Arroz de pato: com qual vinho?

30 de Março de 2026

A origem da receita é desconhecida, ainda sendo razão de debate: uns apontam para o centro de Portugal, mais especificamente para Lafões; outros, mais recentemente, indicam que a criação do prato teria sido em Braga. Discordâncias históricas à parte, o arroz de pato (campeão de audiência do site há década) ganhou mesas de restaurantes e casas no século 20, com a necessidade de comer fora de casa e a consequente multiplicação dos restaurantes, relembrou o jornalista Dias Lopes em texto de 2017.

Arroz de pato do quinta do marquês, no km 53 da Castello Branco: uma preferência pessoal

Joana Simon, uma das maiores especialistas em enogastronomia, cujo livro “Vinho e Comida” é um dos melhores sobre o tema, relata que os mouros introduziram o cultivo do arroz em Portugal no início do século VIII, embora durante muito tempo tenha permanecido um alimento dos ricos. Tornou-se muito mais amplamente consumido durante o século XX, na sequência de um plano de gestão de terras e águas, impulsionado a partir de 1921 por grandes importações do Brasil e das colônias portuguesas na África.

É um prato simples, baseado em três ingredientes principais – o pato, o arroz e o chouriço. A maior parte das discussões, em Portugal, se refere ao arroz e ao vinho. O arroz tradicional utilizado é o carolino português, uma variedade de grão médio a longo, rica em amido, que absorve bem os sabores (não muito diferente de variedades de risotto como o carnaroli, mas com mais amido). No entanto, algumas pessoas utilizam o arroz agulha, de grão mais longo, que resulta numa textura menos cremosa. Quanto ao vinho, alguns utilizam vinho tinto, outros insistem no branco.

O arroz de pato é um prato bastante rico, mas versátil; por isso, pode aceitar vários estilos de vinho de acompanhamento. Joana Simon prefere tinto com ele, e normalmente português. “Gosto que o vinho tenha alguma acidez ou frescura mineral para cortar a riqueza, algo que Portugal faz bem, mas certamente não está sozinho. Para sugerir apenas duas regiões além das suas fronteiras: os Beaujolais Crus de vinhas velhas, de produtores como Jules Desjourneys e Château du Moulin-à-Vent; e o Priorat, sobretudo o Torres Mas de la Rosa 2017, um lote de Garnacha e Cariñena requintado e etéreo, em vez de uma potência típica do Priorat”, escreveu em um artigo na World of Fine Wine.

Além de acidez e mineralidade, há outros elementos que ajudam quando se quer pensar no vinho ao lado do prato. Uma variável é um certo grau de envelhecimento do vinho. Não é aconselhável um vinho muito jovem. Neste caso, os sabores da carne cozida e posteriormente assada, juntamente com os embutidos, não necessitam de taninos tão presentes. A acidez talvez seja mais importante para combater a gordura do prato.

Os taninos já pelo menos parcialmente polimerizados nos vinhos de certa evolução são suficientes para a suculência do prato. Além disso, os aromas terciários do vinho vão muito melhor com os sabores assados e defumados do prato. Um Reserva Ferreirinha com dez anos de idade por exemplo, seria maravilhoso. Outras alternativas portuguesas poderiam ser vinhos do Dão, de preferência os mais modernos com um pouco mais de potência, ou um belo Buçaco, naturalmente envelhecido, onde os sabores do Dão e Bairrada se fundem.

Saindo de Portugal, podemos ir para os italianos. A sangiovese, com sua acidez, é uma boa pedida, por exemplo num belo Brunello di Montalcino. Um Taurasi envelhecido com a uva Aglianico é outra bela pedida. Do lado espanhol, um Ribera del Duero, um Rioja Reserva ou Gran Reserva mais moderno, mais encorpado, também podem dar certo.

