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Achaval Ferrer e sua Trilogia

19 de Outubro de 2019

Achaval Ferrer, uma das bodegas argentinas mais premiadas, sempre com notas altíssimas nos melhores guias, sobretudo com sua encantadora trilogia de Malbecs: Finca Altamira, Finca Mirador, e Finca Bella Vista. É uma das minhas bodegas preferidas, no mesmo nível de Catena, Cobos e Noemia.

Num evento exclusivo de lançamento, a importadora Clarets mostrou boa parte da linha no agradável restaurante de carnes Cór. Desde os varietais de entrada de gama, passando pelo ótimo Quimera, e finalmente chegando na trilogia mencionada.

A ideia da Bodega é bem simples e de excelência. Buscar vinhedos que expressem o terroir com rendimentos muito baixos. No nível mais acessível, temos uma parreira para cada garrafa. No nível intermediário, temos duas parreiras para uma garrafa. E para a trilogia, temos três parreiras para cada garrafa, rendimentos encontrados somente nos grandes vinhos europeus. Para se ter uma ideia dessa exigência, são menos de meio quilo de uvas por parreira.

Os vinhedos se concentram em zonas nobres de Mendoza. Na zona Alta do  Rio Mendoza, temos vinhedos em Luján de Cuyo, além de áreas bem situadas no Valle de Uco. Algumas das vinhas são de parreiras centenárias ainda em pé franco.

Começando pela linha básica de varietais como Malbec, Cabernet Sauvignon, e Cabernet Franc, as uvas vem dos vinhedos em Pedriel, Medrano, La Consulta, e Tupungato. Os dois primeiros em zonas mais baixas, aportam corpo e estrutura, enquanto La Consulta e Tupungato no Valle de Uco, conferem frescor e elegância. Vinhos muito equilibrados, extraídos na medida certa, trabalhando com rendimentos em torno de 30 hectolitros por hectare, fatores que para este padrão de vinho, estão bem acima da média dos concorrentes.

Já no segundo nível dos vinhos, temos o consistente Quimera. Aqui se trabalha com mescla de vinhedos e mescla de varietais, portanto um corte. O vinho baseia-se na Malbec com aporte das uvas Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot. Um trabalho de doze meses em barricas francesas. São 36 hectares de vinhas com rendimentos em torno de 18 hectolitros por hectare. Um vinho de concentração impressionante que deve ser decantado.

A Trilogia dos Malbecs

Começando pela Finca Mirador, um vinhedo de seis hectares com vinhas de 1921 em Medrano a 700 metros de altitude. O solo tem 80 cm de uma capa argilo-limosa com subsolo arenoso e pedregoso. Os rendimentos são de apenas 12 hectolitros por hectare e o amadurecimento em barricas francesas por 15 meses.

Já na Finca Bella Vista, estamos em Pedriel, Luján de Cuyo, a 980 metros de altitude. Esta Finca tem mais de cem anos com vinhas todas em pé franco. São 12 hectares de vinhas com rendimentos de 14 hectolitros por hectare. O solo começa limo-arenoso e se aprofunda em areia e pedras.

Por fim, temos Finca Altamira, um vinho premiadíssimo, localizado em La Consulta, Valle de Uco, a 1050 metros de altitude. São seis hectares de vinhas datadas de 1925 plantadas em pé franco. Nestas condições temos 400 gramas de uvas por planta. Um vinho que alia concentração, elegância e extremo equilíbrio. 

Champagne Philipponnat dando o tom do jantar

A recepção não poderia ser melhor, champagne Philipponnat de entrada aguçando as papilas para uma sequência de tintos da bodega em questão. Champagne de muita delicadeza, frescor notável, e muito equilíbrio. Embora com dois terços de Pinot Noir em sua composição, é um champagne de extrema leveza, ideal para aperitivar.

o cartão de visitas da bodega

Muito se conhece de uma bodega pelos vinhos de entrada que a mesma oferece. Achaval Ferrer e sua linha de varietais mostra tipicidade, concentração, e vinhos muito bem acabados. O destaque de entrada ficou com o Cabernet Franc, um tinto muito elegante para esta categoria de vinho. Ficou muito bem a linguiça artesanal, enfatizando as notas apimentadas. Já os bolinhos e os croquetes ficaram muito bem com o Malbec, sobretudo pelas texturas. Um Malbec de muito frescor e pureza de frutas. Por fim, o Cabernet Sauvignon mostrou taninos bem trabalhados e um ótimo equilíbrio em boca.

um tinto deliciosamente gastronômico

Nesta segunda etapa, um salto de concentração gigantesco. Este blend da bodega chamado Quimera é realmente muito bem elaborado. Mesmo em safras distintas, seu padrão de qualidade é elevado. Na safra 2015, temos um vinho mais redondo, de bom corpo e taninos abundantes e macios. Já na safra 2016, um vinho mais elegante, mais fresco, com certas nuances não encontradas na outra safra. De todo modo, Quimera foi o parceiro ideal das carnes dry aged servidas, harmonizando com perfeição seus potentes taninos com a suculência dos cortes New York Strip e Prime Ribe, bife de chorizo e bife ancho, respectivamente.

img_6782vinhos que expressam terroir

Por fim, a trilogia esperada, todos da safra 2014. O caminho começa pelo Finca Mirador, um tinto de boa presença em boca, taninos finos, e longa persistência aromática. Seu grande mérito é equilibrar bem potência e elegância. Em seguida, Finca Bella Vista. Um tinto impactante, de bom corpo, taninos poderosos e muito finos. Uma fruta quase doce, e um final bastante expansivo, bem de acordo com os Malbecs de Luján de Cuyo. Finalmente, Finca Altamira, Valle de Uco. Um tinto com um frescor impressionante. O mais mineral da trilogia, fruta vibrante, e um equilíbrio notável. Pede carnes de textura mais macia e com algum teor de gordura para confrontar sua rica acidez. Um final de prova marcante, delineando claramente a proposta dos três tintos em expressar seus respectivos terroirs.

um final elegantemente doce …

Fechando o jantar, a importadora Clarets mostrou mais um pouco de seu rico arsenal francês, Chateau Doisy-Védrines. Um Sauternes delicado da região de Barsac. Próximo ao Chateau Climens, os vinhos de Barsac primam pela delicadeza e toques florais. Acompanhou muito bem a sobremesa de abacaxi grelhado e sorbet de manga. Os toques tropicais foram muito bem com o vinho.

Agradecimentos à importadora Clarets pela oportunidade, personificada na presença do simpático casal, Guilherme Lemes e Keren Marchioro. Seguindo a tradição de jantares especiais, a Clarets mostrou mais uma vez sincronização e detalhismos impecáveis. Parabéns pela nova aquisição com a bodega Achaval Ferrer, sempre uma referência aos melhores vinhos mendocinos.

