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Harmonização: A Borgonha no Sertão

13 de Outubro de 2016

Num clima hostil, agreste, o sertão nordestino reflete em seu povo e culinária, a dureza e rusticidade para enfrentar a vida. A despeito dos pratos cheios de sabor, não se espera de alguns clássicos como baião de dois e carne de sol, delicadeza e sutileza em seus sabores. É neste cenário que o longínquo Mocotó na vila Medeiros, zona norte paulistana, surpreende com experiências inusitadas, provocando os mais delicados caldos borgonheses.

Inicialmente, pensamos num bom vinho laranja com seus sabores marcantes e de personalidade para encarar pratos de muita força e consistência. Ledo engano, o chef Rodrigo Oliveira é um gentleman dentro do sertão. Sutileza, suavidade, requinte, permeiam seus pratos, mostrando que técnica e filosofia de trabalho podem mudar certos conceitos. Neste sentido, é que um belo Puligny-Montrachet brilhou com dois pratos distintos, mas que provocaram todas as facetas de um Borgonha deste naipe. Vamos a eles!

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a elegância no calcário da Côte de Beaune

Jean-Marc Boillot domina bem os belos terroirs de Chassagne e Puligny-Montrachet. Este Premier Cru Champ-Canet fica na divisa da comuna de Meursault. Branco elegante, de bela acidez, e amplo na diversidade de aromas. No esplendor de sua juventude (safra 2013), esbanja frescor e fruta.

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dadinho de porco – clássico com um toque de nossos embutidos

A fritura acima trata-se de uma massa de tapioca misturada com essência de porco, participando alguns embutidos, totalmente integrados na mistura. A crocância e a gordura do prato foram muito bem compensadas pela acidez do vinho. Contudo, o ponto alta da harmonização veio do sabores tostados e defumados do porco, casando perfeitamente com aquele toque característico dos borgonhas brancos de pelo queimado. A similaridade de textura também foi notável.

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pernas para que te quero – vinagrete de polvo e lula com banana da terra e caju

Mais um prato com toda a elegância de Rodrigo Oliveira, misturando caju, banana, lula e polvo. A harmonização foi tão boa que parecia que estávamos tomando outro vinho. A banana e sobretudo o caju, realçaram toda a fruta elegante do vinho. Ao mesmo tempo, tanto o polvo, como a lula, instigaram o lado mineral deste incrível Puligny. Realmente, uma harmonia regida pela elegância de ambos, prato e vinho.

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carne-de-sol artesanal com baião-de-dois sertanejo

O prato acima apresenta sabores delicados, tanto no baião de dois, como na carne de sol grelhada. O vinho Laranja abaixo da azienda La Stoppa, Emília-Romagna, tem forte personalidade, aromas intensos e de grande persistência. Apesar de ser um vinho bem delineado, atropelou o prato sem dó, nem piedade.

Uma outra opção foi um Tokaji 3 Puttonyos (foto abaixo) com discreto mas presente, açúcar residual. Embora menos invasivo que o vinho Laranja, este açúcar estava sobrando na harmonização, não proporcionando grandes emoções.

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uvas: malvasia, trebbiano e ortrugo

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belo equilíbrio com acidez marcante

Encerrando o almoço, veio a sobremesa de pequi em três versões no mesmo prato: gianduia de pequi, caroço torrado e crocante de pequi e uma creme também da fruta. Como o açúcar era bem comedido, não houve problema para harmonizar com o mesmo Tokaji. Aliás, Puttonyos é uma proporção de uvas botrytisadas e portanto doces que pode chegar a 60 gramas de açúcar residual por litro neste medida de 3 Puttonyos. Além do equilíbrio de açúcar de ambos, a elegância e delicadeza do vinho deu as mãos com as mesmas características do prato.

Voltando ao prato principal do baião de dois, talvez um Borgonha tinto da Côte de Nuits pudesse escolta-lo à altura. Eu arriscaria um Morey-St-Denis ou Chambertin. É pagar pra ver. A única certeza que fica é que a cozinha de Rodrigo Oliveira exige vinhos com sutileza e alma. E isso a Borgonha tem de sobra …

Uvas Francesas pelo Mundo

22 de Fevereiro de 2016

O que seria do Novo Mundo sem as uvas francesas, ditas internacionais? A França sempre foi referência no mundo do vinho, sobretudo para os países emergentes. Qualquer que seja a região vinícola das Américas, Oceania, África, sempre teremos exemplares de Cabernet Sauvignon para tintos, e Chardonnay para brancos. Além disso, temos Merlot, Syrah, Grenache, Sauvignon Blanc, entre outras, com seus estilos próprios. E dentro da França, qual a importância de cada uma destas uvas no panorama geral? É isso que vamos ver a seguir.

