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Château Palmer 1999: Rondando a Perfeição

8 de Agosto de 2013

Quando falamos de grandes Bordeaux, falamos de grandes Châteaux e grandes safras. Os anos de 1982, 85, 89. 90, 95, 96, 2000, 2005 e 2009 estão neste contexto. Porém, existem safras relativamente boas que normalmente apresentam a vantagem de serem devidamente apreciadas num espaço de tempo mais curto, principalmente para os mais impacientes. Contudo, neste perfil de safra, vez por outra nos deparamos com alguns Châteaux excepcionais, os quais por motivos bem específicos, locais, e muitas vezes inexplicáveis acabam gerando tintos muito acima da média da safra em questão. É o caso deste Palmer na safra de 1999, uma das melhores de todos os tempos deste Château. Somente o grande Lafite foi capaz nesta safra de ombrear-se a este grande vinho de Margaux, segundo o especialista em Bordeaux, o venerado Robert Parker. 

Tive o prazer de degustá-lo recentemente na companhia de grandes amigos e grandes conhecedores neste tipo de vinho, os médicos Antônio Cesar Azevedo Pigati e Sylvio Gandra. Iniciamos os trabalhos pelo grande branco do Loire, Coulée de Serrant, já comentado em post específico neste mesmo blog. Mas chega de conversa, vamos aos fatos.

 taça palmerCor surpreendente para um vinho de quatorze anos

A primeira constatação começa pela cor. Notem na foto acima que não há nenhum sinal de evolução, com um rubi ainda bastante intenso, praticamente sem halo aquoso de borda. Apesar dos aromas iniciais um pouco fechados,  nota-se que ainda não atingiu seu platô que por sinal, será de muito anos. Seguramente até 2025, se bem adegado. Com o passar do tempo, os aromas florais, minerais (mina de lápis ou grafite), de alcaçuz e uma profusão de frutas escuras (mirtilo, cassis, ameixas) tomaram conta da taça. Aromas muito finos e bem delineados. A boca é um caso à parte, encorpado sem ser agressivo, equilíbrio fantástico (apenas 12,5° de álcool), e uma estrutura tânica invejável, tanto em quantidade, como principalmente em qualidade. E este é seguramente, o grande componente que permitirá sua evolução por décadas.

palmer 1999Bordeaux de gente grande

Concordo fielmente com Mr. Parker que deu noventa e cinco pontos para este tinto, beirando a perfeição. Ele pode ser polêmico em vários tipos de vinho, mas em grandes Bordeaux, sua sensibilidade é notável. Como  já provou praticamente todos os Grands Crus Classés em todas as safras do século passado, ele tem a noção exata até onde cada um destes grandes Bordeaux são capazes de chegar. Eu não tenho dúvida, o Château Palmer 1999 é digno de qualquer painel dos melhores Bordeaux do século passado, incluindo os Premiers Grands Crus Classés. É um vinho para a caixa dos sonhos.

Coulée de Serrant: Do céu à terra

27 de Maio de 2013

Vinho do céu à terra. Este é o título do livro de Nicolas Joly, proprietário do famoso Coulée de Serrant e pai da Biodinâmica. Já falamos deste assunto em algumas oportunidades, inclusive num artigo deste blog intitulado “Chacra e Noemía: Bodegas de terroir”.

Para os mais céticos, devo dizer que antes de mais nada, Nicolas Joly é um excelente vinicultor, ou seja, sabe fazer vinhos. De nada adianta todos os preceitos da biodinâmica para pessoas sem talento. Como se diz: de boas intenções, o inferno está cheio. Contudo, se o século vinte foi o desenvolvimento da era industrial e o século vinte e um está sendo da era digital, provavelmente, o próximo século será o da sustentabilidade. Neste contexto, a biodinâmica encaixa-se perfeitamente, promovendo a harmonia do ecossistema, a ausência de produtos químicos no combate às pragas, e a preservação da fauna e flora locais.

Coulée de Serrant: Monopólio de sete hectares

Nicolas Joly elabora três vinhos em sua propriedade, todos dentro da apelação Savennières, a mais reputada apelação para a casta Chenin Blanc em estilo seco. Além de Coulée de Serrant, um terroir especial dentro de Savennières com apelação própria, temos Le Clos de La Bergerie, outro grande vinho da apelação Roche aux Moines, tão nobre como Coulée de Serrant. Por fim, Le Vieux Clos, um vinho sob a apelação Savennières, partindo de vinhas relativamente antigas, sob baixos rendimentos. Apenas quinze mil garrafas por ano.

