Archive for Janeiro, 2018

Domaine Liger-Belair: O novo milênio

30 de Janeiro de 2018

As estrelas na Borgonha passam por altos e baixos, mesmo na comuna mais sagrada de Vosne-Romanée. Fatores econômicos, políticos e sobretudo de sucessão nas famílias, podem interferir sobremaneira no destino de grandes Domaines. Estamos falando aqui da família Liger-Belair, proprietária do minúsculo vinhedo La Romanée com pouco mais de oito mil metros quadrdados (0,8452 ha), situado  logo acima do mítico vinhedo Romanée-Conti.

la romanee marco

vinhedo histórico

Sua história começa com o império romano no ano de 92 DC. O vinhedo vai se firmando até o ano de 312 DC. Na idade média, começo do século VI, sua reputação segue com os monges. A partir do ano 1098 com a criação da abadia de Cîteaux, o prestígio só aumenta chegando no período moderno no ano 1700. O século dezenove é marcado por várias pragas entre elas, o míldio e a filoxera. Em 1815, o vinhedo é adquirido por Liger-Belair, general do Império, e proprietário de outros nobres vinhedos como o antigo La Tâche, La Tâche Gaudichottée. Verificar artigo na íntegra. Em 1827 é criada a apelação de origem La Romanée.

Até a segunda guerra mundial, o vinho é vendido em barricas a diversos negociantes. De 1950 a 1966, o vinho é negociado exclusivamente pela Maison Leroy. De 1967 a 1975, a Maison Bichot passa a comandar o negócio sob o nome Bouchard ainé & fils. Por questões matrimoniais, a família Liger-Belair volta a participar do negócio, e entre os anos 1976 e 2001, ainda temos o nome Bouchard Père & Fils nos rótulos do Grand Vin.

De 2002 a 2005, há um período de transição onde as duas famílias engarrafam o vinho, Liger-Belair e Bouchard Père & Fils. A partir de 2006, somente Liger-Belair no rótulo.

Comparação inevitável

Tanto pela proximidade, como pela excelência do vinhedo, a comparação com o astro maior Romanée-Conti é inevitável. A idade média das vinhas de La Romanée é de 50 anos. A produção gira em torno de 4000 garrafas por safra e rendimento fica por volta de 35 hectolitros por hectare.

Por seu solo menos argiloso e menos profundo, La Romanée tende a ser mais delicado na comparação com Romanée-Conti. Topograficamente, o vinhedo apresenta uma inclinação mais acentuada (12%) e sujeita a maior erosão. Além disso, sua vinificação sem engaço (éraflée), contribui para acentuar esta delicadeza.

la romanee mapa

parcelas diminutas

Depois da retomada da família no novo milênio, Domaine Liger-Belair está em grande fase com vinhos bem focados e definidos. Embora La Romanée seja a joia da coroa, os demais vinhedos da propriedade primam também por áreas diminutas e um patrimônios de vinhas antigas inestimáveis. Estamos falando de parreiras entre 50 e 80 anos em boa parte dos vinhedos. A expressão do terroir é notável . 

Pelo mapa acima, um dos mais prestigiados é o Premier Cru Aux Reignots, logo acima do imponente La Romanée. Um terço de suas vinhas chegam a 80 anos. A produção é de pouco mais de 3000 garrafas por safra. Les Petits Monts, logo acima, não fica atrás. Vinhas de 50 anos e produção de ínfimas 600 garrafas, é um dos mais valorizados atualmente. Mesmo o mais simples de seus vinhos com o perdão da palavra, é um Vosne-Romanée de apelação comunal com vinhas entre 40 e 60 anos de idade. A produção é de Grand Cru, menos de 3000 garrafas. Outro comunal de alto nível é o Lieu-dit La Colombière com vinhas entre 60 e 80 anos. No mínimo, nível de Premier Cru.

bourgogne monopole

Grandes Monopólios da Borgonha

Os cuidados no vinhedo são de maneira natural e pouco intervencionista. Os baixos rendimentos visam uvas de grande concentração, expressando fielmente o terroir. As uvas são colhidas rapidamente, chegando na cantina para um trabalho minucioso de triagem, antes de começar a fermentação. As leveduras são naturais e a fermentação visa extrair aromas e polifenóis sem exageros, de acordo com as características de cada safra.

