A cápsula cortada

6 de Julho de 2026

Como o mercado de leilões e a especulação pós-morte transformam vinhos raros em ativos financeiros imunes ao teste da taça


Em 29 de junho, às 11h06 pelo horário de Londres, encerrou-se o leilão do lote 251 da casa britânica Sotheby’s: uma garrafa Magnum (dobro do tamanho normal) de Vosne-Romanée Cros Parantoux 1978, de Henri Jayer. O catálogo descreve a garrafa em minúcias e como a autenticidade teria sido checada: o líquido está a 4,3 centímetros abaixo da base da rolha, a etiqueta mostra dano leve, a cápsula que recobre a rolha foi “cortada e rasgada durante o processo de autenticação para revelar uma rolha marcada com a safra, mantida no lugar com fita adesiva transparente”.

A estimativa dos lances variava de 40 mil a 55 mil libras (entre 300 mil reais a R$ 400 mil reais — por uma garrafa. O preço do lance vitorioso ou se houve disputa pela garrafa não aparecem no site: para vê-lo, é preciso ter conta na casa de leilões para ter participado.

A garrafa tem biografia. Saiu de um leilão em Hong Kong, em junho de 2018; passou pela adega de um colecionador, foi revendida em Hong Kong em outubro de 2021; teve a autenticação confirmada em abril de 2025; e agora reapareceu. Em novembro de 2024, dez garrafas do mesmo vinho, mas na safra 1999, saídas da adega do mesmo colecionador, somaram 219.160 euros, pouco mais de um milhão de reais.

Henri Jayer morreu em 20 de setembro de 2006 na Borgonha – seus vinhos passaram então a ser vinificados pelo sobrinho. O nome e a data são usadas pelas casas de leilão e pelos colecionadores para explicar por que garrafas podem custar o preço de um imóvel. A lógica é simples: o viticultor morreu, não fará mais vinho, o que existe é o que está na adega, o preço sobe. Cada vez mais a equação tem sido usada.

Henri Jayer moldou a identidade moderna da Borgonha ao inverter a lógica de grande produção do pós-guerra por meio de uma produção focada em rendimentos mínimos por videira e na rejeição de fertilizantes sintéticos. Sua capacidade de leitura da terra fixou-se em Cros Parantoux, um “jardim” de apenas 1,01 hectare pedregoso e negligenciado, que hoje se tornou um dos mais caros vinhedos do mundo.

Jayer replantou os vinhedos durante a Segunda Guerra Mundial. “É um vinhedo ingrato. É preciso usar explosivos para abrir um buraco e plantar uma videira de reposição”, relatou Henri Jayer em um livro. Ele também observou que durante a guerra eram plantadas alcachofras de jerusalém. Hoje, seu sobrinho e outra propriedade vinificam ali.

No Rhône, Noël Verset virou referência além dos críticos. Permaneceu na região de Cornas, quando a crise econômica e os empregos em fábricas levaram os agricultores a abandonar a atividade. Trabalhando por 75 anos na área, manteve a produção ativa por meio de métodos tradicionais buscando sempre engarrafar o melhor. Sem herdeiros para o negócio, Verset vendeu suas terras gradualmente para outros produtores da região, o que impediu o desaparecimento dos vinhedos e garantiu a continuidade da atividade agrícola local.

Sua última safra comercial foi a de 2000; seguiu fazendo vinho para a família até 2006. Entre a última garrafa e o obituário há nove anos. O “vinho camponês” de Verset chegou a ser vendido a cerca de 500 dólares a garrafa — e isso enquanto ele ainda vivia, confinado num asilo, sem tocar numa videira havia mais de uma década. As garrafas existentes, sob seus cuidados, são vendidas hoje em milhares de euros.

Em 17 de setembro de 2008, Didier Dagueneau decolou num ultraleve perto de Hautefaye, na Dordonha. Logo após a decolagem, perdeu o controle e morreu na hora, aos 52 anos. Dagueneau cobrava por seu Sauvignon Blanc de Pouilly-Fumé preços que a denominação nunca vira, com rendimentos muito baixos e o uso de cavalos no lugar de tratores que os vizinhos empregavam. A propriedade não parou. O filho, Louis-Benjamin, assumiu a adega e faz o vinho até hoje. Finitas ficaram apenas as garrafas que Didier tinha tocado e se tornaram artigo de luxo.

