Archive for Fevereiro, 2011

Brettanomyces: Aromas Polêmicos

28 de Fevereiro de 2011

Em post recente, mencionei o palavrão Brettanomyces. Para os mais íntimos, Brett. É uma levedura de baixa fermentação que pode modificar o padrão aromático dos vinhos afetados por sua presença, e até mesmo, destruí-los.

Esta levedura pode estar presente na cantina em tanques de fermentação, dutos de trasfegas, ou qualquer outro equipamento de manipulação de mostos e vinhos. As barricas também são outro foco importante, principalmente as novas, por serem ricas em celobiose, substância que alimenta esta levedura e a torna altamente reprodutiva.

Os vinhos tintos são os mais afetados, mas os brancos não ficam incólumes, principalmente se passarem por barricas. A infecção pode ser branda, originando o chamado “bom brett”. Contudo, o homem ainda não tem controle após a infecção instalada. Com isso, o brett pode dominar totalmente o vinho e então, destruí-lo.

Mas então, como esta levedura ataca o vinho e quais são suas possíveis consequências?

Beaucastel: o chamado bom Brett!

Após a fermentação do mosto, transformando açúcares em álcool e dando origem ao vinho, o Brett se instalado na cantina, começa agir sobre o mesmo. Baixa acidez no vinho, açúcares residuais, baixa sulfitação nas diversas fases de elaboração e pouca manipulação (ausência de filtração por exemplo), são fatores favoráveis ao ataque do Brett. Por isso, a elaboração de vinhos artesanais deve ser feita com cuidados de higiene redobrados, para evitar ao máximo o ataque indesajado do Brett.

As consequências do Brett depois de instalado no vinho são sobretudo olfativas. No aspecto visual, pode ocorrer uma certa turvação ou opacidade na cor, além de nítida evolução (perde os reflexos violáceos e muitas vezes adquire tons granada) para um vinho relativamente jovem.

Voltando ao aspecto olfativo, é como se o vinho adquirisse aromas terciários ou de evolução, sem a devida idade para tanto. No caso do bom Brett, são percebidos toques animais (estábulo), defumados, de especiarias e aromas medicinais. Apesar de alguns especialistas abominarem qualquer tipo de ataque do Brett, seu efeitos de maneira branda podem adicionar complexidade aos vinhos, fazendo até parte do terroir de grandes ícones, conforme foto acima do Château de Beaucastel, um dos mais célebres da apelação Châteauneuf-du-Pape (sul do Rhône). Importadora World Wine (www.worldwine.com.br).

O chamado “mau Brett” advém da total falta de controle do homem diante de seu ataque. Se o Brett desenvolver-se de forma descontrolada, destruindo os aromas primários e consequentemente seu lado frutado, o vinho adquire aromas sobretudo animais, muitas vezes nauseantes, o chamado pau de galinheiro (merde de poule para os franceses).

Já que não se tem controle, o melhor é evitá-lo através de bons procedimentos de higiene, sulfitação adequada e rigoroso controle das barricas, especialmente as novas.

Depois de instalado, para remover o Brett, precisamos praticamente destruir o vinho através de filtrações e esterilizações severas. Se forem as barricas, elas devem ser chamuscadas (ação de fogo), comprometendo seu correto grau de tostadura. Praticamente, a barrica fica destruída ou fortemente comprometida.

Exemplo clássico da África do Sul

O rótulo acima é um bom exemplo do Novo Mundo, elaborado pela vinícola Neil Ellis. Este Syrah tem muito admiradores, mostrando-se elegante e até com um estilo lembrando o Velho Mundo. Era importado pela Expand.

Vinhos: Critérios de Pontuação

24 de Fevereiro de 2011

Robert Parker, o crítico mais temido em Bordeaux, foi o pioneiro em dar números aos vinhos, sacramentando a escala de 50 a 100 pontos. Portanto, a nota máxima seria o vinho perfeito. Parker pode ser discutível em vários aspectos mas Bordeaux, ele conhece como ninguém. Já provou praticamente todas as safras do século passado dos principais châteaux da região. Portanto, é bastante rigoroso com os Crus Classés, pois sabe exatamente aonde um grande bordeaux pode chegar.  Normalmente, suas notas podem ser aumentada em dois ou três pontos por degustadores amadores.

