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Descorchados: Impressões

13 de Abril de 2017

O mais respeitado guia de vinhos da América do Sul, envolvendo países como Chile, Argentina, Brasil e Uruguai. A infinidade de vinhos premiados é imensa com muitas notas em torno de 95 pontos ou mais. Nota é sempre algo subjetivo, mas penso que alguns vinhos têm pontuação exagerada. De todo modo, é um painel bem amplo do que acontece no Continente em termos de tradição, novidades, e grandes promessas.

O Brasil, enfatizado pelos conhecidos e bons espumantes, mostra diversidade de estilos, trabalhando bem tanto no método tradicional, como no Charmat. Destaque especial para Cave Geisse, sediada num terroir privilegiado, além do talento de sua equipe técnica. Pessoalmente, o melhor espumante do Brasil.

O Chile, sempre crescendo em qualidade e diversidade, além de uma das potências em exportações de vinho no Mundo. Cada vez mais, explorando bem a versatilidade de seus inúmeros vales de norte a sul, temperados pelo frio Oceano Pacífico e a imponente Cordilheira dos Andes.

A Argentina, explorando bem o terroir mendocino, especialmente o frio Valle de Uco, com micros terroirs diversificados, dando a cada vinho personalidade própria. Salta, no extremo norte, e Patagônia, no extremo sul, são regiões com certeza ainda de muitas surpresas num futuro próximo.

O Uruguai, um pouco mais modesto, mostra sua força num território comparativamente minúsculo. Contudo, o clima temperado pelas águas mais frias nesta latitude, mostra tintos equilibrados, além de brancos vibrantes e originais.

O evento ocorreu no Espaço Traffô, um tanto tumultuado tal a quantidade de pessoas circulando. Neste caso, mereceria pelo menos mais um dia dividindo este público para um roteiro de vinhos mais tranquilo.

descorchados geisse pinot noir

Cave Geisse: orgulho brasileiro

Aqui temos as melhores uvas Pinot Noir da safra na elaboração deste Blanc de Noir. No pescoço da garrafa vem indicado a safra e a data de dégorgement, normalmente com três anos sur lies. Cremosidade e corpo consistentes com muito frescor e equilíbrio. Os demais espumantes da casa seguem sempre um padrão de alta qualidade.

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belos vinhos em estilos diferentes

Aqui, duas belas novidades em termos de uvas e terroirs. Muito bem pontuados, o branco da esquerda, Granito Sémillon mostra grande estrutura, corpo, textura e mineralidade. Um vinho denso e super equilibrado. Elaborado pela vinícola chilena J. Bouchon no vale do Maule em solo granítico. Já o branco da direita, uma agradável surpresa uruguaia com a casta Albariño na mais nova região vinícola deste país, perto de Punta del Leste, a chamada região Sudeste. Muito frescor, elegância e mineralidade. Uma pequena parte do lote passado em barricas francesas não mascara a fruta, resultando num conjunto harmônico.

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argentinos diferenciados

O vinho da esquerda é um Torrontés de Salta, região norte da Argentina de grande altitude. Estamos falando em torno de dois mil metros acima do nível do mar. Este antigo vinhedo plantado nos anos de 1945 em latada (condução de vinha chamada também de parral), faz toda a diferença neste branco fresco, muito equilibrado, sem aqueles aromas invasivos e muitas vezes enjoativos da aromática Torrontés. Talvez o melhor Torrontés que já tenha provado. No vinho da direita, mineralidade à toda prova com evidente gosto salino. Este Sauvignon Blanc vem de Valle de Uco, mais especificamente, Gualtallary a 1450 metros de altitude. Mesmo com certo contato sur lies, o vinho é quase elétrico em boca com muito fresco e pureza de fruta. Conceitos biodinâmicos em todos os vinhos desta vinícola, Zorzal.

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uva rustica bem trabalhada

A uva País (Chile) ou Criolla (Argentina) foi trazida na época da colonização espanhola nativa das Ilhas Canárias. Normalmente, gera vinhos rústicos, sem muitos atrativos. No entanto, bem trabalhada, pode ter resultados curiosos e surpreendentes. É o caso dos dois exemplares acima, um argentino, outro chileno.

