Archive for Agosto, 2015

Bordeaux 1961: Vivace

25 de Agosto de 2015

Deixamos para o final algumas preciosidades sem entretanto, ofender as maravilhas dos artigos anteriores. É que este último grande 1961 motivou o tema da degustação. Trata-se do Château Latour à Pomerol, o único margem direita do painel. Tudo começou com um relato de Mr. Parker comparando este 61 com o mítico Cheval 47 e o colocando no topo da lista. Foi o suficiente para fazermos a prova. Aliás, em defesa de Robert Parker, um degustador polêmico e temido, devo dizer que ele é mestre em Bordeaux. As outras regiões eu não discuto, mas Bordeaux, este é o cara. Todos os vinhos degustados nesta série de artigos batem com seus comentários e notas.

Magnum nas mãos do mestre Beato

Vamos então à estrela da tarde. A cor escura impressiona pela intensidade e profundidade. Os aromas são avassaladores, passando por aquela fruta deliciosa e decadente dos grandes de Pomerol. Outros aromas de evolução como humus, sous-bois, alcaçuz, toques de menta, terrosos e finas especiarias inundaram as taças. Ótimo momento para ser provado. Em boca, é extremamente sedoso, generoso e com uma integração álcool/taninos que só essas raridades possuem. São taninos de cadeia longa, totalmente polimerizados e que se fundem ao álcool criando uma textura única. Grande persistência, final expansivo, reverberando todas essas sensações em golpes sincronizados. Uma maravilha!. Porém, tudo tem um senão. Eu não ia falar nada, tal a raridade do momento e o entusiasmo dos confrades, mas mestre Beato não perdoa, é implacável. O vinho tinha um leve bouchonné, mas muito tênue, a ponto de ser quase confundido com o sous-bois também presente, que trata-se de um aroma evoluído de decomposição de folhas úmidas. Conclusão, o vinho era tão maravilhoso e o bouchonné tão desprezível, que dane-se o bouchon! Nota cem com louvor!

Alguns mimos entremeando a degustação: costelinha e canjiquinha

A carne de porco como da costelinha acima vai muito bem com esses tintos evoluídos. Os taninos ficam na medida certa para a fibrosidade delicada da carne. Além disso, a acidez dos vinhos é suficiente para a gordura do prato, sem falar nos aromas tostados de forno que complementam bem os toques de evolução do vinho.

A foto abaixo trata-se de outra raridade, Porto Taylor´s Scion. A história deste vinho começa com uma família tradicional do Douro que entre algumas preciosidades de sua adega tinha duas pipas de vinho do Porto muito antigas. Tratava-se da colheita de 1855 com uvas pré-filoxera, permanecendo todo esse tempo em madeira, ou seja, uma Porto Colheita de excepcional estágio em pipas. Só para lembrar, esta categoria de Porto exige um mínimo de sete anos em madeira. Após muitas conversas, a família resolveu vender as pipas para a Casa Taylor´s. A ideia inicial e natural era das mesmas entrarem na composição dos lotes para elaboração do Porto 40 anos, máxima categoria para um Porto com declaração de idade. Contudo, decidiu-se por uma solução ousada e criativa. Lançar uma edição especialíssima engarrafando o vinho sem mistura em lindas garrafas de cristal (foto abaixo) com o nome Scion. O significado deste nome engloba tradição familiar e uvas pré-filoxera.

Porto Colheita com mais de 150 anos

A embalagem é condizente com o conteúdo

Agora falando do vinho, é uma peça de exceção. Cor maravilhosa, bem menos evoluída do que se espera par um Porto desta idade. Já é um sinal diferenciado. Os aromas são ao mesmo tempo intensos e delicados com aquela fruta em compota espetacular, frutas secas, toques balsâmicos, minerais, resinosos e de especiarias. Um equilíbrio notável entre álcool e acidez que só os raros e grandes Colheitas são capazes. Vale a pena informar alguns dados técnicos deste vinho: 189 gramas de açúcar residual por litro e 8,76 gramas de acidez tartárica. São valores superlativos e dificilmente alcançados, mesmo em vinhos especiais. Só para comparar, um Porto na categoria de 40 anos, que tem vinhos extremamente selecionados onde os valores acima ficam em 134 gramas de açúcar por litro e 5,2 gramas por litro de acidez tartárica, já são indicadores bem acima da média. O fato é que os Colheitas com longa permanência em pipas concentram mais açúcares por conta da evaporação relativa da água. Por isso, só os vinhos com alta acidez tartárica são capazes de restabelecer o equilíbrio necessário.

