Um casal no mundo do vinho

8 de Junho de 2026

No jantar da última segunda-feira de maio, o Quinta da Manoella Branco 2024 foi o primeiro vinho servido. Caso fosse provado às cegas, poderia confundir o degustador que talvez pensasse se ele não seria francês e talvez até da Borgonha. Diante da observação, o enólogo Jorge Serôdio Borges sorriu com uma ponta de resignação e orgulho. “As pessoas ainda não acham que Portugal pode fazer esses vinhos.”

A frase sintetiza a revolução que redesenha o mapa vinícola português nesse século. Há trinta anos, vinho português era sinônimo de tintos e brancos rústicos. Se hoje o retrato mudou, deve-se a um movimento de vanguarda do qual Jorge e sua esposa, Sandra Tavares da Silva, são protagonistas.

A virada do milênio foi o estopim. Ambos integraram a gênese dos Douro Boys, grupo de enólogos que com técnicas modernas provou que o Douro era capaz de entregar vinhos de mesa de nível mundial e não apenas o icônico Vinho do Porto. Apesar do nome, havia mulheres no movimento, como Sandra, e sua amiga, Susana Esteban. A revolução tem outro detalhe histórico: o Marquês de Pombal instituiu o Douro como a primeira região vinícola demarcada e regulamentada do mundo em 1756.

Chegar ao clube do bolinha não foi fácil para Sandra. Antes de se consolidar como uma das enólogas mais influentes de Portugal, Sandra dividiu-se entre o esporte de alto rendimento e a moda. Entre os 10 e os 17 anos, jogou na seleção portuguesa de vôlei. Mais tarde, trabalhou como modelo profissional pela agência Ford Models. A timidez da infância foi vencida sob as luzes das passarelas e a pressão dos ginásios, mas o amor pela terra falou mais alto.

Sandra deixou as passarelas para graduar-se em Agronomia, com especialização em Enologia. A transição para o ambiente rural do Douro impôs barreiras invisíveis. Em um meio tradicionalmente patriarcal, enfrentou o preconceito por ser mulher e por seu histórico na moda.

A cumplicidade profissional com Jorge Serôdio Borges logo se transformou em parceria de vida. Conheceram-se em 1999, na festa que celebrava o fim da colheita da Quinta do Vale Dona Maria, onde ela trabalhava. Casaram-se em 2001 e fundaram a Wine & Soul, que agora completa 25 anos.

A decisão que selou o início da empresa ditou o norte do casal. “Em vez de uma casa, compramos um vinhedo”, recorda-se Jorge, que esteve essa semana em São Paulo em razão de evento do Vinhos de Portugal e da importadora Adega Alentejana. Adquiriram uma parcela de pouco mais de dois hectares em Vale de Mendiz, com videiras de mais de 90 anos e 45 castas misturadas. O trabalho de Jorge e Sandra é trabalhar vinhos com variedades diferentes de uvas em solos diversos. “É como uma orquestra, cada instrumento dá um tom”, afirma.

O batismo do Pintas teve ares da vanguarda de que participavam. Em vez de colocar o nome da quinta que compraram, decidiram nomear o vinho em homenagem ao cachorro pointer inglês do casal. Nasceu o Pintas, vinho que posicionou a Wine & Soul na elite do setor.

Após a consolidação do Pintas, o casal expandiu as operações ao assumir, entre 2008 e 2009, a gestão total da Quinta da Manoella, propriedade histórica fundada em 1838 e ligada à família de Jorge há cinco gerações. O nome é um tributo à primeira gestora daquelas terras. “Reinvestimos na ampliação dos terroirs nossos.”

De uma das parcelas centenárias nasceu o Quinta da Manoella Vinhas Velhas, um tinto de perfil tão fluido e elegante que surpreendeu o Angelo Gaja, um dos produtores preferidos de Mino Carta. Ao provar o vinho, o lendário viticultor piemontês não identificou a assinatura típica do Douro, marcada historicamente pela opulência. Intrigado com o frescor do rótulo, Gaja viajou a Portugal para conhecer a propriedade de perto e conhecer o casal por trás do vinho.

A ligação de Manoella com o mercado externo seguiu caminhos próprios. Numa vinda anterior ao Brasil, Jorge foi abordado por um casal. O marido apontou para a barriga da esposa e anunciou que a filha se chamaria Manuela. Comprou 18 garrafas Magnum (tamanho dobro do normal encontrado) do Quinta da Manoella Vinhas Velhas. Pediu que fossem assinadas pelo enólogo. Criou-se um ritual: a cada aniversário da menina, Jorge recebe uma foto da garrafa aberta, celebrando o crescimento da Manuela brasileira em paralelo com a evolução do vinho.

