Archive for the ‘Estados Unidos’ Category

Varanda com Americanos

22 de Outubro de 2019

Essa é uma boa parceria, Varanda Grill e Cult wines americanos. Num ótimo almoço com uma das melhores carnes de São Paulo, o desfile de vários notas 100 da elite americana fez uma parceria de primeira em termos de harmonização. Carnes extremamente suculentas, grelhadas com maestria, foram agraciadas com os mais potentes e finos taninos dos grandes tintos de Napa Valley. Para iniciar e selar o almoço, um branco e um tinto da vinícola butique Sine Qua Non foram a cereja do bolo com vinhos arrebatadores.

7d256fb0-7489-433c-99e1-548818832956o time completo

Antes de partir para os tintos de Napa, vamos falar desta dupla Sine Qua Non com vinhos mágicos e cheios de personalidade. Trata-se de uma pequena vinícola ao norte de Los Angeles com inspiração nos vinhos do Rhône. Portanto, uvas como Syrah, Grenache, Viognier, Roussanne e Marsanne, são interpretadas de maneira magnífica com vinhos impactantes. Os vinhedos estão localizados em Santa Barbara, Santa Rita Hills e Santa Maria com rendimentos muito baixos.

img_6789vinhos de corpo e alma

O vinho da esquerda, The Petition 2005, é um corte inusitado com as uvas Chardonnay, Viognier e Roussanne com 15,8% de álcool. Um branco denso, encorpado, quase um Sauternes sem açúcar. Os aromas são de frutas exóticas, especiarias, notas de incenso, e algo floral. Tem o perfil dos grandes Hermitages brancos de topo de gama. Enfrenta bem pratos com bacalhau, carnes defumadas, e cozidos bem condimentados. Tem 95 pontos Parker. Um branco impactante.

Já o tinto à direita, The Inaugural 2003, vem do vinhedo Eleven Confessions em Santa Rita Hills. O vinho é à base de Grenache com 10% de Syrah. Passa 38 meses em barricas francesas. Uma explosão de aromas de frutas em geleia, especiarias, ervas, notas defumadas e um fundo mineral. Encorpado, denso, e muito longo em boca. Lembra os grandes Grenaches espanhóis e até algo dos grandes Prioratos. Tem 100 pontos Parker e muita vida pela frente, embora já delicioso.

Cabernets e suculência das carnes

O vinho da esquerda, Dalla Valle Maya 1992, um Maya histórico de 100 pontos. Pena que o vinho estivesse um pouco cansado, mas seus taninos são de veludo numa mistura de 55% Cabernet Sauvignon e 45% Cabernet Franc. Aromas elegantes com toques de cacau, defumado, e fruta escura lembrando ameixas. Exemplar difícil de ser encontrado que está no auge para ser bebido.

À direita, o único 100% Cabernet Sauvignon do painel da AVA Rutherford, Scarecrow 2006. Decantado por duas horas, é um vinho poderoso com vinhas de mais de 60 anos. Embora tenha passado por barricas novas francesas, o vinho tem fruta extraordinária com belos toques de alcaçuz. Seus taninos são bem moldados e casou perfeitamente com a suculência das carnes acima.

napa valley rutherford oakvilleo filé-mignon de Napa

As AVAs acima, American Vitucultural Area, de Rutherford e Oakville, são os melhores terroirs para Cabernet Sauvginon americano. Do lado oeste, perto Mayacamas Mountains, o solo é aluvial e pedregoso, enquanto do lado leste, Vaca Mountains o solo tende a ser mais vulcânico. Vinícolas como Harlan Estate, Screaming Eagle, Dalla Valle, Opus One, Inglenook, Heitz Cellars, estão todas neste pedaço. Os Cabernets de Rutherford tendem a ser mais austeros, duros, enquanto os de Oakville são mais opulentos.

filé-mignon (tenderloin) perfeitamente grelhado

Este foi o vinho mais pronto, mais evoluído, e de estilo mais francês do painel. Um típico corte de margem esquerda com 93% Cabernet Sauvignon, 6% Cabernet Franc, e 1% Merlot, e 15 meses de barricas francesas novas. Delicioso com notas de tabaco, estrebaria, frutas escuras, ervas finas, café, além de taninos totalmente polimerizados. Não é muito longo em boca, mas superequilibrado. Casou perfeitamente com o corte acima divinamente grelhado ao ponto.

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200 pontos na mesa

O duelo final tinha que ser com 200 pontos na mesa em estilos completamente diferentes. Os dois partem de cortes bordaleses com Cabernet Sauvignon de maneira majoritária. O Madrona Ranch 2002 da vinícola Abreu localizada na AVA Santa Helena parece mais pronto e mais exuberante. É um vinho mais direto com perfil americano dos grandes tintos. Muito sedutor e extremamente aromático. Já o Harlan 2001 é mais um da extensa coleção de 100 pontos. É extremamente elegante, diferenciado e de estilo europeu. Aromas de muita classe e um equilíbrio em boca fantástico. É dificil um cult wine bater este vinho, sobretudo quando ele atinge a perfeição. Os dois vinhos merecem longa decantação no momento e tem poder de guarda em adega. É claro que o Harlan vai mais longe com apogeu previsto para 2040. O Abreu Madrona Ranch tem mais uns dez anos de evolução. De todo modo, um duelo de gigantes!

Agradecimentos a todos os confrades, especialmente ao nosso Presidente com vinhos surpreendentes e muito bem adegados. Foi um show de harmonização, boa conversa, e uma experiência sensorial incrível. Os Estados Unidos mais uma vez mostraram sua força e enorme competência em elaborar grandes vinhos. Que Bacco nos conduza sempre pelos melhores caminhos!

Latour: O Senhor do Médoc

4 de Agosto de 2019

Se você pudesse perguntar a um grão de Cabernet Sauvignon o que ele queria ser quando crescer, a resposta só poderia ser esta: um Chateau Latour. Não há local no mundo onde a Cabernet Sauvignon se sinta mais à vontade do que os vinhedos de Latour. Especialmente sua maior parcela denominada L´Enclos com 47 hectares de vinhas, grande parte antigas, tem uma pedregosidade e uma capacidade de drenagem singulares. Estudos de solos no Médoc ligados à viticultura apontam esta parcela como a melhor da região, onde o desenvolvimento da Cabernet Sauvignon é pleno, gerando vinhos de grande estrutura e longevidade. Um Latour de boa safra é capaz de vencer décadas na adega, numa evolução lenta e espetacular. 

Outro fator de destaque neste Chateau é sua incrível regularidade safra após safra. Mesmo naquelas consideradas mais problemáticas como 2002, por exemplo, Latour se mantem sóbrio, bem equilibrado, justificando seu posto de um verdadeiro Premier Grand Cru Classé. 

Outro fator que corrobora para esta consistência é seu segundo vinho denominado Les Forts de Latour, criado em 1966, o mais valorizado e respeitado dentre todos os segundos vinhos do Médoc, podendo envelhecer magnificamente. Para se ter uma ideia do fato, a safra 2010 ainda em evolução tem 97 pontos Parker. 

 

Chardonnay em duas versões

Para iniciar os trabalhos, um par de brancos Chardonnay de estilos e propostas completamente diferentes. O americano Peter Michael Belle Côte 2012 com 99 pontos é intenso em aromas e persistente em boca. Feito a la Bourgonge, fermenta e estagia em barricas francesas com periódicos bâtonnage (revolvimento das borras). O vinho estava um pouco evoluído para sua idade, mas sem sinais de oxidação. O pessoal não gostou muito do vinho e com razão. Ele é muito invasivo, quase doce, faltando finesse. Muitas vezes, a intensidade, potência, extração excessiva, atrapalham a harmonia do conjunto. Muito longe da elegância dos grandes brancos da Borgonha.

Por outro lado, o Chablis básico do Drouhin também não encantou. Embora muito equilibrado e fresco em boca, não tinha aquela tensão e mineralidade dos grandes Chablis. Questão de um terroir mais privilegiado e rendimentos mais baixos no vinhedo. Muito longe dos mestres Dauvissat e Raveneau.

img_6447notem o álcool destes vinhos (12,5%)

Neste embate acima, duas grandes safras de Latour dos anos 90. Os dois vinhos tem corpo e estrutura dos grandes Bordeaux sem álcool excessivo. Notem a graduação de 12,5% de álcool, fator raro nos tintos da atualidade, provando que outros componentes como extrato e taninos, têm sua devida importância.