Enfim, Domaine Liger-Belair parece se consolidar entre os grandes de Vosne, tarefa nada fácil no tabernáculo borgonhês. Tradição, savoir-faire, e terroir, não faltam nesta história. Maiores informações: http://www.liger-belair.fr

Cult Wines and Steak

26 de Janeiro de 2018

Nada como um bom Cabernet Sauvignon para amalgamar seus taninos em meio à suculência de belos cortes de carne. Foi exatamente esta ideia que nos levou a conhecer mais um restaurante do grupo Varanda Grill Faria Lima.

menos de uma barrica por safra

Por uma questão de tipologia, carnes de excepcional qualidade pedem vinhos à altura. Portanto, os belos Cabernets do Napa Valley cumpriram bem sua missão. Antes porém, uma obra-prima de Madame Leroy, os estupendos brancos Domaine d´Auvenay. Neste caso um Puligny-Montrachet Les Enseignères 2012 Premier Cru. Menos de uma barrica produzida (225 garrafas). Um primor de vinho, embora muito novo, quase um feto. Precisa ser obrigatoriamente decantado por duas horas, para poder expressar alguma de suas virtudes e segredos. Equilíbrio, harmonia, persistência; notáveis.

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Estilo Novo Mundo sem cerimônias

Foi o que menos me agradou. Embora com seus quase 20 anos, Grace Family faz um Cabernet Sauvignon com os típicos toques mentolados do Novo Mundo. Nesta safra de 1989 houve dificuldades no amadurecimento das uvas, mostrando claramente toques de pirazina (algo herbáceo, lembrando pimentão). No mais, a evolução do vinho estava correta com bom equilíbrio em boca, sem sinais de decadência. O grande ano deste vinho foi 1985 com 96 pontos.

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o clássico assado de tira

Uma carne macia com boa presença de gordura pede vinhos com boa acidez. Neste caso, o Grace Family cumpriu bem seu papel, fornecendo ótimo frescor. Foi o de menor teor alcoólico do painel.

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93 pontos numa safra exuberante

Talvez o melhor vinho do almoço por sua prontidão, embora possa ser adegado por mais tempo. Um Cabernet encorpado, taninos ultra macios, e álcool bem sustentado por ótimo meio de boca. Muita fruta presente, indicando que seu platô de evolução parece ser amplo.

IMG_4208.jpgFilé Mignon com osso

Esta é uma parte nobre do T-bone do lado mais estreito, onde se encontra o filé mignon. Um filé alto corretamente assado com uma suculência muito agradável. Fez bonito par com o vinho abaixo, Abreu Madrona Ranch, e tenho certeza que também seria ótima companhia para o Lokoya 1997, acabado antes de chegar o prato.

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vinho elegante que se aproxima dos grandes Bordeaux

Aqui, outra fera de Napa. Madrona Ranch é o melhor vinhedo da vinícola Abreu. A safra de 1996 foi minúscula, mas de ótima qualidade. O que falta da potência de 1997, sobra em elegância neste 1996. De fato, foi o mais bordalês de todo o flight. Seus aromas terciários lembrando couro e tabaco, remetiam aos bons tintos de Pessac-Léognan. Equilíbrio notável e taninos finíssimos. Um vinho quase perfeito, 98 pontos.

uma promessa de 100 pontos

O vinho acima é o mais novo 100 pontos de um dos mais caros Cult Wines, safra 2012. No momento, uma explosão de frutas numa opulência sem igual. Um típico corte bordalês de margem esquerda (79% Cabernet Sauvignon, 17% Merlot, 4% Cabernet Franc). Seus 14,8° de álcool são perfeitamente balanceados por um extrato fabuloso e um ótimo frescor. Seus taninos são rolimãs em boca, tal a textura sedosa dos mesmos. Previsão de auge, ano 2034.

Enfim, mais uma ótima experiência de carnes vermelhas nobres com tintos tânicos, sem modismos e invenções de professor Pardal. Afinal, para que complicar o óbvio. 

Agradecimentos aos confrades presentes, começando bem o ano 2018. Aqui é como o Brasileirão. Cada jogo é uma final e quem tem mais pontos ao longo do ano, leva a taça. Abraço a todos!  