Para além das videiras, a mente de Jorge Serôdio Borges opera sob a lógica da alta performance e das pistas. O enólogo nutre uma paixão antiga pelo automobilismo. Nas pistas portuguesas, competiu profissionalmente e conquistou dois campeonatos nacionais de velocidade, correndo em troféus como o Fiat Punto e com modelos da Alfa Romeo. Questionado se a esposa teme o flerte constante com a velocidade, Jorge sorri: “Agora ela começou a se preocupar”, confessa. Nesse momento, está à espera do novo carro que está passando para ajustes, para ele participar de novas provas.

A obsessão pela velocidade o acompanha em suas viagens. Em novembro do ano passado, ao desembarcar em São Paulo a trabalho, sua agenda coincidiu com o Grande Prêmio de Fórmula 1 em Interlagos. Por meio de contatos locais, conseguiu um ingresso de última hora e assistiu, sob a forte chuva paulistana, à vitória de Max Verstappen.

Seu interesse também se volta para os clássicos. Em uma viagem recente à Suíça ao lado de um dos filhos, fotografou em detalhes um Aston Martin vintage, idêntico ao modelo de James Bond no cinema. Atualmente, seu projeto mais obstinado no asfalto é afetivo: localizar o modelo de automóvel que sua avó utilizava quando comandava a vinícola da família. A ideia é que se torne um dos veículos da propriedade, que também tem uma caminhonete reformada usada décadas antes.

Entre voos e vinhedos: A era Michel Rolland

1 de Junho de 2026

Era quase a hora do almoço quando Michel Rolland chegou a uma pequena propriedade vinícola em Bordeaux, mais precisamente em Pomerol, em que nascem alguns dos mais prestigiados vinhos do planeta. Tinha visitado outras seis propriedades pela manhã e tinha mais outras três pelo resto da tarde.

Viajava no carro do jornalista John Carlin, da publicação inglesa Observer. Estavam sentados no banco de trás da Mercedez, dirigida por um motorista, algo inusual para um consultor de vinhos. Mas havia uma razão prática: em cada parada, Rolland provava seis, sete vinhos. “Provo em média cem vinhos por dia”, disse, acrescentando que tinha se tornado um mestre no ato de cuspir. A quantidade de paradas era grande: a carteira de clientes somava dezenas de vinícolas. Primeiro na França, depois fora.

Ao chegar à sala em que os vinhos eram feitos, o dono da propriedade em Pomerol estava nervoso, transferindo o peso do corpo de um pé para o outro. Rolland caminhou até as barricas, provou o primeiro vinho, inclinou a cabeça ligeiramente para o lado e cuspiu. Disse que o vinho talvez fosse sério demais.  Bebeu outra amostra. “Bom”. No terceiro, também elogiou o resultado. O dono dos vinhedos parou de se mexer. Deixou um sorriso envergonhado cruzar o rosto. O jornalista John Carlin, que acompanhava a ronda naquele novembro de 2004, o comparou a um pai orgulhoso com um filho recém-nascido.

Naquele mesmo mês, o documentário Mondovino (disponível na Apple TV), de Jonathan Nossiter, chegava aos cinemas do mundo para discutir como os vinhos tinham mudado e se havia uma mundialização do gosto. Um dos personagens principais do filme era Rolland.

Uma cena virou polêmica: o consultor ria alto no banco traseiro de uma Mercedes preta, charuto entre os dedos, telefone no ouvido, prescrevendo micro oxigenação para qualquer produtor disposto a pagar pelos seus honorários — que, segundo o The New York Times, começavam em 30 mil dólares anuais. O jornal francês Libération o descreveu como mefistofélico. Para Aimé Guibert, produtor em Languedoc que Nossiter tratou como um dos heróis da resistência, o diagnóstico era ainda mais definitivo: “O vinho está morto. Sejamos claros: o vinho está morto.” Para alguns, o culpado tinha nome.

Rolland morreu na madrugada desta sexta-feira, 20 de março, em Bordeaux, de infarto. Tinha 78 anos. A imprensa especializada registrou o fim de uma era. Depois do Mondovino ter ganho repercussão, em 2006 o The New York Times fez um artigo sobre Rolland cujo título era contundente: “Satanás ou Salvador: Estabelecendo o Padrão da Uvas”.

