 80 centimetros abaixo do solo, esta argila se torna dura, não permitindo um aprofundamento das raízes. Portanto, elas crescem lateralmente, fazendo com que o espaçamento entre as vinhas seja maior que o habitual.

É um vinho de maturação lenta, sobretudo nas grandes safras, capaz de envelhecer por décadas. Somente o Chateau Lafleur possui estrutura semelhante.

O sucesso do vinho em termos de história é relativamente recente, já que Pomerol não possui nenhuma classificação oficial em Bordeaux. Somente depois da segunda guerra mundial, Petrus ganhou fama e prestígio no mundo quando foi apresentado na Casa Branca, onde as recepções eram regadas pelo tinto de Pomerol. Em especial, a família Kennedy era fã do vinho.

http://www.rendezvous.com.br/o-mito-petrus-com-olivier-berrouet/
O Link acima traz uma reportagem técnica muito detalhada com o atual enólogo do Petrus, Olivier Berrouet, filho do grande enólogo do Petrus, Jean-Claude Berrouet que produziu 45 safras do mítico vinho.

Por fim, os agradecimentos pela imensa generosidade dos confrades em proporcionar este encontro inesquecível. Independente do alto nível dos vinhos, a conversa e integração do grupo é o mais importante nesses encontros. Saúde a todos! 

Comida Brasileira com Requinte

5 de Abril de 2019

Por uma questão cultural, muitos pratos brasileiros ficam à margem do vinho, preferindo outras bebidas como cerveja ou cachaça. Entretanto, Chefs como Rodrigo Oliveira do Mocotó e Mara Salles do Tordesilhas, elevam o patamar de certos pratos tradicionais com muita técnica e conhecimento profundo da gastronomia regional brasileira. Foi o caso de um belo jantar privado, onde Mara Salles desfilou alguns de seus pratos como a tradicional moqueca e o típico barreado de Morretes, estado do Paraná.

delicadas borbulhas e exóticos decanters

Iniciando os trabalhos com alguns pasteizinhos, dadinhos de tapioca e casquinha de siri, o Dom Pérignon 2000 em sua maioridade fez bela parceria, mantendo aguçado o paladar dos convivas. Muito fresco, bela acidez, e a elegância de sempre, sem jamais parecer pesado. 

sutilezas nos sabores de ambos

Na combinação acima, é preciso aliar texturas para o alto grau de refinamento tanto do prato, como do vinho. O vinho embora já com seus 20 anos, apresenta um frescor incrível, mesclando algumas notas terciárias de frutas secas. A delicadeza do vinho permite ressaltar as notas aromáticas do prato como especiarias (pimenta) e ervas (coentro). No rótulo acima, a menção Corton-Vergennes refere-se  a um Grand Cru branco de Corton do lieu-dit chamado Les Vergennes, pertencente à comuna de Ladoix-Serrigny. Em linhas gerais, trata-se de um Corton com um pouco mais de corpo que o clássico Corton-Charlemagne, devido a uma proporção um pouco maior de argila sobre o calcário. Para entender melhor estes detalhes de terroir e legislação, o mapa abaixo tenta elucidar o fato.

Corton Grand Cru vignobleso intrincado mosaico bourguignon

A apelação Corton é um tanto complicada. Primeiramente, existe a apelação Corton-Charlemagne somente para brancos. Já a apelação Corton, predominantemente para tintos está dividida entre três comunas: Aloxe-Corton, Ladoix-Serrigny, e Pernand-Vergelesses. Uma pequena porcentagem de brancos pode ser feita sob a apelação Corton. No caso da garrafa acima, Les Vergennes é um lieu-dit da comuna de Ladoix-Serrigny, bem à direita em vermelho no mapa acima.

o tradicional Barreado de Morretes 

Para o prato principal, o clássico Barreado de Morretes, Paraná, onde carnes de boi mais duras são submetidas a longo cozimento em panelas com vedação de barro  por várias horas até o ponto em que as carnes começam a desmanchar. O prato é rico em temperos, acompanhado de banana-da-terra e arroz.

