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Adegas fechadas

7 de Abril de 2026

A convivência entre quem cria e quem julga tem limites às vezes indefiníveis, seja no vinho, seja em outras áreas. No fim dos anos 1950, Paulo Autran deixou a educação de lado. Após Paulo Francis criticar reiteradas vezes, em suas colunas sobre teatro, a atriz Tônia Carrero, Autran esperou o momento para contra-atacar. Em uma peça em que só participava do final, viu o jornalista na plateia. Depois de a cortina descer e o público ir embora, aproximou-se de Francis e o chamou. O jornalista virou o rosto, Autran desferiu uma cusparada. “Cuspi com prazer”, relembrou o ator anos depois, enquanto o jornalista se arrependeu da briga.

No mundo do vinho, essa hostilidade manifesta-se de outras formas. O mais famoso crítico do mundo de Baco, o advogado Robert Parker, coleciona histórias. Em 1986, Parker viajou para a Borgonha. Visitou o Domaine Fourrier, cuja maior parte das videiras é em Gevrey Chambertin, um dos vinhos preferidos de Napoleão. Experimentou os vinhos. Sugeriu a Jean-Claude Fourrier que utilizasse mais madeira em seus vinhos, para torná-los mais exuberantes. Foi convidado a se retirar da propriedade. “Meus vinhos, suas críticas”, relatou o filho de Fourrier ao podcast I´ll drink to that.

A vingança de Parker veio meses depois, em sua publicação aos assinantes: uma crítica afirmando que a vinícola tinha uma das adegas mais sujas da Borgonha e que nada de bom poderia sair de lá. O resultado? O mercado americano fechou as portas e safras inteiras ficaram encalhadas nas caves por anos.

A hostilidade nem sempre fica nas palavras. Segundo relato em O Imperador do Vinho, de Elin McCoy, em Bordeaux, o gerente do Château Cheval Blanc, Jacques Hébrard, assistiu impassível a seu cachorro atacar Robert Parker após uma avaliação desfavorável. Na publicação, Parker tinha qualificado a safra 1981 de uma das mais famosas propriedades da França como “decepcionante e medíocre”. Quando o crítico pediu um curativo para a perna, Hébrard entregou-lhe uma cópia do texto e vociferou: “foi isso que você escreveu!”.

Essa disputa de poder ocorre também entre os próprios críticos pela hegemonia do paladar. A safra 2003 foi marcada por um calor intenso na França. A canícula provocou problemas em diversas regiões vinícolas com uvas que perderam acidez em muitos casos. Em Bordeaux, o Château Pavie tinha passado por uma modernização radical. Tornou-se o marco zero de uma disputa de paladares entre os dois lados do oceano Atlântico.

Jancis Robinson, crítica do Financial Times, deu nota 12 de 20 pontos para o Pavie 2003, descrevendo-o como ridículo e excessivamente maduro por assemelhar-se não a um vinho seco, mas a um fortificado, tão poderoso que tinha perdido qualquer elegância. Dos Estados Unidos, Robert Parker reagiu classificando a avaliação de Robinson como um golpe maldoso. Parker sugeriu que Robinson era movida por preconceito britânico contra o estilo moderno da propriedade. Fizeram as pazes anos depois, mas os paladares continuaram distintos.

As polêmicas estão longe de ficarem concentradas na França. Antonio Galloni, que trabalhou com Parker antes de fundar o site Vinous, especializou-se em vinhos italianos. Suas notas determinam o preço de mercado. Em novembro de 2015, Galloni estava preparado para viajar para o Piemonte degustar barolos e barbarescos das safras dos dois anos anteriores. Pediu horário para visitar a vinícola Aldo Conterno, uma das mais tradicionais produtoras de Barolo. A resposta foi que eles não poderiam recebê-lo, pois estariam fora todo o mês. Mas Galloni disse que viu muitas pessoas visitarem a vinícola sem problemas. Respondeu aos assinantes. “Não é o meu primeiro rodeio.”

Comprou as garrafas em uma loja na Itália. Degustou os vinhos. Respondeu com notas baixas para os barolos 2013 de Aldo Conterno, reclamando do uso de madeira nos vinhos e disse que havia um punhado de outros produtores que poderiam oferecer vinhos excelentes a preços menores. Foi banido de visitar a vinícola, suspensão vigente até hoje. Ele continua comprando os vinhos em enotecas. Aumentou suas notas.

