O tempo em uma taça: a história da família Gaja

16 de Abril de 2026

Há marcas italianas que ultrapassam fronteiras. Os bólidos da Ferrari cruzam estradas mundo afora, executivos assinam cheques vestidos de ternos de Giorgio Armani com gravatas Marinella, mulheres calçam sapatos Sergio Rossi e carregam bolsas Gucci. No mundo do vinho, o nome que carrega o mesmo peso simbólico é Gaja — quatro letras que se tornaram sinônimo de elegância, precisão e personalidade.

A história começou em 1859, quando Giovanni Gaja, produtor de uvas em Barbaresco, fundou uma pequena vinícola para abastecer o restaurante da família. O vinho era feito para acompanhar os pratos simples servidos à mesa, mas logo se percebeu que era melhor que a comida.

A saga ganhou densidade em 1935, quando o neto, também chamado Giovanni, assumiu a direção. Dois anos depois, em 1937, tomou uma decisão que parecia trivial: colocou o nome da família em letras grandes no rótulo. Num tempo em que os vinhos piemonteses e até franceses eram anônimos, vendidos a granel, esse gesto foi quase uma revolução silenciosa.

Quando o jovem Angelo Gaja chegou à vinícola em 1961, o Piemonte ainda seguia a tradição. Trouxe o inconformismo dos novos tempos. Determinou que só vinificaria uvas de vinhedos próprios, cortando a dependência de terceiros. Nos anos 1950, a vinícola vendia vinhos de Barolo https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/da-garagem-para-o-mundo/  produzidos com uvas compradas, contou Francesco Giardino, diretor de vendas da Gaja, que esteve no Brasil esta semana em evento da importadora Mistral.

Pouco depois, Angelo viajou aos Estados Unidos, onde trabalhou brevemente em restaurantes e conheceu produtores que faziam vinhos no nível dos franceses. Voltou impressionado com a forma como o vinho era comunicado — com clareza, orgulho e emoção — e decidiu que os rótulos italianos também precisavam ter voz, história e identidade. A viagem reforçou ensinamentos recebidos aos 11 anos.

Ainda menino, Angelo brincava no pátio da casa da família, quando a avó Clotilde Rey — que fora professora na Savoia e que todos chamavam de Tildìn — o chamou de lado. De temperamento forte e olhar severo, Clotilde o fitou e perguntou:
“Angelo, o que você vai fazer na sua vida?”
O garoto, sem saber responder, ficou em silêncio. Clotilde esperou, depois completou:
“Você tem de se tornar um artesão.”
Essas palavras ficariam gravadas em sua memória. Mais tarde, ela explicou o que queria dizer com isso:
“Fare, saper, far fare, far sapere — fazer; saber como fazer; ensinar os outros a fazer; e comunicar o que se faz.”
Para ela, o vinho era um gesto de arte, mas também de ética e transmissão. Décadas depois, Angelo diria que cada garrafa que produziu foi, de alguma forma, uma tentativa de honrar aquela conversa.

Clotilde também conheceu, nessa mesma época, um menino curioso que perambulava pelos vinhedos vizinhos: Mino Carta https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/as-memorias-gustativas-e-olfativas-de-mino-carta/ . A família Carta havia se refugiado, no início dos anos 1940, no Piemonte, durante os bombardeios da guerra. Mino perambulou pelos vinhedos locais e guardou a lembrança da mulher de voz firme que lhe falava da terra e da paciência do vinho. Anos mais tarde, já no Brasil, Mino se tornaria um dos maiores entusiastas dos vinhos Gaja. Frequentava o restaurante Massimo, em São Paulo, muito mais pela carta de vinhos do que pela comida, e sempre se emocionava ao recordar as colinas de Barbaresco.

Nos anos 1960, Angelo começou a colocar em prática a filosofia herdada da avó. Em 1964, comprou o vinhedo Sorì San Lorenzo, cuja primeira safra, em 1967, inaugurou uma nova era no Barbaresco. Depois viria o Sorì Tildìn, homenagem à própria Clotilde, e mais tarde o Costa Russi. Com eles, Gaja reforçou no Piemonte a ideia de vinhos de vinhedos únicos, até então algo típico da Borgonha.