Para acompanhar um prato tão substancioso e ao mesmo tempo, agregando o talento e técnica de Mara Salles, foi escolhido um Vega-Sicilia Reserva Especial, normalmente um blend de três safras antigas do maior tinto espanhol. Neste caso, trata-se de uma partida de pouco mais de treze mil garrafas das safras 1965, 1967 e 1972, formando 45 barricas. Esses Vegas Reserva Especial são realmente espetaculares, pois todos aqueles aromas terciários do vinho estão presentes com lindos toques balsâmicos e de especiarias. Um tinto com força e elegância para acompanhar o prato.

um dos grandes Yquems da história

Encerrando o jantar, um Yquem histórico da grande safra 2001. Untuoso, cheio de Botrytis, e um equilíbrio perfeito. Ainda em tenra idade, mostra toda sua suntuosidade numa evolução lenta e progressiva. Seu apogeu está previsto para 2100. Acompanhou muito bem um sorvete de tapioca com cocada e calda de tamarindo. A untuosidade do vinho caiu como uma calda com o sorvete. Além disso, a doçura da cocada e a acidez do tamarindo foram bem confrontados pelo açúcar e frescor deste Yquem. Um fecho de ouro.

Porto Vintage e toda a turma reunida

Foram quatro garrafas de Vega regando o jantar com o prato principal. No finalzinho do encontro, eis que surge um Vintage Port da tradicional Casa Grahams numa das mais belas safras de Porto, 1977. Um Vintage com quase 50 anos entra naquela fase balsâmica, onde a textura e o tipo de fruta tornam-se um licor. Equilíbrio perfeito e um persistência final dos grandes vinhos. Não há forma melhor de encerrar um grande encontro.

Triunvirato em Vosne-Romanée

30 de Março de 2019

Quando falamos dos grandes vinhos da Borgonha, nomes como Montrachet, Chambertin, Musigny ou Vosne-Romanée soam como a sinfonia perfeita. Indo um pouco mais a fundo, dentro da comuna de Vosne-Romanée existem muitos astros, mas nada se compara à Santíssima Trindade formada por DRC, Leroy e Henri Jayer. Foram exatamente esses vinhos que nos fizeram sonhar num belo jantar no restaurante Gero.

 

Oenothèque: agora P2 ou P3

Alguma coisa fora do Triunvirato acima, só mesmo um Dom Perignon Oenothèque da maravilhosa safra 1996 para abrir os trabalhos. O degorgement foi feito em 2008, portanto, 12 anos sur lies. Champagne de grande frescor, mineralidade, leveza, parecendo um Blanc de Blancs, embora em sua composição entre pelo menos 40% de Pinot Noir. Acompanhou muito bem um delicado carpaccio de atum.

img_5885garrafa muito bem conservada

Passando aos brancos, começamos com um “intruso” muito bem-vindo, Domaine Etienne Sauzet Chevalier-Montrachet 1992. Safra de destaque para esta apelação, o vinho mostrou-se integro, sem sinais de decadência. Pelo contrário, aromas já evoluído, mas com frescor e muita elegância. Um toque de caramelo e de botrytis permeavam seus aromas.

img_5876embate de gigantes

Encarar um Montrachet DRC é tarefa para poucos, mesmo se tratando de outros Montrachets. Entretanto, estamos falando de Domaine d´Auvenay, uma reserva particular de Madame Leroy do que ela tem de melhor. A produção desses vinhos quando muito, chega a poucas centenas de garrafas. No caso deste Chevalier-Montrachet 2009, é um vinho com grande concentração de aromas e enorme presença em boca. Deixou o DRC até um pouco tímido, tratando-se de um vinho também de certa potência. Sua persistência aromática é bastante longa e expansiva. Para completar o mérito deste Chevalier, a garrafa do Montrachet DRC estava muito boa com uns aromas de umami, lembrando shitake fresco, toques minerais delicados e um fundo de mel. Bela comparação, mostrando a grandeza e a força do terroir nestas apelações tão exclusivas.

 

pratos do menu exclusivo

O carpaccio de atum com Dom Perignon e a sopa de lentilhas e bacalhau com o Montrachet foram harmonizações bem agradáveis. O champagne com seu frescor e mineralidade formou um belo par com os sabores de maresia e o toque cítrico do molho do carpaccio. Já a sopa de lentilhas com o bacalhau tinha intensidade e textura para acompanhar os Montrachets, sobretudo o DRC, calibrando bem a harmonia de sabores.