Quanto aos franceses, penso que o Rhône é a melhor opção. Um Cornas ou um bom Crozes-Hermitage com alguns anos de garrafa tem o perfil deste prato com as características da Syrah. Com um pouco mais de sofisticação, podemos tentar um Côte-Rôtie ou o grande Hermitage. No caso deste último, deve ser bem envelhecido para amansar sua potência.

Se a ideia for buscar vinhos do Novo Mundo, bom considerar que apenas os grandes tintos da região possuem capacidade para envelhecimento. Um Malbec da Bodega Achaval Ferrer, um Cabernet chileno de estirpe como o Casa Real Santa Rita, ou um Shiraz com toques de evolução como o sul-africano  da vinícola Neil Ellis.

Para não correr grandes erros, vamos ficar com a receita do restaurante Bela Sintra, referência em comida portuguesa em São Paulo.

1 Tempere o pato com o vinho branco, 2 cebolas, o louro, a pimenta-do-reino, o salsão e as cenouras picadas.
2 Deixe marinar por 12 horas, coloque o pato em uma panela de pressão com os legumes, cubra com água, tempere com sal e cozinhe por 15 a 20 minutos.
3 Desfie a carne e reserve.
4 Refogue no azeite a cebola restante com o alho e o bacon, acrescente o arroz e junte 1 litro do caldo do cozimento do pato.
5 Quando o caldo estiver fervendo, acerte o sal e deixe o arroz cozinhar.
6 Depois de cozido, misture o pato desfiado com o arroz em uma travessa.
7 Finalize com as rodelas de cenoura e chouriço sobre o arroz e leve ao forno por aproximadamente 20 minutos.

Almoço com Chiara Pepe

28 de Março de 2026

No começo da década de 1970, Emidio Pepe resolveu viajar aos Estados Unidos para mostrar a revolução iniciada em 1964 em sua vinícola em Abruzzo, região agrícola a leste de Roma, entre o Adriático e os Apeninos e que não despertava nem o interesse da crítica nem dos enófilos. Na sua mala, levou algumas garrafas de seu tinto, feito com a uva local Montelpulciano, considerada por muitos como ruim até para se usar nos molhos.

Uma garrafa foi parar na mesa de Lidia Bastianich, apresentadora premiada de televisão americana e autora de livros de culinária. Lidia gostou tanto que comprou o restante do que Emidio tinha trazido na mala para servir na abertura de seu restaurante, o Felidia, em Manhattan. Na inauguração do endereço, sentou-se à mesa e bebeu o Montepulciano, que ganhou centenas de pedidos quando os jornais americanos estamparam as fotografias do evento. Nunca mais a família parou de viajar. A vinícola se tornou tão reputada no exterior como a de Angelo Gaja ou de Biondi Santi. O Montelpuciano da safra 1964 foi vendido em leilão a mais de US$ 4 mil por uma loja em Nova York há poucos anos.

um almoço com chiara pepe; história de emidio pepe

Chiara Pepe, que assumiu o comando da vinícola na safra 2020 e agora em 2026 irá também comandar um dos mais famosos vinhos do planeta – La Chapelle, em Hermitage, conta com um sorriso essa história no almoço de uma terça-feira do fim de março de 2023 (última visita dela ao Brasil) em São Paulo, no Baru Marisqueria, quando questionada se gosta de viajar pelo mundo. “Faz parte da nossa história, assim como a biodinâmica”, diz ela, nascida em 1989. As 80 mil garrafas (45 mil do tinto, 5 mil de um disputado rosé – o Cerasuolo – e o restante de dois brancos – o Trebbiano e o Pecorino) são vendidas para 40 países, entre eles o Brasil, onde os vinhos serão importados a partir de 2026 pela Clarets. Foi sua terceira viagem ao país, a primeira desde que começou a vinificar. Em 2023, veio para um jantar no restaurante italiano Fame, zona oeste de São Paulo, para apresentar seus vinhos, então importados pela Uva Vinhos. “Os brasileiros têm um especial apelo pelo branco feito com a uva Pecorino, que enseja vinhos aromáticos e exóticos.”

