O visionário de Abruzzo

3 de Agosto de 2026

Como Emidio Pepe enfrentou a indústria, antecipou a onda dos vinhos naturais e provou que o tempo era o maior aliado das uvas de sua terra


No início dos anos 1970, Emidio Pepe embarcou para os Estados Unidos com garrafas suas em uma mala e uma missão: apresentar ao mercado americano a revolução que iniciara quase uma década antes em Abruzzo. Encravada entre o Adriático e os Apeninos, a leste de Roma, a região permanecia à margem da atenção de críticos e enófilos. Na bagagem, Pepe levava garrafas do seu próprio tinto, elaborado com a uva local Montepulciano, uma casta à época desdenhada, tida por muitos como medíocre até para o preparo de molhos. Mas ele estava decidido a provar o contrário.

A virada de chave começara em 1964, quando fundou a vinícola que leva seu sobrenome. Ao assumir os vinhedos cultivados por seu pai para a venda de vinho a granel, Pepe rompeu com o padrão vigente. À época, os produtores locais destinavam suas colheitas a grandes cooperativas ou ao autoconsumo familiar, prática que seus antepassados mantiveram desde 1899. Onde o mercado enxergava apenas volume a granel, Pepe vislumbrava outra coisa: fazer história. Estava convicto de que tanto seus vinhos brancos e tintos guardavam potencial de guarda. A confiança era tanta que reservou para isso uma parte importante de espaço na adega para reservar cerca de 50% de produção para ser lançada ao longo dos anos.

Era essa a razão pela qual que ele estava nos Estados Unidos. Uma garrafa foi parar na mesa de Lidia Bastianich, apresentadora premiada de televisão americana e autora de livros de culinária. Lidia gostou tanto que comprou o restante do que Emidio tinha trazido na mala para servir na abertura de seu restaurante, o Felidia, em Manhattan. Na inauguração do endereço, sentou-se à mesa e bebeu uma garrafa do Montepulciano.  Centenas de pedidos chegaram à vinícola quando os jornais americanos estamparam as fotografias do evento. Nunca mais a família parou de viajar. A vinícola se tornou tão reputada no exterior como a de Angelo Gaja ou de Biondi Santi.

Emidio Pepe, que faleceu em 28 de julho, aos 94 anos, é um dos personagens icônicos da história moderna do vinho italiano, tendo escrito páginas de Abruzzo, uma região sem a reputação por exemplo do Piemonte, cujos vinhos sempre estiveram presentes entre nobres e a Casa de Savoia desde a unificação no século XIX. “Meu avô foi o primeiro a engarrafar na região, para mostrar às pessoas que a Montepulciano tem potencial de guarda. Até o pai dele achava que ele era louco”, recordou-se a neta Chiara em almoço em São Paulo há alguns anos. Os vinhos da vinícola voltam a ser importados no Brasil nesse segundo semestre pela importadora Clarets.

Chiara Pepe, que assumiu o comando da vinícola na safra 2020 e agora em 2026 irá também comandar um dos mais famosos vinhos do planeta (La Chapelle, em Hermitage, na França), contou que o avô ficou feliz quando ela assumiu a vinícola, também uma das precursoras da biodinâmica. “Ele ficou orgulhoso e foi o primeiro a beber o que eu vinifiquei.”

Desde sua infância, Chiara viu seu avô trabalhar nas videiras e na cantina. Foi para a França estudar enologia e fez um estágio de um ano na Borgonha, no domaine Chandon de Briailles. Quando assumiu, manteve tradições. Desde 1964, não se usam defensivos para tratar os vinhedos. Primeiro, porque não existiam naquela época, segundo porque poderiam trazer algum impacto para os vinhos. Não se usa madeira. Os vinhos são envelhecidos em grandes toneis de cimento com leveduras naturais e vendidos quando a família julga estarem prontos para serem bebidos. As uvas são colhidas à mão e pisadas em um grande tonel de madeira. Eles começaram fazendo vinhos naturais décadas antes de o termo, em voga hoje, ter nascido.  

