Do front europeu ao terroir paulistano: a crônica de Geoffroy de la Croix

29 de Junho de 2026

O vinho chegou cedo para Geoffroy de la Croix. Aos quatro anos, ele já observava o avô, Roger, colocar água na taça para o neto experimentar o que era servido às mesas. Homem de poucas palavras, o avô às vezes murmurava algo sobre a casta ou o terroir de origem da garrafa; noutras, limitava-se a dizer que o garoto gostaria do que estava prestes a provar. A economia nos gestos e na fala guardava o peso de quem havia combatido nas duas Grandes Guerras e sobrevivido aos campos de prisioneiros nazistas.

Se o avô pouco falava, os pais de Geoffroy defendiam à mesa lados opostos nos gostos. A mãe, uma das herdeiras do domaine Comte Armand, uma das mais tradicionais propriedades da Borgonha, defendia a elegância da região. Já o pai, embora sem vinhedos próprios, descendia de uma estirpe de devotos de Bordeaux.

A infância de Geoffroy ainda foi alimentada por histórias que ganharam livros. Seu bisavô, o conde Abel Armand, recebeu em 1917 uma missão secreta do governo francês: costurar uma paz separada com o Império Austro-Húngaro. Diante de uma guerra de trincheiras que sangrava a juventude europeia, Abel viajou à Suíça em agosto daquele ano para se reunir com o conde Nikolaus Revertera, emissário de Viena.

As tratativas estenderam-se por três semanas sob absoluto sigilo, mas falharam. O envolvimento de Abel no que os historiadores formalizaram como as “Negociações Armand-Revertera” cobrou um preço alto no pós-guerra, quando o conde enfrentou acusações infundadas de espionagem. Coube justamente a seu filho, Roger — o mesmo avô que anos mais tarde batizaria o paladar de Geoffroy —, mover a ação judicial que reabilitou a memória do pai.

Com esse histórico, Geoffroy seguiu a tradição jurídica: formou-se em Direito em Paris, onde concluiu o mestrado e o doutorado, e estendeu seus estudos aos Estados Unidos para uma pós-graduação voltada ao mercado americano. Foi em solo nova-iorquino que o destino mudou de eixo ao conhecer Beatriz, uma advogada brasileira. O casamento na Praia do Forte, na Bahia, selou a mudança definitiva para o Brasil e para São Paulo.

Na capital paulista, Geoffroy passou a prestar consultoria jurídica em operações comerciais. A rotina trouxe frustração. “Não sentia que participava de todo o processo; queria algo onde pudesse ter uma atuação muito mais ativa”, recorda ele, durante um almoço em uma quinta-feira no restaurante do hotel Emiliano, em São Paulo.

A resposta estava na memória afetiva e na rede de contatos construída desde a infância na Europa. Geoffroy decidiu trocar os pareceres pelos vinhos e fundou a importadora que leva seu sobrenome: a DelaCroix. “Na infância, eu participava das colheitas do domaine Comte Armand com meus primos e isso me deu um outro olhar para o mundo do vinho.”

Para desenhar o portfólio inaugural, Geoffroy valeu-se do auxílio de um sommelier que havia servido as mesas do ex-presidente francês Jacques Chirac. Juntos, avaliaram cerca de 600 rótulos para selecionar apenas 10 pequenos produtores de perfil artesanal.

Foi durante esse processo de seleção que Geoffroy percebeu um denominador comum entre os vinhos: a maioria se inseria na filosofia dos vinhos naturais e biodinâmicos. Apostar nessa linha fixou a importadora como precursora no mercado brasileiro. O portfólio nascia fincado em uma vanguarda conceitual muito antes de o tema virar tendência global.

Nem mesmo o sangue azul da Borgonha garantiu facilidades comerciais no início. Ao abrir as portas da importadora, Geoffroy enfrentou uma ironia: ele não conseguiu, de imediato, a alocação das garrafas da própria família, o Domaine Comte Armand. Os vinhos eram tão disputados e escassos no mercado internacional que o laço de parentesco direto não foi suficiente para pular a fila. Ele precisou esperar alguns anos para finalmente receber suas primeiras caixas.

O início da operação foi espartano. A importadora ocupava o andar de um prédio comercial no bairro de Pinheiros, sem grandes estruturas logísticas ou orçamentos de marketing. O crescimento da marca deu-se de forma orgânica, calcado no “boca a boca”. Hoje a importadora tem um espaço nos Jardins, que também serve de restaurante em eventos e aos sábados.

Geoffroy passa parte do tempo na ponte aérea entre Brasil e França. As viagens regulares servem para mantê-lo intimamente ligado ao Domaine Comte Armand, onde participa ativamente das degustações in loco. Em uma de suas visitas recentes, Geoffroy participou dos bastidores da transição de comando técnico no Comte Armand.