Quando Chiara vinificou seus primeiros vinhos em 2020, o primeiro a bebê-los foi Emidio, que hoje assiste à distância aos passos da neta. “Ele ficou orgulhoso.” Não mudou a vinificação. Desde sua infância, Chiara viu seu avô trabalhar nas videiras e na cantina. Foi para a França estudar enologia e fez um estágio de um ano na Borgonha, no domaine Chandon de Briailles. Quando assumiu, não mudou nada. Desde 1964, não se usam defensivos para tratar os vinhedos. Primeiro, porque não existiam naquela época, segundo porque poderiam trazer algum impacto para os vinhos. Não se usa madeira. Os vinhos são envelhecidos em grandes toneis de cimento com leveduras naturais e vendidos quando a família julga estarem prontos para serem bebidos. As uvas são colhidas à mão e pisadas em um grande tonel de madeira. Eles começaram fazendo vinhos naturais décadas antes de o termo, em voga hoje, ter nascido.  

“Quando assumi, foi uma questão de manter a história do meu avô. Não fazemos nem faremos concessões para o mercado”, fala, abrindo seu branco feito de Trebbiano d´Abruzzo, safra 2015. As safras são vendidas quando a família acredita que os vinhos estejam prontos para serem bebidos. Emidio foi um dos primeiros a construir um espaço para envelhecer seus vinhos por longos períodos em garrafas antes do lançamento. A vinícola conta com uma adega com capacidade para envelhecer 350.000 garrafas. Há 50 anos, Montelpuciano era um vinho para ser bebido jovem, o governo encorajava cada vinícola a produzir centenas de milhares de garrafas para serem vendidas. “Meu avô ficou furioso e por isso decidiu apostar em outra direção e ir para os Estados Unidos ver se entendiam sua filosofia, que sempre foi natural”, diz ela servindo o Montelpuciano 1993, que com três décadas esbanja juventude.

O aquecimento global tem interferido nas datas de colheita (e nas férias), podendo a vindima ser antecipada ou prorrogada em duas a três semanas, o que pode fazer com que ocorra entre metade de agosto e início de setembro. Quando chega o momento a família de sete pessoas e outros 10 trabalhadores locais trabalham colhendo as uvas.

Além da preocupação com o clima, os preços dos vinhos nas regiões mais famosas do mundo têm feito surgirem dezenas de ofertas de compradores de terras do mundo todo. No Piemonte e na Toscana, dois dos mais famosos terroirs italianos, vinícolas foram compradas por americanos, ingleses, franceses, russos e até brasileiros (André Esteves e Galvão Bueno). Em Abruzzo, os preços da terra explodiram. Há 10 anos, um hectare valia 10 mil euros. Hoje pode custar 50 mil euros, um valor considerável, mas ainda muito abaixo dos 1 milhão de euros que podem ser alcançados em Barolo ou Barbaresco, terra onde nascem os melhores nebbiolos do planeta. “Há uma preocupação de que algumas vinícolas não sejam mais de famílias e percam essa essência artesanal.”

Mais sobre a vinda de Chiara em 2023 aqui: https://pisandoemuvas.com/2023/05/19/emidio-pepe-de-nova-york-para-o-mundo/

O nome da uva

27 de Março de 2026

Em 1985, o cineasta francês Jean-Jacques Annaud precisava de um mosteiro histórico para filmar seu próximo longa-metragem – Nome da Rosa, baseado no livro homônimo do escritor italiano Umberto Eco. Fez sua equipe vasculhar a Europa à procura de um que tivesse sido construído havia séculos antes. Detalhes faziam a diferença. Para se preparar, Annaud leu centenas de livros e contratou Jacques Le Goff, um historiador especialista na época medieval, como consultor histórico de produção.