A santíssima trindade francesa

13 de Outubro de 2019

Quando juntamos Champagne, Bourgogne e Bordeaux, só pode sair coisa boa. São regiões modelos em seus estilos de vinhos com várias cópias mundo afora, mas poucas com sucesso. Foi o que aconteceu num agradável almoço com meu amigo Roberto Rockmann onde a enogastronomia reinou soberana.

casamento perfeito

A entrada começou arrasadora com o excelente champagne Agrapart, um dos mais premiados na atualidade. Trata-se de um millésime 2012 Blanc de Blancs de vinhedos Grand Cru sob a cuvée Mineral. É exatamente esta palavra que define esta maravilha. Passa cinco anos sur lies antes do dégorgement. Sua versão extra-brut tem apenas 3 g/l de acúcar residual. Extremamente seco, mineral, acidez cortante, e toda a classe da Chardonnay neste terroir calcário. Corpo leve, elegante, final salino, de muita sapidez. Não é à toa que este champagne tem 95 pontos com apogeu previsto para 2030. O carpaccio de salmão com molho de limão siciliano, azeite, sal, mostarda de Dijon e mel, ficou perfeito. A acidez de ambos bem como as texturas se equilibraram perfeitamente. O sabor de peixe in natura com o molho valorizou o sabor delicado e inciviso do champagne. Uma combinação leve e estimulante para o andamente do almoço.

outra harmonização de classe

Não é todo dia que nos deparamos com um Corton-Charlemagne do tradicionalíssimo produtor Bonneau du Martray 2004. Um vinho de extrema classe, cheio de sutilezas. A madeira dá uma leve pincelada em seus aromas que mesclam frutas brancas delicadas, notas florais e um fundo mineral. Sua textura em boca é singular, lembrando um Chablis Grand Cru. O que mais impressiona neste vinho é sua juventude, embora já com quinze anos. Tem acidez e estrutura para ganhar pelo menos, mais dez anos em adega. Essa textura delicada foi muito bem com o cuscuz marroquino com caldo de frango feito em casa, cenoura, pimentão vermelho e um toque de gengibre para levantar o sabor. As vieiras com o coral por cima foram levemente grelhadas, onde posteriormente foi feito um redução com saquê e molho de ostras. O sabor adocicado das vieiras encontrou eco nas frutas do vinho e sua textura levemente amanteigada. Sabores de muita classe e sutileza se harmonizando perfeitamente.

mais um ótimo nota 100

No prato principal, Bordeaux não deixou por menos, La Mission Haut Brion 1989. Um vinho com 30 anos que ainda não está totalmente pronto, mas incrivelmente delicioso. Uma aula de taninos em profusão de rara textura. Seus aromas terrosos, de tabaco, ervas finas e um fundo de café, são de extrema classe. Em boca, outra perfeição. Não sobra álcool, acidez, e nem taninos, tudo em harmonia. Persistência aromática notável. O blend La Mission tem alta proporção de Merlot, embora a soma das Cabernets seja majoritária. O vinho passa pouco mais de 20 meses em barricas novas, totalmente integradas ao conjunto. O filé com ervas frescas à milanesa acompanhado de tagliatelli com molho de funghi porcini ficou muito adequado aos aromas e a classe deste grande tinto. Os terrosos do vinho com o funghi foi um caso à parte. O vinho pode se expressar em sua plenitude sem ser arranhado pelo prato. Um gran finale!

a mousse reconfortante!

Adoçando agora o paladar, uma deliciosa mousse de morangos frescos com sua própria calda. Ao final, uma bela grappa Levi estupidamente gelada, refrescando e animando o paladar para fora da mesa, onde Puros e destilados fechariam a tarde.

Trinidad e Hoyo de Monterey com Fine Bourgogne DRC

Um belo café, Porto Reserva, dando início aos Puros. As duas marcas muito elegantes com charutos de média fortaleza. Após o primeiro terço, Fine Bourgogne DRC, um brandy da região, Cognac Martell e  Bourbon Wild Turkey Rye 101, formaram o arsenal para baforadas mais intensas. 

Almoço bom é assim, começa com champagne e termina com fumaça, além de um meio de campo bem recheado. Que outros venham em breve!

Haut Brion em Branco e Preto

5 de Outubro de 2019

Se existe um Bordeaux que prima pelos seus tintos e brancos com a mesma qualidade, mesmo prestígio, e preços equivalentes, este chateau é Haut Brion. Nesta toada, participamos do almoço do Presidente no Ristorantino com algumas preciosidades entre brancos e tintos. Per cominciare, dois champagnes Selosse, o gênio do champagne independente. 

dois lieux-dits maravilhosos!

Conforme foto acima, Selosse faz seis lieux-dits em sua coleção. São partidas de poucas garrafas por ano, enfatizando a noção de terroir nos principais vinhedos de Champagne. O da esquerda, Mareuil sur Aÿ Sous Le Mont, é 100% Pinot Noir, portanto um Blanc de Noirs, de estilo mais delicado. Estava um pouco evoluído, mas percebe-se o extrato do vinho-base de Selosse que é sempre notável. Já o da direita, Ambonnay Le Bout du Clos, é composto por 80% Pinot Noir e 20% Chardonnay, o que lhe confere uma elegância impar. Muito gastronômico, textura macia, estava perfeito com seus toques de maçã cozida e brioche. Belos brindes para este almoço inesquecível. 

a jovem e competente sommelière, agora Senhora Juliana!

Acima, uma sofisticada máquina de frios, trazida especialmente para o evento, fatiando um belo culatello para acompanhar os deliciosos champagnes. O serviço de vinhos a cargo de Juliana Carani, transcorreu na mais absoluta discrição e competência. Agora, oficialmente com o mestre Beato. Um casal a ser batido!

img_6729ainda em evolução!

O par acima dos dois Haut Brion brancos mais novos, ainda tinha aromas tímidos e a boca um pouco angulosa, faltando a perfeita interação entre os componentes. O da safra 2011 estava mais tenso, com acidez mais viva. Sua composição é de 58% Sémillon e 42% Sauvignon Blanc. Já o da direita, safra 2012, estava mais macio, aromas finos, lembrando um pouco o estilo do 2010 que será comentado a seguir. Este blend é composto de 55% Sauvignon Blanc e 45% Sémillon.

img_6728vinhos que beiram a perfeição!

Este Haut Brion 2009 era puro charme. Um aroma de mel, flores, e fina pâtisserie. Boca equilibrada, delicada e final bastante longo. Era o mais integrado dos quatro brancos com uma composição pouco comum: 62% Sauvignon Blanc e 38% Sémillon. O da esquerda, Haut Brion 2010 tem a mesma categoria do 2009, mas ainda em evolução. Notas amanteigadas e de cogumelos eram mais evidentes, embora com aromas ainda discretos. Talvez o mais encorpado dos quatro provados com um equilíbrio fantástico. Seu Blend é composto por 54% Sauvignon Blanc e 46 % Sémillon.

sessão frutos do mar

Com esses brancos, não poderia faltar frutos do mar. As ostras frescas com um toque de limão siciliano ficarm ótimas com o Haut Brion 2011 com mais acidez e mineralidade. Já o belo carpaccio de polvo foi muito bem com o Haut Brion 2010 de textura mais rica. Ótimas harmonizações, mantendo o paladar aguçado.

img_6722uma trinca de ouro!

Provar um dos três Haut Brion históricos acima já é um privilégio. Agora provar os três juntos, lado a lado, só mesmo com nosso Presidente. Vinhos de alto nível com pontuações perfeitas onde a comparação chega a ser odiosa. Este Haut Brion 59 é um dos melhores vinhos que já provei de minha safra. Estava perfeito, plenamente evoluído e um equilíbrio fantástico. Os aromas de estrebaria, caixa de charutos, ervas finas, e tantos outros, estavam harmonicamente integrados. A delicadeza de seus taninos é somente dos grandes vinhos. O Haut Brion 45 também estava divino, mas um pouco cansado. Afinal, são mais de 70 anos de vida. Mesmo assim, seus aromas de café e chocolate eram estonteantes. Em boca que um pouco de cansaço se fez notar. De todo modo, maravilhoso. Por fim, o austero Haut Brion 61. Uma safra sempre sisuda, embora com uma estrutura monumental. Seus taninos ainda estão firmes, permitindo uma guarda segura em adega. Um Haut Brion de estilo francamente masculino. Enfim, uma experiência inesquecível. 

massas divinas com os tintos!

