Archive for Agosto, 2016

Hommage a Henri Bonneau

29 de Agosto de 2016

O título do artigo mistura dois grandes nomes da apelação Chateauneuf-du-Pape, Chateau de Beaucastel e Henri Bonneau. A homenagem (hommage) tem duplo sentido. Hommage é uma cuvée especial do Chateau Beaucastel, elaborada somente em seus melhores anos. Além disso, o almoço abaixo foi num certo sentido uma deferência ao grande Henri Bonneau, falecido recentemente em março deste ano 2016. Assim como Henri Jayer, vai virar lenda, e seus vinhos serão disputados acirradamente nos melhores leilões e adegas do mundo. Esses Henris são um caso sério!

Henri-Bonneau

o mestre e seus velhos barris

Henri Bonneau

Numa ruela de Chateauneuf du Pape, uma porta sem atrativos em meio a tantas casas, fica a adega de Henri Bonneau. De família de vinhateiros, Henri Bonneau cumpria o papel em sua 12º geração. Respeitadíssimo na região, seus vinhos fogem ao padrão normal de excelência da apelação, mesmo dentre os mais reputados produtores.

Um papel branco pregado na porta acima da campainha após sua morte, diz mais ou menos assim: “não entra aqui quem quer, mas aqueles que tiveram o privilégio de passar alguns momentos não esquecerão”.

Voltando à adega, seus sub-solos escuros, enegrecidos, recheados de velhos tonéis, mais parece uma catacumba, contrariando todos os princípios modernos de higiene em adegas. O tonel mais novo não tem menos que dez anos de uso. Contudo, ali aconteciam milagres. Após bons anos de envelhecimento, Henri sob seus critérios pessoais decidia engarrafar algumas cuvées. Uma delas, celestial, de nome bem apropriado, Réserve des Célestins. Neste almoço, tivemos o privilégio de provar três safras famosas (1978, 1989 e 1990), de pontuação perfeita, se é que se pode dar nota a esses vinhos. Detalhe importante, apesar da descrição acima, nenhum sinal de Brett. Pelo contrário, aromas maravilhosos com fruta bem presente.

henri bonneau 78 89 90

as estrelas do almoço

Os vinhedos de Henri Bonneau de seis hectares encontram-se nas melhores parcelas da apelação, inclusive La Crau, um lieu-dit de alta reputação por seu distinto terroir. Basicamente só Grenache, com algumas pitadas de Mourvèdre, Counoise, Syrah, e Vaccarèse. Aliás, ele detestava Syrah, sempre dizendo que é uma uva imprópria para esta apelação. Suas vinhas são antigas, mas com certos limites. Para ele, o ideal, o esplendor de uma planta, é quando atinge 30 anos. Outro segredo, era sua colheita tardia, amadurecendo ao máximo os cachos. O resultado era estupendo, pois a vinificação costumeiramente entière (com engaço), produzia taninos sedosos, de textura impar.

Por todos esses detalhes, pelo seu carisma, talento e bom humor, o mestre Henri Bonneau vai deixar saudades e fazer história com um dos melhores tintos da França de todos os tempos.

Voltando ao almoço, sabiamente começamos pelo melhor, Henri Bonneau Réserve des Celéstins 1990. A cor levemente atijolada, mostrava um brilho e limpidez impressionantes, já que seus vinhos não são filtrados. Os aromas provocavam silêncio, reverência, tal a complexidade e delicadeza dos mesmos. Tabaco, sous-bois, chocolate, alcaçuz, flores como rosas, além da fruta madura vibrante, permeavam as taças numa sinfonia. A boca era um caso à parte. que equilíbrio! que taninos são esses! que final longo e suave! me recuso a dar nota. Uma maravilha!

linguine ao ragu de coelho

linguine ao ragu de coelho e pinoli

Para não ser repetitivo, este padrão manteve-se nas safras 89 e 78 com algumas ressalvas. A safra 1989 estava um pouco fechada por incrível que pareça, mas os aromas ressaltavam o chocolate e alcaçuz. A garrafa 1978 tinha uma cor inacreditável comprovando para muitos, ser a safra mítica desta cuvée. Era a cor mais intensa e mais escura do painel. Os aromas eram concentrados e o volume em boca, surpreendente. Para alguns dos presentes, o vinho tinha uma ponta oxidativa, certamente um problema de garrafa. Contudo, ficava claro o potencial desta safra de se tornar imortal, pois o tempo parece não passar ao longo dos anos.