A França vem diminuindo suas áreas de vinhas nos últimos tempos, conforme quadro abaixo. Com pouco mais de oitocentos mil hectares de plantio, este país tem destaque no cenário mundial juntamente com Espanha e Itália, seus eternos rivais.

Em outros tempos, o sul da França era inundado de vinhas com supremacia absoluta no plantio da rústica Carignan, a mesma Cariñena na Espanha. Só de 2006 para cá, o plantio desta uva decresceu 40%, tornando-se atualmente, a sétima uva mais plantada em território francês. O predomínio hoje é da Merlot, não só em termos gerais, mas principalmente em Bordeaux. De fato, com maturação mais precoce que a Cabernet e gerando vinhos mais macios quando jovens, a escolha pela Merlot faz sentido.

Bem longe da Merlot, em segundo lugar, seguida de perto pela Ugni Blanc, temos a Grenache, muito plantada no Rhône-Sul, além da Provence e Languedoc-Roussillon. Sempre majoritária no famoso blend GSM (Grenache, Syrah e Mourvèdre), tem grande penetração nos inúmeros tintos da apelação Côtes-du-Rhône, por exemplo.

Como vinho, a branca Ugni Blanc tem desempenho irrisório, tanto na quantidade, como na qualidade. Contudo, estamos falando da região de Charentes-Cognac, onde se elabora o destilado mais famoso da França, Cognac. São mais de oitenta mil hectares de vinhas onde a Ugni Blanc tem presença quase absoluta, conhecida localmente como Saint-Emilion.

uvas frança

Resumo de 85% do plantio francês

Em quarto lugar, temos a Syrah, a mesma Shiraz tão famosa em terras australianas. Apesar de sua fama ser oriunda dos grandes vinhos do Rhône-Norte designados nas apelações Hermitage, Côte-Rôtie, Cornas, St-Joseph, entre outras, as grandes áreas de cultivo estão no sul da França, principalmente no Languedoc-Roussillon.

Em quinto e sexto lugar, temos as famosas Cabernet Sauvignon e Chardonnay, cabeça a cabeça nesta disputa. A primeira reina em Bordeaux, sobretudo na chamada margem esquerda, enquanto a segunda é soberana na Borgonha, gerando os grandes brancos franceses.

Neste quadro temos 85%  dos vinhedos franceses com uvas acima de 1% (área plantada) no cômputo geral. Os 15% restantes formam um conjunto numeroso de uvas pouco conhecidas que individualmente apresentam produções insignificantes.

surface france

queda progressiva ao longo dos anos

Em termos de regiões, o Languedoc-Roussillon sempre esteve em primeiro lugar. Outrora, muito mais. Em segundo lugar, temos a Aquitania com a enorme região de Bordeaux, além de áreas periféricas. O Vale do Rhône é outra região numerosa em vinhas, incluindo no quadro a Provence. Não podemos esquecer de Charentes-Cognac onde suas vinhas tem produção expressiva. O restante vai se diluindo a partir da Borgonha e Loire em áreas cada vez mais diminutas.

regiões francesas vinhas

sul da França: um mar de vinhas

Em termos mundiais, a ordem dos fatores muda. A Cabernet Sauvignon fica com o primeiro lugar, seguida de perto pela Merlot. Para quem não conhece, temos a branca Airen da Espanha em terceiro lugar. Muito cultivada em La Mancha, região vinícola de área extensa, gera vinhos sem grandes atrativos. Porém, muito desses vinhos são destinados para a elaboração dos bons brandies espanhóis. As demais uvas não causam surpresas, exceto a  branca Trebbiano. De grande cultivo na Itália, gera vinhos um tanto neutros. Na França, é conhecida como Ugni Blanc, da qual já falamos. Uva base para a elaboração do Cognac e de grande presença na respectiva região.

