Archive for Julho, 2014

Degustações às Cegas: Surpresas e Certezas

31 de Julho de 2014

A famosa frase “Degustar às cegas é um ato de humildade” é sempre recorrente e verdadeira. Num painel de dezenove amostras, participei como jurado entre espumantes, brancos, um rosé e vários tintos. Não havia nenhuma referência de uvas, regiões ou estilos. Os vinhos eram bem variados sem qualquer relação de parâmetros entre os mesmos. Enfim, a tarefa resumia-se em julgar tecnicamente o vinho em si, envolvendo uma pequena dose de gosto pessoal.

Neste painel, tínhamos seis brasileiros, cinco portugueses, dois espanhóis, um argentino e cinco chilenos. Nenhum dos vinhos fazia parte de vinhos especiais, ícones, exceto alguns dos nacionais. Dos cinco chilenos, quatro são bons vinhos e um decepcionante. O único argentino saiu-se razoavelmente bem. Dos cinco portugueses, dois brancos não foram bem. Em compensação, os três tintos são bons sendo um deles, o melhor do painel. Dos dois espanhóis, o único rosé estava abaixo da média e o tinto teve bom desempenho.

Deixei os seis brasileiros por último, por serem consistentes no sentido negativo. Os dois tintos são ruins, sem nenhum atrativo. Desagradáveis de serem bebidos. Dos três espumantes, um é ruim, um rosé abaixo da expectativa pela importância do produtor, e um razoavelmente bem elaborado pelo método tradicional. O melhor dentre os nacionais, é um Chardonnay de Pinto Bandeira. Equilibrado, destacando-se pelo frescor.

Espumante sempre consistente da Serra Gaúcha

Dos vinhos ruins, além dos brasileiros acima citados, tivemos um branco português e um tinto chileno relativamente barato, de marca bastante conhecida. Do exposto acima, ratifico minha convicção. Faço questão de reiterar que trata-se de uma opinião absolutamente pessoal. O Brasil não é efetivamente celeiro de bons vinhos. Apesar de dimensões continentais, estamos praticamente fora dos paralelos ideais. O clima é muito mais propício ao cultivo do café (um dos melhores do mundo) e cana de açúcar (matéria-prima de nossa autêntica cachaça), só para citar dois exemplos. Além disso, a despeito de nossa competência enológica e tecnologia moderna, o ponto crucial de nossa viticultura é ainda trabalhar com rendimentos no vinhedo muito acima dos números pelo menos razoáveis para uma boa concentração de sabor e aroma nas uvas. E como se diz: o bom vinho começa na parreira.

Ficha Técnica

Colheita: As uvas foram colhidas manualmente em caixas de 20 quilos. A colheita do Merlot ocorreu na última semana de fevereiro e a do Cabernet Sauvignon, na segunda semana de março. A produção destes vinhedos foi em média 10.000 kg/ha, sendo 100% cultivados em sistema de espaldeira simples.

A ficha técnica acima é de um grande ícone nacional comercializado em mais de cem reais a garrafa. Trata-se de um bom vinho, bem consistente safra a safra. Reparem que o rendimento mencionado em torno de dez toneladas por hectare reflete bem o problema exposto acima. É muito difícil na serra gaúcha convencer agricultores em trocar quantidade por qualidade. Contudo, é um trabalho árduo e de paciência que deve ser continuado com muita perseverança.

Merlot: Destaques entre os tintos

A cepa acima parece ser a mais indicada para tintos da Serra Gaúcha. Uva de maturação precoce, costuma se dar bem em solos mais argilosos e portanto, mais úmidos. Além disso, o clima cada vez mais seco nos últimos anos na região, contribui para o bom amadurecimento de uvas tintas de uma maneira geral. Inclusive, tenho notado em vários exemplares de espumantes nacionais carência de um certo frescor que outrora foi mais evidente.