Dentre os ótimos prato do almoço, a massa acima na foto casou muito bem com os tintos de Henri Bonneau, sobretudo pela delicadeza e profundidade de sabores, além da similaridade de texturas.

beaucastel hommage

um clássico da apelação

Justificando nosso artigo, o Chateau de Beaucastel Cuvée Hommage a Jacques Perrin 2001 fez bonito. Nem de longe mostra a idade com seus quinze anos de vida. Cor saudável, aromas complexos com a marca registrada  de um Brett de terroir, denotando um toque animal sempre presente em seus vinhos. Em boca, muito equilibrado, taninos presentes e muito agradáveis. Final longo e promissor. Um verdadeiro clássico da apelação.

Talvez o mais surpreendente dos Chateauneufs foi o Clos du Mont-Olivet La Cuvée du Papet 1990, pouco conhecido entre os presentes. Uma cor inacreditável para um vinho de 26 anos, rubi escuro e concentrado. Além da magnifica safra 90, as vinhas são muitos antigas em vinhedos de localização privilegiada, verdadeiros lieux-dits (terroir consagrados). Algumas das plantas datam de 1901, isso mesmo. A vinificação e envelhecimento são tradicionais, sem presença de madeira nova. Nesta cuvée top, praticamente só temos Grenache com uma pitada de Syrah. Aromas multifacetados, belo corpo, super equilibrado, e um final longo e harmônico. Mais um grande da apelação.

morlet vineyards

Morlet entre a surpresa do almoço

Para aguçar as papilas antes do almoço, dois brancos americanos de Sonoma da vinícola Morlet Family Vineyards. Um Chardonnay de Russian River e um corte bordalês de Sonoma County, ambos da safra 2012. Embora longe de seus originais, Bourgogne e Bordeaux topos de gama, os vinhos americanos de modo geral apresentam ótimos níveis de qualidade, sendo com folga o melhor que podemos encontrar no chamado Novo Mundo.

O Chardonnay Ma Princesse (nome de vinhedo) de Russian River mostrou-se equilibrado, num bom balanço entre acidez/maciez, e agradavelmente amadeirado. O processo de elaboração segue os padrões borgonheses com fermentação em barricas, seguida de bâtonnage (revolvimento das borras). O vinho é engarrafado sem filtração.

O corte bordalês La Proportion Dorée mescla dois terços de Sémillon, um terço de Sauvignon Blanc e uma pitada de Muscadelle. São sete vinhedos em Sonoma com idade entre 25 e 60 anos. Fermentação em barris, mais 10 meses de amadurecimento em madeira. O vinho apresenta bom corpo e maciez dados pela Sémillon, e um belo frescor vindo da Sauvignon Blanc. Os aromas de mel, ervas e flores, são bem harmônicos, num final prolongado e bem equilibrado.

Por fim, resta agradecer a companhia de todos em torno de grandes vinhos, ótimos pratos, e a conversa animada de sempre. Vida longa aos amigos!

Masterchef Final: Harmonização

25 de Agosto de 2016

A grande audiência do Masterchef Brasil, programa exibido pela Bandeirantes, tem sua apoteose na grande final, premiando os dois concorrentes, Leonardo Young e Bruna Chaves. A tarefa é executar um menu autoral com entrada, prato principal e sobremesa. Neste dia, já não há mais aqueles pratos bizarros, muitas vezes mal executados. O nível costuma ser muito bom com receitas surpreendentes. Neste sentido, sempre fica faltando os vinhos que supostamente harmonizariam com os pratos. Então, mãos à obra!

