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O engenheiro que desafiou a hierarquia de Bordeaux

22 de Agosto de 2026

O empresário Yves Vatelot transformou o Château Reignac em um símbolo de quebra de paradigmas em degustações cegas e na venda digital direta


Depois de uma bem-sucedida carreira profissional, com a criação do primeiro depilador eletrônico mundial, que o levou a vários países e contratos, Yves Vatelot decidiu que iria se aposentar com uma das paixões da sua vida: o vinho. Sua relação com o mundo de Baco começou na adolescência. Em uma casa onde o pai não bebia, mas a mãe gostava de tomar uma taça com pratos nos almoços em família, cabia a ele, ainda adolescente, escolher os rótulos. Desde cedo, preferia os vinhos de Bordeaux.

Em 1990, por indicação do consultor Michel Rolland, comprou o Château Reignac, localizado em uma região sem o brilho de outras mais reputadas, mas cujo terroir tinha um trunfo, ao combinar cascalhos profundos de quartzo e solos argilo-calcários adequados tanto para Cabernet Sauvignon quanto para Merlot.

O engenheiro Vatelot migrou para o mundo do vinho com a mesma filosofia de anos na gestão empresarial: investimentos em novos métodos e reestruturação da antiga propriedade, construída no século XVII. A colheita passou a ser manual, vinhedos ganharam novos cuidados. O castelo foi reformado, e o pombal do século XVI passou a abrigar uma sala de degustação equipada com um elevador de vinhos projetado pelo próprio Vatelot.

A modernização coincidiu com a criação de um grande júri europeu que se reunia periodicamente para degustar rótulos franceses e de outros países. Em 1998, os degustadores resolveram colocar 200 garrafas de bordeaux às cegas, entre rótulos mais e menos conhecidos. “Um pirata, o meu vinho, também foi colocado e ele ficou entre os 15 melhores depois da pontuação ser conhecida”, diz Vatelot, que esteve essa semana no Brasil para participar de um jantar com 20 safras de seus vinhos, importados pela Clarets.

Quando o resultado se tornou público, críticos e produtores tradicionais reagiram com ceticismo, argumentando que o vinho era agradável na juventude, mas perderia qualidade em cinco anos. Para testar a longevidade, Vatelot voltou a inscrever o rótulo periodicamente nas provas do júri ao longo da década seguinte. O vinho chegou a ficar até em quarto lugar em um ano, mas a virada de chave veio em 2009, com a safra 2001.

Vatelot recebeu uma proposta: ele não toparia financiar uma degustação em Paris colocando seu vinho às cegas com alguns dos mais famosos e caros rótulos de Bordeaux? O engenheiro respondeu que aceitaria o desafio com três condições: 1) que todos os participantes assinassem declaração de que cediam o uso de suas imagens na prova; 2) que um advogado auditasse; 3) se o Reignac fosse mal, a filmagem da degustação nunca se tornaria pública.

Numa manhã de 2009, em Paris, no restaurante Laurent, um dos preferidos do escritor Luis Fernando Verissimo, reputados jornalistas e sommeliers franceses se reuniram em uma manhã para degustar às cegas alguns famosos vinhos de Bordeaux. Quando degustavam, eram convidados a falar sobre o que achavam que tinham bebido e dar sua opinião sobre cada taça.

Ao fim, a surpresa: Reignac ficou em segundo lugar geral, atrás apenas de Château Angélus, e à frente dos cinco mais famosos e reputados da região (Mouton, Haut Brion, Latour, Margaux e Lafite). Era de longe o mais barato: uma garrafa custa 14 euros (àquela época), enquanto Pétrus saía a 1500 e boa parte dos outros acima de 200 euros.

O château mantém o hábito de realizar degustações semanais às cegas para clientes na torre histórica que mantém na propriedade, colocando seus vinhos em confronto com concorrentes da região. Paralelamente, o portfólio foi expandido para incluir o Balthus — um 100% Merlot de vinhas velhas —, além de um branco e um rosé.