“Quando assumi, foi uma questão de manter a história do meu avô. Não fazemos nem faremos concessões para o mercado.” Emidio foi um dos primeiros a construir um espaço para envelhecer seus vinhos por longos períodos em garrafas antes do lançamento. A vinícola conta com uma adega com capacidade para envelhecer 350.000 garrafas. Há 50 anos, Montelpuciano era um vinho para ser bebido jovem, o governo encorajava cada vinícola a produzir centenas de milhares de garrafas para serem vendidas. “Meu avô ficou furioso e por isso decidiu apostar em outra direção e ir para os Estados Unidos ver se entendiam sua filosofia, que sempre foi natural.”

Assim como Pepe fez história e ajudou a posicionar regiões menos conhecidas nos holofotes, outro nome importante da história do vinho na Itália foi o crítico Luigi Veronelli, que foi amigo de Mino Carta. Em 2017, um evento foi feito nos Estados Unidos para homenagear Veronelli, morto em 2004. Emidio Pepe levou na mala um tinto 1975, mas pediu que a neta (e tradutora) Chiara não falasse do vinho aos presentes, mas do respeito que ele tinha pelo crítico.  Disse que ao longo dos anos teve vários desentendimentos com Veronelli, mas que Veronelli tinha sido um importante defensor dos pequenos produtores e do artesanato no vinho.

Um dos mantras do crítico era: “Quanto menor a propriedade, quanto menor o vinhedo, mais perfeito o vinho; é fácil demais esquecer os pequenos produtores, e isso é uma grande injustiça”. A influência de Veronelli foi sentida no Piemonte. Quando viajava à região, defendia que cada produtor buscasse engarrafar terrenos específicos e mostrar isso nos rótulos, como os franceses faziam havia séculos.

Ao rejeitarem a padronização industrial, Veronelli e Emidio ajudaram a redefinir o próprio status do vinho italiano contemporâneo. A herança de Pepe segue viva por vários vinhedos do sul ao norte do país: o valor de um grande vinho não se mede pela escala, mas pela fidelidade ao terroir, pelo rigor do trabalho manual e pelo tempo necessário para atingir a plenitude, mesmo que a ansiedade hoje seja crescente e que conglomerados industriais estejam cada vez mais de olho nesse nicho.

Como nasceu Anthony Bourdain

27 de Julho de 2026

Com estreia prevista para agosto, o filme ‘Tony’ revela as raízes de uma vida entre a precisão militar da cozinha e a atração pelo desastre


Em abril de 1999, Anthony Bourdain tinha 42 anos e era chef do Brasserie Les Halles, bistrô francês à moda antiga no coração de Nova York. Nas últimas semanas, tinha passado horas trabalhando em um texto. Escreveu, originalmente, para uma revista alternativa chamada New York Press, que havia pautado sua ideia como matéria de capa até o editor cancelar tudo de última hora. Como o texto estava feito, decidiu tentar outros meios.

Tinha imaginado que, se conseguisse um espaço para publicar, o público seria restrito e pequeno. “Pensei: vou escrever algo que vá entreter outros cozinheiros, talvez eu ganhe cem pratas e meu cozinheiro de fritura ache engraçado”, relembrou em 2017, durante uma participação no The New Yorker Festival. O artigo foi parar na The New Yorker, depois que a mãe de Bourdain sugeriu a uma colega do New York Times, Esther Fein, que o marido de Fein, David Remnick, o novo editor da revista, desse uma olhada. “Isso transformou minha vida em dois dias”, disse Bourdain no evento.

Para sua própria surpresa, a revista aceitou. O texto abre assim: “Boa comida, boa mesa, são sangue e vísceras, crueldade e decomposição.” É a primeira frase do texto, publicado on-line em 12 de abril e na edição impressa de 19 de abril de 1999. Mais adiante, Bourdain escreve que não se surpreendeu ao ouvir falar de um levantamento sobre a população carcerária americana segundo o qual a ocupação civil mais comum entre os detentos, antes da prisão, era “cozinheiro”.

Compara a gastronomia à “ciência da dor”. Explicou por que o peixe de segunda-feira, salvo honrosas exceções, está no restaurante desde sexta-feira, “sob Deus sabe que condições”. Descreve um ritual de cozinha quando um corte de carne sai malfeito, “duro, cheio de nervo e tecido conjuntivo, tirado da ponta do quadril, e talvez com um cheiro estranho de idade”. O cozinheiro pergunta ao chef o que fazer com aquilo. A resposta vem sempre igual: guardar para quem pede bem passado, porque “o filisteu que pede a carne bem passada dificilmente vai notar a diferença entre comida e destroço”.