Para fechar a equação, os preços de vinhos nacionais são desanimadores. Um bom vinho nacional é muito difícil ser comprado por menos de cinquenta reais. A oferta de nossos vizinhos do Mercosul, Argentina e Chile, colocam em nosso mercado inúmeras alternativas com preços equivalentes. Contudo, não sou contra ao vinho nacional. Devemos ter representatividade no cenário mundial, melhorando cada vez mais nossas deficiências em todos os sentidos, mas sem ufanismos. Podemos elaborar um bom vinho. Afinal, com todos os avanços da ciência, metodologia e tecnologia, praticamente é obrigação os principais países do mundo elaborarem produtos pelo menos decentes. Precisamos ter humildade mais uma vez e reconhecer que obras de arte nesta nobre bebida ainda é tarefa dos tradicionais países vinhateiros europeus. Quem sabe, teremos vez na próxima era geológica!

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OIV: Últimas Tendências em 2014

28 de Julho de 2014

Os últimos números da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) foram mostrados na conferência da entidade em Paris no mês de maio de 2014. Evidentemente, não são ainda números definitivos, mas muito próximos da realidade. A produção mundial de vinhos que vem caindo ao longo do tempo nos tradicionais países europeus não é novidade para ninguém. Entretanto, a Espanha (tradicionalmente como terceiro produtor mundial) surpreende com sua crescente produção, ocupando pela primeira vez a segunda posição num empate técnico com a Itália (44,7 milhões de hectolitros anuais contra 44,9 milhões da Itália).

Quanto ao consumo mundial, cinquenta por cento dele está concentrado em cinco países: 12% França, 12% Estados Unidos, 9% Itália, 9% Alemanha e 7% China. As tendências de queda ficam por conta de Espanha e Itália, enquanto as maiores altas estão concentradas em China e Austrália.

O comércio mundial de vinhos soma cifras de mais de 25 bilhões de euros e volume de quase 10 bilhões de litros de vinho. Esses números são divididos em espumantes, demais vinhos em garrafa, e em embalagens superiores a dois litros, conforme quadro abaixo:

OIV comercio 2014Espumantes: valor agregado alto

Nas exportações, o trio de ferro (França, Itália e Espanha) lidera o ranking como sempre. Austrália e Chile puxam a fila com uma briga ferrenha nos últimos anos. Estados Unidos e Alemanha, além de serem grandes importadores de vinho, disputam palmo a palmo a quinta e sexta posições na tabela.

Quanto às importações, treze países somam mais de 75% do total importado em valores e volumes. Tradicionalmente, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha estão na ponta. Em seguida, Canadá, China e Japão formam mais um trio de respeito, conforme quadro abaixo:

OIV importação 2014

Rússia em grande ascensão

Os maiores grupos importadores continuam sendo europeus com mais de cinquenta por cento dos valores globais. Em seguida, vêm os grupos americanos, seguidos de perto pelos asiáticos, perfazendo um total de quase quarenta por cento. América do Sul, Oceania e África, completam o quadro com participações bem modestas.

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Borgonha: Terroir, tipicidade e dúvidas

24 de Julho de 2014

O intrincado mosaico borgonhês deixa qualquer aficionado pelos seus vinhos de cabelos em pé. Por mais estudos, teorias, e uma certa racionalidade em entender seus vinhos, a Borgonha desafia enófilos, enólogos, críticos e apaixonados pela região, caindo por terra todas suas convicções. E este é certamente, um dos motivos, talvez o principal, pela fascinação e admiração por este desafio quase intransponível. Foi o que aconteceu numa degustação às cegas proposta pelo amigo Roberto Rockmann, viciado e alucinado por estes tintos sutis e misteriosos.

Na mesa com as letras A, B e C, três tintos da Côte de Nuits de comunas diferentes. Chambolle-Musigny, Vougeot e Nuits Saint-Georges, interpretadas por produtores de respeito, tentando passar a tipicidade de seus vinhos. A safra 2007 foi comum a todos. Safra sabidamente de característica precoce, acessível em tenra idade, e já com seus sete anos podendo proporcionar alguns aromas de evolução. Todos também estão na categoria Premier Cru, bastante restrita em termos de produção e que é capaz de expressar com clareza a respectiva tipicidade de sua comuna.

