Da ascensão de Al Capone à ruína de vinícolas tradicionais, o legado burocrático da Lei Seca ainda molda os Estados Unidos da Copa de 2026
Na noite de 16 de janeiro de 1920, bares e restaurantes por todos os Estados Unidos serviram taças gratuitas de vinho, conhaque e uísque. Em outros, a garrafa de champanhe custou trinta dólares, mais do que o salário semanal de um operário. Cartazes traziam alertas. “Adeus, drink. Portas fecham no sábado!”
À meia-noite e um de 17 de janeiro de 1920, a Lei Volstead entrou em vigor, consolidando a derrubada do veto do presidente Wilson e impondo a proibição da fabricação e a venda de álcool nos Estados Unidos, uma lei que até hoje é motivo de discussão em relação à sua aprovação. Logo após sua sanção, os jornalistas da The Economist escreveram que uma lei impossível de aplicar não apenas falha em seu objetivo, mas deixa “a lei, o legislativo e o executivo ao desprezo público”.

Contrabandistas cruzavam as fronteiras com o Canadá e o México, navios britânicos transferiam cargas de álcool para barcos rápidos na costa, destilarias clandestinas operavam em terra. O mapa vinícola americano foi transformado. Antes da legislação, Missouri, Nova York, Ohio, Illinois, Geórgia, Novo México produziam vinho em escala. A Stone Hill Winery, fundada em 1847 na cidade de Hermann, Missouri, produzia mais de um milhão de galões por ano na década de 1870 e era a segunda maior vinícola do país. Na Califórnia, 713 vinícolas operavam em 1919. A 18ª Emenda, que proibia a fabricação, venda e transporte de “bebidas inebriantes”, fechou portas. As caves subterrâneas da Stone Hill passaram a cultivar cogumelos. Só reabriram em 1965.
A América, porém, não parou de beber. Os criminosos se profissionalizaram. A escala do crime mudou de patamar. Antes da Lei Volstead, gângsters americanos eram, na definição de James Finckenauer, professor emérito de Rutgers e autor do livro Mafia and Organized Crime, “operadores de pequena escala”.
A Proibição consolidou grupos criminosos dispersos em organizações internacionais e, como a lei era maciçamente impopular, transformou quem a desafiava em herói público. Os gângsteres ganharam ibope. “Foi o início de sua imagem como pessoas capazes de fazer pouco caso de leis ruins e do establishment”, disse Finckenauer em matéria da revista New Yorker.
Quando Big Jim Colosimo, então o principal cafetão de Chicago, foi assassinado em maio de 1920, três juízes, um congressista, um promotor assistente e nove vereadores ajudaram a carregar as alças do caixão. Al Capone, que começara como leão de chácara num cabaré de Coney Island, herdou parte desse império e controlou o submundo de Chicago por anos. Não era apenas tolerado, mas era bem-visto por parte da população.

Se Herbert Hoover havia classificado a Lei Seca como “um grande experimento social e econômico, nobre em seu propósito”, o julgamento da história foi outro. Quando Capone morreu, em janeiro de 1947, o The New York Times publicou um curto editorial intitulado “Fim de um sonho diabólico”. Destacava que uma lei aprovada de boa-fé como um experimento “nobre em seu propósito” para melhorar nossa moral tinha se transformado em outra coisa. “Seu principal produto foi a ilegalidade e o crime, gerados em um abismo moral. Ela criou uma demanda que apenas criminosos podiam suprir. Agitando-se nessa escória criminosa, Capone, por meio do uso livre de metralhadoras e bombas, abriu caminho até o comando supremo de um império sombrio que se estendeu por todos os Estados Unidos.”
A lei foi revogada 13 anos depois de sua criação, em dezembro de 1933, pela 21ª Emenda. O presidente Franklin Roosevelt declarou: “Acho que todos nós poderíamos tomar uma cerveja.” Missouri nunca recuperou a posição que ocupava antes de 1920. Nova York, segundo maior estado produtor de vinho do país até a Proibição, precisou de décadas para retomar a indústria. A máfia ganhou as telas e as telinhas nas décadas seguintes. De Poderoso Chefão a Sopranos.
Em novembro de 2022, dois dias antes da abertura da Copa do Mundo no Qatar, o governo anfitrião proibiu a venda de cerveja nos estádios. A Budweiser, patrocinadora oficial do evento por 36 anos, publicou no X (ex-Twitter) um rápido texto estranhando a decisão. Apagou minutos depois. Em junho de 2026, a Copa vai para os Estados Unidos. A cerveja estará à venda, mas os torcedores estrangeiros verão que a identidade é exigida para comprar qualquer bebida, que as leis de consumo em via pública mudam de cidade para cidade e que o país ainda carrega em sua memória os treze anos em que tentou proibir o consumo de álcool por decreto.
Al Capone e os Sopranos estão nas camisetas. De lojas oficiais e camelôs.