Entrada

carpaccio de vieira e rabanete

Carpaccio de Vieiras e Rabanetes com Vinagrete de Cebolinha

É um prato leve, delicado, com muita maresia e frescor. Os componentes são crus e a sugestão é ter mais molho do que a foto apresenta. Aliás, o molho de cebolinha deve ter acidez para equilibrar o prato. Aqui vai bem um espumante novo com muito frescor. A acidez, borbulhas e leveza da bebida, harmoniza com a estrutura do prato. Pode ser um espumante nacional, um Cava no máximo Reserva, sem muito contato sur lies. Se for champagne, um Blanc de Blancs bem leve e de muita vivacidade. Prefira o estilo Brut tradicional. Os Extra-Brut ou Nature são muito austeros para o prato.

Ingredientes: vinagre, saquê, ovas massago, rabanete roxo e branco, cebolinha, vieira, flor de sal, azeite.

vieiras grelhadas maionese de laranja açafrao

Vieiras Grelhadas com Maionese de Laranja e Açafrão

ingredidentes: vieiras, maionese de açafrão e laranja, limão, chips de abóbora, ovas de peixe, gema de codorna.

Os vinhos de Vouvray, sub-região francesa do Loire, costumam ir bem com vieiras. Ambos tem um toque adocicado no sabor. Podemos continuar com espumantes, já que Vouvray também tem este tipo de vinho. Um Riesling alemão do Mosel, mais leve e elegante, também pode ir bem. Prefira os da denominação kabinett clássico com um toque de doçura na medida certa.

Prato Principal

cordeiro grelhado pure de ervilha

Cordeiro Grelhado com Purê de Ervilhas e Vinagrete de Maçã Verde

Aqui além da costeleta de cordeiro, temos a crosta úmida de ervas com amêndoas e o purê de ervilhas com toque adocicado e textura cremosa. O toque de ervas, a delicadeza da carne, chama um bom Cabernet Franc, mais sutil que seu irmão ilustre, Cabernet Sauvignon. Pode ser bons exemplares do Novo Mundo ou até alguns Saint-Emilion com participação desta uva, além da Merlot. O importante é ter um corpo mediano e ser relativamente novo, combatendo os taninos com a suculência da carne.

ingredientes: cordeiro, cebolinha francesa, amêndoas e salsinha, purê de ervilha e hortelã. maçã em cubinhos, salmoura de vinagre, açúcar e sal.

barriga de porco molho misso

Barriga de Porco ao Molho Missô

Neste caso, temos uma carne gordurosa, de muito sabor, e toques agridoces, além de legumes e hortaliças. A carne é cozida na pressão com legumes formando um caldo e em seguida, é selada  na frigideira. A acidez de um vinho branco sempre é bem-vinda nesta hora, mas tem que ser um branco de presença pela riqueza de sabores do prato. Um Chateauneuf-du-Pape branco com aquele caráter provençal, um Riesling alsaciano de mais riqueza como um Zind-Humbrecht, ou um inovador Marko Fon com seu exótico Malvasia Istriana. Em outra combinação ousada, eu iria de Madeira Verdelho (estilo meio seco).

ingredientes: barriga de porco, cebola, cenoura, salsão, alho poro. misso com dashi, saque, pimenta dedo de moça, açúcar e gengibre. mini cenoura, pétala de cebola e acelga.

