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Salmão Defumado e Gravlax

18 de Março de 2020

Dois dos mais pedidos tipos de salmão no mercado, restaurtantes e receitas. Amplamente difundido entre nós, geralmente como entrada e canapés. Há diferenças no preparo de ambos e evidentemente, nos vinhos a acompanhar.

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Salmão Gravlax

É o processo nórdico, escandinavo de preparar o salmão. Os ingredientes são uma medida de açúcar, duas medidas de sal grosso, aneto ou dill e o salmão. Mistura-se os ingredientes, cobrir o salmão e deixa-lo por 48 horas na geladeira. Lava-se o salmão e pode fatia-lo finamente com faca apropriada, e servi-lo desde in natura, como em diversas formas, temperos e molhos.

Evidentemente, o frescor,  o gosto in natura do peixe, pede vinhos frescos, leves e de boa mineralidade. Os Sauvignons desta característica vêm sobretudo do vale do Loire são as primeiras escolhas. Alvarinhos, Albariños e Chablis, geralmente são muito minerais e de textura correta para o prato. Espumantes Blanc de Blancs e preferencialmente os champagnes são muito bem-vindos.

A madeira nesta caso não casa muito bem com a característica do peixe. Ela fica muito invasiva. Por outro lado, brancos sem madeira e de certa delicadeza são fracos para o prato. Penso que a mineralidade e a personalidade do vinho definem bem a questão.

Neste caso, os complementos mais pedidos são as pimentas aromáticas, ervas e mostardas não muito picantes. Raspas de limão e cítricos são bem-vindos. É uma entrada estimulante, aguçando as papilas gustativas para o que vem pela frente.

salmão defumado

Salmão Defumado

Esse é aquele salmão que compramos pronto e já embalado. Pode ser feito em casa, mas dá um certo trabalho. Normalmente, ele é previamente semicurado e posteriormente defumado com madeiras ou ervas. Esse toque defumado vai diferenciar o vinho em certas situações. É evidente que o grau de defumação, assim como o cozimento do peixe deve influir no resultado final. Estamos falando de um início Gravlax, seguido de leve defumação, sem comprometimento do peixe.

Esse toque mineral pendendo para o defumado, o branco Riesling é ideal. Se for o alemão, opte pelo estilo Trocken, bem seco, ou os alsacianos secos e minerais como Trimbach. Quanto mais envelhecido for o Riesling, maior o toque defumado apresentado, fugindo um pouco dos aromas florais e frutados.

Champagnes com longo tempo sur lies podem ser interessantes, pois a textura fica mais cremosa e os aromas mais complexos e intensos.

 Os Sauvignons de Bordeaux ou próprio corte bordalês branco me parece insuficiente para o prato. Tem um textura rica e falta um pouco de acidez ao conjunto.

Os Sémillons do vale do Hunter, Austrália, pode ser uma bela saída, pois são minerais e com o tempo em garrafa, desenvolvem aromas defumados muito interessantes.

Outra opção interessante é a uva grega Assyrtiko com mais de 60 anos de idade, plantada em vasos, na ilha de Santorini. Um vinho fresco, mineral, salino e de grande personalidade. Pode ir muito bem com o salmão defumado, inclusive o poderoso caviar.

No entanto, preste atenção na carga de madeira. Vinhos muito amadeirados e invasivos, podem deixar a combinação enjoativa e pouco estimulante. É sempre bom prestarmos atenção ao fato, deixando os toques defumados com a mineralidade  e outros aspectos de vinificação como tempo sur lies, por exemplo.

Uma combinação ousada seria o salmão defumado com Whiskies de Islay com forte teor de turfa, o que confere um casamento marcante e bem surpreendente.

salmao defumado e blinisa clássica receita de salmão defumado e creme azedo

Para suavizar o gosto do peixe defumado e até do próprio vinho, um dos acompanhamentos clássicos é o blinis com creme azedo (creme de leite e limão), substituindo com competência o clássico de blinis de caviar, tão caro em nossos dias.

Sempre é bom para uma entrada fresca e de personalidade como esses dois salmões, pensando em vinhos frescos, minerais, de boa personalidade. A Europa sempre sai na frente com exemplares clássicos.

Vinhos e Solos

15 de Fevereiro de 2020

Quando pensamos numa região francesa com tamanha variedade de vinhos, estilos e solos, além da extensão do rio Loire em todo seu percurso, percebemos melhor o conceito de terroir e sua interação com clima, solos e uvas.

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panorama geral da região

O Loire tem aproximadamente 57 mil hectares de vinhas com cerca de 50 apelações de vinhos. Seu percurso ronda perto de 800 quilômetros de extensão. Suas quatro cepas e quatro vinhos principais são pela ordem: Cabernet Franc, Chenin Blanc, Melon de Bourgogne (Muscadet), e Sauvignon Blanc. Por estas características seus melhores vinhos são brancos (41% à base de Chenin Blanc, um pouco de Muscadet e Sauvignon Blanc), tintos e rosés (43% à base de Cabernet Franc), e 14% de espumantes (localmente chamado de Fines Bulles).

De toda a produção, os franceses ficam com 79% (253 milhões de garrafas) e a exportação fica com 21% (67 milhões de garrafas), provando que os franceses entendem de vinhos de estilos variados e são muito gastronômicos. Os outros países não entenderam totalmente a questão, tendo muito a fazer em termos de exportação, sobretudo em países de terceiro mundo.

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Clima Atlântico sendo rechaçado ao longo do continente

Na região atlântica do Muscadet a infuência marinha é muito grande. À medida que vamos caminhando para Angers e Saumur,  esta influência vai diminuindo com maior impacto do clima continental. Aqui estão sobretudo as apelações Muscadet, Savennières (Chenin seco) e os famosos Coteaux du Layon, englobando Quarts de Chaume e Bonnezeaux.

