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O Oceano Atlântico na taça

4 de Setembro de 2026

A herança dos romanos e o clima particular posicionam os brancos da Galicia com destaque nas mesas


Os primeiros visitantes que pisaram na Galicia acharam que a região não se parecia com o que conheciam da Espanha. Para eles, a chuva abundante (média três vezes superior à do restante do país), seus litorais rochosos e colinas onduladas mais se assemelhavam a outros países mais próximos do Mar do Norte, como a Escócia. Foi em Baiona, nessa mesma costa, que a caravela Pinta atracou em 1º de março de 1493, sozinha, trazendo à Europa a primeira notícia de que a viagem de Cristovão Colombo à América tinha sido bem-sucedida e os espanhóis tinham descoberto uma outra terra além do Atlântico.

A história do cultivo de uvas é antiga em uma região hoje que ganha cada vez mais espaço nas mesas por conta do terroir de Rías Baixas e da uva albariño, com um punhado opções de qualidade preço importadas no Brasil. Um estudo de 2020 publicado no Australian Journal for Grape and Wine Research comparou sementes de uva de uma escavação romana na região com castas atuais e encontrou semelhança genética com o albariño moderno, um indício de que os romanos que anexaram a região como província 137 anos antes de Cristo já cultivavam alguma versão dela. Monges beneditinos plantaram vinhas ao longo do Caminho de Santiago a partir da Idade Média.

O Oceano Atlântico adentra o continente em estuários de múltiplos braços chamados rías em espanhol. A parte sul – rías baixas – batiza o nome da denominação principal de onde vêm os principais albariños hoje consumidos. O clima é particular: os maiores índices pluviométricos da Espanha, boa parte concentrada no inverno, convivem com pouco mais de duas mil horas de sol por ano, permitindo equilíbrio entre água e calor.

Para completar: uma amplitude térmica mínima entre verão e inverno, pouco mais de dez graus. Isso preserva a acidez que separa o albariño de qualquer branco produzido mais para o interior da Espanha. O solo é composto em boa parte de camada arenosa de cerca de vinte centímetros que drena a chuva torrencial em vez de encharcar a raiz, deixando a vinha se aprofundar. Os solos são ricos em minerais, o que confere vinhos com um toque mineral marcante, de uma forma não muito diferente do que ocorre em Chablis, hoje um campeão de vendas no Brasil. (A região também produz tintos interessantes, mas o foco aqui são os albariños).

Essas particularidades e o preço dos rótulos levaram Roberta Kuroda a visitar a região há cinco anos. Anos antes, ela tinha se apaixonado pelo mundo dos vinhos. Aos dezoito anos, numa palestra sobre harmonização, um chef serviu um prato de galinha-d’angola com molho de jabuticaba e um sommelier explicou por que aquele vinho tinto funcionava com aquele prato. Ela não tinha repertório nenhum. Achou aquilo, só, muito bonito. Foi fazendo cursos, degustações, organizando eventos, até que criou uma importadora, a Oinos, com grande parte do portfólio voltado para vinhos espanhóis, com destaque à região da Galicia. “A Espanha tem boa relação qualidade preço e tem uma oferta de vinhos mais fáceis de conseguir do que a França”, diz Roberta.

Quando organizou sua primeira visita à região, conseguiu uma rede de contatos.  Em uma visita a uma vinícola, o produtor disse que não tinha vinho, mas que seu amigo que era vizinho da propriedade tinha. Ela topava visitar? Ela tentava havia semanas falar com o dono da vinícola Albamar. Os e-mails não eram respondidos, o telefone não respondia. “Estou tentando falar com ele, mas ele sumiu.” O produtor discou ali mesmo. Em dias, firmou-se o contrato.

A cena se repetiu, com variações. Eulogio Pomares, da vinícola Zárate, é muito amigo de Manuel Méndez, da bodega Fulcro. “Eles não têm essa preocupação. Ah, ela vai gostar mais do vinho do meu amigo. Entendem que há espaço para estilos diferentes de albariño”, diz Roberta. Hoje, Zárate, Albamar e Fulcro são três vinícolas importadas pela Oinos, com alguns ótimos rótulos de brancos abaixo de 250 reais.

Antes mesmo que a burocracia internacional engrenasse, a virada qualitativa da região começou a ser desenhada em agosto de 1953, quando o advogado Bernardino Quintanilla apostou com o proprietário Ernesto Zárate — o mesmo sobrenome que hoje rotula a garrafa que a Oinos traz ao Brasil — que seu albariño venceria o do amigo numa prova cega. Nenhum dos dois ganhou: outro produtor levou o primeiro prêmio, mas os dois não abandonaram a disputa.