Voltando ao grande Coulée de Serrant, alguns dados e informações sobre o mesmo valem para os demais vinhos da propriedade, já que os preceitos biodinâmicos não fazem distinções entre os vinhos, apenas respeitam as limitações e características de cada terroir. O trabalho de campo é feito pelo homem e por tração animal (cavalos). O solo é pedregoso com grande proporção de xisto e quartzo. A idade média das vinhas para o Coulée de Serrant é de 35 a 40 anos, com algumas chegando a mais de oitenta anos. Os rendimentos variam entre 20 e 25 hectolitros por hectare, bem abaixo dos quarenta autorizados para a apelação. Este vinhedo é cultivado desde o ano 1130 por monges cistercienses e até o presente momento foram feitas quase novecentas colheitas. A colheita é realizada em cinco passagens durante três ou quatro semanas para uma perfeita maturação, inclusive eventualmente com a presença parcial da Botrytis Cinerea (assunto já visto neste mesmo blog). 

Serrant decantacaoDecantação obrigatória

Da colheita à cave. Segundo Joly, a vinificação deve ser feita em barricas de madeira, jamais novas, com capacidade para quinhentos litros. O formato e o tamanho da barrica são o continente ideal para o nascimento do vinho. Não há decantação, resfriamento, controle de temperatura, clarificação e muito menos adição de leveduras industriais. Aqui é parto natural, não se admite cesarianas. Nestas condições, a fermentação em alguns momentos pode atingir temperaturas entre 25 e 30ºC, e sua duração ocorre entre dois e quatro meses, às vezes mais. 

O vinho envelhece muito bem por longos anos. É sempre bom decantá-lo com duas ou três horas de antecedência. A cor mais evoluída é fruto não só do tempo em adega, mas da super maturação das uvas, e de todo o processo natural de vinificação. A temperatura de serviço deve ficar entre 13 e 14ºC, pois seus aromas mais densos podem ser melhor apreciados e o vinho equilibra-se perfeitamente. Frutas como marmelo e ameixa amarela, mel, favo, e toques minerais são sempre lembrados. Com aromas mais evoluídos, o marzipã se faz presente.

Segundo Maurice Edmond Sailland, mais conhecido como Curnonsky, reverenciado como “Prince des Gastronomes”, grande crítico da primeira metade do século vinte, a França possui cinco grandes vinhedos na elaboração de brancos. São eles: Montrachet, Yquem, Grillet, Chalon e nosso espetacular Coulée de Serrant. Realmente, um time dos sonhos!

Cordeiro com Risoto de Queijo de Cabra

21 de Março de 2013

Já falamos neste blog sobre cordeiro, risoto e queijo de cabra, mas não todos num mesma receita. É o que propõe o chef Christian Burjakian do restaurante Limonn (www.limonn.com.br) no Itaim-Bibi, conforme receita abaixo.

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Guarnição perigosa na harmonização

O lombo de cordeiro em crosta de pistache não apresenta maiores problemas na escolha do vinho. Contudo, tendo como guarnição o saboroso risoto de queijo de cabra, há de se tomar alguns cuidados. Analisando separadamente os dois pratos, cada um pede um vinho diferente. Tinto para a carne, e branco para o risoto. O problema é que ambos serão degustados conjuntamente e portanto, teremos um só vinho.

A princípio, poderíamos pensar num bordeaux. Neste caso, um bordeaux de margem direita focado na casta Cabernet Franc. Além de não ter os taninos poderosos da Cabernet Sauvignon, apresenta um frescor interessante para o risoto de queijo de cabra. Normalmente, estes vinhos são combinados com a Merlot que apresenta taninos dóceis sob a apelação St Emilion. Quanto maior a proporção de Cabernet Franc no corte, mais agradável a harmonização.

Podemos também pensar num tinto do Loire 100% Cabernet Franc. Pode ser um Chinon, Saumur-Champigny ou Bourgueil de boa estrutura. Evite os vinhos de estilo mais leve destas apelações que por sinal, são os mais produzidos. Procure algo com produtores como Thierry Germain ou Domaine Breton, já comentados neste mesmo blog. O primeiro é importado por Cave Jado (www.cavejado.com.br) e o segundo pela World Wine (www.worldwine.com.br). 