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A geologia comandando o terroir

Neste contexto, temos total infuência do maciço armoricano (massif armoricain), uma das mais antigas geologias com rochas ígneas do tipo granito, mica, e gneiss. Gera vinhos delgados e de muita boa acidez como o Muscadet. Em relação à Chenin Blanc, cepa do médio Loire, sob a ação do xisto (rocha metamórfica), gera Chenin Blanc seco de incrível acidez  e mineralidade como o Savennières. Já os doces Coteaux du Lyon com incrível acidez gera vinhos profundos e equilibrados. Os Quarts de Chaume e Bonnezeaux são vinhos intensos e profundos, segundo padrões do Loire.

Em contrapartida a região de Saumur e sobretudo Tours estão amplamente dominados pelo calcário da bacia parisiense (massif parisien), uma bacia sedimentar. Os vinhos têm muito boa acidez, mas são sutis e delicados. É o caso dos tintos à base de Cabernet Franc, e os Chenins sob a denominação Vouvray.

É facil fazer a experiência de um quarts de chaume com um vouvray moelleux. Os dois são Chenin Blanc, mas um de xisto, outro de calcário. O Quarts de Chaume vai parecer mais intenso e robusto, enquanto o Vouvray vai parecer mais delicado e elegante, embora com ótima acidez. Apesar da aparente fragilidade, o Vouvray suporta envelhecimento em garrafa bastante prolongado, por anos. É a expressão mais fiel dos vinhos alemães na França. Foto abaixo. 

um de xisto, outro de calcário

92042eb2-fae5-49ed-8ae1-bfd00d10f8e8a personalidade do calcário

O da esquerda feito no Valle de Uco, Argentina, o da direita, um típico Cabernet Franc de Tours. A leveza e a mineralidade dos dois são notáveis. O primeiro de uma área específica do Valle de Uco, Guatallary, é um terroir aluvial com presença de calcário ativo importante. O segundo nesta região de Tours, o calcário se faz presente, mostrando leveza e elegância. Em terras distantes entre si, o calcário une estilos de vinhos semelhantes. O primeiro é importado pela Grand Cru e o segundo importado pela World Wine (uma referência desta apelação). Fotos acima.

Cabernet Franc

No caso da Cabernet Franc, a mesma coisa. Apelações como Chinon e Bourgueil de Tours, sobretudo, são de uma delicadeza que a Cabernet Franc não encontra em outras paragens. É o solo calcário comandando o estilo delicado e elegante do vinho. Já os tintos de Saumur-Champigny são dominados mais pelo xisto que encomtrar em Saumur, portanto um pouco mais intensos e estruturados.

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bem típico da apelação

Sauvignon Blanc

No caso do Sauvignon Blanc do extremo Loire, bem a leste, as apelações Sancerre e Pouilly-Fumé são muito interessantes. A própria apelação Pouilly-Fumé em determinados solos lembram os bons Chablis pela mineralidade, embora de cepas diferentes. Num destes solos calcários, temos o Kimmeridgiano ou Kimméridgen, o qual são solos de animais marinhos (ostras, sobretudo) calcinados na rocha. São os solos encontrados em Chablis e na própria apelação Pouilly-Fumé, que conferem aos vinhos a incrível mineralidade. 

fbd58601-33cc-4dac-82ff-c32bf4e2df18muito típico de Vouvray

Um belo espumante elaborado pelo método clássico com notas de mel e brioche, lembrando alguns champagnes. Importado pela Mistral.

Fines Bulles

Podemos dividir os espumantes em apelações mais conhecidas e regionais. Por exemplo: Anjou e Cremant de Loire. No primeiro, o solo é dominado por xistos, conferindo aromas de damascos e mel, e uma presença mais floral da Sauvignon e Chardonnay. São espumantes mais densos que os demais. Já Cremant de Loire, os solos são muito variados, mas os espumantes costumam ser mais estruturados que a média da região.

Os espumantes de Saumur vêm de solos de transição com um pouco de xisto e a maioria calcário. São espumantes de médio corpo com notas de frutas brancas, amêndoas grelhadas e baunilha.

Por fim, os espumantes de Touraine e Vouvray. São feitos pelo método champenoise, sobretudo os Vouvray. As notas são de mel, brioche e frutas em compotas. São delicados e elegantes, regidos pelo calcário.

img_7317vinho verde típico com leveza e off-dry

Este Vinho Verde elaborado pela Adega Guimarães dá uma boa ideia de tipicidade, frescor e leveza. Trazido pela importadora Grand Cru.

Vinho Verde x Mucadet

A região do Vinho Verde em Portugal tem influência oceânica e origens antigas do mesmo maciço que a região do Nantes, Maciço Armocariano, ou seja, granito. Só que esta região está na latitude 41 a 42 N, enquanto Nantes, a região do Muscadet está na latitude 47 N. As uvas também não são as mesmas. Enquanto na região do vinhos verdes, temos Arinto, Trajadura, Loureio e Azal, entre outras, a região de Muscadet tem uma só uva que se chama Melon de Bourgogne, uma uva bem mais discreta. Com isso, a região dos vinhos verdes com uvas mais aromáticas e latitude mais baixa, consegue elaborar vinhos aromaticamente mais expressivos, embora conserve leveza e acidez. Já a região do Muscadet, bem mais fria e uma uva menos expressiva, dá vinhos mais discretos aromaticamente, também com muita acidez. Portanto, o perfil do vinho em termos de leveza e frescor se conserva nos dois casos, pelo subsolo granítico. 