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A fidalguia do maître Ismael sempre nos confortando, e o serviço de vinhos eficiente do sommelier Felipe Ferragone, preservando todas as rolhas, faz do restaurante Gero um porto seguro.

 

acredite, é um Richebourg DRC

Os tintos começaram em alto nível com um Richebourg DRC 1961. O estado do rótulo, foto acima, é inversamente proporcional ao nível do vinho. Uma garrafa muito bem conservada e íntegra. O vinho tanto na cor, como na força de seus taninos não revelava a idade de quase 60 anos. Seus aromas terciários e de grande mineralidade revelavam sous-bois, toques terrosos, e frutas escuras. Equilíbrio perfeito em boca com longa persistência final. Acompanhou bem o risoto de ervas com guisado de cordeiro.

img_5881um dos vinhos mais raros e disputados

Com 94 pontos, este Richebourg do mestre Henri Jayer esbanjou elegância num estilo oposto ao DRC acima. Muito delicado, com aromas florais, especiarias, e um fundo mineral, o estilo Jayer prima pelas nuances e sutilezas. Um vinho para meditar num equilíbrio perfeito em boca. Já totalmente pronto, num belo platô de evolução. O mítico Richebourg 1978 é um dos tintos mais disputados em leiloes mundo afora. O próprio Henri Jayer declarou certa vez que o Richebourg 78 foi seu grande vinho de todas suas vinificações.

img_5880quase 200 pontos na mesa

Ponto alto do jantar, dois Cros-Parantoux de grandes safras. Para um Premier Cru, o vinho é de uma elegância que poucos Grands Crus possuem. O 93 é a safra mais bem pontuada, ainda com uma força extraordinária. O vinho não está totalmente pronto com taninos muito finos, mas ainda a resolver. Os toques terrosos e as especiarias são muito bem mesclados à fruta. Já o 85, é puro devaneio. Um tinto gracioso, cheio de feminilidade, boca sedosa, e um final harmonioso. Uma grande safra nas maões de um grande Mestre. Salve Henri Jayer!

img_5886o infanticídio da noite

No final do jantar, avaliamos duas promessas da safra 2004 para os DRCs. Um Romanée-St-Vivant delicado, floral, taninos suaves, já bem agradável pela idade. Por outro lado, um La Tache austero, com taninos ainda ferozes, precisando ser domado pelo tempo. Um estilo bem masculino que deve evoluir bem pelos próximos dez anos.

Enfim, uma noite memorável com belos vinhos e a boa conversa pra lá de animada. Agradecimento a todos os confrades pela generosidade e companhia. Um adendo especial ao nosso Presidente pela alta competência na análise dos vinhos, acertando às cegas de maneira categórica todos as ampolas do jantar. Sem nenhuma arrogância, ele nunca acha, sempre tem certeza, provando mais uma vez, que degustação técnica é treino e atenção aos detalhes. Contra fatos, não há argumentos. Parabéns Presidente!

Saúde a todos e que Bacco sempre nos proteja!

Latour e algumas preciosidades

17 de Março de 2019

Quando um Latour está sobre a mesa, os demais vinhos o reverenciam, independente de seus pedigrees. Entre champagnes, Domaine Leflaive, e outros margens esquerdas de prestígio, ele reinou absoluto. Antes de falarmos dele, algumas borbulhas, e brancos da Borgonha, deram início a um belo almoço no Ristorantino, Jardins.

estilos de champagne

Neste primeiro embate, grandes surpresas. Sempre tive em mente um estilo delicado e elegante para a cuvée de luxo Dom Pérignon, mas não pensei que fosse tanto. No confronto acima, Dom Pérignon conseguiu ser mais delicado que o Blanc de Blancs Robert Moncuit, um Grand Cru de Le Mesnil sur Oger, terroir de prestígio da Côte de Blancs, mesmas terras do Champagne Salon. Embora fosse 100% Chardonnay, o champagne Robert Moncuit tinha uma estrutura invejável com uma bela acidez. Seu estilo mais gastronômico pede pratos como ostras gratinadas, por exemplo. Encarou com galhardia o todo poderoso champagne da Maison Moët & Chandon.

