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Savennières, o grande Chenin Blanc

29 de Março de 2020

Das muitas apelações do Loire, Savennières é uma das mais reputadas pelo seu Chenin Blanc, no estilo branco seco, embora tenha também a versão mais doce. Hoje em dia, a maciça maioria tem menos de 8g/l de açúcar residual, mas poderia ter de 8 a 18g/l para o estilo off-dry, de 18 a 45 g/l para o estilo moelleux ou semi-doce, e por fim acima de 45 g/l, o estilo doce ou doux. Essas outras denominações de açúcar fica mais com as características de um Coteaux du Layon, um branco de alta acidez, numa sub-região mais ampla e abaixo do rio Loire.

De todo modo, a apelação abaixo Savennières no mapa, fica na face norte do rio Loire, num solo fundamentalmente xistoso, com pedras de ardósia, ainda resquício do maciço Armoricano, desde a região do Muscadet até Anjou.

Essa apelação apresenta três níveis de qualidade ao redor do grande Coulée de Serrant, propriedade exclusiva de sete hectares do pai da Biodinâmica, Nicolas Joly. Seguindo o raciocínio, Roche aux Moines, que também tem apelação própria como o vinho acima, não é exclusividade de Nicolas Joly, embora seu vinho seja referência absoluta em termos de qualidade.

À medida que vamos nos afastando destes dois grandes terroir, a terceira apelação, simplesmente Savennières, começa a tomar corpo com alguns destaques neste amplo terroir. São eles: La Croix Picot, Le Clos du Papillon (Domaine Baumard), os mais importantes com nível de Premier Cru não oficial.

Em termos de dimensões, pouco mais de 300 hectares para a apelação Savennières, bastante ampla, 33 hectares para Roche aux Moines e seus poucos produtores, e apenas 7 hectares para a propriedade exclusiva de Nicolas Joly, o grande Coulée de Serrant, um dos maiores brancos da França.

savennieres mapmapa detalhado da região

Vejam como esses produtores, pouco mais de 30 em números absolutos se afastam do rio Loire, e de solos mais xistosos da região. Notem que as melhores propriedades ficam na periferia das principais apelações.

nicolas joly e seus vinhosos dois melhores Savennières em termos de terroir e autenticidade

A cor de seu vinho branco, semelhante a um vinho laranja, deve-se ao fato de só colher a uva com extrema maturidade, fazendo várias passagens pelo vinhedo. Para o Coulée de Serrant especialmente, há frequentemente uma parcela de uvas botrytisadas que fazem parte de sua Cuvée, assim como nos grandes vinhos doces. Esses sabores doces não são percebidos, apenas os aromas de mel característicos destes vinhos e uma certa untuosidade em termos de textura.

As propriedades dos vinhos acima são muito antigas, datando do começo do milênio passado, cultivadas por monges cistercienses. A média de idade das vinhas do Grand Vin chegam entre 35 e 40 anos, podendo algumas chegar a 80 anos de idade. Em 2015  foi registrada a 885° colheita no vinhedo, demonstrando a tradição e a força do terroir desta propriedade. O redimento é muito baixo, entre 20 e 25 hectolitros por hectare e o solo xistoso tem nuances vermelhas, único na região, prinpalmente por fatores de drenagem das vinhas. Ele vinifica em barricas próprias, de acordo com os preceitos da biodinâmica com trabalho de bâtonnage e apenas 5% de madeira nova.

coulle de serrant solos e vinhassolos xistosos e vinhas num grande vinhedo: Coullé de Serrant

No seu Clos de La Bergerie, sua parte em área é de apenas 3,2 hectares de vinhas. A idade média da vinhas e seu respectivo rendimento não são tão rigorosos como o Grand Vin, mais muito próximo em números. Os preceitos da biodinâmica e todo o ritual de vinificação é exatamente como Coullé de Serrant. São elaboradas entre 8 e 10 mil garrafas por safra, apenas.

Por fim, seu terceiro vinhos Les Vieux Clos de apelação Savennières de apenas 5,5 hectares de vinhas que fica à esquerda desta apelação, parte de vinhas um pouco mais jovens e de baixos rendimentos, embora o limite da apelação menciona em torno de 50 hectolitros por hectare. Nesta vinho de Nicolas Joly não passa de 35 hl/ha, muito mais restrito do que a maioria da apelação. Seus métodos e preceitos biodinâmicos são também preservados na elaboração deste vinho.

Decantação e Longevidade

Esses vinhos, sobretudo do Nicolas Joly, devem ser decantados por horas antes do consumo, embora sejam vinhos brancos. A própria temperatura foge um pouco do habitual, deixando entre 12 e 14 graus a temperatura de serviço. O próprio Nicolas Joly fala em 24 horas de decantação para seu Coulée de Serrant.

baiao de dois mocotó

baião de dois do Mocotó

Quanto à longevidade, esses vinhos podem durar tranquilamente 10, 20 anos ou mais, tal a estrutura que possuem e a resistência natural quanto a aspectos oxidativos. São vinhos diferentes, de um belo corpo, aromas e sabores marcantes.

pato no tucupi paraensePato no tucupi: cozinha paraense

Na gastronomia temos a harmonização local com peixes mais gordos de rio, cogumelos e amêndoas em sua composição do prato. Vindo para nossa cozinha regional,  temos vários pratos da cozinha do norte e nordeste que são mais robustos e de difícil harmonização. Como exemplo, temos o Baião de Dois e o polêmico Pato no Tucupi, especialidade da culinária paraense. Esses vinhos tem acidez, personalidade e força para estes tipos de prato.

Todos esses vinhos são importados pela Clarets do Brasil, importadora especializada em alta gama de vinhos franceses. Além disso, seus preços são bem convidativos (www.clarets.com), num dos mais emblemáticos vinhos franceses.

Wine and Beer

27 de Março de 2020

O mundo se rende aos fermentados por serem as bebidas de álcool mais moderado e que se prestam às refeições, entretenimentos, e eventos. Já os destilados podem ser perigosos e viciantes, pois seu teor alcólico é elevado. Fora países do norte da Europa, leste europeu, e de clima muito frio como a Rússia, os destilados perdem força no resto do mundo como bebida em si, sendo comsumidos mais como coquetéis a exemplo da Vodka, Gim e Rum. 

A produção mundial de cerveja em 2017 foi algo em torno de 190 bilhões de litros. Transformando em hectolitros, ficamos com quase 2 milhões da medida. Muito acima da produção global de vinhos que atualmente gira em torno de 280 milhões de hectolitros. Rússia, Japão e Reino Unido têm participações expressivas. Portanto, o mundo é da cerveja!

9 gfs de cerveja de 600 ml para uma gf de vinho de 750 ml

a produção é desigual

 

cerveja custo da latavinho custo garrafa

Mesmo sendo em lata (355 ml), o custo da cerveja é bem menor que o vinho (750 ml). Isso num mundo ideal, onde os abusos não são praticados.