Fonte: https://www.wineberserkers.com/t/vinous-scoring-on-aldo-conterno-vendetta-or-reality/140779/63?page=4

Em outras artes, a hostilidade entre críticos e criadores também é histórica. A crítica de cinema Pauline Kael, que fez história na The New Yorker, colecionou cartas de ódio de alguns de seus resenhados. Ridley Scott disse que, depois de um comentário dela, nunca mais leu crítica nenhuma. David Lean afirmou que Kael o impediu de filmar por 14 anos. Nenhum deles conseguiu silenciá-la e nem arranhar sua credibilidade.

O cenário atual do mundo do vinho, porém, torna a independência um ativo raro. Com o Guia Michelin controlando a publicação fundada por Parker e a Vinous de Galloni lucrando com eventos de produtores que ela mesma avalia, a linha entre a crítica isenta e os negócios torna-se cada vez mais turva. Como no teatro de Autran, nas linhas de Kael ou nas adegas, a verdade às vezes aparece quando as cortinas se fecham ou a porta da vinícola se tranca.

Bordeaux na virada do Milênio

8 de Fevereiro de 2020

De tempos em tempos é sempre bom revisar alguns Bordeaux que estão evoluindo em garrafa como é o caso da safra 2000. Safra esta um tanto fechada que demanda muito tempo em garrafa. Os grandes desta safra só entrarão no auge por volta de 2050. Foi o que fizemos num belo almoço no badalado restaurante Le President de Eric Jacquin. 

Salão Privê e taças Zalto bordalesas

carpaccio com caviar

Tudo começou com um belo Chevalier-Montrachet 2009 de Madame Leflaive abrindo os serviços. Um vinho de 94 pontos num estilo próprio de leveza, mas com profundidade. Toques cítricos e uma madeira elegante completamente integrada ao conjunto. Foi muito bem com um carpaccio recheado de temperos e caviar. Numa das fotos, você mistura tudo e enrola, fatiando todos os sabores.

img_7307as primeiras surpresas!

Os quatro classificados classe A de Saint-Emilion num painel surpreendente. Os dois da ponta mais tradicionais e menos estruturados que o meio. A começar pelo Ausone, um vinho delicado, pouco tânico, afável, bem ao contrário do que poderia se esperar. Ele costuma misturar Merlot e Cabernet Franc em partes iguais. Em seguida o Chateau Pavie, um vinho de 100 pontos e um dos destaques da safra. Neste ano fez um blend de 60% Merlot, 30 Cabernet Franc, e 10% Cabernet Sauvignon. Muito bem estruturado, denso, e final elegante. Lembrava alguns anos do Cheval Blanc.

Na sequência, Chateau Ângelus 2000, um dos grandes destaques do almoço. Certamente, o vinho menos pronto do painel com uma estrutura monumental. Um dos grandes Ângelus da história com 60% Merlot e 40% Cabernet Franc. O que impressiona neste vinho é seu corpo e sua estrutura tânica. Um vinho com notas de incenso, defumado e notas de tabaco. Seu auge está previsto par 2045. Um vinho que atualmente deve ser obrigatoriamente decantado.

Por fim, um Cheval sem o mesmo brilho de outras safras. O blend é parecido com o anterior tendo 53% Merlot e 47% Cabernet Franc. Um vinho como sempre elegante, bem equilibrado, mas sem a estrutura para uma longa guarda.

img_7308painel sem surpresas!

Começando pelo Latour, um vinho com 77% Cabernet Sauvignon, 16% Merlot, 4% Cabernet Franc e 3% Petit Verdot. Um vinho encorpado, taninos finos e um toque de couro característico. Já o Mouton, outro Pauillac com 86% Cabernet Sauvignon e 14% Merlot. Foi o vinho mais pronto do painel e talvez do almoço com taninos polimerizados, aromas francos e desenvolvidos com a nota característica de café.

Na sequência os mais elegantes. A começar pelo Lafite com 93,3% Cabernet Sauvignon e o restante Merlot. Um vinho com essa porcentagem de Cabernet Sauvignon e com essa elegância, sem ser pesado. Sua acidez cortante e sua tensão foram fatores decisivos para sua descoberta. Por fim, Chateau Margaux, um blend muito parecido com o anterior, sendo 90% Cabernet Sauvignon e o restante Merlot. Novamente, a elegância impera com um dos melhores Margaux da história. É um vinho de lenta evolução, um tanto fechado no momento, necessitando de decantação. Previsão de apogeu, entre 2050 e 2060. 

cordeiro e entrecôte

Foram muitas carnes sempre raladas a trufas pretas. Entre magret, entrecôte e cordeiro, tivemos uma minifeijoada à moda do chef e uma mousseline de batata com trufas.

img_7309um flight polêmico!

