A commodity que não se fabrica

18 de Maio de 2026

Foi no fim dos anos 1980 que o engenheiro José Bento dos Santos resolveu deixar para trás os aviões, as telas de computadores e o mundo da mineração de lado. Passava meses do ano negociando a compra e a venda de metais pelo mundo todo. Em um jantar em Nova York, uma frase de um amigo tornou-se um divisor de águas: “Passamos a vida a negociar commodities, mas há uma que não se fabrica mais: a terra”. Voltou para Portugal, conversou com o pai. Descobriu que a Quinta do Monte d’Oiro, em Alenquer, distrito de Lisboa , estava à venda. A aquisição, em 1987, transformaria o enófilo e gourmet em produtor.

O vinho nunca lhe foi estranho. Aos 18 anos, visitou Bordeaux, na França. Nas viagens de negócios, um dos principais prazeres era almoçar e jantar, assim, como em casa, receber amigos em torno da mesa e de vinhos. A transição para a viticultura exigiu paciência: a primeira safra só chegou ao mercado em 1997, dez anos depois da aquisição.

“Tivemos um grande trabalho de recuperação, não aproveitamos quase nada”, diz Francisco Bento dos Santos, filho de José e que esteve essa semana no Brasil em evento da importadora Mistral. Pai e filho dialogam sobre as criações. “Meu pai foi técnico de rugby quando eu era pequeno e hoje também se mantém como meu treinador agora nas vinhas”, diz Francisco.

O diagnóstico técnico da propriedade, elaborado por especialistas da Universidade de Jerusalém, revelou um solo e um clima mediterrânico com forte influência atlântica — traduzido em noites frias e brisas constantes — ideal para as castas do Vale do Rhône. Bento dos Santos viajou à França e obteve mudas diretamente com Michel Chapoutier, um dos nomes mais reputados da região. O resultado é um portfólio onde uvas francesas, como Syrah e Viognier, convivem harmoniosamente com castas nativas sob manejo orgânico e baixos rendimentos. Os vinhos de entrada, na faixa de R$ 150, apresentam-se como uma excelente porta de acesso a esse rigor técnico.

Na Itália, plantar uvas internacionais em solo toscano não é modismo. No início do século XIX, Elisa Bonaparte Baciocchi, irmã do imperador Napoleão Bonaparte, plantou vinhedos de Cabernet Sauvignon e Merlot, ao lado da Sangiovese (presente em Brunellos e Chiantis). A dinastia Bonaparte perdeu a coroa, a França se tornou uma República, a Itália se unificou, os vinhedos ficaram relegados, até que um dia Francesca Moretti decidiu tirar uma folga da universidade de Veterinária e fazer uma viagem de carro com seu pai até Bordeaux. Antes de chegar lá, passaram pelas colinas de Maremma (região costeira próxima de Siena). Foi paixão à primeira vista.

A paixão pela costa toscana levou a família Moretti à aquisição da propriedade, dando início ao que Francesca descreve como uma “fascinante história de uma viagem de mulheres”. O projeto Petra (importado no Brasil pela família Taffarel) resgatou o legado de Elisa Bonaparte, focando no replantio de castas internacionais em um terroir onde etruscos e gregos já vinificavam em ânforas na antiguidade. Sob uma vinícola desenhada pelo arquiteto suíço Mario Botta e conduzida por práticas orgânicas, a Petra busca vinhos que expressem a essência do solo e clima mediterrâneos. A linha completa oferece rótulos de boa relação qualidade-preço.

Embora os vinhedos originais da irmã de Napoleão hoje integrem um parque público em Suvereto, a família Moretti recuperou o espírito daquela plantação histórica dentro de seus domínios. Os cinco hectares em que Elisa Bonaparte plantou uvas foram recuperados pela família Moretti. “O jardim da Princesa foi finalizado em 2017, reúne árvores frutíferas e ornamentais. Em frente a este jardim, localiza-se o nosso vinhedo histórico: o Vigna Petra, com quatro hectares”, afirma Francesca.

Essa diáspora das castas não se encerra na Europa. No Chile, em 1997, mesmo ano em que a Quinta d´Oiro comercializava sua primeira safra, nasceu o projeto Almaviva, resultado de um acordo entre a família Rothschild e a vinícola Concha y Toro. A ideia, desde então, é elaborar um tinto sul-americano com uvas francesas clássicas, sempre com predomínio de Cabernet Sauvignon, cultivadas nas terras do Maipo Alto, na área Maipo Andes. Há dois anos, a vinícola passou a abrir as portas a visitantes, revelando que, no mundo do vinho, a fronteira entre o estrangeiro e o nativo é tênue.