O Latour 96 tem a fruta exuberante e a graciosidade desta safra. Embora em tenra idade, é bastante agradável de beber, mesmo para padrões normalmente austeros de Latour. O vinho tem um belo equilíbrio, aromas ainda primários, e muito longo em boca. Safra que vai evoluir bem em adega. Já o Latour 90, mais evoluído, com seus toques terciários de couro fino e caixa de charuto. Não é tão longo  e estruturado como o 96, mas é muito prazeroso, embora possa ser adegado com tranquilidade. Essas duas safras convém decanta-las com pelo menos duas horas antes de servir. 

 

pratos consistentes e ricos em sabor

Para acompanhar essa maravilhas, um ossobuco com risoto zafferano, ficando muito bem com o Latour 90, mais macio. Já o contrafilé Angus, uma carne mais consistente e suculenta, aderiu melhor à trama tânica mais evidente do Latour 96. O almoço deu-se no restaurante Nino Cucina, sempre lotado, com atenção especial do experiente sommelier Ivan, patrimônio da Casa.

img_6448como é bom um Latour 82 !

A grande estrela do Chateau, Latour 82 nota 100, ficou para brilhar sozinha, sem comparações. Um dos melhores Latour de toda história, já muito prazeroso de ser tomado. Contudo, ainda está em evolução e terá certamente um platô amplo de estabilização por décadas. A fruta é deliciosa e muito presente com seus quase 40 anos de idade. Os taninos são abundantes e muito finos. O álcool e a acidez são perfeitamente balanceados ao conjunto, num final longo e muito bem acabado. Sempre um grande prazer em revê-lo!

 

Porto e Tiramisú, bela dupla!

Nada melhor para encerrar uma refeição com Latour que um Porto Vintage de uma grande Casa e uma grande safra. Eis que surge um Graham´s Vintage Port 1963. Ele está cotado entre os três melhores Portos desta safra, junto com o Noval Nacional e o Fonseca. E olha que não é pouco, pois 63 é uma safra mítica. É seguramente um dos cinco melhores Vintages do século XX.

Tomar um Vintage antigo é sempre uma experiência única. Este com seus quase 60 anos, já tem seus taninos todos polimerizados, o álcool perfeitamente integrando ao conjunto, e os aromas lindamente desenvolvidos. Um licor de frutas escuras intenso, marcante. Os aromas de ervas, especiarias, além de notas empireumáticas de café e chocolate, permeavam a taça. Um final longo e expansivo nos convidava para mais uma taça. Ficou divino com o Tiramisú da Casa, um dos melhores da cidade, sobretudo pela harmonia de texturas e sabores. Um belo final de tarde!

Agradecimentos intensos aos confrades pela companhia e generosidade, sobretudo ao nosso Presidente com garrafas sempre impecáveis. Nota de destaque ao Doutor Ricardo pelo Porto histórico, clamando por participações mais frequentes no grupo. Que Bacco sempre nos proteja!

Brancos e Tintos de mesmo Esplendor

6 de Maio de 2019

Entre brancos e tintos, o destaque vai para os grandes vinhos, independentes de cor, tipo, ou estilo. Os brancos primam pela destacada acidez e os tintos por seus finos taninos. Isso mais uma vez ficou provado num delicioso almoço no restaurante Bela Sintra, Jardins, São Paulo.

Riesling seco e mineral

O almoço começou arrebatador com um Riesling seco, extremamente mineral, e de grande elegância aromática. Seco sem ser austero, seus aromas minerais, florais e de frutas brancas delicadas permeavam a taça. Boca imponente, de bom corpo, e de uma acidez refrescante, marcante, na medida certa para estimular um gole a mais. Persistente, fino e expansivo em seu final de boca.

Estamos falando de uma propriedade histórica, Schlloss Johannisberg localizada no Rheingau, região vinícola alemã das mais nobres e eterna rival dos vinhos do Mosel. Este terroir é extremamente bem definido, começando com uma abrupta mudança de direção do rio Reno quando caminha para o norte. Num determinado ponto, faz uma curva marcante para oeste, onde a face norte do rio encontra um grande talude perfeitamente orientado a sul, protegido pela cadeia de montanha Taunus. Esta propriedade monástica, de fundação milenar, é uma espécie de Clos de Vougeot alemão por sua importância histórica. É de grande destaque seus Rieslings nos mais variados estilos, sendo creditado a origem da uva nesta propriedade. Seus solos são complexos numa mistura de argila, quartzo, e loess, este último originário  de solos a partir da ação dos ventos. A propriedade é muito bem localizada na parte central do Rheingau com aproximadamente 30 hectares de vinhas.

rheingau schloss johannisbergSchloss Johannisberg no centro do mapa

Explorando um pouco mais o rótulo alemão, percebemos que a uva é Riesling e que o vinho é seco (trocken). O mais importante é a sigla GG (Grosses Gewächs) que equivale ao termo Grand Cru na Borgonha, a classificação máxima de um vinhedo.

classificação alemã VDPpirâmide de classificação VDP

Conforme mapa acima, VDP é a mais rígida classificação alemã para vinhos de qualidade que significa Associação alemã de produtores de qualidade com predicados (procurar pelo símbolo da águia com cacho de uvas na cápsula da garrafa). Na pirâmide acima, GG significa que estamos no topo com vinhos secos de alta qualidade.

Para completar a explicação, Erste Lage significa vinhedos Premier Cru, também muito bem localizados. Descendo a pirâmide, Ortswein significa vinhedos comunais, um pouco mais genéricos, e finalmente, Gutswein, vinhedos genéricos sem maiores especificações, mas ainda de qualidade comprovada, de acordo com sua classificação. Numa comparação com a Borgonha, se pensássemos no produtor Armand Rousseau, seu Chambertin seria um GG, seu Clos St Jacques seria um Erste Lage, e seu Gevrey-Chambertin comunal seria um Ortswein. Portanto, bebemos um Grand Cru. Ufa! vinho alemão é duro de explicar!

img_6044dois gigantes em magnum  

Fazer frente a um Chateau Latour 1990 em magnum, é tarefa para poucos, mesmo que essa outra garrafa também seja magnum. Foi o que aconteceu no embate acima com o excepcional Harlan 2001, 100 pontos Parker. Mais um 100 pontos para esta vinícola espetacular, colecionadora de notas máximas. O corte bordalês é típico de margem esquerda com predominância de Cabernet Sauvignon, sobre as demais uvas, Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot, semelhante ao grande Latour. 

Falando primeiro do Latour 90, um vinho sempre com uma consistência impressionante e seu aroma de couro fino, pelica nobre, quase inconfundível. Não está na galeria dos Latours históricos como 82, 61, 70, 95, 96, ou 59, mas mesmo assim, é um baita vinho com 95+ pontos Parker, merecidamente. Seu corpo não é tão denso como costuma ser, mas tem boa evolução em garrafa com aromas terciários se formando de forma brilhante. Seu equilíbrio é perfeito com final elegante e de grande distinção. Comparado ao 82, mais uma vez constatamos que a safra 90 é muito boa, mas não chega e nem vai chegar ao esplendor de 82, talvez a melhor safra do século XX, tal a quantidade de Chateaux que elaboraram vinhos históricos. Safra pródiga em quantidade e qualidade.

Passando agora para o Harlan, um monstrinho engarrafado. Um vinho com uma força extraordinária, nivelado sempre por cima. Encorpado, glicerinado, textura de taninos extremamente fina, a despeito da quantidade impressionante. Aromas poderosos de frutas escuras, chocolate, e notas de tabaco. Um nariz bordalês que impressiona, mostrando que é o Latour das Américas por sua imponência notável. Um vinho longo em boca, expansivo, vislumbrando décadas de guarda.

pratos marcantes do Bela Sintra

O bacalhau à lagareira com o Riesling, e o arroz de pato com os tintos, ficaram muito interessantes. O Riesling tinha força e textura para o prato, além da acidez do vinho enfrentar a gordura da iguaria de forma admirável. Já o arroz de pato com seus sabores marcantes tinham perfeita sintonia com os sabores do vinho. Pratos tradicional do sempre consistente restaurante Bela Sintra.

img_6045um bebê de futuro brilhante

Mais um Yquem de 100 pontos nasce, confirmando a glória de um dos mais espetaculares vinhos doces do mundo. Um joia liquida com quase 150 gramas de açúcar residual, perfeitamente equilibrados por uma acidez refrescante. Vinte meses de barricas novas foram suficientes para lhe dar equiibrio e complexidade. Percebe-se a Botrytis por seu perfil glicenirado e textura macia. Longo em boca, seu poder de fruta é imenso e de grande harmonia. Deve evoluir bem por décadas, ganhando complexidade e harmonia perfeitas. Este vinho não está nem no site do próprio Yquem, mas nas palavras de Pierre Lurton é uma das safras mais espetaculares elaboradas por ele. Foi trazido debaixo do braço por um nobre confrade.

