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Varanda com Americanos

22 de Outubro de 2019

Essa é uma boa parceria, Varanda Grill e Cult wines americanos. Num ótimo almoço com uma das melhores carnes de São Paulo, o desfile de vários notas 100 da elite americana fez uma parceria de primeira em termos de harmonização. Carnes extremamente suculentas, grelhadas com maestria, foram agraciadas com os mais potentes e finos taninos dos grandes tintos de Napa Valley. Para iniciar e selar o almoço, um branco e um tinto da vinícola butique Sine Qua Non foram a cereja do bolo com vinhos arrebatadores.

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Antes de partir para os tintos de Napa, vamos falar desta dupla Sine Qua Non com vinhos mágicos e cheios de personalidade. Trata-se de uma pequena vinícola ao norte de Los Angeles com inspiração nos vinhos do Rhône. Portanto, uvas como Syrah, Grenache, Viognier, Roussanne e Marsanne, são interpretadas de maneira magnífica com vinhos impactantes. Os vinhedos estão localizados em Santa Barbara, Santa Rita Hills e Santa Maria com rendimentos muito baixos.

img_6789vinhos de corpo e alma

O vinho da esquerda, The Petition 2005, é um corte inusitado com as uvas Chardonnay, Viognier e Roussanne com 15,8% de álcool. Um branco denso, encorpado, quase um Sauternes sem açúcar. Os aromas são de frutas exóticas, especiarias, notas de incenso, e algo floral. Tem o perfil dos grandes Hermitages brancos de topo de gama. Enfrenta bem pratos com bacalhau, carnes defumadas, e cozidos bem condimentados. Tem 95 pontos Parker. Um branco impactante.

Já o tinto à direita, The Inaugural 2003, vem do vinhedo Eleven Confessions em Santa Rita Hills. O vinho é à base de Grenache com 10% de Syrah. Passa 38 meses em barricas francesas. Uma explosão de aromas de frutas em geleia, especiarias, ervas, notas defumadas e um fundo mineral. Encorpado, denso, e muito longo em boca. Lembra os grandes Grenaches espanhóis e até algo dos grandes Prioratos. Tem 100 pontos Parker e muita vida pela frente, embora já delicioso.

Cabernets e suculência das carnes

O vinho da esquerda, Dalla Valle Maya 1992, um Maya histórico de 100 pontos. Pena que o vinho estivesse um pouco cansado, mas seus taninos são de veludo numa mistura de 55% Cabernet Sauvignon e 45% Cabernet Franc. Aromas elegantes com toques de cacau, defumado, e fruta escura lembrando ameixas. Exemplar difícil de ser encontrado que está no auge para ser bebido.

À direita, o único 100% Cabernet Sauvignon do painel da AVA Rutherford, Scarecrow 2006. Decantado por duas horas, é um vinho poderoso com vinhas de mais de 60 anos. Embora tenha passado por barricas novas francesas, o vinho tem fruta extraordinária com belos toques de alcaçuz. Seus taninos são bem moldados e casou perfeitamente com a suculência das carnes acima.

napa valley rutherford oakvilleo filé-mignon de Napa

As AVAs acima, American Vitucultural Area, de Rutherford e Oakville, são os melhores terroirs para Cabernet Sauvginon americano. Do lado oeste, perto Mayacamas Mountains, o solo é aluvial e pedregoso, enquanto do lado leste, Vaca Mountains o solo tende a ser mais vulcânico. Vinícolas como Harlan Estate, Screaming Eagle, Dalla Valle, Opus One, Inglenook, Heitz Cellars, estão todas neste pedaço. Os Cabernets de Rutherford tendem a ser mais austeros, duros, enquanto os de Oakville são mais opulentos.

filé-mignon (tenderloin) perfeitamente grelhado

Este foi o vinho mais pronto, mais evoluído, e de estilo mais francês do painel. Um típico corte de margem esquerda com 93% Cabernet Sauvignon, 6% Cabernet Franc, e 1% Merlot, e 15 meses de barricas francesas novas. Delicioso com notas de tabaco, estrebaria, frutas escuras, ervas finas, café, além de taninos totalmente polimerizados. Não é muito longo em boca, mas superequilibrado. Casou perfeitamente com o corte acima divinamente grelhado ao ponto.

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200 pontos na mesa

O duelo final tinha que ser com 200 pontos na mesa em estilos completamente diferentes. Os dois partem de cortes bordaleses com Cabernet Sauvignon de maneira majoritária. O Madrona Ranch 2002 da vinícola Abreu localizada na AVA Santa Helena parece mais pronto e mais exuberante. É um vinho mais direto com perfil americano dos grandes tintos. Muito sedutor e extremamente aromático. Já o Harlan 2001 é mais um da extensa coleção de 100 pontos. É extremamente elegante, diferenciado e de estilo europeu. Aromas de muita classe e um equilíbrio em boca fantástico. É dificil um cult wine bater este vinho, sobretudo quando ele atinge a perfeição. Os dois vinhos merecem longa decantação no momento e tem poder de guarda em adega. É claro que o Harlan vai mais longe com apogeu previsto para 2040. O Abreu Madrona Ranch tem mais uns dez anos de evolução. De todo modo, um duelo de gigantes!

Agradecimentos a todos os confrades, especialmente ao nosso Presidente com vinhos surpreendentes e muito bem adegados. Foi um show de harmonização, boa conversa, e uma experiência sensorial incrível. Os Estados Unidos mais uma vez mostraram sua força e enorme competência em elaborar grandes vinhos. Que Bacco nos conduza sempre pelos melhores caminhos!

Achaval Ferrer e sua Trilogia

19 de Outubro de 2019

Achaval Ferrer, uma das bodegas argentinas mais premiadas, sempre com notas altíssimas nos melhores guias, sobretudo com sua encantadora trilogia de Malbecs: Finca Altamira, Finca Mirador, e Finca Bella Vista. É uma das minhas bodegas preferidas, no mesmo nível de Catena, Cobos e Noemia.

Num evento exclusivo de lançamento, a importadora Clarets mostrou boa parte da linha no agradável restaurante de carnes Cór. Desde os varietais de entrada de gama, passando pelo ótimo Quimera, e finalmente chegando na trilogia mencionada.

A ideia da Bodega é bem simples e de excelência. Buscar vinhedos que expressem o terroir com rendimentos muito baixos. No nível mais acessível, temos uma parreira para cada garrafa. No nível intermediário, temos duas parreiras para uma garrafa. E para a trilogia, temos três parreiras para cada garrafa, rendimentos encontrados somente nos grandes vinhos europeus. Para se ter uma ideia dessa exigência, são menos de meio quilo de uvas por parreira.

Os vinhedos se concentram em zonas nobres de Mendoza. Na zona Alta do  Rio Mendoza, temos vinhedos em Luján de Cuyo, além de áreas bem situadas no Valle de Uco. Algumas das vinhas são de parreiras centenárias ainda em pé franco.