Em termos globais, a China lidera o ranking com folga na ordem de 40 bilhões de litros, seguida pelos Estados Unidos com quase 22 bilhões de litros. Em terceiro vem o Brasil com 14 bilhões de litros, México com 11 bilhões de litros e Alemanha com quase 10 bilhões de litros. A França e Argentina têm produções bastante modestas da bebida.

beer in world

mercado pelo mundo

Ásia e Europa lideram a produção mundial, seguida de perto das Américas, sobretudo Estados Unidos e por fim a África.

Em termos de consumo per capita muda muito o panorama. O pessoal da Europa e leste europeu não brincam em serviço. A República Tcheca segue disparada com quase 200 litros per capita, seguida da Áustria, Alemanha, Romênia, Polônia e Irlanda de perto com praticamente 100 per capita cada um. A Espanha, um país vinhateiro, surpreende com 86 litros per capita.

Estados Unidos e Brasil estão abaixo do consumo per capita, embora sejam grandes produtores globais. Respectivamente, apresentam índices de 73 e 60 litros per capita, e a China como grande produtora global, nem aparece nas estatísticas. O Brasil comparado ao consumo de vinho que não sai muito dos dois litros per capita. Na cerveja, o índice é significativamente alto.

Brasil

cerveja no brasil marcas

as artesanais têm um nicho bem pequeno

A produção de cerveja no Brasil se concentra nas regiões sul e sudeste do país. De 2010 para cá, a subida do número de cervejarias cresceu vertiginosamente de 114 para 1209 cervejarias, no caso de médio porte a artesanais. O setor cervejeiro no Brasil cria 2,7 milhões de empregos com um faturamento médio de pouco mais de 100 bilhões de reais.

Os grandes grupos como Ambev, Petrópolis, Kirin, e Heineken, dominam amplamente o mercado, sobretudo a Ambev com quase 70% do mercado. As micro cervejarias que têm participação ínfima no mercado, crescem em número de cervejarias vertiginosamente.

cerveja velga westvleteren

essa trapista (belga) encara um vinho

Algumas artesanais nacionais e importadas apresentam complexidade e preço, semelhantes ao vinho. A de cima, uma das melhores do mundo.

As cervejas tipo Lager de baixa fermentação dominam o mercado e estão nos grandes grupos cervejeiros de alta produção. Já as chamadas Ales, de alta fermentação, são mais artesanais e de produção bem mais baixa. Aqui começamos perceber um certo artesanato do setor, separando o joio do trigo. O tipo Lambic é de fermentação natural e extremamente reduzida em sua produção. Neste caso, podemos conversar com o vinho em termos de preço e produção mais artesanal. Já as Lager de alta produção, seu preço e escala de produção, deixa a comparação inviável. 

vinho em lata ou bag in box

Os vinhos começam a se popularizar com embalagens pouco convencionais, aproximando o cliente mais simples, descompromissado, sem as formalidades do ritual, a consumir um produto com extrema simplicidade a qualquer hora e muitas vezes sem taça. Em lata para qualquer lugar, inclusive praia. Bag in box em casa, consumo à vontade sem se preocupar com oxidação, embalagem a vácuo. Evidentemente são vinhos simples e baratos, de acordo com a concorrência.

A popularização do vinho é algo muito controverso. É preciso ter aquele tipo de vinho que conhecemos com rolha, certa formalidade, e um pouco elitizado na medida de seu preço. Já para combater a cerveja, o espírito deve ser outro. Embalagens mais simples e práticas, vinhos descompromissados e fundamentalmente com preços baixos. Só neste caminho a concorrência é coerente.

No Brasil onde o salário mínimo é de praticamente mil reais, precisamos urgentemente de alternativas como esses em lata e bag in box. Como o vinho é mais flexível, no tipo espumante, branco, rosé e tinto, podemos a calibrar a temperatura para seu serviço, pois trata-se de um país tropical e muito calor.

portonica niepoortPortônica: um dos belos coquetéis

Além disso, podemos emprega-lo em coquetéis,  levando ele para o bar e introduzindo aos poucos o gosto pela bebida. É a única maneira de equipara-lo com a cerveja. As propagandas também devem ser mais casuais, tirando um pouco aquela polpa e ritual tão arraigados à bebida. No exemplo acima, um vinho fortificado, difícil de ser consumido puro em nosso país, quer seja pela alcoolicidade, quer seja pela temperatura de serviço, mas consumido com tônica e algumas frutas apropriadas, pode ser refrescante e de grande aceitação.

Nesta briga sem fim, o mundo da cervejaria artesanal tenta agora elitizar um mercado mais sofisticado próximo ao vinho, pois a base está solidamente formada. Na contramão, o vinho deve se popularizar para tentar abocanhar uma grande fatia do mercado, a preços mais modestos e extremamente vantajoso em larga escala.

Bordeaux pelas Águas

23 de Março de 2020

Recentemente escrevi sobre a geologia da França e sobre as características das principais regiões. Falando mais especificamente da região de Bordeaux, vamos abordar o tema drenagem para uma sub-região particular chamada Médoc, ou em latim, “medio acquae” significa entre as águas.

Sabemos que o Médoc, entre outros grandes terroirs, foi forjado pelo homem, procurando entender o tipo de natureza ao redor e dentro dele. Na parte oeste, beirando o oceano Atlântico, temos a formação de dunas que naturalmente tentam avançar pelo continente, a maior e mais famosa é duna Pilat, foto abaixo.

bordeaux pilat

a areia avançando sobre a floresta

Pelos principais motivos, solo com lençol freático alto e o avanço das dunas, os bordaleses foram praticamente obrigados a plantar a maior floresta da Europa ocidental, La forêt des Landes com um “milhão de hectares”, a maioria pinheiros, destinada sobretudo à industria moveleira e também à produção de papel e celulose.

Nas várias regiões do Médoc, a floresta apresenta diferentes cenários, de acordo com sua função. As principais funções em termos de viticultura é barrar os ventos salinos vindos do mar, barrar o avanço das dunas, regular as chuvas e temperaturas no interior do continente, e ajudar o fator drenagem tão importante na região.

foret de landes

do norte do Médoc até a fronteira espanhola

Na formação do Médoc, nasceram alguns lagos importantes na longa batalha entre o mar e o continente, principalmente na costa litorânea. Com esse fenômeno e as idas e vindas da maré no estuário Gironde, a formação dos chamados Marais (pântano em português) foi inevitável. Nesse sentido, foi providencial a construção de canais, diques e todo um sistema de drenagem sob supervisão de holandeses, especialistas em represamento de águas. Os Marais de Lafitte e Marais de Beychevelle, limitam as famosas comunas entre Saint-Esthépe e Pauillac e as comunas de Saint-Julien e o Haut-Médoc ao sul, respectivamente. Com a construção de jalles (canais de drenagem) e estey (pequenos canais), surgem as chamadas “croupes”, fator importantíssimo na região onde ondulações no terreno, semelhante a campos de golfe, indicam boa drenagem e a concentração de cascalho, tão importante no cultivo das uvas, sobretudo a Cabernet Sauvignon. Esse cascalho são consequências de cataclismas antigos ocorridos nos Pirineus (cadeia montanhosa na fronteira espanhola) e também no Maciço Central. Essas pedras têm nomes como Graves Pyrénéennes e Graves Garonnaises, respectivamente.

