O brinde de James Bond e as vinhas que desafiaram o tempo

9 de Outubro de 2026

Em Pauillac, na região de Bordeaux, uma menina guardava rótulos. O pai trabalhava no Château Mouton Rothschild, que desde 1945 encomenda a cada safra o desenho do rótulo a um artista. Miró, Chagall, Braque, Picasso e Francis Bacon passaram pela faixa de papel colada acima do nome do château. Morgane Renaud, diretora da Champagne Bollinger, colecionava essas folhas. Em Bordeaux, aprendeu cedo, o vinho também se lê pela etiqueta.

Depois veio a Millésima, empresa que compra e revende para o mundo os vinhos mais caros de Bordeaux. Veio então a vontade de trabalhar numa região menor e mais artesanal, nas palavras dela. Há dois anos e meio está em Aÿ, a vila da Champagne onde fica a Bollinger. Numa conversa de uma hora em São Paulo, em evento da importadora Mistral, contou onde estaciona o carro: ao lado de um dos dois vinhedos murados, os clos, de onde sai a Vieilles Vignes Françaises, o champanhe mais raro da casa.

O nome diz quase tudo: vinhas velhas francesas. Quase toda videira plantada hoje na Europa é uma planta montada. A parte de cima, que dá a uva, é europeia; a raiz é de origem americana. A troca foi imposta por um pulgão quase invisível a olho nu, a filoxera, que chegou à Inglaterra em 1863 com mudas trazidas da América e, na mesma década, apareceu no sul da França. O inseto vive na raiz, crava ali o sugador e provoca inchaços que matam a planta em poucos anos. As videiras americanas evoluíram ao lado dele e aguentam o ataque; as europeias, não. A saída foi enxertar a uva europeia sobre raiz americana.

Na Champagne, a praga foi identificada em agosto de 1890. Em 1911, os focos somavam 6.500 hectares, mais da metade das vinhas que ainda não tinham sido enxertadas. O replantio mudou a cara da região. Até ali, as videiras cresciam “en foule”, em multidão, sem fileiras, e se multiplicavam por mergulhia: o agricultor dobrava um ramo ainda preso à planta, enterrava-o, e dali nascia uma videira nova. O vinhedo replantado ganhou fileiras e arames, por onde passava um cavalo puxando o arado. Rendeu mais uva com menos trabalho. Na Bollinger, a troca por raízes americanas levou mais de vinte anos, segundo a casa.

Dois pedaços de terra ficaram de fora desse rearranjoSomam cerca de 3.100 metros quadrados, menos da metade de um campo de futebol. Ali as videiras seguem sobre as próprias raízes e plantadas como antes de 1890. A cada ano, os ramos que deram fruto são dobrados e enterrados, com três brotos de fora; no ano seguinte, sobem como plantas novas, descreveu o crítico britânico Jamie Goode, que visitou as parcelas. Cada planta nova é cópia da anterior, e a vinha se renova sem nunca ser arrancada. O resultado é um mato de cerca de 30 mil pés por hectare, contra uma média de 8 mil na região, segundo Tom Stevenson, na World of Fine Wine. Sem fileiras, não há por onde passar trator. A terra é trabalhada à mão, com ajuda de um cavalo. No relato de Goode, um hectare comum pede 500 horas de trabalho; as duas parcelas muradas, 1.500. Morgane admite que a produção é pequena: entre 700 e 2 mil garrafas por safra.

Ninguém sabe ao certo por que a filoxera poupou as duas parcelas. “É um mistério”, disse a Goode o viticultor da casa, Gilles Descortes. A Bollinger aposta nos muros, que “parecem proteger” as vinhas. Stevenson lembra que o inseto se dá mal em solo muito arenoso, mas o de Aÿ tem argila. Havia uma terceira parcela, a Croix-Rouge, de 16 ares. A filoxera apareceu ali em 1998, e 2004 foi a última safra em que suas uvas entraram na garrafa, segundo Stevenson. Morganne diz que a casa faz tudo para que as outras duas não sigam o mesmo caminho.

Na adega, o trabalho continua manual. O vinho fermenta em barricas velhas de carvalho, que chegam da Maison Chanson, em Beaune, na Borgonha, empresa do grupo, depois de quatro ou cinco anos de uso. As garrafas são giradas e abertas à mão para expulsar o depósito de leveduras e descansam anos antes de sair. Nada disso é invenção da Bollinger. Até 1890, era assim que se plantava em toda a Champagne. A fileira, o arame e o enxerto chegaram como remédio contra uma praga e ficaram como regra, porque rendiam mais. A casa mantém em 31 ares o que a região abandonou em milhares de hectares e paga por isso em horas de trabalho e em garrafas que não passam de 2 mil. O vinho de hoje, feito com técnicas de hoje, sai de uvas cultivadas como no tempo em que Jacques Bollinger fundou a casa.

A história de quase 200 anos traz outros trunfos. Repousam cerca de um milhão de garrafas magnums de reserva, garrafas de 1,5 litro com safras antigas. Morgane as compara ao tempero de um cozinheiro: entram em pequena dose na champagne de entrada da casa. Estima-se que algo de 5% a 10% da mistura.

