Melhores da França – 2025

30 de Dezembro de 2025

Uma lista dos vinhos franceses que me chamaram a atenção nesse ano, buscando trazer nomes que estão sendo importados no Brasil, mesmo que estejam esgotados. Não há vinhos soberanos, aqueles que são de safras muito antigas ou de produtores sem representação no país.

Champagnes
O champanhe é um produto que sobreviveu à queda de reis, à ascensão da burguesia e a duas guerras mundiais para se tornar o símbolo universal da celebração. Tudo começa na França, com a geografia. Quando Clóvis, o primeiro rei dos Francos, foi batizado em Reims no ano de 496, a cidade tornou-se o palco obrigatório das coroações francesas por séculos.

Blanc de Blancs: Pierre Péters Grand Cru (Mistral); Bourg Sud 2021 La Rogerie (Maison Sirino); Les Gras d’Huile Maxime Oudiette (Maison Sirino); Unisson Franck Bonville (Wines4U); Revolution Doyard (Anima Vinum)

Blanc de noirs: Marie-Courtin, 2020 Champagne Cuvée Résonance (Cave Léman); Savart 1er Cru L’Ouverture (Anima Vinum); Marie-Courtin Efflorescence (Cave Léman)

Rosé: Elisabeth Salmon 2012 (Delacroix); Krug édition 27 (LVHM)

Pinot Meunier: Françoise Bedel Dis Vins Secret Extra Brut (Anima Vinum)

Assemblage: Jacquesson 746 (Delacroix); Jacquesson DT 742 (Delacroix); Bollinger Spécial Cuvée (Mistral); Bollinger La Grande Année 2014 (Mistral); Krug 172 (LVHM); Vilmart Grande Réserve (Tanyno)

Chablis

A safra 2024 foi minúscula, então olho no que tem no mercado.

Qualidade Preço: Chablis Gautheron (Delacroix)

Premiers Crus: Gautheron Montée de Tonerre 2022 (Delacroix); Cote de Lechet réserve bernard defaix 2022 (Tanyno)

Grands crus: Louis Michel Vaudesir 2021 (Elevage); Les Preuses 2021 Gautheron (Delacroix); Valmur 2020 Bessin Tremblay (Clarets); Les Clos 2017 William Fèvre (Grand Cru)

Borgonha

Côte de Nuits

Brancos: Morey Clos des Monts Luisants 2017 Ponsot

Tintos GCs: Clos de Tart 2019 (Clarets); Domaine Hudelot-Noellat Clos de Vougeot 2021 (Clarets);

Tintos PCs: Morey 1er Saint Denis 2021 (Dujac); Chambolle 1er cru Vogüé 2017 (Mistral); Chambolle Musigny Les Fuées 2022 Felettig (Maison Sirino); Morey Riottes 2022 Perrot Minot (Tanyno); Chambolle Combe Orveau 2013 Faiveley (Mistral)

Comunais: Chambolle Clos Village 2022 Felettig (Maison Sirino); Côte de Nuits Villages “Aux Vignottes” Antoine Lienhardt 2022 (Delacroix); Chambolle Combe Orveau 2022 Anne Gros (Tanyno); Vosne-Romanée C. Quatrain 2020, G. Mugneret

Bourgogne: Bourgogne 2020 Lafarge (Clarets); Bourgogne 2022 Perrot Minot (Tanyno)

Côte de Beaune

Brancos: Meursault Porusots 2018 Buisson Battault (Anima Vinum); Meursault 2020 Henri Germain (Clarets); Puligny Montrachet Sauzet 2021 (Clarets); Chassagne-Montrachet 1er Cru Vide-Bourse 2020 Pillot (Clarets); Puligny Montrachet Clos de la Folatiéres 2020 (Maison Sirino); Meursault Les Tillets 2021 Bernard Bonin; Meursault Charmes 2020 Matrot (Clarets)

Tintos: Volnay Taillepieds 2017 Roblet Monnot (011); Volnay Santenots de Millieu 2017 (Mistral); Pommard Clos des Epeneaux 2019 (Delacroix); Volnay 1er cru 2021 Michel Lafarge (Clarets);

