Archive for Julho, 2011

Harmonização: Spaghetti alla Carbonara

28 de Julho de 2011

Massa tradicional dos romanos, mas também difundida nas regiões de Lazio e da Úmbria. Os ingredientes além do espaguete, podem variar utilizando a pancetta (toucinho preparado com a barriga do porco), ou Guanciale (toucinho preparado com as bochechas do porco), ou bacon (alternativa comum, embora não original), ovos, azeite extra-virgem, sal, pimenta moída na hora e queijo pecorino romano (espécie de parmesão elaborado com leite de ovelha) ou parmesão (alternativa muito comum aqui no Brasil).

Prato tradicional na região de Lazio

Apesar de poucos ingredientes, as variações dos mesmos podem alterar significativamente o prato, principalmente para os mais puristas. No caso da pancetta, guanciale ou bacon, os dois primeiros não são defumados e sim, curados. Já o bacon, é defumado. O guanciale apresenta um sabor mais acentuado que a pancetta, porém de textura mais macia.

No caso do queijo, o pecorino normalmente é mais intenso e salgado que o parmesão. Esses fatores em conjunto acabam gerando sutilezas e características diferentes no resultado final. Portanto, um determinado vinho escolhido para um Carbonara original, pode não ser tão prazeroso para uma receita adaptada.

De todo modo, esta receita devido à presença de ovos, gordura e sal presente no queijo, nos leva para o campo dos brancos. Pensando na receita original, vinhos locais no caso de Lazio, são normalmente bastante inexpressivos. O vinho branco emblemático da região é o agradável Frascati (elaborado com uvas Malvasia e um pouco de Trebbiano). Contudo, precisa ser um Frascati de categoria, de personalidade. Alguns produtores de destaque são Castel de Paolis, Villa Simone e Fontana Candida. São vinhos com mais profundidade e que podem acompanhar o prato com relativo sucesso. Para outros brancos italianos, o Vernaccia di San Gimignano, típico toscano, pode ser uma bela alternativa, na versão sem madeira. No caso do Veneto, um bom Soave, elaborado com a uva autóctone Garganega, é outra alternativa segura. Todas essas opções, sempre com vinhos jovens e frescos.

Saindo da Itália, precisamos pensar em brancos de médio corpo, porém saborosos, pois o prato tem personalidade. O frescor da juventude ajuda a combater a gordura do prato e a salinidade do queijo. Um bom Alvarinho (Portugal) ou Albariño (Espanha) podem surpreender. Do lado francês, Macôn-Villages é a alternativa clássica. Se a opção do prato for pelo bacon, imprimindo um toque defumado mais acentuado, um Riesling australiano de Clare Valley pode resolver a questão. Evidentemente, um alsaciano pode ser testado, embora pessoalmente, seja muita sofisticação para o prato. Melhor um Riesling austríaco. No caso de espumantes, um Cava com toques minerais e com certa permanência sur lies (contato com as leveduras antes do dégorgement) pode ser bastante refrescante.

Sugestões em importadoras

Pieropan Soave Classico (www.decanter.com.br)

Cava Raventós Blanc Brut (www.decanter.com.br)

Don Olegario Albariño (www.grandcru.com.br)

Para aqueles que não abrem mão de tintos, restam algumas alternativas, sempre não tão boas como os brancos. Pode ser um Chianti não Classico ou um Barbera simples, ambos novos. Melhor um Valpolicella Classico ou um Montepulciano d´Abruzzo sem passagem por madeira. Até mesmo um Aglianico da Campania pode ser interessante, pelo toque mineral. O mais importante é o vinho ter bom frescor, fruta e taninos bem discretos. Procurar sempre as versões mais simples destas denominações no portfólio de cada produtor.

De todo modo, devemos respeitar a tipologia simples do prato, escolhendo vinhos não muito sofisticados, sobretudo pela presença dos ovos. Se o toque defumado do bacon for preponderante, um leve toque de madeira no vinho não trará problemas, embora a mineralidade seja um contraponto sempre melhor.

 

Terroir: Brunello di Montalcino

25 de Julho de 2011

Brunello di Montalcino é um dos maiores ícones da Toscana,  dividindo enorme prestígio com seus rivais, Barolo (Piemonte) e Amarone della Valpolicella (Veneto).

Nasce 100% Sangiovese, mas um clone especial chamado Sangiovese Grosso, desenvolvido por Ferruccio Biondi-Santi, inventor do Brunello, no fim do século dezenove. De lá para cá, muita fama, muito prestígio e muita expansão territorial. Hoje o Consórcio dos Brunellos conta com mais de  duzentos produtores (www.consorziobrunellodimontalcino.it).

