A casa das negociações sem fim

31 de Outubro de 2026

Às vezes quando encontrava Mino Carta eu lhe perguntava sobre vinhos e de vez em quando a conversa chegava aos Estados Unidos e se havia algum rótulo de lá de que ele gostava. Mino torcia o nariz. Tinha especial predileção pelos vinhos franceses e italianos. Um produtor chamava sua atenção: Gaja. Era essa a razão pela qual frequentava o restaurante Massimo, que tinha um punhado de rótulos de Angelo Gaja no Piemonte.

Um dia mudei a pergunta. O que ele achava da Cabernet Sauvignon, dos vinhos italianos feitos com uvas internacionais, plantadas na Califórnia ou na França. Que ele achava dos vinhos que Gaja produzia na Toscana com castas francesas? Mino respondeu que em Bolgheri havia a influência do mar Tirreno. E havia o toque italiano.

A resposta guardava uma ironia. Mino gostava da comparação de Gaja: se a nebbiolo fosse ator, seria Marcello Mastroianni; a cabernet sauvignon, John Wayne. Lembrei-me dessas conversas numa degustação de nove safras do Camarcanda, principal tinto da Ca’Marcanda, realizada em São Paulo na última segunda-feira. A propriedade dos Gaja em Bolgheri, próximo à costa da Toscana, completa 30 anos em 2026. A primeira garrafa servida, da safra 2000, mostrou como um vinho pode sobreviver não apenas ao tempo, mas também às previsões de quem o avaliou.

Angelo Gaja já havia desafiado tradições muitos anos antes. Em 1978, plantou Cabernet Sauvignon num vinhedo de barbaresco, em pleno Piemonte, terra da Nebbiolo. Seu pai lamentou em dialeto piemontês: darmagi, que pena. O filho batizou o vinho com o lamento paterno. A primeira safra foi a de 1982.

Depois dos 50 anos, o pai vivia sua crise de meia idade e procurava alguma coisa diferente para fazer, diz o filho, Giovanni, que veio essa semana para o Brasil. Não se tratava de abandonar o Piemonte, mas de começar outra história. Em 1994, Angelo comprou a propriedade de Pieve Santa Restituta, em Montalcino, onde passou a produzir Brunello. Dois anos depois, chegou a um outro lado da Toscana, Bolgheri, conhecida por vinhos com uvas internacionais, como cabernet sauvignon e merlot. Nascido em 1940, já havia transformado a reputação de barbaresco, desafiado convenções locais e introduzido novas práticas de vinificação.

Em Bolgheri, enfrentou uma negociação que parecia não acabar. Angelo identificara, a partir de estudos de zoneamento, terrenos de argila e calcário ao pé de colinas onde pretendia plantar variedades francesas. Os proprietários relutavam em vender. Giovanni conta que o pai precisou fazer 19 viagens até concluir a compra, no fim de 1996. As ausências eram tantas que Lucia, sua mulher, chegou a perguntar se ele tinha arranjado uma amante na Toscana. Angelo estava apaixonado pela possibilidade de criar em um novo local. O nome escolhido para a propriedade, Ca’Marcanda, vem do dialeto piemontês e remete à casa das negociações intermináveis. Depois de tantas viagens, a barganha havia se tornado parte da identidade do lugar.

A primeira safra do vinho foi a de 2000. Reunia Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, variedades que haviam feito a reputação dos tintos de Bordeaux e, mais recentemente, de Bolgheri. Foram produzidas apenas 665 caixas. A Wine Advocate, publicação fundada por Robert Parker, deu-lhe 91 pontos em abril de 2004 e recomendava bebê-lo entre 2005 e 2016.

Pontos funcionam no basquete e no vôlei. No vinho, servem para alimentar rankings, organizar prateleiras e influenciar preços.  Muitas vezes, as notas envelhecem pior do que os vinhos. Foi o que sugeriu o Camarcanda 2000. O 2007, também servido na degustação, pertencia à fase em que o Merlot ainda integrava o corte. A variedade permaneceu até a safra 2013. Não houve Camarcanda em 2014 e, a partir de 2015, o vinho passou a ser elaborado com Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, hoje nas proporções de 80% e 20%.

Giovanni apresenta duas razões para a mudança. A primeira está no clima. O Merlot amadurece cedo, e os verões cada vez mais quentes de Bolgheri passaram a dificultar o equilíbrio que a família procurava. A segunda é uma escolha de estilo. Os Gaja queriam produzir um vinho mais “misterioso”, mais Marcello Mastroianni.

As mudanças não pararam nas uvas. A partir da safra 2021, o sobrenome Gaja desapareceu da frente do rótulo de Camarcanda. O nome da família, tão associado ao Piemonte, acabava ofuscando a identidade da propriedade toscana e o trabalho da equipe, uma decisão pouco habitual para quem construiu uma das marcas mais reconhecidas do vinho italiano.

Angelo parece não se incomodar com a passagem do tempo, desde que possa se antecipar a ela. Nascido em 1940, diz que está chegando aos 87 anos, idade que só completará em 2027. “Meu pai pensa no futuro até no aniversário próximo”, diz Giovanni, que conta que, nos últimos anos, o pai delegou mais responsabilidades aos três filhos, Gaia, Rossana e Giovanni. Mas continua acompanhando suas decisões.

Segundo o filho, Angelo mantém no computador um arquivo intitulado “Eu te disse”, no qual reúne escolhas equivocadas da família ao longo dos últimos vinte anos. A história, contada com humor por Giovanni, sugere que a transferência de responsabilidades não encerrou as discussões familiares.

Os filhos, por sua vez, continuam a procurar novos caminhos. Em Trezzo Tinella, nas terras mais altas das Langhe, a família construiu uma cantina dedicada aos vinhos brancos. O projeto começou em 2015, com a aquisição de cerca de 30 hectares, em terrenos que chegam a 750 metros de altitude, em busca de onde produzir brancos capazes de preservar a acidez e amadurecer lentamente num clima mais quente. Chardonnay e Sauvignon Blanc têm papel central, mas a família também experimenta Riesling, Timorasso, Pinot Bianco, Incrocio Manzoni e outras variedades.

