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A santíssima trindade francesa

13 de Outubro de 2019

Quando juntamos Champagne, Bourgogne e Bordeaux, só pode sair coisa boa. São regiões modelos em seus estilos de vinhos com várias cópias mundo afora, mas poucas com sucesso. Foi o que aconteceu num agradável almoço com meu amigo Roberto Rockmann onde a enogastronomia reinou soberana.

casamento perfeito

A entrada começou arrasadora com o excelente champagne Agrapart, um dos mais premiados na atualidade. Trata-se de um millésime 2012 Blanc de Blancs de vinhedos Grand Cru sob a cuvée Mineral. É exatamente esta palavra que define esta maravilha. Passa cinco anos sur lies antes do dégorgement. Sua versão extra-brut tem apenas 3 g/l de acúcar residual. Extremamente seco, mineral, acidez cortante, e toda a classe da Chardonnay neste terroir calcário. Corpo leve, elegante, final salino, de muita sapidez. Não é à toa que este champagne tem 95 pontos com apogeu previsto para 2030. O carpaccio de salmão com molho de limão siciliano, azeite, sal, mostarda de Dijon e mel, ficou perfeito. A acidez de ambos bem como as texturas se equilibraram perfeitamente. O sabor de peixe in natura com o molho valorizou o sabor delicado e inciviso do champagne. Uma combinação leve e estimulante para o andamente do almoço.

outra harmonização de classe

Não é todo dia que nos deparamos com um Corton-Charlemagne do tradicionalíssimo produtor Bonneau du Martray 2004. Um vinho de extrema classe, cheio de sutilezas. A madeira dá uma leve pincelada em seus aromas que mesclam frutas brancas delicadas, notas florais e um fundo mineral. Sua textura em boca é singular, lembrando um Chablis Grand Cru. O que mais impressiona neste vinho é sua juventude, embora já com quinze anos. Tem acidez e estrutura para ganhar pelo menos, mais dez anos em adega. Essa textura delicada foi muito bem com o cuscuz marroquino com caldo de frango feito em casa, cenoura, pimentão vermelho e um toque de gengibre para levantar o sabor. As vieiras com o coral por cima foram levemente grelhadas, onde posteriormente foi feito um redução com saquê e molho de ostras. O sabor adocicado das vieiras encontrou eco nas frutas do vinho e sua textura levemente amanteigada. Sabores de muita classe e sutileza se harmonizando perfeitamente.

mais um ótimo nota 100

No prato principal, Bordeaux não deixou por menos, La Mission Haut Brion 1989. Um vinho com 30 anos que ainda não está totalmente pronto, mas incrivelmente delicioso. Uma aula de taninos em profusão de rara textura. Seus aromas terrosos, de tabaco, ervas finas e um fundo de café, são de extrema classe. Em boca, outra perfeição. Não sobra álcool, acidez, e nem taninos, tudo em harmonia. Persistência aromática notável. O blend La Mission tem alta proporção de Merlot, embora a soma das Cabernets seja majoritária. O vinho passa pouco mais de 20 meses em barricas novas, totalmente integradas ao conjunto. O filé com ervas frescas à milanesa acompanhado de tagliatelli com molho de funghi porcini ficou muito adequado aos aromas e a classe deste grande tinto. Os terrosos do vinho com o funghi foi um caso à parte. O vinho pode se expressar em sua plenitude sem ser arranhado pelo prato. Um gran finale!

a mousse reconfortante!

Adoçando agora o paladar, uma deliciosa mousse de morangos frescos com sua própria calda. Ao final, uma bela grappa Levi estupidamente gelada, refrescando e animando o paladar para fora da mesa, onde Puros e destilados fechariam a tarde.

Trinidad e Hoyo de Monterey com Fine Bourgogne DRC

Um belo café, Porto Reserva, dando início aos Puros. As duas marcas muito elegantes com charutos de média fortaleza. Após o primeiro terço, Fine Bourgogne DRC, um brandy da região, Cognac Martell e  Bourbon Wild Turkey Rye 101, formaram o arsenal para baforadas mais intensas. 

Almoço bom é assim, começa com champagne e termina com fumaça, além de um meio de campo bem recheado. Que outros venham em breve!

Haut Brion em Branco e Preto

5 de Outubro de 2019

Se existe um Bordeaux que prima pelos seus tintos e brancos com a mesma qualidade, mesmo prestígio, e preços equivalentes, este chateau é Haut Brion. Nesta toada, participamos do almoço do Presidente no Ristorantino com algumas preciosidades entre brancos e tintos. Per cominciare, dois champagnes Selosse, o gênio do champagne independente. 

dois lieux-dits maravilhosos!

Conforme foto acima, Selosse faz seis lieux-dits em sua coleção. São partidas de poucas garrafas por ano, enfatizando a noção de terroir nos principais vinhedos de Champagne. O da esquerda, Mareuil sur Aÿ Sous Le Mont, é 100% Pinot Noir, portanto um Blanc de Noirs, de estilo mais delicado. Estava um pouco evoluído, mas percebe-se o extrato do vinho-base de Selosse que é sempre notável. Já o da direita, Ambonnay Le Bout du Clos, é composto por 80% Pinot Noir e 20% Chardonnay, o que lhe confere uma elegância impar. Muito gastronômico, textura macia, estava perfeito com seus toques de maçã cozida e brioche. Belos brindes para este almoço inesquecível. 

a jovem e competente sommelière, agora Senhora Juliana!

Acima, uma sofisticada máquina de frios, trazida especialmente para o evento, fatiando um belo culatello para acompanhar os deliciosos champagnes. O serviço de vinhos a cargo de Juliana Carani, transcorreu na mais absoluta discrição e competência. Agora, oficialmente com o mestre Beato. Um casal a ser batido!

img_6729ainda em evolução!

O par acima dos dois Haut Brion brancos mais novos, ainda tinha aromas tímidos e a boca um pouco angulosa, faltando a perfeita interação entre os componentes. O da safra 2011 estava mais tenso, com acidez mais viva. Sua composição é de 58% Sémillon e 42% Sauvignon Blanc. Já o da direita, safra 2012, estava mais macio, aromas finos, lembrando um pouco o estilo do 2010 que será comentado a seguir. Este blend é composto de 55% Sauvignon Blanc e 45% Sémillon.

img_6728vinhos que beiram a perfeição!

Este Haut Brion 2009 era puro charme. Um aroma de mel, flores, e fina pâtisserie. Boca equilibrada, delicada e final bastante longo. Era o mais integrado dos quatro brancos com uma composição pouco comum: 62% Sauvignon Blanc e 38% Sémillon. O da esquerda, Haut Brion 2010 tem a mesma categoria do 2009, mas ainda em evolução. Notas amanteigadas e de cogumelos eram mais evidentes, embora com aromas ainda discretos. Talvez o mais encorpado dos quatro provados com um equilíbrio fantástico. Seu Blend é composto por 54% Sauvignon Blanc e 46 % Sémillon.

sessão frutos do mar

Com esses brancos, não poderia faltar frutos do mar. As ostras frescas com um toque de limão siciliano ficarm ótimas com o Haut Brion 2011 com mais acidez e mineralidade. Já o belo carpaccio de polvo foi muito bem com o Haut Brion 2010 de textura mais rica. Ótimas harmonizações, mantendo o paladar aguçado.

img_6722uma trinca de ouro!