Uvas mais plantadas no Mundo

1 – Cabernet sauvignon sur 290 091 ha (+31 % par rapport à l’an 2000), soit 6 % du vignoble mondial.
2 – Merlot noir sur 267 169 ha (+26 %), soit 6 % du vignoble mondial.
3 – Airen blanc* sur 252 364 ha (-35 %), soit 5 % du vignoble mondial.
4 – Tempranillo noir sur 232 561 ha (+150 %), soit 5 % du vignoble mondial.
5 – Chardonnay blanc sur 198 793 ha (+37 %), soit 4 % du vignoble mondial.
6 – Syrah noire sur 185 568 ha (+83 %), soit 4 % du vignoble mondial.
7 – Grenache noir sur 184 735 ha (-14 %), soit 4 % du vignoble mondial.
8 – Sauvignon blanc sur 110 138 ha (+70 %), soit 2 % du vignoble mondial.
9 – Trebbiano toscano blanc sur 109 772 ha (-20 %), soit 2 % du vignoble mondial.
10 – Pinot noir sur 86 662 ha (+45 %), soit 2 % du vignoble mondial.

Enfim, esses são os panoramas das uvas francesas dentro e fora da França. Pelo quadro acima, fica claro a supremacia das mesmas no cenário mundial, ou seja, das dez primeiras, sete são francesas. Nada mal …

Atualização: Principais Denominações Italianas

19 de Maio de 2014

DOCG-DOC-IGT-2013Denominações Italianas 2013

Sempre é bom atualizarmos os números da Itália, país que protagoniza juntamente com a França a hegemonia na produção mundial de vinhos. Vejam os dados de 2012.

A tabela abaixo mostra as principais denominações em produção de tintos. Muito se fala dos Chiantis, Lambruscos, Valpolicellas, mas a primeira denominação em produção é Montepulciano d´Abruzzo, pouco conhecida do público em geral. A uva é a própria Montepulciano que gera vinhos frutados e fáceis de beber. Aí sim, em seguida temos o famoso Chianti básico, produzido numa ampla área, bem mais espalhada que a zona nobre do Chianti Classico. Bom para bebericar, para vários antepastos italianos, notadamente as bruschettas e crostini.

Quanto aos Lambruscos, mesmo juntando todas as denominações (Salamino, Sorbara, Grasparossa), sua produção caiu sensivelmente. Os Barberas, é interessante notarmos a destacada produção do Barbera d´Asti em relação ao Barbera d´Alba, quase o triplo da quantidade em hectolitros. Vejam que Barbaresco nem aparece na lista, já que sua produção é cerca de um terço com relação aos Barolos.

Chianti: Produção destacada

Com relação aos brancos, a denominação Soave do Veneto lidera com folga. Esses brancos baseados na uva Garganega são perfumados e de boa textura. Trebbiano que já teve produção bastante elevada, atualmente é mais ligada à elaboração do Vin Santo da Toscana, além da denominação acima citada. Verdicchio, o grande branco de Marche, é sempre um vinho fresco e agradável, bom parceiro para um Spaghetti ao Vôngole. 

Orvieto: branco esquecido da Úmbria

Quanto aos espumantes, Prosecco com a nova legislação a partir de 2009, lidera com folga todas as denominações de origem italianas. Contudo, a qualidade restringe-se à denominação Conegliano-Valdobbiadene. Asti continua sendo o famoso espumante doce do Piemonte com produção de mais de cem milhões de garrafas por ano. Por último, Franciacorta, o champagne italiano. As melhores casas fazem produtos sofisticados. Mesmo assim, a produção total não passa muito de quinze milhões de garrafas por ano.

As borbulhas acima somam mais de 400 milhões de garrafas/ano

Em termos regionais; Veneto, Sicilia, Puglia e Emilia-Romagna, continuam produzindo juntas mais da metade de toda a produção italiana. O norte italiano já há algum tempo supera a produção sulina do Mezzogiorno.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes FM 90,9 às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde no Jornal em Três Tempos.

Terroir: Cognac x Bordeaux

29 de Abril de 2014

Vendo o mapa abaixo, a primeira pergunta a fazer: Como regiões tão próximas podem elaborar bebidas tão diversas? A resposta são as condições inerentes a cada um dos terroirs.