Começando pela linha básica de varietais como Malbec, Cabernet Sauvignon, e Cabernet Franc, as uvas vem dos vinhedos em Pedriel, Medrano, La Consulta, e Tupungato. Os dois primeiros em zonas mais baixas, aportam corpo e estrutura, enquanto La Consulta e Tupungato no Valle de Uco, conferem frescor e elegância. Vinhos muito equilibrados, extraídos na medida certa, trabalhando com rendimentos em torno de 30 hectolitros por hectare, fatores que para este padrão de vinho, estão bem acima da média dos concorrentes.

Já no segundo nível dos vinhos, temos o consistente Quimera. Aqui se trabalha com mescla de vinhedos e mescla de varietais, portanto um corte. O vinho baseia-se na Malbec com aporte das uvas Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot. Um trabalho de doze meses em barricas francesas. São 36 hectares de vinhas com rendimentos em torno de 18 hectolitros por hectare. Um vinho de concentração impressionante que deve ser decantado.

A Trilogia dos Malbecs

Começando pela Finca Mirador, um vinhedo de seis hectares com vinhas de 1921 em Medrano a 700 metros de altitude. O solo tem 80 cm de uma capa argilo-limosa com subsolo arenoso e pedregoso. Os rendimentos são de apenas 12 hectolitros por hectare e o amadurecimento em barricas francesas por 15 meses.

Já na Finca Bella Vista, estamos em Pedriel, Luján de Cuyo, a 980 metros de altitude. Esta Finca tem mais de cem anos com vinhas todas em pé franco. São 12 hectares de vinhas com rendimentos de 14 hectolitros por hectare. O solo começa limo-arenoso e se aprofunda em areia e pedras.

Por fim, temos Finca Altamira, um vinho premiadíssimo, localizado em La Consulta, Valle de Uco, a 1050 metros de altitude. São seis hectares de vinhas datadas de 1925 plantadas em pé franco. Nestas condições temos 400 gramas de uvas por planta. Um vinho que alia concentração, elegância e extremo equilíbrio. 

Champagne Philipponnat dando o tom do jantar

A recepção não poderia ser melhor, champagne Philipponnat de entrada aguçando as papilas para uma sequência de tintos da bodega em questão. Champagne de muita delicadeza, frescor notável, e muito equilíbrio. Embora com dois terços de Pinot Noir em sua composição, é um champagne de extrema leveza, ideal para aperitivar.

o cartão de visitas da bodega

Muito se conhece de uma bodega pelos vinhos de entrada que a mesma oferece. Achaval Ferrer e sua linha de varietais mostra tipicidade, concentração, e vinhos muito bem acabados. O destaque de entrada ficou com o Cabernet Franc, um tinto muito elegante para esta categoria de vinho. Ficou muito bem a linguiça artesanal, enfatizando as notas apimentadas. Já os bolinhos e os croquetes ficaram muito bem com o Malbec, sobretudo pelas texturas. Um Malbec de muito frescor e pureza de frutas. Por fim, o Cabernet Sauvignon mostrou taninos bem trabalhados e um ótimo equilíbrio em boca.

um tinto deliciosamente gastronômico

Nesta segunda etapa, um salto de concentração gigantesco. Este blend da bodega chamado Quimera é realmente muito bem elaborado. Mesmo em safras distintas, seu padrão de qualidade é elevado. Na safra 2015, temos um vinho mais redondo, de bom corpo e taninos abundantes e macios. Já na safra 2016, um vinho mais elegante, mais fresco, com certas nuances não encontradas na outra safra. De todo modo, Quimera foi o parceiro ideal das carnes dry aged servidas, harmonizando com perfeição seus potentes taninos com a suculência dos cortes New York Strip e Prime Ribe, bife de chorizo e bife ancho, respectivamente.

img_6782vinhos que expressam terroir

Por fim, a trilogia esperada, todos da safra 2014. O caminho começa pelo Finca Mirador, um tinto de boa presença em boca, taninos finos, e longa persistência aromática. Seu grande mérito é equilibrar bem potência e elegância. Em seguida, Finca Bella Vista. Um tinto impactante, de bom corpo, taninos poderosos e muito finos. Uma fruta quase doce, e um final bastante expansivo, bem de acordo com os Malbecs de Luján de Cuyo. Finalmente, Finca Altamira, Valle de Uco. Um tinto com um frescor impressionante. O mais mineral da trilogia, fruta vibrante, e um equilíbrio notável. Pede carnes de textura mais macia e com algum teor de gordura para confrontar sua rica acidez. Um final de prova marcante, delineando claramente a proposta dos três tintos em expressar seus respectivos terroirs.

um final elegantemente doce …

Fechando o jantar, a importadora Clarets mostrou mais um pouco de seu rico arsenal francês, Chateau Doisy-Védrines. Um Sauternes delicado da região de Barsac. Próximo ao Chateau Climens, os vinhos de Barsac primam pela delicadeza e toques florais. Acompanhou muito bem a sobremesa de abacaxi grelhado e sorbet de manga. Os toques tropicais foram muito bem com o vinho.

Agradecimentos à importadora Clarets pela oportunidade, personificada na presença do simpático casal, Guilherme Lemes e Keren Marchioro. Seguindo a tradição de jantares especiais, a Clarets mostrou mais uma vez sincronização e detalhismos impecáveis. Parabéns pela nova aquisição com a bodega Achaval Ferrer, sempre uma referência aos melhores vinhos mendocinos.

A santíssima trindade francesa

13 de Outubro de 2019

Quando juntamos Champagne, Bourgogne e Bordeaux, só pode sair coisa boa. São regiões modelos em seus estilos de vinhos com várias cópias mundo afora, mas poucas com sucesso. Foi o que aconteceu num agradável almoço com meu amigo Roberto Rockmann onde a enogastronomia reinou soberana.

casamento perfeito

A entrada começou arrasadora com o excelente champagne Agrapart, um dos mais premiados na atualidade. Trata-se de um millésime 2012 Blanc de Blancs de vinhedos Grand Cru sob a cuvée Mineral. É exatamente esta palavra que define esta maravilha. Passa cinco anos sur lies antes do dégorgement. Sua versão extra-brut tem apenas 3 g/l de acúcar residual. Extremamente seco, mineral, acidez cortante, e toda a classe da Chardonnay neste terroir calcário. Corpo leve, elegante, final salino, de muita sapidez. Não é à toa que este champagne tem 95 pontos com apogeu previsto para 2030. O carpaccio de salmão com molho de limão siciliano, azeite, sal, mostarda de Dijon e mel, ficou perfeito. A acidez de ambos bem como as texturas se equilibraram perfeitamente. O sabor de peixe in natura com o molho valorizou o sabor delicado e inciviso do champagne. Uma combinação leve e estimulante para o andamente do almoço.

outra harmonização de classe

Não é todo dia que nos deparamos com um Corton-Charlemagne do tradicionalíssimo produtor Bonneau du Martray 2004. Um vinho de extrema classe, cheio de sutilezas. A madeira dá uma leve pincelada em seus aromas que mesclam frutas brancas delicadas, notas florais e um fundo mineral. Sua textura em boca é singular, lembrando um Chablis Grand Cru. O que mais impressiona neste vinho é sua juventude, embora já com quinze anos. Tem acidez e estrutura para ganhar pelo menos, mais dez anos em adega. Essa textura delicada foi muito bem com o cuscuz marroquino com caldo de frango feito em casa, cenoura, pimentão vermelho e um toque de gengibre para levantar o sabor. As vieiras com o coral por cima foram levemente grelhadas, onde posteriormente foi feito um redução com saquê e molho de ostras. O sabor adocicado das vieiras encontrou eco nas frutas do vinho e sua textura levemente amanteigada. Sabores de muita classe e sutileza se harmonizando perfeitamente.