A localização com relação a tipo de solo e altitude, somados ao estilo do produtor, confere enorme diversidade entre os Brunellos. No fundo, é o velho conceito de terroir que tentaremos esclarecer a partir do mapa abaixo (dê um zoom para melhor visualização):

Diversidade de altitudes e solos

Imaginem uma grande área quadrada com lados de dezesseis quilômetros, delimitada por vários rios (Asso, Ombrone e Orcia), onde no centro desta área (próximo à cidade de Montalcino) esteja o vértice de uma pirâmide com a referida base quadrada. As linhas em azul no mapa acima simbolizam este conceito.

Atualmente, os Brunellos dividem-se em Tradicionalistas e Modernistas, fato cada vez mais corriqueiro nas famosas denominações da Itália. O chamado estilo tradicionalista deriva de Brunellos de longas fermentações, com acidez marcante e amadurecimento em grandes botti (tonéis de grande dimensão) por longos períodos, fornecendo um toque oxidativo ao vinho. Já o chamado estilo modernista, apresenta Brunellos mais frutados, mais macios e amadurecidos em barricas preferencialmente francesas, sendo muito mais agradáveis quando novos e caindo no gosto do chamado mercado internacional. Portanto, é preciso descobrir este estilo, conhecendo o produtor e muitas vezes, perceber nas condições de terroir, uma vocação genética inerente a um determinado estilo.

Falar de Brunello e não falar de Biondi-Santi é como ir a Roma e não ver o Papa. Este é a referência do estilo tradicionalista, com vinhedos (o famoso vinhedo Il Greppo) acima de 480 metros ao nível do mar, muito próximos do vértice da pirâmide. Nesta altitude, uma das maiores em Montalcino, aliada a um solo com forte presença de calcário (além de argila e areia), as uvas têm um longo período de amadurecimento, gerando vinhos tânicos e de elevada acidez. Este cenário contribui sobremaneira para um estilo tradicionalista encabeçado por Biondi-Santi e seus seguidores.

Focando agora o extremo sul da região, temos o produtor Castello Banfi, situado a menos de 200 metros ao nível do mar, gerando uvas de fácil maturação, num solo rico em galestro, contribuindo para um Brunello mais macio e apto a um amadurecimento em madeira mais brando. É o chamado estilo modernista, com enorme aceitação no mercado americano.

Em resumo, salvo as exceções, na região central do mapa e também para o lado sudeste, temos em média, as maiores altitudes, propiciando um estilo mais tradicionalista. O lado sul do mapa, incluindo a parta sudoeste, apresenta as menores altitudes, pendendo para um estilo mais modernista. Já a parte norte do mapa, detalhes da localização do vinhedo e filosofia do produtor, são muito importantes para definirmos um estilo.

O fato é que Montalcino, por se encontrar mais ao sul que a região do Chianti Classico, além de uma maior influência marítima, apresenta condições climáticas bem mais favoráveis ao amadurecimento das uvas, sem perder acidez, ou seja, o clima é mais quente, menor risco de chuvas e altitudes suficientes para manter frescor nas uvas.

Estilo Tradicionalista

  • Biondi-Santi (importadora Mistral)
  • Azienda Costanti (importadora Mistral)

Estilo Modernista

  • Castello Banfi (importadora World Wine)
  • Azienda Agostina Pieri (importadora Cellar)
  • www.cellar-af.com.br (Amauri de Faria)
  • Azienda Argiano (importadora Vinci)

A atual legislação colaborou muito para termos Brunellos que respeitem seu estilo e seu terroir. O amadurecimento mínimo em madeira é de dois anos, período muito inferior ao que era exigido no passado, embora a linha tradicionalista goste de seguir este caminho. De todo modo, houve mais liberdade para produtores com outros critérios de elaboração.

A versão Rosso di Montalcino parte geralmente de parreiras mais jovens e trechos menos favorecidos dos vinhedos de cada produtor. Não há obrigatoriedade em amadurecer o vinho em madeira. Neste caso, o vinho pode ser tomado mais jovem, por um preço mais acessível, embora sem a complexidade dos grandes Brunellos.

Em termos de legislação, Brunello di Montalcino é DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita), enquanto Rosso di Montalcino é apenas DOC.

 

 

 

Harmonização: Vatapá

21 de Julho de 2011

Dentre os pratos da riquíssima cozinha baiana está o Vatapá, receita dada magistralmente na música do eterno Dorival Caymmi (clicar vídeo). Além disso, serve como recheio de outra especialidade baiana, o Acarajé (massa à base de feijão fradinho, frito em óleo de dendê).