As massas acima, Cappeletti com Taleggio e Porcini, e Tortellini de carne com fonduta e sálvia, todas elas com trufas de Alba raladas na hora, foram um deleite para os velhinhos Haut Brion acima. A delicadeza, a textura das massas, além dos sabores elegantes dos recheios e das trufas, deram as mãos com os aromas terciários dos vinhos, permitindo toda sua expressão. Pratos bem executados de rara leveza, embora ricos em sabor.

safra monumental!

Além de ser o mítico Haut Brion 89, fizemos a prova em duas versões. Uma garrafa standard (750 ml) e uma Jeroboam (5 litros). Coisas que só o Presidente faz. Ficou claro na degustação às cegas, que o vinho mais evoluído, mais aberto, mais prazeroso no momento, deveria ser da garrafa standard, de evolução mais rápida. No entanto, a surpresa, o formato grande estava mais pronto e prazeroso. Por um lado foi bom, pois tínhamos mais vinho a saborear. Do outro lado, uma contradição onde os grandes formatos são descritos de evolução mais lenta. De todo modo, esta garrafa standard é de uma conservação perfeita, o que nem sempre acontece. Mais uma lição aprendida.

dois ótimos pratos!

Falei tanto dos formatos que esqueci de falar do vinho em si, uma maravilha. Já disse e repito, este Haut Brion é um dos cinco melhores Bordeaux já elaborados de 89 para cá. O vinho é de uma finesse impressionante com uma estrutura monumental. A boca é perfeita com tudo no lugar. Taninos finíssimos e abundantes, persistente e final arrebatador. E os aromas que ainda estão se desenvolvendo têm terciários fantásticos. Para aqueles que não provaram, um sonho de consumo. Foi muito bem com a Spalla d´agnello (paleta de cordeiro), valorizando toda sua estrutura. Outro prato divino que havia me esquecido foram as lulas recheadas com carne de caranguejo acompanhadas de lentilhas. Ficou muito bem com os Haut Brion brancos 2010 e 2012.

Yquem histórico!

Mais um vinho histórico com praticamente 100 anos, coisas do Presidente. Ele mesmo comprou in loco e presenciou a troca de rolha no chateau com a data 2018. Para Michael Broadbent, um dos mais experientes críticos ingleses e Master of Wine, um Yquem de legenda, possivelmente o melhor do século XX. De fato, o vinho impressiona pela vivacidade e ao mesmo tempo delicadeza. Seus aromas são exóticos, de mel caramelado, toques resinosos, lembrando muito os grandes Tokaji Eszencia. O vinho possui apenas 12,5% de álcool e 112 gramas por litro de açúcar residual, tudo perfeitamente equilibrado. Uma experiência incrível! 

combinação perfeita!

Mais uma vez, meu companheiro para fechar as refeições, o estupendo Yquem 2001. Será certamente um dos grandes do século XXI. Para quem estiver aqui em 2100, será seu apogeu. Um vinho marcante, de incrível intensidade, e um final extremamente longo. Ficou divino com o pudim de Pistache do Ristirantino, quase um cartão de visitas da Casa. 

Depois desta avalanche de preciosidades, resta pedir vida longa ao Presidente, uma pessoa de extrema generosidade que segue à risca uma das melhores frases sobre vinhos e enogastronomia: “É fácil me agradar, basta servir o melhor! Parabéns Presidente! 

Agradecimentos a todos os presentes, lastimando a ausência de alguns. Sempre uma mesa animada, bom papo, em torno das melhores taças de vinho. Que Bacco nos proteja!

Trufas e Italianos

28 de Setembro de 2019

Nesta época do ano, começam a chegar as famosas trufas nos restaurantes. Qualquer prato relativamente simples fica altamente sofisticado com o acabamento final das trufas. Gentis lâminas raladas na hora, exalando aqueles perfumes maravilhosos. E na hora de combinar o vinho, todo mundo lembra que Barolo ou Barbaresco são seus parceiros. Só que pouca gente lembra que o mais importante não é ser Barolo ou Barbaresco e sim, esses vinhos estarem envelhecidos com aromas terciários. De fato, aqueles aromas étereos das trufas só podem combinar com aromas e sabores etéreos dos grandes vinhos com notas terrosas, defumadas, empireumáticas, alcatroadas, e não aromas frutados de grandes vinhos jovens.

Seguindo este raciocínio, os grandes Bordeaux envelhecidos também são ótimas opções, sobretudo tintos como Lafite e Ducru-Beaucaillou que possuem estilos mais delicados e etéreos em seu envelhecimento. Belos Saint-Estèphe como Montrose por exemplo, lembram algo de Barolos em seu envelhecimento. Os tintos do Rhône não ficam atrás, principalmente os Côte-Rôtie, mais delicados e mais etéreos em seu envelhecimento. Um dos La La Las de Guigal devidamente envelhecido, digamos safra 88, são maravilhosos com esses iguarias. Sem esquecer dos brancos, os Borgonhas envelhecidos são também esplendorosos com trufas. Vale também para os grandes tintos. Outro branco envelhecido que vai muito bem são os grandes Hermitages, sobretudo do produtor Jean-Louis Chave.

Enfim, por questões de tipologia, sofisticação combina com sofisticação. Sendo pratos elegantes e extremamente caros, as trufas vão combinar com os grandes vinhos envelhecidos que só envelhecerão bem, se forem grandes. Portanto, uma coisa puxa a outra.

Numa bela experiência no restaurante Parigi, testamos alguns vinhos com elas, todos italianos, embora dois grandes franceses apareceram para serem apreciados como vinhos em si. Todos os pratos foram trufados, seguindo alguns no decorrer do artigo.

dois gigantes na denominação Barolo

Na foto acima, esse Bruno Giacosa 1990, Barolo de Serralunga d´Alba, estava maravilhoso com 98 pontos mais que merecidos. Um vinho de livro mostrando claramente o terroir austero de Serralunga d´Alba. Os taninos ainda presentes, estão polimerizados e de uma finesse impressionante. Os aromas são um show à parte. Notas defumadas, de alcaçuz, cacau, funghi porcini, cerejas em licor, realmente sensacional. Foi o que melhor combinou com as trufas, sobretudo este tagliolini (foto acima) na manteiga, muito bem executado. Um dos pontos altos do almoço.

df306b73-9b93-4904-bed0-5622ea99d96eum dos melhores Barolos já elaborados!

Considerado pelo mestre Bruno Giacosa, um dos melhores terroirs de Serralunga d´Alba, o vinhedo Falletto goza de exposição privilegiada e solos ricos em calcário. Os famosos rótulos “red label” são destinados às safras excepcionais com menção Riserva no canto superior do rótulo. Tradicionalista ferrenho, a vinificação passa por longa maceração e o amadurecimento nos tradicionais Botti (toneis eslavônios de grandes dimensões). Realmente este 90 é uma obra-prima!

Quanto ao segundo Barolo testado, Aldon Conterno Romirasco 1993, ainda não estava pronto. A cor, bem menos evoluída que o Giacosa 90, e os aromas um tanto fechados. A boca mais austera, sem o brilhantismo de seu concorrente. Romirasco é um dos três vinhedos de Aldo Conterno na comuna de Monforte d´Alba, sendo o principal vinhedo na composição do grande Granbussia, o ícone da vinícola. Os outros dois vinhedos são Cicala e Colonnello.

gnocchi e carpaccio com trufas

No caso do gnocchi acima, o Romirasco ficou interessante, sobretudo por causa das texturas. O gnocchi com uma textura mais cremosa, acompanhou bem a textura mais robusta do Romirasco em relação ao Giacosa 90. Já na parte aromática, o Giacosa 90 foi imbatível. Enfim, os dois ficaram muito bons.