Quando um produtor de vinhos morre, surge uma pergunta: quanto do preço se deve à morte e quanto à escassez que já existia antes dela? A pergunta tem resposta acadêmica na arte. Economistas medem o “efeito morte” nos preços de pintores há décadas. O resultado não confirma a intuição de quem está à frente das casas de leilões. Três economistas – Robert B. Ekelund, John D. Jackson e Robert D. Tollison – publicaram em artigo e livro um estudo sobre o tema. Observaram os preços subindo nos anos que antecedem a morte e caindo no ano em que ela ocorre; batizaram o padrão de “aposta num funeral iminente”, o mercado precificando a escassez futura enquanto o artista ainda respira.

Um trabalho de 2025 no Journal of Cultural Economics achou prêmio pós-morte nos leilões, maior para artistas jovens e de pouca reputação. Não há consenso sequer sobre o sinal do efeito. Sobre o vinho, não se conhecem estudos a fundo sobre o tema, mas há uma diferença: o líquido acaba quando a garrafa é aberta, a pintura sobrevive na parede.

A escassez explica a oferta, mas não explica quem paga. Depois que o produtor morre e a garrafa passa a mudar de mãos sem ser aberta, negociam-se o nome, a procedência, o preço. A psicologia do consumo sugere que esses sinais não apenas acompanham a experiência. Em experimento de 2021, publicado na revista acadêmica Food Quality and Preference, psicólogos suíços destacaram que um preço inflado no rótulo tornou mais agradável um vinho barato. Em provas às cegas, só especialistas classificam vinhos caros como mais prazerosos (embora errem em muitos casos), enquanto entre leigos a relação desaparece ou inverte. O estudo indica que, quando o rótulo carrega mais informação do que a taça, ele se torna produto. E um morto é o rótulo mais definitivo que existe, porque nada mais que ele fizer poderá contradizê-lo.

Quem arrematou o lote 251 na manhã de 29 de junho em Londres buscava uma experiência gustativa, se divertir entre amigos ou especular?

Abaixo uma degustação às cegas entre Romanée Conti e Cros Parantoux que o site teve o privilégio e a sorte de participar:

Lembrando que a primeira edição da revista digital de vinho sem segredo pode ser solicitada por:

Do front europeu ao terroir paulistano: a crônica de Geoffroy de la Croix

29 de Junho de 2026

O vinho chegou cedo para Geoffroy de la Croix. Aos quatro anos, ele já observava o avô, Roger, colocar água na taça para o neto experimentar o que era servido às mesas. Homem de poucas palavras, o avô às vezes murmurava algo sobre a casta ou o terroir de origem da garrafa; noutras, limitava-se a dizer que o garoto gostaria do que estava prestes a provar. A economia nos gestos e na fala guardava o peso de quem havia combatido nas duas Grandes Guerras e sobrevivido aos campos de prisioneiros nazistas.

Se o avô pouco falava, os pais de Geoffroy defendiam à mesa lados opostos nos gostos. A mãe, uma das herdeiras do domaine Comte Armand, uma das mais tradicionais propriedades da Borgonha, defendia a elegância da região. Já o pai, embora sem vinhedos próprios, descendia de uma estirpe de devotos de Bordeaux.

A infância de Geoffroy ainda foi alimentada por histórias que ganharam livros. Seu bisavô, o conde Abel Armand, recebeu em 1917 uma missão secreta do governo francês: costurar uma paz separada com o Império Austro-Húngaro. Diante de uma guerra de trincheiras que sangrava a juventude europeia, Abel viajou à Suíça em agosto daquele ano para se reunir com o conde Nikolaus Revertera, emissário de Viena.

As tratativas estenderam-se por três semanas sob absoluto sigilo, mas falharam. O envolvimento de Abel no que os historiadores formalizaram como as “Negociações Armand-Revertera” cobrou um preço alto no pós-guerra, quando o conde enfrentou acusações infundadas de espionagem. Coube justamente a seu filho, Roger — o mesmo avô que anos mais tarde batizaria o paladar de Geoffroy —, mover a ação judicial que reabilitou a memória do pai.

Com esse histórico, Geoffroy seguiu a tradição jurídica: formou-se em Direito em Paris, onde concluiu o mestrado e o doutorado, e estendeu seus estudos aos Estados Unidos para uma pós-graduação voltada ao mercado americano. Foi em solo nova-iorquino que o destino mudou de eixo ao conhecer Beatriz, uma advogada brasileira. O casamento na Praia do Forte, na Bahia, selou a mudança definitiva para o Brasil e para São Paulo.

