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Haut-Brion e seus encantos

20 de Julho de 2019

Nos subúrbios da cidade de Bordeaux, as velhas vinhas de Haut-Brion plantadas em 1423 se renovam ao longo do tempo num trabalho viticultural minucioso. Sua primeira safra em 1525 mostrou aos ingleses o surgimento de uma nova era de vinhos, colocando definitivamente Bordeaux no topo dos vinhos de elite.

Num terroir diferenciado do Médoc, Haut-Brion desfruta de muitas pedras em meio à areia, argila e calcário com raízes profundas. O blend tem alta porcentagem de Merlot, a qual confere ao vinho uma notável maciez. A longevidade é garantida pela Cabernet Sauvignon e um toque de refinamento é dado pela Cabernet Franc. Em média temos: 45% Merlot, 45% Cabernet Sauvignon, e 10% Cabernet Franc.

Haut-Brion costuma ser um vinho muito agradável mesmo jovem, sem a costumeira austeridade dos vinhos do Médoc. Aqui estamos falando da apelação Pessac-Léognan, a qual antigamente era chamada de Graves. Haut-Brion portanto, desfruta da classificação de 1855 e também da classificação de Graves em 1953, sempre como vinho de exceção. 

828151d1-1ccb-4bca-9d25-1d16f90f3124cinco safras em taças Zalto

Num belo almoço no restaurante Gero, sob a batuta do carismático Maître Ismael, cinco safras deste Premier Grand Cru Classé confirmaram toda a complexidade, elegância e sedução em taças Zalto. O estranho no ninho, à esquerda da foto, é o espetacular Chevalier-Montrachet de Michel Niellon, um dos especialistas nesta apelação. São apenas 0,23 hectare de vinhas antigas com baixos rendimentos. A vinificação visa preservar ao máximo a acidez e frescor dos vinhos. O toque de madeira é discreto, quase imperceptível, valorizando a elegância e sutileza dos grandes Chevaliers. Neste exemplar extremamente novo e já muito prazeroso, a sutileza, o equilíbrio, e a pureza de aromas, são notáveis. Final refrescante e persistente. Belo inicio para ativar as papilas!

01342177-1366-46ef-8d8e-b27c5295c117mudança de rótulos

Aqui o ponto alto do almoço no sentido de prontidão e puro prazer. Duas garrafas muito bem guardas, mostrando como evoluem bens os grandes Bordeaux. O Haut-Brion 82 com 95 pontos faz jus à esta mítica safra. Um tinto ainda com força bons anos em adega, mas já muito prazeroso. Polido, elegante, taninos super finos, e um final de extremo equilíbrio, ainda com fruta. Sempre um porto seguro. 

Contudo, a grande surpresa foi o Haut-Brion 71, de longe, o melhor Bordeaux 71 que já provei. A garrafa estava perfeito nos seus quase 60 anos de idade. Todos os terciários bem desenvolvidos, sem sinais de decadência. Embora não tivesse a força do 82, esbanjava elegância e incríveis aromas de funghi porcini. Uma maravilha e prova de consistência deste grande Chateau, mesmo em safras não tão badaladas.

harmonizações perfeitas

Para fechar os comentários, os pratos acima foram muito bem com os vinhos. O da esquerda, Paccheri (espécie de rigatoni gigante) ao molho reduzido de vitela tinha a intensidade e compatibilidade de sabores com o Haut-Brion 82. Já o risoto de funghi porcini só fez revelar e amplificar os complexos aromas do Haut-Brion 71. Ponto alto do almoço.

grandes safras!

Embora o Haut-Brion 95 ainda esteja em evolução, sua maior porcentagem de Merlot em relação à safra 89, confere boa maciez e maior acessibilidade, mesmo relativamente jovem. Os aromas terrosos e animais ainda estão entremeados por cacau e chocolate com taninos muito presentes, mas de ótima textura. Um vinho com força para evoluir muitos anos em adega. Quanto ao Haut-Brion 89 será certamente um das safras históricas do chateau. Um vinho com trinta anos, mas pleno de energia e fruta. Tem uma densidade acima do normal, própria dos grandes vinhos. Seus taninos muito finos e abundantes garantem um longa guarda em adega.

É interessante notar a diferença dessas duas duplas degustadas, percebendo que nos exemplares 89 e 95 já temos uma formação dos terciários, mas com a fruta ainda muito presente e taninos a resolver, embora de extrema qualidade. No caso dos exemplares 82 e 71, os vinhos estão num estágio mais avançado, com os terciários muito mais presentes, e boca bem resolvida, sem arestas. De todo modo, todos os dois muito vivos e sem nenhuma pressa para serem abatidos.

Não deu tempo de provar o Haut-Brion 98 desta vez, mas trata-se de outra safra quase perfeita, 99 pontos. Com praticamente 60% de Merlot no corte, é um vinho macio, bem acessível pela idade, mas com futuro brilhante, já que a fruta está muito presente. Deve evoluir bem, adquirindo os maravilhosos aromas terciários, dignos deste grande Chateau. 

Agradecimentos aos amigos e confrades por mais esta oportunidade, numa prova de amizade e generosidade. A boa conversa se prolongou com cafés, charutos e muitas risadas. Vida longa aos confrades e que Bacco nos proteja!

Bordeaux Nota 100 numa das mãos

17 de Julho de 2019

Um vinho dito perfeito ou mais realisticamente que flerta com a perfeição, é por contraponto um vinho sem ressalvas. Se é difícil e subjetivo apontar suas qualidades, aromas e nuances, fica mais fácil não conseguir apontar algo que desagrade ou que deixe a desejar. Portanto, se não conseguimos tirar um único ponto de um determinado vinho, ele é um nota 100, símbolo da perfeição, tornando-se com o tempo uma lenda.

Quando comecei a provar grandes vinhos, após um breve espaço de tempo, fiz uma pequena lista de grandes nomes, achando que seriam os melhores para todo o sempre. Ledo engano, quanto mais provo, quanto mais repito aqueles mesmos vinhos que um dia endeusei de maneira absoluta, quanto mais sinto a evolução deles ao longo do tempo, mais dúvidas, mais dilemas, mais senões, turbilhonam a mente, sem uma conclusão definitiva. Além da emoção do momento, nunca devemos nos esquecer que obras de arte não se comparam, apenas estão a nosso alcance para serem apreciadas.

Neste sentido, faço uma nova lista, desta vez sem ilusões e conclusões definitivas, sabendo que além destes, tanto outros poderiam estar incluídos, e quem sabe com o tempo, esses mesmos vinhos seriam substituídos por outros. Enfim, vou me resumir a Bordeaux, um terroir de muitos notas 100, e neste caso apenas cinco, que cabem numa das mãos.

Deixei de lado mitos que com o tempo foram desaparecendo, ficando quase inacessíveis, e altamente sujeitos a falsificações. Vinhos que quem os provaram, ficou a lembrança inesquecível na pátina do tempo, como Margaux 1900, Cheval Blanc 1921, Mouton 1945, Petrus 1929. Todos eles imortais.

A lista abaixo é de ordem aleatória, cabendo a cada um com suas preferências pessoais, ordena-los a seu modo. São vinhos caros, difíceis de serem encontrados, mas ainda assim acessíveis para os entusiastas persistentes e tenazes. 

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Chateau Haut Brion 1989

Primeiramente, uma homenagem a este único Premier Grand Cru Classé de Graves na classificação de 1855. Um chateau altamente consistente na maioria das safras por suas elegância e empatia, mesmo em tenra idade. Nesta safra em particular, potencializa todas suas virtudes num vinho de muita força e presença. Um final muito bem acabado e radiante quase querendo dizer: a minha idade não é a que eu tenho, mas a que pareço.