Côte Chalonaise

Brancos: Mercurey les vignes de Maillonge Michel Juillot 2022 (Tanyno); Rully 1er Cru Margotés 2017 (Mistral); Domaine Dureuil-Janthial Rully Maizières (Clarets); Santenay Blanc Comme Dessus Pablo Chevrot (Anima Vinum)

Tintos: Mercurey Rouge Les Vignes de Maillonge 2022 (Tanyno); Côte Chalonnaise La Fortune 2019 (Mistral); Maranges sur chenes 2017 Pablo Chevrot (Anima Vinum)

Loire
Uma degustação de safras antigas, em branco e tinto, de Clos Rougeard mostrou como o sol brilha diferente para a propriedade, mas a região tem muita gente boa e com vinhos muito bons para a comida e clima brasileiros. Domaine Huët é uma escolha certeira.

Loire brancos: Clos Rougeard Brèzes 2018 (Clarets); Brèzes Guiberteau 2021 (011); Vouvray Le Haut Lieu 2022 Huët (Premium); Huet Vouvray Sec Le Mont 2019 (Premium Wines)

Loire tintos: Clos Rougeard Le Bourg 2018 (Clarets); Clos Rougeard Poyeux 2018 (Clarets)

Loire branco custo benefício: Saumur blanc Guiberteau (011)

Bordeaux
A região passa por uma crise histórica que poderá provocar mudanças tectónicas no sistema de venda en primeur. O Brasil tem recebido safras antigas, boa parte delas em boas condições de armazenamento, o que permite desfrutar esses vinhos com mais idade.

Tintos: Léoville Barton 1999 (Clarets); Pontet Canet 2001 (Tanyno); Cantemerle 2008 (World Wine); Vieux Chateau Saint André 2020 (Mistral); Chateau Pichon Lalande 2008

Brancos: Chevalier 2017 (World Wine); Larrivet Haut Brion 2022 (Clarets)

Tintos qualidade preço: Magence 2014 (Delacroix); Château Peybonhomme – Les Tours, 2022; Tronquoy 2013 (Clarets)

Brancos qualidade-preço: Magence 2019 (Delacroix)

Sobremesa: Rieussec 2010 (Mistral)

Rhône

Há alguns sobrenomes que se sobressaem, não importam terroir, safra.

Tintos: Saint Joseph 2015 Jean Louis Chave (Mistral); Châteauneuf du Pape 2020, Clos de Papes (Premium Wines)

Brancos: Hermitage 2012 Jean Louis Chave (Mistral); Chateau Beaucastel 2020 (Mistral); Châteauneuf du Pape 2021, Clos de Papes

Brancos qualidade preço: Saint Joseph Circa 2022 (Mistral)

Tintos qualidade preço: Saint-Joseph Pleine Lune 2019, Ferme des Sept Lunes (Delacroix)

Beaujolais

Gamay de alta qualidade e com preços atrativos com a escalada dos borgonhas.

Tintos: Moulin à Vent Les Trois Roches, 2022, Chermette (Wines4U); Fleurie Poncié, 2023 – Domaines Chermette (Wines4U); Brouilly La Croix des Rameaux 2022, Lapalu (Delacroix)

Alsácia

Os pinots noirs de Albert Mann ganham complexidade a cada safra, caso os preços fossem mais competitivos no Brasil, seriam uma bela aposta fora da Côte d´Or.

Brancos: Zind-Humbrecht Riesling Clos Windsbuhl Monopole 2019 (Clarets)

Tintos: Albert Mann Pinot Noir Clos De La Faille 2019 (Clarets)

Melhores de 2025 – Itália

20 de Dezembro de 2025

Num mundo em que cada vez mais champagnes se aproximam dos quatro dígitos, as borbulhas italianas têm um lugar crescente sobre a mesa.