ótimos vinhos em patamares diferentes

Começando agora pelo Morey-Saint-Denis do Dujac, a safra é maravilhosa e ajuda mundo nesta categoria da Borgonha. Para um Village, o vinho está muito sedutor. Fruta intensa e de grande pureza, além de um equilíbrio notável, mostrando claramente a delicadeza desta comuna. Trazido a preços atraentes pela importadora Clarets.

Passando agora ao Supertoscano, um grande destaque do almoço, a cuvée d´Alceo é a mais alta categoria da azienda. Além disso, a safra 99 foi o melhor vinho já elaborado na vinícola com 99 pontos de puro prazer. Nesta safra, temos 85% Cabernet Sauvginon e 15% de Sangiovese. Atualmente a Petit Verdot substitui a Sangiovese no corte. O vinho estava uma maravilha, surpreendentemente jovem, ainda com um rubi profundo na cor. Um vinho denso em boca, refletindo bem este terroir do Chianti Classico em Panzano in Chianti. Este local goza de excelente exposição solar e um solo rico em galestro, espécie de uma argila laminar (xisto) que confere corpo e textura aos vinhos. Não combinou muito bem com as trufas por não estar ainda plenamente evoluído, embora as notas de cacau e de tabaco sejam muito elegantes. Talvez precisasse de um prato de carne com as trufas, nivelando melhor seu corpo e potência. Um dos melhores supertoscanos já elaborados!

img_6693um dos meus Chateaux preferidos em Bordeaux de alto nível

Evidentemente, trata-se de um completo infanticídio, mas extremamente prazeroso. Cheval Blanc juntamente com Haut Brion e Latour são meus chateaux preferidos. Um Cheval Blanc seja a safra que for e em qualquer estagio de evolução na garrafa, é sempre um chateau diferenciado, de extrema classe. Este 2016 tem um assemblage de 60% Merlot, 37% Cabernet Franc, e 3% Cabernet Sauvignon. Mesmo em tenra idade, sua maciez e finesse impressionam. Os taninos potentes e extremamente finos são verdadeiros rolimãs na boca. A madeira ainda não integrada ao conjunto é notavelmente elegante, fina, acompanhando o estilo do vinho. É mais um Cheval 100 pontos que encontrará seu apogeu em 2070. Sua força e complexidade apontam realmente nesta direção. Vinhaço!

Mais uma vez, agradecimentos eternos ao Presidente que proporcionou este almoço maravilhoso com vinhos sempre recorrentes, ou seja, maravilhosos, muito bem pontuados e inesquecíveis. Abraços aos demais companheiros de mesa e copo, sempre muito divertidos com ótimas histórias. Vida longa ao Presidente! Que Bacco nos proteja!

Supertoscanos em clima de Fazenda

18 de Setembro de 2019

Em almoço memorável, a confraria se reuniu na bela fazenda de um dos amigos para saborear pratos de raiz, campesinos, e de grande fartura. Neste contexto, os vinhos italianos são imbatíveis na enogastronomia, sobretudo os supertoscanos. Com um belo arsenal tanto de Bolgheri (litoral), como Chianti Classico (região de colinas), os vinhos desfilaram com sucesso em belos duelos.

Tudo começou numa degustação às cegas na adega da fazenda com três dos melhores Merlots italianos e mais um intruso de Bolgheri chamado Lodovico com as uvas Cabernet Franc e uma pitada de Petit Verdot.

img_6640dois terroir litorâneos 

Neste embate, o Tua Rita Redigaffi 100% Merlot, vem da região de Maremma a sul de Bolgheri, no vilarejo de Suvereto. O vinho impressiona pela juventude, começando pela cor ainda escura e intensa. Taninos bem presentes e de fina textura, mostrando força e um frescor incrível. Já o grande Masseto, outro Merlot in pureza, mostra um perfil mais internacional, elegante, de madeira fina, maciez notável, e já muito prazeroso no momento, embora possa envelhecer com nobreza. Um belo começo.

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Bolgheri versus região do Chianti Classico

Aqui tivemos o intruso chamado Lodovico, ícone da Tenuta Biserno, localizada na alta Maremma, entre Bolgheri e Bibbona. Baseado na casta Cabernet Franc, é um vinho que prima mais pela elegância e não tanto pela potência. Bem equilibrado com notas de madeira fina, além dos toques de ervas e especiarias. Mais um supertoscano de classe. Do outro lado, o grande L´Apparita, Merlot in pureza do prestigiadíssimo Castello di Ama. Um vinho de muita presença, muita fruta escura, e uma acidez notável que se diferenciava dos demais. Não pende para um padrão internacional, sendo fiel a suas raízes e terroir. Uma dupla que ficou um degrau abaixo, segundo os confrades.

alguns dos pratos do almoço

Carne de porco, frango caipira, lasanha, e uma série de outras iguarias, deram sequência ao almoço com grande fartura. Os supertoscanos tinham força e acidez suficientes para as harmonizações com seus toques de ervas e especiarias, quase temperando os pratos.

grandes feras à mesa

Embora a foto engane, o Masseto é garrafa standard (750 ml), o Ornellaia é Magnum, e o Sassicaia, double Magnum. Este Masseto 2006 tem 100 pontos Parker e realmente, um grande vinho. Já delicioso para beber agora, embora possa envelhecer tranquilamente por mais uma década. Um vinho macio, potente ser ser enjoativo, muito equilibrado e com taninos finíssimos. Pena que era a menor garrafa. 

Já os outros dois, não são de grandes safras pontuadas, mas primam por enorme elegância. Os dois são de Bolgheri, sendo o Ornellaia 2002 um corte bordalês de margem esquerda com predominância da Cabernet Sauvignon. Esta safra não conferiu tanto extrato ao vinho, mas percebe-se a fineza de taninos e a harmonia em boca. Já o Sassicaia 2001 é sempre um porto seguro. Baseado na casta Cabernet Sauvignon e uma pequena porção de Cabernet Franc, o vinho tem sempre aquela classe francesa com taninos bem moldados e a força dos grandes Cabernets. Para muitos, foi o vinho do almoço, reforçando a bela conservação e evolução das garrafas em grandes formatos.

img_6645-1elite francesa

Dois grandes Borgonhas passaram para refrescar a festa. O da esquerda, talvez o melhor vinhedo Premier Cru de Madame Leflaive, Les Pucelles. Vigoroso, persistente, harmônico, sem perder a habitual elegância. Já o Corton-Charlemagne, uma surpresa. Domaine Ponsot, um dos maiores especialista na comuna de tintos de Morey-St-Denis, aventurou-se em Corton-Charlemagne e se deu bem. Um Corton mais cremoso que o habitual, sobretudo pela safra 2015, generosa para brancos. Aromas de frutas deliciosos, muito equilibrado, inclusive na madeira, e persistência aromática prolongada. Bela quebra de protocolo!

fechando a tarde em alto nível

Para encerrar o almoço, nada melhor que um guéridon de queijos franceses e um Madeira D´Oliveira do século XIX. É desnecessário descrever o vinho, pois é indescritível. Aromas terciários fabulosos adquiridos em mais de 20 anos em canteiros (pipas de madeira sobre travas em sótãos), além de mais de século em garrafa. O tipo Sercial é definido como meio seco. Realmente, uma pequena doçura, magistralmente equilibrada por uma monumental acidez. Um vinho imortal!