A começar pelo Haut-Brion com 99+ pontos, um vinho praticamente perfeito. Com 51% Merlot, 43% Cabernet Sauvignon e uma pitada de Cabernet Franc, um vinho de muita estrutura e longevidade. Seu apogeu está previsto entre 2050 e 2060. Seus aromas de animais e de estábulo eram muito discretos e uma estrutura tânica monumental. Praticamente um empate técnico com o seul rival La Mission, um dos vinhos da safra. Este tem 58% Merlot, 32% Cabernet Sauvignon e 10% Cabernet Franc. Embora possa parecer mais macio que seu oponente, o vinho tem uma estrutura e uma elegância notáveis. Um vinho também para esquecer na adega e se for prova-lo agora, uma longa decantação.

Por fim, as revelações mais polêmicas do painel e do almoço. Começando pelo Petrus, simplesmente  o vinho da safra com 100 pontos e apogeu previsto acima de 2060. A descrição é de um vinho bem encorpado, longa persistência e muita cor. Descritores que não batiam com a amostra num vinho mais frágil e completamente aberto. Das duas uma, ou o vinho era falso ou trocaram o vinho na decantação, pois foi servido às cegas. Ou então havia problemas com esta garrafa. Já tomei esta safra e o vinho era totalmente diferente. Passando para o Leoville, um vinho que entrou no apagar das luzes, um dos melhores Leovilles da história. Um vinho rico, muito estruturado e de longa guarda. Encarou de frente o Petrus, um vinho com custo dez vezes mais. Realmente, Leoville é um deuxième subestimado por muitos. Um final polêmico e surpreendente.

um dos Portos mais exclusivos e históricos!

Um Porto que tive o privilégio de degusta-lo algumas vezes. Seus aromas (toques divinos de violeta e licor de cereja) e sua persistência em boca são excepcionais. O mil-folhas com frutas vermelhas estava divino.

Falando um pouquinho mais do Noval Nacional, são vinhas pré-filoxera de rendimentos muito baixos. Nos anos em que é elaborado, são apenas 250 caixas em média de produção para apenas 2,5 hectares de vinhas frente aos 145 hectares da propriedade. Fazendo as contas estamos falando de apenas 9 hectolitros por hectare, redimento de Chateau d´Yquem. Para completar, a safra é excepcional, demonstrando a juventude do vinho. Não poderia ter final melhor!

Foi o primeiro grande encontro da confraria em 2020 com muitos confrades presentes. Que o ano todo seja regado a vinhos excepcionais como estes e o clima festivo e descontraído dos presentes. Que Bacco nos proteja!

Trufas e Italianos

28 de Setembro de 2019

Nesta época do ano, começam a chegar as famosas trufas nos restaurantes. Qualquer prato relativamente simples fica altamente sofisticado com o acabamento final das trufas. Gentis lâminas raladas na hora, exalando aqueles perfumes maravilhosos. E na hora de combinar o vinho, todo mundo lembra que Barolo ou Barbaresco são seus parceiros. Só que pouca gente lembra que o mais importante não é ser Barolo ou Barbaresco e sim, esses vinhos estarem envelhecidos com aromas terciários. De fato, aqueles aromas étereos das trufas só podem combinar com aromas e sabores etéreos dos grandes vinhos com notas terrosas, defumadas, empireumáticas, alcatroadas, e não aromas frutados de grandes vinhos jovens.

Seguindo este raciocínio, os grandes Bordeaux envelhecidos também são ótimas opções, sobretudo tintos como Lafite e Ducru-Beaucaillou que possuem estilos mais delicados e etéreos em seu envelhecimento. Belos Saint-Estèphe como Montrose por exemplo, lembram algo de Barolos em seu envelhecimento. Os tintos do Rhône não ficam atrás, principalmente os Côte-Rôtie, mais delicados e mais etéreos em seu envelhecimento. Um dos La La Las de Guigal devidamente envelhecido, digamos safra 88, são maravilhosos com esses iguarias. Sem esquecer dos brancos, os Borgonhas envelhecidos são também esplendorosos com trufas. Vale também para os grandes tintos. Outro branco envelhecido que vai muito bem são os grandes Hermitages, sobretudo do produtor Jean-Louis Chave.