Na capital paulista, Geoffroy passou a prestar consultoria jurídica em operações comerciais. A rotina trouxe frustração. “Não sentia que participava de todo o processo; queria algo onde pudesse ter uma atuação muito mais ativa”, recorda ele, durante um almoço em uma quinta-feira no restaurante do hotel Emiliano, em São Paulo.

A resposta estava na memória afetiva e na rede de contatos construída desde a infância na Europa. Geoffroy decidiu trocar os pareceres pelos vinhos e fundou a importadora que leva seu sobrenome: a DelaCroix. “Na infância, eu participava das colheitas do domaine Comte Armand com meus primos e isso me deu um outro olhar para o mundo do vinho.”

Para desenhar o portfólio inaugural, Geoffroy valeu-se do auxílio de um sommelier que havia servido as mesas do ex-presidente francês Jacques Chirac. Juntos, avaliaram cerca de 600 rótulos para selecionar apenas 10 pequenos produtores de perfil artesanal.

Foi durante esse processo de seleção que Geoffroy percebeu um denominador comum entre os vinhos: a maioria se inseria na filosofia dos vinhos naturais e biodinâmicos. Apostar nessa linha fixou a importadora como precursora no mercado brasileiro. O portfólio nascia fincado em uma vanguarda conceitual muito antes de o tema virar tendência global.

Nem mesmo o sangue azul da Borgonha garantiu facilidades comerciais no início. Ao abrir as portas da importadora, Geoffroy enfrentou uma ironia: ele não conseguiu, de imediato, a alocação das garrafas da própria família, o Domaine Comte Armand. Os vinhos eram tão disputados e escassos no mercado internacional que o laço de parentesco direto não foi suficiente para pular a fila. Ele precisou esperar alguns anos para finalmente receber suas primeiras caixas.

O início da operação foi espartano. A importadora ocupava o andar de um prédio comercial no bairro de Pinheiros, sem grandes estruturas logísticas ou orçamentos de marketing. O crescimento da marca deu-se de forma orgânica, calcado no “boca a boca”. Hoje a importadora tem um espaço nos Jardins, que também serve de restaurante em eventos e aos sábados.

Geoffroy passa parte do tempo na ponte aérea entre Brasil e França. As viagens regulares servem para mantê-lo intimamente ligado ao Domaine Comte Armand, onde participa ativamente das degustações in loco. Em uma de suas visitas recentes, Geoffroy participou dos bastidores da transição de comando técnico no Comte Armand.

O domaine carrega a tradição de investir em jovens talentos ainda não plenamente consagrados. Para preencher o posto, organizou-se um processo de seleção com diversos candidatos. A enóloga australiana Jane Eyre sagrou-se vitoriosa. Não param aí as novidades.

A DelaCroix anuncia a chegada de dois novos produtores da Borgonha: o Domaine Castagnier e o Domaine Buisson-Charles. A escolha de ambos carrega uma particularidade: a contiguidade de seus vinhedos com o patrimônio do Domaine Comte Armand. O Domaine Buisson-Charles, por exemplo, possui parcelas em Volnay que são vizinhas com os vinhedos do Comte Armand.

À mesa, ele confessa um de seus grandes desafios atuais: o fato de ainda não ter conseguido fazer com que as filhas participem da alegria das colheitas na Borgonha. Replicar com as filhas a mesma imersão que ele desfrutou na infância é um plano em andamento, fundamental para manter viva a linhagem de afetos que liga a família à terra. Também pensa em abrir um restaurante, enquanto novidades chegarão à importadora.

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Segredos de Alice

24 de Junho de 2026

Quando Gertrude Stein morreu em 1946, deixando Alice B. Toklas aos setenta e cinco anos, viúva após quase quarenta anos juntas, havia um problema: Alice estava quebrada. Um editor dos Estados Unidos fez uma proposta: ela devia dedicar seu tempo a escrever uma biografia de Gertrude, seguindo o modelo da célebre Autobiografia de Alice B. Toklas — livro que Gertrude havia escrito em primeira pessoa como se fosse Alice, num dos livros mais famosos do modernismo da década de 1920.

Alice recusou. “Gertrude já fez a minha autobiografia.” O editor não insistiu, mas seu rosto caiu em tristeza e ele ficou em silêncio. Alice então sugeriu: “O que eu posso fazer é um livro de culinária e reunir algumas memórias”. Foi a gênese do que se tornaria um dos livros de receitas mais famosos de todos os tempos, embora O Livro de Cozinha Alice B. Toklas (cuja última edição é de 1996, edição da Cia das Letras)seja muito mais do que um livro de cozinha.