No final da década de 1970, Angelo ousou novamente: plantou Cabernet Sauvignon em solo de Nebbiolo. O pai, Giovanni, ao saber da novidade, suspirou: Darmagi! — “que pena”, em dialeto piemontês. O filho transformou o lamento em batismo: o novo vinho se chamaria Darmagi. “Os rótulos buscam destacar histórias da família, como Darmagi ou como Sorì Tildìn”, contou Francesco Giardino, diretor de vendas da Gaja. “Cada vinho carrega um fragmento de memória, uma emoção transformada em garrafa.”

Nos anos 1980, Angelo decidiu realizar um sonho antigo do pai. Em 1988, comprou dois vinhedos em Serralunga d’Alba — Marenca e Rivette —, áreas de Nebbiolo de grande prestígio que dariam origem ao Sperss. O nome, em dialeto piemontês, significa “saudade”, e traduzia um sentimento que seu pai, Giovanni, carregara por toda a vida. Quando jovem, Giovanni trabalhara por alguns dias na vinícola da família, em Barbaresco, sob o olhar severo da mãe, Clotilde Rey. Ali, tudo era disciplina: horários rígidos, silêncio à mesa, longas jornadas de colheita e toque de recolher antes das 20 horas. Respeitava a mãe, mas sentia falta de leveza. Por isso, ao ter a chance de trabalhar por algumas semanas em Serralunga d’Alba, em uma propriedade vizinha, a experiência foi libertadora.

Ele lembrava com carinho daquelas quinze noites em que, após o trabalho, os jovens colhedores se reuniam para rir, cantar e beber o vinho da casa até tarde, sob o ar fresco das colinas. Longe da rigidez de Barbaresco, Giovanni descobriu que o trabalho com a terra também podia ser alegria.

Décadas depois, Angelo ouviu tantas vezes o pai contar essas lembranças que decidiu transformá-las em vinho, relembrou Angelo em entrevista a Levi Dalton no podcast “I´ll drink to that”. Comprou o mesmo pedaço de terra que inspirara o pai e lançou o primeiro Sperss em 1988. “Foi o vinho que fiz por ele”, diria mais tarde. Por trás da potência e dos taninos firmes, há uma história simples: a de um filho que devolveu ao pai um lugar de felicidade.

Depois vieram os brancos, Gaja & Rey e Rossj-Bass, dedicados à avó Clotilde e à filha Rossana, reafirmando a ideia de que o vinho, em Gaja, é sempre uma forma de contar histórias familiares. Em 2015, a família deu mais um passo em direção ao futuro com a compra de vinhedos em Alta Langa, região de altitude e clima frio, onde ergueram uma vinícola dedicada exclusivamente a brancos. É a visão de que o aquecimento global traz desafios e necessidade de se buscar geografias mais adaptadas, mas o saldo dos efeitos das mudanças climáticas tem sido positivo, com melhor maturidade das uvas a cada safra. “A safra 2021 é histórica”, diz Giardino. “Ela mostra o equilíbrio perfeito entre frescor, elegância e maturação.”

Do Piemonte, a visão se expandiu ainda mais para o sul. Em 2017, Angelo e sua filha Gaia Gaja anunciaram o projeto IDDA, parceria com o produtor Alberto Graci no Etna, na Sicília, um terreno influenciado pela presença do maior vulcão ativo da Europa. “IDDA”, no dialeto siciliano, significa “ela” — uma referência à montanha e à força feminina da natureza. Lá, a Nebbiolo dá lugar às uvas Nerello Mascalese e  Carricante, em vinhos que traduzem energia, mineralidade. O projeto, ao mesmo tempo moderno e ancestral, é o novo capítulo da saga Gaja.

Mais de 160 anos depois, a vinícola fundada para acompanhar pratos simples tornou-se um ícone global, uma marca que sintetiza o espírito italiano de unir tradição e vanguarda. Um vinho Gaja carrega a essência do luxo discreto: o domínio do tempo. E, como lembrava Mino Carta, que atravessou a vida com uma taça de Barbaresco nas mãos, sempre que podia, “há vinhos que não se bebem — se contemplam.”