Parte das uvas de Alta Langa já é utilizada em vinhos históricos da casa, como Alteni di Brassica e Rossj-Bass. O Gaia & Rey, Chardonnay criado por Angelo a partir de vinhedos plantados no fim dos anos 1970 e na década seguinte, continua associado às parcelas históricas de Treiso e Serralunga d’Alba. Giovanni contou que a próxima novidade de Alta Langa deve ser lançada em 2027: um branco elaborado com Pinot Bianco e Incrocio Manzoni. A produção inicial será de 13 mil garrafas. Ainda não decidiram se o vinho será comercializado também fora da Itália. Também não bateram o martelo sobre o nome a ser estampado no rótulo.

A passagem de Giovanni por São Paulo revelou outra paixão do pai, Angelo. Otavio Lilla, presidente da Mistral, que importa seus vinhos no país, enviou-lhe pelo filho uma caixa de mangas. Angelo sempre adorou a fruta, saboreando-a nos hotéis, almoços e jantares de suas vindas ao país, uma paixão que levou até mesmo a filha Gaia a tentar, em vão durante a pandemia, o envio postal da fruta rumo ao Piemonte.

Gostaria de saber o que Mino Carta diria do Camarcanda 2000, com seus 26 anos de idade e os aromas de evolução de uma bela garrafa. No Massimo, diante de uma carta repleta de Gajas, ele tinha certeza de que certas coisas não cabiam numa escala de cem pontos, mas deviam ser contempladas em silêncio.

O ônibus da Nutella que quase esvaziou Barolo

19 de Outubro de 2026

Nas colinas do Piemonte da década de 1980, alguns ônibus corporativos tinham apelido. Roberto Bruno, diretor comercial da Fontanafredda, lembra que os veículos que subiam as colinas para recolher os jovens dos vilarejos tinham a cor do Ferrero Rocher e que todos os chamavam de Super Crema. Desciam para Alba, para a fábrica de chocolate. Quem não embarcava neles pegava a estrada para Turim em direção às linhas de montagem da Fiat. “Ninguém queria ficar lá no Piemonte”, diz Bruno, que trabalha na região há quarenta anos e há 35 anos na vinícola histórica de Serralunga d’Alba, cujos rótulos são importados pelo Grupo Wine.

O apelido tinha origem. Supercrema era o nome do creme de avelã e cacau que a Ferrero lançou em 1949 e que, em 1964, passou a se chamar Nutella. A empresa criou o transporte gratuito para quem morava fora de Alba. Na memória de Bruno, o mesmo veículo levava os rapazes para longe das vinhas, que viviam uma crise histórica.

Em março de 1986, garrafas de vinho tinto com a uva Barbera e de branco saídas da cantina Ciravegna chegaram ao mercado com metanol acima do limite legal. O álcool metílico servia para alcançar o teor alcoólico mínimo a custo baixo. Segundo a revista Gambero Rosso, morreram 23 pessoas e 153 foram intoxicadas, com muitos passando meses em internações. Os responsáveis pela vinícola foram condenados à prisão. Durante meses, o Piemonte apareceu no noticiário estrangeiro ao lado da palavra veneno.

Depois do escândalo vieram as colheitas ruins. Choveu na hora errada. Os anos de 1991 e 1992 terminaram sob chuva em setembro quando era época de as uvas florescerem, 1993 repetiu o padrão no fim da colheita e, em 1994, a chuva prolongada comprometeu a maior parte da produção. Foram quatro anos seguidos de Barolo sem estrutura para envelhecer, vendido a quem ainda comprava. Foi nesse intervalo, conta Bruno, que ele pensou em largar o vinho e o cargo na Fontanafredda. “Será que não havia um outro trabalho e uma outra área para ganhar dinheiro?”

Diante de safras difíceis ou da busca por vinhos mais acessíveis e macios para o mercado global (especialmente os EUA e o Reino Unido), ressurgiram discussões naqueles anos sobre se a região deveria abrir margem para tolerar pequenas porcentagens de outras uvas (como a Barbera) para corrigir acidez ou amaciar taninos jovens, ou se o 100% Nebbiolo deveria ser rigidamente blindado. “Os produtores mantiveram as regras e isso se provou acertado, porque preservou a história.”

A propriedade onde ele está há 35 anos está ligada à história do vinho dos reis, como é chamado o Barolo, epíteto dado não à toa. Kerin O’Keefe reconstrói a origem no livro Barolo and Barbaresco (University of California Press, 2014). Carlo Alberto, rei da Sardenha, já fazia Barolo nas propriedades reais de Verduno e Pollenzo quando abdicou, em 1849. O filho, Vittorio Emanuele II, parava nas estrebarias de Fontanafredda para trocar de cavalo durante as caçadas. Decidiu plantar Nebbiolo ali e instalar na propriedade os dois filhos que teve com a amante, Rosa Vercellana, a Bela Rosin. Fundou a propriedade em 1858, começou a plantar em 1864 e registrou as terras em nome das crianças, Maria Vittoria e Emanuele Alberto. Um documento no Arquivo de Estado de Turim menciona um “Barolo 1865” e um “Nebiolo Barolo 1868”, com a uva grafada com um b a menos. Os trabalhadores recebiam em moedas de ouro e em mantimentos.

Em 1887, segundo O’Keefe, a vinícola abriu a adega ao público, antes de qualquer outro produtor da região. Ganharam medalhas de ouro em Bruxelas, em 1888, e em Berlim, em 1892. Em 1915 a propriedade empregava duzentos homens, cujas mulheres e filhos moravam ali. A propriedade construiu escola, igreja e um forno comunitário e custeava a previdência dos empregados.

A Primeira Guerra levou milhares de homens às trincheiras. A colheita ficou com as mulheres, as crianças e prisioneiros austríacos. O granizo de 1917 destruiu parte da safra. Houve mudanças no comanda da empresa logo depois do fim da guerra. Os novos donos demitiram a maioria dos trabalhadores e voltaram à mezzadria, a parceria agrícola que O’Keefe descreve como resquício feudal. Em 1930, a Fontanafredda quebrou. Dois anos depois, o banco Monte dei Paschi di Siena, credor da vinícola, assumiu o controle. Quando a Itália virou uma República, os bens da realeza foram confiscados. O banco, da Toscana, manteve seu controle sobre a vinícola.

Sob o banco, a vinícola passou a vinificar separadamente, a partir de 1964, os melhores crus de Barolo. Para comprar uva além da própria, recorria aos intermediários. como Bruno Giacosa, um dos mais famosos produtores de vinho da Itália. Roberto Bruno diz que Giacosa conhecia cada terreno daquelas colinas como poucos, levava a uva das famílias às vinícolas mesmo nos anos em que ninguém queria comprar e tinha os contatos que os pequenos produtores não tinham. Antes de assinar alguns dos Barolos e Barbarescos mais disputados do século, Giacosa mantinha o mercado de uva funcionando. Por isso é reverenciado até hoje por muitos.