O domaine carrega a tradição de investir em jovens talentos ainda não plenamente consagrados. Para preencher o posto, organizou-se um processo de seleção com diversos candidatos. A enóloga australiana Jane Eyre sagrou-se vitoriosa. Não param aí as novidades.

A DelaCroix anuncia a chegada de dois novos produtores da Borgonha: o Domaine Castagnier e o Domaine Buisson-Charles. A escolha de ambos carrega uma particularidade: a contiguidade de seus vinhedos com o patrimônio do Domaine Comte Armand. O Domaine Buisson-Charles, por exemplo, possui parcelas em Volnay que são vizinhas com os vinhedos do Comte Armand.

À mesa, ele confessa um de seus grandes desafios atuais: o fato de ainda não ter conseguido fazer com que as filhas participem da alegria das colheitas na Borgonha. Replicar com as filhas a mesma imersão que ele desfrutou na infância é um plano em andamento, fundamental para manter viva a linhagem de afetos que liga a família à terra. Também pensa em abrir um restaurante, enquanto novidades chegarão à importadora.

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Segredos de Alice

24 de Junho de 2026

Quando Gertrude Stein morreu em 1946, deixando Alice B. Toklas aos setenta e cinco anos, viúva após quase quarenta anos juntas, havia um problema: Alice estava quebrada. Um editor dos Estados Unidos fez uma proposta: ela devia dedicar seu tempo a escrever uma biografia de Gertrude, seguindo o modelo da célebre Autobiografia de Alice B. Toklas — livro que Gertrude havia escrito em primeira pessoa como se fosse Alice, num dos livros mais famosos do modernismo da década de 1920.

Alice recusou. “Gertrude já fez a minha autobiografia.” O editor não insistiu, mas seu rosto caiu em tristeza e ele ficou em silêncio. Alice então sugeriu: “O que eu posso fazer é um livro de culinária e reunir algumas memórias”. Foi a gênese do que se tornaria um dos livros de receitas mais famosos de todos os tempos, embora O Livro de Cozinha Alice B. Toklas (cuja última edição é de 1996, edição da Cia das Letras)seja muito mais do que um livro de cozinha.

Escrever o livro foi uma aventura. A comida na França do pós-guerra era racionada. Os preços do mercado negro eram exorbitantes. Stein havia morrido, deixando sua companheira de quase quarenta anos com a guarda da célebre coleção de arte — Picassos, Matisses, Cézannes —, mas os termos do testamento especificavam que nada podia ser vendido sem a permissão dos curadores, que resistiam.

Americanos tinham acesso privilegiado ao comissariado da embaixada — onde comida, bebidas e cigarros eram vendidos a preços de pechincha, desde que houvesse um motivo legítimo. “Você deve se lembrar”, ela escreveu a um amigo, “que eu tenho tentado manobrar para ser admitida no comissariado americano, onde os preços de comida são bem melhores… e finalmente consegui, desde que pudesse ter receitas impressas.”

O livro não seria publicado antes de 1954 — oito anos depois de iniciado —, um atraso que se explica tanto pelas dificuldades editoriais do pós-guerra quanto pelos conflitos internos depois da morte de Stein e pela natureza idiossincrática do manuscrito que Alice estava produzindo. Toklas tinha a ambição de não fazer um livro de receitas clássico, mas entremear a comida entre as memórias de guerra e do modernismo.

Pablo Picasso está em um dos trechos mais famosos da obra. O artista tinha uma dieta rígida, buscava comer mais peixes e vegetais. Alice decidiu servir um linguado. O peixe não chegou à mesa apenas cozido. Foi “pintado” por Alice com uma maionese tingida de vermelho-tomate, decorada com gemas de ovo peneiradas e trufas negras. Ao olhar para o prato, Picasso disparou uma pergunta carregada de veneno: “É magnífico! Mas não deveria ter sido feito em homenagem ao Matisse em vez de a mim?”. Naquela sala de jantar em Paris, a comida era um campo de batalha de egos. Picasso e Matisse observavam de perto o trabalho de cada um, mas eram rivais.

Outro momento memorável é o capítulo “Assassinato na Cozinha”, em que Alice, em homenagem ao amor de Gertrude por romances policiais, abate peixes e pombos. Em uma ocasião partiram para Chablis, onde encontrariam não apenas comida incomparável, mas seu vinho favorito, o Chablis, um branco de mineralidade cortante que parecia ecoar sua própria clareza de espírito. O descanso foi interrompido por um presente: seis pombos brancos vivos, com um bilhete escrito por um amigo: “Como Alice é esperta, ela fará algo delicioso com eles.” Toklas comenta com azedume: “É certamente um erro permitir que uma reputação de esperteza nasça e se espalhe por amigos amorosos. É tão barato adquiri-la e tão caro pagá-la.”

