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Entre brancos e tintos, a Borgonha brilha!

13 de Agosto de 2019

Sempre é bom testar os Borgonhas nas mais variadas apelações, comparando produtores, safras, e estilos de vinho. Num agradável almoço no restaurante Parigi, um desfile entre brancos e tintos com produtores de grande renome.

bela harmonização

Para iniciar os trabalhos, um Dom Perignon P2 1998, o primeiro P2 dando sequência aos Oenotheques. Uma maravilha de champagne. Fresco, elegante, complexo, e muito prazeroso. Seus 16 anos sur lies conservaram esta vivacidade e energia incríveis. Foi muito bem com o carpaccio de atum.

 dois gigantes em suas apelações

Essa dupla de brancos estava sensacional. O bebezinho Comtes Lafon Meursault-Charmes safra 2015 estava cheio de energia com aquela textura cremosa dos grandes Meursaults. Uma safra com muita fruta e exuberância nas mãos de um belo produtor num dos melhores vinhedos Premier Cru. Ainda vai dar muitas alegrias.

O mais surpreendente foi o Corton-Charlemagne de Henri Boillot safra 2005. Um branco com quase 15 anos em plena forma. Muito fresco em boca, super equilibrado, além da madeira estar muito bem dosada com a fruta. Sua textura lembra os grandes Chablis Grand Cru de grandes safras com aquela acidez vibrante. Belo inicio de almoço.

2005: grande safra na Borgonha!

Poderia ser um belo embate, mas o Vosne-Romanée de um dos melhores Premier Cru, Malconsort, estava bouchonné, uma pena. Quanto ao Chambertin, estamos falando de um dos noves Grands Crus, Charmes-Chambertin do excelente produtor Claude Dugat. Um tinto ainda muito jovem, destacada estrutura tânica, e aromas um tanto fechados. Deve evoluir bem por pelo menos mais dez anos. Embora os taninos sejam em grande quantidade, esperava um pouco mais quanto à qualidade para este nível de produtor. Deve ser obrigatoriamente decantado.

mini-vertical Méo-Camuzet

Aqui uma pausa para alguns comunais de Vosne-Romanée do excelente produtor Méo-Camuzet com Richebourg e Clos de Vougeot excepcionais. Embora num nível não tão intenso, percebe-se em todos eles a elegância e sutileza do terroir de Vosne. O de safra 2010 é o mais complexo, elegante, e longevo, entre todos. Já a safra 2012 foi a que menos me agradou. Faltou extrato e pouca persistência aromática. A safra 2013 acompanhou um pouco o estilo mais estruturado do 2010, porém sem o mesmo brilho, inclusive com taninos menos delicados. Por fim, a safra 2014 foi a mais prazerosa, floral, e feminina entre todos. Pode envelhecer mais alguns anos, mas já está bem acessível.

a turma toda reunida

A última dupla de Borgonhas era a mais esperada pelo nível dos produtores, vinhedos, e safras. Começando pelo Vogue, longe de ser meu produtor preferido desta comuna, este Musigny 1990 tem 96 pontos e é considerado o melhor Musigny da safra. Embora seja rico e estruturado, sem nenhum sinal de decadência, seu estilo é muito austero para a elegância que se espera de um Musigny. Às cegas, lembra muito mais um tinto do Piemonte do que tintos da comuna de Chambolle-Musigny. Enfim, pessoalmente um contrassenso. 

Por outro lado, o Grand Cru Grands-Echezeaux 2003, uma das especialidades do produtor Mongeard-Mugneret estava divino. Uma safra generosa, muito aromática, taninos finos, e num ótimo momento para ser provado. Além da fruta, tinha os terciários de sous-bois, chocolate, ervas finas, entre outros aromas. Um dos destaques desta safra para a apelação que costuma ter vinhos muito duros, de longo envelhecimento. 

c45e18a1-3d6d-4307-b4be-1650adc1c684Haut Brion em Magnum 

Como exceção, tivemos um bordalês em garrafa Magnum para fechar o almoço. Realmente, um daqueles Haut Brion de tomar de joelhos. Safra muito generosa, 85 faz vinhos deliciosos ao estilo 82, mas sem tanta pujança. Neste Haut Brion um show de elegância, textura de taninos, equilíbrio em boca, e todos aqueles aromas típicos do chateau como estrebaria, chocolate, e caixa de charutos. Um final triunfante!

não aguentou a sobremesa de chocolate

Na sobremesa, ainda tivemos um antigo Eiswein 1977 da região de Rheinhessen. Além de não ter sido uma grande safra, o vinho estava um pouco cansado, faltando acidez. Nesta categoria de vinho, Eiswein, não temos tanto açúcar residual como nos Trockenbeerenauslese, por exemplo. De todo modo, valeu a experiência.