Na formação de água gerada pelo Atlântico nas imediações da região bordalesa são divididas em 65% na formação de chuvas, 24% que vão para os cursos de água, e 11% infiltrados no solo.

img_7391divisa entre St-Estèphe e Pauillac

Falando um pouco do sistema de drenagem no Médoc, vamos para um dos mais importantes, bem na divisa entre St-Estèphe e Pauillac. Lá temos a separação de dois grandes chateaux, Cos d´Estournel e Chateau Lafite. Aliás o termo “Cos” em dialeto local quer dizer croupe, as famosas ondulações de cascalho.

Pelo mapa acima, vemos que a Jalle du Breuil vem do interior do Médoc recolhendo águas de drenagem para desaguar na Gironde. Antes disso, passa a se chamar Chenal du Lazaret, bem próximo da refinaria de Petróleo. Os lagos e jardins do Chateau Lafite têm a ver com o famoso Marais, dentro da propriedade.

marais de lafiteMarais de Lafite

Quando vemos fotos do Chateau Lafite, percebemos alguns pequenos lagos mais abaixo da propriedade. Fazem parte do Marais de Lafite, uma área pantanosa drenada pela Jalle de Breuil e posteriormente o Canal de Lazaret. Há uma série de drenagens para que tudo funcione em harmonia.

Além disso, temos o canal de Calon e Estey d´Un, um pequeno curso d´água que determina os limites da comuna de St-Estèphe com o Haut-Médoc ao norte. Esse outro sistema permite drenar uma área importante no norte da comuna.

img_7392outro importante Marais do Médoc

Na divisa de St-Julien a sul, entrando no Haut-Médoc, temos o Marais de Beychevelle, importante Grand Cru Classe do Médoc. Esta zona pantanosa é drenada pelo canal do Milieu (meio) que vai desaguar na Gironde. Beychevelle faz parte deste sistema onde temos o canal do Norte, um pouco mais afastado e de alguns metros acima, formando as croupes. Dividindo St-Julien com Pauillac, temos um pequeno curso d´água chamado Ruisseau du Juillac.

img_7394um grande sistema de drenagem

Por fim, um grande sistema de drenagem na parte superior de Médoc, conhecida  como Bas-Médoc. Se St-Estèphe já é conhecida pela dureza de seus vinhos, alta acidez, e solos mais úmidos, argilosos, imaginem essas condições ainda mais ao norte.

Pelo mapa acima, vemos todo um sistema de drenagem em direção ao canal de La Maréchale. Outro sistema mais ao norte, temos Grand Chenal du By. Apenas um dos exemplos onde esses sistemas de drenagem são muito importantes para as condições de terroir.

Essas condições naturais de terroir nem sempre são satisfatórias como clima e solos. Cabe ao homem com sua perspicácia, rever esses conceitos dando novos cenários ao vinhedo para se desenvolver adequadamente. Portanto, sem águas excessivas, descobriram um solo de cascalho bem balanceado e com excepcionais condições de cultivar o melhor Cabernet Sauvignon do Mundo. É por isso que há um ditado nesta região:  “O solo do Médoc muda a cada passo”.

Essas condições de drenagem do terreno, sobretudo na margem esquerda, especificamente no  Médoc, mais do que a morfologia de solos é o fator essencial para o sucesso dos vinhos, pois clima e detalhes de altitude são secundários. Com o aparecimento das croupes é que podemos destacar um Chateau Latour, por exemplo, um vinho de grande distinção, de um vinho sem grandes atrativos num local relativamente perto. Coisas do terroir …

Screaming Eagle: Esse voa alto!

20 de Março de 2020

Para quem acha caro vinhos como Opus One, Caymus, Spottswoode, Silver Oak, e outros tantos cult wines americanos, não faz ideia dos preços de um Screaming Eagle que em safras recentes podem alcançar facilmente pelo menos três mil dólares a garrafa, a preços internacionais. Fora isso, a dificuldade em achar e ainda comprovar sua autenticidade.

Fundada em 1986, fez sua primeira safra em 1992 por preços estratosféricos para um Cabernet de Oakville, comuna que deu origem ao mítico vinho. A perspectiva é de 500 a 800 caixas por ano, sendo que em 2012 foi lançado um branco Sauvignon Blanc com média de 50 caixas por ano.

Se fizermos uma conta redonda, 20 hectares para 2000 garrafas do vinho principal, ou seja, um hectare para cada 100 garrafas. Um rendimento tão ridículo quanto seu preço. Quando novo, uma verdadeira tinta na taça. Continuando o raciocínio, o grande Chateau Latour com cerca de 80 hectares de vinhas faz por volta de 220 mil garrafas do chamado Grand Vin.  É uma questão de terroir, assemblage das vinhas, e séculos de experiência em fazer grandes vinhos. Já os americanos precisam concentrar mais suas vinhas, diminuírem rendimentos para um mesmo resultado final em teoria. Não há milagres!

napa valley rutherford oakville

comunas famosas em Napa Valle

Em 2012, a vinícola lança o chamado “second flight”, vinhas que foram desclassificadas para o primeiro vinho. Enquanto o primeiro vinho é dominado amplamente por Cabernet Sauvignon, o segundo vinho divide com a Merlot o blend para o Second flight.

Na verdade o chamada Second Flight começa com as safras 2006, 07, 08 e 2009, nos lançamentos dos vinhos principais. A partir de 2015, a nomenclatura muda para “The Flight”. 

A vinícola fica em Oakville do lado leste, perto de Dalla Valle. Do lado oposto em Mayacamas, temos Harlan Estate, Opus One e os vinhedos históricos To Kalon e Martha´s Vineyard. Vizinhança ilustre. A vinícola conta com praticamente 20 hectares de vinhas em solos rochososos de origem vulcânica, e todo tipo de pedra, ideal para o amadurecimento da Cabernet Sauvignon.

Screaming-Eagle and the flightThe Flight, mudado em 2015

O vinhedo tem 52 parcelas divididas em 60% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot, e 10% Cabernet Franc. A vinificação ocorre em tanques, barris, de acordo com a parcela em questão. Em média, o vinho é amadurecido 65% em barricas francesas novas por aproximadamente 20 meses, dependendo da safra.

É imprescindível sua decantação, sobretudo quando a safra for jovem. Mesmo em safras mais antigas, é bom abri-lo com no mínimo duas horas de antecedência. O vinho é muito concentrado, ricos em aromas  e com taninos de seda que vão se mesclar ao conjunto pouco a pouco.

screaming eagle box

a caixa tradicional com três garrafas

vinhos perfeitos, 100 pontos

O vinho da esquerda (Harlan) custa no mínimo três vezes mais que o Dominus porém, os vinhos se equivalem em qualidade, sendo o Harlan um estilo um pouco mais potente, enquanto o Dominus vai pela veia bordalesa de mais elegância. Contudo, ambos com muita classe e sutileza.