Feita essas considerações e apresentações, vamos aos detalhes de cada um dos vinhos abaixo:

chambolle-musigny

O fator humano pesou neste rótulo

Na minha modesta opinião sobre a comuna de Chambolle-Musigny, a primeira sensação esperada nestes vinhos é a elegância, a delicadeza, a sutileza. Infelizmente, o produtor abusou da madeira neste exemplar. Erro crucial para ofuscar os predicados descritos acima. Mesmo assim, um bom vinho, mas nunca um verdadeiro Chambolle-Musigny.

Vougeot premier cru

Elegância: marca inconteste da Borgonha

Pouca gente sabe que existem outros vinhos nesta comuna, além do emblemático Clos de Vougeot, o maior Grand Cru da Borgonha com cerca de cinquenta hectares de vinhas distribuídas dentre inúmeros produtores. O rótulo acima, um belo Premier Cru “Les Cras”, numa localização pouco privilegiada na colina, demonstrou finesse, própria de sua comuna e sua nobre vizinhança. É bem verdade, que sua persistência aromática não é tão expansiva, mas o competente produtor Bertrand Ambroise soube extrair com astúcia a essência de seu terroir.

les saint georgesFaltou elegância neste rótulo

Este produtor, Thibault Liger-Belair, reverenciado pelos melhores críticos da região, inclusive o papa Clive Coates, acabou me decepcionando, sobretudo no quesito elegância. E não há contradição nesta afirmação. Explico melhor, nesta região de Nuits-Saint-Georges, os vinhos costumam ser mais rústicos, evidentemente dentro de uma sintonia fina com o que há de melhor na sagrada sub-região de Côte de Nuits. Entretanto, neste Premier Cru Les Saint Georges, trata-se de mais uma exceção, entre tantas quando se trata da capciosa Borgonha. Os vinhos deste vinhedo costumam ser elegantes e longevos. No exemplar acima, não contesto a longevidade, pois o mesmo possui uma estrutura tânica invejável. Contudo, dentro do alto padrão de Les Saint Georges, e por tratar-se de um produtor de alto nível, seus taninos são relativamente rústicos, provocando uma secura e uma adstringência desagradáveis no final de boca. Repito, na minha modesta opinião. E esta opinião não foi nem de longe unanimidade entre os degustadores desta noite.

Não é preciso dizer que errei todos os exemplares, mas degustação às cegas é sempre um ato de humildade. É mais um incentivo e motivação para continuarmos os desafios desta fascinante região. Como dizem os entendidos, Borgonha é sempre o estágio final da longa jornada do degustador persistente e inquieto. Que venham mais desafios, meu caro Roberto!

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Degustação: Tintos do Douro

21 de Julho de 2014

As degustações na ABS-SP são rotineiras e sempre acontecem às quartas-feiras. Entretanto, algumas delas são especiais, reservando surpresas e novas perspectivas de consumo. Foi o caso desta última sobre os consistentes e originais vinhos do Douro, região consagrado do famoso Vinho do Porto, tão comentado neste mesmo blog em vários artigos específicos.

