Archive for Janeiro, 2012

Harmonização: Steak Tartare

30 de Janeiro de 2012

Eis uma bela opção para o verão, principalmente para aqueles que não abrem mão de carne bovina. Embora o original seja semelhante à foto abaixo, existem inúmeras variações de ingredientes e temperos, inclusive sem a gema de ovo crua, a qual complica muito a harmonização. 

Outra observação importante é que tartare ou tartar (grafia muito comum hoje em dia) tornou-se um processo pelo qual, qualquer tipo de carne crua picada ou moída, agregada a molhos e outros ingredientes, recebe esta denominação. Mas atenção, a carne picada na ponta da faca apresenta sempre textura incomparável à mesma carne passada no moedor.

Atualmente, muitas variações do original

Voltando ao nosso Steak Tartare original, teremos alguns problemas de harmonização com vinhos tintos, apesar de estarmos falando em carne vermelha. Ingredientes que acompanham o prato como alcaparras, cebola crua, cornichons (pepino em conserva), azeite, tabasco e/ou molho inglês e a temida gema de ovo crua, desencorajam a maioria dos vinhos tintos com taninos presentes. De fato, a gema crua desossa qualquer vinho tânico, além da acidez do molho inglês e demais ingredientes que potencializam a sensação de amargor. Portanto, o vinho tinto ideal é o Beaujolais (uva Gamay), sobretudo um Villages, com mais concentração de sabor. Seu poder de fruta, sua acidez equilibrada e principalmente, sua baixa tanicidade, acomoda-se melhor às armadilhas do prato. Um borgonha simples, de preferência da Côte de Beaune, também apresenta características semelhantes.

Os brancos não devem ser descartados. Pelo contrário, podem ser belas alternativas. Um borgonha mais simples como um Saint-Véran (na prática, a versão branca do Beaujolais) ou um Macôn-Villages, apresentam textura e acidez adequadas ao prato com força aromática suficiente. Não desperdicem brancos ou tintos complexos com esta entrada. As sutilezas do vinho serão abafadas pela rusticidade dos ingredientes.

Quanto a brancos e tintos do Novo Mundo, a opção por Chardonnay sem madeira (unoaked) é sempre mais adequada, enquanto tintos de médio corpo com as uvas Tempranillo, Pinot Noir e alguns Malbecs, sempre sem madeira, também fazem sucesso.

Se a carne mudar para salmão ou atum, o branco costuma ser a primeira opção, embora a Pinot Noir com atum apresente uma empatia natural.

Em resumo, preste sempre atenção ao tipo de carne e a prevalência de algum ingrediente marcante. Esses itens vão definir com maior precisão o vinho mais conveniente. De resto, é curtir o momento.

Vale do Loire: Parte V

26 de Janeiro de 2012

Neste último post, vamos falar sobre alguns números englobando os mais variados tipos de vinhos encontrados no vale do Loire. Estranhamente, o site oficial dos vinhos do Loire (www.vinsdeloire.fr) deixa de fora os chamados vinhos do Centro, que por sua vez, estão em outro endereço (www.vins-centre-loire.com).

Os brancos predominam em número e estilos

São 76 apelações de origem, incluindo sete dos chamados vinhos do Centro. São comercializadas cerca 380 milhões de garrafas por ano, boa parte dentro da França. É a região mais importante para espumantes na França, evidentemente depois de Champagne. É a segunda mais produtiva região para vinhos rosés, superada só pela Provence.  

Em todo o Loire são pouco mais de 57.000 hectares de vinhas produzindo quase 3.200.000 hectolitros. Uma em cada cinco garrafas comercializadas é exportada principalmente para Reino Unido, Bélgica, Alemanha e Países Baixos.

Os vinhos do Loire são extremamente propícios para quem busca delicadeza, variedade de estilos e originalidade. A uva Chenin Blanc como vimos, cumpre bem estes requisitos, sendo a grande referência para brancos. Os tintos são belas alternativas para quem busca vinhos mais leves, com bom frescor e sem interferência da madeira. Os espumantes sob várias denominações estão entre os melhores de toda a França com preços bem atraentes.

Enfim, brancos secos ou doces, rosés, tintos e espumantes formam um belo arsenal dificilmente encontrado em outras regiões, dentro ou fora da França. Além disso, pelo equilíbrio, pela diversidade e pela discrição de seus vinhos, tornam-se naturalmente muito receptivos à harmonização gastronômica, mesmo das mais refinadas cozinhas.

Vale do Loire: Parte IV

23 de Janeiro de 2012

Agora nosso último climat são os chamados vinhos do Centro ou também Alto Loire. Centro porque nesta altura, o rio Loire já percorreu metade de seu caminho rumo ao Atlântico. É a sub-região de clima mais continental com solos argilo-calcários. Em determinadas porções, temos solos pedregosos com sílex ou também marnes à petites huîtres (marga do tipo Kimeridgiano com fósseis marinhos calcinados em rocha). A essas formações são atribuídos os aspectos minerais de determinados vinhos.