Do campo aos vinhedos: a trajetória de Jussiê Vieira

11 de Maio de 2026

Em 13 de junho, quatro equipes se enfrentarão num campo de futebol em Chassagne-Montrachet, uma cidade da Borgonha com menos de 500 habitantes. Ao redor do campo, vinhas de Chardonnay que produzem alguns dos brancos mais caros e raros do mundo. A prefeita é casada com Vincent Dancer, produtor com vinhedos na cidade e cujos vinhos são importados no Brasil pela Clarets.

Numa das equipes estará David Silva, jogador brasileiro que fez história no Manchester City. O ex-jogador do São Paulo Raí, que também vestiu a camisa do Paris Saint Germain, foi convidado. Na beira do campo, grupo de samba, dançarinas de carnaval e DJ brasileiro. Nos intervalos, litros de água, energéticos, caipirinha e vinho branco e tinto. No almoço, feijoada preparada por Vanessa Vieira.

O organizador do torneio é seu marido, Jussiê Vieira, que até poucos anos atrás era atacante profissional, com passagens pelo Cruzeiro, no Brasil, e pelo Bordeaux, na França. Hoje é embaixador da importadora Clarets no Brasil, responsável por trazer ao país sobrenomes famosos no mundo do vinho como Ramonet, Dujac, Lafarge, Roulot. O campeonato é anual. Os adversários são ex-jogadores de futebol, produtores de vinho e suas famílias.

De Chassagne-Montrachet a Nova Venécia (ES), onde Jussiê cresceu, são dez horas de voo. Nascido em 1983, comia carne quando dava, geralmente no fim de semana. O padrasto não tinha paciência com ele. O bairro também era violento. O irmão foi para a lavoura. “Eu concentrei no futebol como se não tivesse outra opção na vida, como se tudo dependesse disso”, recorda-se em almoço em São Paulo em um restaurante na região da Paulista.

Um tio jogava num time amador, e o pai, falecido, tinha sido ponta direita. Jussiê passava horas com a bola no pé. O talento foi visto por um olheiro. Aos 14 anos, mudou-se sozinho para Belo Horizonte para jogar no Cruzeiro. Em 2003, pelo time mineiro, conquistou a Tríplice Coroa (Copa do Brasil, Brasileirão e Campeonato Mineiro), feito então inédito no futebol brasileiro. Em janeiro de 2005, foi negociado com o Lens, na França.

Chegou sem falar francês. O clube pagava um curso para expatriados, com aulas três vezes por semana. Foi por duas semanas e desistiu. Fez um acordo informal: se em seis meses não falasse francês, poderia ser dispensado. Trocou as aulas por filmes de Harry Potter, acompanhou Vanessa a todas as consultas pré-natais da filha Lavínia, forçou-se a conversar com a médica, leu tudo que podia sobre gravidez e cuidados com recém-nascidos.

Em dezembro de 2006, numa volta ao Brasil para as férias, sentou-se no avião ao lado do volante Wendell, que também tinha passado pela base do Cruzeiro. O volante perguntou se Jussiê não queria trocar o Lens pelo Bordeaux. O treinador era Ricardo Gomes, o zagueiro que tinha sido capitão da seleção brasileira na Copa de 1990 e que quatro anos depois seria convocado novamente como capitão para o Mundial de 1994, mas foi cortado dias antes da estreia, após sofrer uma lesão muscular. Ricardo Gomes dirigia o Bordeaux desde 2005. Disse a Jussiê que precisava de um atacante. No fim de janeiro de 2007, o contrato foi assinado. Jussiê ficaria no clube por quase uma década, ganharia a Ligue 1 na temporada 2008-2009 e seria apelidado de “mágico” pela imprensa francesa.

Em 2017, Jussiê pendurou as chuteiras. “Não queria continuar no futebol e ouvia relatos de jogadores que caíam em depressão ou ruína financeira. Precisava de outro caminho.” Nos almoços do Bordeaux, vinho era oferecido aos jogadores mesmo antes de treinos. Após vitórias, os dirigentes abriam garrafas. Num jogo contra o Paris Saint-Germain, o Bordeaux arrancou um empate de um a um, em Paris. O presidente havia prometido como bicho uma garrafa de Cheval Blanc – um dos mais famosos e caros vinhos da França.