Os pombos precisavam ser sufocados, depenados, limpos — e tudo isso deveria ser feito antes que Gertrude Stein voltasse, “pois ela não gostava de ver trabalho sendo feito”. Toklas descreve então como aprendeu a matar aves por sufocamento no mercado de Palma de Mallorca, onde uma cozinheira francesa tentou ensinar “a assassinar por asfixia”. “Não há razão”, escreve Alice, “para que este crime devesse ter sido cometido publicamente ou que eu devesse ter sido obrigada a participar.” A lição prossegue com as mulheres espanholas horrorizadas pelo método francês.

“Cuidadosamente encontrei o ponto na garganta da pobre pomba inocente onde eu deveria pressionar e pressionei”, escreve Alice. “A percepção nunca havia me ocorrido antes de que se vê com as pontas dos dedos tanto quanto com os olhos. Foi uma experiência muito desagradável, embora, à medida que dispunha um por um os doces jovens cadáveres, não se podia negar que alguém poderia se acostumar a assassinar.”

Há episódios cômicos. Quando, em 1916, Gertrude começou a dirigir Tia Pauline” — nome do batismo, “não em champagne, apenas em vinho branco”, de seu caminhão de entregas para ajudar feridos franceses na guerra —, ela sabia fazer tudo exceto dar ré. Quando estacionou o caminhão bloqueando a saída de um pátio cheio de veículos militares, um oficial educadamente pediu que ela desse marcha ré. “Oh, isso”, exclamou Gertrude Stein, “eu não posso fazer” — como se fosse um pecado imperdoável que ele estivesse pedindo que ela cometesse. Foi preciso que o oficial a guiasse fisicamente para que a manobra ocorresse.

A tensão entre a beleza e a brutalidade acompanhou Alice até o fim. Como Janet Malcolm observou em seu ensaio para a New Yorker, o destino de Alice após a morte de Gertrude foi de uma melancolia cortante. Sem reconhecimento legal, ela viu as telas de Picasso serem arrancadas de suas paredes por herdeiros ávidos. Alice terminaria seus dias em um apartamento de paredes nuas. O livro de cozinha, publicado em 1954, foi seu último ato de soberania — um documento que nenhum herdeiro arrancou dela.

O livro termina com aquela observação dos dois amigos sobre se um livro de receitas tem algo a ver com escrever. Ao terminá-lo, realmente se chega à conclusão de que Alice B. Toklas viveu a vida e o século XX como poucos. Ela observou a revolução cubista, alimentou literalmente o modernismo, sobreviveu à Ocupação, perdeu o amor de sua vida e, aos setenta e cinco anos, transformou suas memórias em receitas. Para Toklas, a cozinha não era sobre literatura; era sobre a própria vida. Servida sem adornos, com toda a verdade que o paladar é capaz de suportar.

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A nova Alemanha:

22 de Junho de 2026

Em 1912, quando o Titanic zarpou de um porto em Southampton rumo a Nova York, espumantes e brancos da uva Riesling rivalizavam em prestígio e preços com os mais famosos rótulos da França na carta de vinhos da primeira classe. O posterior naufrágio marcou um ponto de inflexão para o vinho alemão: duas guerras, a guerra fria e um erro de marketing levaram a uma derrocada.

Se os noruegueses criaram uma bem-sucedida estratégia de propaganda e tornaram o salmão um peixe comido de Tóquio a São Paulo, os alemães erraram feio. Responsável por até 60% das exportações viníferas da Alemanha, a invasão das garrafas azuis de Liebfraumilch acabou marcando negativamente a imagem do vinho alemão mundo afora. Muitos, até hoje, torcem o nariz, associando esses vinhos à imagem de um líquido doce, barato e industrial. Uma dor de cabeça assegurada.

Foto: Nadia Jung @nadiajungfotografia

Gradualmente a história tem mudado. Baseado em Rheinhessen, no sudoeste alemão às margens do rio Reno, uma região que para o vinho alemão é o que Bordeaux é para a França, Moritz Kissinger pertence a uma geração que busca incorporar as raízes da tradição trazendo inovações. Em 2018, assumiu parte das terras da família, cultivadas há quatro gerações, mas vinificadas e vendidas com o rótulo da propriedade apenas a partir de seu pai.

Depois de estudar vinhos na França, mais especificamente na Borgonha e no Jura, decidiu trabalhar com Chardonnay, uma uva que faz sucesso mundo afora, mas cujo histórico na Alemanha é recente. A legislação alemã proibia até o meio dos anos 1990 o uso da uva em vinhos de qualidade certificados pelo órgão de controle. A barreira legal foi vencida em 1994.