Espumantes: Franciacorta Edea Mirabella  (Italy Import); Ferrari Brut (Vinheria Percussi); Ferrari Perlé 2018 (Vinheria Percussi)

Brancos

Nem só de chardonnay bourguignon se vive, nem também só de Valentini.

Autóctones: Valentini 2020 (Decanter); Vintage Tunina 2020 (Berkmann); Trebbiano d´abruzzo 2015 Emidio Pepe *(novo importador em breve)

Chardonnay: Cervaro della Salla 2020 (Berkmann); Gaia e Rey 2016 (Mistral); Were Dreams 2021 Jermann (Berkmann);  Ca del Bosco 2017 (Mistral)

Chardonnay qualidade preço: Kurtatsch 2023 (Italy Import); Primosic (VinVin&Co)

Etna qualidade preço branco: Pietradolce (Italy Import); Alta Mora (World Wine), Planeta (Grand Cru)

Etna bianco: Etna Bianco Superiore Contrada Salice 2023 (Mistral)

Sobremesa: Donnafugata Passito di Pantelleria “Ben Ryé” (World Wine); Vin Santo Fontodi 2001 (Mistral)

Tintos

Sul da Itália

Poucos terroirs têm ganho tanto refinamento nos últimos anos quanto o Sul da Itália, com destaque para o vulcânico terroir de Etna. Surpresa foi o Idda, parceria de Angelo Gaja  com Alberto Gracci, um vinho elegante e delicado, marcas registradas de Gaja.

Etna qualidade preço tinto: Pietradolce (Italy Import); Alta Mora (World Wine)

Etna rosso: Idda (Mistral); Pietradolce Santo Spirito 2020 (Italy Import)

Toscana

A mudança da legislação há uma década e meia e a criação do Gran Selezione trouxeram uma melhoria notável em uma série de produtores que já faziam um ótimo trabalho.

Chianti clássico: Fontodi 2021 (Mistral); Riecine 2022 (Italy Import); Tenuta di Corleone 2021 (Uva Vinhos); Mazzei Fonterutoli Chianti Classico (Grand Cru)

Chianti Riserva: Riecine 2021 (Italy Import); Caparsa 2019 (Tanyno)

Chianti Gran Selezione: San Lorenzo 2018 Castello di Ama (Mistral); Vigna del Sorbo 2020 (Mistral); Gran Selezione Vigneto Bellavista 2016 (Mistral)

Supertoscano 100% sangiovese: Montevertine 2016 (Decanter); Ceparello 2021 (decanter)

Supertoscano uvas internacionais: Petra di Petra 2020 (Italy Import); L´Apparita 2020 (Mistral)

Tinto qualidade preço: Belvento e Cileggio (Italy Import)

Rosso di Montalcino: Poggio di Sotto 2020 (Italy Import)

Brunello di Montalcino: —

Piemonte

Nos últimos dois anos, o mercado brasileiro recebeu um punhado de novos nomes que aumentaram a opção dos que gostam desses vinhos. Da volta de Giuseppe Mascarello e Giuseppe Cortese à chegada de Sottimano e Castello di Verduno (que com a ascensão de preços de Burlotto tem coisas a se conhecer…)

Dolcetto: Giuseppe Mascarello 2022 (Clarets); Ca di Press 2022 (Clarets); Giuseppe Cortese 2023 (Tanyno)

Barbera qualidade preço: Barbera d´alba Fratelli Alessandria (VinVin&co); Barbera d´alba Vajra (VinVin&co); Barbera d´alba 2022 Principiano Ferdinando (Italy Import); Barbera 2021 Giuseppe Cortese (Tanyno); Scarzello Superiore (Tanyno)

Barbera:  Luciano Sandrone 2022 (Clarets); Barbera Scudetto Giuseppe Mascarello (Clarets); Barbera Aves Burlotto (Clarets); Bricco dell’Uccellone 2020 (Tanyno); Ai Suma 2020 (Tanyno)

Nebbiolo qualidade preço: Principiano Ferdinando (Italy Import); Vajra (VinVin&Co); Castello di Verduno 2023 (Tanyno)