Chama vegetarianos e veganos de inimigos de tudo que há de bom no espírito humano, numa comparação com facções político-religiosas que hoje talvez se tornasse impublicável em qualquer revista americana. Escreve que ser chef é muito parecido com o trabalho de controlador de tráfego aéreo: “você lida o tempo todo com a ameaça do desastre.”

O texto alçou o chef ao estrelato, fez Bourdain abandonar as caçarolas, se tornar autor de best seller, viajar o mundo inteiro, ser protagonista de séries de televisão premiadas. O sucesso do ensaio rendeu contrato de livro: “Cozinha Confidencial” vendeu mais de um milhão de cópias em brochura apenas nos Estados Unidos. Uma frase do próprio ensaio de 1999 já resumia o que ele descrevia como vocação: “nos Estados Unidos, a cozinha profissional é o último refúgio dos desajustados. É um lugar para gente com passado ruim encontrar uma nova família.”

No livro, a mesma disposição de espírito vira manifesto de viagem: “Será que realmente queremos viajar em papamóveis hermeticamente fechados pelas províncias rurais da França, do México e do Extremo Oriente, comendo só em Hard Rock Cafés e McDonald’s? (…) Eu quero tudo. Quero experimentar tudo uma vez.”

Bourdain morreu em 8 de junho de 2018, aos 61 anos, em um hotel de luxo na Alsácia, na França fronteira com a Alemanha, enquanto gravava um episódio sobre a região para sua série Parts Unknown, com o amigo e chef Eric Ripert. Suicídio por enforcamento.

Três anos depois, o documentário Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain, de Morgan Neville, chegou aos cinemas americanos em julho de 2021 (hoje está disponível na Amazon). Ganhou destaque na imprensa por uma cena em que Bordain lê em voz alta um e-mail escrito por ele. Amigos estranharam. Não havia gravação de Bourdain lendo aquele texto, porque ele nunca o leu em voz alta. Uma empresa de tecnologia recriou a voz dele por inteligência artificial para pronunciar três frases que ele só havia escrito. A ex-mulher e executora do espólio negou publicamente ter dado o aval ao diretor.

Em agosto de 2026, chega aos cinemas Tony, da A24, dirigido por Matt Johnson, com Dominic Sessa no papel de Bourdain aos dezenove anos, num verão de 1975 em Massachusetts. O material de imprensa descreve o jovem Bourdain sendo formado na cozinha por um personagem batizado Ciro, interpretado por Antonio Banderas.

Dominic Sessa, o ator escalado, não precisou aprender tudo do zero. Começou aos treze anos lavando louça em uma padaria em Nova Jersey. A proprietária, Cathy Greene, foi ensinando aos poucos misturar a massa, cortar, fritar, cobrir, até chegar a croissants. Numa entrevista recente à jornalista Laurie Woolever, publicada na Bon Appétit, Sessa contou um erro que até hoje não esqueceu: errou a quantidade de massa numa fornada e jogou o excesso nas latas de lixo do lado de fora para esconder o erro. A massa continuou crescendo, explodiu as latas, até que mentira ficou impossível ser escondida.

“Eu teria ficado muito menos desapontada se você tivesse me contado. A gente teria resolvido o problema. Agora minhas latas de lixo estão destruídas”, disse a proprietária, segundo o relato dele. A lição que ficou, nas palavras de Sessa foi que errar fazia parte do trabalho, contanto que ele não mentisse quando erros acontecessem. Seria a mesma tensão entre erro e mentira que o roteiro de Tony atribui ao jovem Bourdain, que passa boa parte do filme enganando família, chefe e interesse amoroso sobre as próprias habilidades. A jornalista da entrevista com o ator é coautora de Volta ao Mundo: Um Guia Irreverente, último livro de Bourdain.