Moritz aproveitou uma coincidência climática: o aquecimento global tornou a Alemanha menos fria. Regiões que antes não amadureciam Chardonnay completamente agora produzem vinhos com a acidez vibrante típica de climas frescos, mas sem a dureza de outrora. Isso permite criar vinhos com frescor mineral e que às cegas podem parecer franceses.

Com videiras plantadas em 1994, Moritz começou a vinificar uma parcela de um hectare de Chardonnay. O primeiro vinho saiu em 2020. O resultado atraiu a atenção. Uma das maiores lojas de vinhos da Alemanha chamou Moritz de garoto prodígio, o The New York Times fez matéria sobre o renascimento do vinho alemão e destacou o Chardonnay dele.

O vinho chamou a atenção ainda de Jasmin Bähr, que tinha trabalhado como sommelière em Paris e estudado vinho na Borgonha e na Alsácia. Começaram a namorar. Casaram-se ano passado: a vinícola agora passou a se chamar Kissinger Bähr. O Chardonnay continua sendo um dos principais destaques do portfólio.

Agora os vinhos ganharam mais tempo de maturação, com dois invernos antes do engarrafamento e de chegarem ao mercado. Ganham mais complexidade. Tecnicamente, aproximam-se do estilo de grandes borgonhas, que descansam longamente sobre as borras para ganhar estabilidade e textura sem precisar de filtragem pesada. “Quis fazer Chardonnay porque eu achava que era possível fazer um de qualidade na Alemanha e a uva me encantou na França”, diz Moritz, que esteve em São Paulo essa semana em evento da importadora Maison Sirino, que recebeu recentemente uma nova remessa dos vinhos.

Mas o Chardonnay foi apenas o começo. Moritz queria ir mais longe: resgatar uma glória ainda mais antiga. No início do século 20, a Alemanha não era apenas um grande produtor, mas o maior mercado consumidor de espumantes do mundo. O prestígio era tanto que casas de Champagne francesas foram fundadas por alemães (Krug, Bollinger, Mumm, Piper-Heidsieck).

O imperador Guilherme II instituiu imposto sobre o vinho espumante com objetivo de financiar a construção da frota de guerra imperial. O imposto sobrevive até hoje. A pressão tributária, somada às crises do pós-Guerra, forçou os produtores a reduzir custos para o espumante acessível à classe média. Isso levou ao uso generalizado da fermentação em grandes tanques de aço, um método mais barato e rápido, em vez do lento e trabalhoso método tradicional, em que cada garrafa fermenta individualmente, como na Champagne.

Depois de um estágio na Champagne, Moritz voltou com a vontade de vinificar espumantes com uvas locais e feitos com mais de 18 meses sob leveduras, o que aumenta a complexidade. Busca ainda usar uvas de Chardonnay, Pinot Blanc e Pinot Noir e de safras diferentes. “A Alemanha tem potencial para bons espumantes”, afirma Moritz.

Agora Moritz e Jasmin trabalham juntos na vinícola, que ganhou nova dimensão. Desde 2024, eles conseguiram arrendar algumas parcelas de Riesling nos melhores trechos de terra da região. Produzem ali cerca de mil garrafas em cada um dos terroirs. A expansão se deu sobre a terra chamada de “encosta vermelha”, um paredão de solo avermelhado que despenca em direção ao rio Reno. É tão íngreme (declives de até 70 graus, como uma rampa de skate radical) que trator não sobe. Tudo é feito à mão, do plantio à colheita.

Mas essa verticalidade é o que permite que as videiras capturem a luz solar refletida pelo espelho d’água do Reno, garantindo maturação em um clima que, de outra forma, seria hostil. “Os vinhos têm uma mineralidade distinta”, afirma Jasmin. “Os vinhos carregam o sabor característico do solo e da luz que se reflete na parcela”, afirma ela.

A chegada de Jasmin trouxe outras inovações: ela ajudou a tornar os vinhos ainda mais gastronomicamente versáteis. A decisão de estender a maturação para dois invernos passa por essa percepção: vinhos de prestígio precisam de tempo para integrar a acidez. Jasmin foi peça-chave na decisão de expandir para o Riesling na encosta vermelha, com vinhos de minúscula produção. Agora o casal também irá trabalhar uma parcela especial de pinot noir, buscando um tinto elegante e mineral, cuja primeira safra ainda deve levar dois anos para chegar ao mercado. Nas encostas onde só as mãos alcançam, o vinho alemão volta à tona em várias versões.