“Os jogadores brincaram que era uma caixa para cada um, mas foi uma garrafa para cada um”, lembra Jussiê. A depender da safra, uma garrafa pode custar mais de mil euros. Na cidade pequena, os produtores logo perceberam que o jogador brasileiro gostava de vinho. Os convites para visitar propriedades e compartilhar garrafas vieram sem esforço. Jussiê fez o nível 3 do WSET, a principal certificação internacional de vinhos, e começou a passar férias na Borgonha visitando e conversando.

a história de jussiê vieira, dos campos de futebol à importação de produtores franceses

A Borgonha o capturou pela dificuldade. Para explicar esse caminho, gosta de contar que, anos atrás, um ministro do governo Sarkozy ligou para o Domaine de la Romanée-Conti pedindo uma caixa de uma safra. A resposta foi curta: não era possível. “Há um ditado aqui na França: em Bordeaux, você não degusta nada, mas pode comprar tudo; na Borgonha, você pode degustar tudo, mas não se compra nada.”

“Um amigo então me perguntou: por que não trabalhar com vinho?” Jussiê criou a Juss Millésimes em 2018, importadora focada em produtores franceses para o mercado brasileiro. Contou com a ajuda de Raphael Malago, que tinha ajudado anos antes a importar vinhos sul africanos e ajudou a desbravar esse mercado no Brasil. Na estreia, trouxe ao Brasil, entre outros, Eric Rousseau e Jean-Claude Ramonet, sendo que Ramonet não entrava em um avião desde 1996. Os dois desembarcaram no Rio de Janeiro para uma série de eventos no Hotel Emiliano.

Em 2019, Jussiê migrou o portfólio para a Clarets e se tornou embaixador da importadora na Europa. Para fechar a parceria, mandou mensagem num domingo para Guilherme Lemes, dono da Clarets. A resposta inicial foi educada, mas fria. Uma semana depois, Lemes disse que tinha interesse em alguns produtores da Borgonha e propôs reunião presencial. Jussiê respondeu que estava no Brasil. Não estava. Guilherme ia viajar, mas marcaram para dali a duas semanas, tempo suficiente para Jussiê comprar passagem e cruzar o Atlântico.

O mundo do vinho é predominantemente branco, em quem compra garrafas, em quem dirige cozinhas e em quem serve. Foi o prestígio construído em uma década nos gramados franceses que, nas palavras dele, “faz com que a cor da minha pele não atrapalhe nos negócios do vinho”. Quando montava a importadora, ouviu o conselho de que não teria problema com a cor da pele, mas que outros negros teriam. “Um grande amigo me disse, textualmente: você é o Jussiê e por isso não sofre preconceito.”

No fim deste ano, seis produtores da Borgonha — Duroché, Fourrier, Matrot, Jobard, Ballot Millot e Bachelet Monnot — embarcarão para o Brasil para uma série de eventos. Antes disso, em 13 de junho, o campo de Chassagne-Montrachet receberá o torneio de futebol. De um lado do gramado, uma bola. Do outro, fileiras de Chardonnay sobre calcário. Entre os dois, a feijoada de Vanessa.

Alejandro Vigil: desafios incessantes

4 de Maio de 2026

Alejandro Vigil pretende escrever um livro de contos. Um deles começa com uma garrafa de Saint Felicien 1997, bebida, no fim dos anos 1990, com sua esposa, Maria, e um casal de amigos, em um restaurante em Mendoza, sua terra natal.

A Argentina vivia a dolarização da sua economia: um peso equivalia a um dólar. Na carta de vinhos, a garrafa saía por cerca de 80 pesos. Resolveram se apertar no orçamento e comprar o vinho. Era um vinho histórico: no início dos anos 1960 foi o primeiro na Argentina a ser feito com uma única uva e destacar no rótulo a variedade.

Quando terminaram a garrafa, Vigil brincou dizendo que um dia iria trabalhar na vinícola. Era a brincadeira de quem ainda não sabia exatamente o que queria, mas já sabia o que admirava. Em 2001, foi contratado pela Catena Zapata, cuja história no mundo enológico ajudou a revolucionar a viticultura sul-americana e posicionar o vinho argentino da Europa aos Estados Unidos, da Ásia ao Oriente Médio.

Vigil chegou ao trabalho com histórico de ter liderado no Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária, a Embrapa argentina, um projeto de laboratório de análise de solo. Começou a mapear como altitude e composição mineral se traduziam em características distintas no Malbec; à época, uma uva tratada como trivial, sem o prestígio posterior. Foi essa expertise técnica que o levou à Catena Zapata, contratado para desenvolver um trabalho de caracterização de parcelas, como os franceses havia séculos faziam.

Mendoza é uma terra de extremos, onde a cordilheira dita as regras e o granizo pode acabar com o patrimônio em minutos. Vigil mostra o braço arrepiado ao recordar-se de estar em casa, quando tinha oito anos e o céu desabou no momento do jantar em um dia do fim de dezembro. O som das pedras de granizo batendo no teto de chapa de zinco era ensurdecedor, um prenúncio de ruína. Até hoje o som volta quando ele se recorda da noite maldormida. A família plantava tomates e batatas principalmente; aquela era a subsistência do ano, a dez dias de ser colhida. Enquanto o menino Vigil se desesperava diante da destruição branca que cobria o campo, seu avô manteve-se calmo.