A revanche informal virou um concurso e depois uma festa popular, que segue viva setenta anos depois. O toque final foi dado pela burocracia: em 1988, sob pressão do ingresso da Espanha na Comunidade Europeia, os vinhos da região ganharam oficialmente o selo da denominação de origem Rías Baixas. O crescimento veio: os 237 hectares iniciais viraram mais de quatro mil. Chegaram nomes de peso: Vega Sicília lançará no próximo ano o Deiva em Rías Baixas, com produção inicial de 30 mil garrafas, uma incursão da mítica vinícola em seu primeiro branco espanhol.

No Brasil, outras importadoras têm rótulos da Galicia. A Wines4U traz os vinhos de Alberto Nanclares, outro bom produtor de qualidade preço.  Em fevereiro, dados da consultoria Ideal.BI apontam que brancos e espumantes somam 30% do mercado nacional de vinho, dez pontos a mais que em 2019. Apenas os vinhos de Chablis respondiam por um quarto de todo o vinho de Borgonha importado ao país, com alta de 56% em volume num único ano.

Dois documentários espanhóis, Albariño Rías Baixas: de la tradición al mundo e sua sequência El Despertar del Vino en Galicia, registraram o movimento de viticultores recuperando vinhas e castas que quase desapareceram no século passado. Há mineralidade além da França.

A aventura do brasileiro que trocou Wall Street pelo vinho

11 de Agosto de 2026

A paixão pelo vinho não nasceu numa sala de reuniões de Wall Street, nem nos comitês de investimento da Bunge, a gigante global do agronegócio que Alberto Weisser comandou por anos viajando cerca de 90 noites em um ano. Começou no início da década de 1970 nas mesas de restaurantes franceses de São Paulo — o Freddy, ainda aberto, e o extinto La Cocagne. O jovem executivo em formação, levado pelos pais da namorada em fins de semana ensolarados, deu os primeiros goles em rótulos nacionais e nas poucas garrafas importadas que cruzavam a fronteira. Nasceu o interesse em harmonizar comida e vinho.

O ponto de inflexão veio em 1974. Uma hepatite severa o levou à cama por meses. Weisser usou o tempo livre para fazer uma lista de desejos para quando recuperasse a saúde: comer um pedaço de queijo Roquefort com uma taça de tinto e viajar à Borgonha para andar entre as vinhas. A Borgonha ficou para depois; o Roquefort com tinto foi saboreado. A mesma doença que o afastou do serviço militar para o qual havia se voluntariado liberou tempo para se dedicar à universidade, onde se formou em administração de empresas.

Filho de mãe alemã e de pai nascido em Belém do Pará — que aos nove meses foi para a Suíça, lá foi educado e voltou ao Brasil pouco antes da guerra —, Weisser cresceu em São Paulo em escola alemã, de onde vem o sotaque que mistura as duas línguas com o inglês. O pai, vendedor, morreu aos 51 anos; a mãe, enfermeira, parou de trabalhar ao nascer a primeira dos quatro filhos. A partir dos 15 anos, Weisser trabalhou à noite numa clínica médica para ajudar no orçamento da casa, enquanto cursava Administração na USP.

Aos 25 anos, contratado pela Basf, entrou na engrenagem corporativa internacional. Passou três anos no Brasil antes de ser transferido para a sede alemã, onde trabalhou cinco anos na área financeira. Os fins de semana viravam roteiro de vinhas europeias: Alsácia, Borgonha, Vale do Loire, Bordeaux, os vales alemães, os terroirs italianos. Depois de anos na Bunge, saiu em 2013, aos 58 anos, cansado de uma a duas viagens semanais para China, Oriente Médio, Europa e Brasil. Num só ano, dormiu 90 noites dentro de um avião. Teve a ideia de mudar de ares e dar mais espaço à paixão pelo vinho.

Escolheu Portugal. Apreciava os vinhos do Douro e do Dão, mas a logística pesava contra, ficavam distantes do aeroporto, necessário já que iria manter assento em conselhos de empresas como Pepsi e Bayer. Já o Alentejo fica a pouco mais de uma hora de Lisboa. Num dia chuvoso de janeiro de 2015, às cinco da tarde, já quase escuro, Weisser bateu à porta da Tapada dos Coelheiros. Deu uma volta pelo terreno. Ficou encantado, percebeu que talvez houvesse interesse em vender se as condições fossem certas. Fechou negócio nove meses depois, em setembro. “Foi a segunda mais difícil negociação da vida, depois das que fiz na Bunge, porque eles não queriam vender”, relembra em entrevista na quarta-feira, em São Paulo.