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Biondi Santi: a garrafa que ninguém bebeu

17 de Junho de 2026

Há uma garrafa que Giampiero Bertolini nunca bebeu e não sabe onde foi parar. Ficava na adega do pai, em posição de destaque, separada das demais como um ícone. O pai a tratava como algo especial. Era um Brunello di Montalcino Riserva 1964 da vinícola Biondi Santi, cuja história se mescla à da Itália e de uma das mais famosas áreas de produção de vinho do mundo. Bertolini bebeu essa safra algumas vezes, na vida e no ofício. Mas aquela garrafa, a do pai, sumiu sem que ninguém a abrisse e ele soubesse o destino. O ícone doméstico virou ícone nacional. Em 2011, a Associação Italiana de Sommeliers elegeu a Riserva 1964 o melhor vinho da história da Itália e a transformou em símbolo dos 150 anos da unificação do país. A garrafa que o pai de Bertolini guardava sem beber passou a representar a Itália inteira e a ser o lugar de trabalho dele. “A vida é estranha”, diz ele em entrevista ao rememorar a história, antes de um jantar promovido pela importadora Mistral.

Desde novembro de 2018, Bertolini comanda a Biondi Santi, em Montalcino, na Toscana, a vinícola que inventou o Brunello e fez dele o vinho italiano mais conhecido fora da Itália. Foi contratado pelo grupo francês EPI, de Christopher Descours, que comprou a propriedade, em 2017, sob a desconfiança da cidade e do país. A pergunta que ressoava era: os franceses irão mudar um ícone? Era também uma questão para Bertolini.

Ele estava havia dezesseis anos vendendo os vinhos da Frescobaldi, outra vinícola da Toscana,. satisfeito, sem pensar em mudar, quando um headhunter o procurou. Antes de aceitar, fez o que poucos fariam diante de um convite desses: marcou sete reuniões com os donos franceses para entender, nos mínimos detalhes, o que esperavam dele. Uma delas foi até com um psicólogo. A Biondi Santi era um patrimônio, e ele não queria assumir sem saber o que nele se podia tocar. Brinca que os franceses devem tê-lo achado louco. Saiu daquelas conversas com a lição do Gattopardo, de Lampedusa: mudar o que for preciso para que o essencial permaneça. Preservar a história italiana virou tarefa de capital de franceses, com mãos italianas.

O patrimônio é de garrafas e de vinhedos. Em 1944, com o front da guerra chegando a Montalcino, a família emparedou as garrafas antigas para escondê-las dos alemães. Por isso a cantina histórica ainda guarda safras anteriores ao conflito. A histórica adega se soma ao reconhecimento. Até o fim dos anos 1960, Brunello (o nome vem da cor da uva, mais morena que outras) era coisa de um punhado de produtores — cerca de dez. A família Biondi Santi abastecia clientes importantes. Em 1969, o presidente Giuseppe Saragat serviu seis garrafas da Riserva 1955 à jovem rainha Elizabeth II, na embaixada italiana em Londres. A rainha gostou, saíram artigos na Itália e na Inglaterra, a procura disparou. Em 1994, Franco Biondi Santi reuniu dezesseis dos críticos mais influentes do mundo para uma degustação vertical das Riservas de 1888 a 1988. A ideia era mostrar que a elegância do Brunello da família tinha lugar no mundo em que Robert Parker dava pontuações altas a vinhos extraídos e mais alcoólicos. Presente ao evento, o britânico Nicolas Belfrage deu 100 pontos à 1891, um vinho de 103 anos.

Brunello tem hoje mais de 200 produtores, 218 associados ao consórcio, e um hectare de vinha vale cerca de 1 milhão de euros, perto do que se paga em parcelas da Champagne. O plantio está congelado desde 1997: para plantar, é preciso arrancar. A Biondi Santi, origem de tudo, é ao mesmo tempo o monumento e a âncora da denominação. Produz cerca de 100 mil garrafas por ano, conforme a safra.

Ao assumir, Bertolini tomou algumas decisões. Em 2019 contratou o chileno Pedro Parra, especialista em solo, que abriu mais de trinta buracos nos vinhedos para mapear as particularidades de cada pedaço de terra. Do estudo geológico identificaram-se doze parcelas. Questionado se não pretende engarrafá-las em separado, diz que não, isso seria sacrificar a qualidade dos vinhos que fizeram a história da vinícola. O mapeamento dá um trunfo: conhecimento mais preciso para navegar cada safra, que a cada ano pode contar com mais ou menos quantidade de uvas de uma parcela.

O aquecimento global tem trazido também reflexões sobre a própria videira. Por décadas a casa dependeu de um único clone, o histórico BBS11, registrado em 1978, primeiro clone a levar o nome do produtor. Numa vinha plantada por volta de 1936, a equipe achou cerca de cinquenta biótipos distintos da uva, um acervo genético da casta. Faz agora uma seleção massal, replantando essas variantes num pequeno viveiro da propriedade. Quase todos os vinhos ainda saem de um só clone; a aposta para o futuro é ter vários, uma receita própria contra o calor. No vinhedo, um novo sistema de condução em V abre a copa como um guarda-chuva sobre os cachos, fazendo que a circulação de vento seja mais fácil e haja proteção contra o sol.