Nos anos 1980, enquanto vizinhos transformavam vinhedo em rótulo próprio, a produção da Fontanafredda estagnou. Na década seguinte, o nome passou a ser sinônimo de vinho de gôndola de supermercado. Em 1996, segundo O’Keefe, os gestores do Monte dei Paschi admitiram que banqueiros não sabiam tocar uma fazenda e contrataram o agrônomo Giovanni Minetti para refazer vinhedo, adega e imagem. Vieram mudanças. A vinícola encampou o movimento de criar espumante de alta qualidade a partir das colinas, um segmento que tem crescido, segundo Roberto Bruno.

Em 2008, Oscar Farinetti, dono da Eataly, e o sócio Luca Baffigo compraram o controle num negócio que avaliou a propriedade em 90 milhões de euros, segundo a revista Wine Spectator. Hoje a empresa informa ter 120 hectares de vinhedos com certificação orgânica. “Vivi a realidade em que a gestão era quase estatal e depois da aquisição, são dois momentos bem diferentes, ali era engessado, hoje se ganhou flexibilidade”, diz Bruno, cuja rotina é marcada por cerca de 200 voos por ano. “Antes era dificílimo vender barolo ou os vinhos do piemonte, hoje a realidade é outra.”

Em 2016, a Vietti, tradicional vinícola de Castiglione Falletto, um dos 11 terroirs cujas uvas integram a denominação de Barolo, foi comprada por uma família dos Estados Unidos. O valor não foi divulgado. O jornal La Stampa falou em cerca de 55,6 milhões de dólares. Bruno diz que hoje seria muito mais. “Um hectare pode valer mais de 2 milhões de euros, grupos de luxo da França e outros países estão de olho.”

A reviravolta econômica reescreveu a paisagem humana: se antes havia êxodo rumo às linhas de montagem de chocolates ou carros, hoje se vive uma explosão turística que inverteu o fluxo migratório. A região passou a atrair profissionais do exterior e de outras partes do país para sustentar a cadeia enogastronômica, diz Bruno. A guinada reflete-se na infraestrutura erguida nas últimas décadas, com dezenas de hotéis boutique e uma densidade maior de alta cozinha — contando hoje com cerca de 15 restaurantes estrelados pelo Guia Michelin em um raio de apenas 20 quilômetros ao redor de Alba.

Um foco em Clos Apalta

12 de Outubro de 2026

Charles de Bournet Marnier Lapostolle tirou o celular do bolso no meio da conversa para mostrar uma foto. Na tela, um punhado de manchas coloridas dos 180 hectares de vinhedos que a família detém desde o início dos anos 1990, no vale de Colchagua, uma das principais regiões de vinhos do Chile. Cada mancha leva uma cor: verde seria a apelação regional, a mais baixa da Borgonha; village ganha a tonalidade amarela; premier cru, a laranja; grand cru, o melhor terreno para um vinho, a vermelha. Em plena encosta chilena, uma propriedade fundada por franceses foi dividida segundo o vocabulário da Borgonha, estruturado séculos atrás por monges e baseada em fatores como sol, terra, ventos, chuva, combinação que leva o nome de terroir, intraduzível.

“Desde a primeira safra, em 1997, fomos ganhando conhecimento das 200 parcelas que temos e cada uma delas vai resultando em um vinho do portfólio”, disse Charles, em entrevista nessa semana em São Paulo. O mapa decide de que parcela sai cada vinho da casa – o rótulo mais barato sai por cerca de 250 reais, o mais caro, mais de dois mil. As novas safras de Clos Apalta chegam pela @setwinesbr. A cada cinco anos, a equipe o revisa, porque o potencial de um pedaço de terra pode mudar.

Os pais de Charles, Alexandra Marnier Lapostolle e Cyril de Bournet, não conheciam o Chile quando viajaram para lá nos anos 1990. Alexandra descende da família que criou o conhaque Grand Marnier em 1880 e que, desde 1919, era dona do Château de Sancerre, no Loire. Segundo Charles, o casal se encantou com o campo chileno antes de pensar em vinho. Em 1994, compraram terras em Apalta com vinhas antigas. Uma delas, de Cabernet Sauvignon, mais tarde foi datada de 1907.

Para a primeira safra, a de 1997, contrataram Michel Rolland. Era chamado de “Mr. Merlot”. Rolland cresceu no Château Le Bon Pasteur, em Pomerol, entre vinhedos dominados pela uva. A ficha técnica de 1997, ainda publicada pela vinícola, registra 50% de Merlot, 45% de Carmenère e 5% de Cabernet. A nota de prova, assinada por Rolland em fevereiro de 1999. Mas os tempos e o clima eram outros.

Na safra 2013, a Merlot tinha caído para 7% do corte, e a Carmenère subido a 70%. A ficha da safra 2022, em fichas de importadoras dos Estados Unidos, haveria 10% de Merlot. Charles atribui a mudança ao aquecimento global: muitas plantas de Merlot, queimam com as temperaturas altas. “Os extremos são maiores hoje”, diz., descreveu Em entrevista ao site do crítico americano James Suckling, em 2024, Andrea León, diretora técnica da casa, disse que a chuva média anual em Apalta rondava 800 milímetros quando ela chegou à vinícola, em 2004. Hoje fica perto de 600 mm. Rolland morreu em 20 de março deste ano, aos 78 anos, de infarto. A própria Andrea León começou sob a orientação dele.

Charles chegou ao vinho por um desvio. Estudou microengenharia, mudou-se para o Chile para trabalhar numa consultoria de informática e criou uma marca de pisco antes de assumir a empresa da família, em 2013. Boa parte da produção da casa segue para os Estados Unidos, contou Charles. É lá que fica o dado mais incômodo para qualquer produtor de vinho caro.

Em agosto de 2025, o Gallup registrou que apenas 54% dos americanos dizem beber, o menor índice desde 1939, quando a pesquisa começou. Entre os adultos de 18 a 34 anos, metade bebe, e 66% consideram nocivo até o consumo moderado. Algumas vinícolas estão pensando em vender vinho sem álcool, na esteira do que fizeram algumas cervejarias. “Isso pode ser um nicho, mas vejo muitos artigos e estudos contraditórios que dizem o contrário. A indústria teve o impacto da pandemia, o que elevou o consumo, e depois outros desafios, como a política comercial dos Estados Unidos. O vinho faz parte da cultura milenar das pessoas.”