Pessoalmente, prefiro o Harlan Estate como grande vinho norte americano, praticamente o Latour das Américas, o qual também não é nada barato. Contudo, Screaming Eagle fica no vácuo, sobretudo a safra 1997 com 100 pontos Parker. Nas palavras de dele: “não há nada melhor do que o Screaming Eagle 97, um vinho perfeito”.

Portanto, Screaming Eagle 97 e Harlan Estate 94 são os melhores 100 pontos que já provei em termos de Cult American Wines. Quanto ao custo/benefício, se é que cabe este termo, o Dominus Estate de Christian Moieux, proprietário do Chateau Petrus, é uma pechincha e o mais bordalês de Napa Valley.

informações no contrarrótulo: Screaming Eagle

São vinhos de bom teor alcóolico, mas muito equilibrados em sabor e extração. Seu nivelamento se dá por cima com os componentes perfeitamente equilibrados. Muito raramente, se percebe o álcool com nitidez. Essa é a diferença dos grandes vinhos.

Baseado no fato acima é que a mais impactante degustação vista até hoje foi o célebre “Julgamento de Paris”, onde grandes vinhos franceses e americanos se confrontaram às cegas, julgados por juízes franceses em plena capital do vinho. Os resultados só demonstraram que a força da Califórnia é indiscutível, independente de números ou outras discussões subjetivas.

Neste sentido, continuo afirmando que os grandes vinhos californianos são os únicos capazes de confrontar a elite francesa. É lógico que estou falando dos “grandes”, pois a imensa maioria dos americanos continuam potentes e pendendo para o álcool. É o cenário que vemos nas poucas ofertas do mercado brasileiro.

Salmão Defumado e Gravlax

18 de Março de 2020

Dois dos mais pedidos tipos de salmão no mercado, restaurtantes e receitas. Amplamente difundido entre nós, geralmente como entrada e canapés. Há diferenças no preparo de ambos e evidentemente, nos vinhos a acompanhar.

salmão gravlax

Salmão Gravlax

É o processo nórdico, escandinavo de preparar o salmão. Os ingredientes são uma medida de açúcar, duas medidas de sal grosso, aneto ou dill e o salmão. Mistura-se os ingredientes, cobrir o salmão e deixa-lo por 48 horas na geladeira. Lava-se o salmão e pode fatia-lo finamente com faca apropriada, e servi-lo desde in natura, como em diversas formas, temperos e molhos.

Evidentemente, o frescor,  o gosto in natura do peixe, pede vinhos frescos, leves e de boa mineralidade. Os Sauvignons desta característica vêm sobretudo do vale do Loire são as primeiras escolhas. Alvarinhos, Albariños e Chablis, geralmente são muito minerais e de textura correta para o prato. Espumantes Blanc de Blancs e preferencialmente os champagnes são muito bem-vindos.

A madeira nesta caso não casa muito bem com a característica do peixe. Ela fica muito invasiva. Por outro lado, brancos sem madeira e de certa delicadeza são fracos para o prato. Penso que a mineralidade e a personalidade do vinho definem bem a questão.

Neste caso, os complementos mais pedidos são as pimentas aromáticas, ervas e mostardas não muito picantes. Raspas de limão e cítricos são bem-vindos. É uma entrada estimulante, aguçando as papilas gustativas para o que vem pela frente.

salmão defumado

Salmão Defumado

Esse é aquele salmão que compramos pronto e já embalado. Pode ser feito em casa, mas dá um certo trabalho. Normalmente, ele é previamente semicurado e posteriormente defumado com madeiras ou ervas. Esse toque defumado vai diferenciar o vinho em certas situações. É evidente que o grau de defumação, assim como o cozimento do peixe deve influir no resultado final. Estamos falando de um início Gravlax, seguido de leve defumação, sem comprometimento do peixe.

Esse toque mineral pendendo para o defumado, o branco Riesling é ideal. Se for o alemão, opte pelo estilo Trocken, bem seco, ou os alsacianos secos e minerais como Trimbach. Quanto mais envelhecido for o Riesling, maior o toque defumado apresentado, fugindo um pouco dos aromas florais e frutados.

Champagnes com longo tempo sur lies podem ser interessantes, pois a textura fica mais cremosa e os aromas mais complexos e intensos.

 Os Sauvignons de Bordeaux ou próprio corte bordalês branco me parece insuficiente para o prato. Tem um textura rica e falta um pouco de acidez ao conjunto.

Os Sémillons do vale do Hunter, Austrália, pode ser uma bela saída, pois são minerais e com o tempo em garrafa, desenvolvem aromas defumados muito interessantes.

Outra opção interessante é a uva grega Assyrtiko com mais de 60 anos de idade, plantada em vasos, na ilha de Santorini. Um vinho fresco, mineral, salino e de grande personalidade. Pode ir muito bem com o salmão defumado, inclusive o poderoso caviar.

No entanto, preste atenção na carga de madeira. Vinhos muito amadeirados e invasivos, podem deixar a combinação enjoativa e pouco estimulante. É sempre bom prestarmos atenção ao fato, deixando os toques defumados com a mineralidade  e outros aspectos de vinificação como tempo sur lies, por exemplo.

Uma combinação ousada seria o salmão defumado com Whiskies de Islay com forte teor de turfa, o que confere um casamento marcante e bem surpreendente.

salmao defumado e blinisa clássica receita de salmão defumado e creme azedo

Para suavizar o gosto do peixe defumado e até do próprio vinho, um dos acompanhamentos clássicos é o blinis com creme azedo (creme de leite e limão), substituindo com competência o clássico de blinis de caviar, tão caro em nossos dias.

Sempre é bom para uma entrada fresca e de personalidade como esses dois salmões, pensando em vinhos frescos, minerais, de boa personalidade. A Europa sempre sai na frente com exemplares clássicos.

É disso que o Polvo gosta!

12 de Março de 2020

Voltando aos assuntos de enogastronomia, temos o Polvo, um molusco sofisticado encontrado facilmente em nosso mercado. Para tanto, temos unúmeras receitas caseiras, clássicas e vários pratos em restaurantes. Neste caso, o vinho é parte importante do processo, dirigindo a um prazer maior à mesa.

O polvo se bem cozido, tem uma carne tenra de certa textura e um sabor peculiar que combina muito bem com a acidez e mineralidade dos vinhos. Pode ter eventualmente os mesmos problemas da lula em cozimento de poder ficar rijo ou borrachudo. É um prato que admite vinhos brancos nas preparações mais leves, passando por rosés, e eventualmente até tintos de certa leveza. Vamos a eles!

polvo salada

Salada de Polvo

Uma receita muito variada com ingredientes e a gosto do freguês. Em linhas gerais, tempos o polvo cozido com águas, caldos e temperos. As batatas corretamente cozidas, além de ervas como salsinha, coentro, cebolinha, pimentões, ceboba e azeitonas pretas. O ovo é opcional. Tempera-se com bastante azeite, acrescentando-se o limão, vinagre, ou balsâmico. Deve ser servida fria ou gelada. Um prato de entrada ou verão.