Antes de embarcar para as filmagens no verão de 2025, Sessa treinou em um bistrô em Nova York. Aprendeu a abrir ostras e o ritmo de uma cozinha em serviço. “Numa padaria, você faz tudo e depois põe na vitrine. O ritmo é bem diferente num restaurante”, disse. Sobre o personagem, falou: “As pessoas esquecem que o Tony era um profissional calculista. Você quer vê-lo como esse cara rebelde, bebendo, fumando, rodando o mundo, mas no fim das contas ele geria cozinhas de restaurante com muita eficiência, o que é extremamente difícil de fazer. (…) Essa é a dicotomia da vida dele. É caos e controle ao mesmo tempo.”

Ao saber de sua morte, em junho de 2018, o ex-presidente americano Barack Obama — que dividira uma refeição com Bourdain em um célebre episódio gravado no Vietnã, em 2016 — publicou em suas redes. “Banquinho de plástico baixo, macarrão barato, mas delicioso, cerveja gelada de Hanói. É assim que vou lembrar do Tony.”

Estrelas, uvas e faturamento: o Michelin quer engarrafar o terroir

20 de Julho de 2026

Em busca de receitas e relevância cultural, o guia francês transforma vinhedos históricos em selos corporativos, mas esbarra na resistência dos velhos artesãos da ter


Depois de dar notas para restaurantes e hotéis, o Guia Michelin chegou ao mundo dos vinhos. Em vez de estrelas, concede uvas para vinícolas (uma, duas ou três), com a mesma lógica que aplica às mesas e hospedagens. Uma estrela vale a parada; duas, um desvio; três, “uma viagem especial”.

O lançamento foi feito no Palácio dos Duques da Borgonha, em Dijon, na terça-feira 7 de julho, com o anúncio de cerca de 100 produtores da terra do pinot noir. Bordeaux, anunciada junto com a Borgonha em dezembro passado como a segunda região a receber o tratamento, ainda espera sua vez.

Não deixou de ser emblemática a escolha da primeira classificação enológica. Primeiro, desde o filme Sideways e da série Drops of God, a região tem ganho mesas do mundo todo, o que tem feito os preços subirem a cada safra. Segundo: a geração Z tem bebido menos, mas quando abre uma garrafa busca algo especial. Terceiro: hoje buscam-se cada vez mais vinhos menos alcóolicos e potentes.

O lançamento foi cercado de polêmicas, como de praxe em qualquer lista. Um produtor que recebeu uma estrela da publicação anunciou pelas redes sociais que estava encaminhando uma carta para a publicação pedindo sua retirada da classificação e ainda questionou os critérios, já que desde a safra 2020 não mais abre suas portas para receber a imprensa. Muitos produtores estão preocupados que a distinção aumente a demanda, em uma região que tem dificuldade para atender os pedidos atuais. Ou seja, o guia aumentaria os preços ainda mais.

O guia Michelin é uma fatia minúscula do faturamento de € 28 bilhões da Michelin, mas seu peso cultural é desproporcional. Ele empresta à fabricante de pneus a aura de excelência e confiabilidade. No fim dos anos 2000, a Michelin ingressou na área de vinhos adquirindo participação no Robert Parker Wine Advocate, a publicação do mais famoso crítico do mundo, responsável por popularizar a escala de 100 pontos que dita os preços globais.

No fim do ano passado, questionado sobre qual a política que o guia adotará, já que detém a publicação de Robert Parker, Lorent Menegaux, CEO do Grupo Michelin, foi pragmático ao declarar à La Revue du vin de France que “a marca Michelin é muito mais forte que a marca Wine Advocate”. Segundo ele, a intenção não era substituir a crítica técnica de Parker, mas criar um selo de aprovação corporativo, mais amplo e comercialmente poderoso.

Ao lançar seu próprio selo para as propriedades, o grupo consolida-se não apenas como árbitro do gosto, mas busca mais. Estudo do grupo JFC estima que restaurantes estrelados rendam 438 milhões de euros em gastos indiretos anuais só na Itália. Ganhar uma estrela pode aumentar a receita de um restaurante entre 20% e 100%. O vinho é uma parte importante da receita desses restaurantes.