Vinhos nos extremos

13 de Abril de 2026

Felipe Tosso quis ser tenista. Entre os dez e os 17 anos, jogava seis vezes por semana e viajava pela América do Sul para disputar torneios. Chegou a figurar entre os quatro melhores juvenis do ranking chileno, até que uma contusão séria no tornozelo direito o deixou seis meses sem pisar no chão. Abandonou o sonho e ficou cinco anos longe do esporte. Tentou então a engenharia civil. Cursou por dois anos, mas concluiu que o ambiente de escritório não o faria feliz. Precisava do ar puro. Migrou para a agronomia, inspirado também pela carreira de sua mãe.

A linha Gray tem boa qualidade preço, com destaque para o chardonnay, coringa à mesa, na casa dos R$ 200. Já a linha Kosten deve ter algumas garrafas vendidas no Brasil em breve.

O mundo do vinho entrou em sua vida nesse intervalo, por meio de um clube de degustação, em que era o mais novo entre os membros, cuja maioria tinha o dobro da idade. Encantou-se ao beber um branco chileno de Chardonnay com algum tempo de envelhecimento. Ao sentir aromas de manteiga, nozes e mel, decidiu que preferia fazer vinho a bebê-lo. É uma paixão que não abandonou: bebe vinho todos os dias, sempre em busca de regiões e produtores desconhecidos.

Ao sair da faculdade, ingressou na maior vinícola do país: a Concha y Toro. Era início dos anos 1990 e foi colocado na equipe que produzia o Dom Melchor, nascido em 1987, com uvas de origem bordalesa plantadas no Vale do Maipo no século XIX e consultoria de enólogos franceses famosos. Mesmo com o sucesso que levou publicações dos Estados Unidos a eleger a novidade entre as melhores do mundo, o Chile ainda tateava um caminho.

No início dos anos 2000, chegou à Ventisquero, um projeto familiar nascido numa época em que Chile e Argentina buscavam identificar como poderiam ser diferenciar no mundo enológico. Com 25 anos na empresa e muitas referências, o caminho mudou. Os terroirs se ampliaram.

“As vinícolas que buscavam o diferente se contavam nos dedos das mãos. Prevalecia um estilo mais potente, e ninguém trabalhava nos extremos climáticos do país, como no deserto de Atacama ou na Patagônia”, lembra Tosso, que esteve esta semana em São Paulo para um evento do guia Descorchados, especializado em vinhos sul-americanos e que elegeu a Ventisquero a vinícola de 2026.

O desafio de fazer vinhos elegantes em diferentes terroirs chilenos o levou para regiões que antes pareciam improváveis. A primeira delas, o deserto de Atacama, chegou por acaso. A família proprietária da Ventisquero havia comprado hectares na região para plantar oliveiras e produzir azeite. Quando os trabalhadores começaram a preparar o solo, perceberam que ele poderia abrigar videiras. Plantaram oito variedades em cerca de dez mil metros quadrados. Nasceu assim o projeto Tara, batizado como o arbusto nativo que resiste ao árido clima local. “O solo é muito interessante. Tínhamos de fazer algo especial”, diz.

Explorado o extremo norte, veio a vez da Patagônia chilena, uma região inóspita que Tosso conhece também como turista: recentemente, levou a mulher e as quatro filhas para passar férias por lá. Para chegar, é preciso voar e, depois, atravessar de balsa uma área marcada por geleiras. “É o ponto mais ao sul do mundo onde se produz vinho, perto de um dos maiores lagos da América do Sul, o General Carrera.”

Há cerca de dez anos, dois agrônomos que trabalhavam na região notaram a abundância de cerejeiras, um sinal de que o solo poderia ser apto para vinhedos. Em parceria com um produtor de cerejas, plantaram cinquenta mudas de sete variedades selecionadas para o frio. Vingaram o Sauvignon Blanc, o Chardonnay e o Pinot Noir.  Descobriram que, além da temperatura e doe ventos, havia outra questão a considerar: os pássaros.

“Tivemos nossa primeira produção decente em 2020, com pouquíssima uva. Em 2021, os pássaros comeram tudo; em 2022 vieram os primeiros cachos reais, ainda em escala experimental; em 2023 lançamos os três vinhos Kosten”, conta. O nome da linha é o que os habitantes chamam os ventos intensos que varrem a região. Os vinhos feitos com chardonnay e pinot noir mal chegam a 400 garrafas produzidas.

O tênis voltou. No fim de semana passado, Tosso disputou um torneio masters e chegou às semifinais. O tornozelo direito aguentou.

Arroz de pato: com qual vinho?