frutos do mar num caldo com fregolas 

Dando sequência, uma dupla de brancos da Côte de Beaune, dois Premiers Crus. Um de Meursault, do vinhedo Genevrières do Hospices de Beaune 2001, e o grande Puligny-Montrachet Les Pucelles 2002 de Madame Leflaive, seu melhor Premier Cru. Aqui a disputa foi meio desigual. Primeiro pela questão de safras, agravado pela garrafa de Meursault fora de sua melhor forma, ou seja, um vinho um pouco cansado. O Les Pucelles em ótima forma, deu um banho de equilíbrio e elegância numa safra de grande destaque. Embora um Meursault com problemas, ficou notória a diferença de texturas entre os vinhos com o Puligny-Montrachet mais leve e elegante. O prato acima de frutos do mar deu eco aos sabores dos vinhos.

img_5823embate de gigantes

Nesta altura, o ponto marcante do almoço, dois belos Premiers Grands Crus Classés da mítica safra 1959. Latour neste ano foi um dos destaques com 96 pontos, um vinho quase perfeito. É impressionante seu vigor, sem nenhum sinal de decadência. Pelo contrário, esbanja juventude com taninos finíssimos. Bela expansão de boca com aromas multifacetados. Uma garrafa perfeita, assim como o Chateau Margaux a seu lado. Este, talvez tenha sido a melhor garrafa de Margaux 59 que já provei. O vinho estava divino com aromas plenamente desenvolvido, além de perfeitamente macio e envolvente no palato. Mesmo assim, não foi páreo para o Senhor do Médoc, sua majestade Latour.

alguns dos pratos do Ristorantino

Na foto acima, massa com ragu de pato e costela assada com lentilhas, acompanharam bem a força e elegância dos vinhos. Taninos mais polimerizados e aromas terciários pedem pratos com este tipo de perfil. Agradecimentos especiais a toda brigada do Ristorantino pelo serviço dos vinhos e atenção aos detalhes e taças.

img_58221982 na berlinda

Começando pelo Beychevelle 82, talvez a maior safra de toda a história do Chateau, é um vinho encantador, com a complexidade esperada de um Bordeaux envelhecido, sobretudo se tomado sozinho. Entretanto, deu um azar danado de estar ao lado deste gigante, inclusive na garrafa, uma double magnum magnífica, perfeitamente conservada do grande Latour. Pode ser considerado o vinho mais perfeito entre os grandes de 82. Uma cor inacreditavelmente jovem, taninos polidos, o fino aroma de pelica dos grandes Latour, e uma boca perfeita em equilíbrio e expansão. Embora ainda com muita vida pela frente, me pareceu mais acessível que o grande 59 comentado a pouco.

l´Enclos: a essência de Latour

A genialidade do terroir

Os vinhas em torno do Chateau, a construção principal propriamente dita, somam algo com 47 hectares denominado l´Enclos, foto acima. Um terroir único com quinze metros de profundidade de pedras, argila e areia, proporcionando uma drenagem excelente no terreno, e ao mesmo tempo, retendo um mínimo de reserva hídrica para os anos mais secos. Neste sentido, é o melhor solo do mundo para o cultivo da Cabernet Sauvignon que no caso do vinhedo l´Enclos, perfaz cerca de 80% da área. A alta porcentagem de pedras (50 a 80%) está entremeada entre areia e argila, formando as chamadas “croupes graveleuses”, leves ondulações no terreno, semelhante a campos de golfe. Esta maravilha esculpida ao longo de dois milhões de anos, tem pedras originárias dos Pirineus (divisa com a Espanha) e do maciço central ( terras francesas onde se cultiva o melhor carvalho do mundo), devido a cataclismos de outras eras geológicas.