Depois de muita procura, chegaram ao Kloster Eberbach, abadia cisterciense fundada em 1136 às margens do Rheingau, um pedaço de terra hoje famoso pelos rieslings. Sean Connery – o eterno James Bond – chegou pouco depois da seleção da locação, para encarnar Guilherme de Baskerville, o religioso que investiga mortes misteriosas num mosteiro beneditino no século XIV. As câmeras filmavam os interiores da abadia. Do lado de fora, estavam os vinhedos. Mas eles não eram de riesling.

O ano em que passa a trama é 1327. A uva Riesling tem sua primeira documentação registrada em 13 de março de 1435. Entre o ano da trama de Eco e a primeira prova documental da existência do Riesling há um intervalo de mais de um século.

Na abadia, os monges seguiam rigorosamente a regra de São Bento, focada na oração, silêncio e trabalho manual e intelectual. Cada um recebia uma hemina de vinho por dia — cerca de 0,27 litros. O que os monges do Kloster Eberbach bebiam era Elbling, uma cepa de origem provavelmente romana e que foi a uva mais cultivada na Alemanha por muitos séculos. Hoje a principal produção é de Riesling, a uva que fez a fama da Alemanha no mapa múndi enológico. (Os vinhos de Kloster Eberbach chegam ao Brasil pela importadora Weinkeller, que receberá em breve novos rótulos da safra 2022, como esse ótimo riesling trocken).

Eco, que não escolheu o cenário, nunca comentou a ironia. O autor sempre manteve uma postura de prazer à mesa. À revista italiana Gambero Rosso, Stefano Delfiore, dono de uma enoteca histórica, em Bolonha, que fechou as portas no início de 2026 depois de décadas no mesmo ponto, contou recentemente que Eco chegava ali por volta do meio-dia e quinze, logo após as aulas na universidade. Preferia uma taça de vinho branco a tinto. Mas não abria a carta. Deixava-se guiar pela sugestão da casa, preferindo uma taça de vinho branco e a boa conversa ao rigor técnico das safras. (Uma sugestão é o roero arneis de Bruno Giacosa, importado pela Mistral e já resenhado em algumas resenhas ao longo dos anos no site).

Entre vinhedos históricos da Alemanha e o balcão de uma enoteca em Bolonha, a trajetória de Umberto Eco revela que, na literatura como na mesa, a verdade nem sempre está no rótulo e na conta de um hotel... Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/o-nome-da-uva/. O conteúdo de CartaCapital está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente de CartaCapital vivo e acessível a todos

Semiólogo, Eco investigava a cultura e hábitos. Tinha uma teoria do café ruim. Em uma de suas crônicas à imprensa italiana, dedicou seu texto ao café que se assemelhava a uma lavagem. Mapeou os lugares onde era servido em quantidade: prisões, vagões-leitos, hotéis de luxo. Aplicou Max Weber à receita: o bule de porcelana projetado para derramar metade do café nos croissants e o restante nos lençóis.

Se na ficção Eco lidava com pergaminhos, pêndulos, labirintos, na vida real travava batalhas contra a pressa e as falhas da modernidade.  No mesmo ano em que Annaud filmava no Kloster Eberbach, Eco lançou Como viajar com um salmão, um livro com curtas crônicas que passeiam por diversos temas – de comida de avião a futebol. Na crônica que dá nome ao livro, relata a compra de um salmão defumado em Estocolmo. O peixe é embalado em plástico. A missão é fazer com que chegue a Londres, onde ele ficaria por três até voltar à Itália. 

Quando chegou ao hotel de luxo reservado pelo seu agente literário, Eco desconfiou que o plano seria mais difícil que o previsto inicialmente. Famílias inteiras estavam acampadas no saguão, viajantes enrolados em cobertores dormiam em meio às suas bagagens. Um sistema computadorizado foi instalado e, antes que todas as falhas pudessem ser eliminadas, ele sofreu uma pane de duas horas.

Quando a confusão se desfez, foi ao quarto. Retirou tudo do mini refrigerador e colocou o salmão que tinha comprado. Achou que tudo estava certo. No dia seguinte, ao retornar ao quarto depois de andar por Londres, se deparou com o peixe em cima de uma mesa e garrafas de bebidas dentro da geladeira. Repetiu o procedimento tirando tudo de dentro e recolocando o salmão. No dia seguinte, voltou a ver o peixe sobre a mesa, dessa vez com um aroma que já denunciava má conservação.