Escrever o livro foi uma aventura. A comida na França do pós-guerra era racionada. Os preços do mercado negro eram exorbitantes. Stein havia morrido, deixando sua companheira de quase quarenta anos com a guarda da célebre coleção de arte — Picassos, Matisses, Cézannes —, mas os termos do testamento especificavam que nada podia ser vendido sem a permissão dos curadores, que resistiam.

Americanos tinham acesso privilegiado ao comissariado da embaixada — onde comida, bebidas e cigarros eram vendidos a preços de pechincha, desde que houvesse um motivo legítimo. “Você deve se lembrar”, ela escreveu a um amigo, “que eu tenho tentado manobrar para ser admitida no comissariado americano, onde os preços de comida são bem melhores… e finalmente consegui, desde que pudesse ter receitas impressas.”

O livro não seria publicado antes de 1954 — oito anos depois de iniciado —, um atraso que se explica tanto pelas dificuldades editoriais do pós-guerra quanto pelos conflitos internos depois da morte de Stein e pela natureza idiossincrática do manuscrito que Alice estava produzindo. Toklas tinha a ambição de não fazer um livro de receitas clássico, mas entremear a comida entre as memórias de guerra e do modernismo.

Pablo Picasso está em um dos trechos mais famosos da obra. O artista tinha uma dieta rígida, buscava comer mais peixes e vegetais. Alice decidiu servir um linguado. O peixe não chegou à mesa apenas cozido. Foi “pintado” por Alice com uma maionese tingida de vermelho-tomate, decorada com gemas de ovo peneiradas e trufas negras. Ao olhar para o prato, Picasso disparou uma pergunta carregada de veneno: “É magnífico! Mas não deveria ter sido feito em homenagem ao Matisse em vez de a mim?”. Naquela sala de jantar em Paris, a comida era um campo de batalha de egos. Picasso e Matisse observavam de perto o trabalho de cada um, mas eram rivais.

Outro momento memorável é o capítulo “Assassinato na Cozinha”, em que Alice, em homenagem ao amor de Gertrude por romances policiais, abate peixes e pombos. Em uma ocasião partiram para Chablis, onde encontrariam não apenas comida incomparável, mas seu vinho favorito, o Chablis, um branco de mineralidade cortante que parecia ecoar sua própria clareza de espírito. O descanso foi interrompido por um presente: seis pombos brancos vivos, com um bilhete escrito por um amigo: “Como Alice é esperta, ela fará algo delicioso com eles.” Toklas comenta com azedume: “É certamente um erro permitir que uma reputação de esperteza nasça e se espalhe por amigos amorosos. É tão barato adquiri-la e tão caro pagá-la.”

Os pombos precisavam ser sufocados, depenados, limpos — e tudo isso deveria ser feito antes que Gertrude Stein voltasse, “pois ela não gostava de ver trabalho sendo feito”. Toklas descreve então como aprendeu a matar aves por sufocamento no mercado de Palma de Mallorca, onde uma cozinheira francesa tentou ensinar “a assassinar por asfixia”. “Não há razão”, escreve Alice, “para que este crime devesse ter sido cometido publicamente ou que eu devesse ter sido obrigada a participar.” A lição prossegue com as mulheres espanholas horrorizadas pelo método francês.

“Cuidadosamente encontrei o ponto na garganta da pobre pomba inocente onde eu deveria pressionar e pressionei”, escreve Alice. “A percepção nunca havia me ocorrido antes de que se vê com as pontas dos dedos tanto quanto com os olhos. Foi uma experiência muito desagradável, embora, à medida que dispunha um por um os doces jovens cadáveres, não se podia negar que alguém poderia se acostumar a assassinar.”

Há episódios cômicos. Quando, em 1916, Gertrude começou a dirigir Tia Pauline” — nome do batismo, “não em champagne, apenas em vinho branco”, de seu caminhão de entregas para ajudar feridos franceses na guerra —, ela sabia fazer tudo exceto dar ré. Quando estacionou o caminhão bloqueando a saída de um pátio cheio de veículos militares, um oficial educadamente pediu que ela desse marcha ré. “Oh, isso”, exclamou Gertrude Stein, “eu não posso fazer” — como se fosse um pecado imperdoável que ele estivesse pedindo que ela cometesse. Foi preciso que o oficial a guiasse fisicamente para que a manobra ocorresse.