Enfim, vinhos de grande estirpe, elaborados de maneira diferente, uvas diferentes, e terroirs diferentes, mostrando mais uma vez a diversidade desta bebida milenar. Agradecimentos aos confrades pela companhia, boa conversa, e imensa generosidade. Que Bacco nos proteja! 

 

California Dreams

3 de Fevereiro de 2019

Em mais uma reunião da confraria, o almoço no ótimo restaurante de carnes Varanda Grill, foi regado com alguns cult wines de Napa Valley. Parte deles, como Cabernet Sauvignon puro, e os demais como cortes bordaleses. Nas duas versões, os americanos mostram que entendem do assunto, cumprindo bem a função de digerir a fibrosidade de alguns cortes nobres com seus poderosos e finos taninos.

 

uma festa para bons taninos!

Os cortes acima, miolo de alcatra e fraldinha, entre outros que desfilaram, mostraram ótima suculência para abrandar taninos, um dos componentes do vinho de maior conflito em harmonizações.

Antes porém, uma pausa para refrescar este impiedoso verão. Chardonnay e Sauvignon Blanc americanos.

img_5616uvas bem interpretadas com tipicidade

O Chardonnay à esquerda, pertence à região da Costa Central, beirando o litoral californiano, a sul de Napa Valley, a caminho de Los Angeles. Região de altitude em Santa Bárbara que compreende as AVAs: Santa Rita Hills, Santa Ynes Valley, e Santa Maria Valley. Trabalham muito bem as uvas Chardonnay e Pinot Noir. Neste exemplar, o vinho passa 10 meses em barricas com baixa porcentagem de madeira nova. A fruta está bem presente, o vinho tem frescor e equilíbrio. Os aromas são elegantes, lembrando algo da Borgonha.

O vinho da direita é um belo Sauvignon Blanc do histórico vinhedo Eisele, propriedade de Araujo Estate. Como curiosidade eles trabalham com um clone exótico de Sauvignon Blanc denominado “Musque”. O vinho tem um mix de aço inox, barricas usadas e uma pequena porcentagem de novas. Como estilo, fica no meio termo entre um Sancerre do Loire e um Bordeaux blanc. Fresco e muito instigante.

img_5614históricos vinhedos de Napa

O vinho da esquerda é do histórico vinhedo Eisele em Calistoga, extremo norte de Napa Valley. Pela lei americana, um vinho com mais de 85% de uma determinada uva é considerado varietal e pode colocar o nome da uva no rótulo. Neste caso, temos 93% Cabernet Sauvignon, 4% Cabernet Franc, e 3% Petit Verdot. O vinho passa 22 meses em barricas francesas, sendo 75% novas. Vinho de muita estrutura, sem sinais de decadência e com boa vida ainda em adega. 92 pontos Parker.

Enfim, o primeiro 100 pontos do almoço, Abreu Madrona Ranch 1997. Talvez o melhor Abreu de toda a história. Tinto complexo, elegante, cheio de nuances. Madrona Ranch é um vinhedo histórico da AVA Santa Helena, mesclando uvas bordalesas. Neste corte temos 50% de Cabernet Sauvignon, 35 a 40% de Cabernet Franc, o que explica a elegância do vinho, e uma pequena porcentagem de Merlot e Petit Verdot. O vinho passa 24 meses em barricas francesas novas. Um Bordeaux de primeira classe. Foi páreo duríssimo para o Dominus 1994, que será comentado a seguir.

img_5613200 pontos na mesa

O ponto alto do almoço. Se existe perfeição em Napa Valley, ei-la aqui. Harlan Estate é um corte bordalês de alta classe. Com cerca de 80% Cabernet Sauvignon, e o restante com Merlot e Cabernet Franc, é um autêntico margem esquerda. Esse da safra 97 é um dos mais perfeitos Harlans. Tem potência e elegância num nível absurdo. É profundo e de longa persistência. Enquanto o Abreu descrito acima encontra-se no auge de sua evolução, este Harlan ainda tem chão pela frente, embora já delicioso.

Já o vinho da esquerda, é a perfeição num Cabernet Sauvignon puro. A safra 97 foi uma das históricas da vinícola boutique Screaming Eagle com produção limitadíssima. A potência e a montanha de taninos que esse vinho apresenta consegue ter a mesma dimensão na textura cremosa de seus taninos. Um tinto impactante que tem força para te esmagar, mas no entanto te dá um abraço carinhoso. Espetacular!

img_5615estilos opostos

Este foi sem dúvida, o painel mais contrastante em termos de estilo de vinho. Dominus 94 é um vinho praticamente perfeito com 99 pontos Parker. O ícone dos cortes bordaleses de Napa com 70% Cabernet Sauvignon e o restante entre Merlot e Cabernet Franc. Um vinho inteiro, cheio de charme e elegância. Embora com um pouco mais de estrutura que o Abreu 97 acima comentado, ainda tem alguns anos para atingir o pleno apogeu. Os vinhedos da Dominus estão na AVA Yountville, divisa de comuna com Oakville.

Já o Colgin Herb Lamb 1994 foi o vinho menos evoluído do painel com um rubi profundo na tonalidade de cor. Um Cabernet austero, potente, e bem casado com a madeira. Precisa de decantação, pois de início pareceu um pouco fechado. Aguenta fácil mais uns dez anos em adega, mostrando o potencial de longevidade destes grandes tintos de Napa. 96 pontos Parker. Os vinhedos da Colgin estão na AVA Santa Helena.

img_5617sete anos depois …

Não é foto repetida não. Foi mais um flight desta estupenda dupla de tintos sete anos mais nova com a safra 2004. Não temos mais 200 pontos na mesa, mas o nível continua altíssimo. Este Screaming Eagle 2004 tem 97+ pontos de Parker. A novidade é que apesar de ainda ser um Cabernet Sauvignon em sua essência (85%), temos um pouco de Merlot e Cabernet Franc. A profundidade de sabor e a elegância de taninos continuam notáveis. Evidentemente pela juventude, ainda tem bons anos em adega.

Passando ao Harlan Estate 2004, um monstro engarrafado com 98 pontos Parker. É de uma riqueza e elegância excepcionais. Fica difícil julga-lo neste momento, mas seu equilíbrio, estrutura de taninos, seu poder de fruta, são arrasadores. Seu apogeu ainda está longe, mas será um dos grandes Harlans memoráveis.

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AVA Oakville

O mapa acima mostra a AVA (American Viticultural Area) de  Oakville, uma espécie de Denominação de Origem americana. Assim como temos as comunas de  St-Estèphe, Pauillac, St Julien e Margaux em Bordeaux,  em Napa temos Rutherford, Oakville, Santa Helena e Stag´s Leap. A atenção especial a Oakville vem do fato de ser o distrito que abriga as vinícolas Harlan e Screaming Eagle em lados oposto do vale. Harlan Estate do lado esquerdo do mapa, junto ao conjunto de montanhas Mayacamas, tem um solo aluvial, bem drenado, proporcionando vinhos elegantes e com bom potencial de guarda. Já o lado leste de Screaming Eagle, junto as montanhas Vaca, tem um solo mais pesado de origem vulcânica e um clima mais quente, proporcionando vinhos de grande caráter e potência. Acho que isso explica bem a diferença destes dois ícones americanos, embora grandiosos em seus respectivos estilos.

img_5612join venture famosa de Napa

Opus One foi uma jogada de mestre do carismático Robert Mondavi, unindo-se ao Baron Rothschild para produzir um dos mais icônicos tintos de Napa Valley. Este 2007 provado é um dos melhores de todas as safras já produzidas. Ainda jovem, tem uma boa trama tânica, bem equilibrado, e bem dosado nos seus 19 meses de barricas francesas novas. Tem 95 pontos Parker e é composto de 79% Cabernet Sauvignon, 8% Merlot, 6% Cabernet Franc, 6% Petit Verdot e 1% Malbec.

Já o Opus One 1997 é um vinho pronto, muito agradável no momento, bem equilibrado, tendo todos os terciários de um corte bordalês. Embora seja um dos grandes de Napa, não foi páreo para o time de cima como Harlan e Screaming Eagle. Este exemplar tem 88 pontos Parker. Opus One pertence à AVA Oakville.

 

garrafa magnum e bife de tira

Este tinto apresentado em Magnum, foi dos menos empolgantes do painel. Hundred Acre é uma das vinícolas boutique mais badaladas na atualidade, pertencente à AVA Santa Helena. Este Cabernet Sauvignon do vinhedo Ark safra 2007 não despertou paixões, embora bastante macio e pronto para ser apreciado. Faltou um pouco mais de estrutura e classe para chegar ao nível dos demais. Como curiosidade, valeu a experiência, mostrando que devemos ter cuidado em separar o joio do trigo. Muitas vezes a publicidade e o influente lobby do vinho fala mais alto que a verdade na taça.