O vinho da esquerda, são parreiras de 1958 com uvas perfeitamente adaptadas ao seu terroir. A vinificação inicial começa como um tinto propriamente dito. Em seguida, são retiradas as cascas, prosseguindo uma vinificação aos moldes de um branco. O vinho depois de estabilizado é engarrafado sem filtração. Delicado e profundo ao mesmo tempo. Já o da direita, parreiras totalmente selvagens como o próprio nome diz. São vinhedos na região chilena do Maule secano (região costeira do Maule), onde as vinhas foram plantadas em meio a vegetação nativa, trepando pela árvores sem condução. Isso dificulta a colheita, a qual é feita por meio de escadas, nos moldes dos vinhedos antigos na região dos Vinhos Verdes em Portugal. 50% das uvas são fermentadas com maceração carbônica, enriquecendo os aromas de frutas, e a outra metade numa fermentação normal em cubas. O resultado é um vinho delicado, original e totalmente natural. Nos dois vinhos, extraem-se delicadeza, suavidade, sem aquela rusticidade habitual.

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mais vinhas antigas

O tesouro das vinhas antigas é um patrimônio que deve ser preservado a qualquer custo. São vinhos de personalidade, de equilíbrio raro, marcantes sem serem pesados. Enfim, uma maravilha. No caso da esquerda, são parreiras de 60 anos das famosas vinhas de Carignan do Maule. Com a vinificação primorosa da família Morandé, este tinto mostra toda sua autenticidade e frescor incríveis. Já o Cabernet Sauvignon da direita, voltamos à vinícola El Esteco de Salta para mais uma vinha antiga de 54 anos, plantada a 1700 metros de altitude. Partindo de baixos rendimentos, o vinho estagia em barricas francesas por 15 meses. Um Cabernet de raça com um balanço incrível entre força e elegância. Dois tintos de grande personalidade.

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O versátil Valle de Colchagua

Aqui, uma homenagem à Casa Silva, uma das referências em vinícolas no terroir de Colchagua. Ampla gama de vinhos sempre bem elaborados. Neste caso, dois tintos bem específicos. O da esquerda, um Petit Verdot de duas parcelas exclusivas da propriedade. Vinho robusto, cheio de taninos, próprio para carnes suculentas e fibrosas como bife de Chorizo. Bem educado em barricas francesas por 12 meses. Já o vinho da direita, um Carmenère também de parcelas exclusivas, bem trabalhado em barrica francesa, tanto na vinificação, como amadurecimento por 12 meses. Fora de Peumo, o terroir ideal para esta tardia casta, um dos melhores Carmenères do Chile.

Produção Mundial de Rosés

25 de Julho de 2013

Os números mais recentes sobre a produção e consumo mundial de vinhos rosés (dados de 2011) apontam a França como maior produtor, maior consumidor e maior importador deste tipo de vinho, conforme dados abaixo:

França e Itália na liderança

A produção mundial de Rosés representa menos de dez porcento do total de vinhos produzidos. Embora França e Itália liderem esta produção, seus objetivos são diferentes. Enquanto a Itália visa um mercado de exportação, a França consome praticamente todo seu rosé e ainda importa boa parte, sendo a exportação bem mais tímida que a de seu concorrente direto. Os dados abaixo dão um panorama geral deste consumo mundial.

Estados Unidos e França na liderança

Estados Unidos e França apresentam padrão semelhante de produção e consumo dos rosés, guardadas as devidas proporções.

Nossos vizinhos, Argentina e Uruguai, consomem praticamente tudo que produzem, não dando muito espaço para exportação.

Países do Rosé

Rússia é um mercado em crescimento, consumindo quase o dobro de sua produção. Potencialmente, é o alvo número um dos países exportadores.

Quanto aos dois grandes países exportadores do chamado Novo Mundo, Austrália e Chile, suas produções são modestas face ao total de rosés, não chegando a meio milhão de hectolitros anuais a soma destes países. Quem sabe um mercado ainda a ser explorado.

OIV: Tendências e Atualizações Mundiais

8 de Julho de 2013

Já é de praxe neste blog, informarmos as tendências e atualizações mais recentes no mundo do vinho através da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho). Este último congresso ocorreu em Bucareste no mês de junho deste ano. Algumas das últimas previsões se confirmam com destaque para a China, a estabilização do Velho Mundo, e certo crescimento no chamado Novo Mundo, particularmente nas Américas e Ásia.