Bordeaxu e Cognac: latitudes próximas

Embora estejamos falando de latitudes bastante próximas, as condições litorâneas e de solo são bem diversas. De fato, em Cognac a influência marítima é direta sobre o continente, tornando a ar frio e salino. Além disso, os solos em Cognac são fortemente calcários a partir do centro da apelação, perdendo radialmente esta característica até a borda com as sub-regiões de Bons Bois e Bois Ordinaires. Nestas condições, o cultivo de uvas brancas com destacada acidez é evidente, dando origem a vinhos ácidos e magros, pré-requisitos indispensáveis para boas eaux-de-vie (aguardentes). Aqui estamos diante do melhor destilado de vinhos na sua forma bruta. Aliado a outras condições de terroir, como manejo da destilação, amadurecimento em carvalho de Limousin e critérios próprios de assemblage, este diamante bruto é devidamente lapidado ao longo tempo nas caves.

Grande Champagne: solo calcário no melhor terroir de Cognac

Neste terroir de Cognac o amadurecimento das uvas é dramático. O melhor a fazer é cultivar uvas brancas relativamente neutras como a Ugni Blanc, mais conhecida localmente como Saint-Emilion. Na Itália assume o nome de Trebbiano. Este vinho neutro e magro é tudo que uma aguardente de qualidade precisa.

Saint-EstèpheMédoc: comuna de Saint-Estèphe

Na região imediatamente abaixo, separada pelo estuário do Gironde, temos a nobre região de Bordeaux, mais especificamente, o Médoc. Este terroir forjado pelo homem, tratou de proteger o continente com uma floresta de pinheiros à beira-mar dos ventos salinos do Atlântico. Na verdade, o florestamento com pinheiros foi para impedir o avanço das dunas sobre o continente. A protecão dos ventos veio como consequência. Além disso, as principais comunas do Médoc (desde Saint-Estèphe até Margaux) foram devidamente drenadas por engenheiros holandeses no início do século dezessete, aflorando um solo bastante pedregoso, os famosos “graves”. Some-se a isso a influência da massa de água do rio Gironde, regulando as temperaturas, e teremos o melhor terroir do mundo para o cultivo de Cabernet Sauvignon, cepa protagonista no famoso corte bordalês de margem esquerda. O solo aqui também se modifica com camadas alternadas de argila, calcário e areia. De fato, a Cabernet Sauvignon, cepa de maturação tardia, encontra no Médoc seu ciclo de maturação alongado, acumulando lentamente açúcar, polifenóis, sobretudo os taninos, componentes fundamentais para a incrível longevidade deste grandes tintos.

À mesa, estas duas regiões atendem à mais refinada gastronomia. Os brancos bordaleses são surpreendentes e relativamente pouco conhecidos. Os tintos dispensam comentários, assim como os brancos doces, botrytisados, entre os melhores do mundo. Para finalizar qualquer refeição, o melhor dos brandies, o inimitável Cognac em suas várias categorias. Neste mesmo blog, há artigos específicos sobre essas duas grandes regiões (Bordeaux e Cognac).

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes FM 90,9  às terças e quintas-feiras. Pela manhã no programa Manhã Bandeirantes e à tarde no Jornal em Três Tempos.

Principais Uvas Européias

15 de Abril de 2013

Estudos recentes mostram o panorama atual do vinhedo europeu, destacando-se os principais países como Espanha, França e Itália. O quadro abaixo mostra as principais uvas plantadas em milhares de hectares. 

Uvas espanholas no topo da lista

Para quem já sabia, a uva branca espanhola Airén reina absoluta no vinhedo espanhol, sobretudo nas regiões de La Mancha e Valdepeñas. Embora com produção bem mais modesta que de outros tempos, ainda se presta para vinhos baratos,  para misturas com outras castas, e também para destilação na elaboração de Brandies, inclusive no famoso Brandy de Jerez. Esta uva sozinha apresenta o dobro de área plantada de toda a Alemanha.

Outra espanhola no topo da lista é a onipresente Tempranillo. Com vários sinônimos por toda a Espanha, ganhou fama e prestígio sobretudo nas regiões de Rioja e Ribera del Duero. Nos últimos tempos, ganhou força nas regiões de La Mancha e Castilla y Léon.

A Merlot continua sendo a grande tinta francesa, inclusive na região de Bordeaux, embora a Cabernet Sauvginon tenha sua força. Aliás, estas duas castas bordalesas ganham prestígio na Itália, principalmente na região da Toscana com os famosos e badalados supertoscanos.