“Aprendi o que era resiliência sem saber que a palavra existia no dicionário”, conta Vigil, emocionado. No dia seguinte à tempestade, o avô levantou-se como se nada tivesse ocorrido. A avó lhe disse que era um dia de trabalho como outro. Não houve lamento ou paralisia. Eles simplesmente caminharam até o campo devastado e começaram a preparar o solo novamente. A terra criava e também destruía. A lição mostrou que seu destino estava ligado a ela: a terra o atraía tanto que ele, que jogou rugby profissionalmente em adolescente, trocou os campos por vinhedos.

No início dos anos 2000, o mercado internacional estava dominado pelo estilo que Robert Parker havia consagrado e Michel Rolland propagava: vinhos concentrados, com extração máxima e muito carvalho novo. Vigil conhecia pouco de vinho, mas tinha contato com vários produtores por seu trabalho no estudo do solo. Sabia que a Argentina podia trabalhar vinhedos como os franceses ressaltando diferenças de altitudes e solos. Suas referências se ampliaram na Catena, quando o dono, Nicolás Catena, reservou um orçamento para que Vigil pudesse beber rótulos de diversos países para ampliar suas referências. A dolarização da economia ajudava nisso. Vigil ainda gastava parte do salário para buscar ainda mais novidades.

Bebia naquele momento muitos vinhos dos Estados Unidos e de Bordeaux, depois vieram os Borgonhas e aí seu mundo se abriu. “Eu tinha a referência de vinhos encorpados, depois vi que havia elegância e sutilezas que eu desconhecia. Isso contribuiu para a ideia de caracterizar as diferenças do solo argentino.”

O salto na carreira veio no fim dos anos 2000. Nicolás Catena pediu a alguns dos colaboradores que fizessem um corte de cabernet sauvignon e malbec para que ele experimentasse. Seria a primeira vez que um vinho de mescla de uvas ganharia tratamento especial de madeira e lançamento badalado no exterior: um vinho elegante com ares de Bordeaux. Catena bebeu às cegas dez vinhos e escolheu a amostra de Vigil. O rótulo chegou ao mercado, ficou na preferência de críticos em uma degustação às cegas com rótulos franceses famosos e levou Vigil ao cargo de enólogo chefe de Catena.

Nos anos 2000, após uma viagem à Borgonha com a família Catena, mais uma guinada em sua carreira. Ao visitarem produtores famosos de brancos, Vigil compreendeu que o Chardonnay não era sobre madeira, mas sobre a capacidade da uva de traduzir as características de um solo específico. Na volta, resolveu escolher sete parcelas diferentes de solo e altitudes e plantar com a uva Chardonnay. Cinco anos depois do plantio, duas parcelas deram resultados. Dali nasceram ícones como o White Bones e o White Stones.

Simultaneamente, mudava a filosofia com o Malbec. Menos intervenção, colheitas que respeitavam o frescor e um abandono progressivo da madeira nova. “Menos era mais”, resume. O ano de 2011 aparece como o ponto de inflexão, quando a vinícola parou de homogeneizar as parcelas e passou a tratá-las como únicas.

Vigil tem hoje duas tatuagens nos braços — uvas e os nomes dos seus dois filhos. Percorre até 700 quilômetros por dia durante a colheita para provar uvas em campo. Tem 25 anos de dados das mesmas parcelas anotados na cabeça. Não usa computador? Não anota num bloco de notas? “Assistentes anotam, quando precisa.”

Além de pensar em um livro de contos, está escrevendo um livro técnico, mas recusa o título de que escreverá sobre o terroir argentino. “Terroir precisa de 500 anos”, argumenta. Prefere falar em identidade.

Mantém a curiosidade como método e a negação do impossível. “Quando entrei na Catena, ouvi muitos falarem que nunca poderíamos fazer um Chardonnay importante,  nunca sairia um Cabernet Franc de qualidade. Hoje me dizem que não é possível fazer um Nebbiolo. Isso me motiva.”

No Vale de Uco, Nebbiolo, uma uva do norte da Itália, já está plantado a 1.600 metros. Vigil admite que provavelmente não verá o resultado final de muitos dos experimentos em sua plenitude, já que podem levar décadas. Mas ele sabe que as raízes das videiras, que hoje estão a 50 centímetros, chegarão a quatro metros de profundidade em algumas décadas. Como o avô que plantava tomates no dia seguinte ao granizo, Vigil trabalha para o futuro. “A raiz vai ficando”, diz ele. “É o que fica.”