Outra opção interessante é um Syrah do vale do Rhône, com boa acidez e corpo mais comedido. Evite os australianos, os quais provavelmente passaram por cima do prato. Um bom calibre para esta harmonização é um Crozes-Hermitage, com corpo e estrutura adequados para este embate. O produtor Alain Graillot, também já comentado neste blog, é uma bela referência. O vinho é trazido pela importadora Mistral (www.mistral.com.br)

Nestas duas uvas citadas, os aromas de especiarias da Syrah (notadamente, pimenta) e os aromas herbáceos da Cabernet Franc complementam bem a crosta de pistache envolvendo o cordeiro.

Enfim, algumas ciladas podem estar presentes em certas harmonizações. No caso de nosso prato, o risoto dá uma levantada no sabor do conjunto, já que o cordeiro tem um sabor importante, mas horizontal. Apesar dele ainda comandar a harmonização, os efeitos do risoto devem ser considerados. Vale a pena conferir.

Tintos para o Verão: Parte I

14 de Janeiro de 2013

Quando pensamos em tintos para o verão, pensamos em vinhos relativamente leves, que podem ser refrescados e com aromas que lembram frescor e delicadeza. Neste contexto, os vinhos elaborados com a uva Pinot Noir são emblemáticos e com boa disponibilidade no mercado. Porém, alguns cuidados devem ser tomados para não comprarmos gato por lebre. A primeira grande divisão é separamos tintos da Borgonha do restante não só da França, como principalmente dos países do chamado Novo Mundo. Mesmo dentro da Borgonha, esta leveza, este descomprometimento em acompanhar pratos leves do verão, inclusive lanches frios, nos leva a vinhos mais simples e consequentemente com preços menos assustadores. Os vinhos de apelações mais genéricas encaixam-se bem neste perfil. O ideal é optarmos pelos comunais ou Villages onde o nome da comuna mais restritiva, garante de certo modo, a preservação da tipicidade ligada ao terroir, conceito este tão respeitado e procurado pelos amantes da região. Procurem deixar as categorias Premier Cru e Grand Cru para ocasiões especiais, para pratos mais sofisticados e sérios, muitas vezes mais apropriados para uma estação mais amena, inclusive inverno. Não que estas categorias apresentem vinhos pesados ou encorpados, pelo contrário, mas são vinhos de maior profundidade, com carga tânica muitos vezes dissonantes com o propósito deste artigo. Resumindo, não tem sentido acompanhar um lanche frio de verão com um Chambertin (um dos belos Grands Crus da Côte de Nuits).

Belo produtor numa grande safra (2009)

Anne-Françoise Gros é importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Uma apelação genérica, mas altamente abalizada pela qualidade do produtor, culminando numa safra perfeita. Ótima pedida para o propósito do artigo.

Continuando na França, a grande região a ser explorada para estes tipos de tintos é o Vale do Loire. Aqui, uvas como Gamay, Pinot Noir e Cabernet Franc, são fontes de tintos originais e com todas as características que procuramos. A apelação Sancerre para tintos molda vinhos à base de Pinot Noir perfeitos para acompanhar pratos de verão. São leves e podem ser servidos agradavelmente refrescados. As apelações Bourgueil e Chinon por exemplo, desde que não sejam topos de gama de suas respectivas vinícolas, são vinhos baseados em Cabernet Franc de clima frio. Também são muitos aromáticos e refrescantes. A uva Gamay dificilmente aparece sozinha nas apelações. Em Anjou e Saumur por exemplo, ela normalmente é mesclada com a Cabernet Franc, gerando vinhos leves e delicados. Aliás, Gamay é a uva do Beaujolais, vinho também emblemático para o verão. Exceto alguns Crus como Morgon e Moulin à Vent, toda a gama de Beaujolais é bem-vinda para o verão. Portanto, use e abuse desta apelação. Só para esclarecer, Beaujolais não faz parte do Loire, e sim da Borgonha, embora alguns autores a excluam desta região.

Pinot Noir Reserve Expresión 2009

Produtor francês radicado no Chile

O rótulo acima é uma boa pedida do Novo Mundo que falaremos a seguir. Importado pela Decanter (www.decanter.com.br), este produtor procura preservar a delicadeza da cepa em seu rótulo mais simples.