Enfim, fica mais uma vez ratificado que os cult wines de Napa são vinhos de grande prestígio, de grande poder de longevidade, a despeito de preços estratosféricos como Harlan e Screaming Eagle. A diversidade de marcas e estilos enriqueceu o painel, mostrando que a confraria voltou com força total para 2019. Agradecimentos a todos pela generosidade, a boa conversa, e o entusiasmo por sempre estarmos presentes e compartilhando histórias. Que Bacco nos proteja!

 

Wine Spectator e mais Top Ten

20 de Novembro de 2018

Os cem melhores vinhos do ano de 2018, segundo a revista Wine Spectator. Relação sempre polêmica envolvendo a qualidade do vinho em si (nota), disponibilidade no mercado (número de caixas) e preço por garrafa, ou seja, o difícil é ter nota alta, grande produção e preço baixo. Poucos conseguem esta proeza. (www.winespectator.com).

De toda a relação, temos 30 americanos (a revista é americana), 20 italianos, 18 franceses, 8 espanhóis, 3 portugueses, 5 australianos, 4 neozelandeses, e o restante entre chilenos, argentinos, alemães, austríacos, sul-africanos, um de Israel, e um grego.

Dos americanos, sempre vinhos caros e praticamente indisponíveis no Brasil, a relação ratifica que as regiões da Califórnia (Napa, Sonoma, e Costa Sul), Oregon e Washington, sempre fornecem grandes vinhos que devem ser provados e comprados no exterior.

Dos italianos, a região da Toscana sobretudo, foi grande destaque com Chianti Classico e Brunello, embora um siciliano dentre os Top Ten.

Dos franceses, grande destaque para os bordaleses da safra 2015, uma das melhores dos últimos anos na Europa, e para os tintos do Rhône, especialmente Chateauneuf-du-Pape.

Da península ibérica, Espanha sempre com tintos instigantes e do lado português, destaque para a ótima safra 2016 no Douro com Vintages clássicos e de grande longevidade. Temos dois grandes Portos na lista.

De resto, a Oceania (Australia e Nova Zelândia) garfou nove exemplares, além dos outros países citados acima com participações pontuais.

Diante da lista completa, Vinho Sem Segredo seleciona seus Top Ten sem maiores pretensões, e de maneira nenhuma, subestimando a lista oficial. São também grandes vinhos, envolvendo além das notas, gosto pessoal.

1. Warre Vintage Port 2016

14° colocado na lista oficial com 98 pontos, Warre é a casa inglesa mais antiga em Vinho de Porto desde 1760. É logico que abri-lo agora é um imperdoável sacrilégio. Um vinho cheio de energia com taninos massivos e muita coisa a se desenvolver. Para os que estarão aqui em 2050, será um dos grandes Portos a atingirem o apogeu. Importadora Decanter.

wine spectator san felice chianti classico

2. San Felice Chianti Classico 2016

19° colocado na lista oficial com 94 pontos, este Chianti Classico custa somente 17 dólares no exterior. San Felice é um dos mais tradicionais produtores de Chianti Classico localizado em Castelnuovo Berardenga, próximo a Siena. Foi o pioneiro dos supertoscanos com o tinto Vigorello, lançado no mesmo ano do Sassicaia em 1968. Seus toques minerais e de tabaco são clássicos neste distinto terroir. Importadora Via Vini.

3. Roederer Estate Brut Anderson Valley

27° colocado na lista oficial com 93 pontos, este espumante é dos melhores da América com a chancela da Maison Louis Roederer. Com vinhedos localizados em Anderson Valley, próximo a Mendocino, região costeira bem ao norte da Califórnia, o vale absorve a tradicional neblina do Pacifico, provocando grande amplitude térmica. Neste blend clássico, temos Chardonnay (60%) e Pinot Noir (40%) com pelo menos dois anos sur lies (contato com as leveduras) antes do dégorgement.

wine spectator chateau-branaire-ducru 2015

4. Chateau Branaire-Ducru St Julien 2015

33° colocado na lista oficial com 94 pontos, este é um dos belos Grand Cru Classe da safra 2015. Nada a ver com o Chateau Ducru-Beaucaillou, outro ótimo Saint-Julien, Branaire-Ducru é um quatrième classificado de 1855. Blend composto por Cabernet Sauvignon (dois terços), Merlot (praticamente um terço), e pequenas porcentagens de Cabernet Franc e Petit Verdot. O vinho estagia entre 16 e 20 meses em barricas francesas (65% novas). Uma boa compra no exterior frente a outros chateaux mais famosos.

5. Descendientes de J. Palacios Bierzo Pétalos 2016

35° colocado na lista oficial com 92 pontos, este é um clássico da notável região de Bierzo, a noroeste da Espanha. Com seu relevo montanhoso e solo de pizarras (espécie de ardósia fragmentada), Bierzo molda tintos instigantes com a casta Mencia, cheio de pureza e mineralidade. Um dos grandes terroirs da Espanha. Importadora Mistral a bons preços.

wine spectator henri bourgeois les baronnes

6. Henri Bourgeois Sancerre Les Baronnes 2017

46° colocado na lista oficial com 92 pontos. Um dos melhores produtores da apelação Sancerre, Henri Bourgeois molda Sauvignon Blanc  típicos do Vale do Loire. Les Baronnes é um de seus vinhedos, gerando brancos de ótimo frescor para nosso verão. Sem passagem por madeira. Importadora Grand Cru.

7. Domaine des Baumard Quarts de Chaume 2015

52° colocado na lista oficial com 98 pontos, este é um clássico botrytisado do Vale do Loire. Para quem está cansado de Sauternes, Quarts de Chaume é uma apelação clássica de Anjou com a casta Chenin Blanc. Vinho de grande delicadeza, complexidade, e longevidade. Importadora Mistral.

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8. Hamilton Russell Chardonnay Hemel-en-Aarde Valley 2017

57° colocado na lista oficial com 93 pontos, Hamilton Russell é sinônimo de Borgonha na África do Sul. Com vinhedos situados na fria região litorânea de Walker Bay, banhada pela corrente de Benguela, seus Chardonnays fermentados e amadurecidos em barricas francesas, são complexos, equilibrados e expansivos. Importadora Mistral. 

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9. Auguste Clape Cornas 2015

77° colocado na lista oficial com 98 pontos, Auguste Clape é referência absoluta na apelação Cornas, maldosamente mencionada como “Hermitage dos pobres”. Tinto de grande força, personalidade, e longevidade. Seus vinhedos ficam num anfiteatro localizados a sul da apelação Hermitage com uma exposição solar fora de série para o perfeito amadurecimento das uvas Syrah. Para quem tem muita paciência em adegar. Importadora Mistral.

10. Henri Gouges Nuits-St-Georges Clos des Porrets 2015

79° colocado na lista oficial com 95 pontos, Henri Gouges personifica o lado mais masculino de Nuits-St-Georges, vasta comuna com muitas expressões de terroir. Clos des Porrets é um monopólio de pouco mais de três hectares. Tinto musculoso, tânico, e de grande longevidade. O lado mais viril da Pinot Noir. Importadora Zahil.

Enfim, uma lista com cinco franceses de diferentes procedências. A outra metade com vinhos pouco conhecidos do grande público, de preços variados, e muitos deles encontrados no Brasil, embora a preços nem sempre convidativos. Para aqueles que têm a oportunidade  de irem ao exterior, uma bela chance de prova-los a preços honestos.

 

 

 

Top Ten WS

16 de Novembro de 2018

Nesta época do ano, temos a famosa lista dos Top 100 da revista Wine Spectator. Dentro dos 100 melhores há os chamados Top Ten, revelados dias antes. Nesta edição 2018 temos três americanos, três franceses, três italianos, e um espanhol. Independente dos critérios e supostas preferências, trata-se de grandes vinhos muito bem pontuados. Alguns mais clássicos como o vinho do Ano, outros como novidades, e sempre alguns americanos. 

Embora as polêmicas sejam inevitáveis em torno dos americanos, devemos lembrar que a revista é americana. Portanto, nada mais natural que promover as pratas da casa. De todo modo, é bom não nos esquecermos que os Estados Unidos são a quarta potência no mundo do vinho e que seus Cult Wines são de fato maravilhosos, competindo em qualquer degustação com os melhores do mundo. Feita as devidas considerações, vamos a eles!

wine spectator bedrock heritage 2016vinhas plantadas em 1888!