Harmonização na Praia

5 de Janeiro de 2020

No verão, estando ou não na praia, a pedida é por comidas leves e em especial, peixes e frutos do mar. Para aqueles que não abrem mão de um bom vinho, vamos às melhores opções, quase que descartando os tintos. Nesta hora, os brancos e rosés são as estrelas. Além do mais, vamos melhorar as estatísticas onde os brasileiros têm ampla preferência por tintos, mesmo num país tropical.

ceviche salmão e tilapia

Ostras, ceviche, sashimi, ouriço, carpaccio de peixe

Todas essas comidas são deliciosas e refrescantes, aproveitando os sabores marinhos dessas iguarias in natura. Portanto, a chave da harmonização é a mineralidade. Além disso, texturas mais delgadas complementam a combinação. Neste sentido, champagne blanc de blancs ou os espumantes de mesmo gênero como Cavas por exemplo, são pedidas certas. Pouilly-Fumé ou Chablis são os brancos mais recomendáveis. Nossos vizinhos do Chile e Argentina têm propostas muito interessantes com Sauvignon Blanc e Chardonnay muito minerais. Os rosés da Provence bem delicados e minerais podem surpreender.

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Casquinha de siri, bolinhos de bacalhau, pasteizinhos de frutos do mar

Aqui já estamos falando das deliciosas frituras com toda a sorte de peixes e frutos do mar. O vinho branco precisa ter acidez para combater a gordura. Além disso, quanto mais sabor e textura houver no prato, mais essas características devem ter no vinho. Frutos do mar com seu toque de doçura pedem vinhos mais frutados ou com algum off-dry para acompanhamento. É o caso da casquinha de siri onde alguns Sauvignon mais frutados ou Riesling com leve açúcar residual se dão bem na combinação. Já o bolinho de bacalhau com seu sabor mais pronunciado, pede um Alvarinho mineral, de textura não muito opulenta, ou um Riesling alsaciano, seco e de textura maior que seus rivais alemãos do Mosel.

linguado a meuniere

Linguado a meunière, molho beurre blanc, ou outras receitas sutis

Estas receitas pedem vinhos elegantes, de boa acidez, e de certa textura, levando em conta os acompanhamentos que podem ser batatas cozidas, purês, ou legumes no vapor. Dependendo do molho, o vinho pode ser mais incisivo em acidez como por exemplo, nas versões com alcaparras ou azeitonas. Chablis e Pouilly-fumé costumam ser imbatíveis. Se a preparação envolve tomates ou suco de frutas, o lado frutado do vinho é importante na combinação. Chardonnays costumam ir bem neste campo, sobretudo aqueles sem passagem por madeira ou de maneira bem sutil. Os Bordeaux brancos trabalham bem neste campo.

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Moquecas, peixadas, caldeiradas

Mudando um pouco a linha dos pratos anteriores, aqui temos mais corpo e intensidade de sabores. O vinho precisa ter mais estrutura e os rosés podem entrar em ação. Os rosés mais gastronômicos da Provence. A famosa Bouillabaisse entra neste contexto. Alguns rosés do Rhône podem ser dar bem. Sauvignons mais musculosos como alguns neozelandeses ou sul-africanos podem se dar bem. Chardonnays dos vales frios do Chile com madeira comedida são bons parcerios. Se o molho for muito intenso, até alguns tintos leves como Pinot Noir podem dar certo.  

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Bacalhau, haddock ou peixes com preparações mais intensas

Aqui é o reino dos Chardonnays, sobretudo com bom toque de madeira. Rosés mais intensos como Tavel do sul do Rhône, ou rosés do Novo Mundo mais intensos, são boas companhias. Se a opção for por tintos, a península ibérica pode fazer bonito com Riojas envelhecidos, taninos bem moldados, estilo Gran Reserva. Os Dão garrafeiras são opções a considerar.

salmao defumado

Sardinha na brasa, salmão defumado ou preparações específicas 

Sardinha na brasa com vinho verde tinto, só para os genuínos portugueses. Eles entendem esta combinação. Vá de um branco seco bem cortante, de personalidade e alguma rusticidade. Um Assyrtiko grego pode encarar o prato com bravura. Um espumante português da Bairrada bem seco, extra-brut, pode ser adorável. 

Se a opção for Salmão defumado, os rieslings alemães ou alsacianos com mineralidade são ideais. Prefira os alemães do Rheingau, mais encorpados. Para os escoceses, sobretudo se for um petisco para charutos, um bom Malt whisky de Islay é pedida certa. Lafroiagh ou Lagavulin pode ser a glória.

No mais é cutir o verão, o calor, sempre com muita descontração e frescor na gastronomia. Boas Férias!

Temas de Degustação

29 de Janeiro de 2016

Ao longo do ano, inúmeras confrarias programam seus temas para serem realizados em datas previamente divulgadas entre os participantes. Existem as famosas Verticais (um determinado vinho em várias safras), Horizontais (uma denominação de vários produtores numa mesma safra), Varietais (uma determinada uva), Regionais (geralmente regiões clássicas da Europa), e assim por diante. No entanto, certos temas podem ser polêmicos e muitas vezes surpreendentes. Nesto contexto, vamos explorar abaixo alguns desses embates.

1 – Pouilly-Fumé x Chablis

Apesar de estarem em jogo uvas diferentes, Sauvignon Blanc e Chardonnay, a mineralidade e textura de ambas apelações francesas podem confundir. Preferencialmente com safras novas, ou seja, vinhos jovens, esta disputa pode ser bastante acirrada. É evidente que particularidades de determinados produtores devem ser avaliadas para proporcionar um equilíbrio justo e confundir os degustadores.

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Chablis e Pouilly-Fumé: mesmo tipo de taça

2 – Pessac-Léognan x Saint-Émilion

Bordeaux de margens opostas, mas que guardam certas semelhanças. Os tintos de Pessac-Léognan são os mais abordáveis na juventude e os que amadurecem mais cedo em comparação com as demais comunas da margem esquerda. A proporção de Cabernet Sauvignon costuma ser menor no corte, dando mais destaque ao Cabernet Franc e Merlot. Do outro lado, Saint-Émilion têm vários tintos com boa presença de Cabernet Franc no corte, além da onipresente Merlot. Portanto, são vinhos com corpo, textura e poder de longevidade parecidos, proporcionando uma disputa bem bacana.

