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François Bertheau: On y va

11 de Novembro de 2023

Uma das menores cidades da Bourgogne, com pouco mais de 300 habitantes, Chambolle-Musigny produz os mais delicados, finos e femininos vinhos da região. Por entre as ruas, deparam-se com sobrenomes famosos: Mugnier, Roumier, Barthod, Amiot-Servelle, Vogüé, cada um com seu estilo e seus vinhedos. Atrás do restaurante Chambolle, cuja carta de vinhos tem uma das mais completas seleções de rótulos dessa cidadela, fica o Domaine François Bertheau, que só produz Chambolles, com exceção da vinificação de uma pequena parcela de Aligoté, mas esse para consumo próprio.

Ao contrário de seus pares midiáticos, Bertheau, cujos vinhos não são vendidos no Brasil, está fora do radar das principais publicações e evita participar das degustações promovidas pelos guias franceses. Grande parte da produção é exportada para os Estados Unidos, Japão e Europa. Aqui são produzidos um Chambolle-Musigny, um Chambolle Premier Cru (assemblage de Groseilles, Baudes, Noirots and Gruenchers), o Chambolle Musigny Les Charmes, o Les Amoureuses e o Bonnes Mares, mescla entre a terra branca e a vermelha desse grand cru. A vinificação é quase igual para todos, com uso mínimo de madeira, de até 10% a 15%, para que a delicadeza e a sutileza possam transparecer na taça.

François, que assumiu o Domaine em 2003 do seu pai Pierre, faz Chambolles delicados e sutis, com preços que podem ser considerados uma barganha se comparados aos de Mugnier e Roumier, apesar de o primeiro ser líder inconteste nos quesitos: emoção, sutileza, coração e mente.  Há uma particularidade: não há marcação nos barris, Bertheau sabe de cor onde cada vinho repousa, um segredo de um meticuloso e perfeccionista viticultor que gosta de ter controle de cada etapa.

O sucesso das últimas safras fez com que ele não venda mais seus vinhos no Domaine, cujas últimas safras tiveram perdas por causa das condições climáticas, principalmente em 2016, quando os rendimentos foram até 50% menores. A safra 2016 é considerada clássica. O Chambolle-Musigny é vinho delicado e sutil. O Chambolle-Musigny Premier Cru é um degrau acima, um vinho que conjuga fruta, mineralidade e aromas florais, uma aposta certeira para se comprar de caixa. O Les Charmes é um vinho abordável, refinado.

Um dos mais reputados crus da Bourgogne, Les Amoureuses é um terroir mítico. Quatro produtores têm boa parte de seus vinhedos na parcela mais próxima de Musigny, a melhor. Um deles é Bertheau, os outros três são Mugnier, Roumier e Vogüé. Cada um extrai um vinho diferente. Mugnier caminha na linha tênue que separa o encantamento da mediocridade, com um vinho absolutamente espetacular, a essência de um Bourgogne grandioso. Bertheau faz um meio caminho entre a delicadeza de Mugnier e as mãos de Christophe Roumier.

O Bonnes Mares é um vinho colhido em vinhedos de Morey Saint Denis e Chambolle-Musigny, com terras marrons e brancas, um vinho mais possante, rústico em comparação aos outros dois, mas muito bom. A degustação chega ao fim, mas antes de despedir peço um pequeno favor: uma taça a mais de Amoureuses. A vida fica muito mais fácil assim.

Latour-Giraud: Meursaults fora do radar

9 de Novembro de 2023

(Originalmente publicado em pisandoemuvas.com)

Há produtores que estão fora do radar das principais publicações, não fazem barulho como outros vizinhos, nem têm suas alocações vendidas meses antes de os vinhos chegarem às prateleiras. Quando aparecem notas a seu respeito, ganham curtos parágrafos, mesmo que elogiosos. Esse é o caso do Domaine Latour-Giraud, com mais de três séculos de história e com a maior área de produção de Genevrières, prestigiado premier cru de Meursault, hoje uma das cidades mais disputadas pelos enófilos por causa dos vinhos cada vez mais estrelados de Jean Marc Roulot, Arnaud Ente, Coche Dury.