Agradecimentos a todos os confrades presentes, alguns que não vinham de longa data, numa mesa recheada de amigos e grandes vinhos. Valeu pela conversa, companheirismo e generosidade de todos. Agradecimentos especiais a nosso Presidente pela Magnum de Haut Brion divina, trazida a toque de caixa durante o almoço. Que Bacco nos proteja sempre nos futuros encontros!

DRC e Les Richebourgs

24 de Junho de 2018

É sempre muito bom falar sobre os grandes tintos de Vosne-Romanée, comuna dos melhores Grands Crus da Côte de Nuits. Desta feita, sobre o Grand Cru Richebourg, que desde o fim da Idade Média, encanta com vinhos estruturados e de grande longevidade. A grande modificação no vinhedo que proporcionou sua ampliação foi nos anos 20 do século passado, com a inclusão da parcela Les Verroilles na direção norte do vinhedo com altitudes mais elevadas. Concluindo, a parcela original Les Richebourg (5,05 ha) foi ampliada com Les Verroilles (2,98 ha), totalizando 8,03 hectares de vinhas repartida entre onze proprietários.

richebourg vinhedoterroir ampliado

Não há dúvida que Domaine de La Romanée-Conti possui quase metade das vinhas com parcelas variadas ao longo do vinhedo e de características distintas. Conforme mapa abaixo, o setor Les Verroilles na parte superior tem um clima e solo mais frios, guardando na maioria das safras, uma acidez e elegância mais evidentes. Leroy, Méo-Camuzet e a família Gros, encaixam-se neste perfil.

Por outro lado, Domaines como Grivot e DRC no setor original Les Richebourg, apresentam Richebourgs mais encorpados, mais macios e principalmente tânicos, mostrando a força deste Grand Cru que tem como vizinhança os vinhedos Romanée-Conti, La Romanée e Romanée-St-Vivant.

richebourg parcelasRichebourg – parcelas

Feito esse preâmbulo, vamos a uma vertical desses vinhos com diferentes idades e momentos de evolução. Com exceção de um Méo-Camuzet 1990, todos os outros Richebourgs são DRC de várias safras.

img_4814safras altamente pontuadas

Começando já em alto nível, duas safras primorosas e com muita vida pela frente, sobretudo o potente Richebourg 99. Talvez o mais prazeroso dos DRCs provados foi este de safra 1996 com 96 pontos. Aromas ricos de Vosne, misturando juventude com certa evolução. Cerejas escuras, os toques florais, o sous-bois, uma pontinha de café, e as especiarias delicadas. Boca macia, taninos bem moldados, e um final super equilibrado. Momento ótimo para ser provado. Já o 99, um vinho mais musculoso, muito mais taninos, e ainda um pouco tímido nos aromas. Deve ser obrigatoriamente decantado, pois evolui bem na taça. Os aromas de frutas escuras, notas de torrefação e chocolate são evidentes. Um vinho com pelo menos mais uma década de evolução com 97 pontos. Como observação, seus taninos não são tão finos como o monstruoso La Tâche 99 com 100 pontos, provado recentemente.

img_4815um intruso no ninho

Neste segundo flight, o Chambertin no centro da foto destoou dos demais. Deu muito azar de estar junto com dois dos melhores tintos do almoço. Reparem que trata-se de um vinho de negociante de Beaune numa safra fraca de 1976. Seus aromas de caramelo e amadeirados dava impressão de um bom Rioja envelhecido ou de alguns Vegas, bem observado por Manoel Beato. Os aromas eram mais interessante que a boca com nítidos sinais de decadência. Acidez agressiva e secura no final de prova.