Nebbiolo: Langhe Rosso 2017 Roagna (Clarets); Giuseppe Mascarello 2022 (Clarets)

Barbaresco qualidade-preço: Ada Nada 2020 (Italy Import); Barbaresco 2021 Giuseppe Cortese (Tanyno); Produtori del Barbaresco 2021 (Vin Essence)

Barbaresco: Sottimano Currà 2019 (Tanyno); Sottimano Pajoré 2021( Tanyno);  Gaja 2020 (Mistral)

Barolo: Vigna Rionda 2017 Giovanni Rosso; Barolo Bricco delle Viole 2017  G.D.Vajra (VinVin&Co); Monvigliero 2021 Fratelli Alessandria (VinVin&Co); Scarzello Vigna Merenda 2016 (Tanyno); Monvigliero 2018 Castello di Verduno (Tanyno)

Melhores de 2025 – parte 1

19 de Dezembro de 2025

Uma lista de uma parte dos vinhos que me chamaram a atenção nesse ano, buscando trazer nomes que estão sendo importados no Brasil, mesmo que estejam esgotados. Não há vinhos soberanos, aqueles que são de safras muito antigas ou de produtores sem representação no país. Maior ausência são os Estados Unidos, mas bebi apenas vinhos da Califórnia de produtores sem importação no Brasil, como os excelentes Rhys. Itália ganhará um ranking à parte em breve, do sul ao norte, França, idem.

Alemanha

Num mundo em que se normalizou borgonha de entrada acima de R$ 500, a Alemanha tem ganho destaque na minha mesa e adega, com opções muito além da rainha das uvas, a riesling. Chardonnays e pinot de alta qualidade com preço ainda muito atraente.

Espumantes: Moritz Kissinger Blanc de Blancs Brut Nature (Maison Sirino)

Chardonnay: Moritz Kissinger 2021 (Maison Sirino); Weingut Martin Wassmer, 2021 Dottinger Castellberg Chardonnay GC (Cave Léman); Weingut Martin Wassmer SW (Cave Léman); Astheimer Chardonnay Fürst (Cave Léman)

Riesling qualidade preço: Hermann Ludes Mosel Riesling 2023 (Cave Léman); Hermann Ludes Thörnicher Ritsch Kabinett 2022 (Cave Léman); The Green Hill 2023 (Wines4U)

Riesling: Wittmann Morstein 2020 (Weinkeller); Kiedrich Gräfenberg Riesling Grosse Lage Trocken GG 2022 (Mistral); Clemens Busch VDP. Grosse Lage Marienburg Fahrlay GG Riesling Trocken 2022 (Premium Wines)

Tintos qualidade preço Jurgen Von der Mark Merdinger 2022 (Cave Léman); Ergenstein Pinot Noir 2021 (Cave Léman)

Tintos: Spätburgunder Hundsrück GG 2022 Fürst (Cave Léman)

Sobremesa: Wehlener Sonnenuhr Auslese Goldkapsel 2006 (Mistral); Zeltinger Sonnenuhr Riesling Auslese ** 2017 (Mistral)

Argentina
Uma degustação às cegas de Noemias mostra que a Malbec na Patagônia cria grandes vinhos. Um Estiba Reservada às cegas aprontou para margem esquerda de Bordeaux, safras novas desse vinho não decepcionam.

Brancos: Catena Zapata Adrianna Ch. White Bones 2015 (Mistral)

Tintos: Noemia 2022 (Vinoterra); A Lisa 2024 (Vinoterra); Catena Zapata Estiba Reservada 1997

Austrália

Tem muita coisa boa tinta no mundo dos cangurus.

Brancos: (nenhum bebido)

Tintos: Mount Edelstone Henschke (Mistral)

Brasil

Espumantes abaixo de 150 reais? Tem, aliás, o Danio Braga, Fasano e o Claude Troisgros já descobriram há anos.