A Bollinger se apresenta como a menor das grandes casas de Champagne e como a casa do Pinot Noir, a uva tinta que responde por 60% do Special Cuvée, seu champagne de entrada. A série PN, 100% Pinot Noir, põe no rótulo uma vila e um ano. A mesma uva tem na casa um endereço mais antigo. A Côte aux Enfants, encosta de 4 hectares junto a Aÿ, estava dividida entre mais de 50 donos quando Jacques Bollinger, neto do fundador e marido de Lily, começou a comprá-la. Reuniu as parcelas entre 1926 e 1934.

A encosta já foi chamada de “Côte aux Enfers”, a encosta do inferno, por ser muito íngreme; o nome atual viria das crianças, as únicas que subiam por ela sem esforço, segundo a revista World of Fine Wine. Do lado sul sai um tinto sem bolhas, feito à moda da Borgonha, com cachos inteiros, e engarrafado só nas safras que a casa considera excepcionais. Uma dose de 5% vai para o champanhe rosé safrado. Do lado noroeste, mais fresco, sai desde a safra 2012 um champanhe, lançado em 2022.

A casa é mais vinícola cuja história teve um capítulo central assinado por uma mulher. Elisabeth “Lily” Bollinger assumiu a casa com a morte do marido, Jacques, em 1941, e a dirigiu por três décadas. Em 1967, lançou ao mercado uma invenção sua: um champagne inovador envelhecido por anos sobre suas borras. Foi um grande sucesso. Normalmente, após a segunda fermentação em garrafa (que cria as bolhas), o Champagne permanece sobre as borras (leveduras mortas) por um período determinado – geralmente três anos para não-vintage, mais para vintage. Depois desse tempo, faz-se o dégorgement (desgorgamento): remove-se a borra, adiciona-se o licor de expedição e a garrafa é imediatamente comercializada. Lily Bollinger inverteu a lógica. O vinho permanece sobre as borras por muito mais tempo – às vezes uma década ou mais – desenvolvendo muito mais complexidade.

Nasceu a R.D., sigla de “recém-degolado”: champanhe que passa anos em contato com as leveduras e só tem o depósito retirado perto da venda. A primeira foi a safra 1952, lançada em 1967, segundo o crítico Charles Curtis, da Decanter. Dela saiu também a Vieilles Vignes Françaises, com a safra 1969. Morganne conta que Lily gostava de acompanhar seus champanhes com tournedos Rossini, medalhão de filé com foie gras e trufa. Em 1961, ao Daily Mail, deu a frase pela qual é lembrada: bebia champanhe quando estava feliz e quando estava triste, às vezes sozinha, e em companhia por obrigação; fora isso, nunca tocava nele, “a menos que estivesse com sede”.

A marca está também nos livros de Ian Fleming e nos filmes de 007. O vínculo formal veio de um encontro, em 1978, entre Christian Bizot, sobrinho de Lily, e o produtor Albert Broccoli. A Fortune registrou em 2019 que não houve dinheiro. Morgane acrescenta que também não houve contrato: foi um aperto de mãos. Em fevereiro de 2025, a Amazon, de Jeff Bezzos, assumiu o controle da franquia, antes da família Broccoli. O próximo filme terá direção de Denis Villeneuve e ainda não tem ator anunciado. A Bollinger, diz Morgane, negocia sua presença agora com os novos donos e espera, “como o mundo inteiro”, para ver o que vem.

O vinho e a guerra

20 de Setembro de 2026

A história da família Drouhin mostra a resistência de produtores de vinho ao nazismo e os desafios do mundo de hoje


Eram pouco antes das seis da manhã de 7 de junho de 1944, quando batidas fortes na porta de uma casa de Beaune fizeram todos os moradores acordarem. A família Drouhin não tinha dúvidas de que do lado de fora estavam oficiais nazistas. Os Drouhins tinham ouvido da possibilidade de uma prisão iminente.

Durante o período entre as guerras, como reservista do exército francês, Maurice tinha sido incumbido pelo governo francês de acompanhar delegações militares a Washington, com o intuito de persuadir os Estados Unidos a abandonar sua política de isolamento. Durante a segunda guerra mundial, realizava missões especiais periódicas e mantinha contato com amigos do exército norte-americano. Nunca revelou a natureza exata dessas missões aos filhos, mas encontrava-se frequentemente com o General Douglas MacArthur, principal comandante das forças dos Aliados na região do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

Esse histórico já havia custado caro. Em agosto de 1941, Maurice fora detido e levado para uma prisão nos arredores de Paris, onde permaneceria por seis meses até sua libertação, em 13 de fevereiro de 1942. O pretexto oficial das autoridades de ocupação fora a descoberta de um velho revólver enferrujado da Primeira Guerra Mundial esquecido em uma gaveta. A razão real, no entando, era o monitoramento ostensivo do serviço secreto alemão, que suspeitava de suas atividades contra o governo de Adolf Hitler.