O mundo atual tem seus desafios além do clima. Os jovens bebem menos, e bebem diferente. Bertolini conta que a vinícola lançou um podcast, La Voce, para falar de vinho com jovens e sommeliers da nova geração sem o tom intimidador do ritual. Ele admite que as pessoas estão com cada vez menos paciência de esperarem quinze, vinte anos para abrirem uma garrafa. “Não se tem mais paciência, acho que se pode notar que as safras mais recentes podem ser bebidas na juventude. Fizemos algumas pequenas alterações, como mais tempo de garrafa, o que permite que os taninos fiquem mais suaves e isso permite que sejam bebidos antes. É um investimento, porque poderíamos colocar a mercado antes”, afirma.

Em um momento em que muitas vinícolas se expandem, caso dos Gajas, que nasceram no Piemonte e agora possuem vinhas na Sicília, a propriedade pode trabalhar em outros lugares, como o Piemonte? Bertolini diz que o momento atual é complexo, em que a guerra no Oriente Médio traz turbulências, mas é algo que, se ocorresse, teria de fazer sentido na história da propriedade, o que não seria fácil de encontrar.

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Seção memória (bebido em dezembro de 2016, com quase 30 anos, as notas abaixo da foto:

A longevidade desses Brunellos, especialmente Biondi Santi, pode ser comprovada em almoço recente com a safra de 1988 Annata, ou seja, não Riserva. Com quase trinta anos, eu esperava encontrar um tinto cansado, com sinais de oxidação, meio que respirando por aparelhos. Ledo engano, o vinho estava vigoroso, em seu auge, com tudo que podia entregar em seus longos anos de evolução em garrafa. O aroma de fato, era todo terciário, mas com muita harmonia. A fruta ainda presente, meio passificada, com toques de torrefação, caramelo, cacau, bala de cevada, belos defumados, entre outros. Bom corpo, acidez presente e deliciosa, e um final longo e bem acabado. Em certos momentos, lembrava grandes Riojas envelhecidos. Enfim, um grata surpresa!

Vinho sem segredo edição digital

14 de Junho de 2026

@vinhosemsegredo ganhou mais uma plataforma: uma revista eletrônica, nascida da provocação de um discreto amigo do mundo do vinho que confessou sentir falta de ler artigos com mais fôlego e profundidade. Com o braço técnico do Claude na diagramação e a generosidade dos amigos que emprestaram suas mentes para textos, a publicação ganhou vida.

Pode ser acessada clicando-se aqui: https://vinhosemsegredo.com/revista-digital-vinho-sem-segredo/

Será periódica? Não sei. Depende do tempo e, obviamente, do interesse de quem se aventurar por estas páginas. Por que não é paga? Sinceramente, porque se o fundador do Vinho Sem Segredo, Nelson Luiz Pereira, com toda a sua generosidade e vasto conhecimento, manteve um espaço gratuito por anos, quem sou eu para cobrar o que quer que seja? Se o leitor fizer questão de abrir a carteira, que gaste com as assinaturas de John Gilman, Jasper Morris e companhia.

Na edição, degustação de vinhos 2022 de Keller, villages tintos 2021 da Borgonha, os cinco produtores de Gevrey Clos Saint Jacques, as champagnes de David Léclapart, Bruno Giacosa em um 1995 no ápice, Mugnier e Glenn Gould, Vinicius de Moraes e coleções.

Se esta edição for filha única, que fique como o registro de uma bela conversa de mesa. Como ninguém é mais otimista que alguém que tem adega e espera sobreviver às garrafas estocadas, se for a primeira de muitas, que seja um brinde ao inesperado.

Manta de Retalhos

8 de Junho de 2026

Em 1974, em Melgaço, extremo norte de Portugal, um punhado de estacas de madeira cravadas de forma simétrica ao redor de vinhedos em um hectare de terra transformou-se em assunto da população. Para alguns, a novidade se assemelhava a túmulos em um cemitério. Outros zombavam daquela “maluquice” de um funcionário público local chamado João Cerdeira.

Até aquele momento, as videiras na região de Monção e Melgaço ocupavam limites marginais dos campos destinados a outras culturas para alimentar as famílias. A Alvarinho, a uva hoje que se tornou um porto seguro de muitos enófilos que gostam de vinhos brancos com acidez, era um detalhe na paisagem. Inspirado no pioneirismo do Palácio da Brejoeira, no município vizinho de Monção, Cerdeira decidiu experimentar naquele pedaço de terra.

A história da Quinta do Soalheiro, que hoje comercializa mais de um milhão de garrafas entre Portugal e o exterior, nasceu dessa experiência. Em 1981, Cerdeira preparou o seu primeiro ensaio enológico sério em uma pipa de 500 litros. Avisado pela esposa de que a pipa não estava bem vedada, não deu muitos ouvidos à afirmação. Acabou perdendo todo o líquido por um fio de torneira esquecido aberto.