Brancos: Pizzato Legno Chardonnay (Pizzato); Chardonay 2024 (Adolfo Lona)

Tintos: Baron 2020 (Adolfo Lona)

Espumantes: Trinta (Adolfo Lona); Brut Tradicional (Adolfo Lona)

Chile

Quebrada seca é o terroir em que se fazem os melhores brancos da América do Sul?

Brancos: Baettig Vino de Viñedo Los Parientes Chard 2022 (World Wine); Retamal Quebrada Seca 2021 (Decanter)

Tintos: Seña 2021

Espanha

Galicia desperta paixões, olhares e dinheiro, não à toa Vega Sicilia está com novo projeto para ser lançado em breve. E um tinto que merece atenção: uvas Garnacha de um vinhedo único, de mais de 100 anos de idade, plantado em altitudes muito elevadas. O tinto é vinificado em uma única barrica de carvalho de 4000 litros, produzindo quase 400 caixas de um vinho a se conhecer.

Brancos: Pazo Señorans Albariño 2013 (Mistral); 69 Arrobas 2022 Albamar (Oinos); Balado 2023 Zarate (Oinos)

Tintos: Espetacle 2007 (Mistral); La Rioja Alta 904 2015 (Zahil)

Qualidade preço: Albamar 2024 (Oinos); Dandelio Nanclares (Wines4U)

Hungria

Quando Vega Sicilia investe, não brinca.

Brancos: Oremus Petracs 2020 (MIstral)

Sobremesa: Tokaji Aszú 5 Puttonyos 1993m (Mistral)

Portugal

Muitas novidades e muitos vinhos bons na terrinha, que continua sendo um refúgio seguro diante da escalada de preços na Itália e na França.

Brancos: Dominío do Açor Cerceal 2022 (Clarets); Casa da Passarella O Oenólogo Encruzado 2020 (Premium Wines); Lobo de Vasconcellos LV Reserva Branco 2021 (Premium Wines); Fazendas da Areia Caracol dos Profetas (Emi Wines); Textura da Estrela (011)

Tintos: Quinta da Perdonda Dão DOC 1° Talhão (1948) 2018 (Premium Wines); Casa da Passarella O Fugitivo Vinhas Centenárias 2017 (Premium Wines); Quinta da Pellada 2016 (Mistral); Xisto Cru 2014 (Clarets)

Qualidade Preço: Susana Esteban em promoção na Adega Alentejana

O Tempo, a Obsessão e o Solista: A Filosofia Krug e a Narrativa de Quatro Safras

11 de Dezembro de 2025

No rarefeito universo dos vinhos, a Maison Krug ocupa uma posição diferenciada, seja nas borbulhas, seja entre vinhos tranquilos. É muito mais que quatro letras. Representa uma filosofia de tempo e individualidade que permanece inalterada desde sua fundação em 1843. Degustar uma sequência de safras como 1998, 2000, 2004 e 2006 de uma propriedade dessas é antes de tudo um privilégio e não é um exercício sensorial de comparação climática, mas uma imersão na visão de um homem que se recusou a aceitar a fatalidade das colheitas ruins. Para compreender o que está na taça durante essa degustação, com vinhos acima de 95 pontos, é preciso primeiro compreender a obsessão que forjou e se basear nos detalhes que John Gilman escreveu há alguns anos em uma visita à maison, em um artigo intitulado “A Bit More Detail on Champagne Krug”.

A história começa com Joseph Krug, um visionário nascido em Mainz que, após anos trabalhando na renomada casa Jacquesson, sentiu-se frustrado com a inconsistência da qualidade ditada pelos caprichos do clima em Champagne. Joseph dividiu sua produção em duas categorias distintas. A primeira, que ele chamou de Cuvée No. 1 (hoje a icônica Krug Grande Cuvée), seria a recriação anual da “Champagne perfeita”, uma orquestra sinfônica composta por mais de 120 vinhos de mais de 10 anos diferentes. A segunda, a Cuvée No. 2, seria o que hoje chamamos de Krug Vintage (ou Safrada).