Na foto, uma versão sem batatas e ovos, mas com muito frescor. Neste caso, pela leveza do prato e por ser uma entrada, vinhos brancos frescor à base de Sauvignon Blanc vão bem. Procure por Sauvignons chilenos de vales frios, preservando a mineralidade e de textura mais rica. Combina melhor com a carne do polvo.

Voltando a Portugal, o Alvarinho da região do vinhos verdes é um bom parceiro, sobretudo de certa textura e com um leve toque de madeira. A uva Encruzado no Dão tem boa mineralidade e textura para o prato. Os espumantes portugueses de Tavora-Varosa de estilo Brut  pelo método clássico vão bem, sobretudo os rosés, um pouco mais encorpados.

polvo a lagareiro

Polvo a Lagareiro

Uma versão aproximada da salada de polvo, só que desta vez quente com as batatas assadas e muito azeite. O polvo é cozido da mesma maneira acima com temperos e depois e cortado. As batatas pequenas são cozidas com as casca em água e sal grosso. Posteriormente são secas e feitas ao murro. Além de ervas, temperos, alho e eventualmente azeitonas pretas, as batatas ao murro é adicionada na mesma travessa com temperos, polvo cortado e muito azeite antes do tudo ser servido.

Uma receita rica, de forno, que ainda deve ser acompanhada de vinho branco mais estruturado. Os brancos do Douro e Dão com alguma passagem por madeira vão muito bem. Se você gosta de mais acidez, os tradicionais Bucelas com a casta Arinto cumprem bem o papel com muita personalidade.

Se quiser algo mais para o tinto, um bom rosé estruturado pode cair bem. Os novos rosés de Portugal e a turma do Rhône mais ao sul são boas pedidas. Para os tintos, os taninos podem atrapalhar e para escolher vinhos de baixos taninos, falta personalidade ao vinho de uma maneira geral.

polvo arroz

Arroz de Polvo

Essa é a versão que não vai batatas na receita e sim, arroz. Ela não tem tantos temperos e acidez como a salada, mas é muito saborosa. Tem mais textura em boca e uma sugestão de vinho tinto em sua preparação. O polvo é cozido como nas outras vezes e o arroz é puxado no próprio molho do polvo. De todo modo, a umidade do prato para cada um é absolutamente individual. Pessoalmente, gosta de sentir uma certa umidade no conjunto.

Como trata-se de um prato principal, aqui podemos admitir certos tintos para a harmonização, sobretudo se eles fizerrem parte da receita. Os tintos do Dão um pouco mais jovens, sem passagem por madeira, podem ir bem por sua elegância, frescor, e taninos comedidos. Alguns tintos modernos da denominação Lisboa tem frescor para o prato. Entretanto, acho que rosés mais encorpados chegam melhor ao resultado final. Um bom rosé Bruto da Bairrada pode cair muito bem, assim como os rosés de Navarra na Espanha são boas pedidas.

Se a opção for brancos, que eles sejam um pouco mais estruturados e ricos em textura. A turma do Alentejo tem na casta Antão Vaz, a Chardonnnay local, com breve passagem por barrica, respostas seguras. Chardonnays de um modo geral vão bem com farta oferta no mercado. Desde que sejam equilibrados e com madeira elegante, podem cumprir o papel. Se a opção ainda for local e portuguesa, um belo Alvarinho das regiões de Monção e Melgaço com alguma passagem por barrica,tem força para o prato e a tão bem vinda mineralidade.

Enfim, o Polvo gosta de vinhos frescos, minerais e de certa textura em boca. A carga de madeira deve ser comedida, conforme a receita exija mais estrutura. Os rosés sâo muito bem vindos, desde que tenham certa estrutura e não sejam muito leves. Alguns tintos podem ser  admitidos, mas com muito cuidado. À medida em que sublimamos os taninos, o vinho pode ficar muito leve, atrapalhando a harmonização.

França: Geologia

9 de Março de 2020

Estudar os vinhedos franceses também é entender o que está há milhões de anos embaixo do solo. Não que explique tudo, mas é mais fácil compreender noções de terroir quando o solo aflora o que está por debaixo. Veja o seguinte mapa:

France geologie

como embaixo pode afetar em cima

Veja no mapa acima que a região do Loire, muito extensa, passa perto do oceano atlântico, tendo como base o maciço armoricano de granito e xisto. Isso é refletido no solo até a região de Anjou, aproximadamente. Dali para dentro do continente, a bacia parisiense começa a dominar, e temos um solo mais calcário, sobretudo em Vouvray.

champagne solo calcáriosubsolo calcário em Champagne

A mesma formação se encontra no Loire, perto de Vouvray, casas e compartimentos instalados na própria rocha (Maison troglodyte).

Continuando na bacia parisiense, temos a região de Champagne totalmente envolvida neste contexto com um solo extremamente calcário. Seguindo a leste de Champagne, temos a montanha de Vosges, uma série de transformações geológicas de natureza granítica, ricas em minerais, acrescida da depressão renana (fossé rhenan). Tudo isso fazendo parte de uma falha gigantesca de norte a sul no extremo leste françês. É por isso que a Alsace é tão diferente de Champagne em termos de clima e solo, pois a mesma é extremamente ensolarada no verão e barra todo frio e umidade oceânica vindo de oeste para a montanha de Vosges.

borgonha solos

No esquema acima, temos na inclinação da colina os melhores solos da Côte d´Or. A mistura abençoada de marga (argila e calcário) e calcário rico em fósseis, são ideiais para as uvas Chardonnay e Pinot Noir.

A Borgonha ocorre de um milagre espremida entre a grande falha onde o maciço central e os Alpes se deslocam, formando uma série de colinas, entre elas, a famosa Côte d´Or, um dos mais perfeitos terroirs em termos de solo, drenagem e exposição solar.

Continuando a falha mais a sul, temos a região do Rhône onde o granito predomina no norte, e a influência alpina refletida na Provence dá um solo mais erodido no sul do Rhône, com baixo relevo e muitas pedras e areia. Dali pra frente a falha se prolonga, separando definitivamente a região do Languedoc com a Provence.

cognac e chene

cognac e madeira:casamento perfeito

Por estar mais ao norte de Bordeaux e ter maior influência da bacia parisiense, a falta de proteção a oeste do oceano atlântico e a presença maior de calcário, faz desta região de Charentes, Cognac, um paraíso da uvas brancas ácidas, ideais para a produção da aguardente mais famosa da França. As exportações em valores de Cognac desta região supera todas as bebidas produzidas no território francês, inclusive Champagne e os vinhos de Bordeaux.