Para alguns especialistas em solos de viticultura, l´Enclos é o melhor terroir de todo o Médoc, considerando  que o fator drenagem do terreno é o mais relevante na escolha dos melhores terrenos de margem esquerda. Lembrando o velho ditado médocain: “o solo do Médoc muda a cada passo”.

 e aquele Yquem para finalizar …

Embora 1946 não tenha sido uma grande safra em Sauternes, Yquem é sempre soberano. Sem aquela untuosidade dada pelos anos onde a Botrytis é mais intensa, é um Yquem elegante com perfeito equilíbrio entre acidez e açúcar. Uma garrafa muito bem conservada acompanhando uma seleção de queijos e sobremesas diversas. Doçuras e contrastes  em perfeita harmonia.

Enfim, mais um encontro memorável com amigos generosos, partilhando experiências e laços de amizade em torno do vinho e da boa mesa. Abraços a todos e que Bacco continue com suas bênçãos!

A sublimação da Grenache

10 de Fevereiro de 2019

O tema foi uma bela incursão pelo Rhône-Sul em busca de maravilhosos Chateauneuf-du-Pape, apelação emblemática e de grande heterogeneidade. Portanto, neste almoço no restaurante Gero, somente a fina flor de chateaux exclusivos onde a Grenache se manifesta magistralmente. Evidentemente, a maioria são blends na qual esta cepa predomina e imprime seu estilo franco e cheio de frutas em compotas. 

Oenothèque: antiga nomenclatura

Nada como abrir os trabalhos com Dom Pérignon, especialmente este Oenothèque com dégorgement feito em 2008 da bela safra 1996. Portanto, 12 anos sur lies, o que equivale a um P2 da nomenclatura atual. Champagne perfeito, perlage notável, mousse agradável e sedosa, os aromas delicados de pralina e toques amendoados, final rico e persistente. Não é a toa que trata-se das melhores cuvées produzidas  deste champagne de luxo nas últimas décadas com 97 pontos e muita vida pela frente.

bela harmonização

Em seguida, este branco exótico de vinhas antigas 100% Roussanne, o melhor branco do Chateau de Beaucastel. Vinho denso, concentrado, com toques de caramelo, flores, e algo balsâmico. Em boca, um pouco cansado devido à baixa acidez. Estes vinhos do sul do Rhône, normalmente pecam na longevidade por falta de frescor. Mesmo assim, ainda num ponto bom de ser apreciado, sobretudo acompanhando um belo Vitello Tonnato, brilhantemente executado. Harmonização surpreendente.

img_5651safra 2003: generosa

Já neste primeiro flight, o trio acima mostrou a que veio. Todos de alta gama com uma estrutura impressionante. O Beaucastel à esquerda, trata-se da cuvée Hommage a Jacques Perrin, só produzida em safras excepcionais como 2003. O fato curioso é que nesta cuvée há alta porcentagem de Mourvèdre, uva musculosa e tânica. Neste blend temos, 40% Mourvèdre, 40% Grenache, 10% Syrah, e 10% Counoise. Um vinho denso, taninos presentes, e o menos pronto do painel. Vai mais dez anos em adega, sossegado. 95 pontos Parker.

Chateau Pegau Cuvée da Capo, segundo vinho do flight, é outro vinho excepcional na concepção clássica de um Chateauneuf. Estão presentes as treze uvas da apelação, todas de vinhas centenárias nesta cuvée topo de gama. As uvas vêm de três terroirs consagrados, inclusive La Crau, um dos mais reputados da região. O vinho tem uma vinificação clássica, amadurecido em grandes tonéis. Muita fruta em compota, especiarias, garrigue (aroma de ervas provençais), e um equilíbrio notável em boca. Extremamente prazeroso no momento. 100 pontos Parker.

Roger Sabon é outro domaine de ponta com esta cuvée especial denominada “Le Secrets des Sabon” de vinhas centenárias com 95% de Grenache. Seria um fecho maravilhoso se o vinho não estivesse parcialmente oxidado, sobretudo em boca. Seus aromas tinham incríveis toques de cacau, além de taninos super polidos. Uma pena esta garrafa não estar em forma. 96 pontos Parker.

img_5654300 pontos na mesa

Segundo flight perfeito com vinhos magníficos em sua concepção na mítica safra 1990. Les Cailloux Cuvée Centenaire parte de vinhas antigas com 125 anos, sendo 85% Grenache e 15% Mourvèdre com rendimentos ínfimos de 15 hl/ha. O vinho tem uma riqueza de frutas extraordinária com toques de especiarias, alcaçuz e minerais. Boca macia, bem equilibrado, taninos absolutamente fundidos ao conjunto, e longa persistência final.