Para ele, a região enfrenta desafios. O sistema de comercialização “en primeur”, um dos pilares da economia vinícola de Bordeaux e que influenciou o mundo todo, está em xeque. Nesse modelo, vinhos das principais vinícolas são vendidos antes de estarem prontos e engarrafados, com decisões de compra baseadas em degustações de amostras direto do barril. Durante anos, o modelo funcionou para compradores e vendedores: o comprador era recompensado por assumir o risco da evolução do vinho ao obter um preço melhor do que o da garrafa pronta, enquanto os châteaux garantiam fluxo de caixa para financiar o trabalho da safra seguinte. Com um novo consumidor e estoques altos, a lógica mudou.

Yves buscou sempre dar força ao modelo de vendas próprias. Foi o primeiro a usar esse modelo sem intermediários para vender ao mercado dos Estados Unidos. Em 2015, quando o site da propriedade passou a adotar o sistema de vendas on-line, que hoje representa 20% da receita, o vídeo com a degustação às cegas foi o principal garoto propaganda. O formato de degustação às cegas transformou-se em rotina.

Em um mundo de canetas emagrecedoras, menos renda disponível e novos hábitos, o consumo de vinho tem caído em muitos países, como França e Estados Unidos. Isso tem levado a novidades saídas das adegas do château: um rosé que pode ser bebido sem se preocupar em guardar e o R de Reignac, um vinho feito com a uva Cabernet Franc. “Temos rótulos feitos para quem quer consumir sem se preocupar com o tempo de garrafa.”

Mesmo após décadas de parceria e amizade, a conexão profunda com Rolland permaneceu inabalável até os últimos dias do enólogo, com quem Vatelot almoçou em Paris poucos dias antes do falecimento de Rolland. Na ocasião, o renomado consultor reafirmou uma convicção compartilhada por ambos: apesar das transformações do mercado e das novas gerações de consumidores, a França continuará sendo o grande centro do mundo do vinho unicamente pela força de seu terroir.  Por acreditar nisso, Vatelot e a esposa, Stéphanie, também abrem as portas do château para o enoturismo.

James Bond e a licença para beber

15 de Junho de 2024

O último filme do agente secreto com licença para matar, o vigésimo quinto da série, com Daniel Craig em sua última aparição como James Bond, teve um final tão impactante que até hoje não consegui rever, mas foi brindado pelo espião, nascido na guerra fria e agora às voltas com terroristas sem pátria, com uma garrafa de Château Angelus, bebida quando ele chega de surpresa à casa de M, que estava preparando o jantar. O mesmo bordeaux tinha sido o escolhido da estreia de Craig no papel, em “Casino Royale”, brindada primeiro com Bollinger, depois com o chateau de Hubert de Boüard. No trem em que o leva a Montenegro, onde irá disputar partidas de pôquer, Bond pede uma garrafa de Château Ângelus 1982 para acompanhar o cordeiro que ele e Vesper comem.

Na hora de gravar “Casino Royale”, os produtores da série ligaram para o proprietário do renomado château, classificado como um premier cru classe B de Saint-Émillion, Hubert de Bouard sugeriu a safra 1990, outra das maiores da história. Agradeceram, mas fizeram um pedido: James Bond tem um apreço especial pela safra 1982, que começa a ganhar maturidade agora. Pedido aceito. Bouard veria as garrafas de Ângelus 1982 subirem de preço depois da aparição, segundo reportagem da inglesa Decanter no fim de 2006, quando “Casino Royale” chegou à telona.

Mas a maior paixão de Bond, além do dry Martini, são os champagnes. Aí sobra diversidade: em “Dr. No” e em “Goldfinger”, Dom Pérignon (LVHM do Brasil) é a eleita, sendo que Bond revela sua preferência pela safra 1953. No início de Goldfinger, quando está na cama com sua primeira loira do filme, ele fica indignado com a temperatura da garrafa. Ameaça levantar da cama, mas ela quer que ele continue. “Há coisas que não se podem fazer na vida, uma delas é beber Dom Pérignon na temperatura errada”, diz Bond, indo para a geladeira, onde em segundos é atingido na cabeça pelo seu mais carismático vilão. Meu Bond e filme preferidos fazem com que a Dom Pérignon 1953 (em condições pristinas) seja o vinho que eu escolheria na última refeição. Estou também na companhia de Marilyn Monroe.