Provar um dos três Haut Brion históricos acima já é um privilégio. Agora provar os três juntos, lado a lado, só mesmo com nosso Presidente. Vinhos de alto nível com pontuações perfeitas onde a comparação chega a ser odiosa. Este Haut Brion 59 é um dos melhores vinhos que já provei de minha safra. Estava perfeito, plenamente evoluído e um equilíbrio fantástico. Os aromas de estrebaria, caixa de charutos, ervas finas, e tantos outros, estavam harmonicamente integrados. A delicadeza de seus taninos é somente dos grandes vinhos. O Haut Brion 45 também estava divino, mas um pouco cansado. Afinal, são mais de 70 anos de vida. Mesmo assim, seus aromas de café e chocolate eram estonteantes. Em boca que um pouco de cansaço se fez notar. De todo modo, maravilhoso. Por fim, o austero Haut Brion 61. Uma safra sempre sisuda, embora com uma estrutura monumental. Seus taninos ainda estão firmes, permitindo uma guarda segura em adega. Um Haut Brion de estilo francamente masculino. Enfim, uma experiência inesquecível. 

massas divinas com os tintos!

As massas acima, Cappeletti com Taleggio e Porcini, e Tortellini de carne com fonduta e sálvia, todas elas com trufas de Alba raladas na hora, foram um deleite para os velhinhos Haut Brion acima. A delicadeza, a textura das massas, além dos sabores elegantes dos recheios e das trufas, deram as mãos com os aromas terciários dos vinhos, permitindo toda sua expressão. Pratos bem executados de rara leveza, embora ricos em sabor.

safra monumental!

Além de ser o mítico Haut Brion 89, fizemos a prova em duas versões. Uma garrafa standard (750 ml) e uma Jeroboam (5 litros). Coisas que só o Presidente faz. Ficou claro na degustação às cegas, que o vinho mais evoluído, mais aberto, mais prazeroso no momento, deveria ser da garrafa standard, de evolução mais rápida. No entanto, a surpresa, o formato grande estava mais pronto e prazeroso. Por um lado foi bom, pois tínhamos mais vinho a saborear. Do outro lado, uma contradição onde os grandes formatos são descritos de evolução mais lenta. De todo modo, esta garrafa standard é de uma conservação perfeita, o que nem sempre acontece. Mais uma lição aprendida.

dois ótimos pratos!

Falei tanto dos formatos que esqueci de falar do vinho em si, uma maravilha. Já disse e repito, este Haut Brion é um dos cinco melhores Bordeaux já elaborados de 89 para cá. O vinho é de uma finesse impressionante com uma estrutura monumental. A boca é perfeita com tudo no lugar. Taninos finíssimos e abundantes, persistente e final arrebatador. E os aromas que ainda estão se desenvolvendo têm terciários fantásticos. Para aqueles que não provaram, um sonho de consumo. Foi muito bem com a Spalla d´agnello (paleta de cordeiro), valorizando toda sua estrutura. Outro prato divino que havia me esquecido foram as lulas recheadas com carne de caranguejo acompanhadas de lentilhas. Ficou muito bem com os Haut Brion brancos 2010 e 2012.

Yquem histórico!

Mais um vinho histórico com praticamente 100 anos, coisas do Presidente. Ele mesmo comprou in loco e presenciou a troca de rolha no chateau com a data 2018. Para Michael Broadbent, um dos mais experientes críticos ingleses e Master of Wine, um Yquem de legenda, possivelmente o melhor do século XX. De fato, o vinho impressiona pela vivacidade e ao mesmo tempo delicadeza. Seus aromas são exóticos, de mel caramelado, toques resinosos, lembrando muito os grandes Tokaji Eszencia. O vinho possui apenas 12,5% de álcool e 112 gramas por litro de açúcar residual, tudo perfeitamente equilibrado. Uma experiência incrível! 

combinação perfeita!

Mais uma vez, meu companheiro para fechar as refeições, o estupendo Yquem 2001. Será certamente um dos grandes do século XXI. Para quem estiver aqui em 2100, será seu apogeu. Um vinho marcante, de incrível intensidade, e um final extremamente longo. Ficou divino com o pudim de Pistache do Ristirantino, quase um cartão de visitas da Casa. 

Depois desta avalanche de preciosidades, resta pedir vida longa ao Presidente, uma pessoa de extrema generosidade que segue à risca uma das melhores frases sobre vinhos e enogastronomia: “É fácil me agradar, basta servir o melhor! Parabéns Presidente! 

Agradecimentos a todos os presentes, lastimando a ausência de alguns. Sempre uma mesa animada, bom papo, em torno das melhores taças de vinho. Que Bacco nos proteja!

Caminhos de um nota 100

21 de Setembro de 2019

Toda vez que nos deparamos com um vinho nota 100, algumas indagações vêm à mente. Será que é mesmo um nota 100, já foi um nota 100, ou será um nota 100?. Tudo isso porque o vinho evolui, tem seu auge, e seu inexorável declínio. Neste encontro entre amigos, tudo isso foi questionado e didaticamente esclarecido no agitado restaurante Nino Cucina.

img_6671a perfeição em Blanc de Blancs

Para iniciarmos os trabalhos em alto nível, nada como um bom Krug, especialmente um Clos du Mesnil 2004, última safra lançada pela lendária Maison. São apenas 1,8 hectare de vinhas Chardonnnay no melhor terroir da Côte des Blancs, Mesnil sur Oger.

Krug não tem pressa para elaborar seus vinhos. Este exemplar passou doze anos em suas caves antes de seu lançamento, boa parte deste tempo sur lies (em contato com as leveduras). Isso traz enorme complexidade ao champagne, além de mantê-lo frescor todos esses anos. Agora sim, vai começar seu envelhecimento em adega. De fato, ainda está uma criança. Um frescor inigualável, mineralidade, toques cítricos de grande pureza, e um equilíbrio em boca fantástico. Sua persistência aromática é longa, deixando um final vibrante e de muita mineralidade, salinidade. Deve envelhecer por no mínimo, mais dez anos em adega. Como dizia Henri Krug: é fácil me agradar, basta servir o melhor!

deliciosos arancini

Continuando nos brancos, mais um Borgonha de fina estirpe, Meursault-Charmes 2015 do Domaine Lafon. Outro minúsculo vinhedo de 1,71 hectare com vinhas plantadas em 1946, 1963, e 1996. O vinho tem um longo trabalho em barricas com sucessivos bâtonnages (revolvimento das borras conferindo textura e complexidade), especialidade e savoir-faire do Domaine Lafon. Um vinho delicioso com toques amáveis de pâtisserie, macio, textura sedosa dos grandes Meursaults, e muito longo em boca. Acompanhou muito bem os deliciosos arancini recheados com queijo.

img_6673um dos Montrose mais perfeitos

Neste primeiro nota 100, Parker sugere que algumas garrafas podem ter sido afetadas por Brettanomyces (Brett), pois seu lado terciário, animal, acaba sendo muito prevalente, sufocando um pouco a fruta. Neste exemplar, o vinho estava perfeito e muito próximo do auge. Tinha couro, estrebaria, caixa de charutos, mais ainda com fruta deliciosa e ervas. Seus taninos poderosos muito bem polimerizados e um frescor dos grandes Saint-Estèphe. É muito longo em boca e não parou de evoluir nas taças, justificando sua nota. Precisa ser decantado por pelo menos uma hora. Encontra-se delicioso no momento.