A Grenache ou Garnacha divide sua fama entre Espanha e França. Belos exemplares espanhóis são elaborados com vinhas velhas, enquanto do lado francês, o Rhône Sul e Languedoc respondem por sua expansão.

A insípida Trebbiano ou Ugni Blanc vem caindo cada vez mais em território italiano. Do lado francês, o firme cultivo está baseado no grande destilado do país, o todo poderoso Cognac.

Dentre as tintas italianas, a Sangiovese continua absoluta não só na Toscana, bem como em toda a Itália Central. Emilia-Romagna e Marche principalmente, são regiões de grande cultivo.

Pinot Noir e Gamay fecham a lista em disputa acirrada não só na Borgonha, berço das duas cepas, como em várias apelações no vale do Loire.

Harmonização: Spaghetti alla Carbonara

28 de Julho de 2011

Massa tradicional dos romanos, mas também difundida nas regiões de Lazio e da Úmbria. Os ingredientes além do espaguete, podem variar utilizando a pancetta (toucinho preparado com a barriga do porco), ou Guanciale (toucinho preparado com as bochechas do porco), ou bacon (alternativa comum, embora não original), ovos, azeite extra-virgem, sal, pimenta moída na hora e queijo pecorino romano (espécie de parmesão elaborado com leite de ovelha) ou parmesão (alternativa muito comum aqui no Brasil).

Prato tradicional na região de Lazio

Apesar de poucos ingredientes, as variações dos mesmos podem alterar significativamente o prato, principalmente para os mais puristas. No caso da pancetta, guanciale ou bacon, os dois primeiros não são defumados e sim, curados. Já o bacon, é defumado. O guanciale apresenta um sabor mais acentuado que a pancetta, porém de textura mais macia.

No caso do queijo, o pecorino normalmente é mais intenso e salgado que o parmesão. Esses fatores em conjunto acabam gerando sutilezas e características diferentes no resultado final. Portanto, um determinado vinho escolhido para um Carbonara original, pode não ser tão prazeroso para uma receita adaptada.

De todo modo, esta receita devido à presença de ovos, gordura e sal presente no queijo, nos leva para o campo dos brancos. Pensando na receita original, vinhos locais no caso de Lazio, são normalmente bastante inexpressivos. O vinho branco emblemático da região é o agradável Frascati (elaborado com uvas Malvasia e um pouco de Trebbiano). Contudo, precisa ser um Frascati de categoria, de personalidade. Alguns produtores de destaque são Castel de Paolis, Villa Simone e Fontana Candida. São vinhos com mais profundidade e que podem acompanhar o prato com relativo sucesso. Para outros brancos italianos, o Vernaccia di San Gimignano, típico toscano, pode ser uma bela alternativa, na versão sem madeira. No caso do Veneto, um bom Soave, elaborado com a uva autóctone Garganega, é outra alternativa segura. Todas essas opções, sempre com vinhos jovens e frescos.

Saindo da Itália, precisamos pensar em brancos de médio corpo, porém saborosos, pois o prato tem personalidade. O frescor da juventude ajuda a combater a gordura do prato e a salinidade do queijo. Um bom Alvarinho (Portugal) ou Albariño (Espanha) podem surpreender. Do lado francês, Macôn-Villages é a alternativa clássica. Se a opção do prato for pelo bacon, imprimindo um toque defumado mais acentuado, um Riesling australiano de Clare Valley pode resolver a questão. Evidentemente, um alsaciano pode ser testado, embora pessoalmente, seja muita sofisticação para o prato. Melhor um Riesling austríaco. No caso de espumantes, um Cava com toques minerais e com certa permanência sur lies (contato com as leveduras antes do dégorgement) pode ser bastante refrescante.

Sugestões em importadoras

Pieropan Soave Classico (www.decanter.com.br)

Cava Raventós Blanc Brut (www.decanter.com.br)

Don Olegario Albariño (www.grandcru.com.br)

Para aqueles que não abrem mão de tintos, restam algumas alternativas, sempre não tão boas como os brancos. Pode ser um Chianti não Classico ou um Barbera simples, ambos novos. Melhor um Valpolicella Classico ou um Montepulciano d´Abruzzo sem passagem por madeira. Até mesmo um Aglianico da Campania pode ser interessante, pelo toque mineral. O mais importante é o vinho ter bom frescor, fruta e taninos bem discretos. Procurar sempre as versões mais simples destas denominações no portfólio de cada produtor.