Pierre Latour comanda o Domaine Latour-Giraud, que fica na antiga rua que abrigava um leprosário em Meursault. Hoje a rue de l´hopital não existe mais, tendo sido substituída por uma vicinal que corta a cidade e a interliga às cidades de Volnay e Puligny-Montrachet. Nem o GPS tem o Domaine no seu radar. Sorte que o senhor parado por nós sabia como se chegar lá.

Pierre Latour é um homem de cerca de 60 anos, educado e curioso. Nunca tinha recebido brasileiros e queria saber o que nos tinha levado lá. Com cerca de 85% da produção voltada para brancos e 15% para tintos, o Domaine faz Meursaults em um estilo diferente dos feitos por Roulot. Talvez um estilo entre Roulot e Lafon. São vinhos brancos feitos para a guarda, com fruta e um estilo menos mineral, muito gastronômicos. A safra 2014 é considerada por ele uma das melhores dos últimos anos. Em 2015, são vinhos mais acessíveis na juventude, talvez semelhantes aos 2009, sem grande capacidade de envelhecimento.

O Meursault Cuvée Charles Maxime é daqueles vinhos que os críticos pontuam com 89 a 90 pontos, mas que são a mostra de que pontos funcionam no basquete, não nas taças. Um chardonnay gastronômico, opulento, refinado e mineral, de comprar de caixa. O Les Narvaux é mais mineral, outro também para se comprar de caixa. No terreno dos premiers crus, o primeiro a desfilar é o raro Bouchères, com um toque mais acentuado de frutas secas; o próximo é o Poruzots, mais gordo; depois chega o suculento e profundo Charmes.

Pierre Latour comenta que o preço da terra na Bourgogne está cada vez mais alto. Um hectare de premier cru Charmes, em Meursault, pode custar um milhão de euros, o que cria um grande problema para os domaines familiares. A lei de transmissão na França recolhe 30% dos bens a serem herdados para seus cofres e põe pressão sobre o futuro em uma atividade de capital intensivo e sujeita às intempéries da natureza. Pressão ainda maior desde o início da década, quando as safras foram menores do que a média.

O preço alto do terroir faz com que a geração que assume um Domaine tenha de desenhar estratégias para se manter no comando: pode-se vender parte do estoque nas caves, pode-se vender 20% a 30% do domaine para outros viticultores, pode-se chegar até a vender o Domaine todo, tentação para pessoas que nunca viram um cheque tão alto. “Isso preocupa muito e isso traz grandes problemas para a Bourgogne, que é artesanal”, diz Pierre, pai de duas meninas. Ele quer manter a tradição familiar.

Antes de chegar ao Meursault Genevrières, a razão de nossa visita ao Domaine, Pierre Latour abre um Puligny Champs Canet, um dos mais refinados Pulignys, com um toque floral delicado. “É bom ter a oportunidade de fazer um vinho fora de Meursault”, afirma. Com dois hectares e meio de Genevrières, ele resolveu vinificar duas parcelas desse terroir: a normal e a chamada Cuvée des Pierres, geralmente quatro barris de vinho, com as uvas com mais de 50 anos. São dois vinhos distintos, ambos refinados, elétricos, com acidez que mostra um potencial de envelhecimento superior a uma década. Muito interessante seria colocá-lo às cegas em uma degustação com o Perriéres de Jean Marc Roulot.


Os vinhos não vêm para o Brasil, mas são facilmente encontrados nos Estados Unidos e se configuram em barganhas em relação aos preços que Roulot e companhia estão cotados hoje. Pierre Latour não está no radar de muitos, mas definitivamente entrou no meu.