Sauternes em alto estilo

Encerrando a tarde, duas referências da botrytisação, da famosa apelação Sauternes. A safra 2001 é de alto nível, prometendo muito ao longo dos anos, mas de vez em quando, temos que cometer algum infanticídio. Começando pelo Suduiraut, é um dos melhores abaixo do mítico Yquem. Concentrado, potente, rico em aromas e de um equilíbrio notável. Tudo que se espera de um Sauternes de estirpe. Contudo, a comparação é cruel. O astro maior, o fabuloso Yquem, ainda mais numa grande safra, não tem como medir forças. A potência, a complexidade aromática, e o alto nível de botrytisação, convergem para uma elegância, equilíbrio e untuosidade ímpares. Este pode ser guardado para os futuros netos. É vinho para virar o século!

E assim foi-se mais um longo sacrifício. Entretanto, o que a gente não faz pelos amigos!. Resta-me agradecer a companhia de todos, os momentos mágicos vividos, e expectativa de novos encontros. Saúde a todos!

Bordeaux 1961: Adagio

21 de Agosto de 2015

Passado o primeiro ato, vamos rumo à apoteose com seis Bordeaux de tirar o fôlego. Na verdade cinco, pois havia um intruso no caminho. Contudo, suas credenciais permitiam tal ousadia. Trata-se do La Chapelle 1961, o Hermitage do século do produtor Paul Jaboulet. Esse não precisa ser convidado.

As duas joias de Saint-Julien

Pessoalmente, os châteaux acima representam o que há de melhor no nobre comuna de Saint-Julien. O primeiro, Léoville Las Cases, é vizinho de comuna do consagrado Latour em Pauillac, tendo muitas vezes esse estilo viril, clássico, e com um poder de longevidade imenso. Mas não se esqueçam, estamos na safra 1961 e suas armadilhas. E desta feita, o château errou a mão. Sua cor é escura, pouco evoluída para a idade, mas os aromas tem toques tostados e herbáceos que incomodam um pouco. Em boca, percebemos uma estrutura tânica de extração em demasia. Tem força, tem poder, mas quiseram fazer parece-lo o que efetivamente não é. Lógico que a comparação com os demais é cruel. Contudo, quem tem uma garrafa desta devidamente adegada, numa degustação solo pode ser fascinante. Agora quem ainda não comprou, compre uma de seu rival que comentaremos a seguir. Este é tiro certo!

Château Ducru-Beaucaillou 1961, que marravilha Claude! Esse é daqueles vinhos que sabe aliar potencia e elegância como poucos. Aromas multifacetados com frutas deliciosas, tostado fino, caixa de charuto, especiarias e uma madeira de cedro que é marca registrada deste Bordeaux. Encorpado na medida certa, muito equilibrado em seus componentes e uma persistência aromática notável que se esvai com muita classe, deixando saudades. Um grande cinquentão!

Bordeaux 61: Aqui está a perfeição

Os detalhes fazem a diferença. Porém, aqui, só no fotochart. Foi sem dúvida, a disputa mais acirrada, cabeça a cabeça. Lindos Bordeaux, maduros, suaves, profundos e inesquecíveis. Não há palavras para esses gigantes. Embora todos os aromas terciários clássicos desta comuna estejam presentes, tais como, trufas, toques terrosos, animais, ervas finas, entre outros, a fruta ainda está presente, o frescor é incrível e os taninos são verdadeiras rolimãs em boca. Mais uma vez pessoalmente, pendi para o Haut-Brion, mas o La Mission valorizou muito esta escolha. Isto é de fato o que se espera de um Bordeaux de longo envelhecimento. Bebe-los agora é a recompensa pela paciência e sabedoria. Nem é preciso dizer: os dois com 100 pontos absolutos de Robert Parker.

Bordeaux e Rhône em vinhos de legenda

Neste grand finale, não dá mais para pontuar. São vinhos fora da curva, incomparáveis. Começando pelo La Chapelle, também 1961. Já impressiona pela profunda cor escura, mostrando o poder de longevidade dos Hermitages. Os aromas que mesclam frutas escuras em geleia, especiarias, defumados, balsâmicos e algo de charcuterie (embutidos), estavam presentes. Em boca, potente, taninos em profusão e um equilíbrio dos grandes vinhos. Pessoalmente, apesar de grande, achei este exemplar um pouco cansado. De fato, o histórico destas garrafas é sempre um mistério que culmina no famoso ditado: “Em vinhos antigos, não existem grandes safras e sim, grandes garrafas”.