Maurice Drouhin

Foi justamente atrás das grandes que a história da Borgonha quase tomou outro rumo. Durante uma das visitas da esposa, Pauline, à prisão em 1941, ela o informou de que metade (50%) do lendário Domaine de la Romanée-Conti fora colocada à venda. Sendo a Maison Joseph Drouhin a maior distribuidora dos vinhos daquela propriedade à época, abria-se a oportunidade histórica de adquiri-la. Maurice, contudo, temia que a compra de um ativo tão vistoso em plena ocupação atraísse ainda mais a atenção e o confisco por parte dos Weinvorsteher (os “barões do vinho” encarregados pelo Terceiro Reich de saquear as adegas francesas). Preferiu declinar, reconta Christophe Thomas, diretor de exportação dos vinhos da família Drouhin na Borgonha, presente em São Paulo essa semana em uma degustação dos vinhos, importados pela Mistral.

Quando a Gestapo voltou à sua porta naquela manhã de junho de 1944, Maurice sabia que não haveria uma segunda chance na prisão. Eles não tinham mais suspeitas. Agora a ordem era executá-lo. Sem hesitar, Maurice enfiou a mão debaixo da cama e agarrou uma maleta com roupas e objetos pessoais. Ele mantinha essa bolsa pronta havia dois anos — desde sua libertação em 1942, depois da primeira e até então única prisão. Achava que os alemães tentariam prendê-lo novamente devido às suas atividades na Resistência.

Sem tempo, apenas murmurou “eu te amo” para Pauline. Desceu silenciosamente a escada em direção à adega de vinho. Parte das cenas está descrita ainda mais em detalhes no livro Vinho e Guerra, de Don e Petie Kladstrup, Cia das Letras, e em uma entrevista do filho Robert ao podcast I´ll drink to That, de Levi Dalton.

Para ganhar tempo para o marido, Pauline abriu a janela. Viu vários oficiais da Gestapo acompanhados de soldados armados. Eles tinham descoberto que Maurice passava segredos para os aliados. Uma sentença de morte tinha sido expedida. Quando os oficiais ordenaram que abrisse a porta para falarem com Maurice, Pauline disse que o marido tinha ido para Paris a negócios. Não acreditaram. Ordenaram a abertura da porta. Vasculharam todos os cômodos, abrindo armários, revirando roupas, a cozinha, banheiros, os quartos e espiando debaixo das camas.

Enquanto os soldados reviravam a casa, guiado pela chama de uma vela, Maurice conseguiu escapar de seu quarto para as adegas da família Drouhin, um labirinto de quilômetros de passagens subterrâneas do século XIII. Movido pelo medo de ser executado, procurou freneticamente por uma portinha secreta de madeira escondida. Ao encontrar, girou a maçaneta e saiu para uma outra rua de Beaune, no coração da Borgonha. Olhou o nome da rua: paradis, em português “paraíso”. Morava na rua l´enfer, o inferno. Sorriu da ironia. Sem nenhum alemão à vista, desapareceu.

Viveu escondido quatro meses nos edifícios dos Hospices de Beaune até a libertação da cidade pelas tropas americanas em setembro de 1944, segundo recordou sua neta, Véronique Drouhin, em entrevista à revista inglesa Decanter. Nessa época, o Hospices de Beaune ainda funcionava como um hospital de caridade gerido por freiras católicas (a madre superiora não apenas concordou em abrigar Maurice, como também levava mensagens entre ele e sua esposa.) A ajuda delas fez com que, depois da guerra, Maurice doasse dois hectares de seus melhores vinhedos de Beaune ao Hospices, em agradecimento pelas freiras terem salvado sua vida.

A guerra está presente na vida dos Drouhins por outro episódio, diz o diretor de exportação da vinícola, Christophe Thomas. Na primeira guerra mundial, em uma trincheira, Maurice conheceu o Marquês de Laguiche, proprietário de um dos mais cobiçados e caros vinhedos do planeta vitis: Montrachet, o mesmo que a personagem de Grace Kelly oferece ao fotógrafo interpretado por James Stewart em Janela Indiscreta.

Ficaram amigos e anos depois selaram, com um aperto de mãos, um acordo que fez e faz os Drouhins terem o vinhedo para vinificarem um dos mais famosos brancos do mundo. O acordo de mão durou décadas. Virou formal há cinco anos. “Ouvimos que um grupo de luxo ia almoçar com eles e então resolvemos formalizar”, afirma Thomas.

Christophe Thomas, diretor de exportação

Os grupos de luxo, aliás, estão mudando a região, que desde o filme Sideways está no topo da lista entre enófilos do mundo. Recentemente, o grupo que detém a famosa champagne Louis Roederer, cujo rótulo mais famoso é a Cristal, acertou a compra da vinícola familiar Pierre Damoy, em uma transação avaliada por algumas revistas especializadas em 300 milhões de euros. “Os preços das terras na Borgonha estão nas alturas, não temos condições de comprar mais nenhum grand cru”, diz Thomas.

As mudanças climáticas também têm alterado a dinâmica. Em 2024, chuva, geada, tempo nublado fizeram a vinícola ter perdas de 90% de seus rótulos, uma perda maior que a média da região, de 75%. A redução na colheita não muda a visão da vinícola. “Nós estamos há anos em agricultura biodinâmica e isso é um norte, as raízes ficam mais profundas e permitem que tenhamos videiras mais sadias. Quem a pratica tem grama ao redor dos vinhedos, isso ajuda a ter plantas melhores”, diz.