3 – Pommard x Barolo

Novamente, uvas, regiões, e países diferentes, defrontando Pinot Noir e Nebbiolo. Pommard costuma gerar borgonhas com certa rusticidade, apesar de muita força e poder de envelhecimento. Neste raciocínio é que os poderosos e viris Barolos podem proporcionar uma batalha equilibrada, gerando dúvidas e conclusões confusas.

4 – Riesling Alsacianos secos x Alemães Trocken

Aqui o segredo é calibrar o teor alcoólico e o açúcar residual dos vinhos alemães. Quando estamos na categoria Trocken (seco) aí sim, os vinhos podem ficar bem parecidos. A região francesa da Alsácia se não for a única, é certamente a que mais se aproxima do padrão alemão de vinhos. Disputa interessante.

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Vertical: La Tâche

5 – Supertoscanos 100% Sangiovese x Brunellos

O detalhe acima quanto à soberania da Sangiovese nos Supertoscanos é fundamental, já que a ideia de deste termo é muito genérica e pouco elucidativa. É bem verdade, que apesar de tratar-se da mesma uva, a Sangiovese na região do Chianti Clássico apresenta um clone diferente com relação ao terroir de Brunello di Montalcino, conhecida localmente como Sangiovese Grosso. Sobretudo quando os vinhos têm uma certa evolução em garrafa, a briga fica bem acirrada.

6 – Corte Bordalês Americano x Bordeaux Margem Esquerda

Aqui a inspiração é o inesquecível desafio de Paris em 1976. Talvez a degustação mais famosa do mundo pelas consequências inevitáveis na época. O corte bordalês, embora seja reproduzido em várias regiões e países, só mesmo os Estados Unidos são capaz de confrontar os grandes tintos bordaleses de margem esquerda. Estou me referindo aos tintos de Napa Valley com alto grau de sofisticação. É evidente que precisam ser escolhas que priorizem a elegância, o equilíbrio, e não a potência e explosão de aromas. Stags´ Leap  Winery provou e ratificou isso.

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Horizontal: Bordeaux 1961

7 – Pauillac x Saint-Julien

As apelações acima na chamada margem esquerda de Bordeaux são contiguas. Daí, a extrema semelhança dos vinhos. Embora Saint-Julien não tenha nenhum Premier Grand Cru Classe, seus Deuxièmes são de tirar o fôlego. Só para dar dois exemplos, temos Léoville Las Cases e Ducru-Beaucaillou. O primeiro tendendo para um estilo Latour (Pauillac) e o segundo, para um estilo elegante (Lafite). Dá o que falar este embate.

8 – Vouvray x Rieslings Alemães

Novamente, disputa entre uvas: Chenin Blanc e Riesling. Vouvray é uma das mais famosas apelações do Loire, gerando vinhos delicados e com diferentes graduações de açúcar residual (sec, tendre e moelleux). Neste contexto, os Rieslings alemães das categorias Kabinett, Spätlese e Auslese, apresentam o mesmo perfil. A mineralidade, a textura em boca, também são semelhantes. Embora aparentemente “frágeis”, o poder de longevidade destes vinhos é notável. Enfim, uma aula de delicadeza e elegância.

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grandes espanhóis

9 – Barbarescos x Barolos

Aqui temos regiões muito próximas trabalhando com a mesma uva, Nebbiolo. Sabemos a priori, que os Barbarescos são menos complexos e menos longevos que seu concorrente mais ilustre. Contudo, não podemos esquecer de produtores mais modernos que dão força a estes vinhos, assim como temos vários estilos dentro da denominação Barolo. Portanto, se bem escolhidos, a briga é boa.

10 – Sauternes x Barsac

Duas apelações muito próximas separadas pelo rio Ciron elaborando os grandes vinhos doces bordaleses. Em resumo, podemos dizer que os vinhos de Barsac por questões de terroir, são mais elegantes e menos untuosos que os Sauternes. Entretanto, há Sauternes com perfis mais delicados, sobretudo quando a porcentagem de Sauvignon Blanc aumenta no blend com a Sémiilon, sempre majoritária. Esses detalhes, põem mais lenha na fogueira.

Em resumo, são temas apaixonantes, mas de custo elevado. Normalmente, mais interessantes para grupos que já têm uma longa estrada no mundo do vinho e portanto, mais experiência para avaliar este tipo de degustação, pois os vinhos devem ser bem escolhidos para o objetivo final ser atingido. De todo modo, há principiantes que gostam de trilhar caminhos diferentes dos habituais. Afinal, são nos erros que aperfeiçoamos os acertos.

As duas margens de Bordeaux

15 de Junho de 2015

Mais um almoço entre amigos com belos vinhos, dando uma atenção especial aos tintos bordaleses. Desta feita, as peculiaridades das margens esquerda e direita. Sabemos que os vinhos do Médoc são cortes com ênfase na Cabernet Sauvignon, amante de solos secos e pedregosos. Já em Saint-Émilion, a Merlot é a protagonista, beneficiando-se de solos mais frios e argilosos. Portanto, partindo de situações diferentes, as sensações destes vinhos embora diversas, nos levam a prazeres semelhantes. É bom enfatizar que esses prazeres só são alcançados com um certo tempo em garrafa, sobretudo para os tintos de margem esquerda (Médoc). Muitos infanticídios são cometidos por não respeitarem a projeção de guarda que esses caldos merecem.