Ele fala que nos últimos dois anos tem havido aumento dos preços em restaurantes e as viagens voltaram aos orçamentos domésticos, depois da pandemia. Ou seja, o vinho tem outros rivais na hora dos gastos. Charles diz que as inovações não param. No ano passado, vinificou uma pequena parcela de sémillon de vinhas com quase cem anos, cerca de 600 garrafas. Ficaram todas com a família. A operação se repetiu na colheita deste ano, com uma produção maior. As vinhas foram adquiridas há quatro anos. Charles acha os resultados bons, mas não promete lançar ao mercado.

Ele diz que em 30 anos a família conseguiu posicionar seus vinhos entre os mais disputados do mundo. A história do futuro passará por mudanças, como as induzidas pelo aquecimento global, mas a empresa está buscando ampliar seu portfólio, por exemplo com vinhos à base das uvas Syrah e viognier, que fazem sucesso na região do Rhône, na França. “Um dos vinhos só foi lançado depois que as videiras tiveram 15 anos e deram bons resultados.”

O brinde de James Bond e as vinhas que desafiaram o tempo

9 de Outubro de 2026

Em Pauillac, na região de Bordeaux, uma menina guardava rótulos. O pai trabalhava no Château Mouton Rothschild, que desde 1945 encomenda a cada safra o desenho do rótulo a um artista. Miró, Chagall, Braque, Picasso e Francis Bacon passaram pela faixa de papel colada acima do nome do château. Morgane Renaud, diretora da Champagne Bollinger, colecionava essas folhas. Em Bordeaux, aprendeu cedo, o vinho também se lê pela etiqueta.

Depois veio a Millésima, empresa que compra e revende para o mundo os vinhos mais caros de Bordeaux. Veio então a vontade de trabalhar numa região menor e mais artesanal, nas palavras dela. Há dois anos e meio está em Aÿ, a vila da Champagne onde fica a Bollinger. Numa conversa de uma hora em São Paulo, em evento da importadora Mistral, contou onde estaciona o carro: ao lado de um dos dois vinhedos murados, os clos, de onde sai a Vieilles Vignes Françaises, o champanhe mais raro da casa.

O nome diz quase tudo: vinhas velhas francesas. Quase toda videira plantada hoje na Europa é uma planta montada. A parte de cima, que dá a uva, é europeia; a raiz é de origem americana. A troca foi imposta por um pulgão quase invisível a olho nu, a filoxera, que chegou à Inglaterra em 1863 com mudas trazidas da América e, na mesma década, apareceu no sul da França. O inseto vive na raiz, crava ali o sugador e provoca inchaços que matam a planta em poucos anos. As videiras americanas evoluíram ao lado dele e aguentam o ataque; as europeias, não. A saída foi enxertar a uva europeia sobre raiz americana.

Na Champagne, a praga foi identificada em agosto de 1890. Em 1911, os focos somavam 6.500 hectares, mais da metade das vinhas que ainda não tinham sido enxertadas. O replantio mudou a cara da região. Até ali, as videiras cresciam “en foule”, em multidão, sem fileiras, e se multiplicavam por mergulhia: o agricultor dobrava um ramo ainda preso à planta, enterrava-o, e dali nascia uma videira nova. O vinhedo replantado ganhou fileiras e arames, por onde passava um cavalo puxando o arado. Rendeu mais uva com menos trabalho. Na Bollinger, a troca por raízes americanas levou mais de vinte anos, segundo a casa.

Dois pedaços de terra ficaram de fora desse rearranjoSomam cerca de 3.100 metros quadrados, menos da metade de um campo de futebol. Ali as videiras seguem sobre as próprias raízes e plantadas como antes de 1890. A cada ano, os ramos que deram fruto são dobrados e enterrados, com três brotos de fora; no ano seguinte, sobem como plantas novas, descreveu o crítico britânico Jamie Goode, que visitou as parcelas. Cada planta nova é cópia da anterior, e a vinha se renova sem nunca ser arrancada. O resultado é um mato de cerca de 30 mil pés por hectare, contra uma média de 8 mil na região, segundo Tom Stevenson, na World of Fine Wine. Sem fileiras, não há por onde passar trator. A terra é trabalhada à mão, com ajuda de um cavalo. No relato de Goode, um hectare comum pede 500 horas de trabalho; as duas parcelas muradas, 1.500. Morgane admite que a produção é pequena: entre 700 e 2 mil garrafas por safra.

Ninguém sabe ao certo por que a filoxera poupou as duas parcelas. “É um mistério”, disse a Goode o viticultor da casa, Gilles Descortes. A Bollinger aposta nos muros, que “parecem proteger” as vinhas. Stevenson lembra que o inseto se dá mal em solo muito arenoso, mas o de Aÿ tem argila. Havia uma terceira parcela, a Croix-Rouge, de 16 ares. A filoxera apareceu ali em 1998, e 2004 foi a última safra em que suas uvas entraram na garrafa, segundo Stevenson. Morganne diz que a casa faz tudo para que as outras duas não sigam o mesmo caminho.

Na adega, o trabalho continua manual. O vinho fermenta em barricas velhas de carvalho, que chegam da Maison Chanson, em Beaune, na Borgonha, empresa do grupo, depois de quatro ou cinco anos de uso. As garrafas são giradas e abertas à mão para expulsar o depósito de leveduras e descansam anos antes de sair. Nada disso é invenção da Bollinger. Até 1890, era assim que se plantava em toda a Champagne. A fileira, o arame e o enxerto chegaram como remédio contra uma praga e ficaram como regra, porque rendiam mais. A casa mantém em 31 ares o que a região abandonou em milhares de hectares e paga por isso em horas de trabalho e em garrafas que não passam de 2 mil. O vinho de hoje, feito com técnicas de hoje, sai de uvas cultivadas como no tempo em que Jacques Bollinger fundou a casa.

A história de quase 200 anos traz outros trunfos. Repousam cerca de um milhão de garrafas magnums de reserva, garrafas de 1,5 litro com safras antigas. Morgane as compara ao tempero de um cozinheiro: entram em pequena dose na champagne de entrada da casa. Estima-se que algo de 5% a 10% da mistura.