Enfim, por questões de tipologia, sofisticação combina com sofisticação. Sendo pratos elegantes e extremamente caros, as trufas vão combinar com os grandes vinhos envelhecidos que só envelhecerão bem, se forem grandes. Portanto, uma coisa puxa a outra.

Numa bela experiência no restaurante Parigi, testamos alguns vinhos com elas, todos italianos, embora dois grandes franceses apareceram para serem apreciados como vinhos em si. Todos os pratos foram trufados, seguindo alguns no decorrer do artigo.

dois gigantes na denominação Barolo

Na foto acima, esse Bruno Giacosa 1990, Barolo de Serralunga d´Alba, estava maravilhoso com 98 pontos mais que merecidos. Um vinho de livro mostrando claramente o terroir austero de Serralunga d´Alba. Os taninos ainda presentes, estão polimerizados e de uma finesse impressionante. Os aromas são um show à parte. Notas defumadas, de alcaçuz, cacau, funghi porcini, cerejas em licor, realmente sensacional. Foi o que melhor combinou com as trufas, sobretudo este tagliolini (foto acima) na manteiga, muito bem executado. Um dos pontos altos do almoço.

df306b73-9b93-4904-bed0-5622ea99d96eum dos melhores Barolos já elaborados!

Considerado pelo mestre Bruno Giacosa, um dos melhores terroirs de Serralunga d´Alba, o vinhedo Falletto goza de exposição privilegiada e solos ricos em calcário. Os famosos rótulos “red label” são destinados às safras excepcionais com menção Riserva no canto superior do rótulo. Tradicionalista ferrenho, a vinificação passa por longa maceração e o amadurecimento nos tradicionais Botti (toneis eslavônios de grandes dimensões). Realmente este 90 é uma obra-prima!

Quanto ao segundo Barolo testado, Aldon Conterno Romirasco 1993, ainda não estava pronto. A cor, bem menos evoluída que o Giacosa 90, e os aromas um tanto fechados. A boca mais austera, sem o brilhantismo de seu concorrente. Romirasco é um dos três vinhedos de Aldo Conterno na comuna de Monforte d´Alba, sendo o principal vinhedo na composição do grande Granbussia, o ícone da vinícola. Os outros dois vinhedos são Cicala e Colonnello.

gnocchi e carpaccio com trufas

No caso do gnocchi acima, o Romirasco ficou interessante, sobretudo por causa das texturas. O gnocchi com uma textura mais cremosa, acompanhou bem a textura mais robusta do Romirasco em relação ao Giacosa 90. Já na parte aromática, o Giacosa 90 foi imbatível. Enfim, os dois ficaram muito bons.

ótimos vinhos em patamares diferentes

Começando agora pelo Morey-Saint-Denis do Dujac, a safra é maravilhosa e ajuda mundo nesta categoria da Borgonha. Para um Village, o vinho está muito sedutor. Fruta intensa e de grande pureza, além de um equilíbrio notável, mostrando claramente a delicadeza desta comuna. Trazido a preços atraentes pela importadora Clarets.

Passando agora ao Supertoscano, um grande destaque do almoço, a cuvée d´Alceo é a mais alta categoria da azienda. Além disso, a safra 99 foi o melhor vinho já elaborado na vinícola com 99 pontos de puro prazer. Nesta safra, temos 85% Cabernet Sauvginon e 15% de Sangiovese. Atualmente a Petit Verdot substitui a Sangiovese no corte. O vinho estava uma maravilha, surpreendentemente jovem, ainda com um rubi profundo na cor. Um vinho denso em boca, refletindo bem este terroir do Chianti Classico em Panzano in Chianti. Este local goza de excelente exposição solar e um solo rico em galestro, espécie de uma argila laminar (xisto) que confere corpo e textura aos vinhos. Não combinou muito bem com as trufas por não estar ainda plenamente evoluído, embora as notas de cacau e de tabaco sejam muito elegantes. Talvez precisasse de um prato de carne com as trufas, nivelando melhor seu corpo e potência. Um dos melhores supertoscanos já elaborados!