Denominações Italianas

18 de Janeiro de 2018

Quando pensamos em vinho italiano, imediatamente nomes como Barolo, Brunello, Amarone, são os que mais impactam. Entretanto, em termos de produção, outras denominações de forma surpreendente encabeçam os primeiros lugares neste país que embora pequeno, é proporcionalmente a maior potência vinícola mundial.

ITALIA docdocg2015

um mar de prosecco

Observando a tabela acima, percebemos claramente a absurda produção de Prosecco depois da implantação das nova regras na região, mudando o nome da uva para Glera. A denominação passou a ser interregional, englobando Veneto e Friuli. A qualidade já é uma outra história …

  1. Prosecco produz atualmente pelo menos  a mesma quantidade de garrafas que a região de Champagne. Em 2015, quase 500 milhões de garrafas!
  2. Embora a Sangiovese seja a uva tinta mais plantada na Italia, a Montepulciano surpreende pela produção, numa briga acirrada com a denominação Chianti. Não confundir a uva Montepulciano com a denominação Vino Nobile de Montepulciano na Toscana.
  3. Seco ou doce, os italianos adoram espumantes. Outra disputa ferrenha entre o adocicado Asti e o verdadeiro Prosecco de Valdobbiadene. São quase 100 milhões de garrafas cada um.
  4. Soave ainda é o branco mais produzido na Itália. Um vinho agradável elaborado com a uva Garganega, é o maior representante da categoria no Veneto. Em outras denominações locais, esta uva após processo de appassimento, gera grandes vinhos doces sob o nome Recioto.
  5. A produção de Chianti Classico é bem mais restritiva que a de Chianti genérico, cerca de um terço. Não só a qualidade é mais homogênea, como o estilo é bastante diverso. Chianti, primo piatto. Chianti Classico, piatto principale.
  6. A eclética Barbera é a uva mais plantada no Piemonte. Sob várias denominações, Barbera d´Asti é de longe a mais expressiva produção. Barbera d´Alba segue bem abaixo.
  7. Os melhores Lambruscos de denominação própria como Grasparossa de estilo seco, perfazem juntos mais de 50 milhões de garrafas por ano. Número modesto frente aos insípidos Lambruscos da categoria IGT.
  8. Os Barolos mesmo com status de grande vinho, produz cerca de três vezes mais que seu concorrente Barbaresco que nem aparece na lista. Números coerentes pois a área de vinhedos é proporcional.
  9. Os Brunellos com produção quase quatro vezes menor que a do Chianti Classico, a mais reputada entre os Chiantis, justifica seus altos preços, embora ainda tenha que separar bem o joio do trigo.
  10. O agradável Dolcetto, denominação relativamente simples, apresenta produção muito reduzida. O mais produtivo, Dolcetto d´Alba fica quase no fim da lista.

Essas observações referem-se somente aos vinhos DOCG/DOC que são os vinhos mais emblemáticos e mais lembrados pelas pessoas. Contudo, os vinhos IGT e vinhos da Távola VT apresentam grande importância na quantidade e distribuição de toda a produção italiana.

ITALIA-2015-DOC IGT VT

bom equilíbrio entre as categorias

Na tabela acima, percebemos que a produção italiana é bem proporcionada entre tintos e brancos. O equilíbrio também se mantem como um todo entre as categorias DOC/IGT/VT. Contudo, regionalmente há diferenças marcantes. O norte da Italia privilegia os vinhos DOC, enquanto o sul (mezzogiorno) ainda tem muito vino da tavola VT. O centro da Italia é o mais equilibrado entre as categorias. Os vinhos IGTs desempenham importante papel no sul da Italia fazendo a transição natural entre os vinho VT e os vinhos DOC. Puglia e Sicilia lideram os vinhos IGTs no mezzogiorno.

Mude a cor de seu vinho!

12 de Janeiro de 2018

Por que consumir vinho rosé? Porque ele é versátil, é gastronômico, e é mais uma opção além de tintos e brancos. Mas rosé não é só uma nuance de cor. Precisa saber fazer rosé. Precisa de propostas e terroir adequados ao estilo. Assim como nos espumantes a referência é Champagne, no mundo dos rosés a referência é Provence. Novamente a França nos ensinando o caminho.