Assemblage: 64% Cabernet Sauvignon, 32% Merlot, 4% Cabernet Franc

Amadurecimento: cerca de 18 meses em barricas (60% novas, em média).

img_6675o carneiro saltitante nesta grande safra

Felizmente provei esse vinho várias vezes em diferentes momentos de evolução, e cada vez mais, percebo que se encontra no auge. Certamente, não terá a mesma longevidade que seu arquirrival Latour 82. Há dez anos por exemplo, era mais agradável, mais exuberante que o próprio Latour de mesma safra. Hoje em comparação com outros nota 100 degustados, percebemos claramente que não tem mais como evoluir. Seus taninos estão todos resolvidos e os aromas terciários plenamente evoluídos. Prazer total em provar um grande Bordeaux em seu esplendor. Certamente, um dos melhores em toda a história do Mouton.

Assemblage: 85% Cabernet Sauvignon, 8% Cabernet Franc, 7% Merlot

Amadurecimento: 19 a 22 meses em barricas novas

img_6674a perfeição existe!

Falar de grandes Bordeaux, especialmente do chateau Haut Brion, é algo até redundante. Safra após safra, este chateau é um dos mais consistentes entre todos os grandes. Contudo, de tempos em tempos, surge um Haut Brion fora da curva, acima da média que já é bastante alta. Um deles é este maravilhoso 89, seguramente um dos cinco melhores Bordeaux entre todos de 89 pra cá. É o menos pronto entre os nota 100 provado, mas já é absolutamente delicioso e irresistível. O vinho tem um força extraordinária, harmônico, macio, taninos em profusão, mas extremamente finos. Os aromas de fazenda, de estrebaria, de ervas finas, de caixa de charutos, notas de café, e tantos outros indescritíveis. A boca é generosa, perfeita, sem arestas, e o vinho fica, fica, e fica na boca. Deve ainda evoluir por longos anos, pois sua juventude se faz presente com muito vigor. Realmente, um privilégio provar este 89 mais uma vez. Vinho da ilha deserta …

Assemblage: 50% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot, 9% Cabernet Franc

Amadurecimento: até 24 meses em barricas novas

a doçura sublime!

Dos vários Yquem que tenho provado, este 2001 vai fazer história. Do século passado, o mais recente capaz de equipara-lo é o Yquem 1975, sempre divino. Este 2001 ainda está na infância, dando seus primeiros passos, mas é um mamute engarrafado. Uma força extraordinária onde o açúcar, álcool e acidez, estão em perfeita harmonia. Os toques botrytisados, o mel intenso, a fruta exuberante, tudo em perfeito equilíbrio. Com apogeu previsto para 2100, ainda terá muitas roupagens rumo ao esplendor. No momento tem a força necessária para um cremoso roquefort. 

Balanço perfeito: 13,6% álcool, 150 g/l açúcar, e 4,5 g/l acidez (e um extrato fabuloso).

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Com essa turma acima, não há mais o que falar. Só agradecimentos ao Presidente pela imensa generosidade e extremo bom gosto. Abraços fraternos a David e Ettore pelo sacrifício. Vinhos para não procurar defeitos, apenas contempla-los. Difícil superar esta seleção. Que Bacco continue nos guiando pelos melhores caminhos!

Bordeaux Históricos: Chutando o Balde!

27 de Julho de 2019

Sabe aquele dia de maldade.  Aquele dia que você acorda e pensa: hoje eu vou chutar o balde!. Não quero correr riscos, só certezas, o céu é o limite, o dia perfeito. Foi o que aconteceu no ótimo restaurante Picchi, sob a batuta do talentoso Chef Pier Paolo Picchi no comando das panelas, e o competente Ernesto, sommelier da Casa com larga experiência em serviço do vinho.

O tema foi simplesmente vinhos nota 100. Realmente, sem comentários. Vinhos consagrados pela crítica especializada e que se firmaram definitivamente ao longo do tempo. O foco central foram os grandes Bordeaux, mas as estrelas do Rhône, além de Champagne e Borgonha, brilharam igualmente.

 12 anos sur lies

Para iniciar os trabalhos, um Dom Perignon Oenotheque 96 com 97 pontos Parker. Uma maravilha de champagne, ainda com muito frescor dado pelo prolongado contato sur lies. Na atual nomenclatura da Maison, este Oenotheque  equivale ao P2, ou seja, segunda plenitude. Elegante, mineral e com final marcante.

bela harmonização com vieiras

Antes de partir para os tintos, um belo Chevalier-Montrachet de Madame Leflaive foi servido com vieiras e couve-flor. A harmonização enfatizou o frescor e o lado mineral do vinho. Apesar de alguns anos de evolução, safra 2002, o vinho estava macio, envolvente, com toque amanteigados e de frutas secas, sem nenhum sinal de decadência. Quase no nível do 92, o qual é um dos grandes da história do Domaine.

img_6402beirando a perfeição

Já chutando o balde, de cara o Haut Brion 89 no primeiro flight. Uma safra histórica para o Chateau com muita intensidade nos aromas, boca ampla, e equilíbrio perfeito. Não tem como tirar ponto deste vinho. Destaque absoluto do jantar. Seguindo a toada, um Montrose também histórico. Denso, marcante, taninos poderosos e super finos. Longa persistência aromática. Por fim, O La Mission 89 destoou um pouquinho dos demais que estavam perfeitos. Longe de estar com problemas, um vinho ainda um pouco fechado, sisudo, mas com belo frescor e taninos ainda abundantes. Deve ser obrigatoriamente decantado, pois melhorou muito na taça. Início arrebatador!

img_6403ano de muita expectativa

Indo agora para a turma de 90, um trio de respeito. Cheval Blanc esbanjou elegância, o que é mais que esperado. Macio, equilibrado, cheio de sutilezas, e um final muito bem acabado. Já o Montrose 90 que muitas vezes pode apresentar um Brett excessivo (toques animais acentuados), desta feita a garrafa estava perfeita com tudo no lugar. Decidir entre Montrose 90 e 89 é muito mais uma questão de gosto, do que técnica. Mais um vinho para ficar na memória com sabores marcantes e profundos. Por fim, o Margaux 90, um vinho cheio de nuances que ainda não está pronto. Precisa ser decantado com antecedência, além de muita paciência na adega, pois tem segredos a revelar. Foi o que menos emocionou neste trio no momento.

img_6404o Rhône Brilha!

Neste flight, só o fato de termos um La Chapelle 78 já é motivo de contemplação. Um dos Hermitages históricos no nível do mítico 61. Um dos vinhos que requer maior tempo de guarda, após mais de 40 anos de safra, estava divino. Seus toques defumados e de chocolate são muito bem mesclados com a fruta, além dos taninos totalmente polimerizados. Um veludo em boca com grande expansão final. 

Já na trilogia dos Hommages, alguns probleminhas. Começando pela safra 90, estava perfeita. Totalmente íntegro, sem sinais de decadência, este vinho tem muito poder de fruta, rico em ervas e especiarias. Tem um lado balsâmico, um certo toque de incenso, formando um conjunto harmonioso. O grande destaque do trio. Na safra 89, a primeira baixa do jantar. O vinho estava prejudicado com o característico bouchonné. Mesmo assim, dava para perceber a força deste vinho. Denso e de longa persistência. Seria certamente o vinho do flight se estivesse perfeito. Por fim, a safra 98 é bastante atípica para esta cuvée. Com grande porcentagem de Grenache ao invés de Mourvèdre, o vinho apresentou-se muito macio, além de discreta estrutura tânica. Muito agradável de ser tomado, mas falta aquela profundidade dos grandes vinhos.

escargot e coelho no menu

Fazendo uma pausa nos vinhos, a foto acima revela alguns pratos do jantar. O da esquerda (polenta, escargot, e berinjela levemente defumada), formou um belo par com os Bordeaux 89 com toques terrosos e traços empireumáticos casando perfeitamente com os vinhos. No agnolotti de coelho à caçadora, prato muito bem executado, a parte aromática, rica em ervas, além da elegância e textura do conjunto, foram fatores decisivos para amalgamar os ricos sabores da trilogia Hommage. Ponto alto do jantar!