Aqui reside a definição fundamental da filosofia Krug para suas safras: uma Krug Vintage não é criada apenas porque o ano foi “bom” ou tecnicamente perfeito. Um ano péssimo inviabiliza sua produção, mas é preciso mais. Ela é criada porque o ano tem uma história única a contar. Se a Grande Cuvée é a busca pela harmonia absoluta, a Krug Vintage é o momento do solista. É a interpretação de um ano específico através da lente intransigente da Krug.

Para compreender o peso de uma garrafa safrada da Krug, é preciso entender o rigor do momento de sua concepção. Segundo John Gilman, de View From the Cellar, a decisão de declarar um ano como “Vintage” não se baseia apenas na qualidade técnica. O Comitê avalia dois critérios supremos e inegociáveis:

  1. A Narrativa Única: A safra é expressiva o suficiente para contar uma “história única” através das lentes do artesanato Krug?
  2. A Integridade Estrutural (O Teste do Século): O vinho possui a estrutura necessária para evoluir graciosamente por uma janela de tempo extremamente longa? A Maison trabalha com a perspectiva de que uma Krug Vintage pode beber maravilhosamente bem por até um século. As decisões tomadas por Eric Lebel e Olivier Krug nas caves hoje serão julgadas pelos netos e bisnetos dos atuais clientes.

A filosofia da Krug dita que o vinho só é liberado quando está pronto para dar prazer, e não quando o mercado exige. Um exemplo clássico citado, que ilustra perfeitamente essa independência, foi o lançamento das safras de 1988 e 1989. Embora 1988 tenha vindo cronologicamente antes, o vinho apresentava-se “tenso, vivo e fechado” (tight and snappy) após seus dez anos regulamentares em cave. Em contrapartida, a safra de 1989, embora posterior, mostrava-se opulenta e generosa. A decisão da Maison? Inverter a ordem. A Krug lançou a 1989 primeiro e reteve a 1988 por vários anos adicionais nas caves de Reims, até que ela “desabrochasse”. Poucas casas no mundo teriam o capital financeiro e a disciplina para reter um estoque pronto em prol da perfeição sensorial.

Isso também explica a diferença da Krug 1989 para seus pares. Enquanto muitos Champagnes de 1989 de outros produtores eram maduros demais e já passaram do apogeu, a Krug 1989 mantém até hoje uma “espinha dorsal” de acidez e mineralidade que a preserva vibrante, provando que a seleção rigorosa de estrutura paga dividendos décadas depois.

Filosofia posta, o que une as safras de 1998, 2000, 2004 e 2006? O método. A Krug fermenta 100% de seus vinhos em pequenos barris de carvalho velho, boa parte deles com 20 anos de vida. O objetivo não é conferir sabor de madeira, longe disso, mas permitir uma micro-oxigenação que “imuniza” o vinho contra a oxidação futura, garantindo uma longevidade lendária.

A obsessão pelo detalhe é absoluta: cada parcela de vinhedo é vinificada separadamente. Um “Cru” não é tratado como um bloco monolítico; se uma parte do vinhedo tem uma exposição solar diferente, ela se torna um vinho separado. Essa abordagem “parcela por parcela” dá ao Chef de Cave e ao Comitê de Degustação, composto por seis pessoas, uma paleta de cores infinita para compor o retrato do ano. E, finalmente, há o tempo: uma Krug Vintage repousa nas caves de Reims por no mínimo dez anos antes de ver a luz do dia, desenvolvendo uma complexidade que poucos vinhos no mundo conseguem alcançar.

Ao analisar a sequência degustada, percebemos como a filosofia da casa se adapta para narrar quatro histórias climáticas radicalmente diferentes. A Krug atribui “apelidos” ou definições de personalidade para cada uma de suas safras, capturando a alma do vinho.