O grupo foi um dos pioneiros ao investir na área no fim dos anos 1980, depois de um dos membros da família, que gostava de pescar, ter notado que havia poucas minhocas no solo de um dos vinhedos mais famosos da vinícola. A dificuldade em encontrar iscas para uma pescaria levou a investigar mais a fundo o que estava acontecendo, um pulo para iniciar estudos. “No início, alguns ficaram reticentes, mas depois, ao longo dos anos, se viu que era o futuro”, diz Thomas. O paladar do novo consumidor tem mudado também. Um exemplo é a procura crescente por vinhos brancos, com destaque para Chablis, onde a vinícola começou a investir há duas décadas, quando a onda de consumo ainda não tinha crescido.

Se nas décadas de 1940 e 1910 a continuidade da vinícola foi testada pela violência geopolítica e pelas arbitrariedades do Terceiro Reich, o século XXI impõe outros desafios: a inflação vertiginosa dos ativos alimentada por conglomerados globais de luxo e a volatilidade extrema de um clima em mutação.

O Oceano Atlântico na taça

4 de Setembro de 2026

A herança dos romanos e o clima particular posicionam os brancos da Galicia com destaque nas mesas


Os primeiros visitantes que pisaram na Galicia acharam que a região não se parecia com o que conheciam da Espanha. Para eles, a chuva abundante (média três vezes superior à do restante do país), seus litorais rochosos e colinas onduladas mais se assemelhavam a outros países mais próximos do Mar do Norte, como a Escócia. Foi em Baiona, nessa mesma costa, que a caravela Pinta atracou em 1º de março de 1493, sozinha, trazendo à Europa a primeira notícia de que a viagem de Cristovão Colombo à América tinha sido bem-sucedida e os espanhóis tinham descoberto uma outra terra além do Atlântico.

A história do cultivo de uvas é antiga em uma região hoje que ganha cada vez mais espaço nas mesas por conta do terroir de Rías Baixas e da uva albariño, com um punhado opções de qualidade preço importadas no Brasil. Um estudo de 2020 publicado no Australian Journal for Grape and Wine Research comparou sementes de uva de uma escavação romana na região com castas atuais e encontrou semelhança genética com o albariño moderno, um indício de que os romanos que anexaram a região como província 137 anos antes de Cristo já cultivavam alguma versão dela. Monges beneditinos plantaram vinhas ao longo do Caminho de Santiago a partir da Idade Média.

O Oceano Atlântico adentra o continente em estuários de múltiplos braços chamados rías em espanhol. A parte sul – rías baixas – batiza o nome da denominação principal de onde vêm os principais albariños hoje consumidos. O clima é particular: os maiores índices pluviométricos da Espanha, boa parte concentrada no inverno, convivem com pouco mais de duas mil horas de sol por ano, permitindo equilíbrio entre água e calor.

Para completar: uma amplitude térmica mínima entre verão e inverno, pouco mais de dez graus. Isso preserva a acidez que separa o albariño de qualquer branco produzido mais para o interior da Espanha. O solo é composto em boa parte de camada arenosa de cerca de vinte centímetros que drena a chuva torrencial em vez de encharcar a raiz, deixando a vinha se aprofundar. Os solos são ricos em minerais, o que confere vinhos com um toque mineral marcante, de uma forma não muito diferente do que ocorre em Chablis, hoje um campeão de vendas no Brasil. (A região também produz tintos interessantes, mas o foco aqui são os albariños).

Essas particularidades e o preço dos rótulos levaram Roberta Kuroda a visitar a região há cinco anos. Anos antes, ela tinha se apaixonado pelo mundo dos vinhos. Aos dezoito anos, numa palestra sobre harmonização, um chef serviu um prato de galinha-d’angola com molho de jabuticaba e um sommelier explicou por que aquele vinho tinto funcionava com aquele prato. Ela não tinha repertório nenhum. Achou aquilo, só, muito bonito. Foi fazendo cursos, degustações, organizando eventos, até que criou uma importadora, a Oinos, com grande parte do portfólio voltado para vinhos espanhóis, com destaque à região da Galicia. “A Espanha tem boa relação qualidade preço e tem uma oferta de vinhos mais fáceis de conseguir do que a França”, diz Roberta.

Quando organizou sua primeira visita à região, conseguiu uma rede de contatos.  Em uma visita a uma vinícola, o produtor disse que não tinha vinho, mas que seu amigo que era vizinho da propriedade tinha. Ela topava visitar? Ela tentava havia semanas falar com o dono da vinícola Albamar. Os e-mails não eram respondidos, o telefone não respondia. “Estou tentando falar com ele, mas ele sumiu.” O produtor discou ali mesmo. Em dias, firmou-se o contrato.

A cena se repetiu, com variações. Eulogio Pomares, da vinícola Zárate, é muito amigo de Manuel Méndez, da bodega Fulcro. “Eles não têm essa preocupação. Ah, ela vai gostar mais do vinho do meu amigo. Entendem que há espaço para estilos diferentes de albariño”, diz Roberta. Hoje, Zárate, Albamar e Fulcro são três vinícolas importadas pela Oinos, com alguns ótimos rótulos de brancos abaixo de 250 reais.