Champagne Aubry: Bela surpresa

Para dar inicio aos trabalhos, um champagne diferente e surpreendente, a começar pelo corte (60% Pinot Meunier, 20% Pinot Noir, 20% Chardonnay). Passa em média, 18 a 24 meses sur lies (c0ntato com as leveduras). Extremamente seco (seis gramas por litro de açúcar residual), o limite inferior para um Brut, podendo ser considerado como Extra-Brut. Fresco, estimulante e muito harmônico.

Uma das referências em Pouilly-Fumé

Este Sauvignon Blanc parte de vinhas com trinta e cinco anos de idade em solos kimmeridgiennes (fósseis marinhos calcinados na pedra), sílex, e em parte calcários. Segundo os terroiristas, isso explica a mineralidade aliada ao clima frio. Aromas herbáceos, cítricos e com um toque de pipi cat, proveniente dos thióis formado no processo de fermentação. Cortante em boca, agudo, persistente, na espera de belos queijos de cabra. Grande pedida com salmão defumado, também.

Delicadeza com a marca Lafite

Aí sim, começam os bordaleses. O tinto acima, apesar de margem esquerda da comuna de Pauillac, a mais reputada e de grande prestígio, o estilo Lafite marca o perfil deste vinho. A potencia e concentração de um Latour, Mouton, Lynch-Bages, Pichons, entre outros, divergem diametralmente deste estilo delicado, feminino e sutil. Não está totalmente pronto, mas sabemos que seu apogeu não tardará. Uma boa experiência para um dia enfrentar o Grand Vin Lafite-Rothschild, tão enigmático como Gioconda.

Um autêntico representante das Côtes

Ladeado por Ausone, Belair e Pavie, châteaux de alta reputação nas Côtes, terroir em torno da cidade de Saint-Émilion com boa declividade, La Gaffelière cumpre seu papel. Com seus quase vinte anos, este da safra de 1996, mostra claramente a boa evolução dos bordaleses de margem direita. Fruta com ameixa escura, toques minerais e de trufa, emolduram seu perfil aromático. Taninos macios, abordáveis e belo equilíbrio, sem transparecer o álcool. Escoltou muito bem um patê de foie gras, enaltecendo toques animais delicados.

Vinsanto de rara delicadeza

Que tal um Vinsanto com 13% de álcool. Parece brincadeira, mas tem coisas que só o Castello di Ama faz. O famoso binômio de uvas Trebbiano e Malvasia compõem sua elaboração pelo método de appassimento. Mais quatro anos em caratelli de carvalho francês (pequenas barricas de cem litros) e a magia está pronta. Os delicados aromas de mel, de frutas secas e algo resinoso, desfilam em perfeita harmonia. Seu equilíbrio entre álcool, açúcar e acidez é admirável. Casou perfeitamente com um tiramisu de confecção artesanal. Gran Finale!

Evidentemente, após todo este sacrifício; fora da mesa, cafés, chás, Portos e destilados, acompanhados de Puros como Partagás E2, Hoyo de Monterrey e Bolívar Belicosos, prolongaram noite adentro. Meus sinceros agradecimentos aos confrades, já esperando novos encontros. Santé!

Abaixo, alguns dados técnicos dos bordaleses acima citados:

Château Duhart-Milon

Pertencente ao grupo Lafite-Rothschild, Duhart-Milon situa-se a oeste do Grand Vin (Lafite), mantendo um estilo semelhante, bem oposto a seu concorrente Clerc-Milon do outro ramo da família (Mouton-Rothschild). Contanto com 76 hectares de vinhas com idade média de trinta anos, o solo apresenta um perfil arenoso, calcário e pedregoso (pequenas pedras em tamanho, graves finas), fornecendo uvas que hão de gerar vinhos de estilo mais elegante, fiel ao padrão Lafite.

A composição do vinho em média segue o padrão de 80% Cabernet Sauvignon e  20% Merlot. O vinho amadurece entre 14 a 18 meses em barricas de carvalho (50% novas).

Relevo ondulado com as croupes pedregosas

O relevo da comuna de Pauillac é mostrado acima, onde encontra-se as camadas mais espessas de cascalho. Este detalhe é importantíssimo para o fator drenagem tendo como consequência, a excelência da casta Cabernet Sauvignon. No mapa abaixo, percebemos a disposição dos vinhedos Rothschild com a proximidade de vizinhança entre os châteaux Duhart-Milon e Lafite-Rothschild.

Comuna de Pauillac: entre St-Estèphe e St Julien

Château La Gaffelière

80% Merlot, 20% Cabernet Franc, 18 meses de barricas, 22 hectares de vinhas, idade média de 35 anos, solo argilo-calcário e em parte silicioso.

Entorno da cidade de St Emilion: terroir privilegiado

Fechando os vinho de St Émilion, recentemente mais dois companheiros para o Ausone e Cheval Blanc, considerados Classe A. São eles o Ângelus e Pavie. Os terroirs que englobam Cheval Blanc e Figeac são de solos mais secos e pedregosos. Mas isso é assunto para outras oportunidades.

 

Chablis x Pouilly-Fumé: O Relativismo da Cepa

26 de Fevereiro de 2015

Quando as pessoas referem-se à Chardonnay para falar da Borgonha, os franceses ficam de certa maneira surpresos e até incomodados com a importância dada à cepa. Eles sentem-se muito mais confortáveis quando discorrem sobre comunas como Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet, Meursault, e assim por diante. Para eles, o “Climat” é mais importante, ou seja, um conjunto de fatores que determinam um terroir específico onde a cepa é mera coadjuvante. Para o pessoal do Novo Mundo é difícil assimilar este conceito, provocando em certos casos até uma sutil ironia. Neste contexto, o título do presente artigo faz todo o sentido. Às vezes, precisamos de fatos e de exemplos extremos para entender algo um tanto camuflado.