Para finalizar com os Puros, um Fine de Bourgogne Domaine de La Romanée-Conti safra 1979, engarrafada em 1999. São as sobras dos barris dos Grands Crus do Domaine com as borras que são destilados e envelhecidos em madeira por longos períodos. Uma experiência sensacional!

Agradecimentos a todos os confrades presentes, sentindo imensamente a falta dos ausentes. Em especial, agradecimentos ao casal anfitrião que nos receberam com muito carinho e generosidade. Que a confraria desfrute de novos encontros como este. Saudações de Bacco!

 

Final Masterchef: Harmonização

26 de Agosto de 2019

Mais uma final Masterchef e mais pratos para harmonizar. Como sempre, Vinho Sem Segredo faz um exercício de enogastronomia com pratos do programa de competição culinária mais conhecido e mais polêmico do Brasil. Desta feita, os cozinheiros Rodrigo Massoni e Lorena Dayse fizeram uma final disputadíssima onde a escolha foi muito mais pessoal que técnica.

Vamos então aos vinhos harmonizados, começando com as entradas, seguidas dos pratos principais e as sobremesas.

Entradas

Tortellini de camarão em caldo asiáticoTortellini de Camarão em Caldo Asiático

Executado por Rodrigo Massoni, é um prato elegante e ao mesmo tempo aromático com uma pegada tailandesa, mas longe do forte apimentado. Precisa de vinhos elegantes, evidentemente brancos de textura mais delicada pela fluidez do caldo. Aqui tem que ser um Chardonnay elegante bem trabalhado na madeira. Dos grandes Borgonhas, um Puligny-Montrachet parece ser ideal. Em sua melhor versão, um Chevalier-Montrachet de Madame Leflaive, por exemplo. Tem acidez, aromas delicados e textura perfeita para o prato. Como alternativa italiana, o belo Chardonnay de Angelo Gaja, Gaia & Rey de safra recente.

Ravióli de vinho branco recheado com caranguejo e emulsão de bacuriRavioli recheado com Caranguejo e Emulsão de Bacuri

Nesta entrada executada por Lorena Dayse, outro prato delicado com uma pegada agridoce pela emulsão do bacuri, fruta típica do nordeste. Temos a textura delicada do massa gelatinosa, a tendência adocicada da carne de caranguejo, e a crocância da tapioca, formando um conjunto harmonioso. O branco ideal neste caso é um Riesling alemão do tipo Kabinett, de textura delicada e um toque off-dry, casando bem com os sabores do prato. Acho que um bom riesling do Mosel é o ideal. Como alternativa, um alsaciano do produtor Marcel Deiss cumpriria bem o papel.

Pratos Principais

Barriga de porco com feijão manteiguinha de SantarémBarriga de Porco com Feijão de Santarém

Outra execução de Rodrigo Massoni, trata-se de um prato gorduroso e bastante saboroso por todos os condimentos envolvidos como cebola, pimentão, pimenta, ervas, molho de soja, salsão, bacon, entres outros. Não é um prato que exija muitos taninos do vinho, pois a carne é bem macia. Todos esses sabores e um toque defumado pelo bacon e a pururucada no acabamento da carne, nos leva a um vinho de presença, boa acidez e aromas marcantes. Um Rioja Gran Reserva de escola tradicional como La Rioja Alta 904. Um tinto espanhol com intensidade para o prato e acidez suficiente para o lado gorduroso e para a acidez do vinagrete no feijão. Como alternativa, um bom Barbera barricato, bem balanceado e de excelente produtor, é uma opção a contento. 

Carneiro ao leite de coco e baião de dois de feijão verdeCarneiro ao Leite de Coco e Baião de Dois

Neste prato de Lorena Dayse acho que está explicado sua derrota na final. A carne de carneiro que é um pernil desossado e picado em cubos é um tipo de carne mais adequada aos assados do que os refogados. É uma carne que carece de gordura e colágeno para longos cozimentos. Embora o leite de coco tenha casado bem com os sabores, não foi suficiente para levantar o sabor do prato. O baião de dois foi muito bem como guarnição. Um bom Chateauneuf-du-Pape como Chateau de Beaucastel é um tinto do sul da França capaz de levantar os sabores do prato e combinar bem com o aromático baião de dois apresentado. Um bom Brunello di Montalcino seria uma alternativa interessante para se testar. 

Sobremesas 

Sorvete de coco com gengibre e limãoSorvete de Coco com Gengibre e Limão

Neste último prato de Rodrigo Massoni, uma sobremesa com pegada asiática novamente pelas presenças do gengibre e limão. O toque de açúcar na sobremesa é bem sutil. O vinho precisa ser delicado, não muito doce, mas com uma acidez marcante. Portanto, os icewines canadenses são ideais, sobretudo com sorvetes. O frescor destes vinhos realçam a delicadeza da sobremesa. Se houver a possibilidade como alternativa, o original Eiswein alemão cai muito bem, inspiração para a especialidade canadense, o vinho do gelo. 

masterchef sorvete de coco abacaxi na cachaçaSorvete de Coco e Abacaxi na Cachaça com Crumble de Mel

Uma sobremesa de Lorena Dayse, parecida com o do seu oponente, também com sorvete de coco. Aqui temos um pouco mais de riqueza de sabores e um toque de doçura extra, porém sem perder a delicadeza. O mel, o abacaxi, a cachaça, o creme de leite, exige um vinho de maior presença como um bom Late Harvest. Uma das melhores referências neste estilo de vinho é o sul-africano Vin de Constance do produtor Klein Constantia. Um vinho deliciosamente doce com as uvas Muscat de Frontignan, mas de equilíbrio notável. Um vinho que casa bem com a riqueza de sabores da sobremesa, sem exageros. Como alternativa, a vinícola argentina Terrazas faz um interessante vinho doce à base de Petit Manseng (uva nobre do sudoeste francês) em vinhedos de altitude com mil metros. Um vinho delicado e muito bem equilibrado.

Enfim, é sempre bom exercitarmos a enogastronomia, procurando combinações novas, e testando várias tendências, nunca esquecendo do bom senso e alguns princípios básicos. Enfatizando novamente, este é apenas um exercício de enogastronomia, independente do sua opinião sobre o programa, sempre muito polêmica. Que venham outras experiências!

A denominação “Aias da Toscana”

24 de Agosto de 2019

Um almoço onde a Itália brilhou com ícones toscanos e do Piemonte. Falar de supertoscanos é lembrar da revolução dos vinhos nesta região a partir dos anos 70 com o pioneiro Sassicaia e sua primeira safra 1968. A partir daí, uma sucessão de mitos começaram a surgir como Tignanello, Solaia, Ornellaia, Masseto, e tantos outros. Como eles eram fora da lei, sem legislação específica, eram conhecidos como meros Vino da Tavola, a classificação italiana mais rasa. Isso obrigou os legisladores a criarem uma denominação intermediaria entre o Vino da Távola e a DOC, já que o abismo era imenso. Surgem então os chamados IGT (indicazione geográfica típica) em 1992. Nesta transição nasce a maior safra do Sassicaia de todos os tempos, o lendário Sassicaia 1985 (100 pontos eternos) com a irônica menção no rótulo, “Vino da Távola”. 