10. Bedrock Heritage Sonoma Valley 2016

Tinto de vinhas muito antigas com 27 varietais, destacando-se Zinfandel (50%), Carignan (20%) e Mataro (4%). Vinho de grande concentração, sugerindo decantação de 12 a 24 horas. Bedrock vineyard é um vinhedo plantado em 1888 na região costeira de Sonoma.

9. Tenuta delle Terre Nere Etna San Lorenzo 2016

A Sicilia é talvez a região mais vibrante da Italia em termos de novidades e renovação, especialmente ao redor do monte Etna, no setor leste da ilha. Nerello Mascalese é a grande estrela como uva autóctone. Neste exemplar, San Lorenzo é um vinhedo especial de quatro hectares da vinícola tratado como Grand Cru com vinhas entre 50 e 100 anos plantadas em alberello ou vaso (modo antigo de plantio junto ao chão) numa altitude entre 700 e 750 metros. Após 16 a 18 meses de afinamento em diversos tipos de madeira francesa (apenas 20% de madeira nova), o vinho é engarrafado.

8. Le Vieux Donjon Chateauneuf-du-Pape 2016

Domaine localizada quase dentro de Chateauneuf-du-Pape, próximo ao mítico Henri Bonneau. Com a mesma filosofia, trabalha com vinhas antigas, sobretudo Grenache de vinhas centenárias, juntando uvas de vários vinhedos de diferentes terroirs. O blend para o tinto é composto de Grenache (75%), Mourvèdre (10%), Syrah (10%) e Cinsault (5%). A média de idade das vinhas ultrapassa 50 anos. A vinificação é tradicional e o vinho amadurece por 18 meses numa combinação de grandes toneis com uma pequena parte em cimento.

7. Colene Clemens Pinot Noir Chehalem Mountains Dopp Creek 2015

Elaborado com quatro clones especiais de Pinot Noir, as uvas são 100% desengaçadas com longa fermentação sob ação de leveduras naturais. Há uma pós-fermentação de 5 a 7 dias para maior extração. O vinho estagio 11 meses em barricas francesas de diferentes idades, sendo 28% novas. Chehalem Mountains é uma das AVAs de prestígio no extremo norte de Willamette Valley, próxima à cidade de Portland. Seu solo complexo e pedregoso é uma mistura de basalto (origem vulcânica) com sedimentos marinhos em colinas voltadas para o sul.

6. Aubert Chardonnay Carneros Larry Hide & Sons 2016

Terroir frio na entrada de Napa Valley, Carneros está sob a influência da baía de San Pablo. Chardonnay elaborado com mínima intervenção, fermentado em barricas francesas, predominantemente novas. Intenso e cremoso.

wine spectator dom perignon 2008a passagem do bastão

5. Moët & Chandon Dom Pérignon Legacy Edition 2008

Cuvée de grande prestígio, marca fundamentalmente a passagem de bastão do Chef de Cave Richard Geoffroy desde 1990, para Vincent Chaperon a partir da safra 2009. Com longo trabalho sur lies, um Dom Pérignon costuma demorar dez anos para ser lançado. Consistente safra após safra. Que a sucessão seja um sucessão!

4. La Rioja Alta 890 Gran Reserva Selección Especial 2005

O clássico dos clássicos em Rioja, talvez a denominação mais importante para tintos em toda a Espanha. Tempranillo (95%), Mazuelo (2%), e Graciano (3% dentre outras castas), formam o blend deste estupendo tinto que passa seis anos em diversas barricas com dez trasfegas ao longo deste período. Um vinho super elegante com uma profundidade e equilíbrio monumentais. Estará eternamente entre os melhores vinhos do planeta.

3. Castello di Volpaia Chianti Classico Riserva 2015

Vinhedos localizados em Radda in Chianti, região histórica do Chianti Classico. 100% Sangiovese cultivado em altitudes entre 400 e 500 metros de solo pedregoso de natureza argilo/arenosa. Passa cerca de 24 meses em botti da Eslavônia e parte em barricas francesas. Pode ombrear-se aos melhores Brunellos.

2. Chateau Canon-La-Gaffelière 2015

Saint-Emilion de ponta na classificação Premier Grand Cru Classe B. Situado a sul do Chateau Ausone e a oeste do Chateau Pavie em solo argilo/arenoso. A média de idade das vinhas é de 50 anos, com alguns lotes chegando perto de 100 anos. O blend é composto de Merlot (55%), Cabernet Franc (38%) e Cabernet Sauvignon (7%). O vinho amadurece com as lias entre 15 e 18 meses em carvalho francês, 100% novo. A safra 2015 dispensa comentários.

wine spectator sassicaia 2015Bolgheri Sassicaia: denominação de origem própria

O Vinho do Ano

Depois de 50 anos da primeira safra em 1968, o pai dos “supertoscanos” é o Vinho do Ano da Wine Spectator com a safra 2015. Oxalá ela tenha o mesmo êxito do mítico Sassicaia 1985, o melhor Sassicaia da história.

1. Tenuta San Guido Bolgheri Sassicaia 2015

O sonho da marquês Mario Incisa dela Rocchetta, um italiano apaixonado pelos bordaleses, tornou-se realidade. Elaborar o melhor corte bordalês na Italia, e seguramente entre os melhores do mundo.

Quando a imprensa inglesa provou as primeiras safras de Sassicaia, um mero Vino da Tavola, exclamou: “não pode ser um vino de mesa, é um supertoscano”. E assim nasceu o termo que revolucionou os tintos toscanos a partir dos anos 70. Localizada em Bolgheri, área marítima da Toscana, Tenuta San Guido com seu solo pedregoso (sasso), deu origem ao mítico vinho. Um corte onde a Cabernet Sauvignon é majoritária com pequena porcentagem de Cabernet Franc. Um tinto sempre elegante com o toque preciso das barricas bordalesas. 

Outros supertoscanos vieram pouco a pouco e continuam aparecendo, mas Sassicaia tornou-se um mito na enologia italiana, fazendo parte da elite mundial. 

Seria um belo painel para uma degustação de fim de ano. Próximo artigo, a análise completa dos Top 100 da Wine Spectator.

Bordaleses que Animam a Alma

25 de Agosto de 2018

Num agradável almoço no recém-inaugurado restaurante de carnes Ânima Mea (alma minha em latim), mesmos proprietários do Cór em Pinheiros, sob a supervisão do assador Renzo Garibaldi, alguns bordaleses desfilaram à mesa.

harmonização de frescor

Na espera dos confrades, um grande branco da América do Sul, White Stones da bodega Catena (foto acima). Um dos topos de gama da vinícola, este branco é elaborado com Chardonnay em elevada altitude (1500 metros) na região mendocina de Tupungato num vinhedo de apenas 2,5 hectares. Um branco de grande mineralidade e frescor num equilíbrio perfeito com modestos 13° de álcool. Muito harmônico e persistente, a madeira é imperceptível num vinho de grande distinção, apesar de fermentado e amadurecido em barricas. Sua acidez chega a quase 9 gramas por litro, índice de vinho-base em Champagne. A combinação com o prato ao lado; mexerica, molho de pepino e burrata, foi de grande frescor e leveza.

img_4998200 pontos na mesa

Após as preliminares, o ponto alto do almoço, carnes e tintos bordaleses. Comentar estes dois tintos é enaltecer a safra de 82 em terroirs consagrados como Saint-Julien e Pauillac. O Pichon Lalande 82 talvez seja o melhor Pichon já elaborado, tal a concentração e elegância deste vinho. Costuma bater às cegas o Mouton de mesma safra que já é um monumento. Infelizamente, esta garrafa em questão não é das mais gloriosas. Um dos indícios, era o nível do líquido um pouco abaixo do esperado, quase no ombro da garrafa. Mesmo assim, ele foi se abrindo aos poucos com alguma acidez volátil no início da degustação. Seus toques de tabaco e chocolates eram notáveis num vinho com o corpo e presença de um grande Pauillac.