Finalmente sobra a oeste a grande e antiga bacia da Aquitânia, diferente morfogicamente da grande bacia parisiense. Nesta, o calcário ainda está muito presente na superfície, enquanto em eras geológicas mais antigas, a bacia da Aquitânia é rica em hidrocarbonetos, dando origem ao Petróleo e gás. Não se esqueçam que em Pauillac, há uma destacada refinaria de Petróleo na divisa de St-Estèphe e Pauillac. Por ser rica em cascalho, areia e argila, a região de Bordeaux pende mais para grandes tintos, enquanto na bacia parisiense, a produção destacada é de brancos, sobretudo Champagne e os vinhos do Loire.

maciço central carvalhoMaciço Central, a maior floresta de carvalhos na Europa

No maciço Central, o subsolo granítico com natureza mais metarmórfica superficialmente, é o lar ideal para os bosques de carvalho na Europa. Não só em quantidade, mas também qualidade, o carvalho francês está entre os mais valorizados do mundo.

mapa sul da frança

Sul da França com o mar mediterrâneo em solos complexos entre Languedoc e Provence, separados em Nîmes no delta do Rhône.

 

No sudoeste, abaixo da Aquitânia, houve uma forte pressão dos Pirineus, Maciço Central e Alpes,  formando outra bacia sedimentar do Sudoeste, o que conhecemos por Languedoc a oeste, e Provence a leste. Os solos são muito variados com areia, xisto, argila, calcário, arenito e pedras. Em linhas gerais, temos mais argila e xisto no Languedoc, enquanto no Provence temos solos variados com a presença do calcário. No que diz repeito a Roussillon, mais encostado nos Pirineus, sofre influência do mesmo com um releve mais montanhoso e xistoso.

Quanto ao Jura, uma cadeia de montanhas importante, de natureza argilo-calcária, surge da pressão do maciço central com a influência da fronteira franco suíça, outra cadeia de montanhas.

calvados et cidre

Calvados et Cidre (destilado e fermentado de maçãs)

A parte norte da França, composta basicamente por Normandia e Bretanha, fica numa latitude muito extrema para as vinhas. Em linhas gerais, temos mais granito e xisto na Bretanha, influência do maciço armoricano. Já na parte leste, o calcário predomina na Normandia com outras culturas fora a vinha. Região de maças, centeio, legumes e produção de leite.

Um panorama geral de toda a França, onde vinhos e destilados se superam, além de fornecer o melhor carvalho do mundo. A pauta de exportação da França no que se refere a bebidas (vinhos e espirituosos), muito importante para o governo francês,  perde entre outras coisas para os setores de exportação da Aeronáutica e Cosméticos.

 

A Sina dos Crus Bourgeois

4 de Março de 2020

Desde que foi criada em 1932 a famosa classificação dos Crus Bourgeois tudo parecia tranquilo, até que em 2003 resolveram mexer no vespeiro. A classificação que era hierarquicamente inferior, ficou completamente desmoralizada após vários chateaux famosos entrarem na justiça, exigindo seu direito de menção na classificação.

Após longas discussões e processos, resolveram fazer a atual classificação de 2020, onde 249 chateaux têm direito à sua respectiva classificação. Segundo os critérios, foram computados os valores médios de notas durante os últimos dez anos. A classificação admite 14 Chateaux com a menção “Crus bourgeois Exceptionnel”, 56 Chateaux com a menção “Cru Bourgeois Supérieur”, e 179 Chateaux com a menção “Cru Bourgeois”. Se vai pegar, não sei, mas é o que temos para o momento.

cru bourgeois 2020

mapa do Médoc

A parte superior do mapa chamada de Médoc é a mais carente em classificação, e portanto, a que mais necessita de números absolutos. São 115 chateaux onde devemos separar o joio do trigo.

Já na região abaixo, onde circunda as principais comunas, temos o Haut-Médoc, sub-região de terroir supostamente melhorado pela presença do cascalho. Aqui temos 88 chateaux para escolher, onde os critérios são mais restritos.

Por fim, nas comunas mais restritas a esquerda como Listrac, Moulin, e à direita como St Estèphe, Pauiilac e Margaux, temos poucos exemplares a escolher. Normalmente, o vinho é mais caro devido à força de seu terroir.

O médoc trabalha com cerca de 28 milhões de garrafas para esta categoria de vinho, representando 31% da produção de todo o Médoc. Números significativos para uma produção que trabalha com a elite de vinhos finos tintos da região.

Não nos esqueçamos que fora desta classificação fica chateaux confiáveis como Gloria, Sociando-Mallet e Chasse Spleen, Tour de By, Maucaillou, Potensac, e alguns ótimos de St Emilion,  sempre altamente reputados.

A categoria Cru Bourgeois sempre teve sua importância histórica em termos de qualidade, imediatamente abaixo dos Grands Crus Classés da região, vinhos de alta reputação e preços nas alturas. Após essas categorias temos os Crus Artisans, Caves Coopératives, e outros Crus, totalizando 16 mil hectares de vinhas e 100 mil garrafas de vinhos em todo o Médoc.

Three_Cru_Bourgeois

cru bourgeois confiáveis

Os Crus Bourgeois sempre foram motivo de curiosidade e bons preços frente aos figurões “Grand Cru Classé”. Nomes consagrados como Chasse-Spleen (Moulis), Poujeaux (Moulis), Haut-Marbuzet (St. Estèphe), Le Ormes-de-Pez (St. Estéphe).

Alguns dos chateaux listados atualmente merecem certo destaque. Evidentemente, não vou falar de todos, apenas o que julgo ser importante, naturalmente com devidas falhas e esquecimentos. Chateau Castéra, Noiallac, Clément Pichon, Larose Trintaudon, Plantey, d´Agassac, Belle-Vue, d´Arsac, le Boscq.

Chateau Castéra

É um Cru Bourgeois Supérieur do Médoc,  região norte a Saint-Estéphe, segundo classificação atual de 2020. É um forte concorrente ao Chateau Potensac, também do Médoc. É composto basicamente de Merlot, complementado por Cabernet Sauvignon e umas pitadas de Cabernet Franc e Petit Verdot. Já estava classficado em 1932 e suas vinhas concorriam com os Cru Clássés da região em 1855.

Chateau Noiallac

É também um Cru Bourgeois Supérieur do Médoc, próximo a Castéra, segundo classificação atual de 2020. É um corte mais puxado para o Cabernet Sauvignon, embora a Merlot ainda seja majoritária. Tem 5% Petit Verdot. Não é um chateau com a tradição de Castéra, mas tem um vinificação moderna e consistente.

Chateau Clement-Pichon

É um Cru Bougeois Supérieur do Haut-Médoc, segundo a atual classificação de 2020. Fica na parte bem ao sul de Margaux, abaixo do Chateau La Lagune. Tem muita tradição pois estão ligados aos Pichons (Baron e Lalande, duas estrelas de Pauillac). Seu blend é baseado na Merlot (dois terços) e um terço de Cabernets, sobretudo o Cabernet Sauvignon. Um vinho consistente.

chateau larose-trintaudon cru bourgeoispodemos dizer: um clássico de St-Julien

Chateau Larose Trintaudon

É um chateau clássico muito bem localizado, próximo as vinhedos de Latour e próximo também à comuna de St-Julien. Atualmente, é um Cru Bourgeois Supérieur do Haut-Médoc, segundo a classificação de 2020. Seu blend privilegia a Cabernet Sauvignon, sem esquecer a maciez da Merlot. Chateau consistente que envelhece muito bem.

chateau plantey pauillac

um rótulo clássico em Pauillac (raridade)

Chateau Plantey

O único chateau Cru Bourgeois da classificação atual de 2020 com o nome de Pauillac no rótulo. Seus vinhedos são antigos e ficam muito próximos ao do Chateau Pontet-Canet, uma das sensações de Pauillac. Vem marcado pelo excelente Cabernet Sauvignon de Pauillac, sem esquecer a suavidade da Merlot. Um rótulo clássico com a distinção de Pauillac.