O melhor Chardonnay do Piemonte

Iniciando os trabalhos, um par de brancos do venerado produtor Angelo Gaja. Já provei vários dos seus Gaia & Rey, um Chardonnay que pela elegância lembra um belo Puligny-Montrachet. Este especificamente da safra 98 (foto acima), estava divino. Com seus 20 anos de idade, estava pleno de sabores, ainda com fruta, e um equilíbrio fantástico. Garrafa muito bem conservada. Já seu oponente, um Gaia & Rey bem mais novo, safra 2006, tinha todos os trunfos da juventude. Fresco, vibrante, bem estruturado, tem muita vida pela frente, mas vai ser difícil alcançar o esplendor deste 98. Na boca, percebe-se que falta integração do vinho com a madeira que será resolvida com o devido tempo. Acompanharam muito bem a polenta com brie gratinado do restaurante Gero.

a59bf616-f633-4f50-9430-22f8aab7881ba turma toda no belo bar do Gero

O almoço transcorreu no excelente restaurante Gero sob a batuta do carismático Maître Ismael, entre polenta, risoto, bollito misto, e outras iguarias.

primeiro e segundo vinhos

Um embate interessante entre o Grand Vin Ornellaia e seu segundo vinho Le Serre Nuove, ambos 2016. Fica claro em boca a diferença de estrutura entre os dois vinhos. Ornellaia bem mais tânico, embora com taninos ultrafinos. O Le Serre Nuove é bem mais agradável no momento. É um corte onde a Merlot predomina com o aporte das Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot. A maciez deste vinho é notável, embora deva ser decantado por ser muito jovem. 

Já seu oponente, o grande Ornellaia, se mostra mais fechado, mas com aromas finos e boca muito elegante, embora um pouco austera. Neste corte há o predomínio da Cabernet Sauvignon, seguida pelas uvas Merlot, Cabernet Franc, e Petit Verdot. Com maior tempo de barrica, percebe-se que falta integração entre seus componentes que será ditada certamente pelo tempo de guarda em adega. Dois grandes vinhos com notas muito próxima, provando a excelência da vinícola. Contudo, a hierarquia foi mantida com o grande Ornellaia se impondo como um dos grandes ícones de Bolgheri. Os dois tintos arremataram muito bem o saboroso tagliolini com ragu de coelho, prato preferido de nosso querido confrade Moreira.

a bela safra 1997 na Toscana

Aqui um embate entre os terroirs de Bolgheri e Chianti Classico, ambos baseados na casta Cabernet Sauvignon. O Sassicaia 97 em Magnum mostra toda sua elegância e prontidão com muito Cabernet Sauvignon e uma pitada de Cabernet Franc, o que lhe confere elegância. Contudo, neste páreo, estava concorrendo com uma safra histórica do Solaia 1997. Neste corte, embora haja ampla predominância da Cabernet Sauvignon, a presença da Sangiovese no blend confere muito frescor e aquele toque toscano. Um vinho ainda não totalmente pronto, cheio de energia, e que deve ser obrigatoriamente decantado. Apesar da fruta fresca, especiarias em seus aromas, já há um lado terciário partindo para toques animais e de couro. Bela persistência aromática com 96 pontos merecidos. A costeleta de vitela acompanhada de  risoto zafferano foi muito bem com ambos os vinhos.

dois Ornellaias históricos

Já no final do almoço chegam dois Ornellaias envelhecidos e de grandes safras, 95 e 98. O Ornellaia 98 foi o vinho do ano da Wine Spectator de 2001. Um tinto raçudo, fino, elegante, taninos muito bem moldados, e um equilíbrio perfeito. Com seus 20 anos, está no auge de seu esplendor, provando a longevidade desta notável Tenuta. O Ornellaia 95 um ponto abaixo, mas também num ótimo momento para ser abatido. Não tem toda a estrutura do 98, mas esbanja elegância e presença em boca. Os aromas mais complexos de ambos os tintos acompanharam muito bem o excelente cotechino com lentilhas, executado com maestria.

img_6557um mero “Vino da Tavola”

O final apoteótico veio com o mitíco Sassicaia 1985 numa garrafa muito bem conservada. Quando falamos de um vinho imortal, falamos de um vinho que impressiona em todos seus aspectos pela juventude, sem marcas do tempo. Um vinho com quase 35 anos pleno de frutas, cor rubi intensa, e uma vivacidade em boca notável. Um vinho que não parece ter mais do que dez anos. Seus taninos são massivos e ultrapolidos, boca ampla e muito bem equilibrada com 13 graus de álcool perfeitamente balanceados. 

Com toda a lentidão da legislação italiana, o maior de todos os Sassicaias nasceu como Vino da Tavola, perpetuando no rótulo o descalabro da legislação italiana vigente na época.  Sem maiores explicações, a safra 85 obedece o corte tradicional da Tenuta San Guido com 85% Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc, que neste ano foi mágico. Fizeram o vinho e jogaram a fórmula fora. Excepcional tinto, dentro os melhores de toda a história enológica da Itália. A raridade desta garrafa é refletida em altos preços e o perigo das falsificações em vinhos lendários. 

Agradecimentos a todos os confrades presentes pela companhia, bom papo, e a imensa generosidade das belas ampolas. A Itália desfilou em alto nível neste memorável almoço. Que outros venham em breve com as benções de Bacco!

 

Latour: O Senhor do Médoc

4 de Agosto de 2019

Se você pudesse perguntar a um grão de Cabernet Sauvignon o que ele queria ser quando crescer, a resposta só poderia ser esta: um Chateau Latour. Não há local no mundo onde a Cabernet Sauvignon se sinta mais à vontade do que os vinhedos de Latour. Especialmente sua maior parcela denominada L´Enclos com 47 hectares de vinhas, grande parte antigas, tem uma pedregosidade e uma capacidade de drenagem singulares. Estudos de solos no Médoc ligados à viticultura apontam esta parcela como a melhor da região, onde o desenvolvimento da Cabernet Sauvignon é pleno, gerando vinhos de grande estrutura e longevidade. Um Latour de boa safra é capaz de vencer décadas na adega, numa evolução lenta e espetacular. 

Outro fator de destaque neste Chateau é sua incrível regularidade safra após safra. Mesmo naquelas consideradas mais problemáticas como 2002, por exemplo, Latour se mantem sóbrio, bem equilibrado, justificando seu posto de um verdadeiro Premier Grand Cru Classé. 

Outro fator que corrobora para esta consistência é seu segundo vinho denominado Les Forts de Latour, criado em 1966, o mais valorizado e respeitado dentre todos os segundos vinhos do Médoc, podendo envelhecer magnificamente. Para se ter uma ideia do fato, a safra 2010 ainda em evolução tem 97 pontos Parker. 

 

Chardonnay em duas versões

Para iniciar os trabalhos, um par de brancos Chardonnay de estilos e propostas completamente diferentes. O americano Peter Michael Belle Côte 2012 com 99 pontos é intenso em aromas e persistente em boca. Feito a la Bourgonge, fermenta e estagia em barricas francesas com periódicos bâtonnage (revolvimento das borras). O vinho estava um pouco evoluído para sua idade, mas sem sinais de oxidação. O pessoal não gostou muito do vinho e com razão. Ele é muito invasivo, quase doce, faltando finesse. Muitas vezes, a intensidade, potência, extração excessiva, atrapalham a harmonia do conjunto. Muito longe da elegância dos grandes brancos da Borgonha.

Por outro lado, o Chablis básico do Drouhin também não encantou. Embora muito equilibrado e fresco em boca, não tinha aquela tensão e mineralidade dos grandes Chablis. Questão de um terroir mais privilegiado e rendimentos mais baixos no vinhedo. Muito longe dos mestres Dauvissat e Raveneau.

img_6447notem o álcool destes vinhos (12,5%)

Neste embate acima, duas grandes safras de Latour dos anos 90. Os dois vinhos tem corpo e estrutura dos grandes Bordeaux sem álcool excessivo. Notem a graduação de 12,5% de álcool, fator raro nos tintos da atualidade, provando que outros componentes como extrato e taninos, têm sua devida importância.