A Bollinger se apresenta como a menor das grandes casas de Champagne e como a casa do Pinot Noir, a uva tinta que responde por 60% do Special Cuvée, seu champagne de entrada. A série PN, 100% Pinot Noir, põe no rótulo uma vila e um ano. A mesma uva tem na casa um endereço mais antigo. A Côte aux Enfants, encosta de 4 hectares junto a Aÿ, estava dividida entre mais de 50 donos quando Jacques Bollinger, neto do fundador e marido de Lily, começou a comprá-la. Reuniu as parcelas entre 1926 e 1934.

A encosta já foi chamada de “Côte aux Enfers”, a encosta do inferno, por ser muito íngreme; o nome atual viria das crianças, as únicas que subiam por ela sem esforço, segundo a revista World of Fine Wine. Do lado sul sai um tinto sem bolhas, feito à moda da Borgonha, com cachos inteiros, e engarrafado só nas safras que a casa considera excepcionais. Uma dose de 5% vai para o champanhe rosé safrado. Do lado noroeste, mais fresco, sai desde a safra 2012 um champanhe, lançado em 2022.

A casa é mais vinícola cuja história teve um capítulo central assinado por uma mulher. Elisabeth “Lily” Bollinger assumiu a casa com a morte do marido, Jacques, em 1941, e a dirigiu por três décadas. Em 1967, lançou ao mercado uma invenção sua: um champagne inovador envelhecido por anos sobre suas borras. Foi um grande sucesso. Normalmente, após a segunda fermentação em garrafa (que cria as bolhas), o Champagne permanece sobre as borras (leveduras mortas) por um período determinado – geralmente três anos para não-vintage, mais para vintage. Depois desse tempo, faz-se o dégorgement (desgorgamento): remove-se a borra, adiciona-se o licor de expedição e a garrafa é imediatamente comercializada. Lily Bollinger inverteu a lógica. O vinho permanece sobre as borras por muito mais tempo – às vezes uma década ou mais – desenvolvendo muito mais complexidade.

Nasceu a R.D., sigla de “recém-degolado”: champanhe que passa anos em contato com as leveduras e só tem o depósito retirado perto da venda. A primeira foi a safra 1952, lançada em 1967, segundo o crítico Charles Curtis, da Decanter. Dela saiu também a Vieilles Vignes Françaises, com a safra 1969. Morganne conta que Lily gostava de acompanhar seus champanhes com tournedos Rossini, medalhão de filé com foie gras e trufa. Em 1961, ao Daily Mail, deu a frase pela qual é lembrada: bebia champanhe quando estava feliz e quando estava triste, às vezes sozinha, e em companhia por obrigação; fora isso, nunca tocava nele, “a menos que estivesse com sede”.

A marca está também nos livros de Ian Fleming e nos filmes de 007. O vínculo formal veio de um encontro, em 1978, entre Christian Bizot, sobrinho de Lily, e o produtor Albert Broccoli. A Fortune registrou em 2019 que não houve dinheiro. Morgane acrescenta que também não houve contrato: foi um aperto de mãos. Em fevereiro de 2025, a Amazon, de Jeff Bezzos, assumiu o controle da franquia, antes da família Broccoli. O próximo filme terá direção de Denis Villeneuve e ainda não tem ator anunciado. A Bollinger, diz Morgane, negocia sua presença agora com os novos donos e espera, “como o mundo inteiro”, para ver o que vem.

O vinho e a guerra

20 de Setembro de 2026

A história da família Drouhin mostra a resistência de produtores de vinho ao nazismo e os desafios do mundo de hoje


Eram pouco antes das seis da manhã de 7 de junho de 1944, quando batidas fortes na porta de uma casa de Beaune fizeram todos os moradores acordarem. A família Drouhin não tinha dúvidas de que do lado de fora estavam oficiais nazistas. Os Drouhins tinham ouvido da possibilidade de uma prisão iminente.

Durante o período entre as guerras, como reservista do exército francês, Maurice tinha sido incumbido pelo governo francês de acompanhar delegações militares a Washington, com o intuito de persuadir os Estados Unidos a abandonar sua política de isolamento. Durante a segunda guerra mundial, realizava missões especiais periódicas e mantinha contato com amigos do exército norte-americano. Nunca revelou a natureza exata dessas missões aos filhos, mas encontrava-se frequentemente com o General Douglas MacArthur, principal comandante das forças dos Aliados na região do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

Esse histórico já havia custado caro. Em agosto de 1941, Maurice fora detido e levado para uma prisão nos arredores de Paris, onde permaneceria por seis meses até sua libertação, em 13 de fevereiro de 1942. O pretexto oficial das autoridades de ocupação fora a descoberta de um velho revólver enferrujado da Primeira Guerra Mundial esquecido em uma gaveta. A razão real, no entando, era o monitoramento ostensivo do serviço secreto alemão, que suspeitava de suas atividades contra o governo de Adolf Hitler.

Maurice Drouhin

Foi justamente atrás das grandes que a história da Borgonha quase tomou outro rumo. Durante uma das visitas da esposa, Pauline, à prisão em 1941, ela o informou de que metade (50%) do lendário Domaine de la Romanée-Conti fora colocada à venda. Sendo a Maison Joseph Drouhin a maior distribuidora dos vinhos daquela propriedade à época, abria-se a oportunidade histórica de adquiri-la. Maurice, contudo, temia que a compra de um ativo tão vistoso em plena ocupação atraísse ainda mais a atenção e o confisco por parte dos Weinvorsteher (os “barões do vinho” encarregados pelo Terceiro Reich de saquear as adegas francesas). Preferiu declinar, reconta Christophe Thomas, diretor de exportação dos vinhos da família Drouhin na Borgonha, presente em São Paulo essa semana em uma degustação dos vinhos, importados pela Mistral.

Quando a Gestapo voltou à sua porta naquela manhã de junho de 1944, Maurice sabia que não haveria uma segunda chance na prisão. Eles não tinham mais suspeitas. Agora a ordem era executá-lo. Sem hesitar, Maurice enfiou a mão debaixo da cama e agarrou uma maleta com roupas e objetos pessoais. Ele mantinha essa bolsa pronta havia dois anos — desde sua libertação em 1942, depois da primeira e até então única prisão. Achava que os alemães tentariam prendê-lo novamente devido às suas atividades na Resistência.

Sem tempo, apenas murmurou “eu te amo” para Pauline. Desceu silenciosamente a escada em direção à adega de vinho. Parte das cenas está descrita ainda mais em detalhes no livro Vinho e Guerra, de Don e Petie Kladstrup, Cia das Letras, e em uma entrevista do filho Robert ao podcast I´ll drink to That, de Levi Dalton.