Obviamente, sabemos que as apelações francesas mencionadas acima partem de uvas e regiões distintas. Portanto, num primeiro momento de precipitação, parece não haver nenhum sentido no tema proposto. Ocorre, que os diversos fatores de terroir caminham às vezes em rotas diferentes, mas acabam revelando resultados bastantes próximos, os quais podem confundir e por conseguinte, meditar sobre esses caminhos. Esclarecendo melhor, nas apelações Chablis e Pouilly-Fumé, o clima é rigoroso, frio, mesmo para padrões europeus, sobretudo no inverno, e o solo de cada uma das regiões, extremamente particular e muito específico. Esses dois fatores, clima e solo, sobrepujam e muito as características das uvas e a própria intervenção do homem, o qual sabiamente, isto inclui os melhores vinhateiros de cada uma destas apelações, a realizarem um mínimo de intervenção possível. Só assim, esses vinhos passam a ser únicos, emblemáticos e por vezes, incompreendidos. Resumindo, não há Chardonnay no mundo que possa reproduzir o que acontece em Chablis. Da mesma forma, não há Sauvignon Blanc no mundo que possa reproduzir o que acontece em Pouilly-Fumé. Entretanto, os solos e climas destas duas regiões são tão particulares e tão intensos, que os vinhos em degustações às cegas se confundem agradavelmente.

Argile à Silex

Quando degustamos Chablis ou Pouilly-Fumé há um certo mistério de início. São vinhos que não se mostram de cara. Pouco a pouco, vão aparecendo alguns toques florais, um frutado muito sutil, e os característicos traços minerais, esfumaçados. Em boca, a dureza fala mais alto, acidez marcante, algo quase cortante, e a mineralidade mostra-se com certa salinidade. Esses são os pontos mais evidentes e categóricos para confirmar as semelhanças dos vinhos. O lado varietal, o ponto que distingue uma cepa de outra é extremamente sutil, difuso, quase totalmente encoberto pela força extraordinária de seus solos e climas respectivos.

Marnes à Petites Huîtres (Virgule)

Só para lembrar, Chablis é a sub-região da Borgonha mais a norte, bem deslocada das demais sub-regiões contíguas a sul. Esta no meio do caminho, entre Dijon e o sul da Champagne. Um clima extremamente rigoroso e um solo muito específico chamado de Kimméridgien ou Kimmeridgiano, sobretudo nos melhores terroirs. Neste solo estão presentes fósseis marinhos que “teoricamente” seriam responsáveis pela tal mineralidade. Da mesma forma, em Pouilly-Fumé, o clima é rigoroso e os solos também específicos. Um deles é o chamado Sílex, solo pedregoso composto de pedras de argila calcinadas em outras eras geológicas, além do solo chamado “Virgule”, o mesmo encontrado em Chablis.

Importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br)

Possivelmente, o melhor produtor encontrado no Brasil

Os dois rótulos acima são dignos representantes de suas apelações. O Premier Cru Montée de Tonnerre é de grande tipicidade. Este Chablis é encontrado na importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br). Um confronto sem vencedores, ou melhor, sem perdedores.

Para aqueles que se  interessarem em comprovar na prática, é uma degustação bastante didática. Evidentemente, não é fácil convencer amigos, confrarias, associações, a realizarem degustações de temas polêmicos. O óbvio sempre é mais fácil e menos trabalhoso. Contudo, para os inquietos, os destemidos e os que procuram novos desafios, este é um dos caminhos.

Onde estão as referências no mundo dos vinhos?

20 de Junho de 2013

Ultimamente, temos tido várias notícias, artigos, tentando derrubar o norte da bússola, ou seja, as poucas referências que nos fazem crer na magia  do vinho, no ritual do serviço do vinho, e até mesmo, nas combinações clássicas da enogastronomia. Nada contra a contestação, nada contra em prospectar novos rumos na elucidação de questões, rituais, e métodos, na compreensão cada vez melhor num mundo recheado de subjetividades. Contudo, é preciso assimilar com certo ceticismo as chamadas “novas descobertas” tentando apenas provar que tudo que tem sido pesquisado e passado para os entusiastas do vinho através de cursos, palestras e degustações didáticas, são teorias ultrapassadas, deixando as pessoas extremamente confusas, sem saber em que acreditar, já que essas mesmas “teorias” também não são exatas e estão longe de um rigor científico.

Detalhes de algumas taças Riedel

Fiz esta introdução, para poder inicialmente falar das taças Riedel. Estão tentando desmistificar a eficiência das mesmas em degustações às cegas, deixando nas entrelinhas a inutilidade em tê-las como objeto de desejo e compra. Dá a impressão que todo o trabalho da família Riedel em confeccionar taças muito bem elaboradas, tanto do ponto de vista estético, como principalmente do ponto de vista técnico, acaba sendo inútil ou no mínimo, muito pouco eficiente. É quase um trabalho de engenharia, buscando o formato ideal para determinados tipos de vinhos, sobretudo das clássicas regiões europeias. E eles fazem questão em demonstrar estes detalhes, degustando um mesmo vinho em taças diferentes com resultados bem evidentes. Pelo menos in loco, as pessoas ficam maravilhadas com a demonstração. Além disso, a Riedel prima por comungar a confecção de uma nova taça com produtores da região em questão, propondo vários tipos das mesmas em degustação, e consequentemente buscando aliar a parte prática e técnica em sua elaboração. Não tenho nenhum vínculo comercial com esta marca, e portanto sinto-me bastante à vontade em defende-la não apenas pela marca, mas pela repercussão em incentivar outras cristalerias mundo afora, na elaboração de taças com estas prerrogativas. Alguns exemplos como, Spiegelau, Schott Zwiesel e a nossa brasileira Strauss, são ótimas alternativas. Sem o pioneirismo da Riedel, estaríamos tomando vinhos até hoje no chamado conjuntinho de taças da vovó (geralmente cinco taças muito bem lapidadas, escalonadas em alturas, onde a maior normalmente não passar de 80 ml (mililitros). 