O Latour 96 tem a fruta exuberante e a graciosidade desta safra. Embora em tenra idade, é bastante agradável de beber, mesmo para padrões normalmente austeros de Latour. O vinho tem um belo equilíbrio, aromas ainda primários, e muito longo em boca. Safra que vai evoluir bem em adega. Já o Latour 90, mais evoluído, com seus toques terciários de couro fino e caixa de charuto. Não é tão longo  e estruturado como o 96, mas é muito prazeroso, embora possa ser adegado com tranquilidade. Essas duas safras convém decanta-las com pelo menos duas horas antes de servir. 

 

pratos consistentes e ricos em sabor

Para acompanhar essa maravilhas, um ossobuco com risoto zafferano, ficando muito bem com o Latour 90, mais macio. Já o contrafilé Angus, uma carne mais consistente e suculenta, aderiu melhor à trama tânica mais evidente do Latour 96. O almoço deu-se no restaurante Nino Cucina, sempre lotado, com atenção especial do experiente sommelier Ivan, patrimônio da Casa.

img_6448como é bom um Latour 82 !

A grande estrela do Chateau, Latour 82 nota 100, ficou para brilhar sozinha, sem comparações. Um dos melhores Latour de toda história, já muito prazeroso de ser tomado. Contudo, ainda está em evolução e terá certamente um platô amplo de estabilização por décadas. A fruta é deliciosa e muito presente com seus quase 40 anos de idade. Os taninos são abundantes e muito finos. O álcool e a acidez são perfeitamente balanceados ao conjunto, num final longo e muito bem acabado. Sempre um grande prazer em revê-lo!

 

Porto e Tiramisú, bela dupla!

Nada melhor para encerrar uma refeição com Latour que um Porto Vintage de uma grande Casa e uma grande safra. Eis que surge um Graham´s Vintage Port 1963. Ele está cotado entre os três melhores Portos desta safra, junto com o Noval Nacional e o Fonseca. E olha que não é pouco, pois 63 é uma safra mítica. É seguramente um dos cinco melhores Vintages do século XX.

Tomar um Vintage antigo é sempre uma experiência única. Este com seus quase 60 anos, já tem seus taninos todos polimerizados, o álcool perfeitamente integrando ao conjunto, e os aromas lindamente desenvolvidos. Um licor de frutas escuras intenso, marcante. Os aromas de ervas, especiarias, além de notas empireumáticas de café e chocolate, permeavam a taça. Um final longo e expansivo nos convidava para mais uma taça. Ficou divino com o Tiramisú da Casa, um dos melhores da cidade, sobretudo pela harmonia de texturas e sabores. Um belo final de tarde!

Agradecimentos intensos aos confrades pela companhia e generosidade, sobretudo ao nosso Presidente com garrafas sempre impecáveis. Nota de destaque ao Doutor Ricardo pelo Porto histórico, clamando por participações mais frequentes no grupo. Que Bacco sempre nos proteja!

Margaux e seu super Deuxième

30 de Julho de 2019

Quando falamos de segundos vinhos de Bordeaux, sabemos que normalmente a diferença para o Grand Vin é notável, pois em última análise, o segundo vinho é a rejeição do vinho principal. Contudo, há exceções como o Les Forts de Latour, segundo vinho do Chateau Latour, sempre muito bem pontuado e com alta consistência. Nesta linha de raciocínio, devemos incluir o Pavillon Rouge de Margaux, pois sua qualidade lado a lado com o Grand Vin é marcante e incontestável. Foi o que aconteceu num belo almoço no Ristorantino, coordenado pela excelente sommelière Juliana Carani, mulher do mestre Manoel Beato.

bela harmonização

Como sempre de início, um branquinho para fazer a boca. Seguindo o script, um belo Bordeaux blanc do Chateau Pape Clément safra 2010. Seu blend é composto de 50% Sauvignon Blanc, 40% Sémillon, e 10% Sauvignon Gris. O vinho é fermentado e amadurecido em barricas francesas com o devido bâtonnage (revolvimento das borras). Seu nariz é rico em frutas amarelas como pêssegos e ameixas, notas de pâtisserie, manteiga, baunilha e mel. Boca de certa untuosidade dada pela presença da Sémillon e o trabalho de barrica. Final longo e com aromas de certa evolução. Não convém guarda-lo por muito tempo, pois já é delicioso no momento. Foi muito bem com um Cacio e Pepe (foto acima) bem delicado do menu proposto.

img_6416flight surpreendente

Neste primeiro flight, o mais surpreendente do almoço, a maioria da mesa confundiu o Pavillon com o Grand Vin de 100 pontos. Diante do fato, dá pra ver o nível deste segundo vinho. É bem verdade que esta garrafa de Pavillon Rouge, além da safra excepcional, veio diretamente do Chateau, um diferencial importante. Tanto a longevidade como a complexidade deste segundo vinho são notáveis e surpreendentes. Prova disso, que a nota deste Pavillon Rouge 90 pelo Parker é de 86 pontos, sendo considerado um vinho velho em seu patamar final de evolução. Avaliação totalmente contrária desta garrafa degustada. 

Um pouco de história …

A história do segundo vinho do Chateau Margaux, Pavillon Rouge, começa no final do século XIX e a primeira menção deste nome data de 1908. Entre as décadas de 30 e final de 70, o vinho não foi elaborado, tendo seu ressurgimento em 1978. Segundo o próprio Chateau, a produção do Grand Vin corresponde a 40% do total das vinhas, enquanto o Pavillon Rouge fica com 50% do total. Atualmente, existe um terceiro vinho que fica com os 10% restantes. Donde se conclui que boa parte das vinhas é dedicada ao segundo vinho, fugindo daquele critério básico de elabora-lo a partir somente da rejeição de lotes do Grand Vin. Portanto, é um segundo vinho diferenciado com bom poder de longevidade.

flight extremamente didático

Na comparação entre as safras 95 e 96 segundo o mestre Beato, os 95 geralmente são vinhos um tanto duros e inrustidos. Já os 96 são vinhos femininos, acessíveis, e muito prazerosos de serem provados. Isso ficou absolutamente claro nas taças, sendo o 96 um vinho de 100 pontos, o vinho do almoço como unanimidade.

Vale dizer que o 95 cresceu muito na taça com tempo, provando que ele precisa de tempo de adega para sua perfeita evolução, além de longa decantação para prova-lo no momento. O Margaux 96 já é delicioso, mas deve evoluir por décadas ganhando seus lindos toques terciários. O risoto de pato (foto acima) acompanhou muito bem este par de vinhos.

um intruso no ninho

Seria um flight clássico a disputa dos Margaux 82 e 83 se não fosse a presença do Pavillon Rouge 2009 novamente. É claro que ficou fácil de aponta-lo no páreo já que era extremamente jovem. Contudo, no mesmo nível de qualidade dos demais vinhos com grande concentração de sabor. Bela harmonização com costeletas de cordeiro à milanesa e lentilhas du Puy (foto acima).