Sobremesa

ovos nevados matcha

Ovos Nevados com Creme Inglês de Matchá

É uma sobremesa extremamente clássica se não fosse a presença do matchá, uma espécie de chá verde em pó. Ele deve ser usado com parcimônia, pois seu sabor pode causar amargor desagradável. A textura do vinho é muito importante para não atropelar o prato. O toque do chá dá um sabor exótico que pode cair bem com um Tokaji Aszú 4 ou 5 Puttonyos com algum envelhecimento, oito a dez anos de safra ou mais. Os aromas, sabores e açúcar residual são compatíveis, além da acidez do vinho sempre presente, levantando o prato.

ingredientes: gemas, açúcar e baunilha em fava. incorpore aos poucos leite quente. adicione o matchá. merengue com claras, sal, limão, açúcar. raspas de limão siciliano e castanha ralada.

panna cotta chocolate branco beterraba

Panna Cotta de Chocolate Branco com Suco de Beterraba

Outra sobremesa de textura delicada e sabores bem exóticos. Fugindo de vinhos fortificados como Porto ou Banyuls, um Recioto dela Valpolicella  pode ser uma boa pedida. Com um pouco mais de ousadia, um Icewine com a uva Cabernet Franc, muito comum no Canadá. Por sorte, o Brasil tem um similar na serra catarinense da vinícola Pericó com a uva Cabernet Sauvignon. Esse toque herbáceo e de especiarias do prato vai bem com esta uva. A acidez deste tipo de vinho revigora o prato.

ingredientes: suco de beterraba, chocolate branco derretido, creme de leite e gelatina. cozinhar caule da beterraba com açúcar, canela, anis estrelado, caramelizado. picles com salmoura vinagre, açúcar e sal. mousse com queijo chèvre (cabra), melaço e creme de leite servida no sifão.

Entre Tintos e Brancos

22 de Agosto de 2016

Nas últimas provas realizadas entre amigos, brancos e tintos destacaram-se numa diversidade de propostas, uvas, regiões e estilos.

meursault perrieres

safra prazerosa e acessível

O vinhedo Perrières expressa de forma magnifica toda a essência de um Meursault, sobretudo nas mãos de Michel Bouzereau. Com vinhas plantadas em 1960, 78 e 97, seus vinhos têm estrutura e equilíbrio notáveis. A fermentação e amadurecimento são feitos em barricas, sendo 25% novas. Medida certa para não marcar o vinho. Notas de mel, frutas brancas maduras, e um elegante tostado em meio a um toque mineral, somam-se a uma textura macia, prolongando o final de boca. Já muito agradável, vai bem com vitela, peixes, e frutos do mar em molhos brancos, além de ostras gratinadas. Importadora Cellar.

malvasia eslovenia

branco exótico

Os vinhos eslovenos de Marko Fon são sensação no momento pelo seu exotismo. Ele trabalha com as brancas Vitovska e Malvazija Istarska, ambas uvas locais. Na foto acima, trata-se da Malvazija, também conhecida como Malvasia Istriana, própria do nordeste italiano (Friuli). Suas vinhas de quatro hectares são de idade avançada, algumas centenárias, num solo calcário no Carso (Kras), sub-região eslovena bem próxima do mar adriático, sofrendo sua influência salina.

O mosto é fermentado com algum contato com as cascas em toneis de madeira inerte com leveduras naturais. Esse tipo de Malvasia confere grande acidez ao vinho e pureza em fruta. Um branco vibrante, bastante austero e fechado logo que aberto, necessitando de decantação por pelo menos uma hora. Aromas exóticos lembrando pêssegos, damascos e carambola, além de um fundo mineral e ervas. Ele lembra de maneira sutil um vinho Laranja. Pode acompanhar bem bacalhau, pratos com aspargos, e numa combinação ousada, ostras frescas com geleia de estragão. Importadora Decanter.

aldo conterno colonnello

o inimitável Aldo Conterno

Todos aqueles que já tomaram bons Barolos precisam ter a experiência com um Aldo Conterno. O homem consegue fazer um Borgonha dentro do Piemonte, tal a delicadeza de seus Nebbiolos. Este do vinhedo Colonnello com vinhas entre 40 e 45 anos prima pela elegância numa escola tradicionalista. Seus 28 meses em carvalho da Eslavônia promovem a micro-oxigenação certa para seus aromas etéreos com notas de alcaçuz, cerejas negras, alcatrão e especiarias. Seus taninos são um capitula à parte. E olha que taninos de Nebbiolo não são fáceis. Muito equilibrado e um final extremamente harmônico. Importadora Cellar.

