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A commodity que não se fabrica

18 de Maio de 2026

Foi no fim dos anos 1980 que o engenheiro José Bento dos Santos resolveu deixar para trás os aviões, as telas de computadores e o mundo da mineração de lado. Passava meses do ano negociando a compra e a venda de metais pelo mundo todo. Em um jantar em Nova York, uma frase de um amigo tornou-se um divisor de águas: “Passamos a vida a negociar commodities, mas há uma que não se fabrica mais: a terra”. Voltou para Portugal, conversou com o pai. Descobriu que a Quinta do Monte d’Oiro, em Alenquer, distrito de Lisboa , estava à venda. A aquisição, em 1987, transformaria o enófilo e gourmet em produtor.

O vinho nunca lhe foi estranho. Aos 18 anos, visitou Bordeaux, na França. Nas viagens de negócios, um dos principais prazeres era almoçar e jantar, assim, como em casa, receber amigos em torno da mesa e de vinhos. A transição para a viticultura exigiu paciência: a primeira safra só chegou ao mercado em 1997, dez anos depois da aquisição.

“Tivemos um grande trabalho de recuperação, não aproveitamos quase nada”, diz Francisco Bento dos Santos, filho de José e que esteve essa semana no Brasil em evento da importadora Mistral. Pai e filho dialogam sobre as criações. “Meu pai foi técnico de rugby quando eu era pequeno e hoje também se mantém como meu treinador agora nas vinhas”, diz Francisco.

O diagnóstico técnico da propriedade, elaborado por especialistas da Universidade de Jerusalém, revelou um solo e um clima mediterrânico com forte influência atlântica — traduzido em noites frias e brisas constantes — ideal para as castas do Vale do Rhône. Bento dos Santos viajou à França e obteve mudas diretamente com Michel Chapoutier, um dos nomes mais reputados da região. O resultado é um portfólio onde uvas francesas, como Syrah e Viognier, convivem harmoniosamente com castas nativas sob manejo orgânico e baixos rendimentos. Os vinhos de entrada, na faixa de R$ 150, apresentam-se como uma excelente porta de acesso a esse rigor técnico.

Na Itália, plantar uvas internacionais em solo toscano não é modismo. No início do século XIX, Elisa Bonaparte Baciocchi, irmã do imperador Napoleão Bonaparte, plantou vinhedos de Cabernet Sauvignon e Merlot, ao lado da Sangiovese (presente em Brunellos e Chiantis). A dinastia Bonaparte perdeu a coroa, a França se tornou uma República, a Itália se unificou, os vinhedos ficaram relegados, até que um dia Francesca Moretti decidiu tirar uma folga da universidade de Veterinária e fazer uma viagem de carro com seu pai até Bordeaux. Antes de chegar lá, passaram pelas colinas de Maremma (região costeira próxima de Siena). Foi paixão à primeira vista.

A paixão pela costa toscana levou a família Moretti à aquisição da propriedade, dando início ao que Francesca descreve como uma “fascinante história de uma viagem de mulheres”. O projeto Petra (importado no Brasil pela família Taffarel) resgatou o legado de Elisa Bonaparte, focando no replantio de castas internacionais em um terroir onde etruscos e gregos já vinificavam em ânforas na antiguidade. Sob uma vinícola desenhada pelo arquiteto suíço Mario Botta e conduzida por práticas orgânicas, a Petra busca vinhos que expressem a essência do solo e clima mediterrâneos. A linha completa oferece rótulos de boa relação qualidade-preço.

Embora os vinhedos originais da irmã de Napoleão hoje integrem um parque público em Suvereto, a família Moretti recuperou o espírito daquela plantação histórica dentro de seus domínios. Os cinco hectares em que Elisa Bonaparte plantou uvas foram recuperados pela família Moretti. “O jardim da Princesa foi finalizado em 2017, reúne árvores frutíferas e ornamentais. Em frente a este jardim, localiza-se o nosso vinhedo histórico: o Vigna Petra, com quatro hectares”, afirma Francesca.

Essa diáspora das castas não se encerra na Europa. No Chile, em 1997, mesmo ano em que a Quinta d´Oiro comercializava sua primeira safra, nasceu o projeto Almaviva, resultado de um acordo entre a família Rothschild e a vinícola Concha y Toro. A ideia, desde então, é elaborar um tinto sul-americano com uvas francesas clássicas, sempre com predomínio de Cabernet Sauvignon, cultivadas nas terras do Maipo Alto, na área Maipo Andes. Há dois anos, a vinícola passou a abrir as portas a visitantes, revelando que, no mundo do vinho, a fronteira entre o estrangeiro e o nativo é tênue.