Para ganhar tempo para o marido, Pauline abriu a janela. Viu vários oficiais da Gestapo acompanhados de soldados armados. Eles tinham descoberto que Maurice passava segredos para os aliados. Uma sentença de morte tinha sido expedida. Quando os oficiais ordenaram que abrisse a porta para falarem com Maurice, Pauline disse que o marido tinha ido para Paris a negócios. Não acreditaram. Ordenaram a abertura da porta. Vasculharam todos os cômodos, abrindo armários, revirando roupas, a cozinha, banheiros, os quartos e espiando debaixo das camas.

Enquanto os soldados reviravam a casa, guiado pela chama de uma vela, Maurice conseguiu escapar de seu quarto para as adegas da família Drouhin, um labirinto de quilômetros de passagens subterrâneas do século XIII. Movido pelo medo de ser executado, procurou freneticamente por uma portinha secreta de madeira escondida. Ao encontrar, girou a maçaneta e saiu para uma outra rua de Beaune, no coração da Borgonha. Olhou o nome da rua: paradis, em português “paraíso”. Morava na rua l´enfer, o inferno. Sorriu da ironia. Sem nenhum alemão à vista, desapareceu.

Viveu escondido quatro meses nos edifícios dos Hospices de Beaune até a libertação da cidade pelas tropas americanas em setembro de 1944, segundo recordou sua neta, Véronique Drouhin, em entrevista à revista inglesa Decanter. Nessa época, o Hospices de Beaune ainda funcionava como um hospital de caridade gerido por freiras católicas (a madre superiora não apenas concordou em abrigar Maurice, como também levava mensagens entre ele e sua esposa.) A ajuda delas fez com que, depois da guerra, Maurice doasse dois hectares de seus melhores vinhedos de Beaune ao Hospices, em agradecimento pelas freiras terem salvado sua vida.

A guerra está presente na vida dos Drouhins por outro episódio, diz o diretor de exportação da vinícola, Christophe Thomas. Na primeira guerra mundial, em uma trincheira, Maurice conheceu o Marquês de Laguiche, proprietário de um dos mais cobiçados e caros vinhedos do planeta vitis: Montrachet, o mesmo que a personagem de Grace Kelly oferece ao fotógrafo interpretado por James Stewart em Janela Indiscreta.

Ficaram amigos e anos depois selaram, com um aperto de mãos, um acordo que fez e faz os Drouhins terem o vinhedo para vinificarem um dos mais famosos brancos do mundo. O acordo de mão durou décadas. Virou formal há cinco anos. “Ouvimos que um grupo de luxo ia almoçar com eles e então resolvemos formalizar”, afirma Thomas.

Christophe Thomas, diretor de exportação

Os grupos de luxo, aliás, estão mudando a região, que desde o filme Sideways está no topo da lista entre enófilos do mundo. Recentemente, o grupo que detém a famosa champagne Louis Roederer, cujo rótulo mais famoso é a Cristal, acertou a compra da vinícola familiar Pierre Damoy, em uma transação avaliada por algumas revistas especializadas em 300 milhões de euros. “Os preços das terras na Borgonha estão nas alturas, não temos condições de comprar mais nenhum grand cru”, diz Thomas.

As mudanças climáticas também têm alterado a dinâmica. Em 2024, chuva, geada, tempo nublado fizeram a vinícola ter perdas de 90% de seus rótulos, uma perda maior que a média da região, de 75%. A redução na colheita não muda a visão da vinícola. “Nós estamos há anos em agricultura biodinâmica e isso é um norte, as raízes ficam mais profundas e permitem que tenhamos videiras mais sadias. Quem a pratica tem grama ao redor dos vinhedos, isso ajuda a ter plantas melhores”, diz.

O grupo foi um dos pioneiros ao investir na área no fim dos anos 1980, depois de um dos membros da família, que gostava de pescar, ter notado que havia poucas minhocas no solo de um dos vinhedos mais famosos da vinícola. A dificuldade em encontrar iscas para uma pescaria levou a investigar mais a fundo o que estava acontecendo, um pulo para iniciar estudos. “No início, alguns ficaram reticentes, mas depois, ao longo dos anos, se viu que era o futuro”, diz Thomas. O paladar do novo consumidor tem mudado também. Um exemplo é a procura crescente por vinhos brancos, com destaque para Chablis, onde a vinícola começou a investir há duas décadas, quando a onda de consumo ainda não tinha crescido.

Se nas décadas de 1940 e 1910 a continuidade da vinícola foi testada pela violência geopolítica e pelas arbitrariedades do Terceiro Reich, o século XXI impõe outros desafios: a inflação vertiginosa dos ativos alimentada por conglomerados globais de luxo e a volatilidade extrema de um clima em mutação.

O Oceano Atlântico na taça

4 de Setembro de 2026

A herança dos romanos e o clima particular posicionam os brancos da Galicia com destaque nas mesas


Os primeiros visitantes que pisaram na Galicia acharam que a região não se parecia com o que conheciam da Espanha. Para eles, a chuva abundante (média três vezes superior à do restante do país), seus litorais rochosos e colinas onduladas mais se assemelhavam a outros países mais próximos do Mar do Norte, como a Escócia. Foi em Baiona, nessa mesma costa, que a caravela Pinta atracou em 1º de março de 1493, sozinha, trazendo à Europa a primeira notícia de que a viagem de Cristovão Colombo à América tinha sido bem-sucedida e os espanhóis tinham descoberto uma outra terra além do Atlântico.

A história do cultivo de uvas é antiga em uma região hoje que ganha cada vez mais espaço nas mesas por conta do terroir de Rías Baixas e da uva albariño, com um punhado opções de qualidade preço importadas no Brasil. Um estudo de 2020 publicado no Australian Journal for Grape and Wine Research comparou sementes de uva de uma escavação romana na região com castas atuais e encontrou semelhança genética com o albariño moderno, um indício de que os romanos que anexaram a região como província 137 anos antes de Cristo já cultivavam alguma versão dela. Monges beneditinos plantaram vinhas ao longo do Caminho de Santiago a partir da Idade Média.

O Oceano Atlântico adentra o continente em estuários de múltiplos braços chamados rías em espanhol. A parte sul – rías baixas – batiza o nome da denominação principal de onde vêm os principais albariños hoje consumidos. O clima é particular: os maiores índices pluviométricos da Espanha, boa parte concentrada no inverno, convivem com pouco mais de duas mil horas de sol por ano, permitindo equilíbrio entre água e calor.