Em “Moscou contra 007”, Bond, no luxuoso vagão restaurante do trem que corta os Bálcãs, pede para acompanhar seu linguado grelhado um Blanc de blancs (uma champagne feita apenas com uvas brancas). Na mesa, vem a Comtes de Taittinger, da Taittinger. Já o acompanhante na mesa pede um chianti. Ao que o garçom atônito retruca: “chianti branco?”. “Não, tinto”. Seria a senha para descobrir que o loiro alto que se fazia passar por amigo no fundo era um espião inimigo.

Outra preferência no mundo dos espumantes é a Bollinger, que até confecciona rótulo e assemblage especiais para um vinho dedicado aos fãs da série e das borbulhas mais preciosas do mundo. Depois de ter sido mantido em solitária, espancado, ficado sem comida no início de “Die another Day”, Bond redobra o fôlego, foge da prisão, cruza o mar e chega a um luxuoso hotel de Hong Kong, onde faz uma série de pedidos ao gerente. No fim, frisa: “e, não se esqueça, uma garrafa de Bollinger 1961, se você tiver uma ainda.”

A conta? Por 25 filmes, foi para a rainha. Agora irá para o rei.

Saint-Emilion: Terroir e Classificação

3 de Junho de 2013

Dentre as várias classificações na famosa região vinícola de Bordeaux, uma das mais polêmicas e porque não dizer das mais confusas, é a dos vinhos de Saint-Emilion, sub-região importante da chamada margem direita. Esta classificação criada em 1954, prometia ser revisada de dez em dez anos, acompanhando a evolução dos principais châteaux. Tudo corria relativamente bem até que em 2006, houve confusão generalizada, acabando nos tribunais da região. Somente em 2012, foi promulgada uma nova classificação, selecionando dezoito Premiers Grands Crus Classés e sessenta e quatro Grands Crus Classés, conforme tabela abaixo. É só clicar.

http://www.vins-saint-emilion.com/sites/default/files/vins-de-saint-emilion-classement-2012.pdf

É bom salientar que esta nomenclatura vale só para os vinhos de Saint-Emilion. A famosa classificação de 1855, referentes ao vinhos do Médoc, tem outro tipo de nomenclatura. Por isso, muitas vezes a confusão de vários termos. O pomposo termo Grand Cru Classe em Saint-Emilion na prática, não quer dizer muita coisa. Portanto, dentre esses sessenta e quatro châteaux descritos, talvez uma dúzia faça jus ao título. Por exemplo, château Berliquet, Pavie Decesse, Fonroque, Fombrauge, Clos de l´Oratoire, Couvent des Jacobins, La Dominique, Grand Mayne, La Serre e Clos des Jacobins.

Château Pavie: Polêmico, porém marcante

Já no grupo dos dezoito Premiers Grands Crus Classés, a confiabilidade é praticamente total. Vinhos de terroir, profundos, embora de estilos diversos. Evidentemente, Cheval Blanc e Ausone marcaram supremacia durante décadas com a designação A, diferenciando-se dos demais. Na classificação atual, ganharam a companhia dos châteaux Pavie (acima) e Angelus (abaixo) com a mesma designação. Se estão à altura, só o tempo dirá, mas os preços certamente subirão com o novo status.

Château Angélus: em ótima forma

 Angelus parece ser mais europeu, mais sóbrio, enquanto Pavie é mais direto, mais exuberante, mais invasivo. Talvez a grande proporção de Cabernet Franc no corte do Angelus, explique esta finesse, esta elegância, semelhante ao corte do grande Cheval Blanc. Do lado de Pavie, a grande proporção de Merlot, é responsável pela fruta exuberante, taninos dóceis, e textura macia, mesmo relativamente novo. Não nos esqueçamos que na famosa degustação às cegas, onde o plebeu Château Reignac balançou grandes nomes da margem direita e esquerda num artigo deste mesmo blog intulado: “Degustação às cegas: Existem Experts?”, o grande vencedor na média foi o Château Angelus, descrito como um vinho elegante e equilibrado. O equilíbrio entre argila, calcário e areia, nas várias partes da colina em seus vinhedos parece ser a chave do grande sucesso e ascensão.

Em tempo, a apelação rival de Pomerol continua sem classificação oficial. A única certeza é que Château Petrus segue seu reinado, seguido de perto pelo Château Le Pin, pelo menos em preços.