O contratempo não retirou o apetite pelo risco. No ano seguinte, em 1982, desalojou o automóvel Ford da garagem de casa para dar lugar a duas pipas. Nasceu ali a primeira colheita oficial do Soalheiro. As primeiras 300 ou 400 garrafas não foram vendidas. Tinham a função de escambo: serviam para trocar por azeite ou mantimentos na mercearia do vilarejo.

O pulo comercial surgiu de amigos, surpresos com o frescor e a elegância daquele “vinho aromático”. “Por que não rotular as garrafas e vender? Aí meu pai resolveu dar o próximo passo”, relembra Maria João Cerdeira, filha de João. Ela esteve essa semana em São Paulo em razão de eventos do Vinhos de Portugal e da importadora Mistral.

Veterinária por formação, ela conciliou por 25 anos o cuidado com os animais e a gestão da vinícola familiar. Sua entrada na empresa familiar, em 2004, deu-se sob um desafio. Ao ser convidada pelo pai para assumir as rédeas das vinhas, Maria João impôs uma condição que considerava audaciosa para a época: queria autorização para converter pelo menos uma parcela para a agricultura biológica. A resposta de João Cerdeira foi o sinal verde para voos altos. “Não tens uma, tens as vinhas todas.”

Há três décadas, muito antes de as palavras “sustentabilidade” e “biodinâmica” se tornarem jargões obrigatórios em relatórios corporativos, a Soalheiro já mapeava detalhadamente seus solos para reduzir o impacto ambiental. Hoje, após o irmão de Maria João ter vendido sua participação para se dedicar a novos projetos com o filho, cabe a ela gerir a propriedade, especializada em brancos com a uva Alvarinho.

A engenharia por trás do Soalheiro, no entanto, vai muito além de seus 15 hectares próprios de terra. Em uma região marcada historicamente pela fragmentação da propriedade, produzir 1,2 milhão de garrafas anuais exige trabalhar de perto com centenas de produtores locais. A vinícola transformou-se no que a própria família define como uma “família de famílias”: o Clube de Produtores do Soalheiro. O preço da uva – o quilo a quase dois euros – é o motor dessa relação.

Essa interdependência ganhou as páginas do livro Manta de Retalhos – Rostos do Alvarinho, lançado pela vinícola em 2023 para registrar em retratos e depoimentos de cada uma das 200 famílias que cuidam de mais de 750 microparcelas de terra cujas uvas fazem os 33 rótulos da vinícola. Essa preocupação em humanizar a cadeia produtiva é tão estratégica que a Soalheiro realiza um monitoramento demográfico e antropológico na região: estudam-se as linhagens e as gerações descendentes dessas 200 famílias parceiras. O objetivo é entender se os filhos e netos manterão o compromisso com a terra e se permanecerão na região, assegurando a continuidade desse quebra-cabeça humano e enológico. “Tudo é o território, é preservá-lo”, diz Maria.

Enquanto expande suas fronteiras técnicas para experimentos de viticultura extrema em altitudes de 1.100 metros, a Soalheiro mantém o foco em suas origens. As vinhas velhas originais, plantadas pelo pai sob os risos dos vizinhos em 1974, foram preservadas e, desde 2006, são usadas a cada ano no rótulo Primeiras Vinhas. Uma safra recente foi eleita o melhor vinho português em uma premiação da revista inglesa Decanter.

Um casal no mundo do vinho

8 de Junho de 2026

No jantar da última segunda-feira de maio, o Quinta da Manoella Branco 2024 foi o primeiro vinho servido. Caso fosse provado às cegas, poderia confundir o degustador que talvez pensasse se ele não seria francês e talvez até da Borgonha. Diante da observação, o enólogo Jorge Serôdio Borges sorriu com uma ponta de resignação e orgulho. “As pessoas ainda não acham que Portugal pode fazer esses vinhos.”

A frase sintetiza a revolução que redesenha o mapa vinícola português nesse século. Há trinta anos, vinho português era sinônimo de tintos e brancos rústicos. Se hoje o retrato mudou, deve-se a um movimento de vanguarda do qual Jorge e sua esposa, Sandra Tavares da Silva, são protagonistas.

A virada do milênio foi o estopim. Ambos integraram a gênese dos Douro Boys, grupo de enólogos que com técnicas modernas provou que o Douro era capaz de entregar vinhos de mesa de nível mundial e não apenas o icônico Vinho do Porto. Apesar do nome, havia mulheres no movimento, como Sandra, e sua amiga, Susana Esteban. A revolução tem outro detalhe histórico: o Marquês de Pombal instituiu o Douro como a primeira região vinícola demarcada e regulamentada do mundo em 1756.