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Chateau Mouton Rothschild 1986

Outro grande vinho da ótima década de 80. Mouton costuma ser um tinto muito inconstante, dependendo da safra, mas quando acerta, é excepcional. Este Mouton 86 é totalmente diferente em estilo do Haut Brion acima. Um vinho cheio de cerimônias e segredos, necessitando de algumas horas de decantação, obrigatoriamente. Um vinho que se mostra muito pouco ainda, mas dá uma aula de taninos e potência. Tem uma força e energia impressionantes, testando nossas paciência e curiosidade. Será certamente um daqueles vinhos imortais, atravessando décadas.

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Le Pin 1982

Falar dos melhores da mítica safra 82 é arrumar confusão e polêmica. Afinal, deslumbrantes chateaux desfilaram nesta safra com galhardia. Minha escolha foi para homenagear Pomerol e lembrar para alguns que o rei Petrus tem seus concorrentes. Le Pin tem uma produção diminuta, menor ainda que Petrus, e também trabalha com 100% Merlot. Sua história é mais recente, sendo um dos precursores dos chamados “vins de garage”. Nesta safra, ele se supera, mostrando toda a sensualidade e presença de um grande Pomerol. Lembrar que Petrus nesta safra foi abaixo das expectativas.

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Chateau Latour 1961

Numa relação de cinco grandes Bordeaux, não poderia deixar de estar presente o grande Latour, o senhor do Médoc. Outro vinho de consistência e longevidade impressionantes, safra após safra. Dentre muitos maravilhosos Latour, este impressiona pela rica estrutura e enorme longevidade, sem demonstrar as marcas do tempo. Taninos poderosos e ultrafinos permeiam a taça. Na mesma linha do Mouton 86, necessita de algumas horas de decantação. Um verdadeiro monumento a Bordeaux.

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Chateau Lafite Rothschild 1953

Este é outro Chateau que não poderia ficar de fora. O mais delicado, o mais sutil, o mais borgonhês de Pauillac. Escolhi esta safra porque é o melhor 53 para Parker. Uma safra não tão badalada, mas de belos vinhos. Poderia ter sido um 59, mas acho 53 um dedinho superior. Lafite é um vinho que envelhece magnificamente, mostrando todas suas sutilezas e segredos com um aporte de acidez que lhe conferem uma tensão no equilíbrio gustativo quase única. Seus toques orientais e de cedro no aroma são marcas registradas que denotam classe e distinção. 

Enfim, um preâmbulo para uma bela degustação que terremos em breve com esses tema. Evidentemente, não necessariamente esses vinhos, mas com certeza, preciosidades deste mesmo nível, marcando momentos inesquecíveis. Aguardem!

Grandes Vinhos, Grandes Formatos

2 de Junho de 2019

Os grandes Chateaux trabalham com garrafas maiores, a partir da Magnum.  Estes grandes formatos são raros, reservados para ocasiões especiais, onde o número de convivas deve ser razoável para a ocasião. A grande vantagem destas garrafas é a conservação e o poder de longevidade que podem atingir. O nível de oxigênio dentro da garrafa é muito mais baixo proporcionalmente ao volume de vinho.

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ullage: nível de vinho na garrafa

Na foto acima, os níveis 7 e 8 têm grande risco de oxidação. Os demais níveis dependem da idade do vinho. De todo modo, nos grandes formatos, o nível do vinho se altera muito pouco em relação ao formato standard (750 ml), comprovando a longevidade e conservação nestas garrafas.

e5d9452f-122b-4f22-a8ba-30f272dd4d2bGrande Magnum Domaine Leflaive!

Foi o que aconteceu num belo almoço com esses grandes formatos, começando com um Domaine Leflaive Chevalier-Montrachet 1996 em Magnum. Já com aromas desenvolvidos, mas muito equilibrado. Longa persistência aromática e evolução perfeita.

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o sonho de qualquer Chardonnay!

Para completar a trilogia, Domaine Leflaive Batard-Montrachet e Bienvenues Batard-Montrachet, ambos 2014, foto abaixo. No mapa acima, o que há de melhor em branco na Borgonha, quiçá no mundo!

img_6146sutilezas do mosaico bourguignon …

Neste embate, ganhou a delicadeza do Bienvenues-Batard-Montrachet. Embora o Batard seja um branco de grande corpo e estrutura, a sutileza, os toques florais e o equilíbrio harmônico do Bienvenues, falaram mais alto, além do vinho em si parecer mais fresco que seu oponente. Dava impressão de uma evolução mais rápida do Batard, apesar de ser do mesmo ano.

Embora Bienvenues esteja na porção de Puligny-Montrachet, seu solo com predominância de argila fornece mais corpo e estrutura que o outro Grand Cru Criots-Batard-Montrachet, do lado oposto em Chassagne-Montrachet. O solo de Criots é mais pedregoso, tendo certa semelhança com Chevalier-Montrachet.

89d7f340-2c36-48b9-a15e-306b2099364co todo poderoso Latour!

Uma maravilhosa double Magnum de Latour 90 regou grande parte do almoço. Um tinto com 95+ pontos merecidíssimos, pois é espetacular. Que força, que musculatura, tentando sair da adolescência e ganhar a fase adulta. Taninos abundantes, mas extremamente polidos, além de um equilíbrio fantástico. Seus toques de couro, pelica, inconfundíveis, amalgamados em puro cassis. Um Pauillac de estirpe com longa vida pela frente. Pelo menos mais duas décadas. Decantado e degustado calmamente, evoluiu por horas, sempre melhorando. Bem mais inteiro do que normalmente vemos nas garrafas standards.

Nesta safra temos 75% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 4% Petit Verdot, e 1% Cabernet Franc. As uvas proveem do vinhedo L´Enclos, a porção de 47 hectares em torno do castelo mais prestigiada com vinhas de idade avançada. É considerado pelos especialistas, o melhor terroir de margem esquerda, pela força e longevidade de seus vinhos.

pratos condizentes com os vinhos

Polenta com funghi e Tortelli de vitela com molho de cogumelos foram alguns dos pratos do restaurante Nino Cucina. Pratos delicados em sabores e texturas, valorizando sobremaneira os aromas terciários destes grandes Bordeaux. Atenção sempre especial do maître e sommelier Ivan, veterano na Casa.

img_6150Outra double Magnum de prestígio

Haut Brion 1982 tem a mesma nota do Latour 90, porém numa outra fase evolutiva. Além de ser oito anos mais velho, o terroir de Haut Brion permite uma evolução mais rápida que o Latour. De fato, na região de Graves, apesar de pedregoso, a composição de solo mais arenoso em relação à argila, gera vinhos mais abertos e precoces. Além disso, seu blend é bem menos austero com grande porporção de Merlot: 45% Cabernet Sauvignon, 37% Merlot, e 18% Cabernet Franc. A Merlot contribui com a maciez do conjunto, enquanto a Cabernet Franc fornece extrema elegância ao blend.

De fato, este Haut Brion estava muito mais pronto em relação ao Latour. Seus aromas sempre sedutores de tabaco, algo terroso, de estrabaria, além de ervas finas, são marcas registradas deste incrível Chateau. A maciez em boca impressiona e os taninos são de seda. 

Notem na garrafa a apelação Graves e não Pessac-Léognan. Esta última mais restrita, só foi autorizada em 1987.

Como estamos falando de uma double Magnum, estranhamos um pouco essa prontidão exagerada, mais condizente com uma garrafa standard (750 ml). Tirando este detalhe, o vinho estava ótimo e pronto para ser tomado. Cada garrafa é sempre uma história única …

Enfim, uma aula de elegância, longevidade, e de taninos de rara textura. Agradecimentos a nosso Presidente pela imensa generosidade e por manter os amigos sempre por perto.