O painel completo

Só para contar um pouco da história da região, O Douro descoberto pelos ingleses na era moderna, adicionava aguardente em seus vinhos para suportar o longo e penoso trajeto até a Inglaterra. Neste acaso, descobriu-se com o tempo que a fortificação melhorava os vinhos da região. Com isso, cria-se o mais famoso fortificado, ou seja, o grande Vinho do Porto. Isso posto, praticamente a produção de vinhos de mesa na região restringiu-se ao consumo local e sem grandes atrativos. Contudo, na época da segunda guerra mundial surge um personagem ilustre chamado Fernando Nicolau de Almeida, exímio degustador, figura importante na Portocracia cultuada por ingleses e portugueses. Esse cidadão resolve vencer o desafio de criar um grande vinho do mesa da região onde até então, resumia-se nos grandes Portos. Através de muito estudo, pesquisas e tenacidade em seus objetivos, concebe um projeto ambicioso e inédito até o momento. Com muito critério, escolhe algumas quintas da região a dedo, sobretudo as quintas Vale do Meão e Leda, base estrutural de seu grande vinho, o mítico Barca Velha. Esse vinho de elaboração cuidadosa, passa um bom tempo em adega, não somente para amadurecer, mas principalmente para certificar-se e comprovar através de provas rigorosas que trata-se de algo distinto e seguro para uma aquisição especial por parte de uma seleta clientela. Quando rejeitado como tal, passa a ser chamado como Ferreirinha Reserva Especial, o qual na maioria das vezes, também é um belo exemplar, tal o rigor do julgamento nas provas. A primeira safra em 1952 mostra ao mundo do vinho o grande tinto de Portugal. Até pouco mais de uma década, os grandes vinhos de mesa do Douro resumia-se ao Barca Velha e num patamar abaixo, o Quinta do Côtto Grande Escolha, importado pela Mistral (www.mistral.com.br), além do Duas Quintas (importadora Franco Suissa – http://www.francosuissa.com.br) pertencente à Casa Adriano Ramos Pinto, cujo mentor do vinho é outra grande personalidade, João Nicolau de Almeida, filho do saudoso senhor Fernando (filho de peixe, peixinho é). Com o fenômeno Douro Boys recentemente, a qualidade e a diversidade de quintas toma um novo impulso, culminando em grandes degustações como esta feita na ABS-SP, explanada e comentada nos parágrafos abaixo.

Elegância e Autenticidade em profusão

Este foi o grande vinho do painel. Realmente, um ponto fora da curva. Cotado para ser o vencedor na teoria e comprovando na prática sua excelência. Ele foi por longos anos, a espinha dorsal do grande Barca Velha. Contudo, num certo momento, separou-se da Casa Ferreirinha e lançou-se em voo solo. A família Olazabal, muito competente na vinificação e fiel às suas raízes, soube interpretar esse grande terroir com um tinto autêntico, aliando potência e elegância como poucos. Nesta prova, após uma breve decantação revelou uma paleta de aromas digna dos grandes vinhos. Em boca, seu equilíbrio é notável e sua persistência, longa e expansiva. Tratando-se de Brasil, no rol dos grandes vinhos, seu preço ainda é atrativo. Importado pela Mistral (www.mistral.com.br).

Potente e Moderno

Esta parceria P+S (Prats e Symington) une Bordeaux e Douro na busca de um vinho moderno, mas fincado em suas origens. Bruno Prats comandou por longos anos um dos grandes châteaux do Médoc, o glorioso Cos d´Estournel, Deuxième Grand Cru Classé de alto nível. No terroir do Cima Corgo, as quintas de Roriz e da Perdiz fornecem ótima matéria-prima para um vinho destacadamente concentrado, sobretudo nesta excepcional safra de 2011 que será com certeza, uma das maiores do século vinte e um. Cor impenetrável, ainda muito fechado, já deixa transparecer todo seu potencial. Em boca é muito estruturado com abundância de taninos de grande qualidade. Deve-se esperar em adega uns bons dez anos onde então, começará a mostrar todo seu esplendor. Outra importação da Mistral.

Uma surpresa em sua faixa de preço

Quinta do Noval é uma das Casas mais cotadas em Vinho do Porto. Nos vinhos de mesa parece não ser diferente. O exemplar acima foi uma grata surpresa na degustação, principalmente levando-se em conta o preço. Seus aromas francos e bem delineados encantaram a plateia. Muito equilibrado em boca, cabendo uma comparação interessante: mais equilibrado em álcool que o próprio Chryseia (vinho de outro patamar de preço). Apesar de já prazeroso em bebe-lo, suporta com folga alguns anos de guarda. Também oriundo da sub-região do Cima Corgo, pende mais para elegância do que potência. Importado atualmente pela Adega Alentejana (www.adegaalentejana.com.br).

Por fim, os outros dois exemplares, Carm Reserva e Duorum Reserva, foram muito bem, mas sem o destaque dos demais. As safras, condições peculiares e pontuais de maturação das uvas, além da vinificação, podem ser fatores de justificação. Contudo, reforço, vinhos agradáveis e sem defeitos.

A sábia sequência dos vinhos nesta degustação soube valorizar o que tem de melhor cada exemplar. Oxalá, tenhamos outros bons painéis como este.

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