A tensão entre a beleza e a brutalidade acompanhou Alice até o fim. Como Janet Malcolm observou em seu ensaio para a New Yorker, o destino de Alice após a morte de Gertrude foi de uma melancolia cortante. Sem reconhecimento legal, ela viu as telas de Picasso serem arrancadas de suas paredes por herdeiros ávidos. Alice terminaria seus dias em um apartamento de paredes nuas. O livro de cozinha, publicado em 1954, foi seu último ato de soberania — um documento que nenhum herdeiro arrancou dela.

O livro termina com aquela observação dos dois amigos sobre se um livro de receitas tem algo a ver com escrever. Ao terminá-lo, realmente se chega à conclusão de que Alice B. Toklas viveu a vida e o século XX como poucos. Ela observou a revolução cubista, alimentou literalmente o modernismo, sobreviveu à Ocupação, perdeu o amor de sua vida e, aos setenta e cinco anos, transformou suas memórias em receitas. Para Toklas, a cozinha não era sobre literatura; era sobre a própria vida. Servida sem adornos, com toda a verdade que o paladar é capaz de suportar.

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A nova Alemanha:

22 de Junho de 2026

Em 1912, quando o Titanic zarpou de um porto em Southampton rumo a Nova York, espumantes e brancos da uva Riesling rivalizavam em prestígio e preços com os mais famosos rótulos da França na carta de vinhos da primeira classe. O posterior naufrágio marcou um ponto de inflexão para o vinho alemão: duas guerras, a guerra fria e um erro de marketing levaram a uma derrocada.

Se os noruegueses criaram uma bem-sucedida estratégia de propaganda e tornaram o salmão um peixe comido de Tóquio a São Paulo, os alemães erraram feio. Responsável por até 60% das exportações viníferas da Alemanha, a invasão das garrafas azuis de Liebfraumilch acabou marcando negativamente a imagem do vinho alemão mundo afora. Muitos, até hoje, torcem o nariz, associando esses vinhos à imagem de um líquido doce, barato e industrial. Uma dor de cabeça assegurada.

Foto: Nadia Jung @nadiajungfotografia

Gradualmente a história tem mudado. Baseado em Rheinhessen, no sudoeste alemão às margens do rio Reno, uma região que para o vinho alemão é o que Bordeaux é para a França, Moritz Kissinger pertence a uma geração que busca incorporar as raízes da tradição trazendo inovações. Em 2018, assumiu parte das terras da família, cultivadas há quatro gerações, mas vinificadas e vendidas com o rótulo da propriedade apenas a partir de seu pai.

Depois de estudar vinhos na França, mais especificamente na Borgonha e no Jura, decidiu trabalhar com Chardonnay, uma uva que faz sucesso mundo afora, mas cujo histórico na Alemanha é recente. A legislação alemã proibia até o meio dos anos 1990 o uso da uva em vinhos de qualidade certificados pelo órgão de controle. A barreira legal foi vencida em 1994.

Moritz aproveitou uma coincidência climática: o aquecimento global tornou a Alemanha menos fria. Regiões que antes não amadureciam Chardonnay completamente agora produzem vinhos com a acidez vibrante típica de climas frescos, mas sem a dureza de outrora. Isso permite criar vinhos com frescor mineral e que às cegas podem parecer franceses.

Com videiras plantadas em 1994, Moritz começou a vinificar uma parcela de um hectare de Chardonnay. O primeiro vinho saiu em 2020. O resultado atraiu a atenção. Uma das maiores lojas de vinhos da Alemanha chamou Moritz de garoto prodígio, o The New York Times fez matéria sobre o renascimento do vinho alemão e destacou o Chardonnay dele.

O vinho chamou a atenção ainda de Jasmin Bähr, que tinha trabalhado como sommelière em Paris e estudado vinho na Borgonha e na Alsácia. Começaram a namorar. Casaram-se ano passado: a vinícola agora passou a se chamar Kissinger Bähr. O Chardonnay continua sendo um dos principais destaques do portfólio.

Agora os vinhos ganharam mais tempo de maturação, com dois invernos antes do engarrafamento e de chegarem ao mercado. Ganham mais complexidade. Tecnicamente, aproximam-se do estilo de grandes borgonhas, que descansam longamente sobre as borras para ganhar estabilidade e textura sem precisar de filtragem pesada. “Quis fazer Chardonnay porque eu achava que era possível fazer um de qualidade na Alemanha e a uva me encantou na França”, diz Moritz, que esteve em São Paulo essa semana em evento da importadora Maison Sirino, que recebeu recentemente uma nova remessa dos vinhos.