Haut Brion em branco e preto

4 de Agosto de 2018

Os grandes Bordeaux são sempre momentos de raro prazer, sobretudo quando você degusta um dos seus preferidos. Pessoalmente, Chateau Haut Brion está entre os três que mais aprecio, principalmente por sua regularidade, além de Latour e Cheval Blanc. Este último a propósito, teremos um artigo detalhado em breve.

Haut Brion tem uma particularidade sobre os tintos do Médoc por elaborar brancos de rara complexidade. A única exceção clássica seria o Pavillon Blanc du Chateau Margaux, elaborado de longa data. Voltando ao tema, vamos aos pormenores desta degustação fantástica ocorrida no restaurante Mani.

Antes porém, aquele champagne para preparar as papilas. Nosso Camarguinho está nos acostumando mal. Agora ele elegeu Dom Perignon P3 como champagne oficial do grupo. A confraria agradece, mantendo o habitual nível na sequência de vinhos.

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Este P3 safra 1985 passou mais de 25 anos sur lies, cumprindo o protocolo de terceira plenitude. De caráter mais vinoso que outras safras provadas, tinha uma textura incrível na boca com mousse ultra delicada. Seus aromas e sua expansão em boca eram notáveis. Um champagne de exceção!

Os brancos do Chateau

A raridade do Chateau Haut Brion Blanc começa com sua diminuta área de vinhedo, apenas 2,9 hectares de vinhas com as uvas Sémillon e Sauvignon Blanc, plantadas em proporções praticamente iguais. Os solos argilo-arenosos são notavelmente pedregosos, justificando o nome da região “Graves”. A média de idade das vinhas são de 30 anos. Os vinhedos ficam em Pessac, praticamente nos subúrbios da cidade de Bordeaux. O vinho passa por um interessante trabalho com barricas francesas, boa parte novas, tanto na fermentação, como no amadurecimento entre 13 e 16 meses. A produção anual dos brancos não passam de 600 caixas.

img_4928começo arrasador

Já no primeiro flight, os dois melhores brancos da história do Chateau. Reparem na foto acima, a mudança do nome da apelação. Até 1987, temos Graves AOC. No caso do 89, já aparece Pessac-Leognan AOC. Voltando aos brancos, o 85 estava super evoluído, mas não oxidado. Começando pela cor, seu dourado estava bem presente e evoluído. Os aromas também com frutas como damasco e outras frutas secas. O mais interessante, era um curioso aroma de Cognac, confirmando sua plena evolução. Ficou muito bem com uma entradinha composta por atum, creme de abacate, e torrada de milho.

combinação inusitada

Agora o Haut Brion Blanc 89 estava um arraso. Pleno de aromas e sabores, tinha uma textura untuosa incrível que lembrava alguns Meursaults. Bela evolução, belo momento para apreciação, num equilíbrio notável e uma expansão em boca memorável. Eu o harmonizaria com um belo prato de Haddock com molho cremoso. Nota 100 com louvor!

img_4927outra dupla de respeito

Pena que o 2008 estivesse oxidado, pois é bem cotado com 94 pontos Parker. Em compensação, o Haut Brion 2010 estava em plena forma. Não tem a estrutura do 89, mas será certamente um grande Haut Brion. Sua acidez, sua vivacidade e mineralidade, são notáveis. Os aromas mais cítricos, de carambola, de mel, além de um perfeito equilíbrio, o credencia a bons anos em adega.

Os tintos do Chateau

img_4932dois clássicos do Chateau

Começando agora com os tintos, o Haut Brion 82 estava uma maravilha, garrafa perfeita. Os aromas clássicos do Chateau com notas terrosas, de curral, tabaco, trufas, especiarias, e uma fruta decadente (bem madura). Sem nenhum sinal de fragilidade, pode permanecer neste platô por muitos anos. O Haut Brion 85 segue no mesmo caminho, mas sem todo esplendor de seu par no flight.

img_4933trio parada dura!

Acima temos praticamente 300 pontos na mesa, cada qual em seu momento de evolução. O Haut Brion 2000 foi o infanticídio do almoço. Parker vem aumento sua nota paulatinamente e sua ultima avaliação foi 99+, quase perfeito. De fato, seus aromas elegantes com muita fruta, taninos finíssimos, e equilíbrio perfeito, justificam a nota. O Haut Brion 90 também com notas seguidamente aumentadas, bate 98 pontos Parker. Esse já numa bela evolução, embora ainda com chão pela frente. Poderia ter deixado ainda mais saudades, se não fosse pela presença  ao lado de um monstro chamado Haut Brion 1989. Se alguém coloca-lo como um dos cinco melhores Bordeaux já degustados, assino embaixo. Uma verdadeira obra de arte!

fcd9094d-1a15-41b7-8e19-3dd2873d1fe1merece uma foto exclusiva

O mais impressionante neste 89 é sua rica textura, quase glicerinada. Aqueles aromas clássicos estão lá, mas com uma força, pujança, e persistência aromática extraordinárias. Um tinto que deve evoluir por décadas, mas já absolutamente delicioso. Será certamente um dos grandes Haut Brion da história!

bela combinação!

Um dos melhores pratos do almoço, leitoa assada, pururucada, com farofa e purê de maça, foi muito bem com os tintos evoluídos, especialmente o 82. Os aromas defumados do prato e a textura delicada da carne casaram perfeitamente com os aromas e sabores do vinho.

texturas harmônicas

Passando a régua, um Yquem de uma safra solar, 2003. Às cegas, parecia um Yquem mais antigo, sobretudo pela cor já evoluída. De rica textura, a qual combinou bem com o chocolate, e acidez discreta, mostrou-se rico em aromas e sabores, e perfeitamente agradável para consumo imediato. Pode ser temeroso em guarda-lo por muito tempo em adega.

Enfim, mais uma batalha vencida com nobres soldados sempre unidos. Agradecimentos especiais ao nosso Maestro-General por sua generosidade infinita. Que Bacco nos proteja nesta guerra sem fim! Continência a todos!

Final MasterChef: Harmonização

23 de Agosto de 2017

O programa culinário sensação do momento MasterChef Brasil chega ao fim de sua quarta edição. Duas jovens cozinheiras se defrontam numa final de muito equilíbrio, Debora Werneck e Michele Crispim. Como de costume, o derradeiro episódio deixa a cargo das finalistas um menu autoral com total liberdade para criarem uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Pensando nisso, precisamos encaixar os vinhos supostamente de acordo com as aguarias. Então, vamos a eles.

Para começar, aqui vai uma crítica quanto à arquitetura da refeição. Começando por Michele, o menu é um tanto monótono no sentido de haver apenas carne de boi, não só na entrada como no prato principal. De fato, um menu para carnívoros. Além disso, faltou uma alternância de leveza e textura entre os pratos. Mesmo na sobremesa, faltou crocância. Feita essas observações, os pratos foram muito bem executados.

Do lado de Debora, um menu relativamente óbvio, utilizando vieiras e lagosta, ingredientes requintados e de difícil execução. Aqui ao contrário, o carnívoro passa fome. Para completar, a sobremesa também, de extrema leveza. De todo modo, técnicas apuradas para a elaboração de todos os pratos.

Em resumo, se trocássemos um dos pratos entre os dois menus, ficaria perfeito numa montagem equilibrada, alternando leveza e texturas. Sem mais delongas, vamos às entradas.

apresentações de Chef

À esquerda, Tutano Assado com Cogumelos ao Pesto e Crosta de Panko, executado por Michele. A gordura do tutano deve se contrapor à acidez do vinho. Além disso, o sabor marcante do prato e dos cogumelos pedem vinhos de personalidade e com alguma evolução em garrafa. Portanto, a escolha de um Bourgogne branco com alguns anos de garrafa parece ser a melhor alternativa. Não precisa ser um sofisticado Montrachet, mas um belo Pouilly-Fuissé do Chateau Fuissé de cinco a dez anos de garrafa ficaria perfeito com o prato, fornecendo o devido sabor, aromas terciários e a justa acidez.