Antes mesmo que a burocracia internacional engrenasse, a virada qualitativa da região começou a ser desenhada em agosto de 1953, quando o advogado Bernardino Quintanilla apostou com o proprietário Ernesto Zárate — o mesmo sobrenome que hoje rotula a garrafa que a Oinos traz ao Brasil — que seu albariño venceria o do amigo numa prova cega. Nenhum dos dois ganhou: outro produtor levou o primeiro prêmio, mas os dois não abandonaram a disputa.

A revanche informal virou um concurso e depois uma festa popular, que segue viva setenta anos depois. O toque final foi dado pela burocracia: em 1988, sob pressão do ingresso da Espanha na Comunidade Europeia, os vinhos da região ganharam oficialmente o selo da denominação de origem Rías Baixas. O crescimento veio: os 237 hectares iniciais viraram mais de quatro mil. Chegaram nomes de peso: Vega Sicília lançará no próximo ano o Deiva em Rías Baixas, com produção inicial de 30 mil garrafas, uma incursão da mítica vinícola em seu primeiro branco espanhol.

No Brasil, outras importadoras têm rótulos da Galicia. A Wines4U traz os vinhos de Alberto Nanclares, outro bom produtor de qualidade preço.  Em fevereiro, dados da consultoria Ideal.BI apontam que brancos e espumantes somam 30% do mercado nacional de vinho, dez pontos a mais que em 2019. Apenas os vinhos de Chablis respondiam por um quarto de todo o vinho de Borgonha importado ao país, com alta de 56% em volume num único ano.

Dois documentários espanhóis, Albariño Rías Baixas: de la tradición al mundo e sua sequência El Despertar del Vino en Galicia, registraram o movimento de viticultores recuperando vinhas e castas que quase desapareceram no século passado. Há mineralidade além da França.

Como nasceu Anthony Bourdain

27 de Julho de 2026

Com estreia prevista para agosto, o filme ‘Tony’ revela as raízes de uma vida entre a precisão militar da cozinha e a atração pelo desastre


Em abril de 1999, Anthony Bourdain tinha 42 anos e era chef do Brasserie Les Halles, bistrô francês à moda antiga no coração de Nova York. Nas últimas semanas, tinha passado horas trabalhando em um texto. Escreveu, originalmente, para uma revista alternativa chamada New York Press, que havia pautado sua ideia como matéria de capa até o editor cancelar tudo de última hora. Como o texto estava feito, decidiu tentar outros meios.

Tinha imaginado que, se conseguisse um espaço para publicar, o público seria restrito e pequeno. “Pensei: vou escrever algo que vá entreter outros cozinheiros, talvez eu ganhe cem pratas e meu cozinheiro de fritura ache engraçado”, relembrou em 2017, durante uma participação no The New Yorker Festival. O artigo foi parar na The New Yorker, depois que a mãe de Bourdain sugeriu a uma colega do New York Times, Esther Fein, que o marido de Fein, David Remnick, o novo editor da revista, desse uma olhada. “Isso transformou minha vida em dois dias”, disse Bourdain no evento.

Para sua própria surpresa, a revista aceitou. O texto abre assim: “Boa comida, boa mesa, são sangue e vísceras, crueldade e decomposição.” É a primeira frase do texto, publicado on-line em 12 de abril e na edição impressa de 19 de abril de 1999. Mais adiante, Bourdain escreve que não se surpreendeu ao ouvir falar de um levantamento sobre a população carcerária americana segundo o qual a ocupação civil mais comum entre os detentos, antes da prisão, era “cozinheiro”.

Compara a gastronomia à “ciência da dor”. Explicou por que o peixe de segunda-feira, salvo honrosas exceções, está no restaurante desde sexta-feira, “sob Deus sabe que condições”. Descreve um ritual de cozinha quando um corte de carne sai malfeito, “duro, cheio de nervo e tecido conjuntivo, tirado da ponta do quadril, e talvez com um cheiro estranho de idade”. O cozinheiro pergunta ao chef o que fazer com aquilo. A resposta vem sempre igual: guardar para quem pede bem passado, porque “o filisteu que pede a carne bem passada dificilmente vai notar a diferença entre comida e destroço”.

Chama vegetarianos e veganos de inimigos de tudo que há de bom no espírito humano, numa comparação com facções político-religiosas que hoje talvez se tornasse impublicável em qualquer revista americana. Escreve que ser chef é muito parecido com o trabalho de controlador de tráfego aéreo: “você lida o tempo todo com a ameaça do desastre.”

O texto alçou o chef ao estrelato, fez Bourdain abandonar as caçarolas, se tornar autor de best seller, viajar o mundo inteiro, ser protagonista de séries de televisão premiadas. O sucesso do ensaio rendeu contrato de livro: “Cozinha Confidencial” vendeu mais de um milhão de cópias em brochura apenas nos Estados Unidos. Uma frase do próprio ensaio de 1999 já resumia o que ele descrevia como vocação: “nos Estados Unidos, a cozinha profissional é o último refúgio dos desajustados. É um lugar para gente com passado ruim encontrar uma nova família.”

No livro, a mesma disposição de espírito vira manifesto de viagem: “Será que realmente queremos viajar em papamóveis hermeticamente fechados pelas províncias rurais da França, do México e do Extremo Oriente, comendo só em Hard Rock Cafés e McDonald’s? (…) Eu quero tudo. Quero experimentar tudo uma vez.”