30 de Março de 2026

A origem da receita é desconhecida, ainda sendo razão de debate: uns apontam para o centro de Portugal, mais especificamente para Lafões; outros, mais recentemente, indicam que a criação do prato teria sido em Braga. Discordâncias históricas à parte, o arroz de pato (campeão de audiência do site há década) ganhou mesas de restaurantes e casas no século 20, com a necessidade de comer fora de casa e a consequente multiplicação dos restaurantes, relembrou o jornalista Dias Lopes em texto de 2017.

Arroz de pato do quinta do marquês, no km 53 da Castello Branco: uma preferência pessoal

Joana Simon, uma das maiores especialistas em enogastronomia, cujo livro “Vinho e Comida” é um dos melhores sobre o tema, relata que os mouros introduziram o cultivo do arroz em Portugal no início do século VIII, embora durante muito tempo tenha permanecido um alimento dos ricos. Tornou-se muito mais amplamente consumido durante o século XX, na sequência de um plano de gestão de terras e águas, impulsionado a partir de 1921 por grandes importações do Brasil e das colônias portuguesas na África.

É um prato simples, baseado em três ingredientes principais – o pato, o arroz e o chouriço. A maior parte das discussões, em Portugal, se refere ao arroz e ao vinho. O arroz tradicional utilizado é o carolino português, uma variedade de grão médio a longo, rica em amido, que absorve bem os sabores (não muito diferente de variedades de risotto como o carnaroli, mas com mais amido). No entanto, algumas pessoas utilizam o arroz agulha, de grão mais longo, que resulta numa textura menos cremosa. Quanto ao vinho, alguns utilizam vinho tinto, outros insistem no branco.

O arroz de pato é um prato bastante rico, mas versátil; por isso, pode aceitar vários estilos de vinho de acompanhamento. Joana Simon prefere tinto com ele, e normalmente português. “Gosto que o vinho tenha alguma acidez ou frescura mineral para cortar a riqueza, algo que Portugal faz bem, mas certamente não está sozinho. Para sugerir apenas duas regiões além das suas fronteiras: os Beaujolais Crus de vinhas velhas, de produtores como Jules Desjourneys e Château du Moulin-à-Vent; e o Priorat, sobretudo o Torres Mas de la Rosa 2017, um lote de Garnacha e Cariñena requintado e etéreo, em vez de uma potência típica do Priorat”, escreveu em um artigo na World of Fine Wine.

Além de acidez e mineralidade, há outros elementos que ajudam quando se quer pensar no vinho ao lado do prato. Uma variável é um certo grau de envelhecimento do vinho. Não é aconselhável um vinho muito jovem. Neste caso, os sabores da carne cozida e posteriormente assada, juntamente com os embutidos, não necessitam de taninos tão presentes. A acidez talvez seja mais importante para combater a gordura do prato.

Os taninos já pelo menos parcialmente polimerizados nos vinhos de certa evolução são suficientes para a suculência do prato. Além disso, os aromas terciários do vinho vão muito melhor com os sabores assados e defumados do prato. Um Reserva Ferreirinha com dez anos de idade por exemplo, seria maravilhoso. Outras alternativas portuguesas poderiam ser vinhos do Dão, de preferência os mais modernos com um pouco mais de potência, ou um belo Buçaco, naturalmente envelhecido, onde os sabores do Dão e Bairrada se fundem.

Saindo de Portugal, podemos ir para os italianos. A sangiovese, com sua acidez, é uma boa pedida, por exemplo num belo Brunello di Montalcino. Um Taurasi envelhecido com a uva Aglianico é outra bela pedida. Do lado espanhol, um Ribera del Duero, um Rioja Reserva ou Gran Reserva mais moderno, mais encorpado, também podem dar certo.

Quanto aos franceses, penso que o Rhône é a melhor opção. Um Cornas ou um bom Crozes-Hermitage com alguns anos de garrafa tem o perfil deste prato com as características da Syrah. Com um pouco mais de sofisticação, podemos tentar um Côte-Rôtie ou o grande Hermitage. No caso deste último, deve ser bem envelhecido para amansar sua potência.

Se a ideia for buscar vinhos do Novo Mundo, bom considerar que apenas os grandes tintos da região possuem capacidade para envelhecimento. Um Malbec da Bodega Achaval Ferrer, um Cabernet chileno de estirpe como o Casa Real Santa Rita, ou um Shiraz com toques de evolução como o sul-africano  da vinícola Neil Ellis.