mais um ótimo nota 100

No prato principal, Bordeaux não deixou por menos, La Mission Haut Brion 1989. Um vinho com 30 anos que ainda não está totalmente pronto, mas incrivelmente delicioso. Uma aula de taninos em profusão de rara textura. Seus aromas terrosos, de tabaco, ervas finas e um fundo de café, são de extrema classe. Em boca, outra perfeição. Não sobra álcool, acidez, e nem taninos, tudo em harmonia. Persistência aromática notável. O blend La Mission tem alta proporção de Merlot, embora a soma das Cabernets seja majoritária. O vinho passa pouco mais de 20 meses em barricas novas, totalmente integradas ao conjunto. O filé com ervas frescas à milanesa acompanhado de tagliatelli com molho de funghi porcini ficou muito adequado aos aromas e a classe deste grande tinto. Os terrosos do vinho com o funghi foi um caso à parte. O vinho pode se expressar em sua plenitude sem ser arranhado pelo prato. Um gran finale!

a mousse reconfortante!

Adoçando agora o paladar, uma deliciosa mousse de morangos frescos com sua própria calda. Ao final, uma bela grappa Levi estupidamente gelada, refrescando e animando o paladar para fora da mesa, onde Puros e destilados fechariam a tarde.

Trinidad e Hoyo de Monterey com Fine Bourgogne DRC

Um belo café, Porto Reserva, dando início aos Puros. As duas marcas muito elegantes com charutos de média fortaleza. Após o primeiro terço, Fine Bourgogne DRC, um brandy da região, Cognac Martell e  Bourbon Wild Turkey Rye 101, formaram o arsenal para baforadas mais intensas. 

Almoço bom é assim, começa com champagne e termina com fumaça, além de um meio de campo bem recheado. Que outros venham em breve!

Trufas e Italianos

28 de Setembro de 2019

Nesta época do ano, começam a chegar as famosas trufas nos restaurantes. Qualquer prato relativamente simples fica altamente sofisticado com o acabamento final das trufas. Gentis lâminas raladas na hora, exalando aqueles perfumes maravilhosos. E na hora de combinar o vinho, todo mundo lembra que Barolo ou Barbaresco são seus parceiros. Só que pouca gente lembra que o mais importante não é ser Barolo ou Barbaresco e sim, esses vinhos estarem envelhecidos com aromas terciários. De fato, aqueles aromas étereos das trufas só podem combinar com aromas e sabores etéreos dos grandes vinhos com notas terrosas, defumadas, empireumáticas, alcatroadas, e não aromas frutados de grandes vinhos jovens.

Seguindo este raciocínio, os grandes Bordeaux envelhecidos também são ótimas opções, sobretudo tintos como Lafite e Ducru-Beaucaillou que possuem estilos mais delicados e etéreos em seu envelhecimento. Belos Saint-Estèphe como Montrose por exemplo, lembram algo de Barolos em seu envelhecimento. Os tintos do Rhône não ficam atrás, principalmente os Côte-Rôtie, mais delicados e mais etéreos em seu envelhecimento. Um dos La La Las de Guigal devidamente envelhecido, digamos safra 88, são maravilhosos com esses iguarias. Sem esquecer dos brancos, os Borgonhas envelhecidos são também esplendorosos com trufas. Vale também para os grandes tintos. Outro branco envelhecido que vai muito bem são os grandes Hermitages, sobretudo do produtor Jean-Louis Chave.

Enfim, por questões de tipologia, sofisticação combina com sofisticação. Sendo pratos elegantes e extremamente caros, as trufas vão combinar com os grandes vinhos envelhecidos que só envelhecerão bem, se forem grandes. Portanto, uma coisa puxa a outra.

Numa bela experiência no restaurante Parigi, testamos alguns vinhos com elas, todos italianos, embora dois grandes franceses apareceram para serem apreciados como vinhos em si. Todos os pratos foram trufados, seguindo alguns no decorrer do artigo.

dois gigantes na denominação Barolo

Na foto acima, esse Bruno Giacosa 1990, Barolo de Serralunga d´Alba, estava maravilhoso com 98 pontos mais que merecidos. Um vinho de livro mostrando claramente o terroir austero de Serralunga d´Alba. Os taninos ainda presentes, estão polimerizados e de uma finesse impressionante. Os aromas são um show à parte. Notas defumadas, de alcaçuz, cacau, funghi porcini, cerejas em licor, realmente sensacional. Foi o que melhor combinou com as trufas, sobretudo este tagliolini (foto acima) na manteiga, muito bem executado. Um dos pontos altos do almoço.

df306b73-9b93-4904-bed0-5622ea99d96eum dos melhores Barolos já elaborados!

Considerado pelo mestre Bruno Giacosa, um dos melhores terroirs de Serralunga d´Alba, o vinhedo Falletto goza de exposição privilegiada e solos ricos em calcário. Os famosos rótulos “red label” são destinados às safras excepcionais com menção Riserva no canto superior do rótulo. Tradicionalista ferrenho, a vinificação passa por longa maceração e o amadurecimento nos tradicionais Botti (toneis eslavônios de grandes dimensões). Realmente este 90 é uma obra-prima!

Quanto ao segundo Barolo testado, Aldon Conterno Romirasco 1993, ainda não estava pronto. A cor, bem menos evoluída que o Giacosa 90, e os aromas um tanto fechados. A boca mais austera, sem o brilhantismo de seu concorrente. Romirasco é um dos três vinhedos de Aldo Conterno na comuna de Monforte d´Alba, sendo o principal vinhedo na composição do grande Granbussia, o ícone da vinícola. Os outros dois vinhedos são Cicala e Colonnello.

gnocchi e carpaccio com trufas

No caso do gnocchi acima, o Romirasco ficou interessante, sobretudo por causa das texturas. O gnocchi com uma textura mais cremosa, acompanhou bem a textura mais robusta do Romirasco em relação ao Giacosa 90. Já na parte aromática, o Giacosa 90 foi imbatível. Enfim, os dois ficaram muito bons.

ótimos vinhos em patamares diferentes

Começando agora pelo Morey-Saint-Denis do Dujac, a safra é maravilhosa e ajuda mundo nesta categoria da Borgonha. Para um Village, o vinho está muito sedutor. Fruta intensa e de grande pureza, além de um equilíbrio notável, mostrando claramente a delicadeza desta comuna. Trazido a preços atraentes pela importadora Clarets.