A propriedade soma quase 800 hectares. Produz cortiça, mantém 1.300 ovelhas, que pastam na floresta e, no inverno, migram para a vinha e o pomar. “Não revolucionei, evolui”, resume Weisser sobre a década seguinte. Investiu pesado nas vinhas, reduziu o portfólio, de 14 marcas para três linhas. A produção caiu de 400 mil para um piso de 40 mil garrafas. Hoje a produção está em cerca de 150 mil garrafas, o Brasil, com 10% das vendas, é o segundo mercado da vinícola, atrás apenas de Portugal. Na linha básica, importada pela Mistral, um vinho rosado e um tinto se destacam na faixa dos 250 reais por garrafa.

A virada teve nome: Luís Patrão, enólogo que passou pelo Esporão e mantém rótulo próprio, o Vadio, na Bairrada. Foi contratado em 2016 para conduzir a transformação. A sustentabilidade organiza quatro eixos — orgânico, biodinâmico, sustentável, regenerativo. Painéis solares cobrem boa parte do consumo elétrico. O uso de água caiu de forma acentuada, com a meta declarada de depender só da chuva, sem poços. Uma parceria com a Universidade de Évora testa o uso de pássaros como controle biológico de pragas, no lugar de químicos.

A disciplina financeira da vida corporativa não esconde a realidade do agronegócio de nicho: passados dez anos, a Tapada ainda não atingiu o ponto de equilíbrio. Nas suas contas, são necessárias 200 mil garrafas vendidas por ano para chegar lá. Weisser resume o problema com uma anedota de família. Quando o filho cursava o MBA em Harvard, escreveu um trabalho sobre o modelo de negócios do Château Margaux e mandou ao pai um dado do estudo: 95% das vinícolas do mundo não dão lucro. De Portugal, Weisser respondeu que estava em excelente companhia.

Biondi Santi: a garrafa que ninguém bebeu

17 de Junho de 2026

Há uma garrafa que Giampiero Bertolini nunca bebeu e não sabe onde foi parar. Ficava na adega do pai, em posição de destaque, separada das demais como um ícone. O pai a tratava como algo especial. Era um Brunello di Montalcino Riserva 1964 da vinícola Biondi Santi, cuja história se mescla à da Itália e de uma das mais famosas áreas de produção de vinho do mundo. Bertolini bebeu essa safra algumas vezes, na vida e no ofício. Mas aquela garrafa, a do pai, sumiu sem que ninguém a abrisse e ele soubesse o destino. O ícone doméstico virou ícone nacional. Em 2011, a Associação Italiana de Sommeliers elegeu a Riserva 1964 o melhor vinho da história da Itália e a transformou em símbolo dos 150 anos da unificação do país. A garrafa que o pai de Bertolini guardava sem beber passou a representar a Itália inteira e a ser o lugar de trabalho dele. “A vida é estranha”, diz ele em entrevista ao rememorar a história, antes de um jantar promovido pela importadora Mistral.

Desde novembro de 2018, Bertolini comanda a Biondi Santi, em Montalcino, na Toscana, a vinícola que inventou o Brunello e fez dele o vinho italiano mais conhecido fora da Itália. Foi contratado pelo grupo francês EPI, de Christopher Descours, que comprou a propriedade, em 2017, sob a desconfiança da cidade e do país. A pergunta que ressoava era: os franceses irão mudar um ícone? Era também uma questão para Bertolini.

Ele estava havia dezesseis anos vendendo os vinhos da Frescobaldi, outra vinícola da Toscana,. satisfeito, sem pensar em mudar, quando um headhunter o procurou. Antes de aceitar, fez o que poucos fariam diante de um convite desses: marcou sete reuniões com os donos franceses para entender, nos mínimos detalhes, o que esperavam dele. Uma delas foi até com um psicólogo. A Biondi Santi era um patrimônio, e ele não queria assumir sem saber o que nele se podia tocar. Brinca que os franceses devem tê-lo achado louco. Saiu daquelas conversas com a lição do Gattopardo, de Lampedusa: mudar o que for preciso para que o essencial permaneça. Preservar a história italiana virou tarefa de capital de franceses, com mãos italianas.