Ficou famoso em 2018, quando a publicação de Robert Parker deu duas notas cem pontos para dois de seus vinhos. Foi o primeiro sul-americano a conquistar essa menção. Ele estava dirigindo pelas estradas do interior de Mendoza com sua esposa, quando recebeu a mensagem do importador da Dinamarca felicitando. O celular não pegava bem. Ele só entendeu quando conseguiu uma área com sinal. Chorou por uma hora relembrando sua história. “Pontos não são nada, mas mostram um vinho que provocou emoção em alguém em um momento”, diz ele, que já ganhou vários prêmios internacionais. Quando entrou em 2001, metade da produção era de cabernet sauvignon, 30% de chardonnay e o restante de malbec. Hoje, a malbec predomina, com 50%.

Além de produzir vinhos em sete regiões da Argentina e estar ao lado da mulher em dois restaurantes estrelados em Mendoza, resolveu se aventurar do outro lado do Atlântico. Seu projeto na Espanha, o El Reventón, é onde ele “tira férias trabalhando”. “É uma vinícola pequena, eu então uso as mãos na colheita, tenho uma relação ainda mais próxima com os vinhedos e estou perto de Madrid, onde percorro restaurantes e pratos, essa busca de harmonias me atrai.”

Ele dorme? “Pouco, mas ontem dormi sete horas”, diz na manhã da segunda-feira da entrevista. Vem para São Paulo seis vezes por ano, mais que Buenos Aires. Pretende agora tirar férias no Brasil em julho e levar a família para Fernando de Noronha. Talvez o livro de contos comece a ser escrito ali.

Surpresa às cegas: Noemía

27 de Abril de 2026

O convite chegou numa manhã de terça-feira. “Almoço na sexta-feira, pode?” A agenda estava livre. O amigo avisava que levaria todos os vinhos; cabia apenas fechar a lista de convidados. Nada de formalidades: seria apenas uma brincadeira entre amigos, dessas que misturam curiosidade e prazer. O restaurante escolhido ficava fora do eixo centro–zona sul–zona oeste: a Parrillita, na Avenida Lins de Vasconcelos, 988, no Cambuci. Bom preço, boas carnes, segundo o anfitrião.

Sentados à mesa, a pegadinha foi logo revelada: quatro vinhos tintos enrolados em papel-alumínio. Degustação às cegas, com direito a palpites antes da revelação. Seriam da mesma uva? De países diferentes? Safras distintas? As opiniões divergiam: dois rótulos pareciam vir do Novo Mundo, cheios de fruta; dois, do Velho Mundo, lembrando margem esquerda de Bordeaux ou talvez Espanha? https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/a-arte-de-envelhecer-e-permanecer-relevante/  Ou Portugal? https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/heteronimos-de-um-viticultor/ E quanto à idade? A maioria arriscava algo em torno de dez anos.

A expectativa aumentava à cada gole. O amigo em questão tinha a fama de uma adega generosa, recheada de rótulos de prestígio. Qual seria a surpresa desta vez? Quando o papel foi retirado, os olhos de todos se arregalaram: tratava-se do mesmo vinho, em safras diferentes. Não era Velho Mundo. Eram tintos da mesma vinícola. Mais precisamente, elaborados com malbec na fria Patagônia pela Bodega Noemía, das safras 2006, 2007, 2010 e 2011. São importados hoje pela @vinoterra_br.

As duas primeiras garrafas, quase vinte anos depois da colheita, mostravam como bons vinhos, não importa de onde, envelhecem com graça e complexidade. As mais jovens, por sua vez, exibiam o vigor da malbec — fruta generosa, taninos macios —, combinação perfeita com a suculência das carnes servidas. Noemia já foi tema de post desse site há anos (incluindo com viagem para conhecer os vinhedos e a propriedade: https://vinhosemsegredo.com/2011/11/17/chacra-e-noemiabodegas-de-terroir/.

Vinhedos das primeiras décadas do século passado são a espinha dorsal deste projeto biodinâmico na região argentina da Patagônia, mais especificamente na sub-região de Rio Negro. Os mesmos estavam para ser arrancados na virada do milênio quando aparece a figura central desta história, um dinamarquês perfeccionista chamado Hans Vinding-Diers. Percebendo o potencial da região e este pequeno tesouro de pouco hectares, não teve dúvida, articulou a negociação com duas poderosas famílias italianas do ramo vitivinícola. Piero Incisa della Rocchetta, proprietário do mítico supertoscano Sassicaia, e  Condessa Noemi Marone Cinzano do famoso Brunello di Montalcino Argiano.