Vinhos nos extremos

13 de Abril de 2026

Felipe Tosso quis ser tenista. Entre os dez e os 17 anos, jogava seis vezes por semana e viajava pela América do Sul para disputar torneios. Chegou a figurar entre os quatro melhores juvenis do ranking chileno, até que uma contusão séria no tornozelo direito o deixou seis meses sem pisar no chão. Abandonou o sonho e ficou cinco anos longe do esporte. Tentou então a engenharia civil. Cursou por dois anos, mas concluiu que o ambiente de escritório não o faria feliz. Precisava do ar puro. Migrou para a agronomia, inspirado também pela carreira de sua mãe.

A linha Gray tem boa qualidade preço, com destaque para o chardonnay, coringa à mesa, na casa dos R$ 200. Já a linha Kosten deve ter algumas garrafas vendidas no Brasil em breve.

O mundo do vinho entrou em sua vida nesse intervalo, por meio de um clube de degustação, em que era o mais novo entre os membros, cuja maioria tinha o dobro da idade. Encantou-se ao beber um branco chileno de Chardonnay com algum tempo de envelhecimento. Ao sentir aromas de manteiga, nozes e mel, decidiu que preferia fazer vinho a bebê-lo. É uma paixão que não abandonou: bebe vinho todos os dias, sempre em busca de regiões e produtores desconhecidos.

Ao sair da faculdade, ingressou na maior vinícola do país: a Concha y Toro. Era início dos anos 1990 e foi colocado na equipe que produzia o Dom Melchor, nascido em 1987, com uvas de origem bordalesa plantadas no Vale do Maipo no século XIX e consultoria de enólogos franceses famosos. Mesmo com o sucesso que levou publicações dos Estados Unidos a eleger a novidade entre as melhores do mundo, o Chile ainda tateava um caminho.

No início dos anos 2000, chegou à Ventisquero, um projeto familiar nascido numa época em que Chile e Argentina buscavam identificar como poderiam ser diferenciar no mundo enológico. Com 25 anos na empresa e muitas referências, o caminho mudou. Os terroirs se ampliaram.

“As vinícolas que buscavam o diferente se contavam nos dedos das mãos. Prevalecia um estilo mais potente, e ninguém trabalhava nos extremos climáticos do país, como no deserto de Atacama ou na Patagônia”, lembra Tosso, que esteve esta semana em São Paulo para um evento do guia Descorchados, especializado em vinhos sul-americanos e que elegeu a Ventisquero a vinícola de 2026.

O desafio de fazer vinhos elegantes em diferentes terroirs chilenos o levou para regiões que antes pareciam improváveis. A primeira delas, o deserto de Atacama, chegou por acaso. A família proprietária da Ventisquero havia comprado hectares na região para plantar oliveiras e produzir azeite. Quando os trabalhadores começaram a preparar o solo, perceberam que ele poderia abrigar videiras. Plantaram oito variedades em cerca de dez mil metros quadrados. Nasceu assim o projeto Tara, batizado como o arbusto nativo que resiste ao árido clima local. “O solo é muito interessante. Tínhamos de fazer algo especial”, diz.

Explorado o extremo norte, veio a vez da Patagônia chilena, uma região inóspita que Tosso conhece também como turista: recentemente, levou a mulher e as quatro filhas para passar férias por lá. Para chegar, é preciso voar e, depois, atravessar de balsa uma área marcada por geleiras. “É o ponto mais ao sul do mundo onde se produz vinho, perto de um dos maiores lagos da América do Sul, o General Carrera.”

Há cerca de dez anos, dois agrônomos que trabalhavam na região notaram a abundância de cerejeiras, um sinal de que o solo poderia ser apto para vinhedos. Em parceria com um produtor de cerejas, plantaram cinquenta mudas de sete variedades selecionadas para o frio. Vingaram o Sauvignon Blanc, o Chardonnay e o Pinot Noir.  Descobriram que, além da temperatura e doe ventos, havia outra questão a considerar: os pássaros.