Em compensação, os outros dois estavam divinos, sobretudo o Méo-Camuzet. A história do Richebourg Méo-Camuzet se confunde com Henri Jayer, uma lenda na Borgonha. No pós-guerra os vinhedos Richebourg foram replantados e entregues a Henri Jayer para a elaboração de seus vinhos. A amizade de Henri com a família Camuzet sempre foi de muita confiança. A última safra de Richebourg rotulada como Henri Jayer foi a de 1987. Nos anos seguintes, Henri Jayer atuou como consultor dos Richebourgs Méo-Camuzet até quando sua saúde aguentou. Portanto, este Richebourg 1990 tem a mão do mestre e de fato é magnífico. Fiel ao terroir Les Verroilles e a seu estilo elegante de vinificar, o vinho emana um bouquet de rosas impressionante. Seus taninos são delicados e ao mesmo tempo firmes para garantir estrutura e longevidade. Encontra-se num momento sublime, sem sinais de decadência. Pelo contrário, tem um amplo platô de estabilização.

Quanto ao Mazis-Chambertin 85 de Madame Leroy não estava no mesmo esplendor de uma outra garrafa degustada recentemente. Parecia mais evoluída e um pouco cansada. Contudo, percebe-se um vinho fino e com toda a estrutura digna dos grandes Chambertins. Taninos muito finos e um raro equilíbrio em boca. Essas brigas no bom sentido entre Jayer e Madame Leroy são sensacionais, mostrando todo o talento destas lendas da Borgonha.

img_4816os bons velhinhos

Neste flight, uma homenagem aos velhos Borgonhas que conseguem atravessar décadas em sua jornada. Não são grandes safras, mas mostram o talento e a longevidade dos vinhos DRC. Os dois com aqueles toques de Vosne evoluídos onde o sous-bois, cogumelos, toques terrosos, e algumas notas de chá são bem presentes. Levando-se em conta a idade, o 1965 estava bem prazeroso e com extrato superior ao 1981. Este último, bem delicado, sendo melhor apreciado como vinho de meditação, sem interferência de comida. Enfim, uma aula de aromas terciários.

img_48181as promessas

Neste flight, todo o vigor e potência dos Richebourgs DRC. No caso de 2008, os taninos surpreendem pela textura macia e afável com boa evolução de aromas e extremamente prazeroso. Perde um pouco em potência frente ao 96, mas segue o mesmo estilo. Já o 2009, segue a potência da safra 99. Rico em aromas e taninos, sua estrutura é monumental, podendo atravessar décadas de evolução. Seus aromas de alcaçuz, chocolate e cerejas escuras são notáveis. Deve ser obrigatoriamente decantado.

De todo modo, são vinhos para repouso em adega, vislumbrando grande evolução no caminho dos belos vinhos de Vosne-Romanée. Notas 96 e 97 para as safras 2008 e 2009, respectivamente.

bela harmonização

Para selar o almoço, um velho Richebourg 1947 Old School. O prato acima do restaurante Parigi, escoltou bem vinhos como este num belo ravioli de vitela com molho de cogumelos. A mítica safra de 1947 moldou belos vinhos e esse não foge à regra. Poderia estar um pouco cansado, mas mesmo assim, mostra a elegância e delicadeza dos grandes vinhos de Vosne. Seria repetitivo citar novamente seus divinos aromas terciários e toda a maciez em boca de taninos totalmente polimerizados. São vinhos para serem bebidos sozinhos, sem comparações, sem notas. Apenas pelo simples prazer que a pátina do tempo nos proporciona.

img_4811alta costura em Champagne

Além do desfile de Richebourgs, tivemos algumas borbulhas interessantes neste almoço. Como destaque incomparável, o raro Dom Pérignon 1983 P3, não encontrado no mercado nacional. Nosso confrade Camarguinho, homem de finas borbulhas, nos presenteou com o exemplar acima. P3 para quem não sabe, é a chamada terceira plenitude, período relativamente longo onde o champagne descansa sobre as lias (borras) antes do dégorgement. No caso de um P3, estamos falando em mais de vinte anos sur lies. Precisamente neste exemplar, 25 anos com as leveduras.

Este procedimento, mantém um frescor incrível no champagne, além de texturas e sabores únicos. A fineza do perlage é indescritível, tal a delicadeza das borbulhas. Sua textura em boca, o que chamamos de mousse, é super delicada. Some-se a isso tudo, sabores sutis de maçã, cogumelos e fino tostado, e você estará diante da perfeição. Difícil pensar em algo melhor.