Chateau d´Agassac

Este é o primeiro Cru Bourgeois Exceptionnel do Haut-Médoc, segundo a classificação atual de 2020. Bem ao sul de Margaux, na comuna de Ludon-Médoc, situa-se o chateau d´Agassac com terroir pedregoso e arenoso. Calcado no Cabernet Sauvignon nas boas safras, sem esquecer o charme da Merlot. Vamos falar em seguida do chateau d´arsac, de nome parecido e muito próximo  a este excelente chateau.

Chateau d´Arsac

É um Cru Bourgeois Excptionnel pertencente à comuna de Margaux, pois Arsac é um dos cinco vilarejos que fazem uma das comunas mais famosas do Médoc. Mesmo corte do chateau acima, mas num terroir ligeiramente diferente. Os dois chateaux têm história e tradição.

Belle Vue

É considerado um Cru Bourgeois Exceptionnel, segundo a classificação atual de 2020. Fica na comuna de Labarde (Margaux), mas é considerado um Haut-Médoc. É um vinho com mais Cabernet Sauvignon e Petit Verdot (pode chegar a 20%, dependendo da safra), deixando a Merlot como coadjuvante. É um vinho austero que envelhece bem.

chateau le boscq st estephe

um autêntico St-Estèphe

Chateau Le Boscq

Por fim, o Chateau Le Boscq, atualmente um Cru Bourgeois Exceptionnel de Saint-Estèphe. Ele é um dos Tops da lista e bem o merece. Faz parte do grupo Durthe Bordeaux. Não confundir com Le Petit Boscq, um Cru Borgeois Supérieur atualmente, e também um belo vinho, de Petit não tem nada. Voltando ao Le Boscq, ele está classificado desde 1932, tem muita tradição e é um autêntico St-Estèphe. Mescla muito bem as Cabernets com o Merlot num balanço muito equilibrado. Fica bem ao norte de St-Estéphe, perto do rio onde há um solo de cascalho.

 Procurei dar uma ideia atual da situação dos Cru Bourgeois, sempre muito difícil ao longo da história. Espero sinceramente que esta classificação atual ponha um ponto final na conturbada trajetória desta importante apelação.

Hermitage Branco

27 de Fevereiro de 2020

Muito se fala do hermitage tinto, deixando desapercebido o grande branco do Rhône. A grafia Ermitage ou Hermitage tem muito mais haver com a dificuldade inglesa em pronunciar o nome. No entanto, Ermitage sem h parece ser a original. A apelação Hermitage trata-se de uma colina granítica muito bem posicionada de 136 hectares de vinhas, sendo os tintos Hermitages 70% da produção e 30% para os Hermitages brancos.

Esse é um branco diferente, pois as uvas são diferentes, uma dupla Marsanne e Roussanne, sendo a primeira geralmente majoritária. O Hermitage branco tem a fama de não possuir muita acidez, assim como seu parceiro do Rhône Norte, Condrieu, feito com a uva Viognier de baixa acidez. De fato, a discussão é longa, alguns achando que o vinho deva envelhecer, outros não, aproveitando o frescor da juventude. O Chateau Grillet, um monopólio da apelação Condrieu com a uva Viognier, de 3,5 hectares tem apelação própria para deixar a discussão mais acirrada.

Voltando ao Hermitage branco, este sim,  é um vinho que deve envelhecer e sobretudo decantando por horas antes do serviço, pois seus aromas são muito redutivos. Geralmente, tem uma fase pouco expressiva na juventude e só vai desenvolver bem a partir dos dez anos em garrafa. Funciona um pouco como o Sémillon australiano de Hunter Valley, mais especificamente de Mount Pleasant. Um branco exótico que desenvolve seus aromas e sabores aos poucos.

Marsanne

Uva do Rhône gostando de vinhedos de encosta, solo pedregoso, e dias ensolarados no amadurecimento. Sua acidez é média e seus aromas são discretos, sobretudo em seu lento desenvolvimento. Seus aromas são de ervas, toques florais, mel, e amêndoas com o passar do tempo em garrafa.

Roussanne

Tem características semelhante à Marsanne, mais é menos vigorosa e mais delicada. Partilha do mesmo terroir. Seus aromas delicados e florais são mais evidentes. Participa geralmente com baixa porcentagem no corte.

Solos e Climats

hermitage lieux ditsos vários terroirs da montanha

De uma maneira geral no mapa acima, percebemos que os setores esquerdos da montanha são famosos pelo grandes tintos Hermitage como Les Bessardes, Le Méal, Les Greuffieux. 

Os setores no meio da colina começam mesclar uvas tintas e brancas. Vale lembrar que um bom Hermitage tinto pode conter até 15% de uvas brancas (Marsanne e Roussanne). O lieu-dit Maison Blanche é muito reputado pelo plantio de uvas brancas. O subsolo é sempre granítico, mas os solos da superfície variam entre a argila, quartzo, e solos aluviais.

Os setores leste e de borda como Les Murets, por exemplo, é famoso por suas uvas brancas. O Ex-Voto, Ermitage Blanc do Guigal, tem a maioiria de vinhas em Les Murets, de solo aluvial e pedregoso.

No caso do Hermitage Blanc de Jean-Louis Chave, os vinhedos de borda são Les Recoules, Maison Blanc, Peléat e L´Ermite, entre outros. Um vinho elegante que se desenvolve muito bem ao longo do tempo. A mescla de vários terroirs da montanha é um dos segredos dos grandes vinhos de Chave.

dois grandes brancos de Chave

Os exemplos acima falam por si deste excelente produtor. O da esquerda é um grande Hermitage branco de guarda que custa caro perto da concorrência, mas o da direita é o Blanche com uvas de segunda linha para um vinho mais informal, continua muito estruturado e longevo, mostrando a seriedade deste produtor. Um custa dez vezes o preço do outro, mas vale a pena.

exemplo de seleção parcelar de Chapoutier

Os exemplos acima são da formidável seleção parcelar de Chapoutier, um dos maiores nomes do Rhône. No da direita, um exemplo de Ermitage branco de grande corpo e estrutura do terroir L´Ermite. Seleção de velhas parcelas de Marsanne num dos terroirs mais antigos da colina, L´Ermite.

O da esquerda é do terroir L´Orée, pertencente à parcela Les Murets de vinhas Marsanne antigas. É um solo antigo, aluvial, mas de não tanta profundidade como L´Ermite. Um vinho com um pouco mais de frescor e um pouco mais leveza.

dois belos brancos do Rhône

Falando um pouco do Chateauneuf-du-Pape Blanc, tem um produção pouco expressiva no Rhône-Sul. Em seu assemblage participa ativamente as uvas Clairette e Bourbolenc. A Grenache Blanc tem pouco participação, assim como Marsanne e Roussanne, já comentadas. Mesmo para bons produtores, é um vinho que não deve envelhecer devido à sua oxidação prematura, exceto em cuvées especiais. É o caso do Clos de Papes branco, bem longe das pretensões de seu ótimo tinto.