À direita, Vieiras Salteadas com Aiöli de Azedinha e Farofa de Bacon, executado por Debora. Textura leve, mas sabores marcantes e o frescor da azedinha. Aqui para manter a aparente leveza do prato, nada melhor que um belo Riesling alemão entre o kabinett e Spätlese, ou seja, um toque de doçura. A textura do vinho é perfeita, sua acidez contrabalança de forma brilhante a gordura do prato, enquanto equilibra a acidez da azedinha. Seus aromas minerais vão de encontro aos sabores da farofa de bacon, e a leve doçura enaltece o sabor das vieiras.

ousadia nos pratos

À direita, Cupim com Osso de Pupunha ao molho Jus e Purê de Alho-Poró, executado por Michele. Um prato de sabores marcantes com muitos ingredientes. Sem dúvida, um prato para tintos de personalidade, mas com atenção aos taninos. Temos toques agridoces no molho, textura macia da carne, a ponta de acidez do palmito, o leve amargor do purê. São algumas armadilhas para vinhos tânicos. Portanto, precisamos de um tinto relativamente encorpado, taninos macios e muita fruta para equilibrar os componentes descritos. Se o seu estilo é mais tradicional, um bom e novo Chateauneuf-du-Pape com frutas e especiarias deve equilibrar bem o prato. Já para a turma do Novo Mundo, Malbecs, Merlots, e Syrahs, encorpados, novos e com muita fruta, são alternativas seguras.

À esquerda, Medalhão de Lagosta, Farofa de Castanhas do Brasil e Chutney, executado por Debora. É um prato delicado onde muitos vinhos podem sobrepor seus sabores. Sem dúvida, um prato para brancos. Saindo do Riesling de entrada, podemos pensar num Bourgogne bem delicado. Um Puligny-Montrachet, por exemplo. Contudo, uma opção mais original seria um Bordeaux branco, de textura delicada. Algo como Chateau Cabornnieux, Grand Cru Classe de Graves. Neste vinho, a prevalência da Sauvignon Blanc sobre a Sémillon fornece a devida delicadeza ao vinho. Além disso, a baixa porcentagem de barrica nova em seu amadurecimento equilibra bem a delicada farofa de Castanhas. Uma harmonização para não arranhar sutilezas.

brasilidade e classicismo 

À direita, Tartar Tropical, executado por Michele. Aqui temos doçura comedida, textura relativamente leve e a acidez do abacaxi. Precisamos de um vinho de mesmo peso, açúcar residual apenas para equilibrar a sobremesa e principalmente, acidez para confrontar o abacaxi. Portanto, um Chenin Blanc do Loire ficaria perfeito. Por exemplo, um Coteaux du Layon jovem, vibrante, e com toda a sutileza que o prato exige.

À esquerda, Folhado de Tangerina com Farofa de Pistache, executado por Debora. Novamente, uma sobremesa delicada, crocante e com presença de acidez. Poderia ser um Champagne Demi-Sec. Contudo, geralmente esses vinhos pecam um pouco no devido equilíbrio, faltando frescor. Melhor então, voltar ao Loire e escolher um Vouvray Moelleux, elaborado também com Chenin Blanc. Este estilo de vinho lembra os alemães pela delicadeza e personalidade. De fato, ele tem acidez suficiente para as tangerinas, doçura exata para o creme, sabores e textura delicados para o prato. 

alguns dos vinhos sugeridos

Domaine Ferret é talvez o melhor produtor de Pouilly-Fuissé. Seus vinhos são autênticos, profundos, e envelhecem de maneira fascinante. São importados pela Mistral (www.mistral.com.br). O mesmo podemos dizer sobre Chateau de Beaucastel, um dos melhores desta apelação. Tanto tintos, quanto brancos, são igualmente exemplares. Importado pela Worldwine (www.worldwine.com.br).

 

Bordeaux: Sonho e Realidade

26 de Julho de 2017

Naquela caixa de sonhos de qualquer enófilo, sempre haverá pelo menos uma garrafa de Bordeaux. Sua penetração mundo afora é tão marcante, que cerca de 22 garrafas são comercializadas por segundo no mundo. Os grandes Bordeaux são verdadeiras commodities, disputados acirradamente nos mais prestigiados leilões. Além do estilo único e complexidade, esses vinhos apresentam enorme longevidade, capazes de atravessar décadas, sobretudo nas grandes safras.

Contudo, o sonho precisa ser sustentado e ao mesmo tempo, ele próprio é um componente importante no marketing de vinhos menores, mais simples, e de preço compatíveis à maioria dos mortais. Neste contexto, veremos um panorama atualizado do comércio de todos esses vinhos, grandes e pequenos.

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distribuição de Bordeaux na França

Conforme mapa acima, mais de 50% do vinho bordalês consumido na França, concentra-se na região parisiense, além de todo o norte francês, região não produtora de vinho. A influência e tradição inglesas e de países nórdicos explicam em parte esta preferência.

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área de vinhas – 2015

Quase dois terços da área de vinhas bordaleses destina-se a vinhos relativamente simples. Cerca de um terço da área, o filé mignon bordalês (Mèdoc, St Emilion e Pomerol), ainda assim tem que ser peneirada para separar o joio do trigo. A participação dos vinhos brancos é bem modesta, sendo que os vinhos doces são quase insignificantes em área plantada.

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predominância da Merlot

A distribuição de cepas no quadro acima, reflete bem a coerência com a área de vinhas. Na produção de tintos de Bordeaux mais simples, faz todo o sentido a Merlot ser majoritária no chamado corte bordalês, fornecendo mais maciez e apelo ao conjunto, além de tornar o vinho mais pronto para um consumo imediato. Aqui, não há necessidade de um aporte tão expressivo de taninos.

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a exclusividade do Médoc

Quando falamos dos famosos 60 classificados de 1855 do Médoc, muitas vezes não temos ideia da diminuta produção desses vinhos. E olha que entre os 60 crus, temos ainda que fazer a melhor seleção, pois praticamente metade estão abaixo das expectativas. O quadro acima, apesar de um pouco defasado, dá uma boa ideia de proporção das principais comunas do Médoc.

Vamos pegar por exemplo, Pauillac. 19% dos tintos bordaleses vem do Mèdoc. Dentro desses 19%, temos apenas 12% de todos os vinhos de Pauillac. E dentro desses 12%, precisamos pinçar os realmente muito bons. Dá para entender porque um Pontet-Canet por exemplo, custa tão caro. Isso, sem falar nos três Premiers Grands Crus Classés; Latour, Mouton, e Lafite.

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importação brasileira de Bordeaux – 2014

Diante deste quadro, a importação brasileira de vinhos de Bordeaux não poderia ser outra, senão o acima exposto. Juntando poder aquisitivo baixo e altas taxas de importação, mais de 70% dos tintos bordaleses concentram-se em apelações genéricas ou no máximo, Bordeaux Supérieur. Se falarmos nos brancos, tudo fica insignificante.

 

Margem Esquerda

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 oito comuna no Médoc

Em todo o Médoc temos 16500 hectares de vinhas produzindo cem milhões de garrafas por ano, ou seja, 15% dos vinhedos de Bordeaux.

A parte norte chamada Médoc, de solo mais argiloso e arenoso, tem 35% das vinhas acima, de vinhos  medianos. Nenhum vinho classificado encontra-se nessas vinhas.