Saindo da França, voltamos à Pinot Noir agora focando o Novo Mundo. Praticamente, todos os países deste bloco cultivam em maior ou menor escala esta temperamental cepa. O problema crônico do Novo Mundo é que estes vinhos costumam ser mais encorpados que deveriam, mais extraídos e mais amadeirados. Portanto, um tanto pesados para as características da uva. No Chile, regiões frias como Casablanca e Leyda, moldam alguns exemplares adequados ao nosso tema. Os mais simples, menos amadeirados, e portanto mais em conta, são os mais indicados para nosso propósito. Nova Zelândia, é outro país a ser explorado. Regiões como Martinborough e Central Otago são as mais promissoras para esta irriquieta casta. Talvez seja mesmo o país com maior potencial para Pinot Noir de caráter diferenciado, mas ainda é uma promessa. Falando agora de Argentina, a fria região da Patagônia é a mais entusiasmante. Um produtor em particular, destaca-se sobre os demais, Bodega Chacra. Falamos com mais profundidade deste produtor biodinâmico em artigo específico neste blog (verificar – Chacra e Noemía: Bodegas de Terroir). Demais países como África do Sul, Austrália, Brasil, Uruguai e Estados Unidos, as escolhas são pontuais e pessoais. A dica é procurar as regiões mais frias nos respectivos países. Um parênteses deve ser feito aos Estados Unidos. Existem vinhos de altíssimo nível, sobretudo na região de Russian River, que muitas vezes rivalizam com grandes exemplares da Borgonha. Contudo, são vinhos mais complexos e diferenciados, caindo na mesma consideração dos Premiers e Grands Crus da Borgonha exposta no início do artigo.

Verão, Praia e Vinhos: Parte III

8 de Janeiro de 2013

Nesta terceira parte, gostaria de lembrá-los dos esquecidos e injustiçados vinhos rosés. A cor é linda, o preço é convidativo e a versatilidade à mesa é garantida. Evidentemente, quando falamos em rosé, falamos de Provence, a terra dos rosés. E realmente, se há um rosé diferente neste universo, é o rosé provençal. A cor é diferenciada e multifacetada, desde lindos toques salmonados, passando por todas as paletas do rosa e terminando nos vários tons de cereja. A fruta é presente e vibrante. O corpo e equilíbrio são balanceados e estimulantes. Além de todas as comidinhas de praia, o rosé enfrenta bem molho de tomate, alho e ervas dos mais variados tipos. Os mais estruturados e encorpados, como veremos a seguir, escoltam bem pratos como Paella, Caldeiradas de sabor mais apurado e Moqueca Capixaba.

Contudo, o arsenal francês vai muito além da Provence. As regiões do Rhône e Loire são fontes de belos exemplares. Normalmente, os rosés do Loire nas regiões de Anjou e Touraine sobretudo, são mais leves e apropriados para os antepastos e início da refeição. Já os rosés do Rhône possuem textura mais espessa, se acomodando melhor com os pratos principais propriamente ditos. Um rosé do Rhône em especial, o grande Tavel, é um rosé fundamentalmente gastronômico. Apresenta corpo e estrutura para pratos de peixes e frutos do mar com sabores e molhos mais intensos. Decididamente, não funciona bem como aperitivo.

Paella e rosé

Saindo da França, a região espanhola da Navarra apresenta belos rosés. O produtor Chivite importado pela Mistral é uma referência (www.mistral.com.br). O preço é bastante convidativo. A Itália também apresenta opções. A expressão Chiaretto no norte da Bota indica a versão rosé de certas denominações como por exemplo, o Bardolino, uma espécie de Valpolicella mais leve, elaborado próximo ao lago de Garda, separando o Veneto da Lombardia. Já caminhando para o sul, temos a expressão Cerasuolo, sendo a versão rosé por exemplo, da denominação Montepulciano d´Abruzzo, com a uva Montepulciano. Mas atenção, Cerasuolo di Vittoria é uma denominação da Sicilia para um vinho tinto específico. Não confundí-lo com rosé.

Se a idéia é ficar nos espumantes, as opções são inúmeras. Começando com os nacionais, o Chandon Rosé do Brasil é consistente e bastante versátil. Os Cavas nesta versão também são bastante convidativos. Os Crémants (espumante francês elaborado pelo método tradicional) das várias apelações francesas são ótimos, tanto da Alsace, Loire e Bourgogne, principalmente.