Reclamou na recepção, mas ninguém entendeu nada. Eco entendeu menos ainda ao receber a conta. Havia garrafas de whisky, gin, águas, três meias-garrafas de champanhe, latas de cerveja e garrafas de vinho branco e tinto. O computador o tinha cobrado como se ele tivesse bebido tudo aquilo, mesmo ele apontando que tinha sido erro do sistema de computador. “Agora meu editor está furioso e pensa que sou um aproveitador crônico. O salmão não está comestível. Meus filhos insistem para que eu reduza a bebida.”

Na crônica “Como Comer num Avião”, cataloga com rigor as comidas admissíveis e inadmissíveis durante turbulência — costeleta empanada, carne grelhada, queijo, frango assado do lado permitido; espaguete ao molho de tomate, parmegiana de berinjela, consommé quente do lado proibido. Eram outros tempos de viagens aéreas.

Umberto Eco morreu em fevereiro de 2016. Em fevereiro desse ano, dez anos depois, a Antica Drogheria Calzolari, sua enoteca favorita em Bologna, fechou as portas. A concorrência vitimou o estabelecimento comercial do autor. Ficaram as histórias, as crônicas e os livros.

LADO B das uvas

27 de Março de 2026

A última erupção vulcânica em Santorini data do início de 1950. Vislumbrar o vulcão é um dos passeios turísticos feitos pelos mais de três milhões de turistas que visitam a ilha grega. Eles também podem desfrutar das fontes de águas termais às sombras do vulcão. O solo tem outro trunfo: pouco mais de 20 vinícolas produzem vinhos ali, principalmente brancos, com destaque para a uva assyrtiko, cujos melhores rótulos são comparados por especialistas a grandes rótulos de Chablis.

Um dos mais reputados da região, o produtor Gaía, importado Brasil pela Mistral, trabalha um punhado de uvas de nomes quase desconhecidos no Brasil, além da Assyrtiko. Por exemplo, vinifica um branco com a uva Moschofilero em vinhedos situados em altitudes elevadas no Peloponeso. Foi ali que se deflagrou na Antiguidade uma guerra entre as cidades-estado gregas, opondo Esparta e Atenas, que disputavam a hegemonia na Grécia. Resultou na vitória espartana, mas representou o fim século de ouro ateniense e abriu espaço para o império macedônio e depois a todos os caminhos chegarem a Roma.

Os preços dos vinhedos estão em alta na Grécia. Em Santorini, a disputa das vinhas é com o turismo. Um hectare pode sair mais de 500 mil euros, baixo para outros países, como a França, mas elevado para vinhos que começaram a ganhar atenção internacional há menos de três décadas.

No norte da Itália, o Piemonte é terra do vinho dos reis (Barolo). Uma de suas uvas brancas mais relevantes quase desapareceu entre os vinhedos desprestigiada em meio à fama dos tintos. No início dos anos 1980, a produção da Timorasso estava relegada a poucos hectares, até que um grupo de produtores locais buscou resgatar a tradição.  

A Timorasso é uma uva caprichosa: pele fina, propensa a doenças e de baixo rendimento. Por décadas, foi substituída por variedades consideradas mais fáceis pelos produtores e pela demanda do mercado por barberas, barbarescos e barolos. Foi o esforço de produtores como Ferdinando Principiano (importado pela Italy Import) que devolveu a esta casta o seu lugar de direito: um lugar à mesa. Hoje são mais de 60 vínicolas engarrafando a cepa.

Timorasso é uma uva de aromas e sabores particulares. Diferente de muitos brancos italianos feitos para o consumo imediato, possui mais estrutura e uma textura rica, quase oleosa, equilibrada por acidez. Notas de maçã, ervas e uma salinidade profunda definem exemplares como o Langhe Bianco de Principiano.