vin rose consumação 2015

 consumimos menos de um por cento no ranking mundial

O rosé provençal é leve, fresco, charmoso. Tem balanço, equilíbrio, e personalidade. É líder no setor de rosés franceses, pois regiões como Loire e Rhône também elaboram este tipo de vinho. A uva deve estar suficientemente madura para não transparecer traços herbáceos negativos, e nem um frutado demasiado, perdendo o equilíbrio. Portanto, o ponto de colheita é um dos segredos deste vinho. Para isso, uvas e climas adequados são fundamentais.

vin rosé produção mundial 2015

cerca de 10% dos vinhos tranquilos são rosés

Na cantina, temos basicamente dois caminhos: o rosé de pressurage ou o rosé saignée. Pressurage é o processo mais delicado onde se obtêm os rosés mais elegantes e sutis. É uma leve prensagem antes do inicio da fermentação, deixando as casca em contato por breve tempo. O método saignée pressupõe já um início de fermentação onde a cor é extraída com mais intensidade. Normalmente, perde um pouco a delicadeza, mas pode ser muito gastronômico por possuir mais corpo e estrutura. 

vin rosé exportação volume 2015

a liderança mundial espanhola em termos de volume

Numa ordem de prioridade, os rosés provençais são praticamente imbatíveis e não custam tão caro assim. Atualmente, entre 100 e 150 reais, há ótimos exemplares. Até mesmo por menos de 100 reais, pode-se encontrar algo interessante, pesquisando um pouco. Caso o bolso esteja mais cheio, prove um dos rosés do Domaines Ott. Delicados ao extremo, é importado pela Clarets. Se  quiser continuar na França, o caminho natural segue para os vales do Loire e do Rhône. No primeiro, os vinhos tendem a ser mais leves e delicados, enquanto os do Rhône costumam ser mais encorpados e gastronômicos, sobretudo o famoso Tavel. Uma região pouco difundida, mas que vale a pena provar são os rosés do sudoeste francês, principalmente na região de Gaillac. Alain Brumont tem um belo exemplar na importadora Decanter da região de Ténarèze, região do Armagnac, vizinha a Gaillac. Mesclando Tannat, Merlot, e Syrah, este rosé acompanha muito bem embutidos, jamon serrano, e uma bela pizza de calabresa artesanal com toques de erva-doce.  

vin rose exportação valor 2015

exportação em valores, França e Itália se equilibram

Ainda em território francês, vale a pena provar o rosé bordalês de Denis Dubourdieu, Le Rosé de Floridene, importado pela Casa Flora. Muito mais pelo produtor do que propriamente pela região.

Fora da França, as regiões espanholas de Navarra e Rioja elaboram belos rosés. As duas juntas respondem por cerca de 45% dos vinhos rosados espanhóis. Um belo rosé elaborado por Julián Chivite com a casta Garnacha, o Gran Feudo Rosado sai por menos de 100 reais na Importadora Mistral. As tradicionais bodegas de Rioja costumam fazer rosados bem interessantes. Aqui no Brasil, Viña Tondonia e CVNE são representadas pela importadora Vinci.

Partindo para a Itália, temos a versão rosé do Montepulciano d´Abruzzo chamada Cerasuolo. A importadora Ravin traz o produtor Zaccagnini com vinhos sempre bem equilibrados.  

Voltando aos franceses, os rosés provençais chegam a 42% da produção anual das apelações francesas (AOC) para este tipo de vinho. Eles também respondem por 89% da produção total na região provençal, sendo o restante, 7% de tintos e 4% de brancos.  

Enogastronomia

Uma infinidade de pratos podem acompanha-los. Temperos mais pronunciados, pimentas, ervas, especiarias, alho, são bons parceiros para este tipo de vinho. Bem mesclados em tortas, pizzas, bruschettas, com atum, frango, ou embutidos, é a receita ideal de harmonização.

Nos mais variados buffets espalhados pela cidade como Rascal, por exemplo, uma garrafa de rosé passeia com tranquilidade por várias daquelas entradinhas, presuntos, pimentões com azeite e alho, e assim por diante.

É um vinho de praia, de verão, bem refrescante, acompanhando vários pescados e frutos do mar servidos em restaurantes. Um camarão a provençal é uma combinação ótima. Entradas frias com carnes bem temperadas como carne louca por exemplo, é outra pedida certa. Até um vitello tonnato entra na brincadeira.

Enfim, siga os franceses, maiores produtores, exportadores e consumidores de rosés do mundo. Quem sabe daqui alguns anos, o Brasil passa entrar nas estatísticas, ao menos como consumidor.