Já o Gruaud Larose estava perfeito. Depois da mítica safra de 1961 para este tinto, este 82 é seu digno sucessor. Um Bordeaux envelhecido de livro com o cassis, tabaco, ervas finas, e um fundo mineral, tudo muito elegante. Equilíbrio perfeito, taninos de seda, e longa persistência aromática. Desta vez, o Pichon Lalande teve que admitir a derrota. Contudo, confrontando garrafas ideais, este Pauillac acaba mostrando sua força e nobreza.

riqueza de sabores

O Chef Geovane Godoy caprichou neste dois pratos, ricos em sabor. Esse arroz de pato (foto acima) numa versão espanhola, é feito com arroz de Valência à moda de uma paella com os sabores do pato e emulsão de chorizo, dando um toque defumado. A textura é sensacional. Já a metade maior do T-Bone, um dry-aged de 45 dias, é a especialidade da Casa. Este corte que é o contrafilé, combinou muito bem com os tintos, pois tem sabor e suculência para os taninos bordaleses. A concentração de sabores de um dry-aged e a ausência de sangue, embora o corte seja mal passado, deixa o visual e o paladar diferenciados, numa experiência que vale a pena. Você se satisfaz com quantidades menores, tal a riqueza de sabores.

img_5001esta assinatura impõe respeito!

Se você quiser provar um Cult Wine de Napa Valley de alma bordalesa sem pagar um fortuna, Dominus é a única escolha. Não que seja barato, mas comparado com seus concorrentes, os preços são bem atraentes. Prova disso, foi a naturalidade que ele encarou a degustação no meio dos dois bordaleses acima. Sem intimidação, embora ainda muito jovem, exibiu sua classe, presença e equilíbrio notáveis. Seus 98 pontos traduzem bem a equivalência com seus concorrentes franceses. As safras 91 e 94 são notáveis, provando a longevidade deste tinto. Colocado às cegas no meio de bordaleses, pode fazer um estrago e rever conceitos.

img_4999este rótulo é muito chique!

Como ainda estávamos com sede, deu tempo para esta criança acima, Clos de Tart 2001, o maior entre os Grands Crus de Morey-St-Denis. Um tinto de história milenar e um dos mais enigmáticos  da Borgonha. Embora decantado e numa paciente espera, ele não se abriu totalmente. Tanto na cor como nos aromas, ainda muito jovem. Muito aroma primário com toques florais e de cerejas escuras, seu lado terciário ainda muito tímido. E olha que 2001 não é daquelas safras poderosas que precisam de longo envelhecimento. Mas os mitos são assim, temperamentais e surpreendentes. Quem tiver paciência, pode ser inesquecível.

Terminado o almoço, mal sabia que o dia estava apenas começando. Convocado por nosso Maestro, tive que partir para o sacrifício. Alguns Puros exclusivos e algumas garrafas especiais como a da foto abaixo, o monumental Nacional 1963. Se não bastasse este ano mítico, um Quinta do Noval Nacional já é um ponto fora da curva.

O termo “Nacional” refere-se a parreiras pré-filoxera que têm rendimentos baixíssimos e produção inconstante. Este Porto em questão com mais de 50 anos exibe uma juventude extraordinária, confirmando sua imortalidade. É muito delicado em boca, fugindo daqueles Portos muito densos. Contudo tem uma elegância, uma harmonia, e profundidade, que marcam definitivamente a memória. Um verdadeiro Borgonha no mundo dos Portos. É mais ou menos o que o Soldera representa entre os Brunellos. Experiência marcante!

img_5007sobremesa inesperada!

A tarde caindo e os Puros surgindo. Numa seleção impecável da Casa suíça Gérard Père et Fils em caixas deslumbrantes em laca, Romeu & Julieta, H. Upamnn e Partagas, se apresentaram em vários sabores e bitolas. As seleções Reserva e Gran Reserva, partem de tabacos envelhecidos com uma complexidade aromática extra.

Puros com assinatura Gérard Pére et Fils

verdadeiras obras de arte

Como a noite é uma criança, que tal um Cognac para uma prova às cegas. Richard e Louis XIII é o que tem pra hoje (foto abaixo). Marcas topo de gama das Casas Hennessy e Rémy Martin, respectivamente, são verdadeiros objetos de desejo, tal sua exclusividade e singularidade de sabores. São verdadeiras joias que partem de uma seleção rigorosa de eaux-de-vie e longas décadas de envelhecimento em toneis de carvalho.

Fizemos uma prova às cegas com tira-teima para eleger Louis XIII como melhor, mas a escolha é difícil e não conclusiva, tal o nível de complexidade destas bebidas. Na dúvida, fique com os dois. Aqui você entende exatamente o significado da expressão “Spirits”.

img_5008garrafas suntuosas!

Grappe de alto nível!

O sonho ainda não acabou. Agora entramos na especialidade do Maestro, o mundo das Grappe. Na verdade este da esquerda, é um destilado de vinho, o equivalente ao Cognac, segundo o conceituado produtor Jacopo Poli. Trata -se de um vinho Trebbiano di Soave de alta acidez que por sua vez é destilado e posteriormente afinado em madeira da Eslavônia, Limousin (França) e Allier (França). Sua qualidade é tal que bateu às cegas o Marc de Bourgogne Domaine Dujac de produção exclusiva. Deve ser servida entre 18 e 20°C em pequenas taças tipo tulipa.

Agora sim, uma Grappa in pureza do excelente produtor Nonino. É elaborado com uma uva rara do Friuli chamada Picolit, a qual faz um excelente vinho de sobremesa. Atinge 50º de álcool natural, graduação ideal para expressar as grandes Grappe. Aroma delicado lembrando Poire. Em boca é sutil e de grande profundidade. Deve ser servida segundo o produtor, a 12°C em pequenas taças tipo tulipa. 

Bem, já é quase meia-noite e carruagem vai virar abóbora. Agradecimentos aos confrades pelo belo almoço que já ficou distante, e em especial ao Maestro de grandes conversas e generosidade sem fim. Esperando novos encontros com muitos brindes. Saúde a todos!

Tres Bonds e um Trem chamado Montrose

7 de Abril de 2018

Nem sempre temos oportunidades de provar bons californianos no Brasil. A maioria disponível no mercado está bem longe da elite de Napa Valley, quer seja por preços muito elevados, quer seja por produções extremamente baixas. Na verdade, uma coisa está atrelada à outra. Neste contexto, num belo almoço no Varanda Grill, degustamos algumas feras dos diferenciados tintos americanos.

varanda salon 2002

o epítome em Blanc de Blancs

Para começar os trabalhos, nada melhor que um belo champagne. Se for um Blanc de Blancs, c´est parfait, com muito frescor e mineralidade. Toda vez que provo Salon, vem aquela dúvida cruel imediatamente: Salon ou Clos du Mesnil da Krug?. As duas são realmente a perfeição neste estilo tão elegante e delicado, onde a força do calcário no solo, imprime uma mineralidade sem igual. São champagnes que envelhecem muito bem, haja vista esta da safra 2002. Ainda um bebê na garrafa com cores vibrantes, extremamente brilhante e reflexos verdeais. Seguramente pela qualidade da safra, tem pelo menos mais quinze anos de boa evolução. Salon costuma ficar dez anos sur lies, antes do dégorgement.

IMG_4460.jpgtinto de grande maciez

Se você quer ter uma ideia de um grande californiano, o vinho acima cumpre bem o papel. Com seus vinte anos de evolução da excepcional safra 1997, o vinho mostra-se ainda jovem, vigoroso, sem nenhum sinal de evolução na cor. É seguramente a mistura de Cabernets mais macia já provada, lembrando textura de grandes Pomerols, terroir onde a Merlot predomina. A força da Cabernet Sauvignon fornece a espinha dorsal deste tinto, enquanto a Cabernet Franc entrega toda a suavidade e elegância. Um vinho cheio de fruta, opulento, com traços de chocolate, defumado, ervas e temperos, como salsão, por exemplo. Longo em boca e extremamente sedutor. Tem 99 pontos com previsão de apogeu em 2030. Apenas 500 caixas por ano.

IMG_4462.jpgoutra bela safra em Napa Valley

A foto acima resume o tema da degustação. Degustar três vinhos de diferentes vinhedos muito próximos, percebendo as sutilezas de terroir em termos de altitude e composição do solo, tendo como uva principal, a Cabernet Sauvignon.

Bond Estates, sediada em Oakville, tem por trás uma das mais sofisticadas vinícolas de Napa, Harlan Estate. Seus vinhos ultra premiados, é um dos melhores cortes bordaleses do mundo. Pessoalmente, um dos meus preferidos de todo o Napa. Voltando a Bond Estates, eles trabalham com cinco vinhedos, dentre os quais, degustamos na mesma safra (2001), os vinhedos Vecina, St Eden, e Melbury. Todos são vinhedos de áreas diminutas menos de 11 acres (cinco hectares).

Resumindo a história, o St Eden com 100 pontos Parker ficou em terceiro lugar. Comparativamente, mostrou-se com menor corpo, faltando um pouco de meio de boca. Embora delicioso, muito bem equilibrado nos seus 14,5° de álcool, taninos bem trabalhados, não conseguiu mostrar a força de seus concorrentes.