Nesta Cuvée des Célestins do gênio Henri Bonneau, ele seleciona as melhores barricas de safras excepcionais como 1990. É um blend de 90% Grenache complementada por um mix de Mourvèdre, Syrah, Counoise e Vaccarese. As uvas não são desengaçadas tal a maturidade do cacho na hora da colheita. Sempre com taninos presentes e de fina textura, seu equilíbrio é perfeito com notas de frutas em compota, especiarias, leves notas de estrebaria e um fundo de sous-bois. Uma pequena obra de arte.

O terceiro vinho completa a trilogia, Domaine de Marcoux Vieilles Vignes 1990. Com vinhas centenárias 100% Grenache, localizadas em três grandes terroirs da apelação, incluindo o imponente La Crau, o vinho tem uma vinificação clássica passando 18 meses em um mix de tanques de cimento e velhos toneis de carvalho. Um tinto super elegante, sensual, mostrando frutas em licor, alcaçuz, e finas notas de ervas e especiarias. Boca perfeita e final longo. Difícil definir o melhor, mas no momento só Henri Bonneau tem taninos mais presentes, capazes de boa evolução em adega.

img_5655flight surpreendente!

Pode não ter sido tecnicamente perfeito, mais foi o flight mais surpreendente pela presença de quase um intruso no páreo que foi colocado totalmente às cegas. Começando pelo Henri Bonneau com a mesma cuvée des Célestins dez anos mais nova, safra 2000. Está mais vigoroso que o 1990 por ser mais jovem, mas a concentração e qualidade de safra, um pouco abaixo, como era de se esperar. Mesmo assim, 94 pontos Parker.

Agora vamos falar de Rayas e suas surpresas. Chateau Rayas é algo fora da curva em Chateauneuf-du-Pape. Sua delicadeza e elegância fazem dele o Borgonha da região. Elaborado com uvas 100% Grenache de parreiras antigas num terroir único na região. O vinhedo de solo predominantemente arenoso fica em meio a um bosque, onde os dias são quentes e as noites frias, provocando a bem-vinda amplitude térmica, preservando a acidez das uvas sem prejuízo para sua plena maturação. Com 97 pontos Parker, este Rayas 2005 estava uma loucura. Aromas sedutores com notas balsâmicas, de frutas em compota, especiarias finas e um toque terroso notável. Taninos sedosos, totalmente fundidos ao conjunto, e um final de rara harmonia. Sempre um prazer provar um Rayas!

A surpresa ficou para o último vinho,  Pignan 2006, o segundo vinho do Chateau Rayas. O nome vem de três pinheiros que circundam o bosque ao redor do vinhedo. São uvas também 100% Grenache da parte norte do vinhedo com parreiras antigas e uma pequena parte, mais jovens. O vinho passa cerca de 16 meses em toneis de carvalho. Este exemplar estava divino pela prontidão do vinho. Em relação ao Rayas 2005, parecia um mais antigo de grande safra como 1990. Uma grata surpresa, provando ser este chateau, talvez o maior mito da apelação. Grande fecho de prova!

um intruso bordalês …

No apagar das luzes, eis que surge um bordalês para deleite de todos. Simplesmente um Petrus 1959, minha safra, engarrafado por Négociant, fato corriqueiro à época. Já comentei outras vezes, mais do que uma grande safra de Petrus, é ter a oportunidade de aprecia-lo já desenvolvido, já evoluído, entendendo assim a grandeza deste vinho. Os aromas eram deliciosos com muita trufa negra, toques terrosos, fruta em licor, e notas de cacau. Em boca, um pouco cansado, mas extremamente harmonioso, com tudo no lugar. Não está no time de cima dos grandes 1959, mas tem uma elegância e imponência ímpares. 

img_5660Rolhas intactas

Um dos pratos escolhidos pelos confrades foi o Bollito Misto (foto acima), sempre bem executado no restaurante Gero. Agradecimentos a toda equipe liderada pelo carismático Maître Ismael, além do trabalho primoroso de sommellerie de Felipe Ferragone na abertura e serviço de todos os vinhos.