Toda história tem duas versões. Em uma, Rolland é o agente da padronização global do gosto, o enólogo que percorreu dezenas de propriedades em cinco continentes, da Índia à Argentina, da Bulgária à Califórnia, levando na mala uma receita: esperar as uvas amadurecerem mais, reduzir a produção, trocar as barricas velhas por carvalho novo, buscar aquela textura aveludada que o crítico Robert Parker aprendeu a amar e pontuar e fazer o mercado vender.

Na outra versão, Rolland é o desbravador que fez vinhos em vários lugares do mundo e tinha talento para ser enólogo. Depois do lançamento do documentário, em 2005, a crítica de vinhos Jancis Robinson, que escreve há décadas no Financial Times, fez um perfil de Rolland. O enólogo acordava cedo. Começava a trabalhar às 7h30 e a última reunião terminava às 19h. Experimentava amostras e amostras de vinhos. Cuspia. Não titubeava em dar sua palavra final sobre o melhor. Foi descrito como “especialista em tintos extremamente maduros, concentrados, aveludados e, frequentemente, marcados pelo carvalho”.

A jornalista destacava que o trabalho de Rolland consistia em seguir as instruções de seus clientes para produzir vinhos tecnicamente superiores e de fácil aceitação. “Em segundo lugar, sua competência é manifesta. Ele pode ter produzido vinhos desastrosos em sua longa carreira, mas, até onde se sabe, nenhum chegou ao meu conhecimento”, escreveu Robinson, destacando que o trabalho dele melhorou a qualidade de vinhos em países como Argentina (o Clos de los Siete é um exemplo), Chile e Índia.

O mundo em que Rolland fez sucesso, nos anos 1990 e 2000, reunia novos hábitos e a chegada de uma nova geração sem espaço e paciência para aguardar décadas de evolução de um vinho em uma adega. As classes médias americanas, os emergentes sul-americanos e asiáticos descobriram a bebida sem a memória afetiva das gerações anteriores. A técnica central que usava não era misteriosa. Ao estudar várias safras de diversas regiões, encontrou um denominador comum: sol abundante, produção baixa, uvas colhidas no ponto de maturação plena.

Sua influência foi sentida por décadas, embora a partir da década de 2010 tenha sido declinante. Uma nova geração passou a buscar vinhos naturais, com mais acidez, o conceito de terroir se reforçou entre degustadores e a ideia de uma consultoria foi perdendo ímpeto. Ele continuou a assessorar, viajar e voar.  Primeiro enólogo verdadeiramente global, seu legado será discutido por muito tempo ainda.

O Julgamento de Paris

25 de Maio de 2026

Em 24 de maio de 1976, o mundo do vinho sofreu um abalo sísmico que não veio das falhas geológicas da Califórnia, mas de uma sala abafada no Hotel InterContinental, em Paris. Prestes a completar 60 anos, o evento, conhecido como “O Julgamento de Paris”, até hoje repercute. Mas, como toda lenda, foi polida, romanceada e ganhou as telas e telinhas (filme disponível no Prime Video).

Antes de nos deixar em 2021, Steven Spurrier, então dono de uma pequena loja de vinhos em Paris, concedeu uma entrevista definitiva ao podcast I’ll Drink to That, do sommelier Levi Dalton. Despido de qualquer mitologia, ele revelou o quão acidental foi a revolução que ele causou, sem perceber que ela teria tal alcance.

Na conversa com Dalton, Spurrier desmonta a imagem de estrategista maquiavélico, que ficou para alguns depois de assistir ao filme. O motivo da degustação? Puro oportunismo de calendário: celebrar o bicentenário da independência americana.

Um ano antes, em 1975, uma sócia de Spurrier, a americana Patricia Gallagher, tinha visitado vinícolas nos Estados Unidos e ficado surpresa com a qualidade delas. Sugeriu que Spurrier cruzasse o Atlântico e degustasse in loco. Ele acatou a sugestão.

Gostou do que bebeu e teve a ideia de fazer a degustação na França, colocando rótulos da Califórnia.  Mas fazer o vinho chegar a Paris foi uma odisseia. Esqueça importadoras e contêineres. A logística foi digna de um filme de espionagem atrapalhado.