Para não correr grandes erros, vamos ficar com a receita do restaurante Bela Sintra, referência em comida portuguesa em São Paulo.

1 Tempere o pato com o vinho branco, 2 cebolas, o louro, a pimenta-do-reino, o salsão e as cenouras picadas.
2 Deixe marinar por 12 horas, coloque o pato em uma panela de pressão com os legumes, cubra com água, tempere com sal e cozinhe por 15 a 20 minutos.
3 Desfie a carne e reserve.
4 Refogue no azeite a cebola restante com o alho e o bacon, acrescente o arroz e junte 1 litro do caldo do cozimento do pato.
5 Quando o caldo estiver fervendo, acerte o sal e deixe o arroz cozinhar.
6 Depois de cozido, misture o pato desfiado com o arroz em uma travessa.
7 Finalize com as rodelas de cenoura e chouriço sobre o arroz e leve ao forno por aproximadamente 20 minutos.

Almoço com Chiara Pepe

28 de Março de 2026

No começo da década de 1970, Emidio Pepe resolveu viajar aos Estados Unidos para mostrar a revolução iniciada em 1964 em sua vinícola em Abruzzo, região agrícola a leste de Roma, entre o Adriático e os Apeninos e que não despertava nem o interesse da crítica nem dos enófilos. Na sua mala, levou algumas garrafas de seu tinto, feito com a uva local Montelpulciano, considerada por muitos como ruim até para se usar nos molhos.

Uma garrafa foi parar na mesa de Lidia Bastianich, apresentadora premiada de televisão americana e autora de livros de culinária. Lidia gostou tanto que comprou o restante do que Emidio tinha trazido na mala para servir na abertura de seu restaurante, o Felidia, em Manhattan. Na inauguração do endereço, sentou-se à mesa e bebeu o Montepulciano, que ganhou centenas de pedidos quando os jornais americanos estamparam as fotografias do evento. Nunca mais a família parou de viajar. A vinícola se tornou tão reputada no exterior como a de Angelo Gaja ou de Biondi Santi. O Montelpuciano da safra 1964 foi vendido em leilão a mais de US$ 4 mil por uma loja em Nova York há poucos anos.

um almoço com chiara pepe; história de emidio pepe

Chiara Pepe, que assumiu o comando da vinícola na safra 2020 e agora em 2026 irá também comandar um dos mais famosos vinhos do planeta – La Chapelle, em Hermitage, conta com um sorriso essa história no almoço de uma terça-feira do fim de março de 2023 (última visita dela ao Brasil) em São Paulo, no Baru Marisqueria, quando questionada se gosta de viajar pelo mundo. “Faz parte da nossa história, assim como a biodinâmica”, diz ela, nascida em 1989. As 80 mil garrafas (45 mil do tinto, 5 mil de um disputado rosé – o Cerasuolo – e o restante de dois brancos – o Trebbiano e o Pecorino) são vendidas para 40 países, entre eles o Brasil, onde os vinhos serão importados a partir de 2026 pela Clarets. Foi sua terceira viagem ao país, a primeira desde que começou a vinificar. Em 2023, veio para um jantar no restaurante italiano Fame, zona oeste de São Paulo, para apresentar seus vinhos, então importados pela Uva Vinhos. “Os brasileiros têm um especial apelo pelo branco feito com a uva Pecorino, que enseja vinhos aromáticos e exóticos.”

Quando Chiara vinificou seus primeiros vinhos em 2020, o primeiro a bebê-los foi Emidio, que hoje assiste à distância aos passos da neta. “Ele ficou orgulhoso.” Não mudou a vinificação. Desde sua infância, Chiara viu seu avô trabalhar nas videiras e na cantina. Foi para a França estudar enologia e fez um estágio de um ano na Borgonha, no domaine Chandon de Briailles. Quando assumiu, não mudou nada. Desde 1964, não se usam defensivos para tratar os vinhedos. Primeiro, porque não existiam naquela época, segundo porque poderiam trazer algum impacto para os vinhos. Não se usa madeira. Os vinhos são envelhecidos em grandes toneis de cimento com leveduras naturais e vendidos quando a família julga estarem prontos para serem bebidos. As uvas são colhidas à mão e pisadas em um grande tonel de madeira. Eles começaram fazendo vinhos naturais décadas antes de o termo, em voga hoje, ter nascido.  