img_6693um dos meus Chateaux preferidos em Bordeaux de alto nível

Evidentemente, trata-se de um completo infanticídio, mas extremamente prazeroso. Cheval Blanc juntamente com Haut Brion e Latour são meus chateaux preferidos. Um Cheval Blanc seja a safra que for e em qualquer estagio de evolução na garrafa, é sempre um chateau diferenciado, de extrema classe. Este 2016 tem um assemblage de 60% Merlot, 37% Cabernet Franc, e 3% Cabernet Sauvignon. Mesmo em tenra idade, sua maciez e finesse impressionam. Os taninos potentes e extremamente finos são verdadeiros rolimãs na boca. A madeira ainda não integrada ao conjunto é notavelmente elegante, fina, acompanhando o estilo do vinho. É mais um Cheval 100 pontos que encontrará seu apogeu em 2070. Sua força e complexidade apontam realmente nesta direção. Vinhaço!

Mais uma vez, agradecimentos eternos ao Presidente que proporcionou este almoço maravilhoso com vinhos sempre recorrentes, ou seja, maravilhosos, muito bem pontuados e inesquecíveis. Abraços aos demais companheiros de mesa e copo, sempre muito divertidos com ótimas histórias. Vida longa ao Presidente! Que Bacco nos proteja!

Bordeaux Históricos: Chutando o Balde!

27 de Julho de 2019

Sabe aquele dia de maldade.  Aquele dia que você acorda e pensa: hoje eu vou chutar o balde!. Não quero correr riscos, só certezas, o céu é o limite, o dia perfeito. Foi o que aconteceu no ótimo restaurante Picchi, sob a batuta do talentoso Chef Pier Paolo Picchi no comando das panelas, e o competente Ernesto, sommelier da Casa com larga experiência em serviço do vinho.

O tema foi simplesmente vinhos nota 100. Realmente, sem comentários. Vinhos consagrados pela crítica especializada e que se firmaram definitivamente ao longo do tempo. O foco central foram os grandes Bordeaux, mas as estrelas do Rhône, além de Champagne e Borgonha, brilharam igualmente.

 12 anos sur lies

Para iniciar os trabalhos, um Dom Perignon Oenotheque 96 com 97 pontos Parker. Uma maravilha de champagne, ainda com muito frescor dado pelo prolongado contato sur lies. Na atual nomenclatura da Maison, este Oenotheque  equivale ao P2, ou seja, segunda plenitude. Elegante, mineral e com final marcante.

bela harmonização com vieiras

Antes de partir para os tintos, um belo Chevalier-Montrachet de Madame Leflaive foi servido com vieiras e couve-flor. A harmonização enfatizou o frescor e o lado mineral do vinho. Apesar de alguns anos de evolução, safra 2002, o vinho estava macio, envolvente, com toque amanteigados e de frutas secas, sem nenhum sinal de decadência. Quase no nível do 92, o qual é um dos grandes da história do Domaine.

img_6402beirando a perfeição

Já chutando o balde, de cara o Haut Brion 89 no primeiro flight. Uma safra histórica para o Chateau com muita intensidade nos aromas, boca ampla, e equilíbrio perfeito. Não tem como tirar ponto deste vinho. Destaque absoluto do jantar. Seguindo a toada, um Montrose também histórico. Denso, marcante, taninos poderosos e super finos. Longa persistência aromática. Por fim, O La Mission 89 destoou um pouquinho dos demais que estavam perfeitos. Longe de estar com problemas, um vinho ainda um pouco fechado, sisudo, mas com belo frescor e taninos ainda abundantes. Deve ser obrigatoriamente decantado, pois melhorou muito na taça. Início arrebatador!

img_6403ano de muita expectativa

Indo agora para a turma de 90, um trio de respeito. Cheval Blanc esbanjou elegância, o que é mais que esperado. Macio, equilibrado, cheio de sutilezas, e um final muito bem acabado. Já o Montrose 90 que muitas vezes pode apresentar um Brett excessivo (toques animais acentuados), desta feita a garrafa estava perfeita com tudo no lugar. Decidir entre Montrose 90 e 89 é muito mais uma questão de gosto, do que técnica. Mais um vinho para ficar na memória com sabores marcantes e profundos. Por fim, o Margaux 90, um vinho cheio de nuances que ainda não está pronto. Precisa ser decantado com antecedência, além de muita paciência na adega, pois tem segredos a revelar. Foi o que menos emocionou neste trio no momento.

img_6404o Rhône Brilha!