Em segundo lugar, ficou o Melbury com 98 pontos Parker. Um vinho musculoso, de um estrutura tânica marcante. Talvez, o de menor evolução em garrafa. Um verdadeiro margem esquerda, por sua virilidade. Também com seus 14,5° de álcool perfeitamente balanceados.

Em primeiro lugar, o belo Vecina 2001 com 96 pontos Parker. Um Cabernet Sauvignon sedutor, de muita maciez e aromas encantadores, lembrando cassis, toques balsâmicos e de caramelo, além de florais. Equilibrado, denso, e persistente. Ficou muito próximo do Maya 1997 acima comentado, sobretudo pela similaridade de maciez.

Chateau Montrose em Double Magnum

Para por ordem no galinheiro, só mesmo um Bordeaux de 100 pontos, Chateau Montrose 1990, uma obra-prima. Olha a cor deste vinho com seus 28 anos de idade. O equilíbrio, a finesse, e a persistência em boca, são excepcionais. Pessoalmente, talvez seja o grande vinho da bela safra de 1990. Embora longe de seu auge, seus taninos são finos, agradavelmente adstringentes, além de seus aromas balsâmicos, de tabaco, e de notas animais. A comparação com os demais californianos presentes mostra toda a superioridade dos grandes bordaleses, principalmente nas safras ditas perfeitas.

Voltando ao Parker, temos que admitir que suas avaliações para os vinhos americanos são um tanto exageradas e de cunho emocional. Por outro lado, seu rigor com os bordaleses, faz dele o mais justo, frio e calculista, juiz desta apelação glamorosa. O que mais chamou a atenção em suas avaliações, foi o fato dele comparar o estilo do Bond Vecina com o Chateau Montrose. Dada a feliz coincidência de poder prova-lo lado a lado com o Montrose, a similaridade sobretudo de aromas foi notável e marcante, digna de um degustador brilhante e altamente experimentado.

IMG_4461.jpgVaranda Grill e seus cortes especiais

Acompanhando tintos de grande estrutura, as carnes especiais do Varanda Grill caem como uma luva para amalgamar os poderosos taninos destes grandes Cabernets. No caso acima, além dos acompanhamentos, temos um corte especial do T-bone sem osso, no seu lado mais suculento. Nada mau!

Mais uma vez, meus agradecimentos aos amigos e confrades presentes, sempre em busca de experiências inéditas no mundo de Bacco, com muita conversa, animação e generosidade. Vida longa a todos!

Kyoho: uva mais plantada no mundo

18 de Março de 2018

Vira e mexe, pinta aquela curiosidade sobre as uvas mais plantadas no mundo. As famosas uvas francesas, ditas internacionais, logo vêm à mente, guiadas por nossa intuição. É claro que elas são importantes e mundialmente conhecidas, mas algumas de nomes absolutamente desconhecidos, têm expressiva área plantada em regiões e países pouco divulgados na mídia. É o caso da uva tinta Kyoho, a mais plantada na China e no mundo. Segue ranking abaixo, na primeira tabela.

Kyoho é uma uva híbrida desenvolvida no período pós segunda guerra mundial. É uma uva de mesa, uma espécie de moscatel, de sabor bem doce. Uva de grande rendimento e resistente a doenças. Em 2015, alcançou 365 mil hectares de cultivo mundial com de 90% na China. É uma uva essencialmente asiática com foco no Japão, Coreia, e Tailândia.

vinhedos no mundodistribuição mundial dos vinhedos

Cabernet Sauvignon

Esta é a segunda uva mais plantada no mundo com 341 mil hectares de vinhas. Disseminada pelo mundo, tem destaque na França, Chile, Estados Unidos, Australia e China. Neste último país, China, seu cultivo entre as castas internacionais é muito expressivo, superando com folga exemplares como Merlot, Chardonnay e Carmenère.

Sultanina

Esta é a terceira uva mais plantada no mundo com 273 mil hectares de vinhas. Uva branca de mesa de origem afegã, antiquissíma. Fundamentalmente utilizada para uva passa, é muito cultivada no Oriente Médio (Turquia e Irã), Ásia Central e Estados Unidos. De sabor muito doce e extremamente produtiva.

Merlot

Mais uma uva internacional com 266 mil hectares de área plantada. Assim como a Cabernet Sauvignon, a Merlot é dissiminada mundo afora. É a uva mais plantada em Bordeaux e também na França com 112 mil hectares de vinhas. Tem boa difusão na Itália também.

Tempranillo

Uva espanhola que assume vários nomes na própria Espanha, além de Portugal, país vizinho. Seus 231 mil hectares de vinhas estão essencialmente na Espanha com 88% da área mencionada. Tem certa expressão na Argentina e Austrália. Em Portugal sob os nomes de Tinta Roriz no Douro e Aragonês no Alentejo, participa de vinhos clássicos regionais.

Airén

Já foi por muito tempo a uva mais plantada no mundo, e ainda é a mais plantada na Espanha. Com seus 218 mil hectares de vinhas majoritariamente na região de La Mancha, presta-se essencialmente à destilação para Brandies e vinhos simples de corte. Com sua produção em forte queda, em mais alguns anos a Tempranillo assume definitivamente a primeira posição na Espanha.

uvas mais plantadas 2015setas: tendência de alta/baixa 

Chardonnay

Finalmente, a primeira uva branca internacional neste ranking em sétimo lugar com 210 mil hectares de vinhas. Assim como a Cabernet Sauvignon, é uma uva vastamente cultivada mundo afora. Sua fama vem dos grandes brancos da Bourgogne, além dos belos champagnes onde sua vocação para a espumatização é notável.

Syrah

A Syrah assume a oitava colocação com 190 mil hectares de vinhas plantadas. Embora seja cultivada em vários países, a Austrália conta com 40 mil hectares de vinhas, sendo a uva mais plantada no país dos cangurus. Ainda assim, a França assume a liderança mundial com 64 mil hectares cultivados essencialmente no vale do Rhône. Países como Chile e África do Sul produzem belos  vinhos com esta uva.

espanha varietaisEspanha: maior vinhedo do mundo

Grenache ou Garnacha

Assumindo a nona colocação, a Grenache conta com 163 mil hectares de vinhas. De origem espanhola, esta uva é bastante cultivada na França, sobretudo no vale do Rhône. França e Espanha perfazem 87% da área mundial cultivada. Normalmente, gera vinhos macios, redondos, e cheios de fruta.

Red Globe

Na décima colocação, mais uma surpresa da China, a uva tinta de mesa Red Globe. Com 159 mil hectares de vinhas em forte ascensão, assumirá em pouco tempo a nona colocação. Mais de 90% de seu cultivo está na China. Uva de grande vigor e altos rendimentos.

frança varietaisCabernets: números modestos

Sauvignon Blanc

A grande rival da Chardonnay em termos de estilo e projeção, assume a décima primeira colocação com 123 mil hectares de vinhas mundo afora. É a uva mais plantada na Nova Zelândia, onde tem estilo próprio. A França é seu país de origem com maior área cultivada, mas países como Chile e África do Sul apresentam destaque em seu cultivo.

Pinot Noir

No décimo segundo lugar, a temperamental Pinot Noir com 112 mil hectares de vinhas plantadas. Uva de dificil cultivo e raramente expressiva fora da Borgonha, sua terra natal. Países mais frios como Alemanha e Suiça tentam dar um ar mais delicado ao vinho. Já nos países do Novo Mundo, seus vinhos costumam ser extraídos, descaracterizando sua essência.

portugal varietaisdistribuição equilibrada

Ugni Blanc ou Trebbiano

Em décimo terceiro lugar, temos a Ugni Blanc com 111 mil hectares de vinhas. Na França com 82 mil hectares plantados, é a segunda mais plantada em território francês com ampla destinação ao fabrico de Cognac e Armagnac. Na Itália assumindo o nome Trebbiano, presta-se a vinhos brancos bem simples e espumantes relativamente neutros.

brasil varietaisonde estão as viníferas?

Nosso Brasil

Depois de nove uvas de mesa com mais de 60% da área de cultivo de vinhas no Brasil, aparece em décimo lugar com mil hectares de vinhas, a famosa Cabernet Sauvignon. Essencialmente, ainda somos um país de uvas de mesa e de suco de uva. Por sinal, a industria do suco vai de vento em popa. A maciça maioria de vinhos não é de uvas viníferas.

Conclusão

A China como vinhedo será certamente a área mais plantada no mundo, embora sua destinação seja uvas de mesa como volume. Entretanto, qualquer incremento no setor de vinhos costuma ser relevante, dada as dimensões do país.