Para completar: uma amplitude térmica mínima entre verão e inverno, pouco mais de dez graus. Isso preserva a acidez que separa o albariño de qualquer branco produzido mais para o interior da Espanha. O solo é composto em boa parte de camada arenosa de cerca de vinte centímetros que drena a chuva torrencial em vez de encharcar a raiz, deixando a vinha se aprofundar. Os solos são ricos em minerais, o que confere vinhos com um toque mineral marcante, de uma forma não muito diferente do que ocorre em Chablis, hoje um campeão de vendas no Brasil. (A região também produz tintos interessantes, mas o foco aqui são os albariños).

Essas particularidades e o preço dos rótulos levaram Roberta Kuroda a visitar a região há cinco anos. Anos antes, ela tinha se apaixonado pelo mundo dos vinhos. Aos dezoito anos, numa palestra sobre harmonização, um chef serviu um prato de galinha-d’angola com molho de jabuticaba e um sommelier explicou por que aquele vinho tinto funcionava com aquele prato. Ela não tinha repertório nenhum. Achou aquilo, só, muito bonito. Foi fazendo cursos, degustações, organizando eventos, até que criou uma importadora, a Oinos, com grande parte do portfólio voltado para vinhos espanhóis, com destaque à região da Galicia. “A Espanha tem boa relação qualidade preço e tem uma oferta de vinhos mais fáceis de conseguir do que a França”, diz Roberta.

Quando organizou sua primeira visita à região, conseguiu uma rede de contatos.  Em uma visita a uma vinícola, o produtor disse que não tinha vinho, mas que seu amigo que era vizinho da propriedade tinha. Ela topava visitar? Ela tentava havia semanas falar com o dono da vinícola Albamar. Os e-mails não eram respondidos, o telefone não respondia. “Estou tentando falar com ele, mas ele sumiu.” O produtor discou ali mesmo. Em dias, firmou-se o contrato.

A cena se repetiu, com variações. Eulogio Pomares, da vinícola Zárate, é muito amigo de Manuel Méndez, da bodega Fulcro. “Eles não têm essa preocupação. Ah, ela vai gostar mais do vinho do meu amigo. Entendem que há espaço para estilos diferentes de albariño”, diz Roberta. Hoje, Zárate, Albamar e Fulcro são três vinícolas importadas pela Oinos, com alguns ótimos rótulos de brancos abaixo de 250 reais.

Antes mesmo que a burocracia internacional engrenasse, a virada qualitativa da região começou a ser desenhada em agosto de 1953, quando o advogado Bernardino Quintanilla apostou com o proprietário Ernesto Zárate — o mesmo sobrenome que hoje rotula a garrafa que a Oinos traz ao Brasil — que seu albariño venceria o do amigo numa prova cega. Nenhum dos dois ganhou: outro produtor levou o primeiro prêmio, mas os dois não abandonaram a disputa.

A revanche informal virou um concurso e depois uma festa popular, que segue viva setenta anos depois. O toque final foi dado pela burocracia: em 1988, sob pressão do ingresso da Espanha na Comunidade Europeia, os vinhos da região ganharam oficialmente o selo da denominação de origem Rías Baixas. O crescimento veio: os 237 hectares iniciais viraram mais de quatro mil. Chegaram nomes de peso: Vega Sicília lançará no próximo ano o Deiva em Rías Baixas, com produção inicial de 30 mil garrafas, uma incursão da mítica vinícola em seu primeiro branco espanhol.

No Brasil, outras importadoras têm rótulos da Galicia. A Wines4U traz os vinhos de Alberto Nanclares, outro bom produtor de qualidade preço.  Em fevereiro, dados da consultoria Ideal.BI apontam que brancos e espumantes somam 30% do mercado nacional de vinho, dez pontos a mais que em 2019. Apenas os vinhos de Chablis respondiam por um quarto de todo o vinho de Borgonha importado ao país, com alta de 56% em volume num único ano.

Dois documentários espanhóis, Albariño Rías Baixas: de la tradición al mundo e sua sequência El Despertar del Vino en Galicia, registraram o movimento de viticultores recuperando vinhas e castas que quase desapareceram no século passado. Há mineralidade além da França.

Como nasceu Anthony Bourdain

27 de Julho de 2026

Com estreia prevista para agosto, o filme ‘Tony’ revela as raízes de uma vida entre a precisão militar da cozinha e a atração pelo desastre


Em abril de 1999, Anthony Bourdain tinha 42 anos e era chef do Brasserie Les Halles, bistrô francês à moda antiga no coração de Nova York. Nas últimas semanas, tinha passado horas trabalhando em um texto. Escreveu, originalmente, para uma revista alternativa chamada New York Press, que havia pautado sua ideia como matéria de capa até o editor cancelar tudo de última hora. Como o texto estava feito, decidiu tentar outros meios.

Tinha imaginado que, se conseguisse um espaço para publicar, o público seria restrito e pequeno. “Pensei: vou escrever algo que vá entreter outros cozinheiros, talvez eu ganhe cem pratas e meu cozinheiro de fritura ache engraçado”, relembrou em 2017, durante uma participação no The New Yorker Festival. O artigo foi parar na The New Yorker, depois que a mãe de Bourdain sugeriu a uma colega do New York Times, Esther Fein, que o marido de Fein, David Remnick, o novo editor da revista, desse uma olhada. “Isso transformou minha vida em dois dias”, disse Bourdain no evento.

Para sua própria surpresa, a revista aceitou. O texto abre assim: “Boa comida, boa mesa, são sangue e vísceras, crueldade e decomposição.” É a primeira frase do texto, publicado on-line em 12 de abril e na edição impressa de 19 de abril de 1999. Mais adiante, Bourdain escreve que não se surpreendeu ao ouvir falar de um levantamento sobre a população carcerária americana segundo o qual a ocupação civil mais comum entre os detentos, antes da prisão, era “cozinheiro”.

Compara a gastronomia à “ciência da dor”. Explicou por que o peixe de segunda-feira, salvo honrosas exceções, está no restaurante desde sexta-feira, “sob Deus sabe que condições”. Descreve um ritual de cozinha quando um corte de carne sai malfeito, “duro, cheio de nervo e tecido conjuntivo, tirado da ponta do quadril, e talvez com um cheiro estranho de idade”. O cozinheiro pergunta ao chef o que fazer com aquilo. A resposta vem sempre igual: guardar para quem pede bem passado, porque “o filisteu que pede a carne bem passada dificilmente vai notar a diferença entre comida e destroço”.