matetic 2007

foge do estilo Novo Mundo

O que encanta de cara neste vinho é o frescor, apesar de seus quase dez anos (safra 2007). A cor é escura, muito intensa. Melhorou muito com o tempo em taça, ratificando que os vinhos com a uva Syrah são muito redutivos, merecendo longa decantação. Frutas negras em geleia, toques defumados, de chocolate escuro, e especiarias, além de toques mentolados e minerais. Corpo de médio a bom, taninos de rara textura, e um final fresco e longo. As vinhas situam-se em Rosario, setor nobre da vinícola com grande influência do Pacifico no Valle San Antonio. Muito agradável no momento, embora vislumbre ainda bons anos de guarda. Uma verdadeira referência de Syrah no Chile. Importadora Grand Cru.

rioja alta ardanza 2001

safras espetaculares: 1964, 1973 e 2001

Viña Ardanza Reserva Especial 2001

A bodega Rioja Alta dispensa comentários com seus ótimos vinhos cheios de personalidade. Viña Ardanza é o terceiro na hierarquia, atrás dos estupendos Gran Reserva 904 e 890. Costuma mostrar o caminho do estilo da casa com seus toques balsâmicos, de especiarias, caramelo, cevada, além de um equilíbrio gustativo notável. Contudo, neste ano 2001 superou em todos os sentidos, merecendo a menção Reserva Especial. Já na cor, percebemos a alta concentração do vinho, nem de longe denotando seus 15 anos de vida. Mais encorpado que o normal, taninos ultra finos e uma expansão de boca marcante. Definitivamente, um grande ano para esta bodega. Importadora Zahil.

madeira verdelho

o equilíbrio dos Madeiras

Cossart Gordon Madeira Verdelho 5 Years Old

Os Madeiras costumam relacionar suas uvas mais nobres com o grau de doçura do vinho. Portanto; Sercial para o seco, Verdelho para o meio seco, Boal para o meio doce, e finalmente, Malmesy para o doce. Este Medium Dry degustado, surpreendeu pela doçura e complexidade apresentadas. Acompanhou muito bem um Partagas E2, finalizando um belo almoço. Suporta bem sobremesas levemente adocicadas como bolos e tortas de frutas secas. Belo equilíbrio em boca, sustentado por uma acidez marcante e agradável. Expansivo, álcool na medida certa, e final de grande frescor. Bela opção no mercado. Importadora Decanter.

Malbec Terroir: O caminho das pedras

19 de Agosto de 2016

Na exploração do terroir mendocino, o Valle de Uco começa a ser desvendado com três sub-regiões distintas: Gualtallary mais ao norte, Vista Flores mais abaixo, e Altamira mais ao sul. Cada qual com suas características, ligadas à pedregosidade do solo, e também à presença mais ou menos intensa de carbonato de cálcio, uma espécie de calcário em atividade. Embora as altitudes sejam muito elevadas no vale, as pequenas diferenças entre elas exercem uma influência menor na expressão do terroir do que as diferenças de solo entre as sub-regiões, como veremos a seguir nos vinhos e mapa abaixo.

altos las hormigas

terroirs distintos do Valle de Uco

valle-de-uco-mendoza

sub-regiões do Valle de Uco

Gualtallary

Esta é a zona mais alta do Valle de Uco com 1300 metros de altitude, próxima a Tupungato. O solo apresenta uma pedregosidade distinta com alto conteúdo de carbonato de cálcio. Mais próximo ao solo, encontramos pedras calcárias com arestas bem duras chamadas de caliche, algo semelhante ao calcrete encontrado na região australiana de Coonawarra. Mais abaixo, encontramos cascalho e seixos de tamanho médio e baixa proporção de argila.