Quem sabe um dia, em uma degustação às cegas,  escolham esses copos 

Passando agora para a questão da mineralidade, altamente lincada ao conceito de terroir, tema este exaustivamente comentado neste blog, essas “novas teorias” tem como objetivo desmistificar qualquer correlação do solo com o vinho na questão acima citada. É evidente, que ainda não temos provas científicas destes fatos. Porém, é incontestável que vinhos como Pouilly-Fumé, Chablis, Riesling alemão ou alsaciano, possuem aromas diferenciados, e ainda não devidamente explicados cientificamente. Se os terroiristas não conseguem provar suas teorias, pelo menos nos dão a possibilidade de tentar compreender esses aromas através de seus vinhedos únicos e mágicos.

Este esquema de diversidade de solos pode não ser tão importante para a magia  dos grandes borgonhas

Se os chamados formadores de opinião, sommeliers, enólogos, palestrantes, professores de cursos desta nobre bebida, levarem ao pé da letra todas estas contestações, não falaremos mais de taças específicas, não falaremos mais de zonas de sabores na língua, não falaremos mais de particularidades de solos das grandes regiões clássicas, porque de nada valem essas explicações. Portanto, vai imperar a subjetividade, a dúvida e principalmente, a falta de referência. Além disso, ficará muito chato, perdendo a magia do vinho.

Para terminar, a enogastronomia também anda por este caminho, perdendo suas referências. O cordeiro não combina mais com Bordeaux, agora é Pinot Noir. Churrasco (carne vermelha) com vinho branco ou espumante. Vinho tinto com peixe, queijos azuis com vinhos tânicos, e vai por aí afora. Ficamos reféns das seguintes frases: “vinho é aquele que você mais gosta”, e a pedra filosofal dos vendedores de vinho: “não existe vinho ruim, existe vinho mal vendido”, e a mais batida de todas “gosto não se discute”, magnificamente complementada pelo saudoso Doutor Sérgio de Paula Santos, “mas educa-se”.

Tannat com gorgonzola: A vitória do amargor

Em resumo, bebam o que quiser, sem se preocupar com taças, regiões clássicas, e combinem com a comida mediante seu próprio gosto. Mas não se esqueçam: ninguém compra vinhos às cegas, e nem taças. Quanto à enogastronomia, infelizmente na prática é quase uma utopia. A escolha é de cada um. Abraços,

Mineralidade nos vinhos

6 de Junho de 2013

Caráter mineral num vinho é um dos assuntos mais subjetivos e mais polêmicos. A razão principal até o momento, é que não há provas científicas sobre esta questão, sobre esta afirmação. De fato, os mais renomados fisiologistas em plantas, geólogos, agrônomos e enólogos, são extremamente céticos quanto ao tema. Aliás, eles acham que a maioria das pessoas que mencionam o termo “mineral” não sabem exatamente do que estão falando.

O vídeo acima na região chilena de Limari mostra uma das inúmeras tentativas de vincular a mineralidade dos solos aos vinhos. Notem que no decorrer do vídeo, ele fala sutilmente que de “alguma forma” esta mineralidade é passada para as uvas, deixando um certo mistério no ar.

Outro fator inerente ao termo e da mesma forma, subjetivo e polêmico, é a expressão terroir, analisada exaustivamente em vários artigos deste blog. De todas as expressões utilizadas para a descrição de vinhos, a mineralidade é sem dúvida nenhuma o cordão umbilical com o terroir e daí, todo o glamour, sutileza e mistério em torno do vinho.

Neste campo minado, três fatores parecem convergir para a solução da questão, segundo esses mesmos especialistas: regiões frias, acidez dos vinhos e supressão parcial da fruta. De fato, as clássicas regiões européias como Chablis na Borgonha, Sancerre, Savennières e Pouily-Fumé no Loire, Mosel e Saar na Alemanha, apresentam solos calcários ou de ardósia, os quais geram uvas de alta acidez, aliados a climas frios. A fruta mais discreta, mais contida, nestes mesmos vinhos, dão espaço para o chamado caráter mineral. Entretanto, não se pode provar por A+B que as raízes absorvem esses minerais e os mesmos são transferidos para os frutos. Mesmo que estes mecanismos sejam um dia provados, as quantidades absorvidas são tão irrisórias, que seriam extremamente difíceis de serem detectadas sensorialmente. Sendo assim, o mistério continua.

Randall Grahm, pesquisador famoso na Califórnia, acrescenta mais alguns fatores para a expressão da mineralidade nos vinhos: vinhas antigas (raízes profundas), baixos rendimentos no vinhedo, vida microbiana no solo (mycorrhiza ou micorriza), e colheitas com perfeita maturação das uvas (não sobre-maturação).   

Percepção do sabor: interrogação nos solos

Na prática, o que chamamos de aromas ditos “minerais” são aqueles que lembram algo defumado, esfumaçado, iodado, grafite, petróleo, cat´s pee (urina de gato), terroso, giz, sílex, alcatrão. Geralmente, os solos relacionados com mineralidade são do tipo vulcânico, calcário, xisto, granito, ardósia, normalmente com a presença de pedras, sobretudo em camadas mais profundas.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9a/Roue_des_Ar%C3%B4mes_du_Vin.jpg

Muito desses aromas são colocados em outras famílias na famosa roda de aromas, tais como: animal, químicos, medicinais, empireumáticos, entre outros. A roda de aromas acima (favor clicar no atalho) parece-me bastante completa e elucidativa. Notem que a família de aromas minerais está indefinida entre aroma e bouquet. Eles sugerem que esses aromas provavelmente não provêm do solo e sim do processo fermentativo com a presença de ésteres e tióis. Enfim, é um assunto que dá pano pra manga!