A salvação inicial veio de sua sócia, que guiava um grupo de turistas em um tour de passeio intitulado “Tênis e Vinho”. A solução foi transformar os turistas em “mulas”. Spurrier distribuiu 24 garrafas entre as malas dos participantes, embrulhadas em roupas sujas. Mas a alfândega francesa, farejando algo estranho, quase colocou tudo a perder.

Spurrier teve de ser rápido. Diante da barreira alfandegária que ameaçava confiscar a carga, ele apelou para a criatividade. Para liberar os vinhos, ele “vendeu” a história de que aquilo não era um evento comercial, mas um ato oficial ligado às comemorações do governo americano para o Bicentenário. Com ares de evento diplomático, ele conseguiu o carimbo. O Cavalo de Troia entrou em Paris com a bênção da burocracia local.

O “pulo do gato” seguinte foi a decisão de última hora de tornar a degustação às cegas, ou seja, as garrafas seriam degustadas sem se saber se eram provenientes da França ou dos Estados Unidos. Spurrier acreditava piamente que os franceses ganhariam, e que a Califórnia sairia honrada apenas por participar. Os produtores franceses também não tinham dúvida. Havia os melhores rótulos da Borgonha e de Bordeaux, séculos de tradição por trás de cada um. Por isso aceitaram sem pestanejar.

O que se seguiu foi uma comédia de erros para o orgulho gaulês. Spurrier narra como os juízes — a nata do mundo do vinho francês, incluindo Aubert de Villaine (proprietário do Romanée-Conti) e Odette Kahn (da Revue du Vin de France) — começaram a confundir quando bebiam. Elogiavam a “elegância francesa” de um Cabernet do Napa Valley e criticavam a “robustez desajeitada” de um Bordeaux.

Quando as notas revelaram a vitória americana (Chateau Montelena no branco, Stag’s Leap no tinto), a reação foi visceral. Spurrier relata o momento em que Odette Kahn, percebendo o “erro”, exigiu suas cédulas de votação de volta. Spurrier, com fleuma britânica, recusou. Ela o acusou de fraude. A imprensa francesa ignorou o fato, mas a notícia cruzou o Atlântico. Havia um jornalista americano no evento.

George M. Taber, da revista Time, recebeu uma lista com os nomes dos vinhos na ordem que estavam sendo servidos, ou seja, sabia exatamente o que os juízes estavam degustando. Ele logo percebeu que havia notícia, quando um dos jurados provou um vinho branco e decretou: “Isso é definitivamente Califórnia. Não tem nariz”, quando, na verdade, estava provando o Bâtard-Montrachet, um Chardonnay da Borgonha frequentemente classificado como um dos melhores vinhos brancos do mundo.

Quando os resultados vieram à tona, ele escreveu uma matéria para a sua revista, com o título de “Julgamento de Paris”, escrevendo que o “inimaginável tinha ocorrido”. Os vinhos do Novo Mundo passaram então a ganhar status e lugar à mesa comparável aos franceses.

Essa narrativa colide com o filme lançado em 2008. A interpretação de Spurrier como um esnobe falido fez o verdadeiro Steven ameaçar os produtores com um processo. Ele disse a Levi: “Não havia jeito de eu aceitar aquilo”. A ameaça só cessou quando concordaram em colocar um aviso de que a obra era amplamente ficcional.

A arte de envelhecer e permanecer relevante: Vega Sicilia

20 de Abril de 2026

Nos turbulentos anos da Segunda Guerra Mundial, o premiê britânico Winston Churchill (https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/a-mesa-com-winston-churchill/) ainda encontrava tempo para desfrutar de comida e bons vinhos. Com frequência, jantava na embaixada espanhola em Londres, recebido pelo embaixador e duque de Alba, um parente distante. Não era apenas a amizade que o levava até lá, mas a lendária adega e o talento do chef de cozinha.

Em uma dessas ocasiões, Churchill provou um tinto que o encantou. Sem ver o rótulo, perguntou ao anfitrião qual vinho tinha bebido. Estava em dúvida em qual premier grand cru classé de Bordeaux tinha lhe sido servido. O embaixador sorriu. Não era um Latour. Revelou a garrafa: tratava-se de um Vega Sicilia. Essa anedota sempre vem à mente quando bebo um Vega, caso do recente ùnico 2013, cuja qualidade dos taninos tem poucos comparativos no mundo vitis.