“Tivemos nossa primeira produção decente em 2020, com pouquíssima uva. Em 2021, os pássaros comeram tudo; em 2022 vieram os primeiros cachos reais, ainda em escala experimental; em 2023 lançamos os três vinhos Kosten”, conta. O nome da linha é o que os habitantes chamam os ventos intensos que varrem a região. Os vinhos feitos com chardonnay e pinot noir mal chegam a 400 garrafas produzidas.

O tênis voltou. No fim de semana passado, Tosso disputou um torneio masters e chegou às semifinais. O tornozelo direito aguentou.

Descorchados: Impressões

13 de Abril de 2017

O mais respeitado guia de vinhos da América do Sul, envolvendo países como Chile, Argentina, Brasil e Uruguai. A infinidade de vinhos premiados é imensa com muitas notas em torno de 95 pontos ou mais. Nota é sempre algo subjetivo, mas penso que alguns vinhos têm pontuação exagerada. De todo modo, é um painel bem amplo do que acontece no Continente em termos de tradição, novidades, e grandes promessas.

O Brasil, enfatizado pelos conhecidos e bons espumantes, mostra diversidade de estilos, trabalhando bem tanto no método tradicional, como no Charmat. Destaque especial para Cave Geisse, sediada num terroir privilegiado, além do talento de sua equipe técnica. Pessoalmente, o melhor espumante do Brasil.

O Chile, sempre crescendo em qualidade e diversidade, além de uma das potências em exportações de vinho no Mundo. Cada vez mais, explorando bem a versatilidade de seus inúmeros vales de norte a sul, temperados pelo frio Oceano Pacífico e a imponente Cordilheira dos Andes.

A Argentina, explorando bem o terroir mendocino, especialmente o frio Valle de Uco, com micros terroirs diversificados, dando a cada vinho personalidade própria. Salta, no extremo norte, e Patagônia, no extremo sul, são regiões com certeza ainda de muitas surpresas num futuro próximo.

O Uruguai, um pouco mais modesto, mostra sua força num território comparativamente minúsculo. Contudo, o clima temperado pelas águas mais frias nesta latitude, mostra tintos equilibrados, além de brancos vibrantes e originais.

O evento ocorreu no Espaço Traffô, um tanto tumultuado tal a quantidade de pessoas circulando. Neste caso, mereceria pelo menos mais um dia dividindo este público para um roteiro de vinhos mais tranquilo.

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Cave Geisse: orgulho brasileiro

Aqui temos as melhores uvas Pinot Noir da safra na elaboração deste Blanc de Noir. No pescoço da garrafa vem indicado a safra e a data de dégorgement, normalmente com três anos sur lies. Cremosidade e corpo consistentes com muito frescor e equilíbrio. Os demais espumantes da casa seguem sempre um padrão de alta qualidade.

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belos vinhos em estilos diferentes

Aqui, duas belas novidades em termos de uvas e terroirs. Muito bem pontuados, o branco da esquerda, Granito Sémillon mostra grande estrutura, corpo, textura e mineralidade. Um vinho denso e super equilibrado. Elaborado pela vinícola chilena J. Bouchon no vale do Maule em solo granítico. Já o branco da direita, uma agradável surpresa uruguaia com a casta Albariño na mais nova região vinícola deste país, perto de Punta del Leste, a chamada região Sudeste. Muito frescor, elegância e mineralidade. Uma pequena parte do lote passado em barricas francesas não mascara a fruta, resultando num conjunto harmônico.

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argentinos diferenciados

O vinho da esquerda é um Torrontés de Salta, região norte da Argentina de grande altitude. Estamos falando em torno de dois mil metros acima do nível do mar. Este antigo vinhedo plantado nos anos de 1945 em latada (condução de vinha chamada também de parral), faz toda a diferença neste branco fresco, muito equilibrado, sem aqueles aromas invasivos e muitas vezes enjoativos da aromática Torrontés. Talvez o melhor Torrontés que já tenha provado. No vinho da direita, mineralidade à toda prova com evidente gosto salino. Este Sauvignon Blanc vem de Valle de Uco, mais especificamente, Gualtallary a 1450 metros de altitude. Mesmo com certo contato sur lies, o vinho é quase elétrico em boca com muito fresco e pureza de fruta. Conceitos biodinâmicos em todos os vinhos desta vinícola, Zorzal.