Blanc de Noirs artesanal

Na foto acima, um champagne artesanal com apenas 900 garrafas por safra. Neste millésime Blanc de Noirs, temos as uvas Pinot Noir e Pinot Meunier com três anos sur lies. Um champagne mineral, extremamente seco, gastronômico, e de certa adstringência. Muito fresco, equilibrado, ótimo perlage, e mousse vigorosa.

os vinhos tranquilos de Champagne

Os chamados Coteaux Champenois são os vinhos tranquilos na região de Champagne, ou seja, sem borbulhas. Neste caso, temos outra produção artesanal com apenas 500 garrafas por safra. Trata-se de um 100% Pinot Meunier (uva tinta) vinficado em branco e amadurecido 34 meses em toneis. O vinho conserva uma boa acidez sem exageros e notável adstringência. Bastante seco e notável mineralidade. Branco gastronômico para pratos de personalidade como bacalhau, por exemplo. Valeu pela raridade e pela experiência em provar vinhos diferentes numa região de finas borbulhas.

Após longa jornada, ficam os agradecimentos aos confrades e as lembranças de mais um almoço inesquecível onde o bom papo e a imensa generosidade do grupo permearam mais esse encontro. Saúde a todos!

Clos de Vougeot: a escolha de Babette

3 de Maio de 2018

No inesquecível filme “A festa de Babette”, o tinto escolhido para o lauto banquete foi Clos de Vougeot 1845, acompanhando codorna assada com foie gras e trufas. Vide artigo neste mesmo blog: Menu Harmonizado: A Festa de Babette 

Embora a escolha deste Grand Cru fosse extremamente arriscada, no contexto do filme serviu para marcar e homenagear um dos mais antigos e emblemáticos terroirs da Borgonha. Neste sentido, vamos tentar esmiuçar este vasto território de vinhas com 50 hectares, um verdadeira latifúndio em termos de Borgonha.

clos vougeot carte

parcelas do vinhedo

A história do Clos de Vougeot se confunde com a criação da Abadia de Cîteaux, criada em 1098. O início dos vinhedos datam entre os anos de 1109 e 1115. O vinhedo foi aumentando pouco a pouco e terminado em 1336 com suas divisas muradas. Em 1818, a propriedade foi comprada pelo banqueiro Julien-Jules Ouvrard, dono do Domaine de La Romanée-Conti. O próprio mítico Romanée-Conti foi vinficado em Clos de Vougeot entre os anos de 1819 e 1869. Com a morte de Ouvrard, o vinhedo passou a três herdeiros que posteriormente venderam a propriedade a seis novos donos e daí em diante, a subdivisão em famílias continuou, chegando a cerca de 80 proprietários.

Em 1934 foi criada a La Confrèrie des Chevaliers du Tastevin que anualmente entroniza novos membros no Castelo Clos de Vougeot com um lauto jantar. São cerca de 12000 membros em todo mundo. Seu lema: “Jamais en vain, toujours en vin”, ou seja, jamais em vão, sempre no vinho.

A primeira divisão de parcelas neste vasto Chateau foi feita pelos Monges Cistercienses na Idade Média com três sub-zonas principais:

  • La Partie Haut (parte alta) em torno de 260 metros de altitude, englobando os climats: Musigni, Chioures, Garenne, Grand Maupertius, Plante Labbé, Plante Chamel, Montiottes Hautes, Marei Haut, Petit Maupertuis, Baudes Hautes e Montiotes Hautes. São solos argilo-calcários de natureza pedregosa e escura. Vinhos finos, bem equilibrados e de aromas elegantes. Esta blend foi chamado “Cuvée du Pape”.
  • La Partie Centrale (altura mediana) em torno de 250 metros de altitude, englobando os climats: Dix Journaux, Baudes Saint Martin, Baudes Basses. O solo é pedregoso, mas extremamente argiloso em relação ao calcário. Os vinhos são fortes e muito tânicos. Esse blend foi chamado de “Cuvée du Roi”. 
  • La Partie Basse (parte baixa), abaixo de 250 metros de altitude, englobando os climats: Marei Bas, Montiottes Basses, Quatorze Journaux, Baudes Basses (parte inferior), Baudes Saint Martin (parte inferior). Os solos são aluvionais e de argila densa. Os vinhos são pesados, tânicos, faltando elegância. Este blend foi chamado de “Cuvée des Moines”.

clos vougeot parcellesa divisão atual

Nos dias atuais, quando se fala de Clos de Vougeot, mesmo sendo um vinhedo Grand Cru, perde-se um pouco do rigor borgonhês, no sentido de separar micro parcelas, especificando ao máximo um terroir preciso.