Na parcela restante, ao sul de Médoc, exceto as seis comunas, temos o chamado Haut-Médoc, respondendo por cerca de 29% das vinhas totais de todo o Médoc. Aqui, com certos cuidados, pode-se pinçar coisas interessantes.

Grands Crus Classés de 1855

Concentrados nas comunas de St Estèphe, Pauillac, St Julien, e Margaux, os 60 Crus correspondem a 3400 hectares de vinhas com uma produção de 21% de todo o Médoc.

 

Margem Direita

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 margem direita: panorama geral

Antes de falar dos vinhos e apelações, vamos falar do conceito de corte bordalês nestas áreas. A Merlot, cepa majoritária, responde por 80% dos cortes em Pomerol e Fronsac por conta do solo mais argiloso. Já em Saint-Emilion, varia de 65 a 80%, conforme a complicada e diversificada composição de solo.

A Merlot evidentemente fornece a fruta e a graça desses vinhos, embora em alguns Chateaux como Petrus e Lafleur, seus taninos podem ser poderosos. A Cabernet Franc nessas paragens dá estrutura e taninos  ao corte, enquanto a Cabernet Sauvignon, quando fortuitamente é utilizada, fornece um toque de especiarias ao conjunto.

Saint-Emilion

De toda a margem direita, a apelação Saint-Emilion é sem dúvida, a mais pulverizada. Afinal são 5400 hectares de vinhas. Aquela chamada classificação Grand Cru é uma das maiores enganações de Bordeaux. Para não correr riscos, concentre-se na apelação Premier Grand Cru Classe A e B com 18 vinhos classificados, inclusos evidentemente, os irretocáveis Chateaux Ausone e Cheval Blanc. São menos de 400 hectares de vinhas entre todos os 18 chateaux.

Pomerol

Toda a apelação Pomerol tem apenas 800 hectares de vinhas onde a Merlot domina amplamente. São menos de 1% de toda a produção de Bordeaux. Aqui, não há classificação oficial.

As apelações satélites Lalande de Pomerol, Fronsac, e Canon Fronsac, têm respectivamente; 1136 ha, 808 ha, e 264 ha de vinhas.

A elite bordalesa

Juntando o que há de melhor nos vinhos de Bordeaux, teoricamente, mais alguns dados sobre produção e área de vinhas;

  • Grand Cru Classé 1855 (60 crus)

          3630 ha – 18 milhões gf

  • Crus Bourgeois (243 chateaux)

          3300 ha – 30 milhões gf

  • Crus Classés de Graves (tintos)

          500 ha – 2,6 milhões gf

  • Saint-Emilion Premier Grand Cru Classé (18 chateaux)

         400 ha – 1,2 milhão gf

  • Pomerol ( classificação não oficial 14 chateaux )

         180 ha – 600 mil gf

Deste total de pouco mais de 50 milhões de garrafas de “elite”, temos que tirar a metade dos classificados do Médoc, pois muitos chateaux vivem hoje apenas da fama de outrora. Temos também que peneirar muito bem os chamados Cru Bourgeois da atualidade, onde a inclusão nesta categoria vive mais de interesses comerciais, do que propriamente critérios técnicos. E aí, o facão é cruel. Apenas 10% tem realmente credibilidade para padrões de alto nível. 

Portanto, dos 50 milhões, vamos nos contentar com digamos, 15 milhões. Isso, fazendo um pouco de vista grossa. Mesmo assim, nenhuma outra região vinícola no mundo, chega perto desses números.

Voltando aos pequenos, desde que o preço compense, é sempre uma opção interessante, sobretudo para o dia a dia. Como dizia o mestre Denis Dubourdieu, os verdadeiros pequenos são aqueles que não querem se passar por grandes. Contentam-se em ser equilibrados, autênticos, e fornecerem o devido prazer. Seus vinhos são um bom exemplo deste pensamento.

Pauillac x Pessac-Léognan

5 de Junho de 2017

Neste artigo de número 700, vamos falar de um assunto extremamente prazeroso no meu ponto de vista, vinhos de Bordeaux. O título acima já diz tudo, um embate entre essas duas comunas clássicas de margem esquerda, de estilos bem diferentes. Para isso, nada melhor que colocar duas taças lado a lado, de vinhos de mesmo quilate, de mesmo padrão de qualidade, e principalmente, de safras qualitativamente equivalentes.

lynch bages 1995

76% Cabernet Sauvignon, 15% Merlot, 7% Cabernet Franc, 2% Petit Verdot

15 meses em barricas francesas (60% novas)

Pauillac

Chateau Lynch-Bages 1995, também chamado covardemente como “Mouton dos pobres”. Na hierarquia desta badalada comuna que tem nada menos que três dos cinco primeiros de Bordeaux, segundo a classificação de 1855 (Lafite, Mouton e Latour), Lynch-Bages ocupa lugar de destaque num segundo ou terceiro escalão. Safras como 1989, praticamente perfeita, tem pontuações altíssimas e ainda com muito vigor para ser desfrutada.

Nesta safra especificamente de 95, o vinho obteve 89 pontos Parker. Tinto de corpo médio a bom, estrutura tânica relativamente discreta para um padrão Lynch-Bages, embora com taninos presentes e de alta qualidade. Os aromas de cassis, cedro, e um toque de grafite (mineral), são marcantes e bastante típicos. Muito bem equilibrado e de persistência aromática relativamente boa porém, sem grandes emoções. Concordo plenamente com Parker quanto à pontuação, a despeito de muitos marinheiros de primeira viagem poderem se emocionar e pontuá-lo indevidamente.

domaine chevalier 2004

53% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot, 6% Cabernet Franc, 6% Petit Verdot

16 a 18 meses em barricas francesas (um terço novas)

Pessac-Léognan

Comuna nos subúrbios da cidade de Bordeaux, tem como tesouros os magníficos Chateaux Haut-Brion e La Mission. Num patamar inferior e de equivalência relativa à sua respectiva comuna se comparado ao vinho anterior, Domaine de Chevalier prima muito mais pelos seus ótimos brancos, partindo de uma opinião bem pessoal. Contudo, a safra 2004 com seus 13 anos, encontra-se num bom momento para ser desfrutada, salientando que ainda tem um bom platô de evolução.

Comparando as taças lado a lado, notamos de cara a comprovação das cores, levando em conta a diferença de tempo nas safras e as características de cada comuna. Enquanto o Pessac-Léognan apresenta uma cor de intensidade média com conotações de borda tendendo a um leve atijolado, o Pauillac mostra uma cor um pouco mais acentuada e menos evoluída. A diferença de idade entre ambos são de nove anos. Isso mostra claramente que os Pauillacs são vinhos mais longevos, demoram mais em sua evolução, e apresentam uma estrutura tânica bem mais firme. 

Aromaticamente, as diferenças e as respectivas tipicidades continuam a confirmar a teoria. Pessac-Léognan muito mais aberto, mais abordável, mostrando seus toques elegantes de notas animais (couro, estrabaria), e de ervas finas, além de um frutado vigoroso. Já o Pauillac, mais sisudo, mais austero, mostrando toda a aristocracia da comuna. Parker confere 90 pontos para este 2004, Domaine de Chevalier.

Reforçando as diferenças de terroir entre as comunas, observamos que a porcentagem de Cabernet Sauvignon no corte de Pauillac é sensivelmente mais alta, ressaltando a tão propalada austeridade. Em contrapartida, a maior participação da Merlot no corte de Pessac-Léognan, reforça o caráter de precocidade do vinho. A maior proporção de argila e areia nestes solos de Graves, favorece o plantio e amadurecimento da Merlot.