O outro lado da RN 74

2 de Fevereiro de 2021

A Route Nationale 74, ou a D974, interliga alguns dos vinhedos mais míticos de pinot noir e chardonnay do planeta. O dólar alto e a disparada de preço na Bourgogne (um Bourgogne blanc sai da adega de Coche Dury por 40 euros e é vendido em NY por mais de US$ 200) têm deixado Chambolles, Vosnes, Volnays, Chassagnes e Pulignys cada vez mais caros no Brasil. Selecionar rótulos e produtores de regiões menos badaladas se tornou essencial para continuar a beber bem.

Maranges

Maranges fica ao sul de Beaune. Seus tintos são muito mais reputados que os brancos. Nas palavras de Clive Coates, produzem-se ali vinhos “honestos, robustos e rústicos, no melhor sentido”. Pablo e Vincent Chevrot são o principal nome desse terroir. Sur le Chêne é um dos vinhedos que têm ganho atenção da crítica francesa e inglesa. Por cerca de R$ 350 na Anima Vinum, esse é bom borgonha, com um toque animal, fruta bem moldada. Se os Chevrots seguirem nesse caminho, o primeiro pelotão da Bourgogne está logo ali. Quem disse não fui eu, mas William Kelley. Assino embaixo.

Auxey-Duresses

Auxey Duresses é mais conhecido por ter resultados estelares nas mãos de madame Lalou Bize Leroy. Há vida, muita aliás, fora de Auvenay. Esse rótulo branco é uma prova. Les Crais é um bom custo benefício de vinho branco da Bourgogne. Feito pelo Prunier-Bonheur, na @claretsbrasil, por cerca de R$ 350. Muita energia nesse 2017, ganhou muito depois de aberto. Boa opção para 2021. Não foi mal com a salada de salmão defumado.

Cote de Nuits-Villages

Côte_de_Nuits-Villages-Les_Chaillots

Os vinhos de Gachot Monot têm um avalista de peso: m. Aubert de Vilaine, que gerencia o Domaine Romanée Conti e é proprietário de ótimo domaine que produz excelentes vinhos na Côte Chalonaise. Foi Aubert quem chamou a atenção da importadora americana Kermit Lynch sobre Damien Gachot, que tem 12 hectares em Corgoloin, entre Nuits Saint Georges e Beaune. Esse Côte de Nuits ‘Les Chaillots’, que estava em promoção a R$ 315 na Govin, reforça a tese de que o estudo dos vinhos desse domaine deve ser aprofundado.

Bourgogne blanc 2015 Berlancourt

Se um dia visitar esse pequeno domaine em Meursault, que também hospeda, não se assuste se encontrar Jean Francois Coche degustando ali. O dono de um dos domaines míticos da Cote d’Or gosta bastante dos vinhos de Pierre e Adrien Berlancourt. Veio no fim do ano passado numa pequena quantidade pela @uvavinhos. Uma nova remessa deverá chegar em breve. Frutas brancas em profusão, leve toque de fruta seca, um vinho que tem tudo de Meursault e com um pouco mais de persistência e complexidade passaria por um bom premier cru da village.

Bourgogne Côte d´Or Cuvée Gravel 2018 – Claude et Catherine Maréchal

Ótima porta de entrada do domaine Catherine e Claude Marechal, criado em 1981 e cujo mentor foi a lenda Henri Jayer. Produz em 12 hectares.A cuvée Gravel é situada em Pommard et Bligny-les-Beaune. Por R$ 280 na Delacroix, um dos melhores bourgognes disponíveis no mercado brasileiro. Na Delacroix.

Bourgogne Roncevie

Quando se visita o domaine Arlaud (texto da visita no site pisandoemuvas.com) uma das primeiras histórias escutadas é a excelência desse terroir. Roncevie está Gevrey-Chambertin, mas do lado errado da RN 74, ou seja, distante dos grands crus. Até 1964 era considerado “Villages”, mas na disputa política ficou com parcelas fora da classificação. Pére Arlaud não se fez de rogado. Comprou bourgogne sabendo que tinha um Gevrey disfarçado. O domaine tem excelentes vinhos, a única pena é o preço, que tem subido muito nos últimos dois anos. Vêm pela Cellar. Por R$ 375.