Pelo exposto acima, fica claro que os proprietários da chamada parte alta do vinhedo, com vizinhanças ilustres como Grands-Echezeaux e Musigny, levam vantagem nos fatores solos e exposição do terreno (drenagem e insolação). Mas só isso, não resolve a questão. Existem o estilo e talento do vigneron em procurar expressar o terroir da forma mais fiel possível, sem esquecer do fator safra, que pode ir contra à filosofia do produtor, dependendo das características de cada ano. É sem dúvida, uma equação complexa, mas para minimizar o erro, vamos  a alguns nomes de referência desta zona mais alta do vinhedo:

Domaine Leroy, foto abaixo, com um dos melhores Clos de Vougeot na safra 2002. Com pouco mais um hectare de vinhas, Madame imprime seu estilo ultra elegante, taninos de seda, e um final rico e complexo. O vinho ainda pode ser guardado, mas está delicioso para os mais impacientes. 94 pontos pela média da crítica especializada.

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Leroy atropelou seu concorrente ao lado

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esse estava delicioso e no ponto

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Méo-Camuzet: outra grande referência

Méo-Camuzet, sempre respeitando os ensinamentos do mestre Henri Jayer, faz vinhos divinos além destes, como o espetacular Richebourg. Vinhedos perto do Castelo.

Outros no mesmo nível, Domaine Anne Gros, Engel, Domaine de La Vougeraie, Domaine Gros Frère & Souer, todos na parte superior do vinhedo.

Chateau de La Tour é o maior produtor (5,48 ha), localizado no setor mediano do vinhedo. O que vale realmente a pena é sua Cuvée Vieilles Vignes. Maison Joseph Drouhin é sempre confiável também.

Nos setores mais baixos, Domaine Grivot e Domaine Jacques Prieur, fazem a diferença na condução das vinhas e vinificação precisa.

Enfim, algumas referências precisas, de acordo com os maiores especialistas no assunto. É claro que gosto pessoal também conta. Por isso, a omissão de mais alguns Domaines fica a cargo da preferência e experiência de cada um.

Além deste vasto Grand Cru, Vougeot possui outras apelações Premier Cru e Village. Olhando no mapa, todas elas ficam adjacentes no muro a Leste, à direita, do Grand Cru. Os Premiers Crus estão nos Lieux-Dits: Clos de La Perrière, Le Cras, Les Petites Vougeots, para tintos, principalmente. Clos Blanc e Le Clos Blanc, para os brancos. E o Vougeot Village tintos e brancos.

Terroir: Bourgogne x Bordeaux

26 de Março de 2015

Tentar comparar as clássicas regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne pode parecer loucura. A ideia aqui é discorrer sobre a diferença intrínseca no conceito de terroir das mesmas. Sabemos que em Bordeaux as propriedades a grosso modo são pelo menos dez vezes maiores em superfície de vinhedos. Além disso, os vinhos bordaleses baseiam-se no famoso corte, talvez o corte mais emblemático no mundo do vinho. Basicamente, estamos falando de três cepas: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. E é exatamente esse “assemblage” que torna os vinhos bordaleses únicos, com estilo próprio. No esquema abaixo, mostraremos um exemplo típico de um Grand Cru Classé de margem esquerda, na famosa região do Médoc.