Quanto aos champagnes, se preço não for o problema, você está no paraíso. Os mais delicados e estimulantes podem ser um Billecart-Salmon ou um Taittinger. Já um Gosset ou um Krug merecem aquela receita especial com lagosta, por exemplo.

O importante é não deixar o rosé de lado, como um vinho de segunda categoria. Ele pertence a uma categoria especial e muito pouco explorada. Não tenha medo. Dentro de seu orçamento e expectativa, sempre haverá um rosé à altura. Um brinde colorido a todos!

Vale do Loire: Parte V

26 de Janeiro de 2012

Neste último post, vamos falar sobre alguns números englobando os mais variados tipos de vinhos encontrados no vale do Loire. Estranhamente, o site oficial dos vinhos do Loire (www.vinsdeloire.fr) deixa de fora os chamados vinhos do Centro, que por sua vez, estão em outro endereço (www.vins-centre-loire.com).

Os brancos predominam em número e estilos

São 76 apelações de origem, incluindo sete dos chamados vinhos do Centro. São comercializadas cerca 380 milhões de garrafas por ano, boa parte dentro da França. É a região mais importante para espumantes na França, evidentemente depois de Champagne. É a segunda mais produtiva região para vinhos rosés, superada só pela Provence.  

Em todo o Loire são pouco mais de 57.000 hectares de vinhas produzindo quase 3.200.000 hectolitros. Uma em cada cinco garrafas comercializadas é exportada principalmente para Reino Unido, Bélgica, Alemanha e Países Baixos.

Os vinhos do Loire são extremamente propícios para quem busca delicadeza, variedade de estilos e originalidade. A uva Chenin Blanc como vimos, cumpre bem estes requisitos, sendo a grande referência para brancos. Os tintos são belas alternativas para quem busca vinhos mais leves, com bom frescor e sem interferência da madeira. Os espumantes sob várias denominações estão entre os melhores de toda a França com preços bem atraentes.

Enfim, brancos secos ou doces, rosés, tintos e espumantes formam um belo arsenal dificilmente encontrado em outras regiões, dentro ou fora da França. Além disso, pelo equilíbrio, pela diversidade e pela discrição de seus vinhos, tornam-se naturalmente muito receptivos à harmonização gastronômica, mesmo das mais refinadas cozinhas.

Vale do Loire: Parte IV

23 de Janeiro de 2012

Agora nosso último climat são os chamados vinhos do Centro ou também Alto Loire. Centro porque nesta altura, o rio Loire já percorreu metade de seu caminho rumo ao Atlântico. É a sub-região de clima mais continental com solos argilo-calcários. Em determinadas porções, temos solos pedregosos com sílex ou também marnes à petites huîtres (marga do tipo Kimeridgiano com fósseis marinhos calcinados em rocha). A essas formações são atribuídos os aspectos minerais de determinados vinhos.

Vinhos do Centro: Sancerre e Pouilly-Fumé

Uma das mais lindas garrafas de vinho

Nesta última sub-região, bem a leste do mapa acima, duas apelações destacam-se: Sancerre e Pouilly-Fumé. As duas elaboram ótimos brancos com a casta Sauvignon Blanc. Os aromas de frutas frescas, toques herbáceos e minerais são marcantes. Existem belos produtores como Michel Redde cujo rótulo acima, é sua cuvée de luxo para a apelação Pouilly-Fumé. Importado pelo Club du Tastevin (www.tastevin.com.br ). A delicadeza e a mineralidade deste estilo de Sauvignon é única, contrastando com a maioria dos Sauvignons do Novo Mundo, que possuem mais corpo e tropicalidade.

A apelação Sancerre também é estendida aos tintos com a casta Pinot Noir. Alguns são interessantes, mas sem a sofisticação dos borgonhas. É sempre uma boa opção de tinto para acompanhar peixes, dependendo da receita em questão. Desta apelação, o destaque vai para o produtor Alphonse Mellot, importado criteriosamente pela Cellar (www.cellar-af.com.br).

A apelação Pouilly sur Loire de produção muito reduzida, elabora brancos com a uva Chasselas (também cultivada na Suiça) com vinhos delicados, relativamente neutros e de boa acidez.