Maceração Pré Fermentativa

3 de Abril de 2020

Não confundir com Maceração Carbônica, muito utilizada no processo de fermentação do Beaujolais com a uva Gamay, processo diferente que utiliza também o gás carbônico em forma gasosa.

maceração carbonica

maceração carbônica: escalonada

À medida em que a saturação da cuba vai se enchendo de CO2, a fermentação intracelular começa a acontecer na parte superior da cuba, extraindo aromas frutados, cor e poucos taninos. No interior da cuba, vai havendo um processo de transição até chegar à fermentação alcoólica propriamente dita. A maceração carbônica é um processo curto de poucos dias, onde os beaujolais mais simples são submetidos. A abertura total ou parcial da cuba é importante no processo. Os grandes beaujolais (crus) têm grande fermentação relativamente à pouca maceração.

Maceração Pré Fermentativa a Frio para vinhos tintos

Na Borgonha com a uva Pinot Noir, Henri Jayer foi um dos precursores do processo, submetendo suas uvas a baixas temperaturas, extraindo cor, aromas e poucos taninos. Lentamente, a subida de temperatura é gradual, aproveitando de maneira prolongada e suave todo o processo fermentativo, onde os taninos estão mais presentes, mas sempre somente das cascas (totalmente éraflage, desengaçar as uvas).

maceração a frio controlada

Tem que haver um equilíbrio no tempo pré-fermentativo

A maceração a frio controlada por alguns dias pode equilibrar amargor, persistência, cor, aromas e tipicidade, taninos moderados, para um bom processo fermentativo.

Maceração Pré Fermentativa a frio (MPF)

A utilização deste processo admite CO2 no estado sólido (gelo seco). O ponto de fusão deste CO2 é de menos 57° C, muito negativa. Para o gelo seco ou neve carbônica podemos chegar a temperatura a menos 80° C. Neste processo não estado liquido, temos a sublimação que é a passagem do estado sólido diretamente para o estado gasoso. É por isso que nos refrigerantes e bebidas espumantes, não há diluição do gás no liquido. A proporção recomenda é de 200 gramas de gelo seco para cada hectolitro na cuba, ou seja, de 12 a 13 kg de gelo seco (glace carbonique) numa cuba de 300 hectolitros. Isso é suficiente para baixar a temperatura acima de 5° C por cerca de dez dias.

glace carbonique tintos

gelo seco nas uvas antes da fermentação

gaz carbonique sublimation

os estados da matéria

No caso da água propriamente dita, ela passa facilmente pelos três estados citados acima, sólido (gelo), liquido (como a conhecemos) e em forma de valor (quando aquecemos). Já no CO2 é diferente, seu estado liquido é muito instável e só acontece sob determinadas condições de temperatura e pressão. Portanto, é muito mais fácil passar pela sublimação, ou seja, direto do estado sólido (gelo seco) para o gasoso (neve carbônica).

gaz carbonique ponto critico

fases instáveis da matéria

Nos pontos triplos e críticos, podemos ter o estado liquido momentâneo, onde os três estados da matéria coexistem, mas as condições de pressão e temperatura são muito especificas e instáveis. É por isso que na gastronomia molecular vemos certas “mágicas” que nos impressionam nos pratos e alimentos. Shows também pirotécnicos em eventos são muito comum nesta especialidade.

Brettanomyces

É importante uma certa sulfitação para proteger o mosto do Brettanomyces, levedura de baixa fermentação. Esses mostos são muito ricos em fruta, ésteres, e baixo níveis de polifenóis extraídos. Portanto, o SO2 é um importante bactericida no combate ao Brettanomyces.

Conclusões finais

Para os vinhos tintos da Bourgonge, o ganho de maceração a frio é significativo em termos de aromas e substâncias corantes, desde que não seja muito prolongada. Neste caso, usou-se neve carbônica na razão de 100 g por quilo de uva, a uma temperatura média de 8° C a 10° C por cinco dias.