Passando agora ao Supertoscano, um grande destaque do almoço, a cuvée d´Alceo é a mais alta categoria da azienda. Além disso, a safra 99 foi o melhor vinho já elaborado na vinícola com 99 pontos de puro prazer. Nesta safra, temos 85% Cabernet Sauvginon e 15% de Sangiovese. Atualmente a Petit Verdot substitui a Sangiovese no corte. O vinho estava uma maravilha, surpreendentemente jovem, ainda com um rubi profundo na cor. Um vinho denso em boca, refletindo bem este terroir do Chianti Classico em Panzano in Chianti. Este local goza de excelente exposição solar e um solo rico em galestro, espécie de uma argila laminar (xisto) que confere corpo e textura aos vinhos. Não combinou muito bem com as trufas por não estar ainda plenamente evoluído, embora as notas de cacau e de tabaco sejam muito elegantes. Talvez precisasse de um prato de carne com as trufas, nivelando melhor seu corpo e potência. Um dos melhores supertoscanos já elaborados!

img_6693um dos meus Chateaux preferidos em Bordeaux de alto nível

Evidentemente, trata-se de um completo infanticídio, mas extremamente prazeroso. Cheval Blanc juntamente com Haut Brion e Latour são meus chateaux preferidos. Um Cheval Blanc seja a safra que for e em qualquer estagio de evolução na garrafa, é sempre um chateau diferenciado, de extrema classe. Este 2016 tem um assemblage de 60% Merlot, 37% Cabernet Franc, e 3% Cabernet Sauvignon. Mesmo em tenra idade, sua maciez e finesse impressionam. Os taninos potentes e extremamente finos são verdadeiros rolimãs na boca. A madeira ainda não integrada ao conjunto é notavelmente elegante, fina, acompanhando o estilo do vinho. É mais um Cheval 100 pontos que encontrará seu apogeu em 2070. Sua força e complexidade apontam realmente nesta direção. Vinhaço!

Mais uma vez, agradecimentos eternos ao Presidente que proporcionou este almoço maravilhoso com vinhos sempre recorrentes, ou seja, maravilhosos, muito bem pontuados e inesquecíveis. Abraços aos demais companheiros de mesa e copo, sempre muito divertidos com ótimas histórias. Vida longa ao Presidente! Que Bacco nos proteja!

Caminhos de um nota 100

21 de Setembro de 2019

Toda vez que nos deparamos com um vinho nota 100, algumas indagações vêm à mente. Será que é mesmo um nota 100, já foi um nota 100, ou será um nota 100?. Tudo isso porque o vinho evolui, tem seu auge, e seu inexorável declínio. Neste encontro entre amigos, tudo isso foi questionado e didaticamente esclarecido no agitado restaurante Nino Cucina.

img_6671a perfeição em Blanc de Blancs

Para iniciarmos os trabalhos em alto nível, nada como um bom Krug, especialmente um Clos du Mesnil 2004, última safra lançada pela lendária Maison. São apenas 1,8 hectare de vinhas Chardonnnay no melhor terroir da Côte des Blancs, Mesnil sur Oger.

Krug não tem pressa para elaborar seus vinhos. Este exemplar passou doze anos em suas caves antes de seu lançamento, boa parte deste tempo sur lies (em contato com as leveduras). Isso traz enorme complexidade ao champagne, além de mantê-lo frescor todos esses anos. Agora sim, vai começar seu envelhecimento em adega. De fato, ainda está uma criança. Um frescor inigualável, mineralidade, toques cítricos de grande pureza, e um equilíbrio em boca fantástico. Sua persistência aromática é longa, deixando um final vibrante e de muita mineralidade, salinidade. Deve envelhecer por no mínimo, mais dez anos em adega. Como dizia Henri Krug: é fácil me agradar, basta servir o melhor!

deliciosos arancini

Continuando nos brancos, mais um Borgonha de fina estirpe, Meursault-Charmes 2015 do Domaine Lafon. Outro minúsculo vinhedo de 1,71 hectare com vinhas plantadas em 1946, 1963, e 1996. O vinho tem um longo trabalho em barricas com sucessivos bâtonnages (revolvimento das borras conferindo textura e complexidade), especialidade e savoir-faire do Domaine Lafon. Um vinho delicioso com toques amáveis de pâtisserie, macio, textura sedosa dos grandes Meursaults, e muito longo em boca. Acompanhou muito bem os deliciosos arancini recheados com queijo.

img_6673um dos Montrose mais perfeitos

Neste primeiro nota 100, Parker sugere que algumas garrafas podem ter sido afetadas por Brettanomyces (Brett), pois seu lado terciário, animal, acaba sendo muito prevalente, sufocando um pouco a fruta. Neste exemplar, o vinho estava perfeito e muito próximo do auge. Tinha couro, estrebaria, caixa de charutos, mais ainda com fruta deliciosa e ervas. Seus taninos poderosos muito bem polimerizados e um frescor dos grandes Saint-Estèphe. É muito longo em boca e não parou de evoluir nas taças, justificando sua nota. Precisa ser decantado por pelo menos uma hora. Encontra-se delicioso no momento.

Assemblage: 64% Cabernet Sauvignon, 32% Merlot, 4% Cabernet Franc

Amadurecimento: cerca de 18 meses em barricas (60% novas, em média).

img_6675o carneiro saltitante nesta grande safra

Felizmente provei esse vinho várias vezes em diferentes momentos de evolução, e cada vez mais, percebo que se encontra no auge. Certamente, não terá a mesma longevidade que seu arquirrival Latour 82. Há dez anos por exemplo, era mais agradável, mais exuberante que o próprio Latour de mesma safra. Hoje em comparação com outros nota 100 degustados, percebemos claramente que não tem mais como evoluir. Seus taninos estão todos resolvidos e os aromas terciários plenamente evoluídos. Prazer total em provar um grande Bordeaux em seu esplendor. Certamente, um dos melhores em toda a história do Mouton.

Assemblage: 85% Cabernet Sauvignon, 8% Cabernet Franc, 7% Merlot

Amadurecimento: 19 a 22 meses em barricas novas

img_6674a perfeição existe!

Falar de grandes Bordeaux, especialmente do chateau Haut Brion, é algo até redundante. Safra após safra, este chateau é um dos mais consistentes entre todos os grandes. Contudo, de tempos em tempos, surge um Haut Brion fora da curva, acima da média que já é bastante alta. Um deles é este maravilhoso 89, seguramente um dos cinco melhores Bordeaux entre todos de 89 pra cá. É o menos pronto entre os nota 100 provado, mas já é absolutamente delicioso e irresistível. O vinho tem um força extraordinária, harmônico, macio, taninos em profusão, mas extremamente finos. Os aromas de fazenda, de estrebaria, de ervas finas, de caixa de charutos, notas de café, e tantos outros indescritíveis. A boca é generosa, perfeita, sem arestas, e o vinho fica, fica, e fica na boca. Deve ainda evoluir por longos anos, pois sua juventude se faz presente com muito vigor. Realmente, um privilégio provar este 89 mais uma vez. Vinho da ilha deserta …

Assemblage: 50% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot, 9% Cabernet Franc

Amadurecimento: até 24 meses em barricas novas

a doçura sublime!