Mas o Chardonnay foi apenas o começo. Moritz queria ir mais longe: resgatar uma glória ainda mais antiga. No início do século 20, a Alemanha não era apenas um grande produtor, mas o maior mercado consumidor de espumantes do mundo. O prestígio era tanto que casas de Champagne francesas foram fundadas por alemães (Krug, Bollinger, Mumm, Piper-Heidsieck).

O imperador Guilherme II instituiu imposto sobre o vinho espumante com objetivo de financiar a construção da frota de guerra imperial. O imposto sobrevive até hoje. A pressão tributária, somada às crises do pós-Guerra, forçou os produtores a reduzir custos para o espumante acessível à classe média. Isso levou ao uso generalizado da fermentação em grandes tanques de aço, um método mais barato e rápido, em vez do lento e trabalhoso método tradicional, em que cada garrafa fermenta individualmente, como na Champagne.

Depois de um estágio na Champagne, Moritz voltou com a vontade de vinificar espumantes com uvas locais e feitos com mais de 18 meses sob leveduras, o que aumenta a complexidade. Busca ainda usar uvas de Chardonnay, Pinot Blanc e Pinot Noir e de safras diferentes. “A Alemanha tem potencial para bons espumantes”, afirma Moritz.

Agora Moritz e Jasmin trabalham juntos na vinícola, que ganhou nova dimensão. Desde 2024, eles conseguiram arrendar algumas parcelas de Riesling nos melhores trechos de terra da região. Produzem ali cerca de mil garrafas em cada um dos terroirs. A expansão se deu sobre a terra chamada de “encosta vermelha”, um paredão de solo avermelhado que despenca em direção ao rio Reno. É tão íngreme (declives de até 70 graus, como uma rampa de skate radical) que trator não sobe. Tudo é feito à mão, do plantio à colheita.

Mas essa verticalidade é o que permite que as videiras capturem a luz solar refletida pelo espelho d’água do Reno, garantindo maturação em um clima que, de outra forma, seria hostil. “Os vinhos têm uma mineralidade distinta”, afirma Jasmin. “Os vinhos carregam o sabor característico do solo e da luz que se reflete na parcela”, afirma ela.

A chegada de Jasmin trouxe outras inovações: ela ajudou a tornar os vinhos ainda mais gastronomicamente versáteis. A decisão de estender a maturação para dois invernos passa por essa percepção: vinhos de prestígio precisam de tempo para integrar a acidez. Jasmin foi peça-chave na decisão de expandir para o Riesling na encosta vermelha, com vinhos de minúscula produção. Agora o casal também irá trabalhar uma parcela especial de pinot noir, buscando um tinto elegante e mineral, cuja primeira safra ainda deve levar dois anos para chegar ao mercado. Nas encostas onde só as mãos alcançam, o vinho alemão volta à tona em várias versões.

(Lembrando que vinhosemsegredo tem revista, em pdf, que pode ser solicitada por:

https://vinhosemsegredo.com/revista-digital-vinho-sem-segredo/

Vinho sem segredo edição digital

14 de Junho de 2026

@vinhosemsegredo ganhou mais uma plataforma: uma revista eletrônica, nascida da provocação de um discreto amigo do mundo do vinho que confessou sentir falta de ler artigos com mais fôlego e profundidade. Com o braço técnico do Claude na diagramação e a generosidade dos amigos que emprestaram suas mentes para textos, a publicação ganhou vida.

Pode ser acessada clicando-se aqui: https://vinhosemsegredo.com/revista-digital-vinho-sem-segredo/

Será periódica? Não sei. Depende do tempo e, obviamente, do interesse de quem se aventurar por estas páginas. Por que não é paga? Sinceramente, porque se o fundador do Vinho Sem Segredo, Nelson Luiz Pereira, com toda a sua generosidade e vasto conhecimento, manteve um espaço gratuito por anos, quem sou eu para cobrar o que quer que seja? Se o leitor fizer questão de abrir a carteira, que gaste com as assinaturas de John Gilman, Jasper Morris e companhia.

Na edição, degustação de vinhos 2022 de Keller, villages tintos 2021 da Borgonha, os cinco produtores de Gevrey Clos Saint Jacques, as champagnes de David Léclapart, Bruno Giacosa em um 1995 no ápice, Mugnier e Glenn Gould, Vinicius de Moraes e coleções.

Se esta edição for filha única, que fique como o registro de uma bela conversa de mesa. Como ninguém é mais otimista que alguém que tem adega e espera sobreviver às garrafas estocadas, se for a primeira de muitas, que seja um brinde ao inesperado.