E finalmente chegamos ao monumental Chateau Latour 1961. Esse é aquele vinho que você prova e fica sem reação. Silêncio absoluto. É imponente, te cumprimenta à distância, exige um certo protocolo, mas é maravilhoso! Não sei ainda onde ele vai chegar, mas certamente o destino final é o paraíso. Que cor! que aromas maravilhosos do mais autêntico cassis, cedro, minerais como grafite, terroso, toques de cacau, chocolate escuro, e assim vai. A boca é como um bailarino segurando a moça com mão forte, mas transmitindo extrema delicadeza e elegância. E aí você degusta, ele passa, mas ele fica, fica, … Não entenderam? prove uma garrafa. Garanto que até 2040 a magia não acaba.

Um pouquinho de paciência, pois não terminou. Próximo artigo, o grande Latour à Pomerol, Scion e dois Sauternes daqueles. Não percam!

Bordeaux 1961: Allegro Moderato

18 de Agosto de 2015

Feitas as apresentações e o início do encontro com o espetacular Dom Pérignon P3 (Plenitude 3) 1973, vamos ao embate dois a dois dos grandes Bordeaux 1961, devidamente abertos e decantados. A ordem que se segue não foi exatamente esta, mas resolvi comentá-los de acordo com o nível de cada confronto num crescente cada vez mais dramático.

Margaux versus Graves

Dois grandes châteaux, representantes autênticos de suas respectivas comunas de margem esquerda. O primeiro, líder inconteste da comuna de Margaux que neste ano deixou a desejar. Por se tratar de um Premier Grand Cru Classé, algo desandou nesta safra. A elegância, a finesse, estavam presentes, mas faltava estrutura para vencer as décadas que se espera de um vinho deste naipe. Este exemplo se enquadra bem nas características da safra 61, ou seja, é preciso pesquisar chateau por chateau para não haver surpresas.

O segundo vinho, Chateau Pape Clement, da apelação Graves (é bom lembrar que a partir de 1987 os chateaux mais bem situados da região assumiram a apelação mais restritiva denominada Pessac-Léognan), foi marcado pela elegância e pelos toques de evolução, pontos em comum para a comparação neste primeiro confronto. Macio em boca, com os típicos aromas de trufas, cogumelos, mineral (terroso) e ervas finas. Bem acabado, equilibrado, muito prazeroso neste momento.

Saint-Juilen x Saint-Estèphe

Acompanhando o andamento Allegro Moderato, adentramos às comunas de Saint-Julien e Saint-Estèphe. Chateau Beychevelle trilhou o mesmo caminho do Margaux acima. Contudo, está mais condizente com sua história. É sempre um vinho que prima muito mais pela elegância do que pela potência e neste caso, cumpriu seu papel. Bem resolvido tanto em boca, como nos aromas de evolução. Final agradável, devendo ser consumido nesta fase. Não há porque esperar mais.

No segundo vinho damos um salto. Estamos diante de um grande Montrose. E este vinho não se curva ao longo do tempo. É viril, é marcante, é insolente. Estrutura tânica fantástica. Precisa ser decantado por pelo menos duas horas. Bom corpo, acidez marcante, aromas minerais, de ervas, especiarias, e um belo equilíbrio. Ainda tem caminho a percorrer. Só mesmo a safra de 1990 para poder supera-lo. O tempo dirá.

Os dois Moutons (pobre e rico)

Aqui começamos a entrar no tabernáculo dos grandes 61. Chateau Lynch-Bages à esquerda, maldosamente chamado de Mouton dos pobres, e o grande Mouton-Rothschild à direita. Ambos, refletindo a força e a nobreza da comuna de Pauillac. Lynch-Bages, cor densa, aromas profundos e de grande intensidade. Aqui o cassis permeia em notas minerais, empireumáticas (notadamente o café), resinosas e toques de couro. Encorpado, envolvente, taninos de rara textura com final de alta costura. Ainda tem muita conversa em adega.

Já o segundo vinho, Mouton-Rothschild, se não é perfeito, está muito próximo. Tem tudo que seu primo pobre tem, mas a vida é feita de detalhes. São esses detalhes que lhe dão as credenciais para um legitimo Premier Grand Cru Classé. Um tanino ainda mais polido, uma elegância difícil de mensurar e situar, entre outros mistérios. De todo modo, um embate de gigantes.

Um detalhe; neste época, Mouton-Rothschild ainda não era um Premier de direito, mas de fato. Essa honraria só seria concedida em 1973 pelo então presidente Valéry Giscard d´Estaing. As legendas do castelo mudaram, mas permanece sua personalidade e sua firme opinião: “Sou primeiro, já fui segundo, Mouton não muda”.