Dos vários Yquem que tenho provado, este 2001 vai fazer história. Do século passado, o mais recente capaz de equipara-lo é o Yquem 1975, sempre divino. Este 2001 ainda está na infância, dando seus primeiros passos, mas é um mamute engarrafado. Uma força extraordinária onde o açúcar, álcool e acidez, estão em perfeita harmonia. Os toques botrytisados, o mel intenso, a fruta exuberante, tudo em perfeito equilíbrio. Com apogeu previsto para 2100, ainda terá muitas roupagens rumo ao esplendor. No momento tem a força necessária para um cremoso roquefort. 

Balanço perfeito: 13,6% álcool, 150 g/l açúcar, e 4,5 g/l acidez (e um extrato fabuloso).

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Com essa turma acima, não há mais o que falar. Só agradecimentos ao Presidente pela imensa generosidade e extremo bom gosto. Abraços fraternos a David e Ettore pelo sacrifício. Vinhos para não procurar defeitos, apenas contempla-los. Difícil superar esta seleção. Que Bacco continue nos guiando pelos melhores caminhos!

A elite do Rhône e DRC de carona

7 de Setembro de 2019

Além da Bourgogne e Bordeaux, os franceses contam com o Rhône e seus belos vinhos, alguns deles muito especiais, tanto tintos como brancos. Num ótimo almoço no restaurante Vecchio Torino pudemos comprovar esta excelência com vinhos de tirar o fôlego.

 harmonização sensacional!

Não é todo dia que provamos um Hermitage branco, principalmente desta categoria. Uma seleção parcelar especial de Chapoutier com vinhas Marsanne praticamente centenárias em solo granítico. O vinho fermenta e estagia em barricas entre 10 e 12 meses com bâtonnages regulares. O resultado é um branco untuoso, macio, e super equilibrado. Deve ser decantado, pois seus aromas e sabores se revelam em camadas. Aromas florais, de mel, de resina, frutas secas, e algo mineral. Persistência aromática intensa e marcante. Os Hermitages brancos envelhecem muito bem, adquirindo sabores exóticos. Ficou muito bom com esta posta de bacalhau com trufas negras (foto acima), tanto em intensidade de sabores de ambos, como a harmonia de texturas. 100 pontos Parker. Espetacular!

outra harmonização de sucesso

Neste momento chega um intruso em meio aos vinhos do Rhône, sua Excelência Domaine de La Romanée Conti Montrachet 2011. Ainda novo e com muita vida pela frente. Poucas vezes vi um Montrachet DRC um pouco acanhado diante do suntuoso Ermitage branco acima descrito. Normalmente, estes DRCs são encorpados e bastante densos na família Montrachet. Entretanto, o Ermitage era mais denso ainda, deixando o DRC com certa leveza. De todo modo, sempre um grande vinho. Aromas elegantes, intensos, muito equilibrado em boca, e uma persistência aromática expansiva. Caiu muito bem com o ravióli de ricota com molho cremoso de queijo, de textura rica, assim como o vinho. Os sabores delicados do prato realçaram a imponência deste branco.

Rayas: um estilo único

Continuando o almoço, o Rhône-Sul foi representado pelo estupendo Chateau Rayas 2007. Um tinto elaborado com uvas  100% Grenache de parreiras antigas. O vinhedo possui um terroir único. Localizado no meio de um bosque com solo arenoso, sem aquele modelo clássico do Chateauneuf-du-Pape em solo de galets (pedras arredondadas). Nestas condições, a Grenache amadurece plenamente sem perder a acidez, já que as noites são relativamente frias com a presença da floresta. O vinho é pacientemente envelhecido em barricas usadas, sem jamais a madeira interferir em seus aromas. Um tinto macio, sedoso, de grande equilíbrio. Seus aromas são sedutores com frutas vermelhas decadentes em compota, lembrando morangos e framboesas. Seus toques de ervas e especiarias tem um ar provençal, embelezando o conjunto. Envelhece muito bem, adquirindo com o tempo toques de sous-bois e de caça. Exemplar magnifico!

hermitage climatsClimats da Montanha de Hermitage

Encerrando o almoço, o Rhône-Norte se faz presente com um magnifico nota 100, Paul Jaboulet La Chapelle 1978. Os tintos de Hermitage têm a fama de enorme longevidade, atravessando décadas em adega. Na foto acima, vemos os vários climats (parcelas) da imponente montanha de Hermitage. No Caso de La Chapelle, é uma cuvée dos melhores vinhedos tais como: Les Bessards, Le Méal, e les Greffieux, entre outros. Essa mescla de terroirs traz complexidade e estrutura ao vinho, proporcionando longa guarda. O único comparável a La Chapelle, são os vinhos do mestre Jean-Louis Chave, referência absoluta nesta apelação.

img_6608comparável ao lendário La Chapelle 1961

Este exemplar com quarenta anos estava magnifico, comparável ao mítico La Chapelle 1961. A cor já impressiona de cara. Estava bem menos evoluído que o Rayas 2007, provado lado a lado. Os aromas são de livros denotando frutas escuras em licor, alcaçuz, tostado de bacon, chocolate, especiarias, e uma nota da caça de envelhecimento perfeito. Combinou maravilhosamente com uma codorna assada com seu próprio molho. A boca é densa, harmoniosa, taninos de rolimã, e um final de prova sem fim. Um vinho praticamente imortal. Lembrando de um La Chapelle 1990 provado a pouco anos, entendemos claramente que estará no ponto por volta de 2030, outra safra estupenda. Não tem jeito, esses vinhos além de dinheiro, é preciso muita paciência para esperar o ponto certo. A recompensa vale a espera!

Yquem: dois nota 100

o Yquem à esquerda da foto é da safra 2001, uma das mais perfeitas deste novo século. O 2015 à direita da foto, foi provado semana passada, também um nota 100. A diferença dos dois além dos catorze anos que os separam, portanto falta evolução no mais novo, talvez seja mais no estilo de cada um. O 2001 é um Yquem clássico, untuoso, imponente, e de grande presença em boca. Já o 2015, parece ter mais frescor, uma textura mais delgada, e portanto menos impositivo nas harmonizações. Talvez um pato com laranja para o 2015, enquanto um potente queijo Roquefort para o 2001. Contudo, a equivalência entre os dois, só o tempo dirá. 

aromas etéreos para encerrar o dia

Passando a régua, nada melhor que uma boa conversa ao redor de Puros e destilados. Neste caso, um Montecristo edição especial (foto acima) inspirado no ícone Montecristo n°2. Este Gran Pirâmides tem bitola um pouco maior, mantendo o modelo figurado. Ring 57 contra ring 52 do Montecristo clássico. A mistura de tabaco é especialíssima e de muita elegância, fugindo da potência do módulo clássico. Para acompanhar, a elite dos Cognacs: Louis XIII da Remy Martin e Richard da Hennessy. Blends da mais alta qualidade com misturas de cognacs antigos, alguns centenários. Elegância e suavidade que acompanhou bem o Montecristo Gran Pirâmides.

São nesses almoços que percebemos que nossa maior riqueza são os amigos em torno de uma mesa, onde os problemas e nossas diferenças ficam esquecidos. O que impera nesses momentos são a generosidade e o congraçamento entre todos. Que Bacco nos ilumine!