1998: Hommage au Chardonnay (Tributo ao Chardonnay) A safra de 1998 marca uma quebra de paradigma. Historicamente conhecida pelo domínio do Pinot Noir, a Krug viu-se diante de um ano de contrastes extremos: um agosto escaldante seguido de chuvas em setembro. Enquanto muitos produtores lutaram com a maturação, o Chardonnay da Krug, especialmente os vinhedos de Le Mesnil-sur-Oger, brilhou com uma pureza e frescor tão intensos que salvou o ano. O Comitê decidiu, em um gesto raro, dar ao Chardonnay o protagonismo absoluto (46% do corte). O resultado é um vinho de “classicismo e pureza”. Com quase três décadas de vida, está no seu platô. É a safra da precisão. Detalhe: apenas em 1981 o predomínio da Chardonnay foi tão expressivo no corte. Harmonização com codornas e morilles.

2000: Gourmandise Orageuse (Indulgência Tempestuosa) Se 1998 é a precisão clássica, 2000 é a generosidade caótica. O apelido “Tempestuosa” refere-se a uma temporada de cultivo imprevisível e difícil, que culminou em uma colheita que surpreendeu pela riqueza. A Krug 2000 é definida por sua opulência. É um vinho intenso e imediatamente gratificante e que, aos 25 anos, ainda esbanja juventude, eu a colocaria um degrauzinho acima da 1998. No nariz e na boca, explodem notas de caramelo, avelãs tostadas e frutas maduras. É uma safra que não pede licença; ela arrebata com acidez e um final longo. É o a maturidade com toque da juventude. É a prova de que o caos climático pode gerar um prazer profundo e hedonista. Harmonização com codornas e morilles.

2004: Lumière Fraîche (Luminosidade Fresca) Após o calor tórrido de 2003, o ano de 2004 trouxe um retorno ao equilíbrio e à frescura, mas com uma luminosidade fresca, cativante, pronta. A natureza foi generosa em quantidade e qualidade, permitindo que as uvas amadurecessem mantendo uma acidez elétrica. A Krug definiu esta safra como “Lumière Fraîche” para capturar sua tensão vibrante. A 2004 é estruturada e brilhante. O nariz é dominado por gengibre, frutas cítricas cristalizadas e um toque mentolado. Na boca, é vertical, direta e cristalina. Enquanto a 2000 é horizontal e ampla, a 2004 é um raio, prometendo uma evolução lenta e graciosa nas próximas décadas. Difícil resistir à sua juventude expansiva hoje. Ela tem um quê da 2002 (talvez a melhor da última década), mas em uma esfera inferior. Harmonização com vieiras e beurre blanc.

2006: Caprice Indulgent (Capricho Indulgente) Fechando a sequência, a safra de 2006 apresenta uma personalidade que flerta com o exagero, mas com a sofisticação da Krug. Foi um ano quente, com períodos secos e chuvosos intercalados, resultando em uvas de grande maturidade e concentração. Na definição da casa, “Caprice Indulgent” reflete um vinho que é redondo, generoso. Nesse caso, a garrafa não mostrou isso, um vinho ainda fechado, contido, como se fosse um Chevalier Montrachet de madame Leflaive ou o Bouchères de Jean Marc Roulot. Na sua infância Diferente da tensão elétrica da 2004 ou da elegância contida da 1998 ou do arrebatamento da 2000, a 2006, tímida, talvez esteja em sua transição. Harmonização com aves.

Degustar as quatro safras lado a lado é testemunhar a aplicação prática da filosofia de Joseph Krug. Não se trata de buscar um padrão imutável — para isso existe a Grande Cuvée — mas de permitir que o terroir e o clima ditem a narrativa. Da elegância focada no Chardonnay de 1998 à opulência tempestuosa de 2000, passando pela luminosidade vibrante de 2004 e chegando timidez de 2006, a Krug demonstra que uma “safrada” não é apenas um vinho datado; é a captura líquida da memória de um ano, imortalizada pela paciência e pela arte do assemblage.

Como dizia o Nelson, “me perdoem Selosse e os amantes das independentes, mas Krug é Krug”. Em tempos em que Montrachets de primeiro nível saem a mais de US$ 3 mil a garrafa, essas champagnes se tornam um refúgio seguro.

Como também dizia o Nelson: “É fácil agradar. Basta servir o melhor. Krug.”