Neste flight, só o fato de termos um La Chapelle 78 já é motivo de contemplação. Um dos Hermitages históricos no nível do mítico 61. Um dos vinhos que requer maior tempo de guarda, após mais de 40 anos de safra, estava divino. Seus toques defumados e de chocolate são muito bem mesclados com a fruta, além dos taninos totalmente polimerizados. Um veludo em boca com grande expansão final. 

Já na trilogia dos Hommages, alguns probleminhas. Começando pela safra 90, estava perfeita. Totalmente íntegro, sem sinais de decadência, este vinho tem muito poder de fruta, rico em ervas e especiarias. Tem um lado balsâmico, um certo toque de incenso, formando um conjunto harmonioso. O grande destaque do trio. Na safra 89, a primeira baixa do jantar. O vinho estava prejudicado com o característico bouchonné. Mesmo assim, dava para perceber a força deste vinho. Denso e de longa persistência. Seria certamente o vinho do flight se estivesse perfeito. Por fim, a safra 98 é bastante atípica para esta cuvée. Com grande porcentagem de Grenache ao invés de Mourvèdre, o vinho apresentou-se muito macio, além de discreta estrutura tânica. Muito agradável de ser tomado, mas falta aquela profundidade dos grandes vinhos.

escargot e coelho no menu

Fazendo uma pausa nos vinhos, a foto acima revela alguns pratos do jantar. O da esquerda (polenta, escargot, e berinjela levemente defumada), formou um belo par com os Bordeaux 89 com toques terrosos e traços empireumáticos casando perfeitamente com os vinhos. No agnolotti de coelho à caçadora, prato muito bem executado, a parte aromática, rica em ervas, além da elegância e textura do conjunto, foram fatores decisivos para amalgamar os ricos sabores da trilogia Hommage. Ponto alto do jantar!

44409b0d-7314-405c-9f3e-f5356a26f17fdois mitos bordaleses

Agora para tudo!. Eis que chegam às taças, Mouton 45 e Haut Brion 61. Difícil traduzir em palavras as sensações provocadas por esses “monstros”. Só a incrível riqueza de frutas que um vinho com mais de 60 anos consegue preservar, já vale a experiência. Este Mouton é daqueles vinhos imortais que desdenham o tempo. Uma força, uma energia, uma maciez em boca, taninos quase glicerinados, e um final arrebatador. O único vinho que lembrou nos aromas algo deste Mouton foi exatamente o Haut Brion 89, outro monstro que está sendo criado ao longo do tempo. 

Falando agora do Haut Brion 61, é outro sonho, outro devaneio. Toda a elegância do Haut Brion potencializada numa grande safra, rica em taninos e de grande frescor. Os terciários deste vinho são incríveis com muita torrefação, ervas, tabaco, e um toque de carne grelhada sensacional. É difícil compara-lo ao Mouton 45, pois obras de arte não se comparam. De todo modo, um exemplo marcante onde a perfeição tem vários caminhos, e todos eles igualmente surpreendentes. Bravo!

img_6406a essência de 82

Neste último grande momento, a elite de 82 pede passagem. O Latour 82 como sempre, todo soberano, de uma altivez e elegância ímpares. Uma estrutura de taninos fabulosa, ainda capaz de vencer décadas em garrafa. Boca perfeita, poderosa, e ampla. 

Quanto aos outros dois, Pichon Lalande 82 é daqueles vinhos que fizeram apenas uma vez e jogaram a fórmula fora. Mesmo sendo um deuxième, se impôs de uma tal maneira sobre o Mouton, mesmo de uma garrafa perfeita. Parece que ele está mais vivo, poderoso e estruturado que o prório Mouton. Elegante ao extremo, taninos ultra polidos e um final de boca duradouro. O Mouton 82 sempre fantástico, mas a cena ficou com o Pichon mais uma vez. 

Fim de noite, muitas conversas, taças ainda guardando as emoções de um grande encontro. Os grandes anos da segunda metade do século XX nos brindando o novo milênio que está só começando. A vida é uma sucessão de fatos que marcam cada época e a transmissão de experiências que se perpetuam. Os grandes Bordeaux ao longo das décadas traduzem com maestria este pensamento, onde a longevidade faz reviver emoções que revelam peculiaridades de um tempo passado.

Agradecimentos eternos a todos os confrades por esses momentos absolutamente inesquecíveis, só mesmo possíveis, pela generosidade e amizade que nos unem. Que Bacco sempre nos proteja nestes devaneios …