Montagne de Corton e suas três faces

5 de Setembro de 2019

O terroir na Borgonha nunca foi fácil de entender, mas tem algumas regiões onde tudo fica mais complicado. É o caso da Montagne de Corton onde temos várias inclinações, altitudes e exposições, permitindo a elaboração de dois Grands Crus, um tinto e um branco, fato único no cenário bourguignon.

montagne de corton

as três comunas que rodeiam a montanha

De acordo com o mapa acima, nas três comunas que rodeiam a montanha, temos a apelação Grand Cru, tanto de tinto, como de branco. Aloxe-Corton em destaque no mapa, é a comuna principal. Veremos abaixo em detalhe, cada uma delas.  

aloxe corton e pernand vergelessesapelações em lados opostos da Montanha

Aloxe-Corton

Os brancos aqui são raros pelas características do solo, em sua maioria mais argiloso e com alguma pedregosidade. Na parte alta da montanha temos a presença de calcário  e sílex (pedregoso), favorecendo a produção de brancos. Em resumo, perto do cume, predominância de brancos da apelação Corton-Charlemagne. Pode haver nesta área tintos mais leves com a apelação Corton Grand Cru. Já no meio da colina para baixo temos exclusivamente o tinto Grand Cru sob a apelação Grand Cru. Vinhedos como Le Clos de Roi, Les Renardes, e Les Bressardes, são famosos pelos melhores Cortons tintos.

Leroy: a perfeição em Corton-Charlemagne

Os vinhos abaixo e acima são de grande distinção e exclusividade. Este branco Corton-Charlemagne de Madame Leroy é suntuoso, de uma presença em boca magnifica, aliando com precisão potência e elegância. As vinhas não chegam a meio hectare de área, produzindo pouco mais de 1800 garrafas. Uma raridade!

Quebrando a tradição de Vosne-Romanée, Domaine de la Romanée-Conti numa aquisição minúscula no terroir de Corton começou elaborar a partir 2009 o Grand Cru tinto Corton em três dos principais Climats com apenas 2,27 hectares de vinhas (Clos du Roi, Bressandes, e Renardes). Sem dúvida, uma cuvée especialíssima com a marca DRC (foto abaixo).

CORTON DRC

a nova joia DRC fora de Vosne-Romanée

Pernand-Vergelesses

Esta porção por detrás da montanha faz a vez do que conhecemos como Hautes Côtes de Beaune com vinhedos de orientação quase oposta a Aloxe-Corton, na confluência de três vales formados por Savigny-Les-Beaune, Pernand-Vergelesses e a própria Montagne de Corton.

Como vemos no mapa acima, até recentemente, havia a apelação Charlemagne para brancos Grands Crus, absorvida agora por Corton-Charlemagne. Portanto, a famosa lista dos 33 Grands Crus da Borgonha, baixou para 32 Climats. Devido à exposição dos vinhedos, aliados a solos com forte presença do calcário e sílex, os brancos predominam amplamente com a apelação Grand Cru Corton-Charlemagne, embora haja algum tinto sob a apelação Corton Grand Cru. Evidentemente, um Corton de mais acidez e taninos um tanto ríspidos.

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uma raridade em tinto

Ladoix Serrignya comuna menos prestigiada

Ladoix-Serrigny

Obedecendo o mesmo raciocínio de Aloxe-Corton, Ladoix-Serrigny produz brancos Grand Cru Corton-Charlemagne nas partes mais altas da colina com solos ricos em pedra calcária e sílex. Nas partes imediatamente mais baixos, a argila favorece a produção de tintos Grand Cru Corton. Há em pontos isolados a produção de branco Grand Cru Corton. Em comparação com a comuna vizinha, os vinhos não são tão impactantes.

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exemplar raro de Corton branco

Montagne de Corton-expositionsas várias exposições da montanha

Do esquema acima, percebemos que as orientações leste e sudeste são mais favoráveis ao perfeito amadurecimento da Pinot Noir nas comunas de Aloxe-Corton e Ladoix-Serrigny com vários vinhedos da apelação Corton Grand Cru.

Já os vinhedos de orientação sul e sudoeste são mais frios, favorecendo o plantio da Chardonnay. Portanto, temos vinhedos Grand Cru Corton-Charlemagne e diminutas parcelas de Corton branco. A apelação Le Charlemagne Grand Cru foi absorvida pela apelação Corton-Charlemagne. 

Corton Blanc Grand Cru

Apenas um pequena parcela da apelação Corton é destinada aos brancos. Temos 91,53 hectares para os tintos e apenas 4,08 hectares para brancos. Esses brancos concentram-se nas comunas de Vergennes e Languettes. 

Enfim, um terroir bastante complexo em torno desta montanha que nos mostra muito bem os critérios para se plantar Chardonnay e Pinot Noir,  as duas uvas principais da Borgonha, num terreno que alterna calcário e argila, aliados a diferentes altitudes e exposições, formando um mosaico intrincado de Climats, a essência dos mistérios fascinantes da Montagne de Corton.

Romanée-Conti e seus súditos

1 de Setembro de 2019

A família DRC é sempre cobiçada em seus seis Grands Crus de Vosne-Romanée com vinhedos contíguos com cerca de 25 hectares no total. O centro gravitacional de todos eles é o mítico Romanée-Conti, um Monopole de 1,8 hectare. O outro Monopole é La Tache, de área bem maior, mas igualmente divino. Os demais Grands Crus dividem com outros produtores o espaço de suas respectivas apelações, embora sempre com amplo destaque.

e94bf8c2-35f1-42b2-bf54-174f55cc3aa8os melhores vinhedos em grandes safras

Num ato de imensa generosidade, nosso Presidente abriu sua adega pensando no melhor, e dividindo entre amigos sua seleta coleção DRC com seu astro maior, sua Majestade Romanée-Conti em três grandes safras. Além disso, safras que permitem comprovar a imensa longevidade destes vinhos, ainda num estágio inicial de evolução, longe de sua fase final de total esplendor.

DRC PRODUÇÃO

Em sua retaguarda, as três joias foram escoltadas por duas grandes safras de dois de seus familiares, La Tache 1990 e o lendário Romanée-St-Vivant 1978. A sublimação da Pinot Noir foi alcançada em aromas e sabores multifacetados.

um dos grandes Meursaults de Lafon

Iniciando os trabalhos, um belo Meursault do Domaine Lafon em seu vinhedo Charmes. Safra gloriosa com muita fruta e generosidade. Apenas 1,71 hectare de puro “charme”. A textura clássica dos brancos desta apelação num balanço muito bom de acidez. Um toque cítrico de limão siciliano sensacional. Fico na dúvida se vale a pena envelhece-lo, pois está arrasador. Acompanhou bem os pratos de entrada, inclusive esta sublime burrata. O almoço transcorreu no Nino Cucina.

texturas bem harmonizadas

Antes de entrarmos nas três joias, vamos falar deste sublime La Tache 1990. Servido às cegas com os três Romanée-Conti, foi fácil identifica-lo por sua riqueza aromática e sua textura mais ampla em boca. Um vinho suntuoso com todos os predicados de Vosne-Romanée. Os toques de especiarias, sous-bois, chocolate amargo (cacau), e algo de incenso, permeavam a taça. Embora já delicioso, deve evoluir por algumas décadas, pois seu extrato é fabuloso. Persistência aromática ampla.