44409b0d-7314-405c-9f3e-f5356a26f17fdois mitos bordaleses

Agora para tudo!. Eis que chegam às taças, Mouton 45 e Haut Brion 61. Difícil traduzir em palavras as sensações provocadas por esses “monstros”. Só a incrível riqueza de frutas que um vinho com mais de 60 anos consegue preservar, já vale a experiência. Este Mouton é daqueles vinhos imortais que desdenham o tempo. Uma força, uma energia, uma maciez em boca, taninos quase glicerinados, e um final arrebatador. O único vinho que lembrou nos aromas algo deste Mouton foi exatamente o Haut Brion 89, outro monstro que está sendo criado ao longo do tempo. 

Falando agora do Haut Brion 61, é outro sonho, outro devaneio. Toda a elegância do Haut Brion potencializada numa grande safra, rica em taninos e de grande frescor. Os terciários deste vinho são incríveis com muita torrefação, ervas, tabaco, e um toque de carne grelhada sensacional. É difícil compara-lo ao Mouton 45, pois obras de arte não se comparam. De todo modo, um exemplo marcante onde a perfeição tem vários caminhos, e todos eles igualmente surpreendentes. Bravo!

img_6406a essência de 82

Neste último grande momento, a elite de 82 pede passagem. O Latour 82 como sempre, todo soberano, de uma altivez e elegância ímpares. Uma estrutura de taninos fabulosa, ainda capaz de vencer décadas em garrafa. Boca perfeita, poderosa, e ampla. 

Quanto aos outros dois, Pichon Lalande 82 é daqueles vinhos que fizeram apenas uma vez e jogaram a fórmula fora. Mesmo sendo um deuxième, se impôs de uma tal maneira sobre o Mouton, mesmo de uma garrafa perfeita. Parece que ele está mais vivo, poderoso e estruturado que o prório Mouton. Elegante ao extremo, taninos ultra polidos e um final de boca duradouro. O Mouton 82 sempre fantástico, mas a cena ficou com o Pichon mais uma vez. 

Fim de noite, muitas conversas, taças ainda guardando as emoções de um grande encontro. Os grandes anos da segunda metade do século XX nos brindando o novo milênio que está só começando. A vida é uma sucessão de fatos que marcam cada época e a transmissão de experiências que se perpetuam. Os grandes Bordeaux ao longo das décadas traduzem com maestria este pensamento, onde a longevidade faz reviver emoções que revelam peculiaridades de um tempo passado.

Agradecimentos eternos a todos os confrades por esses momentos absolutamente inesquecíveis, só mesmo possíveis, pela generosidade e amizade que nos unem. Que Bacco sempre nos proteja nestes devaneios …

Haut-Brion e seus encantos

20 de Julho de 2019

Nos subúrbios da cidade de Bordeaux, as velhas vinhas de Haut-Brion plantadas em 1423 se renovam ao longo do tempo num trabalho viticultural minucioso. Sua primeira safra em 1525 mostrou aos ingleses o surgimento de uma nova era de vinhos, colocando definitivamente Bordeaux no topo dos vinhos de elite.

Num terroir diferenciado do Médoc, Haut-Brion desfruta de muitas pedras em meio à areia, argila e calcário com raízes profundas. O blend tem alta porcentagem de Merlot, a qual confere ao vinho uma notável maciez. A longevidade é garantida pela Cabernet Sauvignon e um toque de refinamento é dado pela Cabernet Franc. Em média temos: 45% Merlot, 45% Cabernet Sauvignon, e 10% Cabernet Franc.

Haut-Brion costuma ser um vinho muito agradável mesmo jovem, sem a costumeira austeridade dos vinhos do Médoc. Aqui estamos falando da apelação Pessac-Léognan, a qual antigamente era chamada de Graves. Haut-Brion portanto, desfruta da classificação de 1855 e também da classificação de Graves em 1953, sempre como vinho de exceção. 

828151d1-1ccb-4bca-9d25-1d16f90f3124cinco safras em taças Zalto

Num belo almoço no restaurante Gero, sob a batuta do carismático Maître Ismael, cinco safras deste Premier Grand Cru Classé confirmaram toda a complexidade, elegância e sedução em taças Zalto. O estranho no ninho, à esquerda da foto, é o espetacular Chevalier-Montrachet de Michel Niellon, um dos especialistas nesta apelação. São apenas 0,23 hectare de vinhas antigas com baixos rendimentos. A vinificação visa preservar ao máximo a acidez e frescor dos vinhos. O toque de madeira é discreto, quase imperceptível, valorizando a elegância e sutileza dos grandes Chevaliers. Neste exemplar extremamente novo e já muito prazeroso, a sutileza, o equilíbrio, e a pureza de aromas, são notáveis. Final refrescante e persistente. Belo inicio para ativar as papilas!

01342177-1366-46ef-8d8e-b27c5295c117mudança de rótulos

Aqui o ponto alto do almoço no sentido de prontidão e puro prazer. Duas garrafas muito bem guardas, mostrando como evoluem bens os grandes Bordeaux. O Haut-Brion 82 com 95 pontos faz jus à esta mítica safra. Um tinto ainda com força bons anos em adega, mas já muito prazeroso. Polido, elegante, taninos super finos, e um final de extremo equilíbrio, ainda com fruta. Sempre um porto seguro. 

Contudo, a grande surpresa foi o Haut-Brion 71, de longe, o melhor Bordeaux 71 que já provei. A garrafa estava perfeito nos seus quase 60 anos de idade. Todos os terciários bem desenvolvidos, sem sinais de decadência. Embora não tivesse a força do 82, esbanjava elegância e incríveis aromas de funghi porcini. Uma maravilha e prova de consistência deste grande Chateau, mesmo em safras não tão badaladas.

harmonizações perfeitas

Para fechar os comentários, os pratos acima foram muito bem com os vinhos. O da esquerda, Paccheri (espécie de rigatoni gigante) ao molho reduzido de vitela tinha a intensidade e compatibilidade de sabores com o Haut-Brion 82. Já o risoto de funghi porcini só fez revelar e amplificar os complexos aromas do Haut-Brion 71. Ponto alto do almoço.

grandes safras!

Embora o Haut-Brion 95 ainda esteja em evolução, sua maior porcentagem de Merlot em relação à safra 89, confere boa maciez e maior acessibilidade, mesmo relativamente jovem. Os aromas terrosos e animais ainda estão entremeados por cacau e chocolate com taninos muito presentes, mas de ótima textura. Um vinho com força para evoluir muitos anos em adega. Quanto ao Haut-Brion 89 será certamente um das safras históricas do chateau. Um vinho com trinta anos, mas pleno de energia e fruta. Tem uma densidade acima do normal, própria dos grandes vinhos. Seus taninos muito finos e abundantes garantem um longa guarda em adega.