O patrimônio é de garrafas e de vinhedos. Em 1944, com o front da guerra chegando a Montalcino, a família emparedou as garrafas antigas para escondê-las dos alemães. Por isso a cantina histórica ainda guarda safras anteriores ao conflito. A histórica adega se soma ao reconhecimento. Até o fim dos anos 1960, Brunello (o nome vem da cor da uva, mais morena que outras) era coisa de um punhado de produtores — cerca de dez. A família Biondi Santi abastecia clientes importantes. Em 1969, o presidente Giuseppe Saragat serviu seis garrafas da Riserva 1955 à jovem rainha Elizabeth II, na embaixada italiana em Londres. A rainha gostou, saíram artigos na Itália e na Inglaterra, a procura disparou. Em 1994, Franco Biondi Santi reuniu dezesseis dos críticos mais influentes do mundo para uma degustação vertical das Riservas de 1888 a 1988. A ideia era mostrar que a elegância do Brunello da família tinha lugar no mundo em que Robert Parker dava pontuações altas a vinhos extraídos e mais alcoólicos. Presente ao evento, o britânico Nicolas Belfrage deu 100 pontos à 1891, um vinho de 103 anos.

Brunello tem hoje mais de 200 produtores, 218 associados ao consórcio, e um hectare de vinha vale cerca de 1 milhão de euros, perto do que se paga em parcelas da Champagne. O plantio está congelado desde 1997: para plantar, é preciso arrancar. A Biondi Santi, origem de tudo, é ao mesmo tempo o monumento e a âncora da denominação. Produz cerca de 100 mil garrafas por ano, conforme a safra.

Ao assumir, Bertolini tomou algumas decisões. Em 2019 contratou o chileno Pedro Parra, especialista em solo, que abriu mais de trinta buracos nos vinhedos para mapear as particularidades de cada pedaço de terra. Do estudo geológico identificaram-se doze parcelas. Questionado se não pretende engarrafá-las em separado, diz que não, isso seria sacrificar a qualidade dos vinhos que fizeram a história da vinícola. O mapeamento dá um trunfo: conhecimento mais preciso para navegar cada safra, que a cada ano pode contar com mais ou menos quantidade de uvas de uma parcela.

O aquecimento global tem trazido também reflexões sobre a própria videira. Por décadas a casa dependeu de um único clone, o histórico BBS11, registrado em 1978, primeiro clone a levar o nome do produtor. Numa vinha plantada por volta de 1936, a equipe achou cerca de cinquenta biótipos distintos da uva, um acervo genético da casta. Faz agora uma seleção massal, replantando essas variantes num pequeno viveiro da propriedade. Quase todos os vinhos ainda saem de um só clone; a aposta para o futuro é ter vários, uma receita própria contra o calor. No vinhedo, um novo sistema de condução em V abre a copa como um guarda-chuva sobre os cachos, fazendo que a circulação de vento seja mais fácil e haja proteção contra o sol.

O mundo atual tem seus desafios além do clima. Os jovens bebem menos, e bebem diferente. Bertolini conta que a vinícola lançou um podcast, La Voce, para falar de vinho com jovens e sommeliers da nova geração sem o tom intimidador do ritual. Ele admite que as pessoas estão com cada vez menos paciência de esperarem quinze, vinte anos para abrirem uma garrafa. “Não se tem mais paciência, acho que se pode notar que as safras mais recentes podem ser bebidas na juventude. Fizemos algumas pequenas alterações, como mais tempo de garrafa, o que permite que os taninos fiquem mais suaves e isso permite que sejam bebidos antes. É um investimento, porque poderíamos colocar a mercado antes”, afirma.

Em um momento em que muitas vinícolas se expandem, caso dos Gajas, que nasceram no Piemonte e agora possuem vinhas na Sicília, a propriedade pode trabalhar em outros lugares, como o Piemonte? Bertolini diz que o momento atual é complexo, em que a guerra no Oriente Médio traz turbulências, mas é algo que, se ocorresse, teria de fazer sentido na história da propriedade, o que não seria fácil de encontrar.

(Lembrando que vinhosemsegredo tem revista, em pdf, que pode ser solicitada por:

https://vinhosemsegredo.com/revista-digital-vinho-sem-segredo/

Seção memória (bebido em dezembro de 2016, com quase 30 anos, as notas abaixo da foto:

A longevidade desses Brunellos, especialmente Biondi Santi, pode ser comprovada em almoço recente com a safra de 1988 Annata, ou seja, não Riserva. Com quase trinta anos, eu esperava encontrar um tinto cansado, com sinais de oxidação, meio que respirando por aparelhos. Ledo engano, o vinho estava vigoroso, em seu auge, com tudo que podia entregar em seus longos anos de evolução em garrafa. O aroma de fato, era todo terciário, mas com muita harmonia. A fruta ainda presente, meio passificada, com toques de torrefação, caramelo, cacau, bala de cevada, belos defumados, entre outros. Bom corpo, acidez presente e deliciosa, e um final longo e bem acabado. Em certos momentos, lembrava grandes Riojas envelhecidos. Enfim, um grata surpresa!