Bourdain morreu em 8 de junho de 2018, aos 61 anos, em um hotel de luxo na Alsácia, na França fronteira com a Alemanha, enquanto gravava um episódio sobre a região para sua série Parts Unknown, com o amigo e chef Eric Ripert. Suicídio por enforcamento.

Três anos depois, o documentário Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain, de Morgan Neville, chegou aos cinemas americanos em julho de 2021 (hoje está disponível na Amazon). Ganhou destaque na imprensa por uma cena em que Bordain lê em voz alta um e-mail escrito por ele. Amigos estranharam. Não havia gravação de Bourdain lendo aquele texto, porque ele nunca o leu em voz alta. Uma empresa de tecnologia recriou a voz dele por inteligência artificial para pronunciar três frases que ele só havia escrito. A ex-mulher e executora do espólio negou publicamente ter dado o aval ao diretor.

Em agosto de 2026, chega aos cinemas Tony, da A24, dirigido por Matt Johnson, com Dominic Sessa no papel de Bourdain aos dezenove anos, num verão de 1975 em Massachusetts. O material de imprensa descreve o jovem Bourdain sendo formado na cozinha por um personagem batizado Ciro, interpretado por Antonio Banderas.

Dominic Sessa, o ator escalado, não precisou aprender tudo do zero. Começou aos treze anos lavando louça em uma padaria em Nova Jersey. A proprietária, Cathy Greene, foi ensinando aos poucos misturar a massa, cortar, fritar, cobrir, até chegar a croissants. Numa entrevista recente à jornalista Laurie Woolever, publicada na Bon Appétit, Sessa contou um erro que até hoje não esqueceu: errou a quantidade de massa numa fornada e jogou o excesso nas latas de lixo do lado de fora para esconder o erro. A massa continuou crescendo, explodiu as latas, até que mentira ficou impossível ser escondida.

“Eu teria ficado muito menos desapontada se você tivesse me contado. A gente teria resolvido o problema. Agora minhas latas de lixo estão destruídas”, disse a proprietária, segundo o relato dele. A lição que ficou, nas palavras de Sessa foi que errar fazia parte do trabalho, contanto que ele não mentisse quando erros acontecessem. Seria a mesma tensão entre erro e mentira que o roteiro de Tony atribui ao jovem Bourdain, que passa boa parte do filme enganando família, chefe e interesse amoroso sobre as próprias habilidades. A jornalista da entrevista com o ator é coautora de Volta ao Mundo: Um Guia Irreverente, último livro de Bourdain.

Antes de embarcar para as filmagens no verão de 2025, Sessa treinou em um bistrô em Nova York. Aprendeu a abrir ostras e o ritmo de uma cozinha em serviço. “Numa padaria, você faz tudo e depois põe na vitrine. O ritmo é bem diferente num restaurante”, disse. Sobre o personagem, falou: “As pessoas esquecem que o Tony era um profissional calculista. Você quer vê-lo como esse cara rebelde, bebendo, fumando, rodando o mundo, mas no fim das contas ele geria cozinhas de restaurante com muita eficiência, o que é extremamente difícil de fazer. (…) Essa é a dicotomia da vida dele. É caos e controle ao mesmo tempo.”

Ao saber de sua morte, em junho de 2018, o ex-presidente americano Barack Obama — que dividira uma refeição com Bourdain em um célebre episódio gravado no Vietnã, em 2016 — publicou em suas redes. “Banquinho de plástico baixo, macarrão barato, mas delicioso, cerveja gelada de Hanói. É assim que vou lembrar do Tony.”

Vinho sem segredo edição digital

14 de Junho de 2026

@vinhosemsegredo ganhou mais uma plataforma: uma revista eletrônica, nascida da provocação de um discreto amigo do mundo do vinho que confessou sentir falta de ler artigos com mais fôlego e profundidade. Com o braço técnico do Claude na diagramação e a generosidade dos amigos que emprestaram suas mentes para textos, a publicação ganhou vida.

Pode ser acessada clicando-se aqui: https://vinhosemsegredo.com/revista-digital-vinho-sem-segredo/

Será periódica? Não sei. Depende do tempo e, obviamente, do interesse de quem se aventurar por estas páginas. Por que não é paga? Sinceramente, porque se o fundador do Vinho Sem Segredo, Nelson Luiz Pereira, com toda a sua generosidade e vasto conhecimento, manteve um espaço gratuito por anos, quem sou eu para cobrar o que quer que seja? Se o leitor fizer questão de abrir a carteira, que gaste com as assinaturas de John Gilman, Jasper Morris e companhia.

Na edição, degustação de vinhos 2022 de Keller, villages tintos 2021 da Borgonha, os cinco produtores de Gevrey Clos Saint Jacques, as champagnes de David Léclapart, Bruno Giacosa em um 1995 no ápice, Mugnier e Glenn Gould, Vinicius de Moraes e coleções.

Se esta edição for filha única, que fique como o registro de uma bela conversa de mesa. Como ninguém é mais otimista que alguém que tem adega e espera sobreviver às garrafas estocadas, se for a primeira de muitas, que seja um brinde ao inesperado.