O polêmico Parker pode ter todas as ressalvas quando julga por exemplo, vinhos da Borgonha, do sul da França, da Espanha, e outras regiões que não são propriamente sua praia. Agora, uma pessoa que provou exaustivamente todos os grandes chateaux de Bordeaux nas principais safras do século XX, tem competência de sobra para pontua-los sem bairrismos. Suas notas são extremamente seguras e consistentes.

Taninos, os vilões à mesa

Análises e comparações à parte dos vinhos acima degustados sem interferência da comida, vamos agora à mesa para observarmos o desempenho de ambos. O prato era uma carne de panela num caldo de longo cozimento acompanhado de batatas ao forno com azeite e alecrim. Domaine de Chevalier saiu na frente, mostrando corpo adequado ao prato, acidez na medida certa, taninos brandos e razoavelmente resolvidos. Enfim, um vinho mais afável aos sabores e simplicidade do prato. Já o Pauillac, não desceu de seu pedestal. Um tinto aristocrático,  cerimonial, e principalmente com uma carga tânica dissonante com o prato.

queijo saint paulin

Em seguida, tivemos um queijo Saint-Paulin bem fresco, macio, e de aromas bem delicados. É um dos queijos clássicos no acompanhamento de Bordeaux jovens e frutados. Novamente, Domaine de Chevalier tomou conta da cena. Seus taninos brandos aliados a uma boa acidez, deram o frescor e suavidade exigidas pelo queijo. Muitas vezes em enogastronomia, vinhos mais simples adequam-se melhor em várias situações, são mais ecléticos.

rondelli de salmão defumado

A entrada

Antes dos bordaleses, tivemos uma entrada de salmão levemente defumado, cream cheese, e espinafre picadinho, tudo enroladinho numa espécie de rondelli, conforme foto acima. É um prato de textura densa e ao mesmo tempo, de sabor relativamente delicado.

gerovassiliou sauvignon blanc 2005

A harmonização ficou por conta do Domaine Gerovassiliou Sauvignon Blanc grego estilo fumé, foto acima. O vinho foi fermentado e amadurecido em barricas de carvalho francês. Sua textura mais rica e seu lado fumé foram os pontos relevantes na harmonização. Epanomi, é uma microrregião bem ao norte da Grécia. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

Haut-Brion, onde começa a história

14 de Maio de 2017

Numa terra de tantas estrelas, de tanta tradição, e de tantas histórias, tudo tem um começo. E em Bordeaux, a primeira estrela no firmamento chama-se Haut-Brion. Lá se vão quase 500 anos, quando o vinho despontou em 1525, embora com as primeiras vinhas plantadas em 1423. Este tinto ganhou status quando foi reverenciado nas cortes inglesas da época e a partir dele, os ingleses aprenderam a amar esses caldos bordaleses, promovendo-os pelos quatro quantos do mundo.

Haut-Brion tem uma localização muito particular, nos subúrbios da cidade de Bordeaux. O terreno localiza-se a 27 acima do nível do mar com croupes (camadas profundas de cascalho) importantes e bem posicionadas. Areia e argila predominam no solo, favorecendo o bom desenvolvimento da Merlot, cepa de grande importância no corte, pareando a composição com a robusta Cabernet Sauvignon. Pequenas parcelas de Cabernet Franc e Petit Verdot completam a sinfonia. Esse corte favorece tanto a maciez e sensualidade de aromas, como a precocidade do vinho, sem aquela austeridade típica dos tintos do Médoc, sobretudo quando novos. Aliás, falando em Médoc, Haut-Brion é o único tinto fora da região incluído na famosa classificação de 1855 com todas as honras, fazendo parte do seleto grupo dos cinco primeiros da lista. Evidentemente, é peça importante e principal na tradicional classificação de Graves de 1959, juntamente com seu concorrente direto e vizinho ilustre, o destacado La Mission.

Outra particularidade importante é sua versão homônima em branco. Praticamente uma unanimidade, é o melhor branco seco entre todos os Bordeaux, balanceando de forma magistral as uvas Sémillon e Sauvignon Blanc, fermentadas em barrica. O vinho permanece nas barricas (50% novas) entre 9 e 12 meses. É bom lembrar que as vinhas para esses vinhos brancos somam menos de três hectares (2,87 ha), contra 48 hectares para os tintos. Sem mais delongas, vamos aos vinhos.

tangara haut brion branco

brancos: a cada dez anos, uma história

O mais novo exemplar, safra 2011, estava em plena forma, com seus toques de frutas cítricas e tropicais (suave aroma de manga) e madeira muito sutil. A acidez, o frescor, dominam o conjunto, tendo por trás a maciez e um lindo final de boca. Já o 2009 foi o que menos emocionou. Embora sem defeitos, tinha um traço mais evoluído com uma pontinha de butterscotch, deixando em xeque sua possível evolução em garrafa. De fato, esses brancos atuais, incluindo os grandes borgonhas, têm apresentado esta evolução prematura, muitas vezes decepcionante, que desmotiva o colecionador a adegar tais brancos. Fica sempre a pergunta: será que a safra está mal avaliada? será que a vinificação não está sendo bem conduzida? quem sabe?. Por fim, o maravilhoso 1999 com seus quase 20 anos estava sublime. Evolução perfeita, aromas totalmente integrados com a barrica, e uma textura gordurosa, advinda do belo trabalho de bâtonnage em barrica. Foi o que melhor combinou com o falso sushi de salmão (pão grelhado com azeite e ervas, fazendo a vez do arroz).

tangara sushi pao grelhado

casamento perfeito de texturas com o branco 99

Antes de comentar os flights dos tintos, é bom ressaltar o nível de qualidade deste Chateau independente da safra. Dependendo do ano, pode não ser uma grande safra, pode não estar pronto, totalmente integrado, mas sempre percebemos o DNA de seu terroir e sua incrível qualidade de ser hedonista, amigável com quem o desfruta.

tangara haut brion 96 e 2000

estágios de evolução bem diferentes

Talvez este primeiro flight seja o mais díspar de todos, não só pela composição do blend, como também pela diferença de potência das safras. A safra 1996 tem 50% de Merlot no corte, o que torna o vinho muito mais acessível e prazeroso quando jovem. Delicioso e com toda a tipicidade de um grande Haut-Brion. No caso do 2000, sua potência impressiona para o estilo da casa. Tem algo de Latour em sua estrutura. Taninos massivos, um conjunto grandioso que beira a perfeição. Vai evoluir com certeza por décadas. 99+ pontos de Parker.

tangara haut brion 89 e 90

beirando os 200 pontos

Que flight belíssimo! quase perfeito! Falar do Haut-Brion 89 é ficar sem palavras para descreve-lo. Que equilíbrio! que concentração! que potência aliada à finesse! uma das grandes safras deste histórico tinto. A maciez, algo glicerinado no palato, é próprio somente dos grandes vinhos. Arrisco a dizer que a safra 89 será ao longo do tempo a grande substituta de anos míticos como 45, 59 e 61.