Sabemos que um vinho não se resume a números. Entretanto, não podemos viver de filosofia e subjetivismos. As pessoas gostam de opiniões mais palpáveis. O que muita gente não entende, são os critérios para pontuar vinhos. É muito comum, amadores que pela primeira vez, preenchem uma ficha de degustação, darem notas extremamente baixas para os vinhos degustados. Realmente, os adjetivos descritos nas fichas confundem os degustadores menos experimentados.

Outra noção pouco compreendida pelas pessoas é a progressão não inteiramente linear das notas, ou seja, até uma certa pontuação, temos um acréscimo de nota razoavelmente linear. Contudo, para notas mais altas, esta progressão passa a ser exponencial. Resumindo, um vinho de 100 pontos é qualitativamente muito melhor (muito mais que o dobro) do que um vinho de 50 pontos. Realmente, a diferença é abissal.

Ficha de Degustação: existem inúmeros tipos

Examinando a ficha acima, percebemos que os aspectos visuais, olfativos e gustativos, numericamente, vão aumentando de importância. É bom ressaltarmos o aspecto olfativo na degustação pois implicitamente, ele está inerente ao aspecto gustativo por via retronasal. Passemos então, a esclarecer as principais faixas de pontuação na análise dos vinhos:

  • 50 a 59 pontos

        Com o conhecimento técnico-científico da atualidade, é inaceitável vinhos dentro desta pontuação. São vinhos grosseiros, desprezíveis, que não merecem ser provados.

  • 60 a 69 pontos

São vinhos abaixo da média, notadamente desequilibrados. Percebe-se a falta de cuidado na elaboração dos mesmos, com objetivos puramente comerciais.

  • 70 a 79 pontos

Ainda estamos numa faixa muito pouco atraente. Consumidores deste tipo de vinho não estão preocupados com qualidade e provavelmente visam única e exclusivamente o preço, que nem sempre é atraente. São vinhos sem caráter e extremamente instáveis.

  • 80 a 89 pontos

Aqui já entramos numa faixa bem mais agradável, com preços muitas vezes interessantes. São vinhos de boa qualidade, honestos, demonstrando algumas vezes, identidade própria, e não tão comerciais. É bem verdade, que muitos vinhos caros enquadram-se nesta faixa de notas relativamente linear. Portanto, dois ou três pontos de diferença, pode ter justificativa no preço.

  • 90 a 95 pontos

Esta faixa são para poucos. Aqui é possível constatar a presença de um terroir diferenciado. Vinhos mais complexos e de personalidade, às vezes difíceis de serem avaliados. Há também o outro lado da moeda, na força do marketing de alguns vinhos que tentam mostrar o que não são. Muito cuidade nesta faixa!

  • 96 a 100 pontos

Aqui entramos no terreno das obras de arte. Portanto, o preço é altamente discutível. Claramente, estamos falando de terroirs diferenciados e na sua grande maioria, com grande potencial de guarda. A pontuação é bastante pessoal e cada ponto está em escala exponencial. A perfeição está muito próxima. O exemplo abaixo mostra um bordeaux perfeito com nota 100 de Parker, consistentemente degustado. Segundo Parker, é um vinho para chegar com fôlego a seu centenário, ou seja, 2082. Realmente, é beber de joelhos!

Mouton 82: Potência e Elegância em alto nível

Degustação às cegas: Existem Experts?