Miniatura

http://youtu.be/WjXTXrZsSX8

 A receita leva farinha de rosca ou fubá, amendoim, castanha de cajú, pimenta malagueta, gengibre, cebola, coentro, tomate, leite de coco, azeite de dendê, camarões secos e alguns outros ingredientes que são segredos de cada autor. Tudo é triturado, mexido lentamente em fogo baixo formando um purê, conforme figura abaixo.

Vatapá: Textura cremosa

Na harmonização, devemos pensar num vinho branco saboroso, pois o prato exige sabor, além de uma textura espessa, pois o prato tem cremosidade. Neste contexto, os clássicos chardonnays passados em barrica de carvalho são a primeira opção. De fato, seu aroma intenso de fruta tropical, com toques tostados, e sabor amanteigado, vão muito bem com o prato. Se for borgonha, um Meursault apresenta a textura mais adequada. Sua acidez equilibra a gordura do prato, sem contar os aromas lembrando cajú dos grandes borgonhas.

No Novo Mundo, chardonnays californianos, chilenos, australianos e sul-africanos, com passagem por barrica, podem ser bem interessantes. Brancos com as uvas Sémillon, Viognier e Pinot Gris, podem ser belas alternativas, sempre com sabores intensos e boa textura. Gewurztraminer pode dar certo, embora sua crônica falta de acidez, pode tornar a harmonização um tanto cansativa.

Quanto mais novos forem esses vinhos, melhor. Terão mais fruta, mais frescor, combatendo principalmente, o lado que pode ser quente do prato, a pimenta. Se o abuso for para o lado do dendê, um toque de evolução no vinho, ajuda. Se o gosto pelo coentro falar mais alto, um Sauvignon Blanc de boa textura pode dar certo. Um Cloudy Bay da Nova Zelândia (Grupo LVMH – www.lvmh.com) ou um Steenberg Reserve da África do Sul (www.expand.com.br) ou também (www.winebrands.com.br).

Terroir: Alsace V

18 de Julho de 2011

Em determinados anos, pode haver menções específicas nos rótulos das apelações alsacianas com os varietais Riesling, Gewurztraminer, Pinot Gris e Muscat. Dependendo das condições de cada safra pode ocorrer os termos Vendanges Tardives ou Sélection de Grains Nobles. Estas menções não são privilégios somente da apelação Alsace Grand Cru. Pode ocorrer também  na básica apelação Alsace.

Deiss: Ferrenho defensor da biodinâmica

Vendanges Tardives

Deve haver sobrematuração das uvas  (qualquer uma das quatro mencionadas acima) com ataque parcial da Botrytis Cinerea (fungo que pode provocar a chamada Podridão Nobre). A intensidade deste ataque é bastante variável, mas para cada varietal mencionado, temos índices mínimos de açúcar no mosto, expressados em gramas por litro, que variam de 220 g/l (Riesling e Muscat) a 243 g/l (Pinot Gris e Gewurztraminer). Como o próprio nome diz, as uvas são colhidas tardiamente bastante maduras. Para isso, as condições de safra são fundamentais.

Domaine Weinbach: Elegância e Equilíbrio

Sélection de Grains Nobles

As uvas para elaborarmos vinhos com esta menção deve ter ataque intenso da Botrytis Cinerea, sendo as mesmas coletadas em várias passagens pelo vinhedo, selecionando-as grão a grão. Os índices de açúcar residual no mosto são ainda maiores. Para as uvas Riesling e Muscat o valor mínimo é de 256 gramas por litro. Já para as uvas Pinot Gris e Gewurztraminer, o mínimo é de 279 gramas por litro. São vinhos intensos, complexos e muito equilibrados.

Nestas categorias, a harmonização com sobremesas mais doces, bem como, queijos mais curados e de sabores mais intensos, costuma ser plenamente satisfatória.

Finalizando, a produção destas categorias na Alsácia é reduzidíssima, quer pelas condições peculiares de cada safra, quer pelos ínfimos rendimentos da própria elaboração destes vinhos. Só para ficarmos nos números mais recentes, a produção em 2010 da categoria Vendanges Tardives foi de 8.092 hl (oito mil e noventa e dois hectolitros) e a de Sélection de Grains Nobles, ridículos 811 hl (oitocentos e onze hectolitros).

Marcel Deiss – importadora Mistral – www.mistral.com.br

Weinbach – importadora Grand Cru – www.grandcru.com.br

Site oficial Vins d´Alsace – www.vinsalsace.com