“Quando assumi, foi uma questão de manter a história do meu avô. Não fazemos nem faremos concessões para o mercado”, fala, abrindo seu branco feito de Trebbiano d´Abruzzo, safra 2015. As safras são vendidas quando a família acredita que os vinhos estejam prontos para serem bebidos. Emidio foi um dos primeiros a construir um espaço para envelhecer seus vinhos por longos períodos em garrafas antes do lançamento. A vinícola conta com uma adega com capacidade para envelhecer 350.000 garrafas. Há 50 anos, Montelpuciano era um vinho para ser bebido jovem, o governo encorajava cada vinícola a produzir centenas de milhares de garrafas para serem vendidas. “Meu avô ficou furioso e por isso decidiu apostar em outra direção e ir para os Estados Unidos ver se entendiam sua filosofia, que sempre foi natural”, diz ela servindo o Montelpuciano 1993, que com três décadas esbanja juventude.

O aquecimento global tem interferido nas datas de colheita (e nas férias), podendo a vindima ser antecipada ou prorrogada em duas a três semanas, o que pode fazer com que ocorra entre metade de agosto e início de setembro. Quando chega o momento a família de sete pessoas e outros 10 trabalhadores locais trabalham colhendo as uvas.

Além da preocupação com o clima, os preços dos vinhos nas regiões mais famosas do mundo têm feito surgirem dezenas de ofertas de compradores de terras do mundo todo. No Piemonte e na Toscana, dois dos mais famosos terroirs italianos, vinícolas foram compradas por americanos, ingleses, franceses, russos e até brasileiros (André Esteves e Galvão Bueno). Em Abruzzo, os preços da terra explodiram. Há 10 anos, um hectare valia 10 mil euros. Hoje pode custar 50 mil euros, um valor considerável, mas ainda muito abaixo dos 1 milhão de euros que podem ser alcançados em Barolo ou Barbaresco, terra onde nascem os melhores nebbiolos do planeta. “Há uma preocupação de que algumas vinícolas não sejam mais de famílias e percam essa essência artesanal.”

Mais sobre a vinda de Chiara em 2023 aqui: https://pisandoemuvas.com/2023/05/19/emidio-pepe-de-nova-york-para-o-mundo/

Melhores de 2025 – Itália

20 de Dezembro de 2025

Num mundo em que cada vez mais champagnes se aproximam dos quatro dígitos, as borbulhas italianas têm um lugar crescente sobre a mesa.

Espumantes: Franciacorta Edea Mirabella  (Italy Import); Ferrari Brut (Vinheria Percussi); Ferrari Perlé 2018 (Vinheria Percussi)

Brancos

Nem só de chardonnay bourguignon se vive, nem também só de Valentini.

Autóctones: Valentini 2020 (Decanter); Vintage Tunina 2020 (Berkmann); Trebbiano d´abruzzo 2015 Emidio Pepe *(novo importador em breve)

Chardonnay: Cervaro della Salla 2020 (Berkmann); Gaia e Rey 2016 (Mistral); Were Dreams 2021 Jermann (Berkmann);  Ca del Bosco 2017 (Mistral)

Chardonnay qualidade preço: Kurtatsch 2023 (Italy Import); Primosic (VinVin&Co)

Etna qualidade preço branco: Pietradolce (Italy Import); Alta Mora (World Wine), Planeta (Grand Cru)

Etna bianco: Etna Bianco Superiore Contrada Salice 2023 (Mistral)

Sobremesa: Donnafugata Passito di Pantelleria “Ben Ryé” (World Wine); Vin Santo Fontodi 2001 (Mistral)

Tintos

Sul da Itália

Poucos terroirs têm ganho tanto refinamento nos últimos anos quanto o Sul da Itália, com destaque para o vulcânico terroir de Etna. Surpresa foi o Idda, parceria de Angelo Gaja  com Alberto Gracci, um vinho elegante e delicado, marcas registradas de Gaja.

Etna qualidade preço tinto: Pietradolce (Italy Import); Alta Mora (World Wine)

Etna rosso: Idda (Mistral); Pietradolce Santo Spirito 2020 (Italy Import)

Toscana

A mudança da legislação há uma década e meia e a criação do Gran Selezione trouxeram uma melhoria notável em uma série de produtores que já faziam um ótimo trabalho.