É interessante notar a diferença dessas duas duplas degustadas, percebendo que nos exemplares 89 e 95 já temos uma formação dos terciários, mas com a fruta ainda muito presente e taninos a resolver, embora de extrema qualidade. No caso dos exemplares 82 e 71, os vinhos estão num estágio mais avançado, com os terciários muito mais presentes, e boca bem resolvida, sem arestas. De todo modo, todos os dois muito vivos e sem nenhuma pressa para serem abatidos.

Não deu tempo de provar o Haut-Brion 98 desta vez, mas trata-se de outra safra quase perfeita, 99 pontos. Com praticamente 60% de Merlot no corte, é um vinho macio, bem acessível pela idade, mas com futuro brilhante, já que a fruta está muito presente. Deve evoluir bem, adquirindo os maravilhosos aromas terciários, dignos deste grande Chateau. 

Agradecimentos aos amigos e confrades por mais esta oportunidade, numa prova de amizade e generosidade. A boa conversa se prolongou com cafés, charutos e muitas risadas. Vida longa aos confrades e que Bacco nos proteja!

Bordeaux Nota 100 numa das mãos

17 de Julho de 2019

Um vinho dito perfeito ou mais realisticamente que flerta com a perfeição, é por contraponto um vinho sem ressalvas. Se é difícil e subjetivo apontar suas qualidades, aromas e nuances, fica mais fácil não conseguir apontar algo que desagrade ou que deixe a desejar. Portanto, se não conseguimos tirar um único ponto de um determinado vinho, ele é um nota 100, símbolo da perfeição, tornando-se com o tempo uma lenda.

Quando comecei a provar grandes vinhos, após um breve espaço de tempo, fiz uma pequena lista de grandes nomes, achando que seriam os melhores para todo o sempre. Ledo engano, quanto mais provo, quanto mais repito aqueles mesmos vinhos que um dia endeusei de maneira absoluta, quanto mais sinto a evolução deles ao longo do tempo, mais dúvidas, mais dilemas, mais senões, turbilhonam a mente, sem uma conclusão definitiva. Além da emoção do momento, nunca devemos nos esquecer que obras de arte não se comparam, apenas estão a nosso alcance para serem apreciadas.

Neste sentido, faço uma nova lista, desta vez sem ilusões e conclusões definitivas, sabendo que além destes, tanto outros poderiam estar incluídos, e quem sabe com o tempo, esses mesmos vinhos seriam substituídos por outros. Enfim, vou me resumir a Bordeaux, um terroir de muitos notas 100, e neste caso apenas cinco, que cabem numa das mãos.

Deixei de lado mitos que com o tempo foram desaparecendo, ficando quase inacessíveis, e altamente sujeitos a falsificações. Vinhos que quem os provaram, ficou a lembrança inesquecível na pátina do tempo, como Margaux 1900, Cheval Blanc 1921, Mouton 1945, Petrus 1929. Todos eles imortais.

A lista abaixo é de ordem aleatória, cabendo a cada um com suas preferências pessoais, ordena-los a seu modo. São vinhos caros, difíceis de serem encontrados, mas ainda assim acessíveis para os entusiastas persistentes e tenazes. 

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Chateau Haut Brion 1989

Primeiramente, uma homenagem a este único Premier Grand Cru Classé de Graves na classificação de 1855. Um chateau altamente consistente na maioria das safras por suas elegância e empatia, mesmo em tenra idade. Nesta safra em particular, potencializa todas suas virtudes num vinho de muita força e presença. Um final muito bem acabado e radiante quase querendo dizer: a minha idade não é a que eu tenho, mas a que pareço.

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Chateau Mouton Rothschild 1986

Outro grande vinho da ótima década de 80. Mouton costuma ser um tinto muito inconstante, dependendo da safra, mas quando acerta, é excepcional. Este Mouton 86 é totalmente diferente em estilo do Haut Brion acima. Um vinho cheio de cerimônias e segredos, necessitando de algumas horas de decantação, obrigatoriamente. Um vinho que se mostra muito pouco ainda, mas dá uma aula de taninos e potência. Tem uma força e energia impressionantes, testando nossas paciência e curiosidade. Será certamente um daqueles vinhos imortais, atravessando décadas.

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Le Pin 1982

Falar dos melhores da mítica safra 82 é arrumar confusão e polêmica. Afinal, deslumbrantes chateaux desfilaram nesta safra com galhardia. Minha escolha foi para homenagear Pomerol e lembrar para alguns que o rei Petrus tem seus concorrentes. Le Pin tem uma produção diminuta, menor ainda que Petrus, e também trabalha com 100% Merlot. Sua história é mais recente, sendo um dos precursores dos chamados “vins de garage”. Nesta safra, ele se supera, mostrando toda a sensualidade e presença de um grande Pomerol. Lembrar que Petrus nesta safra foi abaixo das expectativas.

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Chateau Latour 1961

Numa relação de cinco grandes Bordeaux, não poderia deixar de estar presente o grande Latour, o senhor do Médoc. Outro vinho de consistência e longevidade impressionantes, safra após safra. Dentre muitos maravilhosos Latour, este impressiona pela rica estrutura e enorme longevidade, sem demonstrar as marcas do tempo. Taninos poderosos e ultrafinos permeiam a taça. Na mesma linha do Mouton 86, necessita de algumas horas de decantação. Um verdadeiro monumento a Bordeaux.

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Chateau Lafite Rothschild 1953

Este é outro Chateau que não poderia ficar de fora. O mais delicado, o mais sutil, o mais borgonhês de Pauillac. Escolhi esta safra porque é o melhor 53 para Parker. Uma safra não tão badalada, mas de belos vinhos. Poderia ter sido um 59, mas acho 53 um dedinho superior. Lafite é um vinho que envelhece magnificamente, mostrando todas suas sutilezas e segredos com um aporte de acidez que lhe conferem uma tensão no equilíbrio gustativo quase única. Seus toques orientais e de cedro no aroma são marcas registradas que denotam classe e distinção. 

Enfim, um preâmbulo para uma bela degustação que terremos em breve com esses tema. Evidentemente, não necessariamente esses vinhos, mas com certeza, preciosidades deste mesmo nível, marcando momentos inesquecíveis. Aguardem!

Mouton e seus rótulos inesquecíveis

14 de Julho de 2019

Mouton Rothschild não tem a consistência de um Latour, safra após safra, mas quando acerta o ano, é excepcional. Classificado como deuxième em 1855, Mouton só foi promovido a Premier Grand Cru Classe em 1973 por decreto presidencial do então presidente Giscard d´Estaing. Mouton que nunca aceitou a posição de inferioridade na classificação, protestou nas legendas do castelo de forma sucinta e contundente. Antes da promoção era escrito: Premier ne puis, second ne daigne, Mouton suis, ou seja, Primeiro não posso, segundo não concedo, eu sou Mouton. Após a promulgação do decreto, escreveu: Premier je suis, Second je fus, Mouton ne change. Traduzindo: primeiro eu sou, segundo eu fui, Mouton não muda. Sensacional, sugerindo o erro de avaliação cometido desde o princípio …

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Voltando às safras, temos alguns Moutons históricos como 45, 59, 61, 82, e 86, para não alongarmos muito a conversa. Em particular, Mouton 45 pode ser considerado seguramente como um dos três melhores Bordeaux de todos os tempos, um vinho imortal. Nesta linha de imortalidade, Mouton 86 caminha inflexível em sua trajetória. Parece que nunca ficará pronto, necessitando algumas horas de decantação para sua apreciação.