Dividiram a propriedade em duas bodegas distintas (Chacra e Noemia), mas com um único propósito; elaborar vinhos de alta qualidade expressando fielmente a natureza de seus respectivos terroirs. Os pequenos lotes de vinhas antigas dividem-se por idade. As cepas plantadas em 1955 geram os vinhos Chacra 55 (Pinot Noir) e os vinhos J. Alberto (Malbec). Os vinhedos plantados em 1932 dão origem aos ícones Chacra 32 (Pinot Noir) e Noemía (Malbec). Os vinhos ícones provenientes das parreiras de 1932 diferenciam-se por uma concentração maior e rendimentos baixíssimos em torno de 20 hectolitros por hectare. A produção não passa muito de seis mil garrafas por safra.

A prova às cegas https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/degustador-as-cegas/ , sempre um exercício de humildade, acabou funcionando como antídoto contra uma tendência que vem crescendo em algumas rodas de enófilos brasileiros: o “cancelamento” do vinho argentino. Não se trata de boicote formal nem de cruzada declarada, mas de uma atitude repetida em algumas mesas e grupos de WhatsApp, em que o malbec (e por extensão outros argentinos) é tratado como algo fora de moda, previsível, quase um clichê.

Em algumas rodas enófilas, há quem torça o nariz não apenas para o malbec da Patagônia, mas também para uma das vinícolas mais prestigiadas da Argentina: a Catena Zapata, cuja história abriu o caminho para os vinhos da América Latina.

A história começa em 1902, quando Nicola Catena deixou a Itália, fugindo da fome que devastava sua região natal, e plantou em Mendoza a primeira vinha de malbec. Aos poucos, a uva francesa encontrou na Argentina um novo lar e ganhou dimensão internacional. Na década de 1960, porém, a economia argentina entrou em colapso, a inflação disparou e a família Catena enfrentou um de seus períodos mais difíceis. Colher as uvas custava mais caro do que deixá-las nas videiras.

Diante do dilema, Domingo Catena consultou seu filho de 22 anos, Nicolás — recém-doutor em economia. O jovem recomendou não colher. Mas Domingo não conseguiu contrariar a própria consciência e levou adiante uma safra que sabia trazer pouquíssima renda. Anos depois, Nicolás ainda recordaria a tristeza de ver o pai trabalhar em vão.

Nos anos 1980, após expandir a distribuição dos vinhos da família no Reino Unido, Nicolás teve uma oportunidade decisiva: tornar-se professor visitante na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Foi lá que conheceu de perto os vinhos da Califórnia, então em ascensão, e percebeu que um novo mundo era possível. Voltou a Mendoza com uma convicção clara: a Argentina também poderia produzir vinhos de classe internacional.

O contexto, no entanto, era adverso. Assim como o Chile, a Argentina era vista como produtora de vinhos de mesa baratos, vendidos a granel. Apostar em qualidade parecia uma temeridade. Nicolás vendeu a divisão de vinhos comuns e manteve apenas o braço dedicado aos vinhos finos. Colegas e concorrentes riram, chamando-o de “completamente loco”. Mas foi justamente esse gesto ousado — exportar o primeiro vinho argentino de qualidade internacional — que pavimentou o caminho para colocar o país no mapa mundial do vinho. Décadas depois, a vinícola seria reconhecida pelo crítico Robert Parker https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/parker-o-paladar-absoluto/  como “a referência em vinhos da América do Sul”

O almoço no Cambuci, com as safras da Bodega Noemía degustadas às cegas, mostrou exatamente isso: quando bem escolhidos, os vinhos argentinos são muito bons, envelhecem com elegância e seguem sendo parceiros ideais de uma boa carne. Mais do que revelar rótulos, a mesa mostrou algo maior: o “cancelamento” do vinho argentino em certas rodas fala menos sobre o que está dentro da taça e mais sobre modismos passageiros que, cedo ou tarde, também passam.

A arte de envelhecer e permanecer relevante: Vega Sicilia

20 de Abril de 2026

Nos turbulentos anos da Segunda Guerra Mundial, o premiê britânico Winston Churchill (https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/a-mesa-com-winston-churchill/) ainda encontrava tempo para desfrutar de comida e bons vinhos. Com frequência, jantava na embaixada espanhola em Londres, recebido pelo embaixador e duque de Alba, um parente distante. Não era apenas a amizade que o levava até lá, mas a lendária adega e o talento do chef de cozinha.

Em uma dessas ocasiões, Churchill provou um tinto que o encantou. Sem ver o rótulo, perguntou ao anfitrião qual vinho tinha bebido. Estava em dúvida em qual premier grand cru classé de Bordeaux tinha lhe sido servido. O embaixador sorriu. Não era um Latour. Revelou a garrafa: tratava-se de um Vega Sicilia. Essa anedota sempre vem à mente quando bebo um Vega, caso do recente ùnico 2013, cuja qualidade dos taninos tem poucos comparativos no mundo vitis.