Vinhos que vencem o tempo

11 de Abril de 2013

Dos muitos ditados sobre vinhos, um dos mais ilusórios é o que diz: “Vinho, quanto mais velho, melhor”. Na prática, isso vale para cerca de dois porcento dos vinhos produzidos no planeta. Poucos passam dos dez anos em plena forma, sem sinais de declínio. Portanto, quando nos deparamos com essas raridades, vale a pena comentá-las.

Didier Dagueneau Silex 2005

Morto há poucos anos em um acidente de ultraleve, Didier Dagueneau foi um dos mais talentosos vinicultores do Loire, notadamente da apelação Pouilly-Fumé, que ele fazia questão de nominá-la Blanc Fumé de Pouilly. Sua cuvée Silex faz menção a um dos famosos terroirs da apelação com solo pedregoso de nome homônimo. Apesar de seus oito anos de safra, a fruta delicada estava bem presente, envolta num mineralidade extremamente elegante. O equilíbrio é seu ponto alto, com final persistente, harmônico e em plena forma. Vinhas antigas, uma grande safra e um vinicultor brilhante, geralmente culminam nestas maravilhas.

Vega-Sicilia Valbuena 5º Año 1999

Este é um daqueles segundos vinhos que só dignifica o grand vin que está por trás. Geralmente, são vinhas mais jovens, partidas que não estão à altura do grande Vega, pois a exigência é cruel. Mas é com este rigor, que grandes nomes são feitos, mesmo em seus exemplares mais humildes. Nesta safra, foram mescladas as uvas Tempranillo (80%), Merlot e Malbec (20%). Seu amadurecimento em madeira, extremamente peculiar, deu-se com cinco meses em tonéis de 20.000 litros, seguido em barricas novas de carvalho americano e francês por dezesseis meses, e voltando aos tonéis até o ano de 2002, antes do engarrafamento. Só começou a ser comercializado em 2004.

Esta amosta, com seus catorze anos de safra, diga-se de passagem, não foi uma grande safra, não mostrou sinais da idade. Aliás, esta é uma marca registrada da bodega Vega-Sicilia. Nunca tente adivinhar um Vega pela cor. Deve haver alguma magia no amadurecimento longo em madeira. Voltando à cor, ainda tinha traços violáceos. Os aromas finos mesclavam com maestria fruta e madeira num final balsâmico. Novamente, o equilíbrio de boca notável. Nada era muito potente, mas extremamente fino.

Henri Gouges Nuits-St-Georges Premier Cru Clos des Porrets 1998

Para muitos, guardar borgonhas tintos pode ser uma temeridade. São muito frágeis, delicados e com pouca estrutura tânica. Porém, nunca duvide de um Nuits-St-Georges, principalmente um Henri Gouges. Este exemplar com uma cor impressionante tinha taninos de um autêntico Barolo. Firme, musculoso e profundo. Seus aromas terrosos, de cerejas escuras e alcaçuz eram os mais destacados. Grande equilíbrio e persistência, mostrando outras facetas da Pinot Noir.

Sedimentos deixados pelo tempo

Pela foto acima, não há como deixar de decantar um vinho desses. Mais um contradição para aqueles que dizem que borgonhas não se decantam. Produtores e terroirs diferenciados nunca seguem regras. Eles caminham longe da padronização, por isso são únicos.

Verão, Praia e Vinhos: Parte II

5 de Janeiro de 2013

Dando prosseguimento ao nosso artigo de verão, vamos falar hoje especificamente para aqueles que gostam de tudo que vem do mar, absolutamente fresco, salino e com poucas preparações e interferências para ser apreciado, ou seja, o alimento totalmente ou praticamente “in natura”. É o caso clássico das ostras frescas, bastando apenas umas gotinhas de limão, ou nem isso, para serem degustadas.

carpaccio de peixeCarpaccio de peixe

Nestes casos, se a idéia é não perder nada deste frescor, nada desta salinidade e pureza, escolha brancos leves, neutros, minerais, bastante vivazes (os mais novos possíveis de safra, se for o caso) e adequadamente refrigerados. A gama é vasta e estimulante: um bom Muscadet (francês do vale do Loire), um Sancerre ou Pouilly-Fumé (também do Loire), um Vinho Verde (incluindo o Alvarinho), um Albariño (versão espanhola do Alvarinho), um Verdicchio (italiano do mar Adriático), um Chablis (francês do norte da Borgonha), dentre tantos outros.

Se no momento, houver dificuldade em encontrar alguns dos exemplos citados, a velha alternativa do bom espumante nacional brut cumpre os requisitos básicos. Outra alternativa geralmente sempre à mão é um bom e honesto Sauvignon Blanc. Pode não ter a mineralidade necessária, pode ter um lado frutado um pouco invasivo, mas mantém um bom frescor e os característicos toques herbáceos.

Dentre os espumantes, além dos nacionais, os Cavas (espumante espanhol elaborado pelo método tradicional) são ótimas opções. Não são tão caros, principalmente os mais simples, e são exatamente estes,  que nos fornecem um toque mineral característico tão bem-vindo. Agora, se a idéia é sofisticação, vá de champagne Blanc de Blancs (champagne exclusivamente elaborado com Chardonnay). São perfeitos, leves, minerais e enriquecedores nestas harmonizações.

Voltando aos nossos pratos frescos de mar, além das ostras citadas como exemplo, entram nesta relação, a clássica comida japonesa (sushi e sashimi, sobretudo), ceviche (preparação com limão e cebola, principalmente), salada de frutos do mar (são levemente cozidos e marinados), e outros preparações que envolvam ervas frescas e aromáticas, temperos picantes e com componentes de acidez.


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