Chama vegetarianos e veganos de inimigos de tudo que há de bom no espírito humano, numa comparação com facções político-religiosas que hoje talvez se tornasse impublicável em qualquer revista americana. Escreve que ser chef é muito parecido com o trabalho de controlador de tráfego aéreo: “você lida o tempo todo com a ameaça do desastre.”

O texto alçou o chef ao estrelato, fez Bourdain abandonar as caçarolas, se tornar autor de best seller, viajar o mundo inteiro, ser protagonista de séries de televisão premiadas. O sucesso do ensaio rendeu contrato de livro: “Cozinha Confidencial” vendeu mais de um milhão de cópias em brochura apenas nos Estados Unidos. Uma frase do próprio ensaio de 1999 já resumia o que ele descrevia como vocação: “nos Estados Unidos, a cozinha profissional é o último refúgio dos desajustados. É um lugar para gente com passado ruim encontrar uma nova família.”

No livro, a mesma disposição de espírito vira manifesto de viagem: “Será que realmente queremos viajar em papamóveis hermeticamente fechados pelas províncias rurais da França, do México e do Extremo Oriente, comendo só em Hard Rock Cafés e McDonald’s? (…) Eu quero tudo. Quero experimentar tudo uma vez.”

Bourdain morreu em 8 de junho de 2018, aos 61 anos, em um hotel de luxo na Alsácia, na França fronteira com a Alemanha, enquanto gravava um episódio sobre a região para sua série Parts Unknown, com o amigo e chef Eric Ripert. Suicídio por enforcamento.

Três anos depois, o documentário Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain, de Morgan Neville, chegou aos cinemas americanos em julho de 2021 (hoje está disponível na Amazon). Ganhou destaque na imprensa por uma cena em que Bordain lê em voz alta um e-mail escrito por ele. Amigos estranharam. Não havia gravação de Bourdain lendo aquele texto, porque ele nunca o leu em voz alta. Uma empresa de tecnologia recriou a voz dele por inteligência artificial para pronunciar três frases que ele só havia escrito. A ex-mulher e executora do espólio negou publicamente ter dado o aval ao diretor.

Em agosto de 2026, chega aos cinemas Tony, da A24, dirigido por Matt Johnson, com Dominic Sessa no papel de Bourdain aos dezenove anos, num verão de 1975 em Massachusetts. O material de imprensa descreve o jovem Bourdain sendo formado na cozinha por um personagem batizado Ciro, interpretado por Antonio Banderas.

Dominic Sessa, o ator escalado, não precisou aprender tudo do zero. Começou aos treze anos lavando louça em uma padaria em Nova Jersey. A proprietária, Cathy Greene, foi ensinando aos poucos misturar a massa, cortar, fritar, cobrir, até chegar a croissants. Numa entrevista recente à jornalista Laurie Woolever, publicada na Bon Appétit, Sessa contou um erro que até hoje não esqueceu: errou a quantidade de massa numa fornada e jogou o excesso nas latas de lixo do lado de fora para esconder o erro. A massa continuou crescendo, explodiu as latas, até que mentira ficou impossível ser escondida.

“Eu teria ficado muito menos desapontada se você tivesse me contado. A gente teria resolvido o problema. Agora minhas latas de lixo estão destruídas”, disse a proprietária, segundo o relato dele. A lição que ficou, nas palavras de Sessa foi que errar fazia parte do trabalho, contanto que ele não mentisse quando erros acontecessem. Seria a mesma tensão entre erro e mentira que o roteiro de Tony atribui ao jovem Bourdain, que passa boa parte do filme enganando família, chefe e interesse amoroso sobre as próprias habilidades. A jornalista da entrevista com o ator é coautora de Volta ao Mundo: Um Guia Irreverente, último livro de Bourdain.

Antes de embarcar para as filmagens no verão de 2025, Sessa treinou em um bistrô em Nova York. Aprendeu a abrir ostras e o ritmo de uma cozinha em serviço. “Numa padaria, você faz tudo e depois põe na vitrine. O ritmo é bem diferente num restaurante”, disse. Sobre o personagem, falou: “As pessoas esquecem que o Tony era um profissional calculista. Você quer vê-lo como esse cara rebelde, bebendo, fumando, rodando o mundo, mas no fim das contas ele geria cozinhas de restaurante com muita eficiência, o que é extremamente difícil de fazer. (…) Essa é a dicotomia da vida dele. É caos e controle ao mesmo tempo.”

Ao saber de sua morte, em junho de 2018, o ex-presidente americano Barack Obama — que dividira uma refeição com Bourdain em um célebre episódio gravado no Vietnã, em 2016 — publicou em suas redes. “Banquinho de plástico baixo, macarrão barato, mas delicioso, cerveja gelada de Hanói. É assim que vou lembrar do Tony.”

Vinho sem segredo edição digital

14 de Junho de 2026

@vinhosemsegredo ganhou mais uma plataforma: uma revista eletrônica, nascida da provocação de um discreto amigo do mundo do vinho que confessou sentir falta de ler artigos com mais fôlego e profundidade. Com o braço técnico do Claude na diagramação e a generosidade dos amigos que emprestaram suas mentes para textos, a publicação ganhou vida.

Pode ser acessada clicando-se aqui: https://vinhosemsegredo.com/revista-digital-vinho-sem-segredo/

Será periódica? Não sei. Depende do tempo e, obviamente, do interesse de quem se aventurar por estas páginas. Por que não é paga? Sinceramente, porque se o fundador do Vinho Sem Segredo, Nelson Luiz Pereira, com toda a sua generosidade e vasto conhecimento, manteve um espaço gratuito por anos, quem sou eu para cobrar o que quer que seja? Se o leitor fizer questão de abrir a carteira, que gaste com as assinaturas de John Gilman, Jasper Morris e companhia.

Na edição, degustação de vinhos 2022 de Keller, villages tintos 2021 da Borgonha, os cinco produtores de Gevrey Clos Saint Jacques, as champagnes de David Léclapart, Bruno Giacosa em um 1995 no ápice, Mugnier e Glenn Gould, Vinicius de Moraes e coleções.

Se esta edição for filha única, que fique como o registro de uma bela conversa de mesa. Como ninguém é mais otimista que alguém que tem adega e espera sobreviver às garrafas estocadas, se for a primeira de muitas, que seja um brinde ao inesperado.