Chianti clássico: Fontodi 2021 (Mistral); Riecine 2022 (Italy Import); Tenuta di Corleone 2021 (Uva Vinhos); Mazzei Fonterutoli Chianti Classico (Grand Cru)

Chianti Riserva: Riecine 2021 (Italy Import); Caparsa 2019 (Tanyno)

Chianti Gran Selezione: San Lorenzo 2018 Castello di Ama (Mistral); Vigna del Sorbo 2020 (Mistral); Gran Selezione Vigneto Bellavista 2016 (Mistral)

Supertoscano 100% sangiovese: Montevertine 2016 (Decanter); Ceparello 2021 (decanter)

Supertoscano uvas internacionais: Petra di Petra 2020 (Italy Import); L´Apparita 2020 (Mistral)

Tinto qualidade preço: Belvento e Cileggio (Italy Import)

Rosso di Montalcino: Poggio di Sotto 2020 (Italy Import)

Brunello di Montalcino: —

Piemonte

Nos últimos dois anos, o mercado brasileiro recebeu um punhado de novos nomes que aumentaram a opção dos que gostam desses vinhos. Da volta de Giuseppe Mascarello e Giuseppe Cortese à chegada de Sottimano e Castello di Verduno (que com a ascensão de preços de Burlotto tem coisas a se conhecer…)

Dolcetto: Giuseppe Mascarello 2022 (Clarets); Ca di Press 2022 (Clarets); Giuseppe Cortese 2023 (Tanyno)

Barbera qualidade preço: Barbera d´alba Fratelli Alessandria (VinVin&co); Barbera d´alba Vajra (VinVin&co); Barbera d´alba 2022 Principiano Ferdinando (Italy Import); Barbera 2021 Giuseppe Cortese (Tanyno); Scarzello Superiore (Tanyno)

Barbera:  Luciano Sandrone 2022 (Clarets); Barbera Scudetto Giuseppe Mascarello (Clarets); Barbera Aves Burlotto (Clarets); Bricco dell’Uccellone 2020 (Tanyno); Ai Suma 2020 (Tanyno)

Nebbiolo qualidade preço: Principiano Ferdinando (Italy Import); Vajra (VinVin&Co); Castello di Verduno 2023 (Tanyno)

Nebbiolo: Langhe Rosso 2017 Roagna (Clarets); Giuseppe Mascarello 2022 (Clarets)

Barbaresco qualidade-preço: Ada Nada 2020 (Italy Import); Barbaresco 2021 Giuseppe Cortese (Tanyno); Produtori del Barbaresco 2021 (Vin Essence)

Barbaresco: Sottimano Currà 2019 (Tanyno); Sottimano Pajoré 2021( Tanyno);  Gaja 2020 (Mistral)

Barolo: Vigna Rionda 2017 Giovanni Rosso; Barolo Bricco delle Viole 2017  G.D.Vajra (VinVin&Co); Monvigliero 2021 Fratelli Alessandria (VinVin&Co); Scarzello Vigna Merenda 2016 (Tanyno); Monvigliero 2018 Castello di Verduno (Tanyno)

Adegas fechadas

7 de Abril de 2026

A convivência entre quem cria e quem julga tem limites às vezes indefiníveis, seja no vinho, seja em outras áreas. No fim dos anos 1950, Paulo Autran deixou a educação de lado. Após Paulo Francis criticar reiteradas vezes, em suas colunas sobre teatro, a atriz Tônia Carrero, Autran esperou o momento para contra-atacar. Em uma peça em que só participava do final, viu o jornalista na plateia. Depois de a cortina descer e o público ir embora, aproximou-se de Francis e o chamou. O jornalista virou o rosto, Autran desferiu uma cusparada. “Cuspi com prazer”, relembrou o ator anos depois, enquanto o jornalista se arrependeu da briga.

No mundo do vinho, essa hostilidade manifesta-se de outras formas. O mais famoso crítico do mundo de Baco, o advogado Robert Parker, coleciona histórias. Em 1986, Parker viajou para a Borgonha. Visitou o Domaine Fourrier, cuja maior parte das videiras é em Gevrey Chambertin, um dos vinhos preferidos de Napoleão. Experimentou os vinhos. Sugeriu a Jean-Claude Fourrier que utilizasse mais madeira em seus vinhos, para torná-los mais exuberantes. Foi convidado a se retirar da propriedade. “Meus vinhos, suas críticas”, relatou o filho de Fourrier ao podcast I´ll drink to that.