Mas o que uma estrela Michelin mede, de fato, num restaurante? Um artigo de Dohyung Bang, Kyuwan Choi e Alex Jiyoung Kim, publicado em 2022 no International Journal of Contemporary Hospitality Management, comparou 160 mil avaliações do OpenTable em 218 restaurantes — 109 recém-premiados com estrela, 109 sem estrela — antes e depois da láurea. O resultado: a estrela eleva a percepção hedônica, o valor social e a nota de serviço. Não eleva, de forma estatisticamente significativa, o valor econômico percebido, a nota de comida ou a nota de ambiente. Os autores concluem que a estrela funciona como ferramenta de marketing emocional, não como certificado de qualidade funcional.

Para entender por que o Michelin decidiu, em 2026, dizer ao mundo quais são os melhores vinhedos da Borgonha, talvez seja preciso voltar a 2011. Naquele ano, segundo reportagem do Financial Times, o Guide Michelin perdia dinheiro anualmente. A consultoria Accenture, contratada para avaliar alternativas, recomendou mudança rápida sob risco de o Guide virar peça de museu. A resposta foi comercial: a partir de 2017, órgãos de turismo passaram a pagar para trazer inspetores do guia a seus territórios — a Tailândia pagou US$ 4 milhões por cinco anos, a Califórnia US$ 600 mil. A edição 2026 do guia de restaurantes na Argentina não teve festa. O governo de Javier Milei decidiu interromper o financiamento da publicação, estimado em cerca de US$ 400 mil.

O pano de fundo mostra uma indústria em xeque. As projeções indicam que o mercado global terá recuado cerca de 2% em 2025, o que configuraria a quarta queda anual consecutiva e levaria o consumo ao menor nível desde 1961. A consultoria Moore Global, estima o mercado global em US$ 347,1 bilhões em receita para 2025, com 23,3 bilhões de litros vendidos a um preço médio de US$ 14,89 o litro, e aponta deslocamento para vinhos premium e super-premium em meio à queda de volume. A consultoria KPMG atribui parte da queda à geração mais jovem, que troca tinto encorpado por vinhos mais leves.

Na cerimônia de premiação, o porta voz do guia disse que a seleção de vinícolas provava que “a excelência não se define apenas pelo prestígio de um nome”. A frase soa a elogio às propriedades menos conhecidas que entraram e cujos preços já sofreram alta.

Uma das figuras mais famosas da Borgonha foi Pierre Ramonet, um dos produtores mais reputados de brancos. Na distinção do Michelin, o guia concedeu apenas menção à propriedade. Suas histórias saborosas recheariam livros. Uma das melhores, contada em detalhes por Clive Coates em um de seus livros sobre a Borgonha, se passou em 1978, quando Ramonet, com seu pulover, calça baggy e boina, entrou no escritório de um advogado em Beaune.

Estava no escritório do advogado porque as famílias Milan e Mathey-Blanchet tinham decidido vender suas parcelas em Le Montrachet, o mais cobiçado terroir de chardonnay do mundo, com uvas do lado de Puligny-Montrachet suficientes para quatro barris e meio de vinho. Mal se sentou à cadeira. Começou a tirar notas dos bolsos e deixou o dinheiro em cima da mesa. “Acho que está tudo aí.”

Era um homem da terra. Não gostava de formalidades, de falar ao telefone, nem de escrever cartas. Nunca enviava amostras de seus vinhos aos críticos. A razão era simples: nunca viu os irmãos Troisgros, Paul Bocuse ou qualquer chef estrelado do Michelin mandar quentinhas para os críticos dos guias. Se alguém quisesse beber seus vinhos, que fosse a Chassagne. Era ali que a terra e as mãos produziam o vinho.

Se o mercado global de vinhos encolhe e a Geração Z busca menos volume e mais verdade, talvez o futuro não dependa de inspetores, mas de produtores que não precisam de holofotes.

A cápsula cortada

6 de Julho de 2026

Como o mercado de leilões e a especulação pós-morte transformam vinhos raros em ativos financeiros imunes ao teste da taça


Em 29 de junho, às 11h06 pelo horário de Londres, encerrou-se o leilão do lote 251 da casa britânica Sotheby’s: uma garrafa Magnum (dobro do tamanho normal) de Vosne-Romanée Cros Parantoux 1978, de Henri Jayer. O catálogo descreve a garrafa em minúcias e como a autenticidade teria sido checada: o líquido está a 4,3 centímetros abaixo da base da rolha, a etiqueta mostra dano leve, a cápsula que recobre a rolha foi “cortada e rasgada durante o processo de autenticação para revelar uma rolha marcada com a safra, mantida no lugar com fita adesiva transparente”.