img_6582a tríplice coroa

Aqui um embate de gigantes, mostrando que Romanée-Conti é vinho para várias décadas de envelhecimento. Todos pareciam ainda muito jovens, como muita fruta, sem nenhum sinal de decadência. Os aromas de cerejas negras, flores, alcaçuz, café, variavam de um para outro de forma cíclica, sempre crescendo na taça. O 88 era o mais pronto e o mais delicado, contrariando as características da safra. Taninos delicados, menos encorpado, embora esta leveza seja uma característica intrínseca deste vinho. Já o 89 parecia ser o menos pronto, taninos ainda firmes e abundantes. Tinha um certo ar masculino, mas sempre mantendo a sutileza. Por fim o 90 parecia mais perto da perfeição. Uma sutileza, uma delicadeza, mas ao mesmo tempo uma força e profundidade extraordinárias. Enfim, Romanée-Conti é sempre um vinho enigmático que caminha no lado da sutileza e elegância, e nunca no caminho da força e da potência. Mesmo em safras não tão badaladas são necessários pelo menos vinte anos para poder avalia-lo com algum critério. 

Saint-Vivant e as trufas

Para finalizar a sequência de grandes vinhos, só mesmo um exceção poderia fazer frente ao trio de ouro degustado. Para isso, entra em cena o espetacular DRC Romanée-St-Vivant 1978, um ano histórico na Borgonha. E de fato, a taça mostra todo este deslumbramento. Esse sim, no ponto de ser bebido, no auge de seus 40 anos. Os terciários explodem na taça sem perder a riqueza de fruta no conjunto. Rosas, especiarias, toques empireumáticos, e uma elegância sem fim. Um dos vinhos mais perfeitos de todos os tempos. Não é a toa que o mestre Henri Jayer coloca seu Richebourg 78 como o vinho perfeito. Com esta massa com trufas ficou realmente divino. Belo fecho de almoço!

img_6584ainda no berçário

Outro branco que deve envelhecer por décadas, mas está delicioso no momento. Com 144 g/l de açúcar residual e um teor álcool de 13,9° graus, perfeitamente balanceados por uma acidez tartárica de 6 g/l, este Yquem fornece elegância e frescor admiráveis. Não tem a untuosidade do mítico Yquem 2001, também 100 pontos, mas esbanja vivacidade e juventude. Neste momento, deve acompanhar bem uma mousse de maracujá ou um sorvete de natas. Apogeu previsto para 2065. 

Mais um almoço glorioso com tintos sublimes da Borgonha em safras magníficas. Novamente, agradecimentos profundos ao nosso Presidente que soube como ninguém conduzir esta degustação com vinhos em grande momento de evolução, num ato de imensa generosidade. Que Bacco nos ilumine sempre nestes caminhos!

A denominação “Aias da Toscana”

24 de Agosto de 2019

Um almoço onde a Itália brilhou com ícones toscanos e do Piemonte. Falar de supertoscanos é lembrar da revolução dos vinhos nesta região a partir dos anos 70 com o pioneiro Sassicaia e sua primeira safra 1968. A partir daí, uma sucessão de mitos começaram a surgir como Tignanello, Solaia, Ornellaia, Masseto, e tantos outros. Como eles eram fora da lei, sem legislação específica, eram conhecidos como meros Vino da Tavola, a classificação italiana mais rasa. Isso obrigou os legisladores a criarem uma denominação intermediaria entre o Vino da Távola e a DOC, já que o abismo era imenso. Surgem então os chamados IGT (indicazione geográfica típica) em 1992. Nesta transição nasce a maior safra do Sassicaia de todos os tempos, o lendário Sassicaia 1985 (100 pontos eternos) com a irônica menção no rótulo, “Vino da Távola”. 

O melhor Chardonnay do Piemonte

Iniciando os trabalhos, um par de brancos do venerado produtor Angelo Gaja. Já provei vários dos seus Gaia & Rey, um Chardonnay que pela elegância lembra um belo Puligny-Montrachet. Este especificamente da safra 98 (foto acima), estava divino. Com seus 20 anos de idade, estava pleno de sabores, ainda com fruta, e um equilíbrio fantástico. Garrafa muito bem conservada. Já seu oponente, um Gaia & Rey bem mais novo, safra 2006, tinha todos os trunfos da juventude. Fresco, vibrante, bem estruturado, tem muita vida pela frente, mas vai ser difícil alcançar o esplendor deste 98. Na boca, percebe-se que falta integração do vinho com a madeira que será resolvida com o devido tempo. Acompanharam muito bem a polenta com brie gratinado do restaurante Gero.

a59bf616-f633-4f50-9430-22f8aab7881ba turma toda no belo bar do Gero

O almoço transcorreu no excelente restaurante Gero sob a batuta do carismático Maître Ismael, entre polenta, risoto, bollito misto, e outras iguarias.

primeiro e segundo vinhos

Um embate interessante entre o Grand Vin Ornellaia e seu segundo vinho Le Serre Nuove, ambos 2016. Fica claro em boca a diferença de estrutura entre os dois vinhos. Ornellaia bem mais tânico, embora com taninos ultrafinos. O Le Serre Nuove é bem mais agradável no momento. É um corte onde a Merlot predomina com o aporte das Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot. A maciez deste vinho é notável, embora deva ser decantado por ser muito jovem. 

Já seu oponente, o grande Ornellaia, se mostra mais fechado, mas com aromas finos e boca muito elegante, embora um pouco austera. Neste corte há o predomínio da Cabernet Sauvignon, seguida pelas uvas Merlot, Cabernet Franc, e Petit Verdot. Com maior tempo de barrica, percebe-se que falta integração entre seus componentes que será ditada certamente pelo tempo de guarda em adega. Dois grandes vinhos com notas muito próxima, provando a excelência da vinícola. Contudo, a hierarquia foi mantida com o grande Ornellaia se impondo como um dos grandes ícones de Bolgheri. Os dois tintos arremataram muito bem o saboroso tagliolini com ragu de coelho, prato preferido de nosso querido confrade Moreira.

a bela safra 1997 na Toscana

Aqui um embate entre os terroirs de Bolgheri e Chianti Classico, ambos baseados na casta Cabernet Sauvignon. O Sassicaia 97 em Magnum mostra toda sua elegância e prontidão com muito Cabernet Sauvignon e uma pitada de Cabernet Franc, o que lhe confere elegância. Contudo, neste páreo, estava concorrendo com uma safra histórica do Solaia 1997. Neste corte, embora haja ampla predominância da Cabernet Sauvignon, a presença da Sangiovese no blend confere muito frescor e aquele toque toscano. Um vinho ainda não totalmente pronto, cheio de energia, e que deve ser obrigatoriamente decantado. Apesar da fruta fresca, especiarias em seus aromas, já há um lado terciário partindo para toques animais e de couro. Bela persistência aromática com 96 pontos merecidos. A costeleta de vitela acompanhada de  risoto zafferano foi muito bem com ambos os vinhos.