Na Borgonha, a Aligoté sempre viveu à sombra da onipresente Chardonnay. Relegada aos piores terrenos e frequentemente destinada a ser misturada ao licor de cassis para compor o coquetel Kir, era a uva sem pretensões. No entanto, o cenário mudou drasticamente, com um punhado de novos produtores que buscaram apostar na cepa.

O renascimento da Aligoté deve-se, em parte, às mudanças climáticas — sua casca grossa mantém o frescor em verões mais quentes — e ao trabalho de produtores de elite. No portfólio da importadora Anima Vinum, um dos destaques é Sylvain Pataille, que produz uma série de Aligotés em diversos solos diferentes, buscando mostrar que a uva a depender de onde é plantada muda suas características, como a Chardonnay. Com preço mais em conta, na mesma importadora, o produtor Arnoux produz um Aligoté que combina com pratos de frutos do mar. São vinhos tensos, cítricos e profundamente gastronômicos.

No noroeste da Espanha, a região de Bierzo, um importante ponto de passagem na rota de peregrinação para Santiago de Compostela, tem ganho destaque com a Mencía. Por muito tempo relacionada erroneamente à Cabernet Franc, a uva produz tintos elegantes, focados em fruta vermelha e com uma distinta mineralidade. Um produtor tem se destacado: Raúl Pérez, disponível na importadora World Wine.

Por fim, uma das histórias mais fascinantes de resgate vem de Portugal, mais precisamente na pequena ilha de Porto Santo, vizinha à ilha da Madeira. O projeto de António Maçanita e Nuno Farias se chama Companhia de Vinhos dos Profetas e Villões. Na Ilha da Madeira chamam “Profetas” os habitantes de Porto Santo, que respondem aos vizinhos com a alcunha de “Villões”. Importados no Brasil pela Emi Wines, os vinhos são feitos com uvas com nomes pouco conhecidos.

 A casta Listrão é uma variedade de uva que é cultivada no Porto Santo, como também nas Canárias, em Jerez, e em Portugal continental. Acredita-se que tenha sido introduzida na ilha por volta do século XV, pelos navegadores portugueses que retornavam de suas viagens ao continente africano. Já a Tinta Negra é conhecida na Ilha da Madeira, mas fora dela é rara. Encontra-se apenas em regiões marítimas está por perto, sendo batizada de Molar em Colares, onde está praticamente extinta, e de Saborinho, nos Açores, que está em processo de recuperação.

Ao resgatar uvas que o tempo e o mercado quase apagaram, esses produtores mostram que a multiplicidade de gostos e variedades continua à prova dos modismos O que que não pode ser replicado em nenhum outro lugar do mapa vale à pena conhecer.

Melhores de 2025 – Itália

20 de Dezembro de 2025

Num mundo em que cada vez mais champagnes se aproximam dos quatro dígitos, as borbulhas italianas têm um lugar crescente sobre a mesa.

Espumantes: Franciacorta Edea Mirabella  (Italy Import); Ferrari Brut (Vinheria Percussi); Ferrari Perlé 2018 (Vinheria Percussi)

Brancos

Nem só de chardonnay bourguignon se vive, nem também só de Valentini.

Autóctones: Valentini 2020 (Decanter); Vintage Tunina 2020 (Berkmann); Trebbiano d´abruzzo 2015 Emidio Pepe *(novo importador em breve)

Chardonnay: Cervaro della Salla 2020 (Berkmann); Gaia e Rey 2016 (Mistral); Were Dreams 2021 Jermann (Berkmann);  Ca del Bosco 2017 (Mistral)

Chardonnay qualidade preço: Kurtatsch 2023 (Italy Import); Primosic (VinVin&Co)

Etna qualidade preço branco: Pietradolce (Italy Import); Alta Mora (World Wine), Planeta (Grand Cru)

Etna bianco: Etna Bianco Superiore Contrada Salice 2023 (Mistral)

Sobremesa: Donnafugata Passito di Pantelleria “Ben Ryé” (World Wine); Vin Santo Fontodi 2001 (Mistral)

Tintos

Sul da Itália

Poucos terroirs têm ganho tanto refinamento nos últimos anos quanto o Sul da Itália, com destaque para o vulcânico terroir de Etna. Surpresa foi o Idda, parceria de Angelo Gaja  com Alberto Gracci, um vinho elegante e delicado, marcas registradas de Gaja.