De todo modo, foi um duelo de muito equilíbrio, pois o 1990 estava também de grande nível, com uma bela evolução em garrafa. A maior diferença pessoalmente, foi não ter a textura suntuosa do 89, mas seus taninos e frescor estavam marcantes e notáveis. As opiniões ficaram divididas, mostrando mais uma vez que trata-se  de vinhos de grande quilate, onde as preferências são definidas em pequenos detalhes.

tangara entrecote com legumes

entrecôte: maciez em destaque

Dos pratos do almoço, o destaque fica para o macio entrecôte (contrafilé) com legumes. Para a maioria dos tintos, a discreta fibrosidade da carne casou melhor com a maioria dos taninos, quase sempre de textura fina e bem polida. Uma fraldinha, ou vazio para os gaúchos, é outra carne apropriada para este tinto elegante.

tangara haut brion 82 e 83

garrafa Magnum na disputa

Não fosse pela pouca evolução do 82 em Magnum aliada ao belo estágio de evolução do 83 em garrafa standard (750 ml), o embate poderia ser muito desigual. Este 82 ainda longe de seu esplendor, não mostrou toda a exuberância que normalmente apresenta. Com certeza, quando atingir o auge, um Magnum 82 será ainda mais sublime do que costuma ser em formato normal. A conservação primorosa confirma a evolução lenta em garrafas maiores. Em compensação esta garrafa de 83 estava num momento sublime, provando que os tintos Haut-Brion apresentam um padrão de qualidade altíssimo, proporcionando comparações e disputas acirradas, mesmo entre safras de expressão tão diferentes. Mais uma justiça feita com a bela safra 83, sempre ofuscada pela mítica de 1982.

tangara hatu brion 45 e 66

velhinhos em plena forma

Começando por 1966, um estilo de Haut-Brion delicado, mostrou-se muito integro para o momento, embora já com seus mais de 50 anos. Muito equilibrado, elegante, um leve aroma canforado, mesclando cacau e algo lácteo. Um tinto que fica muito bem com um pouco de cogumelos salteados na manteiga e ervas, sem arranhar sua suavidade e delicadeza. Conservação impecável desta garrafa. Obrigado, grande Mário!

O final apoteótico ficou por conta do 1945, safra histórica, sem falsos louvores e aquelas declarações patéticas de falsas grandes safras. Realmente, com tudo de ruim que possa ter acontecido neste período negro de nossa história, as vinhas e os vinhos foram abençoados neste ano com néctares perfeitos e imortais. Haut-Brion não foi diferente. Apesar de mais de meio século de vida, sua pujança, sua força, sua concentração, continuam maravilhosamente preservadas. Uma safra imortal com uma cor impressionante em termos de concentração. Mais uma vez, obra do grande Mário!

tangara partagas D4

Partagas D4: um coringa no tabuleiro Havana

Finalizando o encontro, nosso amigo Raul fez surgir como por magia uma caixa de  Partagas D4, esticando a conversa e os comentários. Aliás esse Raul, entende prá c… de Haut-Brion. Ainda bem que não discordei muito de suas opiniões. Estou no caminho certo. Abraço a todos! pelos momentos e generosidade.

Fazenda Sertão: Enogastronomia

26 de Dezembro de 2016

Num evento empresarial, interior de São Paulo, pratos e vinhos desfilaram em harmonia, comemorando o final do ano. A recepção não poderia ser melhor, Dom Pérignon 2000 em Magnum. Com seus dezesseis aninhos, parece que o tempo não passou. Vibrante, fresco, muito equilíbrio, e a elegância de sempre com seus toques de brioche.

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dando o tom do evento

Enquanto o pessoal chegava, o champagne ia refazendo paladares em meio a amuse-bouches diversos. Um pequeno grupo dentre os participantes, desceram à adega para degustar alguns vinhos. Um deles, o grande nome da apelação Hermitage, Paul Jaboulet La Chapelle da estupenda safra 1990, com 100 pontos Parker. Pode até não ter cem pontos, mas é uma maravilha. Depois de duas horas de decantação, começou a se abrir com toques de chocolate, cacau, defumados, geleia de frutas escuras, entre outros aromas. A boca é grandiosa com taninos em abundância, mas extremamente finos. Muito equilibrado e uma persistência monumental. Pelo seu atual vigor, podemos dizer que trata-se de um vinho imortal.

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grande safra em garrafa magnum

Para os primeiros pratos do jantar, uma Double Magnum (três litros) de Corton Charlemagne Grand Cru Bouchard Père & Fils safra 2004. Esplendoroso, lembra um pouco outro Grand Cru magnifico Chevalier-Montrachet, por sua elegância e delicadeza. Fruta expressiva, frescor estimulante, balanço incrível com os toques de barrica, e muito equilibrado. Com seus 12 anos, continua integro e com muita vida pela frente.

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Corton, a montanha dos Grands Crus

Abaixo, um dos pratos iniciais, acompanhado pelo branco acima. Ravioli de queijos com Brie ao molho de manteiga, trufa e pinolis sobre leito de couve. A gordura do queijo e da manteiga foi compensada pela acidez do vinho, enquanto os sabores delicados das trufas e pinolis casaram com a complexidade do mesmo.

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delicadeza e simplicidade

Já nos pratos mais robustos, sobretudo carnes, entra em cena uma Jeroboam (quatro litros e meio) de Chateau Haut Brion 1975. A safra é polêmica, mas o vinho beira a perfeição. Seus mais de 40 anos deram a maturidade que se espera de um grande Bordeaux. Os aromas terciários reinam em harmonia com toques de couro, tabaco, especiarias e um lado terroso de grande mineralidade. A boca é perfeita, equilibrada, taninos ultrafinos e agradavelmente persistente. Uma maravilha!

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a apelação nesta época ainda é Graves

Um dos pratos mais emblemáticos com esse vinho foram as costeletas de cordeiro (foto abaixo) com risoto de açafrão, molho do assado e trufas. A textura delicada do prato casou muito bem com a maciez do vinho e seus taninos totalmente polimerizados. Os aromas e sabores finos do prato arrematou toda a complexidade aromática do tinto. Enfim, prato e vinho se valorizando.

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costeletas tenras e saborosas

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cavaletes posicionados

No serviço de garrafas grandes, de tamanhos especiais, o uso do cavalete é muito útil, além de charmoso. Com esse mecanismo, sobretudo para os tintos, vamos abastecendo os decanters, de acordo com o consumo do vinho. Os sedimentos vão se assentando pouco a pouco no eixo da garrafa. No decanter final, tomamos o cuidado para desprezar (deixar na garrafa) uma pequena quantidade de vinho  com a borra.

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um Borgonha de sonhos

Nos últimos pratos do jantar, foi servido um dos maiores tintos da Borgonha de todos os tempos, DRC Romanée-St-Vivant 1978. A safra na verdade é estupenda, mas este vinho é tudo que se espera de um Borgonha envelhecido. Este Grand Cru de vizinhança nobre, faz valer a frase: “Em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns”.  Os aromas de trufas, terra, rosas, licor de cerejas negras, especiarias, incenso, e vai por aí afora, são encantadores. Os taninos, se é que existem, são de outro mundo. Equilibrado, harmônico, e de final encantador. Um devaneio!

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filé Rossini: releitura

O prato acima coincidiu com a chegada do Romanée-St-Vivant 78. A textura da massa, e do próprio filé mignon se adequaram ao vinho. Os sabores do molho, das trufas, do foie gras, se entrelaçaram com todos os componentes terciários do vinho, numa rara harmonia. Um final de jantar glorioso.

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mil-folhas e crème pâtissière

Nas sobremesas que eram várias, a da foto acima acompanhou com competência o Chateau d´ Yquem 1999. Os sabores do prato casam bem com os toques de fruta e caramelo do vinho, além da textura cremosa de ambos. Num bom momento para consumo, mas Yquem evolui com tranquilidade por muitos anos em adega.

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o rei dos Sauternes

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pudim e bolo de chocolate caseiros

A sobremesa acima sintetiza a harmonização com os dois vinhos doces servidos. O pudim de leite com Yquem, fazendo a vez do crème brûlée, e o bolo de chocolate com Vinho do Porto. Neste caso, um Taylor´s Vintage 1985. Uma bela safra completando pouco mais de trinta anos. Em pleno vigor, seus aromas terciários começam a prevalecer, vislumbrando um futuro brilhante. Cor ainda escura, taninos presentes, mas bem moldados, e muita riqueza em boca. Os aromas primários de frutas escuras em geleia se fundem aos toques de especiarias, tabaco, chocolate e um fundo mineral, compondo o lado mais evolutivo do vinho.