ae6913d2-9ece-4095-94cd-46eefe5852c4Mouton: a cada safra, uma roupagem

Num agradável almoço no restaurante Nino Cucina, fizemos uma vertical de Mouton (foto acima), onde faltou o Mouton 2000 na cena. Antes porém, um par de brancos irretocável de Madame Leroy de produções diminutas e de grande impacto gustativo.

menos de meio hectare de vinhas

Neste primeiro branco, um vinho de alta costura do Domaine Leroy, o único Grand Cru branco da coleção com 0,43 ha de vinhas, produzindo menos de duas mil garrafas por safra. Este 2009 degustado várias vezes é sempre impactante com aromas bem definidos, sabores profundos, e longa persistência  aromática. Um vinho que beira a perfeição.

um lieu-dit notável 

Madame Leroy gosta de desafiar a si mesma e faz este Meursault deslumbrante de sua mais exclusiva boutique de vinhos, Domaine d´Auvenay, criada em 1988. A ideia aqui é selecionar vinhedos exclusivos de baixíssimos rendimentos, elaborando verdadeiros néctares. Este branco acima encarou seu próprio Grand Cru Corton-Charlemagne de igual para igual. E notem, Les Narvaux é apenas um Lieu-Dit, nem é classificado como Premier Cru. Seria digamos, um Meursault  comunal de luxo. São apenas 0,67 hectare de vinhas com 72 anos de idade e rendimentos de 20 hectolitros por hectare. O vinho tem uma concentração impressionante, um equilíbrio notável e um final de boca impecável. Não poderia começar melhor o almoço …

camarões e alguns crudos para acompanhar estas maravilhas

img_6321inconstância nas safras

A surpresa do almoço foi este Mouton 66 do alto de seus 53 anos. Um exemplo de Bordeaux bem envelhecido com seus toques tostados e de caixa de charuto. Ainda com fruta e um belo equilíbrio, representou bem os anos 60. Já seu oponente, Mouton 68, uma decepção. Pode ser em parte problema de garrafa, mas a safra realmente não ajudou. Um vinho curto, com a fruta já secando, acidez desequilibrada, não foi páreo para os demais.

img_6323safras medianas

Neste embate, percebemos claramente uma safra que não se desenvolveu bem, já em decadência, 1968 já comentado. Por outro lado, este Mouton 76 é um vinho mais delicado, sem a pujança das grandes safras, mas agradável e elegante. Ainda tem um pouco de fruta e taninos para sustentar alguma estrutura. Beber já.

Mouton 82: Soberano!

Nessas duas comparações, Mouton 82 está muito acima. Numa safra perfeita, esbanja fruta, complexidade, equilíbrio, persistência aromática, e muita vida pela frente. Já delicioso para tomar, mas com um amplo platô de estabilização. Muitos acham que será o sucessor do mítico 45. O tempo dirá. Já o Mouton 96 é uma bela safra, também prazerosa, mas sem a profundidade de 82. Por mais que ela ainda evolua, e vai evoluir certamente, não tem extrato suficiente para atingir o 82. Por fim, o belo Mouton 83, ofuscado pelo reluzente 82. Uma safra clássica, mantendo o DNA Mouton, e chegando bem com mais de trinta anos de vida. Dessas três, é a menos potente, mas muito elegante. 

ainda em evolução …

Acima, dois Moutons muito bem pontuados e valorizados, sobretudo esta linda garrafa de Mouton 2000. Este 95 não gostei muito. Pode até ser um problema de garrafa, mas o vinho estava curto em boca para padrões Mouton. Seus aromas ainda fechados, é um vinho meio enrustido. Pode ser que abra no futuro, mas tem uma teoria que vinho bom já é bom desde início. Por isso, tenho minhas dúvidas. Já o Mouton 2000 é um vinho que claramente não está pronto, mas já percebe-se sua grandeza. Decantado por duas horas, seus aromas começam a se abrir com frutas escuras, os típicos toques tostados (café), e ervas finas. Os taninos são sedosos e o equilíbrio dos grandes vinhos. Deve atingir outra dimensão com mais dez anos de guarda. Um dos belos Moutons a ser adegado.

Em resumo, os grandes Bordeaux sempre encantam pelo seu poder de longevidade. São vinhos quando bem adegados, capazes de atravessar décadas no tempo, transformando aromas e sabores. Mouton é um deles, sempre se renovando, inclusive na apresentação de rótulos inesquecíveis, numa verdadeira coleção. 

Agradecimentos eternos aos confrades e amigos pelo generosidade, companhia, e boa conversa. Saudades de outros tantos que por razões diversas, não puderam estar presentes. Que Bacco nos ilumine e nos proteja sempre!

Mouton Rothschild: do inferno ao céu

8 de Junho de 2019

Quando falamos de um dos cinco Premier Grand Cru Classé da classificação bordalesa de 1855, pensamos sempre na perfeição e em vinhos inesquecíveis. Porém, nem tudo são flores. O famoso Mouton Rothschild 1965 ficou marcado na história de Robert Parker como o pior Mouton já degustado. À época, ele concedeu a nota mínima de 50 pontos, execrando o vinho em comentários horripilantes. Neste contexto, resolvemos fazer uma pequena vertical de Mouton incluindo alguns velhinhos, entre eles o 65, mas também algo de maravilhoso como os Moutons 59 e 61, para não ficar uma má impressão do Chateau que realmente em algumas safras é espetacular.

mineralidade com sabores puros do mar

Para iniciar os trabalhos, a primeira baixa do almoço. Um Montrachet do produtor Ramonet 1995 oxidado, descendo a ladeira. Uma pena, pois em plena forma seria maravilhoso. Para recompensar e dar o troco à altura, um Krug Clos du Mesnil 2000 com 95 pontos despertou as papilas para sabores elegantes e estimulantes. Embora já com seus quase vinte anos, um champagne cheio de vida, mousse vivaz, equilíbrio perfeito, e aqueles toques cítricos com notas de gengibre. Final limpo, seco, mineral, quase cortante. Um espetáculo. Como diz a família Krug, é fácil me agradar, basta servir o melhor. Acompanhou muito bem alguns crudos de mare do restaurante Nino Cucina. Ver fotos acima, vieiras e atum.

img_6164os anos 60 nada dourados …

Neste primeiro flight, outra baixa de cara. O Mouton 64 nem foi para a mesa, tal o grau de oxidação do vinho. A grata surpresa foi o Mouton 62 em plena forma. Realmente, sua cor era mais intensa e com vivacidade surpreendente. Ele não tem a densidade das grandes safras, mas é equilibrado, elegante, e muito agradável no momento. Já o Mouton 63 num patamar inferior. Não estava comprometido, mas percebe-se a falta de extrato do vinho numa safra sem grandes emoções. Mais curto e bem menos rico que seu antecessor. Finalmente, o terror de Parker, Mouton 65. O bicho não é tão feio quanto parece, mas realmente nada animador. Seus aromas já evoluídos, não comprometem, mas a boca decepciona a cada instante que passa. É um vinho curto, sem fruta, deixando a boca seca. Seus poucos taninos são de péssima qualidade para a categoria do vinho, deixando um herbáceo desagradável no final de boca. Coitado do Parker …

belos pratos do Nino Cucina

Na foto acima, alguns pratos do Chef Rodolfo de Santis do Nino Cucina, sempre lotado. À esquerda, um tagliolini com molho de calabresa, massa fresca al dente. À direita, uma polenta taragna com vitela ao molho. Pratos muito bem executados, além da clássica sobremesa da Casa, torta della nonna com gianduia, última foto do artigo.