60 anos transformam tudo

Nesses dois exemplares acima de Yquem, percebemos a grandeza de vinhos ícones que marcam a história de uma apelação. É impressionante como Yquem se impõe aos demais Sauternes. Neste exemplar de 1943, as décadas o transformam em outro vinho. O equilíbrio de açúcar e acidez é divino, numa harmonia notável. As notas de caramelo, melaço, toques de resina, são precisas e bem delineadas. Boca harmoniosa, expansiva, e quase imortal. Seu par à direita, ainda está na fase infantil, com notas de mel e crème brûlée. Intenso e com grande potencial de guarda.

bela combinação

Finalmente, para encerrarmos a aula sobre Botrytis, nada melhor que um belo Tokaji Aszu Eszencia 1993. Esta classificação não existe mais atualmente. Aszu Eszencia tem uma concentração de Botrytis entre 7 e 8 puttonyos (medida em peso de uvas botrytisadas). Este ainda feito à moda antiga, tem aquele charmoso toque oxidativo, lembrando frutas secas e damascos. Sua doçura é perfeitamente equilibrada pela incrível acidez da uva Furmint. Disznókó é uma das mais reputadas vinícolas com vinhedos históricos na região. A safra de 1993 é altamente pontuada como neste caso, 95 pontos. O nível de doçura e a textura do pudim de pistache foi de encontro às características do vinho.

Depois de quinze belas garrafas devidamente selecionadas, só resta-me agradecer aos confrades pela imensa generosidade e companhia. Um adendo deve ser feito a nosso Presidente, Mr. Parkus. O homem está insuportável em suas aferições às cegas, matando todos os flights degustados com segurança e argumentações precisas. Por enquanto, estou tranquilo, pois graças a Deus, ele ainda não escreve nada. Viva o Presidente! Saúde a todos!

Burgundy Cellar

5 de Fevereiro de 2019

A importação de vinhos no Brasil deveria ter mais Amauris de Faria. Homem refinado com vasta experiência de mesa e copo. Escolhe vinhos para Cellar, sua importadora sem sócios, graças a Deus, como se os escolhessem para beber. Com seu extremo bom gosto, basta este único critério. Se ofende com descontos, pois seus preços são absolutamente justos. Não tem aquela pegadinha infame de por uma gordurinha a mais para dar uma de bonzinho depois. Muito de seus vinhos são como Ferrari. Não se discute preço, apenas se escolhe o modelo.

Num jantar extremamente prazeroso, ele nos brindou com algumas surpresas bem instigantes, saindo do óbvio. Sutilmente, uma pequena aula de Borgonha. Antes porém, nada como um belo champagne para iniciar os trabalhos.

img_5598Blanc de Blancs com estilo

Larmandier-Bernier é um produtor artesanal e biodinâmico com 16 hectares de vinhas na Côte des Blancs, por excelência terroir de Chardonnay. Esta é uma cuvée especial só com vinhedos Grand Cru de idade avançada, entre 50 e 80 anos. O vinho-base, boa parte é vinificado em madeira inerte com longo trabalho sur lies. Este trabalho continua com a prise de mousse, onde permanece nas caves pelo menos sete anos, antes do dégorgement. Portanto, estamos falando de um Blanc de Blancs Millésime. A safra 2009 foi generosa com uma riqueza de fruta extraordinária. Pelas características acima, trata-se de um champagne cremoso, generoso, e altamente gastronômico. Por sua classe e equilíbrio, merece pratos de aves ou frutos do mar com alto refinamento. Uma galinha d´angola (pintade) com creme de morilles seria perfeito.

bela dobradinha!

Em seguida, uma dupla adorável de Borgonhas de apelações mais simples, extremamente indicada para o dia a dia. A apelação Saint-Romain esta fora do circuito das badalações, uma reentrância acima de Auxey-Duresse, próximo a Meursault. Um branco com ótimo poder de fruta, aliado a um trabalho exemplar de barricas. Na ótima safra 2015, um branco muito agradável aromaticamente, bem equilibrado, e com uma persistência surpreendente para um nível de vinho, teoricamente simples. 