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Taylor Fladgate: especializada em Vintages

O Porto ainda acompanhou os Puros na varanda com Cohibas de várias bitolas, incluindo os Behikes. Que o ano novo comece tão bem quanto o término deste. Feliz 2017!

Os Históricos Bordeaux 1982

14 de Novembro de 2016

É muito comum serem mencionadas safras “históricas” em regiões vinícolas europeias de grande prestigio, sobretudo em Bordeaux. As especulações são inevitáveis já que esses vinhos são verdadeiras comódites no mercado financeiro, funcionando de certo modo como uma forma de investimento. Depois de alguns anos com a poeira assentada, fica mais claro separar o joio do trigo.

bordeaux-82

Dream Team: Lafleur em Magnum

Dentre essas safras “históricas”, existem aquelas que são mais históricas. Uma delas por exemplo é a de 1982, equiparada a anos como 1945, 1947, 1959 e 1961, para ficarmos no século XX. O abençoado ano de 1990 onde foi praticamente impossível se fazer vinhos ruins na Europa, ainda não emplacou definitivamente neste seleto rol, talvez por não estar totalmente pronta, no auge de sua evolução, principalmente para os grandes Bordeaux.

Dito isso, defrontamos quatro belos Bordeaux 82, dois margem esquerda, e dois margem direita, num embate de gigantes. Falar de vencedores é uma questão muito mais pessoal do que técnica. Cada qual fiel a seu terroir, a seu estilo, mas todos inteiros e impecáveis. Enfim, obras de arte não se comparam …

mouton-rothschild-82

o sonho de tomar um grande 82

Testados vários vezes, em várias épocas, e sempre muito consistente. Fico imaginando até quando esse platô de evolução vai se estender, pois ainda não há nenhum sinal de decadência. É muito fácil gostar deste vinho, mesmo para aqueles que tem problemas com taninos. Ele é sedutor nos aromas, macio em boca, muito equilibrado, e um final bastante longo. Sempre na elite dos campeões desta mítica safra.

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apelação Pessac-Léognan só em 1987

Pessoalmente, foi o que menos me impressionou, mas sem dúvida, é uma questão pessoal. Outra razão, foi a cruel comparação com os demais concorrentes ilustres. De todo modo, um perfil brilhante de Pessac-Léognan com seus aromas de estábulo e toques terrosos. Menos encorpado que o Mouton (Pauillac), é também de um equilíbrio notável. Taninos ultrafinos e longa persistência. Em comparação a seu grande rival, Chateau Haut-Brion, é um pouco mais potente e com menos elegância.

lafleur-1982

inspiração para o rótulo americano Dominus

Apesar de estarmos falando de um margem direita na sub-região de Pomerol, é de uma austeridade impressionante. Lafleur é o único Pomerol comparável ao astro maior Petrus, não só pela fleuma e estilo mais introvertido, mas também por seu incrível poder de longevidade. Esta safra em particular, uma das mais perfeitas de sua história, foi elaborada por Jean-Claude Berrouet, o famoso enólogo de Petrus, com apenas 10% de barricas novas.

Seu solo é muito particular e multifacetado, mesclando argila, areia e importante pedregosidade. Com isso, seu corte de uvas também é único e bem especifico com Merlot e Cabernet Franc pareando as porcentagens. Talvez a presença importante da Cabernet Franc lhe forneça essa espinha dorsal e estrutura  incomuns para um típico Pomerol, mais calcado na Merlot.

Esta safra de 1982 considerada perfeita, é de uma cor impressionantemente jovem e intensa. Os aromas se desenrolam pouco a pouco na taça com forte presença mineral, frutas escuras, e toques de chocolate amargo, lembrando cacau. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos uma hora. O boca é de um pujança extraordinária, vislumbrando ainda bons anos de guarda. Um vinho realmente impressionante. Como conselho, se você tiver uma garrafa deste Chateau com menos de quinze anos, não abra. A paciência irá lhe recompensar, certamente.

petrus-1982

o singelo rótulo num vinho sofisticado

Reparem que no rótulo não está escrito Chateau. Realmente, a simplicidade  e a aparência mal cuidada de sua construção confirmam esta observação. O solo extremamente argiloso faz da Merlot praticamente seu território único com quase 100% do plantio, de vinhas muito antigas. As condições particulares deste terroir dão uma imponência, uma austeridade, e uma introspecção ao vinho, que o diferencia de maneira inconteste de todos os outros Pomerols.

Como curiosidade, a argila azulada de Petrus é rica em ferro, gerando vinhos com intensidade de cor marcante. Além disso, não há como aumentar a densidade de plantio das vinhas que fica em torno de 7000 plantas/hectare. A explicação vem de um subsolo extremamente duro onde a camada de argila para a ramificação e expansão das raízes é de apenas 70 centímetros, ou seja, pouca profundidade para uma competição entre as vinhas mais acirrada.

Além de uma boa conta bancária, você precisa de muita paciência para esperar seu Petrus acordar. Os infanticídios com este vinho mundo afora são rotineiros. Nesta safra em particular, ele não tem a potência de seu concorrente Lafleur, mas sobra elegância e finesse. O grande trunfo de 82 é que Petrus conseguiu se soltar, mostrando aromas terciários muito finos e de rara sutileza. Não é um vinho óbvio, mas sua sedosidade contrasta magnificamente com seu lado cerimonioso. Talvez por não ser uma safra especificamente concentrada, seu desabrochamento chegou mais cedo, concedendo prazer e expectativa esperados. Grande vinho!

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Esta é a cor do Lafleur 1982. Acreditem!

Como se não bastasse esses quatro prazeres em si, tivemos que analisa-los em duas taças não menos espetaculares e bem merecedoras destes grandes caldos. Riedel Sommeliers versus Zalto Bordeaux, num embate de titãs entre duas excepcionais cristalerias  austríacas.

Riedel Sommeliers é uma linha de taças maravilhosas com um bojo de 860 ml de capacidade para o modelo Bordeaux Grand Cru. Aromaticamente, mostra-se muito sutil captando aromas multifacetados dos mais complexos tintos bordaleses. Em boca, procura mostrar a essência de um grande Bordeaux com texturas delicadas, sem perder o frescor.

Zalto Bordeaux, como toda taça Zalto, é de uma leveza incrível, além da ínfima espessura do cristal. Dá medo de tocar na taça, tal a aparente fragilidade que ela transmite. Em relação à Riedel Sommeliers, seus aromas são mais concentrados, perdendo-se um pouco as nuances de vinhos mais sutis. Entretanto na boca, mostra com ênfase, o corpo e estrutura dos grandes Bordeaux, numa percepção ampliada da textura de seus finos taninos.

Qualquer que seja a escolha, você estará bem servido. De todo modo, é sem dúvida um diferencial, um detalhe relevante, quando se trata de vinhos de tamanha complexidade, em períodos de evolução onde as sutilezas devem sempre que possível, ser amplificadas.

lingua-nino-cucina

lingua com polenta cremosa

Eis um prato (foto acima) que muitos torcem o nariz, língua. Realmente, não é uma carne fácil de se trabalhar, mas quando bem feita, é digna dos mais finos tintos já com aromas evoluídos e taninos resolvidos. Foi o caso deste prato, do Nino Cucina, escoltado pelos Bordeaux acima comentados. O casamento foi perfeito pela delicadeza de sabores de ambos, prato e vinho. Em particular, Petrus agradeceu a parceria.


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