Outras apelações vizinhas como Menetou-Salon, Quincy e Reuilly, tentam reproduzir o bom desempenho das duas apelações mais famosas citadas acima, mas sem o mesmo sucesso. São vinhos de consumo local e dificilmente são encontrados no Brasil. Costumam ter preços mais atrativos, porém é fundamental a escolha certa do produtor.

Vale do Loire: Parte III

18 de Janeiro de 2012

Ainda em nosso segundo Climat, Anjou-Saumur, vamos falar dos tintos da região baseados em Cabernet Franc. Em Saumur, o solo é predominantemente calcário com presença de pedras porosas denominadas tuffeau. Muitas adegas na região são escavadas nesta rocha, armazenando sobretudo o bom espumante da região sob a denominação Saumur Brut, elaborado pelo método tradicional. Uvas como Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Cabernent Franc, Cabernet Sauvignon, entre outras, participam do vinho-base. Sob a apelação Saumur, temos vinhos brancos baseados na uva Chenin Blanc (pelo menos 80% do corte) e vinhos tintos baseados na casta Cabernet Franc.

Todos eles, espumantes, brancos e tintos, são vinhos delicados, com muto frescor e ótimos para o verão, mesmo os tintos por serem pouco tânicos. Há uma apelação específica para tintos chamada Saumur-Champigny, onde seus vinhos baseados em Cabernet Franc são mais estruturados, porém longe de serem pesados ou muito encorpados.

Prosseguindo para o climat seguinte, temos a sub-região de Touraine, um pouco mais continental, mas ainda com influência atlântica. O clima aqui é mais seco que sua vizinhança em Anjou-Saumur. Isto favorece tanto o amadurecimento tardio da Chenin Blanc, como a principal tinta da região Cabernet Franc (localmente chamada de Breton), moldando vinhos de boa estrutura, mas sempre com frescor e equilíbrio.

Os tintos mais famosos estão sob as apelações Chinon, Bourgueil e Saint-Nicolas-de-Bourgueil. Os Chinons de solos mais pedregosos costumam ser mais leves, enquanto os de solos argilo-calcários mais estruturados e intensos. O mesmo ocorre com Bourgueil e Saint-Nicolas-de-Bourgueil, mas no geral são mais encorpados que os de Chinon.

Um dos mais autênticos Cabernets do Loire

O vinho acima já foi destaque neste blog (Produtor de destaque: Thierry Germain). É atualmente importado por Cave Jado (www.cavejado.com.br). Thierry Germain, proprietário da vinícola, cultiva seus vinhedos biodinamicamente e elabora vinhos de rara pureza.

Passando aos brancos, Touraine destaca-se por uma das mais belas expressões da uva Chenin Blanc através da apelação Vouvray. Podem ser espumantes elaborados pelo método tradicional, e brancos com vários graus de doçura, culminando com belos doces provenientes de uvas botrytisadas. O solo calcário aliado ao clima mais seco e ensolarado propicia o perfeito amadurecimento da tardia Chenin. As manhãs brumosas com alternância de sol é o cenário perfeito para o bom desenvolvimento da Botrytis.

Didier Champalou: assinatura de um belo Vouvray

O produtor acima é trazido pela importadora Club Tastevin (www.tastevin.com.br) a preços muito atraentes.

A apelação Montloius, vizinha a Vouvray, faz vinhos similares, mas sem o mesmo brilho. A genérica apelação Touraine faz vinhos espumantes, brancos, rosés e tintos, para o consumo cotidiano. Os brancos baseiam-se na Chenin Blanc, enquanto tintos e rosés nas uvas Gamay e Cabernet Franc.

Vale do Loire: Parte II

16 de Janeiro de 2012

Continuando nossa viagem pelo Loire, após passar por Pays Nantais no extremo oeste da região, caminhamos um pouco adentro no continente, chegando ao berço espiritual da temperamental casta Chenin Blanc, a sub-região de Anjou-Saumur.