Considerado um dos vinhos mais célebres e caros da Espanha, o Vega Sicilia tem raízes que remontam a 1864, quando a família Lecanda y Chaves trouxe mudas de Cabernet Sauvignon, Merlot e Malbec de Bordeaux e as plantou ao lado da uva espanhola Tempranillo, em Ribera del Duero. Para surpresa de todos, foi a variedade nativa que melhor se adaptou ao terroir.

O primeiro engarrafamento é motivo de debate, mas a consagração veio na Exposição Internacional de Barcelona de 1929, quando as safras de 1917 e 1918 receberam prêmios. Durante décadas, o rótulo permaneceu quase um segredo, reservado a um seleto grupo de amigos e clientes, o que só aumentou sua mística.

A história mudou em 1982, quando a vinícola passou às mãos da família Álvarez, que a dirige até hoje. Seu ícone, o “Único”, só é produzido em safras excepcionais — em muitos anos, simplesmente não é elaborado. As uvas vêm de vinhas com mais de 25 anos, e até a safra de 1980 a mescla incluía, além do Tempranillo, Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec e até pequenas quantidades da uva branca Albillo, como lembra o crítico John Gilman (https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/reflexoes-de-um-critico-de-vinhos-2/) em texto em que degustou 20 safras do lendário vinho. (Curiosidade: É uma das preferências do cantor Roberto Carlos – Boni mantém aalgumas garrafas na adega em Angra dos Reis para o rei da música. É também predileto do ex-presidente FHC).

Atualmente, o Único combina cerca de 95% de Tempranillo com Cabernet Sauvignon. A vinificação é meticulosa: cada um dos 81 lotes do vinhedo é fermentado separadamente em grandes tonéis de carvalho. O vinho amadurece, em média, dez anos na bodega, passando por barricas de diferentes idades, origens e tamanhos até atingir a integração perfeita entre fruta e madeira. Depois, repousa por ao menos três anos em garrafa antes de ser lançado. A própria vinícola fabrica suas barricas, escolhendo carvalho americano secado naturalmente por no mínimo três anos, um detalhe que reforça a obsessão pela qualidade e ajuda a explicar por que este rótulo se tornou uma lenda.

Fazer um vinho de guarda e qualidade significa atentar se a detalhes, como as rolhas. Entre 2018 e 2023, fez se um estudo na vinicola oremus na Hungria com rolhas diam e neutras no vinho mandolas. “Nao vimos o efeito uau”, diz juan pablo parra, subdiretor técnico de @bodegasvegasicilia. Por isso eles ainda utilizam rolhas naturais, com cuidados especiais. Os 11 produtores de rolhas tem de ressarcir caso haja problema em um vinho.Em dezembro de cada ano, para garantir a neutralidade absoluta, a equipe degusta essa a agua de um prensado de rolhas diversas. Se a água apresentar qualquer desvio de sabor ou aroma — mesmo que não seja TCA — o lote inteiro é rejeitado. Detalhes da produção de um dos maiores vinhos do mundo em breve em um novo projeto e plataforma.

Hoje em dia um vinho desses tem espaço diante de uma legião de consumidores que querem beber vinhos cada vez mais jovens? “O Vega tem grande potencial para envelhecer, mas pode ser desfrutado mais jovem também por conta de como é vinificado. A flexibilidade na vinificação do Veja  permite que seja desfrutado mais jovem, juntamente com o seu apelo clássico, ajuda a manter sua relevância”, diz Diana Kelley, gerente regional para Américas da vinícola, que esteve há dias, em São Paulo, em evento da importadora Mistral.

A presença da vinícola em eventos, o engajamento nas redes sociais e a expansão para novos mercados e regiões, como a Hungria e a parceria com a família Rothschild para o lançamento do Macán em Rioja, demonstram um esforço contínuo para se conectar com uma audiência diversificada e ampliar seus horizontes. O futuro lançamento de um Albariño em 2027, com base na tradição de vinhos minerais da Galícia, reflete uma estratégia de inovação alinhada às tendências de consumo sem perder o toque clássico da vinícola. “O sucesso dos tintos fez muitos perguntarem quando faríamos um vinho branco na Espanha. Foram feitas experiências e agora em 2027 deverá ser lançado um albariño diferenciado”, destaca Diana.

Lado B das uvas

18 de Maio de 2026

A última erupção vulcânica em Santorini data do início de 1950. Vislumbrar o vulcão é um dos passeios turísticos feitos pelos mais de três milhões de turistas que visitam a ilha grega. Eles também podem desfrutar das fontes de águas termais às sombras do vulcão. O solo tem outro trunfo: pouco mais de 20 vinícolas produzem vinhos ali, principalmente brancos, com destaque para a uva assyrtiko, cujos melhores rótulos são comparados por especialistas a grandes rótulos de Chablis.