Considerado um dos vinhos mais célebres e caros da Espanha, o Vega Sicilia tem raízes que remontam a 1864, quando a família Lecanda y Chaves trouxe mudas de Cabernet Sauvignon, Merlot e Malbec de Bordeaux e as plantou ao lado da uva espanhola Tempranillo, em Ribera del Duero. Para surpresa de todos, foi a variedade nativa que melhor se adaptou ao terroir.

O primeiro engarrafamento é motivo de debate, mas a consagração veio na Exposição Internacional de Barcelona de 1929, quando as safras de 1917 e 1918 receberam prêmios. Durante décadas, o rótulo permaneceu quase um segredo, reservado a um seleto grupo de amigos e clientes, o que só aumentou sua mística.

A história mudou em 1982, quando a vinícola passou às mãos da família Álvarez, que a dirige até hoje. Seu ícone, o “Único”, só é produzido em safras excepcionais — em muitos anos, simplesmente não é elaborado. As uvas vêm de vinhas com mais de 25 anos, e até a safra de 1980 a mescla incluía, além do Tempranillo, Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec e até pequenas quantidades da uva branca Albillo, como lembra o crítico John Gilman (https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/reflexoes-de-um-critico-de-vinhos-2/) em texto em que degustou 20 safras do lendário vinho. (Curiosidade: É uma das preferências do cantor Roberto Carlos – Boni mantém aalgumas garrafas na adega em Angra dos Reis para o rei da música. É também predileto do ex-presidente FHC).

Atualmente, o Único combina cerca de 95% de Tempranillo com Cabernet Sauvignon. A vinificação é meticulosa: cada um dos 81 lotes do vinhedo é fermentado separadamente em grandes tonéis de carvalho. O vinho amadurece, em média, dez anos na bodega, passando por barricas de diferentes idades, origens e tamanhos até atingir a integração perfeita entre fruta e madeira. Depois, repousa por ao menos três anos em garrafa antes de ser lançado. A própria vinícola fabrica suas barricas, escolhendo carvalho americano secado naturalmente por no mínimo três anos, um detalhe que reforça a obsessão pela qualidade e ajuda a explicar por que este rótulo se tornou uma lenda.

Fazer um vinho de guarda e qualidade significa atentar se a detalhes, como as rolhas. Entre 2018 e 2023, fez se um estudo na vinicola oremus na Hungria com rolhas diam e neutras no vinho mandolas. “Nao vimos o efeito uau”, diz juan pablo parra, subdiretor técnico de @bodegasvegasicilia. Por isso eles ainda utilizam rolhas naturais, com cuidados especiais. Os 11 produtores de rolhas tem de ressarcir caso haja problema em um vinho.Em dezembro de cada ano, para garantir a neutralidade absoluta, a equipe degusta essa a agua de um prensado de rolhas diversas. Se a água apresentar qualquer desvio de sabor ou aroma — mesmo que não seja TCA — o lote inteiro é rejeitado. Detalhes da produção de um dos maiores vinhos do mundo em breve em um novo projeto e plataforma.

Hoje em dia um vinho desses tem espaço diante de uma legião de consumidores que querem beber vinhos cada vez mais jovens? “O Vega tem grande potencial para envelhecer, mas pode ser desfrutado mais jovem também por conta de como é vinificado. A flexibilidade na vinificação do Veja  permite que seja desfrutado mais jovem, juntamente com o seu apelo clássico, ajuda a manter sua relevância”, diz Diana Kelley, gerente regional para Américas da vinícola, que esteve há dias, em São Paulo, em evento da importadora Mistral.

A presença da vinícola em eventos, o engajamento nas redes sociais e a expansão para novos mercados e regiões, como a Hungria e a parceria com a família Rothschild para o lançamento do Macán em Rioja, demonstram um esforço contínuo para se conectar com uma audiência diversificada e ampliar seus horizontes. O futuro lançamento de um Albariño em 2027, com base na tradição de vinhos minerais da Galícia, reflete uma estratégia de inovação alinhada às tendências de consumo sem perder o toque clássico da vinícola. “O sucesso dos tintos fez muitos perguntarem quando faríamos um vinho branco na Espanha. Foram feitas experiências e agora em 2027 deverá ser lançado um albariño diferenciado”, destaca Diana.