Timo: Textura delicada

Entre um gole e outro, ninguém é de ferro. Então, sempre aparecia um prato como da foto acima. Neste caso, um prato com Timo, pequena glândula localizada na cavidade torácica. Carne delicada, tanto no sabor, como na textura. Pedi vinhos de estirpe e de aromas elegantes. Perfeito para os vinhos aqui comentados. Evidentemente, Montrose e Mouton suplantaram um pouco a harmonização.

Agora os motores estão aquecidos. Que venha o próximo artigo!

Bordeaux 1961: Primeiros Movimentos

16 de Agosto de 2015

Em mais uma reunião de amigos, uma degustação histórica: Grandes Bordeaux da safra 1961. Os desavisados pensarão, cinquenta e quatro anos de vinhos em decadência. Ledo engano, muitos estão no seu apogeu com um longo platô de estabilização. O Château Latour 61 é um mito que está revelando seus segredos agora. Cem pontos consistente de Parker com previsão de chegar bem até 2040.

A safra 1961 foi o grande ano do pós-guerra, só sendo ombreada por outra não menos espetacular de 1982. Foi uma colheita muito pequena por conta de geadas, mas amadureceu com uma concentração e níveis de taninos impressionantes. As sub-regiões de maior destaque foram: Pauillac, Saint-Julien, Saint-Estèphe e Graves, todas de margem esquerda. Na margem direita, apesar de belos vinhos, não teve o mesmo esplendor que sua rival. Contudo, há exceções como alguns grandes de Pomerol: Petrus, Latour à Pomerol, Lafleur, Trotanoy, todos com cem pontos ou muito próximos.

O Podium da degustação: Latour à Pomerol em Magnum

Antes de chegarmos ao supra-sumo da foto acima, tivemos um longo caminho a percorrer. Como a tarde era de tintos, precisaríamos de um único branco para dar início aos trabalhos. E este branco teria que ser fora da curva. Afinal, só no podium acima temos 300 pontos de Robert Parker consistentes em várias provas documentadas. Para não errar, que tal um Magnum Dom Pérignon 1973 Plenitude três (P3)?. Com mais de trinta anos sur-lies (contato com as leveduras), esbanjou frescor, corpo, complexidade e um equilíbrio fantástico. Persistência notável com notas de mel, brioche, frutas secas e delicadas especiarias. Só para deixar claro mais uma vez, o contato prolongado com as leveduras confere uma proteção ao champagne muito mais estável do que as melhores adegas poderiam fornecer, ou seja, a evolução em contato com as leveduras vai proporcionar uma complexidade aromática ímpar que dificilmente seria alcançada com tempo similar em adega. Só que para esse contato prolongado atingir tal êxito, os vinhos-bases que compõem estas cuvées especiais precisam ser excepcionais.

Dom Pérignon P3: Dégorgement tardio

Momentos tensos na abertura das garrafas. Rolhas extremamente fragilizadas pela idade, embora todas de excelente procedência. Neste caso, o abridor de lâminas paralelas é obrigatório. Mesmo assim, nem tudo é perfeito, conforme foto abaixo. Felizmente, pedaços que se desprenderam das rolhas foram devidamente retirados sem macular os preciosos líquidos. Além disso, as decantações acusaram sensíveis depósitos nas garrafas. Enfim, valeu a tensão.

Muita paciência e sensibilidade a cada rolha

Latour à Pomerol: abertura da estrela da tarde

Olha a cor deste cinquentão

Coube a mim o prazer e a responsabilidade de abrir o Magnum Latour à Pomerol 1961 (um dos sonhos de Robert Parker). Devidamente decantado, numa sucessão de vários 61 de grande categoria. Na foto acima, cor profunda e o depósito separado no fundo da garrafa.

Uma parte da brincadeira

Antes de analisarmos vinho a vinho sempre apresentados e degustados dois a dois, vale a pena comentar a qualidade e ao mesmo tempo a inconstância desta safra para cada château. Como foi dito, os vinhos de margem esquerda levam vantagem de um modo geral, mas há disparidades mesmo entre grandes châteaux de uma mesma comuna, como veremos nos próximos artigos. Em linhas gerais, a safra de 1982 é mais regular e igualmente esplendorosa. Contudo, 1961 produziu alguns vinhos quase inimitáveis como o grande Latour, Petrus, Latour à Pomerol, Haut-Brion, La Mission Haut-Brion, entre outros. Portanto, a escolha do château é de fundamental importância nesta mítica safra de 1961.

Próximos artigos: embate de gigantes dois a dois.