Encepamento do Château Lagrange

O esquema acima refere-se ao Château Lagrange, um típico Grand Cru Classé da comuna de Saint-Julien. Este esquema pode ser generalizado para os principais châteaux do Médoc. As porções em verde mais esmaecido são várias parcelas de Cabernet Sauvignon. As porções em vermelho esmaecido são de Merlot, e as duas parcelas em tonalidade diferente são de Petit Verdot, uva pouco cultivada em Bordeaux. Pois bem, no raciocínio bordalês cada parcela de cada uma das uvas são vinificadas separadamente e tratadas a princípio como um vinho individual. Num certo momento, esses vinhos são analisados individualmente e julgados para fazer parte do chamado “Grand Vin”, ou seja, o vinho principal do château. Esse trabalho é extremamente importante e requer uma sensibilidade, uma projeção futura, uma análise do potencial da safra em questão, e finalmente, muita experiência. Uma frase marcante do grande mentor do Château Margaux, Paul Pontallier, enólogo da casa desde 1983, diz o seguinte: “eu só fui entender de fato o que é um Château Margaux, depois de minha décima safra”. Isso mostra a complexidade e a responsabilidade de uma equipe nesta fase de elaboração. Muitas cubas serão rejeitadas para o vinho principal e só depois desta fase, é que se chegará ao blend final com as devidas proporções de cada tipo de uva. É por isso que pessoalmente de uma forma até maldosa, digo que os segundos vinhos de Bordeaux, mais especificamente do Médoc, são o refugo do vinho principal. Exceções como Les Forts de Latour ou Clos du Marquis, segundos vinhos do Château Latour e Château Léoville-Las-Cases, respectivamente, são raros exemplos de regularidade.

No raciocínio borgonhês, neste mesmo château, cada parcela ou mesmo, um pequeno grupo de parcelas, seria um vinho individual até o final do processo. Por exemplo, poderíamos ter dois ou três Cabernets individualizados com etiquetas próprias. Da mesma forma, para as parcelas de Merlot. No caso da Petit Verdot, apenas com duas parcelas, teríamos um vinho varietal, engarrafado individualmente. É interessante notar a importância que o homem tem nos aspectos de terroir, dependendo do raciocínio e filosofia adotados. Ocorre que no pensamento bordalês, o conjunto de parcelas harmonicamente agrupadas produz um vinho mais completo, mais amplo e mais complexo. Tudo é um questão de ponto de vista. É claro que neste pensamento há uma compensação muito maior quanto às irregularidades de cada safra , e os problemas específicos que cada cepa enfrenta em todo o ciclo anual.

Parcelas na Idade Média

Agora partindo para a Borgonha, Clos de Vougeot, propriedade de cinquenta hectares na Côte ded Nuits, é um exemplo bem razoável para uma comparação bordalesa em termos de área plantada, pois as propriedades neste pedaço de terra são de pouquíssimos hectares, muitas com menos de cinco hectares. Além disso, Clos de Vougeot é uma propriedade das mais antigas, de origem monástica. Só após a Revolução Francesa, deu-se toda sua fragmentação, conforme mapa abaixo. Voltando à Idade Média, os monges engarrafavam Clos de Vougeot como vinho único, mesclando com parcimônia todas as parcelas acima delimitadas. Como trata-se de uma colina, as parcelas mais acima no mapa são de maior altitude, que por sua vez, vai diminuindo até às parcelas mais ao sul do mapa. Com isso, em anos mais áridos e secos, as parcelas de menor altitude compensavam os efeitos do déficit hídrico das parcelas mais altas. Por outro lado, em anos mais chuvosos, com excesso de água no solo, a compensação era inversa. Sem dúvida, tratava-se de um pensamento bordalês onde o conjunto das parcelas originando um vinho único, mantinham uma boa regularidade. Provavelmente, o Clos de Vougeot 1845 servido no inesquecível filme Festa de Babette, tenha sido elaborado nos moldes bordaleses, pois o processo pós-revolução ainda estava engatinhando.

Divisão atual com inúmeros produtores

Já no esquema atual, conforme mapa acima, regularidade é o que efetivamente não há numa garrafa de Clos de Vougeot. Com mais de oitenta proprietários nestas terras muradas, a importância do produtor e a localização do vinhedo são pontos cruciais para o sucesso do vinho. Em linhas gerais, os produtores localizados no centro do terreno para cima, ou seja, em altitudes mais acentuadas, levam vantagem em termos de localização. Isso tem a ver com uma melhor insolação, melhor drenagem do terreno e uma composição de solos mais harmônica. Méo-Camuzet, Gros, Hudelot-Noëllat, são produtores confiáveis.

Enfim, aquela velha discussão, vinho varietal ou vinho de corte? micro-terroir como no modelo borgonhês, onde as peculiaridades e sutilezas são levadas a limites extremos, ou macro-terroir como no modelo bordalês, onde o conjunto de parcelas em prol de um único vinho gera resultados mais harmônicos e complexos? Sempre uma questão de ponto de vista!