21 de Fevereiro de 2011

Degustar às cegas é sempre um ato de humildade, principalmente quando temos um intruso na degustação, chamado Chateau Reignac. Um Bordeaux Supérieur que não se intimidou com mitos como Petrus, Margaux, Lafite, Cheval Blanc, entre outros, conforme vídeo surpreendente abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=ptXx_1lPwG8

A degustação realizada em Paris por François Mauss, reuniu um grupo altamente qualificado de degustadores, entre os quais, Olivier Poussier (melhor sommelier do mundo em 2000) e Michel Bettane (crítico de vinhos reputado na França). Aliás a cena com Bettane, mostra bem sua “humildade”, quando argumenta que o Petrus tomado com Christian Moueix (proprietário do château) é perfeito. Nós pobres mortais, temos que pagar mil e quinhentos euros na França para tomar algo suspeito.

Outra cena que confirma a impressão digital de um Haut-Brion mesmo às cegas, é quando Olivier percebe os aromas de trufa e defumado num vinho ainda relativamente novo (todos os vinhos são da safra de 2001), mostrando o toque de Brettanomyces já classicamente incorporado neste grande terroir.

O intruso foi da safra de 2001

Mais uma comprovação que desmistifica os chamados “experts”, onde supostamente podem adivinhar qualquer tipo de vinho, são os concursos mundiais de sommelier. Profissionais extremamente preparados para este tipo de prova, demonstram na prática o baixo índice de acerto sobre os vinhos provados às cegas. No último concurso realizado no Chile em 2010, apenas Gerard Basset foi capaz de apontar com precisão um dos vinhos na prova final. É bem verdade que, quanto maior o conhecimento, maiores as possibilidades em confundir os inúmeros tipos e estilos de vinhos.

Chateau Reignac***

Segundo vinho de Reignac

 Para aqueles que querem conhecer maiores detalhes do Chateau Reignac, localizado na porção norte de Entre-Deux-Mers, comuna de Saint-Loubès, próxima à margem esquerda do rio Dordogne,  acessar site: www.reignac.com. A comercialização no Brasil fica por conta de Castel Studio no site www.castelstudio.com.

Harmonização: Vieiras

17 de Fevereiro de 2011

Elas não estão tão presentes nas mesas como deveriam, mas as vieiras nos reservam surpresas em termos de delicadeza e sofisticação. Este molusco faz parte na famosa concha da Shell, que às vezes participa da apresentação do prato. Seu sabor muito particular tem um toque de doçura como todos os frutos do mar. Sua textura é extremamente delicada e é o ponto nevrálgico de sua preparação, conforme o prato abaixo. Vieiras divinamente chapeadas sobre molho com base de espinafre.

Um dos segredos das Vieiras: ponto preciso na preparação

A harmonização deve ser balizada pela delicadeza. Portanto, nada de vinhos rústicos, do dia a dia, e sem maiores predicados. Um Chenin Blanc da apelação Vouvray é um clássico parceiro. Ele tem a sutil doçura, delicadeza e mineralidade que as vieiras exigem. Mesmo a versão Sec não é tão seca. Melhor ainda o chamado Sec Tendre (um leve off-dry), que terá poucos rivais em termos de calibragem. Os espumantes da região (fines bulles) são ótimas opções também.

Uma segunda opção imediata são os delicados alemães. Em sintonia, costumo dizer que os Vouvrays são os vinhos franceses mais próximos do estilo alemão tradicional. Dependendo da percepção de doçura, um riesling Kabinett ou Spätlese estará muito próximo do ideal.

Conforme a receita e sofisticação, os borgonhas brancos podem ser belas escolhas. Um Meursault pode passar do ponto em termos de textura e riqueza aromática. Já um Chablis, pode ser muito seco. Melhor um Corton-Charlemagne, ele tem a textura adequada, sem ser muito austero.

No mundo dos champagnes, um estilo elegante, não muito seco e de corpo médio, parece ser o ideal. Pol Roger, Taittinger ou Louis Roederer são belos exemplos deste estilo. Um champagne sec pode ser outra ótima opção, da própria maison Roederer.

Pol Roger é da importadora Mistral (www.mistral.com.br)

Taittinger ainda é da Expand (www.expand.com.br)

Louis Roederer pode ser encontrada em empórios finos como Santa Luzia e também na importadora  Franco Suissa (www.francosuissa.com.br)