O brinde que atravessou impérios

28 de Setembro de 2026

Nenhum vinho tem suas impressões digitais tão marcadas na história do Brasil quanto o vinho do porto, um dos principais itens de exportação de Portugal nos séculos XVII e XVIII. Assinado em 1703 entre Portugal e a Inglaterra, o Tratado de Methuen moldou a economia portuguesa por décadas. O acordo abriu Portugal aos tecidos ingleses e alimentou, desde então, a tese de que travou a indústria têxtil local. Em contrapartida garantiu ao vinho português tarifa preferencial no mercado britânico contra o vinho francês. O resultado foi maior dependência das importações inglesas e uma economia interna menos diversificada.

As vantagens de acesso ao mercado britânico chegaram junto com mudanças na produção. A fortificação com aguardente ganhou espaço, a qualidade geral do vinho melhorou, culturas menos lucrativas foram arrancadas para abrir espaço a novos vinhedos. A garrafa cilíndrica, que permitia deitar o vinho e envelhecê-lo, difundiu-se no mesmo século.

A chegada ao poder de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro marquês de Pombal, ministro de d. José I, foi um marco na história do vinho em um momento em que um desastre natural impôs mudanças. Em 1º de novembro de 1755, um terremoto destruiu boa parte de Lisboa e atingiu o litoral do Algarve e de Setúbal. A administração portuguesa passou a buscar racionalizar a gestão, no reino e nas colônias.

Pombal impôs o controle estatal sobre o comércio do vinho do Porto sob a forma de uma empresa: a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, mais tarde conhecida como Real Companhia Velha, criada em 10 de setembro de 1756 — aniversario de 270 anos a ser celebrado nesta quinta-feira. Por meio dela, os produtores do Douro não podiam recusar-se a vender-lhe o vinho nem o negociar a preço diferente do que ela fixava, e era ela quem decidia qual vinho podia embarcar. Tinha ainda o exclusivo do abastecimento do Brasil e o monopólio da aguardente no norte de Portugal.

A demarcação veio em seguida. Em 28 de julho de 1757, Pombal mandou demarcar “as duas costas do rio Douro e os respectivos terrenos que produzem diferentes qualidades de vinhos”. Entre 1758 e 1761 foram cravados 335 marcos de granito ao longo do rio — 201 no primeiro ano, 134 no segundo.

Ao fixar limites geográficos, classificar vinhedos por qualidade e estabelecer normas de produção, Pombal inscreveu sua história no mundo do vinho, se antecipando em quase um século a classificação de Bordeaux de 1855. A intenção era tripla: proteger a autenticidade do vinho, regular seu preço e reduzir a influência inglesa sobre o comércio português.

O arranjo de Methuen funcionou tão bem para um dos lados que, entre 1780 e 1795, o vinho do Porto respondeu por três quartos de todo o vinho bebido no Reino Unido, segundo Norman Bennett, que estudou os arquivos da casa Sandeman no Porto. Em 1810, mais de oitenta por cento das exportações portuguesas seguiam para a Inglaterra. O ouro que saía das minas de Minas Gerais e o açúcar que saía de Pernambuco pagavam, no fim da cadeia, o mesmo tecido inglês.

A preferência tinha preço. As tarifas de exportação portuguesas eram baixas, mas os direitos de importação britânicos incidiam com peso sobre o vinho feito para aquele mercado; o que seguia para outros destinos pagava muito menos. Diante de uma comissão parlamentar em Londres, um negociante britânico explicaria por que Lisboa nunca se apressou em mexer nisso: as autoridades portuguesas sabiam da estima que o produto tinha entre os bebedores prósperos da Grã-Bretanha. Os súditos britânicos, concluiu, não conseguiriam viver sem vinho do Porto.

Quando o ouro começou a minguar, nos anos 1750, Pombal precisou de outra fonte de receita e de outra rota. Criou companhias monopolistas: a do Grão-Pará e Maranhão em 1755, a do Alto Douro em 1756, a de Pernambuco e Paraíba em 1759. Era uma tentativa de reequilibrar as contas da metrópole e retomar as rédeas do comércio atlântico.

O Brasil era a rota alternativa. A Companhia abriu delegações no Rio de Janeiro, em Salvador e no Recife já em 1756, e em 9 de agosto de 1765 uma resolução deu-lhe o exclusivo de vender todo vinho português em solo brasileiro, bloqueando Açores, Madeira e os vinhedos de Lisboa.

O Brasil ficou, em média, com cerca de três por cento do vinho do Porto produzido, segundo o levantamento de Paulo Reis Mourão publicado em 2017 na Revista de História Económica. Em 1776 a Companhia perdeu a exclusividade brasileira. E os ingleses ganharam nas duas pontas: no Douro, a compra de terras por súditos britânicos subiu depois da criação da Companhia que devia contê-los, enquanto, no Rio, a fuga da Corte em 1808 mudou as relações comerciais, transformando a colônia na sede de poder da metrópole e dando espaço para a Inglaterra avançar no Brasil.

Em janeiro de 1808, o governo português abriu os portos brasileiros às nações amigas e desmontou o exclusivo colonial que sustentava o monopólio. Era a moeda de troca dada pela proteção dos ingleses à família real, que fugia de Napoleão. Por volta de 1819 havia cerca de sessenta firmas britânicas na cidade, com igreja, cemitério e hospital próprios.