Etna qualidade preço tinto: Pietradolce (Italy Import); Alta Mora (World Wine)

Etna rosso: Idda (Mistral); Pietradolce Santo Spirito 2020 (Italy Import)

Toscana

A mudança da legislação há uma década e meia e a criação do Gran Selezione trouxeram uma melhoria notável em uma série de produtores que já faziam um ótimo trabalho.

Chianti clássico: Fontodi 2021 (Mistral); Riecine 2022 (Italy Import); Tenuta di Corleone 2021 (Uva Vinhos); Mazzei Fonterutoli Chianti Classico (Grand Cru)

Chianti Riserva: Riecine 2021 (Italy Import); Caparsa 2019 (Tanyno)

Chianti Gran Selezione: San Lorenzo 2018 Castello di Ama (Mistral); Vigna del Sorbo 2020 (Mistral); Gran Selezione Vigneto Bellavista 2016 (Mistral)

Supertoscano 100% sangiovese: Montevertine 2016 (Decanter); Ceparello 2021 (decanter)

Supertoscano uvas internacionais: Petra di Petra 2020 (Italy Import); L´Apparita 2020 (Mistral)

Tinto qualidade preço: Belvento e Cileggio (Italy Import)

Rosso di Montalcino: Poggio di Sotto 2020 (Italy Import)

Brunello di Montalcino: —

Piemonte

Nos últimos dois anos, o mercado brasileiro recebeu um punhado de novos nomes que aumentaram a opção dos que gostam desses vinhos. Da volta de Giuseppe Mascarello e Giuseppe Cortese à chegada de Sottimano e Castello di Verduno (que com a ascensão de preços de Burlotto tem coisas a se conhecer…)

Dolcetto: Giuseppe Mascarello 2022 (Clarets); Ca di Press 2022 (Clarets); Giuseppe Cortese 2023 (Tanyno)

Barbera qualidade preço: Barbera d´alba Fratelli Alessandria (VinVin&co); Barbera d´alba Vajra (VinVin&co); Barbera d´alba 2022 Principiano Ferdinando (Italy Import); Barbera 2021 Giuseppe Cortese (Tanyno); Scarzello Superiore (Tanyno)

Barbera:  Luciano Sandrone 2022 (Clarets); Barbera Scudetto Giuseppe Mascarello (Clarets); Barbera Aves Burlotto (Clarets); Bricco dell’Uccellone 2020 (Tanyno); Ai Suma 2020 (Tanyno)

Nebbiolo qualidade preço: Principiano Ferdinando (Italy Import); Vajra (VinVin&Co); Castello di Verduno 2023 (Tanyno)

Nebbiolo: Langhe Rosso 2017 Roagna (Clarets); Giuseppe Mascarello 2022 (Clarets)

Barbaresco qualidade-preço: Ada Nada 2020 (Italy Import); Barbaresco 2021 Giuseppe Cortese (Tanyno); Produtori del Barbaresco 2021 (Vin Essence)

Barbaresco: Sottimano Currà 2019 (Tanyno); Sottimano Pajoré 2021( Tanyno);  Gaja 2020 (Mistral)

Barolo: Vigna Rionda 2017 Giovanni Rosso; Barolo Bricco delle Viole 2017  G.D.Vajra (VinVin&Co); Monvigliero 2021 Fratelli Alessandria (VinVin&Co); Scarzello Vigna Merenda 2016 (Tanyno); Monvigliero 2018 Castello di Verduno (Tanyno)