A estimativa dos lances variava de 40 mil a 55 mil libras (entre 300 mil reais a R$ 400 mil reais — por uma garrafa. O preço do lance vitorioso ou se houve disputa pela garrafa não aparecem no site: para vê-lo, é preciso ter conta na casa de leilões para ter participado.

A garrafa tem biografia. Saiu de um leilão em Hong Kong, em junho de 2018; passou pela adega de um colecionador, foi revendida em Hong Kong em outubro de 2021; teve a autenticação confirmada em abril de 2025; e agora reapareceu. Em novembro de 2024, dez garrafas do mesmo vinho, mas na safra 1999, saídas da adega do mesmo colecionador, somaram 219.160 euros, pouco mais de um milhão de reais.

Henri Jayer morreu em 20 de setembro de 2006 na Borgonha – seus vinhos passaram então a ser vinificados pelo sobrinho. O nome e a data são usadas pelas casas de leilão e pelos colecionadores para explicar por que garrafas podem custar o preço de um imóvel. A lógica é simples: o viticultor morreu, não fará mais vinho, o que existe é o que está na adega, o preço sobe. Cada vez mais a equação tem sido usada.

Henri Jayer moldou a identidade moderna da Borgonha ao inverter a lógica de grande produção do pós-guerra por meio de uma produção focada em rendimentos mínimos por videira e na rejeição de fertilizantes sintéticos. Sua capacidade de leitura da terra fixou-se em Cros Parantoux, um “jardim” de apenas 1,01 hectare pedregoso e negligenciado, que hoje se tornou um dos mais caros vinhedos do mundo.

Jayer replantou os vinhedos durante a Segunda Guerra Mundial. “É um vinhedo ingrato. É preciso usar explosivos para abrir um buraco e plantar uma videira de reposição”, relatou Henri Jayer em um livro. Ele também observou que durante a guerra eram plantadas alcachofras de jerusalém. Hoje, seu sobrinho e outra propriedade vinificam ali.

No Rhône, Noël Verset virou referência além dos críticos. Permaneceu na região de Cornas, quando a crise econômica e os empregos em fábricas levaram os agricultores a abandonar a atividade. Trabalhando por 75 anos na área, manteve a produção ativa por meio de métodos tradicionais buscando sempre engarrafar o melhor. Sem herdeiros para o negócio, Verset vendeu suas terras gradualmente para outros produtores da região, o que impediu o desaparecimento dos vinhedos e garantiu a continuidade da atividade agrícola local.

Sua última safra comercial foi a de 2000; seguiu fazendo vinho para a família até 2006. Entre a última garrafa e o obituário há nove anos. O “vinho camponês” de Verset chegou a ser vendido a cerca de 500 dólares a garrafa — e isso enquanto ele ainda vivia, confinado num asilo, sem tocar numa videira havia mais de uma década. As garrafas existentes, sob seus cuidados, são vendidas hoje em milhares de euros.

Em 17 de setembro de 2008, Didier Dagueneau decolou num ultraleve perto de Hautefaye, na Dordonha. Logo após a decolagem, perdeu o controle e morreu na hora, aos 52 anos. Dagueneau cobrava por seu Sauvignon Blanc de Pouilly-Fumé preços que a denominação nunca vira, com rendimentos muito baixos e o uso de cavalos no lugar de tratores que os vizinhos empregavam. A propriedade não parou. O filho, Louis-Benjamin, assumiu a adega e faz o vinho até hoje. Finitas ficaram apenas as garrafas que Didier tinha tocado e se tornaram artigo de luxo.

Quando um produtor de vinhos morre, surge uma pergunta: quanto do preço se deve à morte e quanto à escassez que já existia antes dela? A pergunta tem resposta acadêmica na arte. Economistas medem o “efeito morte” nos preços de pintores há décadas. O resultado não confirma a intuição de quem está à frente das casas de leilões. Três economistas – Robert B. Ekelund, John D. Jackson e Robert D. Tollison – publicaram em artigo e livro um estudo sobre o tema. Observaram os preços subindo nos anos que antecedem a morte e caindo no ano em que ela ocorre; batizaram o padrão de “aposta num funeral iminente”, o mercado precificando a escassez futura enquanto o artista ainda respira.