A vinda da família real portuguesa ao Rio de Janeiro mudou hábitos, criou modismos. Nos dezoito anos entre 1814 e 1831, o Brasil ficou com cerca de 20% das exportações de vinho do Porto. Iguarias europeias e roupas importadas se tornavam símbolo de status. A efervescência social podia ser vista nas ruas e era transportada às páginas por Machado de Assis.

O vinho de Drama

15 de Setembro de 2026

A reinvenção do vinho grego na taça


Em 1979, Costas Lazaridis mandou abrir um punhado de fileiras numa encosta de Drama, no extremo nordeste da Macedônia grega. Pegou o gosto pelo vinho na Alemanha, onde passava temporadas cuidando do negócio de mármore da família. Com as fileiras abertas, plantou videiras de Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon e Assyrtiko. A escolha não foi aleatória. Variedades internacionais permitiriam compreender o potencial dos solos e do clima da região por meio de castas plantadas da África do sul aos Estados Unidos. Já o cultivo de Assyrtiko possibilitaria saber se uma casta grega podia render frutos naquele lugar.

O chão de Drama não era inóspito para vinhas. Num estudo publicado em 2024 na revista Tourism and Hospitality, pesquisadores relatam que no começo do século XX toda a área montanhosa da região estava plantada com vinha, e que a produção entrou em colapso a partir dos anos 1950, com a onda de emigração para a Europa central. Na Antiguidade, aquelas montanhas foram um dos centros do culto a Dioniso, deus grego do vinho, das festas, do teatro.

Quase meio século depois, a região mudou de patamar. O experimento virou negócio para um punhado de famílias: Drama planta 1,5% da área de videira da Grécia e responde por cerca de 5,5% do volume de vinho que o país exporta. Pelos arquivos de 2022 da Direção de Economia Agrícola da Unidade Regional de Drama, do Ministério do Desenvolvimento Rural grego, reproduzidos no estudo, o Sauvignon Blanc responde por 20,8% do que se planta na região; o Cabernet Sauvignon, por 13,9%; o Merlot, por 13,7%. O Assyrtiko fica em 7,6% e o Agiorgitiko, em 3,8%.

A uns cem quilômetros a leste, na Macedônia Oriental, passou-se uma das cenas do Canto IX da Odisseia, que recentemente chegou às telas de cinema em filme de Christopher Nolan. Odisseu relata que, ao aportar em Ísmaro, poupou a vida de Máron, sacerdote de Apolo, e de sua família. Como gratidão, Máron presenteou o herói com doze jarras de um vinho extremamente aromático e divino que vinha lacrado e era guardado em segredo absoluto. Sua potência alcoólica e a concentração daquela bebida seriam usadas por Odisseu para embriagar o ciclope.  Na adaptação de Christopher Nolan, o vinho não aparece. Presos por dias na caverna com Ciclope, ele é cegado dormindo, sem ter bebido.

A história tem peso sobre o que se bebe na taça? “O vinho grego antigo é uma parte extraordinária do nosso patrimônio cultural, mas devemos ter cuidado para não apresentar o vinho grego moderno como continuação direta do que se bebia há milhares de anos. Os vinhos dos textos antigos pertenciam a outro mundo de viticultura, vinificação, conservação e consumo”, afirma Antonis Papadopoulos, gerente comercial da Costa Lazaridi para o Brasil, que participou de uma aula virtual sobre os rótulos da vinícola de Drama, importados pela GRK Vinhos.

A herança de milênios de história funciona como porta de entrada e como armadilha. “Durante muitos anos, parte do nosso trabalho nos mercados de exportação foi tirar a conversa de a Grécia faz vinho há milhares de anos para levá-la para que as pessoas olhem o que a Grécia está produzindo hoje.”

Ele vai além. “Para nós, a herança antiga é o início da história, e não a definição do vinho. Quando apresentamos nossos outros vinhos no exterior, queremos que eles sejam julgados, em última análise, pelo que está na taça: sua origem, suas castas, sua qualidade e sua capacidade de expressar os vinhedos de Drama hoje. Nesse sentido, nossa história pode abrir a porta, mas o próprio vinho precisa mantê-la aberta.”

Drama tem indicação geográfica desde 1995 e nenhuma denominação de origem. A ausência costuma ser lida como atraso, mas Papadopoulos discorda da leitura: uma denominação é antes de tudo um recorte geográfico e produtivo mais estreito, com regras sobre castas, rendimentos e vinificação, e não um degrau automático de qualidade. “Drama é um exemplo interessante porque a ausência de uma denominação de origem de produto não deve ser interpretada como ausência de identidade regional.”

A pergunta que interessa a Drama, diz ele, é o que essa denominação deveria representar. O processo está em curso — uma união de produtores da região pleiteia o reconhecimento desde 2016. Pode ocorrer em dois a três anos. Os dois vinhos que a inaugurariam seriam um branco de Sauvignon Blanc com Assyrtiko e um tinto de Cabernet Sauvignon com casta grega, possivelmente Agiorgitiko. A denominação que vai consagrar a identidade da região é, em metade da taça, francesa.

A história do vinho de Drama está só começando.