Já o exemplo da esquerda é uma exceção. Um branco excepcional do Chateau de Beaucastel, elaborado exclusivamente com Roussanne, uva de difícil cultivo. São apenas três hectares de vinhas plantadas em 1901. Portanto, sua vinificação é especial e moldada para longa guarda. Um vinho diferenciado e elegante para padrões da apelação.

Enfim, é um assunto vasto e específico para vinhos brancos pouco convencionais. Assim como o Hemitage tinto que demanda paciência, os Hermitages brancos são de uvas diferentes que exigem tempo em garrafa. Vale decanta-los com antecedência e são muito gastronômicos como comidas exóticas, sobretudo as asiáticas e alguns pratos da nossa cozinha brasileira do nordeste como baião de dois e outros pratos consistentes. Substituem perfeitamente os tintos em termos de corpo e estrutura. Vale para pratos de inverno.

Margaux: Terroir e Vinhos

22 de Fevereiro de 2020

Das quatro comunas famosas do Médoc, margem esquerda de Bordeaux, saem os quatro Premier Grand Cru Classé, além de outros vinhos de grande estirpe. A comuna de Margaux tem certas particularidades que não são comuns às outras três: Saint-Estèphe, Pauillac, e Saint-Julien, todas elas praticamente coladas entre si.

No caso de Margaux, os chateaux ficam espalhados em torno das aldeias, ou seja, eles ficam mais pulverizados em relação às outras comunas. Além desta característica, a mão e o estilo do produtor pesam nas condições de terroir.

medoc comunas

Margaux, um pouco isolada

Os setores mais longe rio nós chamamos de Haut-Medoc que circundam as outras comunas mais famosas. O cascalho pode aparecer, mas ele é mais escasso e aparece em talhões isolados neste território. Vejam pelo mapa acima que o cascalho presente nas três comunas tem uma parte descontinuada e volta aflorar em Margaux.

Podemos dizer que os vinhos de Saint-Estèphe tem taninos mais firmes, acidez mais destacada e um certa rusticidade em relação às outras comunas. Isso se deve à maior proporção de argila no terreno. Pauillac por vez, tem alta proporção de cascalho e excelente drenagem. Vinhos que aliam potência e elegância, fornecendo três tintos Premier Grand Cru Classe (Latour, Mouton e Lafite). Por fim, Saint-Julien, comuna que não tem o mesmo brilho de Pauillac, mas uma destacada regularidade.

medoc margaux

as comunas de Margaux

Das cinco comunas que aparecem no mapa de Margaux, a comuna homônima é a mais importante, dando o mesmo nome ao único Premier Grand Cru Classé da região, Chateau Margaux.

É interessante notar que os tintos de Margaux são marcados pela elegância e finesse, falando-se muito da Merlot no corte. Contudo é prudente notar que os grandes vinhos de Margaux tem alta porcentagem de Cabernet Sauvignon na mistura, a começar pelo grande Margaux. Acontece que o cascalho da comuna de Margaux é diferente. São calhais brancos de grande profundidade num solo acinzentado com alguma proporção de calcário, o que confere extrema finesse ao vinho. Isso é tão relevante que o Cabernet Sauvignon de Margaux parece ser mais leve e fino que o próprio Merlot elaborado num sítio comum.

Notem que as comunas de Margaux, Cantenac e Labarde são as que mais refletem este terroir. Elas têm proximidade do rio e um teor de cascalho maior. Na parte norte em Soussans, o cascalho quase desaparece, aumentando a proporção de argila. Neste cenário os vinhos são mais robustos e pesados, ficando a finesse em segundo plano. Por fim, a comuna de Arsac fica mais no interior da apelação, semelhante às comunas de Listrac e Moulin, no que diz respeito à distância do rio. Os solos contêm algum cascalho, mas há mais presença de areia, o que torna o vinho mais leve. Essa condição a sul de Margaux é uma característica de Macau e Ludon-Médoc. Os exemplos típicos deste tipo de vinho são Chateau Cantemerle e Chateau La Lagune, os quais são considerados Haut-Médoc de destaques.

margaux comunaconcentração nas comunas principais

Chateau d´Issan  x  Chateau Margaux

Se a comparação não vale pela fama e prestígio, em preço e condições de terroir podemos conversar. Notem que a distância do rio em relação aos dois chateaux são idênticas, separada por pouco mais de um quilômetro entre eles.

No Chateau d´Issan, tradicional desde a idade média, temos uma área menor de 44 hectares de vinhas com solo pedregoso, argila e algum calcário. Essas condições de terreno faz a proporção de Merlot aumentar, embora  a Cabernet Sauvignon seja ainda majoritária.

img_7328sempre em caixas de madeira

No Chateau Margaux temos outra situação. O vinhedo é praticamente o dobro com 80 hectares de vinhas. O solo é mais pedregoso, embora com argila e calcário. Este fato faz com que a Cabernet Sauvigon seja amplamente majoritária com mais de 70% no corte. Portanto temos um vinho muito mais longevo e estruturado. Embora com estas características, Margaux  é um vinho de extrema finesse dada pelos calhais de seu terreno,  aliada à uma estrutura monumental. A parte mais calcária do terreno temos um fato singular no Médoc. A expressão de um autêntico Sauvignon Blanc de larga tradição.  O branco mais prestigiado do Médoc.

Esses vinhos podem ser adquiridos na importadora Clarets com preços competitivos. Os dois chateaux, Margaux e d´Issan, apresentam várias linhas de produção e preços, de acordo com seu bolso. A vantagem do d´Issan além do preço, é sua prontidão mais adiantada neste momento. http://www.clarets.com.br

img_7337briga de titãs

Na bela safra 1983 para Margaux, os chateaux acima travam uma batalha acirrada ao longo do tempo. Por enquanto, Palmer está na frente com 98 pontos.

Chateau Palmer

O segundo vinho na hierarquia de Margaux, após a Grand Vin Chateau Margaux. Em algumas safras se rivalizam em alto nível como 1961 e 1983, numa difícil disputa. Os solos de Palmer ficam entre os calhais pedregosos, argila e areia. Aqui o aporte da Merlot é significativo, podendo em alguns anos superar o Cabernet Sauvignon. No entanto, apresenta classe e uma estrutura monumental para envelhecimento em garrafa. É um estilo intermediário, não tem a força do Chateau Margaux, mas tem mais um lado mais feminino desta comuna. 

Em linhas gerais, a comuna de Margaux sofre nas safras não tão boas. O solo mais frio de calhais e o próprio calcário não contribuem para o perfeita amadurecimento das uvas em alguns anos. No entanto, nas grandes safras, Margaux costuma fazer os vinhos mais finos de todo o Médoc.


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