A vingança de Parker veio meses depois, em sua publicação aos assinantes: uma crítica afirmando que a vinícola tinha uma das adegas mais sujas da Borgonha e que nada de bom poderia sair de lá. O resultado? O mercado americano fechou as portas e safras inteiras ficaram encalhadas nas caves por anos.

A hostilidade nem sempre fica nas palavras. Segundo relato em O Imperador do Vinho, de Elin McCoy, em Bordeaux, o gerente do Château Cheval Blanc, Jacques Hébrard, assistiu impassível a seu cachorro atacar Robert Parker após uma avaliação desfavorável. Na publicação, Parker tinha qualificado a safra 1981 de uma das mais famosas propriedades da França como “decepcionante e medíocre”. Quando o crítico pediu um curativo para a perna, Hébrard entregou-lhe uma cópia do texto e vociferou: “foi isso que você escreveu!”.

Essa disputa de poder ocorre também entre os próprios críticos pela hegemonia do paladar. A safra 2003 foi marcada por um calor intenso na França. A canícula provocou problemas em diversas regiões vinícolas com uvas que perderam acidez em muitos casos. Em Bordeaux, o Château Pavie tinha passado por uma modernização radical. Tornou-se o marco zero de uma disputa de paladares entre os dois lados do oceano Atlântico.

Jancis Robinson, crítica do Financial Times, deu nota 12 de 20 pontos para o Pavie 2003, descrevendo-o como ridículo e excessivamente maduro por assemelhar-se não a um vinho seco, mas a um fortificado, tão poderoso que tinha perdido qualquer elegância. Dos Estados Unidos, Robert Parker reagiu classificando a avaliação de Robinson como um golpe maldoso. Parker sugeriu que Robinson era movida por preconceito britânico contra o estilo moderno da propriedade. Fizeram as pazes anos depois, mas os paladares continuaram distintos.

As polêmicas estão longe de ficarem concentradas na França. Antonio Galloni, que trabalhou com Parker antes de fundar o site Vinous, especializou-se em vinhos italianos. Suas notas determinam o preço de mercado. Em novembro de 2015, Galloni estava preparado para viajar para o Piemonte degustar barolos e barbarescos das safras dos dois anos anteriores. Pediu horário para visitar a vinícola Aldo Conterno, uma das mais tradicionais produtoras de Barolo. A resposta foi que eles não poderiam recebê-lo, pois estariam fora todo o mês. Mas Galloni disse que viu muitas pessoas visitarem a vinícola sem problemas. Respondeu aos assinantes. “Não é o meu primeiro rodeio.”

Comprou as garrafas em uma loja na Itália. Degustou os vinhos. Respondeu com notas baixas para os barolos 2013 de Aldo Conterno, reclamando do uso de madeira nos vinhos e disse que havia um punhado de outros produtores que poderiam oferecer vinhos excelentes a preços menores. Foi banido de visitar a vinícola, suspensão vigente até hoje. Ele continua comprando os vinhos em enotecas. Aumentou suas notas.

Fonte: https://www.wineberserkers.com/t/vinous-scoring-on-aldo-conterno-vendetta-or-reality/140779/63?page=4

Em outras artes, a hostilidade entre críticos e criadores também é histórica. A crítica de cinema Pauline Kael, que fez história na The New Yorker, colecionou cartas de ódio de alguns de seus resenhados. Ridley Scott disse que, depois de um comentário dela, nunca mais leu crítica nenhuma. David Lean afirmou que Kael o impediu de filmar por 14 anos. Nenhum deles conseguiu silenciá-la e nem arranhar sua credibilidade.

O cenário atual do mundo do vinho, porém, torna a independência um ativo raro. Com o Guia Michelin controlando a publicação fundada por Parker e a Vinous de Galloni lucrando com eventos de produtores que ela mesma avalia, a linha entre a crítica isenta e os negócios torna-se cada vez mais turva. Como no teatro de Autran, nas linhas de Kael ou nas adegas, a verdade às vezes aparece quando as cortinas se fecham ou a porta da vinícola se tranca.