Anjou-Saumur: Dê um zoom no mapa acima

Nesta sub-região ainda temos boa influência do Atlântico, trazendo ventos e umidade. Nos solos argilosos em Anjou predominam o xisto e a ardósia, favorecendo o cultivo da Chenin Blanc, também conhecida como Pineau de la Loire. Nas apelações como Coteaux du Layon, Bonnezeaux e Quarts de Chaume, os vinhos costumam ser intensamente doces, mas muito bem equilibrados por uma incrível acidez. São vinhos delicados, longevos e nos melhores anos, elaborados com uvas atacadas pela Botrytis Cinerea. Coteaux du Layon é uma apelação mais extensa e seus vinhos não costumam ser tão doces, mas a acidez é marcante. A alternância de umidade e calor nestas apelações favorecem sobremaneira a boa atuação do abençoado fungo. O rótulo abaixo da Domaine Baumard é importado pela Mistral (www.mistral.com.br)

Baumard: Referência nesta apelação

O estilo seco e mineral da Chenin Blanc fica por conta da apelação Savennières com vinhos bastante longevos. Duas apelações próprias destacam-se como verdadeiros Grands Crus da região: Coulée de Serrant e Roche-aux-Moines. Principalmente a primeira, propriedade do pai da biodinâmica, Nicolas Joly, é a perfeição do estilo seco em Chenin Blanc. Extremamente longevo, este é um dos poucos brancos que deve ser obrigatoriamente decantado. O estupendo Coulée de Serrant é importado pela Casa do Porto (www.casadoportovinhos.com.br).

Quanto aos tintos, apelações como Anjou, Anjou Villages, Rosé d´Anjou e Cabernet d´Anjou para os rosés, não apresentam grandes atrativos, com vinhos leves e na maioria, sem grandes predicados. As castas Gamay (a mesma do Beaujolais),  Cabernet Franc e um pouco de Cabernet Sauvignon são cultivadas na região. Contudo, os melhores tintos estão em Saumur, assunto do nosso próximo artigo.

Harmonização: Ceviche

19 de Janeiro de 2011

A grafia sofre variações como Cebiche, Seviche ou Sebiche, mas trata-se de uma técnica culinária, originalmente para marinar peixes em suco de limão. Países latino-americanos banhados pelo mar do Pacífico desenvolveram bem esta arte, notadamente o Peru, que tradicionalmene reivindica a paternidade. Entretanto, Chile, Equador, Colômbia, México, entre outros, têm suas próprias receitas e variações.

Prato clássico do Peru

A receita basicamente consiste em marinar peixes de carne branca e firme em suco de limão, cebola roxa preferencialmente, e pimenta vermelha. Salsinha, coentro e outras ervas podem complementar a marinada. Acompanhamentos tipicos peruanos como a batata doce, milho ou algum legume cozido, formam um conjunto harmonioso.

Pelos ingredientes acima citados percebemos intuitivamente que tintos estão descartados. Peixe in natura e suco de limão são argumentos mais que suficientes. Esses mesmos componentes pedirão brancos animados, de boa acidez, que inclusive, refrescarão o lado picante da pimenta. Portanto, até aqui, um Sauvignon do Loire (Sancerre ou Pouilly-Fumé), um Riesling seco da Alsace (pode ser o Trimbach da importadora Zahil – www.zahil.com.br), ou um Savennières (Chenin Blanc seco do Loire), cumprem bem o papel.

Se os acompanhamentos entrarem em jogo, os mesmos acrescentarão um toque de doçura, além de uma textura mais rica. Portanto, o Sauvignon Blanc continua ser uma boa pedida porém, com mais fruta, um pouco mais de corpo, e maciez. Essas características estão presentes na maioria dos Sauvignons modernos, liderados pelos neozelandeses. Chilenos e sul-africanos costumam dar conta do recado também.

Os Rieslings e Chenins seguem o mesmo raciocínio. Eles precisam de um pouco mais de fruta e/ou doçura, textura mais macia, sem perder o indispensável suporte de acidez. Como consequência, rieslings alemães Spätlese ou Auslese, alsacianos com um toque off-dry (Zind-Humbrecht é bem típico deste estilo), ou o estilo australiano desta uva, terão êxito na harmonização. Para a Chenin Blanc, os Vouvrays com vários graus de doçura, incluindo os espumantes, oferecem calibragem na medida certa. O produtor Didier Champalou da importadora Club Taste Vin merece ser conhecido (www.tastevin.com.br).

Concluindo, as variações da receita são inúmeras. Além de peixes, podem ser marinados toda a sorte de mariscos e frutos do mar. A laranja pode em alguns casos substituir o lado cítrico do limão. Os acompanhamentos podem também ter grande influência. O importante é provar este excelente prato no auge do verão, aproveitando mais um argumento para os tão esquecidos vinhos brancos.