Passando ao tinto, estamos falando de um Borgonha genérico elaborado e engarrafado pelo produtor, Michel Magnien, especialista nas comunas de Morey-St-Denis e Chambertin. Portanto, estamos falando de uvas da Côte de Nuits, a melhor área da Borgonha para Pinot Noir. Novamente a safra 2015 com seu esplendor de frutas. Um tinto delicado, elegante, e muito bem equilibrado em todos os quesitos. Por 160 reais, não vale a pena se arriscar em aventuras perigosas na ofertas de Pinot Noir sem expressão.

harmonização divina!

Aqui, o ponto alto do jantar com belos pratos na Trattoria Fasano. Este carpaccio de Namorado com temperos delicados e flor de sal, combinou maravilhosamente com o Chablis Grand Cru do vinhedo Les Preuses 2016 do Domaine Fèvre. São somente 4500 garrafas por safra de uma área de vinhas de 2,3 hectares, plantadas entre 1950 e 1973. O vinho tem um mix de aço inox com barricas de extremo refinamento. A mineralidade aflora tanto nos aromas, acompanhando lindos toques florais, como na salinidade em boca. Agudo, incisivo, com um frescor notável. Bela pedida para este verão insolente. 

img_5603Sancerre de estilo próprio

Neste último branco, Alphonse Mellot mostra um estilo próprio, sobretudo nesta cuvée Edmond. Os vinhedos somam seis hectares com idade entre 40 e 87 anos, em solos de marga pedregoso e subsolo Kimmeridgiano, o mesmo solo de Chablis com fosseis marinhos, também chamado de Virgule. É um Sancerre trabalhado em barricas de diferentes idades e tamanhos com longo contato sur lies. Portanto, trata-se de um Sancerre macio, com nuances de madeira, e sabores refinados. Um Sancerre feito à moda borgonhesa. Por ser muito gastronômico, fica ideal com ostras gratinadas e temperos sutis.

sutilezas à mesa

Passando agora aos tintos, toda a sutileza da Côte de Nuits no terroir de Vosne-Romanée. Este Premier Cru Les Beaux Monts fica na parte alta entre os Grands Crus Richebourg e Echezeaux. O vinhedo de solo pedregoso tem alta densidade com dez mil pés por hectare. As uvas são vinificadas parcialmente com engaço e o amadurecimento é feito em barricas 50% novas, de 15 a 18 meses. O resultado é um vinho elegante e sedutor. Taninos refinados e um equilíbrio perfeito entre álcool e acidez. Acompanhou divinamente esta costeleta à milanesa com tagliolini na manteiga de sálvia (foto acima). 

0a86f97d-9e30-4000-8675-f18a775b0671o brilho de um Grand Cru

Passando a régua, um brilhante Grand Cru de Vosne-Romanée, um Richebourg da ótima safra 2005. O que impressiona neste vinho é sua prontidão com todos os terciários de um Borgonha envelhecido de grande classe. Sous-bois, ervas finas, notas de caça, especiarias delicadas, e outros aromas maravilhosos. Thibault Liger-Belair possui este vinhedo na parte histórica, original,  da área de Richebourg. São apenas meio hectare de vinhas plantadas entre 1931 e 1936. A vinificação é feita parcialmente com engaço (30%) e o trabalho com madeira, extremamente criterioso. São 18 a 24 meses em barricas, sendo 60% novas. Pela cor (foto acima), percebemos a riqueza deste tinto com quase quinze anos de vida. Equilíbrio, elegância e longa persistência, resumem bem sua essência e complexidade. Um belo fecho de refeição!

Enfim, acho que o desfile de vinhos acima definem bem os critérios de Amauri de Faria. Seu amor pela França, sua paciência em garimpar preciosidades no mosaico bourguignon, conhecendo os atalhos onde pode-se perder facilmente, acaba sendo tarefa para poucos que ele não delega a ninguém. Sempre um privilégio partilhar de sua companhia. Que Bacco continue te iluminando!


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