Um trabalho de 2025 no Journal of Cultural Economics achou prêmio pós-morte nos leilões, maior para artistas jovens e de pouca reputação. Não há consenso sequer sobre o sinal do efeito. Sobre o vinho, não se conhecem estudos a fundo sobre o tema, mas há uma diferença: o líquido acaba quando a garrafa é aberta, a pintura sobrevive na parede.

A escassez explica a oferta, mas não explica quem paga. Depois que o produtor morre e a garrafa passa a mudar de mãos sem ser aberta, negociam-se o nome, a procedência, o preço. A psicologia do consumo sugere que esses sinais não apenas acompanham a experiência. Em experimento de 2021, publicado na revista acadêmica Food Quality and Preference, psicólogos suíços destacaram que um preço inflado no rótulo tornou mais agradável um vinho barato. Em provas às cegas, só especialistas classificam vinhos caros como mais prazerosos (embora errem em muitos casos), enquanto entre leigos a relação desaparece ou inverte. O estudo indica que, quando o rótulo carrega mais informação do que a taça, ele se torna produto. E um morto é o rótulo mais definitivo que existe, porque nada mais que ele fizer poderá contradizê-lo.

Quem arrematou o lote 251 na manhã de 29 de junho em Londres buscava uma experiência gustativa, se divertir entre amigos ou especular?

Abaixo uma degustação às cegas entre Romanée Conti e Cros Parantoux que o site teve o privilégio e a sorte de participar:

Lembrando que a primeira edição da revista digital de vinho sem segredo pode ser solicitada por:

Vinho sem segredo edição digital

14 de Junho de 2026

@vinhosemsegredo ganhou mais uma plataforma: uma revista eletrônica, nascida da provocação de um discreto amigo do mundo do vinho que confessou sentir falta de ler artigos com mais fôlego e profundidade. Com o braço técnico do Claude na diagramação e a generosidade dos amigos que emprestaram suas mentes para textos, a publicação ganhou vida.

Pode ser acessada clicando-se aqui: https://vinhosemsegredo.com/revista-digital-vinho-sem-segredo/

Será periódica? Não sei. Depende do tempo e, obviamente, do interesse de quem se aventurar por estas páginas. Por que não é paga? Sinceramente, porque se o fundador do Vinho Sem Segredo, Nelson Luiz Pereira, com toda a sua generosidade e vasto conhecimento, manteve um espaço gratuito por anos, quem sou eu para cobrar o que quer que seja? Se o leitor fizer questão de abrir a carteira, que gaste com as assinaturas de John Gilman, Jasper Morris e companhia.

Na edição, degustação de vinhos 2022 de Keller, villages tintos 2021 da Borgonha, os cinco produtores de Gevrey Clos Saint Jacques, as champagnes de David Léclapart, Bruno Giacosa em um 1995 no ápice, Mugnier e Glenn Gould, Vinicius de Moraes e coleções.

Se esta edição for filha única, que fique como o registro de uma bela conversa de mesa. Como ninguém é mais otimista que alguém que tem adega e espera sobreviver às garrafas estocadas, se for a primeira de muitas, que seja um brinde ao inesperado.

O Império da Sede

13 de Julho de 2026

Da ascensão de Al Capone à ruína de vinícolas tradicionais, o legado burocrático da Lei Seca ainda molda os Estados Unidos da Copa de 2026


Na noite de 16 de janeiro de 1920, bares e restaurantes por todos os Estados Unidos serviram taças gratuitas de vinho, conhaque e uísque. Em outros, a garrafa de champanhe custou trinta dólares, mais do que o salário semanal de um operário. Cartazes traziam alertas. “Adeus, drink. Portas fecham no sábado!”