img_6166quase 200 pontos na mesa

Era para ser uma trinca, mas o Mouton 60 nem saiu na foto. Outra baixa lamentável. Um aroma forte de acetona com níveis de acidez volátil altíssimos. Finalmente, depois de alguns instantes no inferno e purgatório, eis que vamos para o céu. A dupla acima da foto, esta é bem afinada. O que impressiona de cara nos dois vinhos é a juventude desses senhores sexagenários sem nenhum sinal de decadência. O Mouton 61 neste embate parece estar um pouco mais pronto. Seus aromas são mais desenvolvidos, taninos finíssimos e de boa polimerização, além de um final harmônico e persistente. Por fim, o Mouton 59 com 100 pontos Parker, e um dos grandes da história. É só dar um pequeno zoom no Mouton 61 para chegar a ele. Tem uma cor mais marcante, seus aromas são um pouco mais fechados, e sua estrutura tânica é mais potente. Tanto o 61 como o 59 devem ser decantados por pelo menos uma hora antes do serviço. Dois tintos que realmente dignificam o prestígio deste grande Chateau.

img_6168dois grandes Sauternes

Podia ser uma parada realtivamente fácil para o grande Yquem, mas era outro vinho um pouco prejudicado. Embora da safra 99, sua cor estava evoluída demais para a idade e tinha um pontinha de acidez volátil acima do aceitável. Já o Rieussec 2005, em plena forma. Aromas intensos de pâtisserie, mel, flores. Boa untuosidade, bom frescor, e doçura agradável. Persistente e muito harmônico. Garrafa em excelente estado.

Tokaji Aszu acima de seis puttonyos

Passando a régua e adoçando um pouco mais o almoço, um Tokaji raro de 1993 com uma bela carga de puttonyos, medida em peso húngara para definir o grau de botrytis nos vinhos Tokaji doces. O Aszu Eszencia é um nível acima de 6 puttonyos que não é mais produzido, estando atualmente fora da legislação. Um estilo diferente do Sauternes, onde temos menos untuosidade e mais acidez dada pela uva Furmint. Muito equilibrado e revigorante. Seus aromas de favo de mel e rapadura eram marcantes e intensos.

É sempre bom frisar a diferença entre Aszu Eszencia e Eszencia. O primeiro, já explicado acima, é bastante intenso, mas com nível de doçura abaixo do raro Eszencia que normalmente fica entre 2 e 3 graus de álcool somente. Sua doçura que pode chegar a 600 gramas de açúcar por litro é compensada por uma surreal acidez acima de 15 gramas por litro. Um néctar para ser sorvido calmamente.

Agradecimentos a todos os confrades pela excelente companhia e generosidade, especialmente a nosso Presidente e seu assessor direto que hoje estava impossível. Matou todos os vinhos, sem delongas e sem comparações com outras amostras. Preciso estudar mais para acompanhar este pessoal. Que Bacco sempre nos acompanhe, seja no céu ou no inferno …

Pato, Canard, Anatra: Harmonização

30 de Maio de 2019

Sejam receitas abrasileiradas, francesas, ou italianas, a carne de pato merece atenção na hora de harmonizar o vinho. Com a maioria das aves como nosso frango, galinha caipira, codorna, perdiz, faisão, nosso peru de natal, vinhos tintos de leve a médio corpo como aqueles elaborados com Pinot Noir, geralmente caem bem. Mesmo alguns brancos mais encorpado, dependendo da receita, também são interessantes. Contudo, quando falamos de pato, apesar de ser uma ave, a ideia de harmonização deve ser repensada. 

A carne de pato tem sabor mais pronunciado, é mais fibrosa, tem maior irrigação sanguínea. Portanto, devemos pensar em tintos mais robustos e de certa personalidade. Neste artigo, vamos dar três exemplos de harmonização, já pensando no inverno que se aproxima, haja vista o arzinho mais frio de outono que já bate em nossa porta.

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Prato clássico do sudoeste francês, o confit de canard é uma criação antiga num tempo que ainda não havia refrigeração, traduzindo, geladeira. As carnes eram preparadas na própria gordura com sal, processo que prolonga sua conservação. O confit propriamente dito, é a coxa e sobrecoxa do pato confitada na gordura.

É uma carne muita saborosa,  daquelas carnes escuras perto do osso. Além disso, tem uma certa fibrosidade e evidentemente gordura. O acompanhamento pode ser champignons como da foto acima, batatas ao forno, feijão branco, ou um belo risoto. Os tintos da região do sudoeste francês são perfeitos. Tanto o Cahors (um Malbec bem diferente do argentino) ou o Madiran (um Tannat um pouco diferente do uruguaio), são vinhos robustos, de boa acidez e destacada tanicidade. Qualidades mais que suficientes para enfrentar este prato invernal. Os champignons ajudam quando temos tintos de certa evolução com aromas terciários.

Bordeaux de margem esquerda relativamente jovens também podem acompanhar bem. Contudo, os tintos do sudoeste tem aquela rusticidade natural de acordo com o prato. Outras regiões como Ribera del Duero, tintos do Douro, ou Supertoscanos, podem ser boas opções. O importante é o vinho ser robusto, ter boa acidez para a gordura e taninos de certa potência.

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Outro clássico francês, num peito de pato fatiado com aquela capa de gordura, nossa picanha de penas. O ponto correto é mal passado com bastante suculência. Portanto, um cenário perfeito para vinhos com tanicidade destacada e boa acidez para a gordura. O grande problema deste prato normalmente é o molho que tende a ser agridoce. È muito comum incluir frutas vermelhas ou escuras na receita. Portanto, precisamos de vinhos um tanto jovens, de fruta mais evidente, e taninos mais vigorosos. Pensando nos Bordeaux, aqueles da margem direita, calcados na uva Merlot, parecem ser as melhores opções. Um belo Syrah do Rhone Norte é outra pedida interessante. Pode ser um Côte-Rôtie ou um Hermitage de certa idade, não tão potente.

Do lado italiano, um Valpolicella Ripasso de bom produtor como  Masi, por exemplo, é uma bela opção. A glória seria um Valpolicella do Dal Forno Romano, vinho de grande concentração e muita fruta. Um Rioja jovem de estilo moderno é outra alternativa.

img_6043-1Arroz de Pato

Por fim, vamos ao clássico português, Arroz de Pato. Iguaria essa que os durienses reivindicam a paternidade. Sem entrar em polêmica, vamos aos fatos. O prato tem textura macia, mas muito sabor. As azeitonas verdes levantam o sabor do prato, enquanto as linguiças ou o chouriço dão um toque defumado. Evidentemente que os tintos da região dão conta do recado. Preferencialmente, um tinto de certo envelhecimento e taninos mais domados. Neste sentido, os tintos do Dão tem mais elegância, mantendo um bela acidez. Outra boa pedida.

Voltando à Itália, um belo Barbaresco de certo envelhecimento tem acidez para o prato, aromas defumados e taninos mais amansados. Um Rioja Crianza de escola tradicional também é uma boa parceria.