Chegar ao clube do bolinha não foi fácil para Sandra. Antes de se consolidar como uma das enólogas mais influentes de Portugal, Sandra dividiu-se entre o esporte de alto rendimento e a moda. Entre os 10 e os 17 anos, jogou na seleção portuguesa de vôlei. Mais tarde, trabalhou como modelo profissional pela agência Ford Models. A timidez da infância foi vencida sob as luzes das passarelas e a pressão dos ginásios, mas o amor pela terra falou mais alto.

Sandra deixou as passarelas para graduar-se em Agronomia, com especialização em Enologia. A transição para o ambiente rural do Douro impôs barreiras invisíveis. Em um meio tradicionalmente patriarcal, enfrentou o preconceito por ser mulher e por seu histórico na moda.

A cumplicidade profissional com Jorge Serôdio Borges logo se transformou em parceria de vida. Conheceram-se em 1999, na festa que celebrava o fim da colheita da Quinta do Vale Dona Maria, onde ela trabalhava. Casaram-se em 2001 e fundaram a Wine & Soul, que agora completa 25 anos.

A decisão que selou o início da empresa ditou o norte do casal. “Em vez de uma casa, compramos um vinhedo”, recorda-se Jorge, que esteve essa semana em São Paulo em razão de evento do Vinhos de Portugal e da importadora Adega Alentejana. Adquiriram uma parcela de pouco mais de dois hectares em Vale de Mendiz, com videiras de mais de 90 anos e 45 castas misturadas. O trabalho de Jorge e Sandra é trabalhar vinhos com variedades diferentes de uvas em solos diversos. “É como uma orquestra, cada instrumento dá um tom”, afirma.

O batismo do Pintas teve ares da vanguarda de que participavam. Em vez de colocar o nome da quinta que compraram, decidiram nomear o vinho em homenagem ao cachorro pointer inglês do casal. Nasceu o Pintas, vinho que posicionou a Wine & Soul na elite do setor.

Após a consolidação do Pintas, o casal expandiu as operações ao assumir, entre 2008 e 2009, a gestão total da Quinta da Manoella, propriedade histórica fundada em 1838 e ligada à família de Jorge há cinco gerações. O nome é um tributo à primeira gestora daquelas terras. “Reinvestimos na ampliação dos terroirs nossos.”

De uma das parcelas centenárias nasceu o Quinta da Manoella Vinhas Velhas, um tinto de perfil tão fluido e elegante que surpreendeu o Angelo Gaja, um dos produtores preferidos de Mino Carta. Ao provar o vinho, o lendário viticultor piemontês não identificou a assinatura típica do Douro, marcada historicamente pela opulência. Intrigado com o frescor do rótulo, Gaja viajou a Portugal para conhecer a propriedade de perto e conhecer o casal por trás do vinho.

A ligação de Manoella com o mercado externo seguiu caminhos próprios. Numa vinda anterior ao Brasil, Jorge foi abordado por um casal. O marido apontou para a barriga da esposa e anunciou que a filha se chamaria Manuela. Comprou 18 garrafas Magnum (tamanho dobro do normal encontrado) do Quinta da Manoella Vinhas Velhas. Pediu que fossem assinadas pelo enólogo. Criou-se um ritual: a cada aniversário da menina, Jorge recebe uma foto da garrafa aberta, celebrando o crescimento da Manuela brasileira em paralelo com a evolução do vinho.

Para além das videiras, a mente de Jorge Serôdio Borges opera sob a lógica da alta performance e das pistas. O enólogo nutre uma paixão antiga pelo automobilismo. Nas pistas portuguesas, competiu profissionalmente e conquistou dois campeonatos nacionais de velocidade, correndo em troféus como o Fiat Punto e com modelos da Alfa Romeo. Questionado se a esposa teme o flerte constante com a velocidade, Jorge sorri: “Agora ela começou a se preocupar”, confessa. Nesse momento, está à espera do novo carro que está passando para ajustes, para ele participar de novas provas.

A obsessão pela velocidade o acompanha em suas viagens. Em novembro do ano passado, ao desembarcar em São Paulo a trabalho, sua agenda coincidiu com o Grande Prêmio de Fórmula 1 em Interlagos. Por meio de contatos locais, conseguiu um ingresso de última hora e assistiu, sob a forte chuva paulistana, à vitória de Max Verstappen.

Seu interesse também se volta para os clássicos. Em uma viagem recente à Suíça ao lado de um dos filhos, fotografou em detalhes um Aston Martin vintage, idêntico ao modelo de James Bond no cinema. Atualmente, seu projeto mais obstinado no asfalto é afetivo: localizar o modelo de automóvel que sua avó utilizava quando comandava a vinícola da família. A ideia é que se torne um dos veículos da propriedade, que também tem uma caminhonete reformada usada décadas antes.