Para minha surpresa, confundi as safras 82 e 83 com percepções totalmente contrárias as que sempre me recordaram em outros momentos. A safra 83 costuma ser elegante, delicada, e até um pouco misteriosa, sendo este ano muito bem avaliado para a apelação Margaux. Já o Margaux 82 sempre me pareceu um vinho duro, muito masculino para os padrões do Chateau. Diante do fato, o único que realmente apontou com convicção as taças corretas foi nosso Presidente, sempre nos surpreendendo em degustações às cegas. Aliás, agradecimentos especiais  a ele pelo vinhos selecionados, especialmente estes Pavillons maravilhosos ex-chateau, divinamente bem conservados. Uma verdadeira aula!

Licoroso e seleção de queijos

Para finalizar o almoço, mais um nota 100 na parada. Bem ao estilo PX (Pedro Ximenez), este licoroso de Jerez à base de Moscatel. Um vinho untuoso, de extrema presença em boca, e de longa persistência aromática. Trata-se de uma Cuvée especial denominada Toneles. Falando um pouco sobre o processo de elaboração, essas uvas são colhidas maduras e postas para solear em esteiras durante algumas semanas, tornando-se quase passas. O mosto rico em açucares e ácidos é posto para fermentar de maneira muito lenta. A fortificação acontece no início da fermentação, deixando no produto final cerca de 420 g/l de açúcar residual. O vinho apesar de doce, tem um equilíbrio muito bom devido a uma acidez de 10 g/l, a qual lhe confere um belo frescor, não o deixando enjoativo. 

Além da potência do vinho em si, sua alta complexidade aromática dá-se pelo sistema Solera de partidas muito antigas, podendo chegar a cem anos, ou seja, à medida que vão sendo sacados alguns lotes de vinho para o engarrafamento, vinhos novos são repostos na Solera para serem “educados” pelos mais antigos. É uma maneira contínua de renovar o sistema, mantendo a lenta evolução dos vinhos. Nestas soleras antigas, as sacas são muito criteriosas em partidas diminutas, pois os vinhos que serão repostos precisam ter alta qualidade equivalente ao nível da solera.

Enfim, um vinho que impactou a todos por sua potência e equilíbrio. Bom parceiro para charutos, como disse um dos confrades, além de queijos curados (foto acima) e geleias. Pode ser surpreendente por contraste com sorvetes de ameixa, banana, ou outras frutas passas. 

Agradecimentos a todos os confrades pela companhia, generosidade e boa conversa. Margaux é sempre um tema apaixonante, provando mais uma vez sua elegância e personalidade única. Que Bacco nos guie por caminhos sempre surpreendentes!

Haut-Brion e seus encantos

20 de Julho de 2019

Nos subúrbios da cidade de Bordeaux, as velhas vinhas de Haut-Brion plantadas em 1423 se renovam ao longo do tempo num trabalho viticultural minucioso. Sua primeira safra em 1525 mostrou aos ingleses o surgimento de uma nova era de vinhos, colocando definitivamente Bordeaux no topo dos vinhos de elite.

Num terroir diferenciado do Médoc, Haut-Brion desfruta de muitas pedras em meio à areia, argila e calcário com raízes profundas. O blend tem alta porcentagem de Merlot, a qual confere ao vinho uma notável maciez. A longevidade é garantida pela Cabernet Sauvignon e um toque de refinamento é dado pela Cabernet Franc. Em média temos: 45% Merlot, 45% Cabernet Sauvignon, e 10% Cabernet Franc.

Haut-Brion costuma ser um vinho muito agradável mesmo jovem, sem a costumeira austeridade dos vinhos do Médoc. Aqui estamos falando da apelação Pessac-Léognan, a qual antigamente era chamada de Graves. Haut-Brion portanto, desfruta da classificação de 1855 e também da classificação de Graves em 1953, sempre como vinho de exceção. 

828151d1-1ccb-4bca-9d25-1d16f90f3124cinco safras em taças Zalto

Num belo almoço no restaurante Gero, sob a batuta do carismático Maître Ismael, cinco safras deste Premier Grand Cru Classé confirmaram toda a complexidade, elegância e sedução em taças Zalto. O estranho no ninho, à esquerda da foto, é o espetacular Chevalier-Montrachet de Michel Niellon, um dos especialistas nesta apelação. São apenas 0,23 hectare de vinhas antigas com baixos rendimentos. A vinificação visa preservar ao máximo a acidez e frescor dos vinhos. O toque de madeira é discreto, quase imperceptível, valorizando a elegância e sutileza dos grandes Chevaliers. Neste exemplar extremamente novo e já muito prazeroso, a sutileza, o equilíbrio, e a pureza de aromas, são notáveis. Final refrescante e persistente. Belo inicio para ativar as papilas!

01342177-1366-46ef-8d8e-b27c5295c117mudança de rótulos

Aqui o ponto alto do almoço no sentido de prontidão e puro prazer. Duas garrafas muito bem guardas, mostrando como evoluem bens os grandes Bordeaux. O Haut-Brion 82 com 95 pontos faz jus à esta mítica safra. Um tinto ainda com força bons anos em adega, mas já muito prazeroso. Polido, elegante, taninos super finos, e um final de extremo equilíbrio, ainda com fruta. Sempre um porto seguro. 

Contudo, a grande surpresa foi o Haut-Brion 71, de longe, o melhor Bordeaux 71 que já provei. A garrafa estava perfeito nos seus quase 60 anos de idade. Todos os terciários bem desenvolvidos, sem sinais de decadência. Embora não tivesse a força do 82, esbanjava elegância e incríveis aromas de funghi porcini. Uma maravilha e prova de consistência deste grande Chateau, mesmo em safras não tão badaladas.

harmonizações perfeitas

Para fechar os comentários, os pratos acima foram muito bem com os vinhos. O da esquerda, Paccheri (espécie de rigatoni gigante) ao molho reduzido de vitela tinha a intensidade e compatibilidade de sabores com o Haut-Brion 82. Já o risoto de funghi porcini só fez revelar e amplificar os complexos aromas do Haut-Brion 71. Ponto alto do almoço.

grandes safras!

Embora o Haut-Brion 95 ainda esteja em evolução, sua maior porcentagem de Merlot em relação à safra 89, confere boa maciez e maior acessibilidade, mesmo relativamente jovem. Os aromas terrosos e animais ainda estão entremeados por cacau e chocolate com taninos muito presentes, mas de ótima textura. Um vinho com força para evoluir muitos anos em adega. Quanto ao Haut-Brion 89 será certamente um das safras históricas do chateau. Um vinho com trinta anos, mas pleno de energia e fruta. Tem uma densidade acima do normal, própria dos grandes vinhos. Seus taninos muito finos e abundantes garantem um longa guarda em adega.

É interessante notar a diferença dessas duas duplas degustadas, percebendo que nos exemplares 89 e 95 já temos uma formação dos terciários, mas com a fruta ainda muito presente e taninos a resolver, embora de extrema qualidade. No caso dos exemplares 82 e 71, os vinhos estão num estágio mais avançado, com os terciários muito mais presentes, e boca bem resolvida, sem arestas. De todo modo, todos os dois muito vivos e sem nenhuma pressa para serem abatidos.

Não deu tempo de provar o Haut-Brion 98 desta vez, mas trata-se de outra safra quase perfeita, 99 pontos. Com praticamente 60% de Merlot no corte, é um vinho macio, bem acessível pela idade, mas com futuro brilhante, já que a fruta está muito presente. Deve evoluir bem, adquirindo os maravilhosos aromas terciários, dignos deste grande Chateau. 

Agradecimentos aos amigos e confrades por mais esta oportunidade, numa prova de amizade e generosidade. A boa conversa se prolongou com cafés, charutos e muitas risadas. Vida longa aos confrades e que Bacco nos proteja!


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