De todo modo, devemos respeitar a tipologia simples do prato, escolhendo vinhos não muito sofisticados, sobretudo pela presença dos ovos. Se o toque defumado do bacon for preponderante, um leve toque de madeira no vinho não trará problemas, embora a mineralidade seja um contraponto sempre melhor.

 

Toscana: Vin Santo

27 de Maio de 2010

Vinsanto e Cantucci: harmonização clássica

Vinsanto ou Vino Santo é uma especialidade toscana. Pouco consumido no Brasil, muito mais pelo desconhecimento do que propriamente o preço, embora não seja uma pechincha. É elaborado com uvas passificadas, uma técnica amplamente difundida na Itália para vinhos doces, além de procedimentos inerentes à sua elaboração, o que o torna extremamente peculiar.

Atualmente é uma DOC (Denominazione di Origine Controllata) com várias subdivisões na Toscana: Colli dell´Etruria Centrale, Vin Santo del Chianti, Vin Santo del Chianti Classico, Vin Santo di Carmignano e Vin Santo di Montepulciano, com pequenas variações de uma legislação para outra.

Normalmente as uvas para sua elaboração baseiam-se  em Trebbiano, Malvasia, complementadas conforme a região por Pinot Bianco, Pinot Grigio, Sauvignon, Chardonnay e Grechetto. As uvas depois de colhidas são colocadas para passificar em lugares secos e de boa circulação de ar sobre esteiras, caixas ou dependuradas em estruturas apropriadas (treliça de ferro ou madeira). Este período vai de dezembro a março, onde ocorrem perdas significativas de água intrínsecas aos grãos de uva, concentração de sabores e açúcares. São necessários pelo menos 3 kg de uvas frescas para 1 kg de uvas passificadas.

Appassimento

Este mosto (produto da espremedura das uvas) extremamente concentrado e rico em açúcares é lentamente fermentado em pequenas barricas toscanas denominadas caratelli (50 a 200 litros). Pela legislação, este período de fermentação e envelhecimento não pode ser inferior a três anos, antes do engarrafamento.

Vinsantaia

 

Particularidades na elaboração

Embora a Trebbiano, conhecida na França como Ugni Blanc, seja uma uva sem grandes atrativos e certa neutralidade, é utilizada majoritariamente pelas características do processo oxidativo. De fato, os longos anos de permanência em caratelli permitem que o caráter oxidativo sobrepuje  características particulares das uvas, sendo inócuo a utlização de castas mais nobres.

No processo de passificação (appassimento) é fundamental que as uvas escolhidas tenham bom nível de acidez e peles (cascas) relativamente espessas, preservando um bom equilíbrio gustativo e a integridade dos grãos.

As pequenas barricas (caratelli) precisam ter madeira de baixa porosidade e extremamente bem vedadas para evitar sempre uma oxidação excessiva.

A fermentação extremamente lenta (pode levar alguns anos em certos casos) é favorecida por uma seleção natural de leveduras, resistentes a teores sempre crescentes de álcool e capazes de trabalhar num meio muito rico em açúcares. Em muitos casos, a madre (massa residual contendo leveduras de um processo anterior) é utilizada em um novo lote, facilitando principalmente o início da fermentação.

Características

Pode apresentar-se nas versões secco, abboccato, amabile e dolce, com níveis crescentes de açúcar residual, respectivamente. Normalmente,  possui teor alcoólico em torno de 16º natural. Não há fortificação neste tipo de vinho.

A cor vai do dourado ao âmbar acentuado, dependendo do grau de envelhecimento do vinho. Seus aromas de caráter oxidativo lembram frutas secas (damascos, nozes, amêndoas), toques de mel, notas balsâmicas e empireumáticas (café, caramelo).

O Vin Santo denominado Occhio di Pernice (olho de perdiz – tonalidade de cor mais acentuda), especialidade de Montepulciano, é elaborado com Sangiovese (mínimo 50%), além de outras uvas locais autorizadas. Neste caso, é previsto por lei um envelhecimento mínimo de oito anos em caratelli.


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