Vinhos do Centro: Sancerre e Pouilly-Fumé

Uma das mais lindas garrafas de vinho

Nesta última sub-região, bem a leste do mapa acima, duas apelações destacam-se: Sancerre e Pouilly-Fumé. As duas elaboram ótimos brancos com a casta Sauvignon Blanc. Os aromas de frutas frescas, toques herbáceos e minerais são marcantes. Existem belos produtores como Michel Redde cujo rótulo acima, é sua cuvée de luxo para a apelação Pouilly-Fumé. Importado pelo Club du Tastevin (www.tastevin.com.br ). A delicadeza e a mineralidade deste estilo de Sauvignon é única, contrastando com a maioria dos Sauvignons do Novo Mundo, que possuem mais corpo e tropicalidade.

A apelação Sancerre também é estendida aos tintos com a casta Pinot Noir. Alguns são interessantes, mas sem a sofisticação dos borgonhas. É sempre uma boa opção de tinto para acompanhar peixes, dependendo da receita em questão. Desta apelação, o destaque vai para o produtor Alphonse Mellot, importado criteriosamente pela Cellar (www.cellar-af.com.br).

A apelação Pouilly sur Loire de produção muito reduzida, elabora brancos com a uva Chasselas (também cultivada na Suiça) com vinhos delicados, relativamente neutros e de boa acidez.

Outras apelações vizinhas como Menetou-Salon, Quincy e Reuilly, tentam reproduzir o bom desempenho das duas apelações mais famosas citadas acima, mas sem o mesmo sucesso. São vinhos de consumo local e dificilmente são encontrados no Brasil. Costumam ter preços mais atrativos, porém é fundamental a escolha certa do produtor.

Vale do Loire: Parte III

18 de Janeiro de 2012

Ainda em nosso segundo Climat, Anjou-Saumur, vamos falar dos tintos da região baseados em Cabernet Franc. Em Saumur, o solo é predominantemente calcário com presença de pedras porosas denominadas tuffeau. Muitas adegas na região são escavadas nesta rocha, armazenando sobretudo o bom espumante da região sob a denominação Saumur Brut, elaborado pelo método tradicional. Uvas como Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Cabernent Franc, Cabernet Sauvignon, entre outras, participam do vinho-base. Sob a apelação Saumur, temos vinhos brancos baseados na uva Chenin Blanc (pelo menos 80% do corte) e vinhos tintos baseados na casta Cabernet Franc.

Todos eles, espumantes, brancos e tintos, são vinhos delicados, com muto frescor e ótimos para o verão, mesmo os tintos por serem pouco tânicos. Há uma apelação específica para tintos chamada Saumur-Champigny, onde seus vinhos baseados em Cabernet Franc são mais estruturados, porém longe de serem pesados ou muito encorpados.

Prosseguindo para o climat seguinte, temos a sub-região de Touraine, um pouco mais continental, mas ainda com influência atlântica. O clima aqui é mais seco que sua vizinhança em Anjou-Saumur. Isto favorece tanto o amadurecimento tardio da Chenin Blanc, como a principal tinta da região Cabernet Franc (localmente chamada de Breton), moldando vinhos de boa estrutura, mas sempre com frescor e equilíbrio.

Os tintos mais famosos estão sob as apelações Chinon, Bourgueil e Saint-Nicolas-de-Bourgueil. Os Chinons de solos mais pedregosos costumam ser mais leves, enquanto os de solos argilo-calcários mais estruturados e intensos. O mesmo ocorre com Bourgueil e Saint-Nicolas-de-Bourgueil, mas no geral são mais encorpados que os de Chinon.

Um dos mais autênticos Cabernets do Loire

O vinho acima já foi destaque neste blog (Produtor de destaque: Thierry Germain). É atualmente importado por Cave Jado (www.cavejado.com.br). Thierry Germain, proprietário da vinícola, cultiva seus vinhedos biodinamicamente e elabora vinhos de rara pureza.

Passando aos brancos, Touraine destaca-se por uma das mais belas expressões da uva Chenin Blanc através da apelação Vouvray. Podem ser espumantes elaborados pelo método tradicional, e brancos com vários graus de doçura, culminando com belos doces provenientes de uvas botrytisadas. O solo calcário aliado ao clima mais seco e ensolarado propicia o perfeito amadurecimento da tardia Chenin. As manhãs brumosas com alternância de sol é o cenário perfeito para o bom desenvolvimento da Botrytis.

Didier Champalou: assinatura de um belo Vouvray

O produtor acima é trazido pela importadora Club Tastevin (www.tastevin.com.br) a preços muito atraentes.

A apelação Montloius, vizinha a Vouvray, faz vinhos similares, mas sem o mesmo brilho. A genérica apelação Touraine faz vinhos espumantes, brancos, rosés e tintos, para o consumo cotidiano. Os brancos baseiam-se na Chenin Blanc, enquanto tintos e rosés nas uvas Gamay e Cabernet Franc.