Quanto a vinhos do Novo Mundo, sempre devemos estar atentos a vinhos muito potentes, alcoólicos, e carente em acidez. Do lado argentino, tintos do Valle do Uco costuma ter mais frescor. Do lado chileno, o Alto Maipo, Aconcágua, e Conchagua, também buscam este frescor. Já no Uruguai, os Tannats e seus cortes são bem elaborados, se forem de produtores conceituados como Bouza, Familia Deicas, ou Pizzorno. Substitui a contendo os Madirans do suodeste francês. 

Uma observação importante para estes tintos mais robustos mencionados acima, é a decantação prévia. Seja por apresentar sedimentos, seja principalmente para sua aeração. Os aromas se desprendem melhor e a textura em boca fica mais harmoniosa. O tempo pode variar entre uma e duas horas. Às vezes mais, dependendo do calibre do tinto.

De resto, é curtir este inverno que já está chegando, estação propícia aos grandes vinhos tintos, os tipos preferidos dos brasileiros, mesmo em dias mais quentes. De acordo com a receita, os pratos, cada qual sabe escolher suas preferências adequadas ao bolso de cada um. Bon Appétit!

 

Bordeaux 82, o Paraíso existe!

12 de Maio de 2019

O ano de 1982 só não foi perfeito porque nossa seleção do saudoso Telê Santana lamentavelmente não levou o título mundial. Em compensação, Bordeaux teve sua safra gloriosa, generosa, em ambas as margens com uma das colheitas mais fartas de todo o século XX. Podemos pensar em safras como 53, 55, 59 (minha safra), 90, 95, 96, e as minúsculas mas espetaculares safras 45 e 61. Entretanto, os prazeres de provar um 82 são notáveis com vinhos no auge de seu apogeu, sendo que alguns ainda chegando em seu momento perfeito.

As perspectivas desta safra na época não eram muito animadoras pela crítica especializada, dizendo ser uma safra de acidez discreta, não apta a longo envelhecimento. Eis que surge a opinião de um jovem advogado americano contrariando os papas da época, afirmando ser uma safra de fruta esplendorosa, taninos abundantes, de textura sedosa, e com um extrato fabuloso para décadas de envelhecimento. Surge a partir daí, o mito Robert Parker, um americano ditando regras em meio à soberba francesa. Sua influência chegou a tal ponto, que a precificação de cada safra em Bordeaux dependia diretamente de sua avaliação e comentários.

Após este prefácio, tudo isso foi confirmado num memorável jantar no restaurante Fasano com um menu coordenado para quatro grandes flights.

as preliminares do jantar

À espera dos convivas, mesa posta e alguns drinks estimulando os sentidos como o clássico Dry Martini. Na recepção, ainda fora da mesa, uma trilogia de champagnes dando o tom do evento, foto abaixo. Salon 97 ainda uma criança. Cheio de tensão e mineralidade, suas borbulhas exibiam a delicadeza de um dos mais longevos champagnes. Como contraste, mas igualmente brilhante, um Cristal 82 maduro de uma bela safra. Champagne gastronômico, frutas maduras, cheio de brioche e pâtisserie. Borbulhas um tanto discretas, mas com uma textura inigualável. No meio do caminho, um Dom Perignon 2000, sempre elegante, delicado e estimulante. Nada melhor para esquentar os motores!

trilogia em Champagne

Sem mais delongas, vamos ao desfile bordalês com muitas surpresas e algumas decepções, fatos inerentes, sobretudo em degustações às cegas. As garrafas foram abertas e checadas pelo competente sommelier Fábio Lima, sob a batuta do mestre Beato. O maître Almir, patrimônio da Casa, coordenou a sequência de pratos à mesa.

img_6068-1vizinhos num desempenho brilhante

Neste primeiro flight, a primeira baixa. Montrose estava prejudicado com um “elegante ” bouchonné. Já os dois vizinhos brilharam, pois estão lado a lado na divisa de comunas entre St Estèphe e Pauillac. Lafite 82 talvez em sua melhor garrafa na noite, pois tivemos quatro delas, manteve a hierarquia num vinho elegante e aristocrático. Cos d´Estournel ratificou sua nobreza numa das melhores safras de toda sua história. Vinho de uma riqueza impressionante, bem estruturado, e longe de qualquer sinal de decadência. A primeira grande surpresa do jantar.

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o carneiro saltitante brilhou!

Neste segundo flight, mais uma baixa. O La Mission, um dos notas 100 de 82 estava um tanto estranho. Na verdade, seus aromas estavam muito redutivo, necessitando intensa oxigenação. Depois de um bom tempo na taça, mostrou sua elegância. Já o Mouton 82 quando a garrafa é perfeita, é um vinho quase imbatível. Exuberante, rico em aromas e uma textura extremamente sedosa. Outro grande que brilhou foi o Gruaud Larose que só não levou o flight, porque o Mouton estava perfeito. No entanto, este St Julien nesta safra especificamente, é um dos grandes destaques com uma consistência impressionante.

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aqui a hierarquia não foi respeitada

Embora os dois Premiers, Lafite e Mouton, sejam magníficos, estas duas garrafas não estavam em sua melhor forma, provando que em vinhos antigos, a garrafa é que manda e não a safra. Neste contexto, o Pichon nadou de braçadas numa garrafa magnífica. Realmente Pichon Lalande 82 é seguramente um dos cinco melhores  chateaux desta safra com uma elegância, equilíbrio e distinção, notáveis. É de fato, um super Deuxième. 

dois pratos de um menu em quatro atos

Num menu para vinhos desta estirpe, a delicadeza, sutileza e sintonia de sabores, devem andar em sincronismo. Para o primeiro prato, foi pensado algo que aguçasse os sabores terciários dos vinhos com uma Textura de Cogumelo. No segundo flight, para estimular e reavivar as papilas, um tartar de atum entrou em cena com vinhos mais frutados e de taninos mais dóceis. O terceiro prato, foto acima, era um risoto de pato com foie gras, valorizando os bordeaux de textura mais rica. Por fim, cordeiro em crosta de ervas e pistache, foto acima, dando suculência aos vinhos de taninos mais firmes e estruturados.

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St Estèphe brilhou novamente

Novamente uma baixa da degustação. Lafite 82 em sua terceira garrafa, com toques de oxidação e evolução estranha de aromas, algo resinoso. Leoville Las Cases 82, sempre um dos vinhos mais austero da safra, mas de muita sofisticação e sobriedade. Por fim, a segunda garrafa do Cos d´Estournel, magnífica. Levou o flight e se revelou de longe, a maior pechincha da noite. Um vinho que se encontra no seu esplendor com amplo platô de estabilização. Deve ainda dar muitas alegrias. 

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flight arrebatador 

Neste último flight, no apagar das luzes, eis que surge o único 86 da brincadeira. O grande Le Pin numa garrafa esplêndida. Só de peitar o grande Pichon, novamente numa garrafa perfeita, percebe-se a distinção deste grande Pomerol. O único margem direita e o único não 82, levou o prêmio da noite como melhor vinho, na opinião de muitos presentes. O Lafite também foi bem, embora de uma garrafa ainda meio tímida, frente ao desempenho perfeito de seus concorrentes de páreo. Pichon despediu-se glorioso nesta segunda garrafa, já deixando saudades de uma noite de sonhos.

A conversa continuou um pouco mais à mesa em meio a cafés, petits-fours, champagne, e grappas. Agradecimentos a todos os confrades, em especial ao Camarguinho, que com muita classe e fidalguia, proporcionou um encontro descontraído e bastante animado. Que o entusiasmo, generosidade, e cumplicidade, continuem reinando nesta confraria!


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