À meia-noite e um de 17 de janeiro de 1920, a Lei Volstead entrou em vigor, consolidando a derrubada do veto do presidente Wilson e impondo a proibição da fabricação e a venda de álcool nos Estados Unidos, uma lei que até hoje é motivo de discussão em relação à sua aprovação. Logo após sua sanção, os jornalistas da The Economist escreveram que uma lei impossível de aplicar não apenas falha em seu objetivo, mas deixa “a lei, o legislativo e o executivo ao desprezo público”.

Contrabandistas cruzavam as fronteiras com o Canadá e o México, navios britânicos transferiam cargas de álcool para barcos rápidos na costa, destilarias clandestinas operavam em terra. O mapa vinícola americano foi transformado. Antes da legislação, Missouri, Nova York, Ohio, Illinois, Geórgia, Novo México produziam vinho em escala. A Stone Hill Winery, fundada em 1847 na cidade de Hermann, Missouri, produzia mais de um milhão de galões por ano na década de 1870 e era a segunda maior vinícola do país. Na Califórnia, 713 vinícolas operavam em 1919.  A 18ª Emenda, que proibia a fabricação, venda e transporte de “bebidas inebriantes”, fechou portas. As caves subterrâneas da Stone Hill passaram a cultivar cogumelos. Só reabriram em 1965.

A América, porém, não parou de beber. Os criminosos se profissionalizaram. A escala do crime mudou de patamar. Antes da Lei Volstead, gângsters americanos eram, na definição de James Finckenauer, professor emérito de Rutgers e autor do livro Mafia and Organized Crime, “operadores de pequena escala”.

A Proibição consolidou grupos criminosos dispersos em organizações internacionais e, como a lei era maciçamente impopular, transformou quem a desafiava em herói público. Os gângsteres ganharam ibope. “Foi o início de sua imagem como pessoas capazes de fazer pouco caso de leis ruins e do establishment”, disse Finckenauer em matéria da revista New Yorker.

Quando Big Jim Colosimo, então o principal cafetão de Chicago, foi assassinado em maio de 1920, três juízes, um congressista, um promotor assistente e nove vereadores ajudaram a carregar as alças do caixão. Al Capone, que começara como leão de chácara num cabaré de Coney Island, herdou parte desse império e controlou o submundo de Chicago por anos. Não era apenas tolerado, mas era bem-visto por parte da população.

Se Herbert Hoover havia classificado a Lei Seca como “um grande experimento social e econômico, nobre em seu propósito”, o julgamento da história foi outro. Quando Capone morreu, em janeiro de 1947, o The New York Times publicou um curto editorial intitulado “Fim de um sonho diabólico”. Destacava que uma lei aprovada de boa-fé como um experimento “nobre em seu propósito” para melhorar nossa moral tinha se transformado em outra coisa. “Seu principal produto foi a ilegalidade e o crime, gerados em um abismo moral. Ela criou uma demanda que apenas criminosos podiam suprir. Agitando-se nessa escória criminosa, Capone, por meio do uso livre de metralhadoras e bombas, abriu caminho até o comando supremo de um império sombrio que se estendeu por todos os Estados Unidos.”

A lei foi revogada 13 anos depois de sua criação, em dezembro de 1933, pela 21ª Emenda. O presidente Franklin Roosevelt declarou: “Acho que todos nós poderíamos tomar uma cerveja.” Missouri nunca recuperou a posição que ocupava antes de 1920. Nova York, segundo maior estado produtor de vinho do país até a Proibição, precisou de décadas para retomar a indústria. A máfia ganhou as telas e as telinhas nas décadas seguintes. De Poderoso Chefão a Sopranos.

Em novembro de 2022, dois dias antes da abertura da Copa do Mundo no Qatar, o governo anfitrião proibiu a venda de cerveja nos estádios. A Budweiser, patrocinadora oficial do evento por 36 anos, publicou no X (ex-Twitter) um rápido texto estranhando a decisão. Apagou minutos depois. Em junho de 2026, a Copa vai para os Estados Unidos. A cerveja estará à venda, mas os torcedores estrangeiros verão que a identidade é exigida para comprar qualquer bebida, que as leis de consumo em via pública mudam de cidade para cidade e que o país ainda carrega em sua memória os treze anos em que tentou proibir o consumo de álcool por decreto.

Al Capone e os Sopranos estão nas camisetas. De lojas oficiais e camelôs.