dois Ornellaias históricos

Já no final do almoço chegam dois Ornellaias envelhecidos e de grandes safras, 95 e 98. O Ornellaia 98 foi o vinho do ano da Wine Spectator de 2001. Um tinto raçudo, fino, elegante, taninos muito bem moldados, e um equilíbrio perfeito. Com seus 20 anos, está no auge de seu esplendor, provando a longevidade desta notável Tenuta. O Ornellaia 95 um ponto abaixo, mas também num ótimo momento para ser abatido. Não tem toda a estrutura do 98, mas esbanja elegância e presença em boca. Os aromas mais complexos de ambos os tintos acompanharam muito bem o excelente cotechino com lentilhas, executado com maestria.

img_6557um mero “Vino da Tavola”

O final apoteótico veio com o mitíco Sassicaia 1985 numa garrafa muito bem conservada. Quando falamos de um vinho imortal, falamos de um vinho que impressiona em todos seus aspectos pela juventude, sem marcas do tempo. Um vinho com quase 35 anos pleno de frutas, cor rubi intensa, e uma vivacidade em boca notável. Um vinho que não parece ter mais do que dez anos. Seus taninos são massivos e ultrapolidos, boca ampla e muito bem equilibrada com 13 graus de álcool perfeitamente balanceados. 

Com toda a lentidão da legislação italiana, o maior de todos os Sassicaias nasceu como Vino da Tavola, perpetuando no rótulo o descalabro da legislação italiana vigente na época.  Sem maiores explicações, a safra 85 obedece o corte tradicional da Tenuta San Guido com 85% Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc, que neste ano foi mágico. Fizeram o vinho e jogaram a fórmula fora. Excepcional tinto, dentro os melhores de toda a história enológica da Itália. A raridade desta garrafa é refletida em altos preços e o perigo das falsificações em vinhos lendários. 

Agradecimentos a todos os confrades presentes pela companhia, bom papo, e a imensa generosidade das belas ampolas. A Itália desfilou em alto nível neste memorável almoço. Que outros venham em breve com as benções de Bacco!

 

Entre brancos e tintos, a Borgonha brilha!

13 de Agosto de 2019

Sempre é bom testar os Borgonhas nas mais variadas apelações, comparando produtores, safras, e estilos de vinho. Num agradável almoço no restaurante Parigi, um desfile entre brancos e tintos com produtores de grande renome.

bela harmonização

Para iniciar os trabalhos, um Dom Perignon P2 1998, o primeiro P2 dando sequência aos Oenotheques. Uma maravilha de champagne. Fresco, elegante, complexo, e muito prazeroso. Seus 16 anos sur lies conservaram esta vivacidade e energia incríveis. Foi muito bem com o carpaccio de atum.

 dois gigantes em suas apelações

Essa dupla de brancos estava sensacional. O bebezinho Comtes Lafon Meursault-Charmes safra 2015 estava cheio de energia com aquela textura cremosa dos grandes Meursaults. Uma safra com muita fruta e exuberância nas mãos de um belo produtor num dos melhores vinhedos Premier Cru. Ainda vai dar muitas alegrias.

O mais surpreendente foi o Corton-Charlemagne de Henri Boillot safra 2005. Um branco com quase 15 anos em plena forma. Muito fresco em boca, super equilibrado, além da madeira estar muito bem dosada com a fruta. Sua textura lembra os grandes Chablis Grand Cru de grandes safras com aquela acidez vibrante. Belo inicio de almoço.

2005: grande safra na Borgonha!

Poderia ser um belo embate, mas o Vosne-Romanée de um dos melhores Premier Cru, Malconsort, estava bouchonné, uma pena. Quanto ao Chambertin, estamos falando de um dos noves Grands Crus, Charmes-Chambertin do excelente produtor Claude Dugat. Um tinto ainda muito jovem, destacada estrutura tânica, e aromas um tanto fechados. Deve evoluir bem por pelo menos mais dez anos. Embora os taninos sejam em grande quantidade, esperava um pouco mais quanto à qualidade para este nível de produtor. Deve ser obrigatoriamente decantado.

mini-vertical Méo-Camuzet

Aqui uma pausa para alguns comunais de Vosne-Romanée do excelente produtor Méo-Camuzet com Richebourg e Clos de Vougeot excepcionais. Embora num nível não tão intenso, percebe-se em todos eles a elegância e sutileza do terroir de Vosne. O de safra 2010 é o mais complexo, elegante, e longevo, entre todos. Já a safra 2012 foi a que menos me agradou. Faltou extrato e pouca persistência aromática. A safra 2013 acompanhou um pouco o estilo mais estruturado do 2010, porém sem o mesmo brilho, inclusive com taninos menos delicados. Por fim, a safra 2014 foi a mais prazerosa, floral, e feminina entre todos. Pode envelhecer mais alguns anos, mas já está bem acessível.

a turma toda reunida

A última dupla de Borgonhas era a mais esperada pelo nível dos produtores, vinhedos, e safras. Começando pelo Vogue, longe de ser meu produtor preferido desta comuna, este Musigny 1990 tem 96 pontos e é considerado o melhor Musigny da safra. Embora seja rico e estruturado, sem nenhum sinal de decadência, seu estilo é muito austero para a elegância que se espera de um Musigny. Às cegas, lembra muito mais um tinto do Piemonte do que tintos da comuna de Chambolle-Musigny. Enfim, pessoalmente um contrassenso. 

Por outro lado, o Grand Cru Grands-Echezeaux 2003, uma das especialidades do produtor Mongeard-Mugneret estava divino. Uma safra generosa, muito aromática, taninos finos, e num ótimo momento para ser provado. Além da fruta, tinha os terciários de sous-bois, chocolate, ervas finas, entre outros aromas. Um dos destaques desta safra para a apelação que costuma ter vinhos muito duros, de longo envelhecimento. 

c45e18a1-3d6d-4307-b4be-1650adc1c684Haut Brion em Magnum 

Como exceção, tivemos um bordalês em garrafa Magnum para fechar o almoço. Realmente, um daqueles Haut Brion de tomar de joelhos. Safra muito generosa, 85 faz vinhos deliciosos ao estilo 82, mas sem tanta pujança. Neste Haut Brion um show de elegância, textura de taninos, equilíbrio em boca, e todos aqueles aromas típicos do chateau como estrebaria, chocolate, e caixa de charutos. Um final triunfante!

não aguentou a sobremesa de chocolate

Na sobremesa, ainda tivemos um antigo Eiswein 1977 da região de Rheinhessen. Além de não ter sido uma grande safra, o vinho estava um pouco cansado, faltando acidez. Nesta categoria de vinho, Eiswein, não temos tanto açúcar residual como nos Trockenbeerenauslese, por exemplo. De todo modo, valeu a experiência.

Agradecimentos a todos os confrades presentes, alguns que não vinham de longa data, numa mesa recheada de amigos e grandes vinhos. Valeu pela conversa, companheirismo e generosidade de todos. Agradecimentos especiais a nosso Presidente pela Magnum de Haut Brion divina, trazida a toque de caixa durante o almoço. Que Bacco nos proteja sempre nos futuros encontros!


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