Um dos mais reputados da região, o produtor Gaía, importado Brasil pela Mistral, trabalha um punhado de uvas de nomes quase desconhecidos no Brasil, além da Assyrtiko. Por exemplo, vinifica um branco com a uva Moschofilero em vinhedos situados em altitudes elevadas no Peloponeso. Foi ali que se deflagrou na Antiguidade uma guerra entre as cidades-estado gregas, opondo Esparta e Atenas, que disputavam a hegemonia na Grécia. Resultou na vitória espartana, mas representou o fim século de ouro ateniense e abriu espaço para o império macedônio e depois a todos os caminhos chegarem a Roma.

Os preços dos vinhedos estão em alta na Grécia. Em Santorini, a disputa das vinhas é com o turismo. Um hectare pode sair mais de 500 mil euros, baixo para outros países, como a França, mas elevado para vinhos que começaram a ganhar atenção internacional há menos de três décadas.

No norte da Itália, o Piemonte é terra do vinho dos reis (Barolo). Uma de suas uvas brancas mais relevantes quase desapareceu entre os vinhedos desprestigiada em meio à fama dos tintos. No início dos anos 1980, a produção da Timorasso estava relegada a poucos hectares, até que um grupo de produtores locais buscou resgatar a tradição.  

A Timorasso é uma uva caprichosa: pele fina, propensa a doenças e de baixo rendimento. Por décadas, foi substituída por variedades consideradas mais fáceis pelos produtores e pela demanda do mercado por barberas, barbarescos e barolos. Foi o esforço de produtores como Ferdinando Principiano (importado pela Italy Import) que devolveu a esta casta o seu lugar de direito: um lugar à mesa. Hoje são mais de 60 vínicolas engarrafando a cepa.

Timorasso é uma uva de aromas e sabores particulares. Diferente de muitos brancos italianos feitos para o consumo imediato, possui mais estrutura e uma textura rica, quase oleosa, equilibrada por acidez. Notas de maçã, ervas e uma salinidade profunda definem exemplares como o Langhe Bianco de Principiano.

Na Borgonha, a Aligoté sempre viveu à sombra da onipresente Chardonnay. Relegada aos piores terrenos e frequentemente destinada a ser misturada ao licor de cassis para compor o coquetel Kir, era a uva sem pretensões. No entanto, o cenário mudou drasticamente, com um punhado de novos produtores que buscaram apostar na cepa.

O renascimento da Aligoté deve-se, em parte, às mudanças climáticas — sua casca grossa mantém o frescor em verões mais quentes — e ao trabalho de produtores de elite. No portfólio da importadora Anima Vinum, um dos destaques é Sylvain Pataille, que produz uma série de Aligotés em diversos solos diferentes, buscando mostrar que a uva a depender de onde é plantada muda suas características, como a Chardonnay. Com preço mais em conta, na mesma importadora, o produtor Arnoux produz um Aligoté que combina com pratos de frutos do mar. São vinhos tensos, cítricos e profundamente gastronômicos.

No noroeste da Espanha, a região de Bierzo, um importante ponto de passagem na rota de peregrinação para Santiago de Compostela, tem ganho destaque com a Mencía. Por muito tempo relacionada erroneamente à Cabernet Franc, a uva produz tintos elegantes, focados em fruta vermelha e com uma distinta mineralidade. Um produtor tem se destacado: Raúl Pérez, disponível na importadora World Wine.

Por fim, uma das histórias mais fascinantes de resgate vem de Portugal, mais precisamente na pequena ilha de Porto Santo, vizinha à ilha da Madeira. O projeto de António Maçanita e Nuno Farias se chama Companhia de Vinhos dos Profetas e Villões. Na Ilha da Madeira chamam “Profetas” os habitantes de Porto Santo, que respondem aos vizinhos com a alcunha de “Villões”. Importados no Brasil pela Emi Wines, os vinhos são feitos com uvas com nomes pouco conhecidos.

 A casta Listrão é uma variedade de uva que é cultivada no Porto Santo, como também nas Canárias, em Jerez, e em Portugal continental. Acredita-se que tenha sido introduzida na ilha por volta do século XV, pelos navegadores portugueses que retornavam de suas viagens ao continente africano. Já a Tinta Negra é conhecida na Ilha da Madeira, mas fora dela é rara. Encontra-se apenas em regiões marítimas está por perto, sendo batizada de Molar em Colares, onde está praticamente extinta, e de Saborinho, nos Açores, que está em processo de recuperação.