Esta conformação de terreno proporciona vinhos com alta acidez, muito nervo, e taninos bem presentes. O carbonato de cálcio expressa bem esta mineralidade, deixando o vinho notavelmente sápido. De certo modo, lembra os bons vinhos italianos do norte com a típica acidez ressaltada. É de fato um vinho muito gastronômico, fazendo boa parceria com carnes gordurosas. Por esse nervo e acidez, vislumbra uma boa longevidade em garrafa. A madeira bem comedida e integrada ao conjunto ajuda a evidenciar esta mineralidade.

Assim que aberto, os aromas custam um pouco a se mostrarem, necessitando de decantação. Portanto, é prudente decanta-lo por pelo menos uma hora.

Vista Flores

Aqui estamos falando em 1150 metros de altitude, zona próxima a Tunuyán. O calcário é muito presente no solo, além da argila. As pedras de tamanho médio começam entre 20 e 40 cm abaixo do solo. Este perfil de solo muda totalmente as características do vinho.

No exemplar degustado, percebemos a elegância e a maciez da Malbec, sem nunca perder o frescor. Os aromas de frutas escuras concentradas e os toques florais são muito presentes. Em boca, mostra-se mais volumoso com taninos dóceis e muito agradáveis, embora marcantes. Seu equilíbrio é notável. É um vinho que agrada de cara, muito acessível.

Altamira

Este é um vinho intermediário, tanto em características, como em altitude. Estamos falando em torno de 1200 de altura, zona de La Consulta, próxima a São Carlos. Aqui, abaixo de 20 a 40 centímetros do solo há presença de pedras relativamente grandes em meio limo-arenoso.

No exemplar degustado, mostra-se um pouco menos encorpado. Aromas mais delicados e não tão evidentes. Em boca, a acidez sempre presente, taninos de boa textura, formando um belo conjunto equilibrado. Dos três exemplares, é o vinho de entrada, menos impactante. Em nenhum dos vinhos nota-se a presença excessiva do álcool. Eles são agradavelmente quentes, quando muito.

SP(ov) x NW = TW

A equação acima expressa bem a filosofia da bodega Altos Las Hormigas. As siglas em inglês significam que o potencial do solo (SP) é potencializado por uma viticultura orgânica (ov em função exponencial). Este fator multiplicado por uma vinificação natural (NW), consciente, sem intervenções artificiais, geram como produto um vinho de terroir (TW). Ou seja, o potencial do solo só tem sentido sem bem trabalhado numa viticultura consciente, preservando a vida microbiana. Por outro lado, uma intervenção consciente do homem traduz-se numa vinificação onde o nascimento do vinho ocorra de maneira natural, sem aditivos e correções que tentam mascarar um desequilíbrio. Perceber o potencial do mosto e extrair o que há de melhor sem exageros, é expressar corretamente o terroir e todo trabalho envolvido.

Todo o projeto da bodega tem por trás pessoas de alto gabarito nas questões de solo e terroir como o especialista em agricultura de precisão Pedro Parra, o enólogo e consultor Alberto Antonini, e também Leonardo Erazo com especialidade em solos pela universidade de Stellenbosch, palestrante desta apresentação.

altos las hormigas (2)

malbecs distintos para o dia a dia

Numa linha mais comercial (foto acima), no bom sentido da palavra, e também mais acessível ao consumidor de vinhos do dia a dia, temos o Malbec Clássico, o Malbec Terroir e por fim, o Malbec Reserva. O primeiro deles é o único vinho fora do Valle de Uco. São vinhedos em torno da vinícola, em Lujan de Cuyo. Um Malbec relativamente simples, mas muito bem equilibrado, sem extrações exageradas. O segundo é um grande custo/benefício, mostrando todo o frescor do Valle de Uco sem grandes rodeios. O último, com vinhos mais selecionados, é um Malbec estruturado, necessitando de um apurado amadurecimento em madeira, sem exageros.

Todos os vinhos do portfólio apresentado da bodega Altos Las Hormigas são trazidos ao Brasil pela importadora World Wine. Agradecimentos à bodega Altos Las Hormigas, à importadora World Wine, e à Enocultura, por promoverem este proveitoso encontro.