A commodity que não se fabrica

18 de Maio de 2026

Foi no fim dos anos 1980 que o engenheiro José Bento dos Santos resolveu deixar para trás os aviões, as telas de computadores e o mundo da mineração de lado. Passava meses do ano negociando a compra e a venda de metais pelo mundo todo. Em um jantar em Nova York, uma frase de um amigo tornou-se um divisor de águas: “Passamos a vida a negociar commodities, mas há uma que não se fabrica mais: a terra”. Voltou para Portugal, conversou com o pai. Descobriu que a Quinta do Monte d’Oiro, em Alenquer, distrito de Lisboa , estava à venda. A aquisição, em 1987, transformaria o enófilo e gourmet em produtor.

O vinho nunca lhe foi estranho. Aos 18 anos, visitou Bordeaux, na França. Nas viagens de negócios, um dos principais prazeres era almoçar e jantar, assim, como em casa, receber amigos em torno da mesa e de vinhos. A transição para a viticultura exigiu paciência: a primeira safra só chegou ao mercado em 1997, dez anos depois da aquisição.

“Tivemos um grande trabalho de recuperação, não aproveitamos quase nada”, diz Francisco Bento dos Santos, filho de José e que esteve essa semana no Brasil em evento da importadora Mistral. Pai e filho dialogam sobre as criações. “Meu pai foi técnico de rugby quando eu era pequeno e hoje também se mantém como meu treinador agora nas vinhas”, diz Francisco.

O diagnóstico técnico da propriedade, elaborado por especialistas da Universidade de Jerusalém, revelou um solo e um clima mediterrânico com forte influência atlântica — traduzido em noites frias e brisas constantes — ideal para as castas do Vale do Rhône. Bento dos Santos viajou à França e obteve mudas diretamente com Michel Chapoutier, um dos nomes mais reputados da região. O resultado é um portfólio onde uvas francesas, como Syrah e Viognier, convivem harmoniosamente com castas nativas sob manejo orgânico e baixos rendimentos. Os vinhos de entrada, na faixa de R$ 150, apresentam-se como uma excelente porta de acesso a esse rigor técnico.

Na Itália, plantar uvas internacionais em solo toscano não é modismo. No início do século XIX, Elisa Bonaparte Baciocchi, irmã do imperador Napoleão Bonaparte, plantou vinhedos de Cabernet Sauvignon e Merlot, ao lado da Sangiovese (presente em Brunellos e Chiantis). A dinastia Bonaparte perdeu a coroa, a França se tornou uma República, a Itália se unificou, os vinhedos ficaram relegados, até que um dia Francesca Moretti decidiu tirar uma folga da universidade de Veterinária e fazer uma viagem de carro com seu pai até Bordeaux. Antes de chegar lá, passaram pelas colinas de Maremma (região costeira próxima de Siena). Foi paixão à primeira vista.

A paixão pela costa toscana levou a família Moretti à aquisição da propriedade, dando início ao que Francesca descreve como uma “fascinante história de uma viagem de mulheres”. O projeto Petra (importado no Brasil pela família Taffarel) resgatou o legado de Elisa Bonaparte, focando no replantio de castas internacionais em um terroir onde etruscos e gregos já vinificavam em ânforas na antiguidade. Sob uma vinícola desenhada pelo arquiteto suíço Mario Botta e conduzida por práticas orgânicas, a Petra busca vinhos que expressem a essência do solo e clima mediterrâneos. A linha completa oferece rótulos de boa relação qualidade-preço.

Embora os vinhedos originais da irmã de Napoleão hoje integrem um parque público em Suvereto, a família Moretti recuperou o espírito daquela plantação histórica dentro de seus domínios. Os cinco hectares em que Elisa Bonaparte plantou uvas foram recuperados pela família Moretti. “O jardim da Princesa foi finalizado em 2017, reúne árvores frutíferas e ornamentais. Em frente a este jardim, localiza-se o nosso vinhedo histórico: o Vigna Petra, com quatro hectares”, afirma Francesca.

Essa diáspora das castas não se encerra na Europa. No Chile, em 1997, mesmo ano em que a Quinta d´Oiro comercializava sua primeira safra, nasceu o projeto Almaviva, resultado de um acordo entre a família Rothschild e a vinícola Concha y Toro. A ideia, desde então, é elaborar um tinto sul-americano com uvas francesas clássicas, sempre com predomínio de Cabernet Sauvignon, cultivadas nas terras do Maipo Alto, na área Maipo Andes. Há dois anos, a vinícola passou a abrir as portas a visitantes, revelando que, no mundo do vinho, a fronteira entre o estrangeiro e o nativo é tênue.