A commodity que não se fabrica

18 de Maio de 2026

Foi no fim dos anos 1980 que o engenheiro José Bento dos Santos resolveu deixar para trás os aviões, as telas de computadores e o mundo da mineração de lado. Passava meses do ano negociando a compra e a venda de metais pelo mundo todo. Em um jantar em Nova York, uma frase de um amigo tornou-se um divisor de águas: “Passamos a vida a negociar commodities, mas há uma que não se fabrica mais: a terra”. Voltou para Portugal, conversou com o pai. Descobriu que a Quinta do Monte d’Oiro, em Alenquer, distrito de Lisboa , estava à venda. A aquisição, em 1987, transformaria o enófilo e gourmet em produtor.

O vinho nunca lhe foi estranho. Aos 18 anos, visitou Bordeaux, na França. Nas viagens de negócios, um dos principais prazeres era almoçar e jantar, assim, como em casa, receber amigos em torno da mesa e de vinhos. A transição para a viticultura exigiu paciência: a primeira safra só chegou ao mercado em 1997, dez anos depois da aquisição.

“Tivemos um grande trabalho de recuperação, não aproveitamos quase nada”, diz Francisco Bento dos Santos, filho de José e que esteve essa semana no Brasil em evento da importadora Mistral. Pai e filho dialogam sobre as criações. “Meu pai foi técnico de rugby quando eu era pequeno e hoje também se mantém como meu treinador agora nas vinhas”, diz Francisco.

O diagnóstico técnico da propriedade, elaborado por especialistas da Universidade de Jerusalém, revelou um solo e um clima mediterrânico com forte influência atlântica — traduzido em noites frias e brisas constantes — ideal para as castas do Vale do Rhône. Bento dos Santos viajou à França e obteve mudas diretamente com Michel Chapoutier, um dos nomes mais reputados da região. O resultado é um portfólio onde uvas francesas, como Syrah e Viognier, convivem harmoniosamente com castas nativas sob manejo orgânico e baixos rendimentos. Os vinhos de entrada, na faixa de R$ 150, apresentam-se como uma excelente porta de acesso a esse rigor técnico.

Na Itália, plantar uvas internacionais em solo toscano não é modismo. No início do século XIX, Elisa Bonaparte Baciocchi, irmã do imperador Napoleão Bonaparte, plantou vinhedos de Cabernet Sauvignon e Merlot, ao lado da Sangiovese (presente em Brunellos e Chiantis). A dinastia Bonaparte perdeu a coroa, a França se tornou uma República, a Itália se unificou, os vinhedos ficaram relegados, até que um dia Francesca Moretti decidiu tirar uma folga da universidade de Veterinária e fazer uma viagem de carro com seu pai até Bordeaux. Antes de chegar lá, passaram pelas colinas de Maremma (região costeira próxima de Siena). Foi paixão à primeira vista.

A paixão pela costa toscana levou a família Moretti à aquisição da propriedade, dando início ao que Francesca descreve como uma “fascinante história de uma viagem de mulheres”. O projeto Petra (importado no Brasil pela família Taffarel) resgatou o legado de Elisa Bonaparte, focando no replantio de castas internacionais em um terroir onde etruscos e gregos já vinificavam em ânforas na antiguidade. Sob uma vinícola desenhada pelo arquiteto suíço Mario Botta e conduzida por práticas orgânicas, a Petra busca vinhos que expressem a essência do solo e clima mediterrâneos. A linha completa oferece rótulos de boa relação qualidade-preço.

Embora os vinhedos originais da irmã de Napoleão hoje integrem um parque público em Suvereto, a família Moretti recuperou o espírito daquela plantação histórica dentro de seus domínios. Os cinco hectares em que Elisa Bonaparte plantou uvas foram recuperados pela família Moretti. “O jardim da Princesa foi finalizado em 2017, reúne árvores frutíferas e ornamentais. Em frente a este jardim, localiza-se o nosso vinhedo histórico: o Vigna Petra, com quatro hectares”, afirma Francesca.

Essa diáspora das castas não se encerra na Europa. No Chile, em 1997, mesmo ano em que a Quinta d´Oiro comercializava sua primeira safra, nasceu o projeto Almaviva, resultado de um acordo entre a família Rothschild e a vinícola Concha y Toro. A ideia, desde então, é elaborar um tinto sul-americano com uvas francesas clássicas, sempre com predomínio de Cabernet Sauvignon, cultivadas nas terras do Maipo Alto, na área Maipo Andes. Há dois anos, a vinícola passou a abrir as portas a visitantes, revelando que, no mundo do vinho, a fronteira entre o estrangeiro e o nativo é tênue.