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uva rustica bem trabalhada

A uva País (Chile) ou Criolla (Argentina) foi trazida na época da colonização espanhola nativa das Ilhas Canárias. Normalmente, gera vinhos rústicos, sem muitos atrativos. No entanto, bem trabalhada, pode ter resultados curiosos e surpreendentes. É o caso dos dois exemplares acima, um argentino, outro chileno.

O vinho da esquerda, são parreiras de 1958 com uvas perfeitamente adaptadas ao seu terroir. A vinificação inicial começa como um tinto propriamente dito. Em seguida, são retiradas as cascas, prosseguindo uma vinificação aos moldes de um branco. O vinho depois de estabilizado é engarrafado sem filtração. Delicado e profundo ao mesmo tempo. Já o da direita, parreiras totalmente selvagens como o próprio nome diz. São vinhedos na região chilena do Maule secano (região costeira do Maule), onde as vinhas foram plantadas em meio a vegetação nativa, trepando pela árvores sem condução. Isso dificulta a colheita, a qual é feita por meio de escadas, nos moldes dos vinhedos antigos na região dos Vinhos Verdes em Portugal. 50% das uvas são fermentadas com maceração carbônica, enriquecendo os aromas de frutas, e a outra metade numa fermentação normal em cubas. O resultado é um vinho delicado, original e totalmente natural. Nos dois vinhos, extraem-se delicadeza, suavidade, sem aquela rusticidade habitual.

descorchados vigno carignan old vignesdescorchados el esteco cabernet sauvignon 54 anos

mais vinhas antigas

O tesouro das vinhas antigas é um patrimônio que deve ser preservado a qualquer custo. São vinhos de personalidade, de equilíbrio raro, marcantes sem serem pesados. Enfim, uma maravilha. No caso da esquerda, são parreiras de 60 anos das famosas vinhas de Carignan do Maule. Com a vinificação primorosa da família Morandé, este tinto mostra toda sua autenticidade e frescor incríveis. Já o Cabernet Sauvignon da direita, voltamos à vinícola El Esteco de Salta para mais uma vinha antiga de 54 anos, plantada a 1700 metros de altitude. Partindo de baixos rendimentos, o vinho estagia em barricas francesas por 15 meses. Um Cabernet de raça com um balanço incrível entre força e elegância. Dois tintos de grande personalidade.

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O versátil Valle de Colchagua

Aqui, uma homenagem à Casa Silva, uma das referências em vinícolas no terroir de Colchagua. Ampla gama de vinhos sempre bem elaborados. Neste caso, dois tintos bem específicos. O da esquerda, um Petit Verdot de duas parcelas exclusivas da propriedade. Vinho robusto, cheio de taninos, próprio para carnes suculentas e fibrosas como bife de Chorizo. Bem educado em barricas francesas por 12 meses. Já o vinho da direita, um Carmenère também de parcelas exclusivas, bem trabalhado em barrica francesa, tanto na vinificação, como amadurecimento por 12 meses. Fora de Peumo, o terroir ideal para esta tardia casta, um dos melhores Carmenères do Chile.

Produção Mundial de Rosés

25 de Julho de 2013

Os números mais recentes sobre a produção e consumo mundial de vinhos rosés (dados de 2011) apontam a França como maior produtor, maior consumidor e maior importador deste tipo de vinho, conforme dados abaixo:

França e Itália na liderança

A produção mundial de Rosés representa menos de dez porcento do total de vinhos produzidos. Embora França e Itália liderem esta produção, seus objetivos são diferentes. Enquanto a Itália visa um mercado de exportação, a França consome praticamente todo seu rosé e ainda importa boa parte, sendo a exportação bem mais tímida que a de seu concorrente direto. Os dados abaixo dão um panorama geral deste consumo mundial.

Estados Unidos e França na liderança

Estados Unidos e França apresentam padrão semelhante de produção e consumo dos rosés, guardadas as devidas proporções.

Nossos vizinhos, Argentina e Uruguai, consomem praticamente tudo que produzem, não dando muito espaço para exportação.

Países do Rosé

Rússia é um mercado em crescimento, consumindo quase o dobro de sua produção. Potencialmente, é o alvo número um dos países exportadores.

Quanto aos dois grandes países exportadores do chamado Novo Mundo, Austrália e Chile, suas produções são modestas face ao total de rosés, não chegando a meio milhão de hectolitros anuais a soma destes países. Quem sabe um mercado ainda a ser explorado.