A França no setor de vinhos vai continuar por muito tempo ditando as regras, haja vista a influência e penetração de suas principais uvas, ditas internacionais, mundo afora.

A Malbec na Argentina e a Riesling na Alemanha continuam como uvas emblemáticas de seus respectivos países, sem concorrentes à altura em outros países de produção bem mais modesta. Na Alemanha temos 24 mil hectares de Riesling e na Argentina, 40 mil hectares de Malbec.

Os Estados Unidos têm sólida posição mundial em seu quarto lugar com grande equilíbrio em seu vinhedo, entre vinhos, uvas passas, e uva de mesa. Uma grande liderança entre os países do Novo Mundo.

30 anos de Importação

12 de Fevereiro de 2018

Em 1985 aproximadamente, quando comecei a tomar vinho, o mercado da bebida era extremamente restrito, sobretudo com os importados. O vinho nacional com algum destaque de qualidade tinha marcas como Granja União, Adega Medieval, e Velho do Museu. As marcas mais comerciais vinham da vinícola Aurora e o forte marketing da antiga Almadén. Realmente, fui um herói. Que dureza!

A partir da safra 1999, uma das grandes do vinho brasileiro, um grupo de produtores na serra gaúcha começava a fazer história do moderno vinho nacional. Dentre esse pioneirismo, podemos destacar a vinícola Miolo com seu Lote 43, e a vinícola Pizzato com seu incrível Merlot, ambos da safra 99.

No setor de importados, Cusiño Macul Antigas Reservas reinava absoluto nos anos 80 como grande tinto chileno. Logo chegou Don Melchor para fazer concorrência e o Casa Real da Viña Santa Rita era mais difícil encontrar. Não vou falar daquela aberração da garrafa azul e nem dos tintos portugueses rústicos e duros. O vinho Verde na época é que salvava algumas situações em dias mais quentes acompanhando pescados. Do lado italiano, os Chiantis eram muito fracos em qualidade, embora sempre gastronômicos. Da França, vinhos de negociantes como Barton & Guestier, inundavam o mercado com vinhos insípidos das apelações Bordeaux e Rhône, sobretudo. A Espanha se salvava com bons Riojas sem grandes variedade de marcas. Em resumo, cenário muito diferente da atualidade, onde o Brasil a despeito de preços escorchantes, tem um leque de opções dos mais variados países, produtores destacados em suas respectivas denominações, portfolio diversificado em grandes importadoras, não devendo nada para países de primeiro mundo.

Retrospectiva dos importados

As primeiras grandes importadoras como Maison du Vin, Expand, Silmar, Gomes Carrera, Casa Prata, Aurora, entre outras, trabalhavam como podiam num mercado ainda fechado. Saudades em especial pela Maison du Vin com vinhos impecáveis. Belos Bourgognes, Vega-Sicilia, Trimbach da Alsácia, e bela seleção da África do Sul.

Australianos

A importadora Mistral trouxe o grande nome australiano chamado Penfdolds no final dos anos 80 antes da importadora KMM, especializadas em vinhos australianos, chegar em 1992.

Alentejanos

Em 1998, a Adega Alentejana mostra uma outra face do vinho português através de seu proprietário, Manuel Chical. Vinhos modernos, macios, e de grande aceitação. Sem dúvida, o Alentejo abriu portas para outras regiões portuguesas e para a modernização geral do país no setor vitivinícola.

Nova Zelândia

Em 1999, tivemos a inauguração da Premium Wines, importadora referência nos belos vinhos neozelandeses. Os vinhos brancos, sobretudo o Sauvignon Blanc, ganhou uma nova roupagem e muitos adeptos no consumo desta novidade.

Argentina

A chegada dos vinhos Catena no Brasil pela Mistral somada à inauguração da importadora Grand Cru em 2002, permitiram que os brasileiros descobrissem a nova e moderna indústria de vinhos argentinos. Até então, os vinhos eram muito tradicionais e obsoletos.

Espanhóis 

Há cerca de 20 anos, chegava ao Brasil uma leva de vinhos espanhóis modernos através da importadora Peninsula. Mesmo em regiões tradicionais como Rioja e Ribera del Duero, produtores inovadores começavam a se destacar com vinhos surpreendentes.

importação de vinho 2015

Chile

Embora o Chile desde sempre mantenha a dianteira no setor de importações brasileiras no quesito vinho, sua penetração e crescimento aconteceu de maneira natural e progressiva. O grupo Concha Y Toro, um dos gigantes mundiais, garante absoluta supremacia no mercado de importados com vinhos bastante diversificados, desde aqueles muito simples e de preços módicos, até grandes ícones como Don Melchor e Carmin de Peumo. A oferta dos mais importantes produtores chilenos é vasta e notadamente pulverizada entre as importadoras brasileiras.

França e Itália

Assim como no caso chileno, França e Itália participam do mercado brasileiro de vinhos de longa data. É bem verdade que na maioria dos casos e sobretudo em termos de volume, a qualidade deixa a desejar com um mar de Lambruscos, Chiantis, Valpolicellas, de péssima qualidade. Do lado francês, não fica por menos, Bordeaux, Rhône e Bourgogne comercializados pelos chamados Négociants, deixam muitos consumidores com má impressão dos vinhos franceses. 

Evidentemente, numa escala minimalista, várias importadoras trazem vinhos sofisticados, premiados, e da mais alta qualidade dentre esses dois países. Para destacar uma só importadora, há muito tempo no mercado, temos a Cellar desde 1995, pinçando produtores artesanais e exclusivos, sob a batuta do expert Amauri de Faria.

Estados Unidos

Muita gente se surpreende quando descobre que os Estados Unidos são o quarto maior produtor mundial de vinhos e está entre os três maiores importadores da bebida. Os grandes produtores americanos estão entre os melhores do mundo, mas seus preços são proibitivos. Os vinhos mais acessíveis também são relativamente caros. Com isso, as importações brasileiras de vinhos americanos foi sempre discreta e sem grandes atrativos. É preciso pesquisar as poucas ofertas interessantes que existem.

alemanha importaçõesescalada da garrafa azul (1993 a 1996)

Alemanha

Depois de tanto tempo, ainda há resquícios da péssima imagem deixada pela garrafa azul. E muitos consumidores participaram deste mico. A Alemanha faz grandes vinhos brancos, sobretudo com a casta Riesling. Há boas ofertas no mercado, mas seu consumo é decepcionante, visto a qualidade e singularidade de seus vinhos. Importadoras como Decanter e mais recentemente Vindame, primam por ótimos produtores.

Uruguai e África do Sul

Países  que sempre tiveram presentes nas importações brasileiras, embora sem grandes destaques. Os vinhos sul-africanos há muito tempo frequentam as prateleiras das principais importadoras e lojas de vinhos. Mesmo no início dos anos 90, importadoras como Expand e Maison du Vin, possuíam um portfolio invejável de grandes produtores premiados da África do Sul. Houve em certos períodos um consumo e interesse do consumidor mais acentuados, mas a longo prazo os vinhos não vingaram como previsto.

O mesmo ocorreu com o Uruguai e seus Tannats. Apesar da proximidade, a produção é pequena e a dependência da casta ícone, restringiu os consumidores a um estilo de vinho robusto, nem sempre muito bem compreendido. Isso tem mudado em tempos mais atuais, inclusive com a aceitação de belos vinhos brancos. Um mercado em ascensão. 

Perspectivas

O Chile parece conquistar seu posto de primeiríssimo lugar, sem riscos. Grupos vinícolas como Concha Y Toro, Viña Santa Rita, e Viña San Pedro, tem grande penetração em nosso mercado nas mais variadas faixas de preço.

Portugal cresce a passos largos com a modernização de seus vinhos nas principais regiões vinícolas do país. Enquanto Alentejo e Douro garantem a qualidade de vinhos com forte  valor agregado, a região de Lisboa busca uma fatia cada vez maior com vinhos de preços altamente competitivos. A história que envolve os dois países, Brasil e Portugal, contribuem para uma aceitação bastante forte e natural.

Argentina e Espanha têm espaço para crescer. Do lado argentino, o desenvolvimento de micro regiões  e um foco maior nas questões de terroir podem despertar cada vez mais o interesse do consumidor. Do lado espanhol, a busca por vinhos mais autênticos trabalhados com baixos rendimentos, geram cada vez mais vinhos interessantes e de preços relativamente competitivos. A versatilidade da Tempranillo nos vários terroirs espanhóis é uma arma poderosa neste objetivo.

Em suma, pelo menos 50% do mercado de importados parece destinados a Chile e Argentina. A outra metade, Espanha e Portugal incomodam cada vez mais os gigantes tradicionais, França e Itália.

 


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