A primeira constatação é que a área mundial de vinhedos vem caindo ano a ano de maneira discreta, chegando aos sete milhões quinhentos e vinte e oito mil hectares em 2012. Neste número há uma clara tendência de decréscimo nos vinhedos europeus, e acréscimo nos vinhedos asiáticos e americanos (principalmente América do Sul).

Quanto à produção total de uvas para diversas finalidades, não só a produção de vinhos, há uma certa estabilização, sendo que em 2012 este número deve ficar em seiscentos e noventa milhões de quintais (um quintal aproximadamente cem quilos). A China lidera com folga este ranking, seguida pela Itália e Estados Unidos.

OIV 2013 PRODUÇÃO VINHOSProdução Mundial de Vinhos

Na produção mundial de vinhos (vide gráfico acima), os três gigantes europeus seguem na liderança, porém sempre em tendência de queda. Já os Estados Unidos solidifica cada vez mais a quarta posição. O mesmo não acontece com a Argentina que manteve por longo tempo a quinta posição. Agora, China, Austrália e Chile, disputam a mesma com vantagem para os chineses que apresentam números de forte crescimento, a despeito da qualidade. A produção mundial deve ficar em duzentos e cinquenta e dois milhões de hectolitros que em outros tempos já superou a marca de trezentos milhões de hectolitros.

OIV 2013 CONSUMO  VINHOSConsumo Mundial de Vinhos

Quanto ao consumo mundial de vinhos (vide gráfico acima), a França ainda lidera, ameaçada fortemente pelos Estados Unidos. Alemanha e Reino Unido mantêm-se relativamente estáveis, enquanto a China dá um salto expressivo. Rússia e Canadá também destacam-se neste crescimento. A Itália e Espanha, grandes produtores, amargam forte decréscimo no consumo entre seus habitantes.

OIV 2013 IMPORTAÇÃO VINHOSPrincipais países importadores

Quanto à importação mundial, o quadro acima é bastante elucidativo nos tipos de vinhos que são comercializados. Vejam que a França não tem nenhum problema em importar vinhos em embalagens maiores. É mais barato e muitas destas embalagens tem um sistema a vácuo que preservar o vinho até as últimas taças a serem consumidas. Evidentemente, trata-se de vinhos para o dia a dia, sem maiores rituais. A importação de espumantes expressiva no Japão vai de encontro com sua gastronomia bastante típica. China e Canadá por exemplo, concentram-se em importações de vinhos engarrafados. O trio de ferro da importação permanece no topo (Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha).

OIV 2013 PRODUCÃO COMPARATIVA

Comparativo entre 2000 e 2012

Voltando à produção mundial de vinhos, o comparativo acima mostra que o bolo gradativamente está sendo fatiado com menor predominância do chamado Velho Mundo, embora sua liderança ainda seja expressiva. Além do crescimento chinês, o Chile continua expandindo seus vinhedos de norte a sul. A multiplicação de seus vales, buscando ao mesmo tempo uma identidade de terroir é notável. O vinhedo australiano também tem se expandido. A exemplo do Chile, a Austrália motiva-se neste crescimento, pois esses dois países travam uma batalha de gigantes no competitivo mundo dos maiores exportadores de vinho do chamado Novo Mundo.

Chile: Novas Zonas Vitiviniculturais

9 de Maio de 2013

Já falamos em artigos passados sobre particularidades do terroir chileno (vide artigo intitulado: Terroir Chileno). Recentemente, na metade de 2011, houve uma reformulação da nomenclatura dos atuais vales chilenos baseada no conceito de terroir. Pouco a pouco, o Novo Mundo vai detalhando seus territórios vitícolas e colocando os devidos pingos nos is. É um processo lento, natural e inexorável.

Logos das novas zonas nos rótulos das garrafas

Com a descoberta do vale de Casablanca por Pablo Morandé no início dos anos 80, novos vales surgiram ao longo do tempo, ampliando muito os horizontes, além do clássico vale Central.

No mapa acima, as áreas em azul representam os vales frios do Chile, onde as brisas geladas do Pacífico beneficiam uvas de maturação precoce como a Chardonnay, Sauvignon Blanc e Pinot Noir. Casablanca e San Antonio são exemplos clássicos.

As áreas em verde representam basicamente as planícies entre cordilheiras (da Costa e dos Andes), vide esquema abaixo. Essas áreas normalmente têm proteção parcial da influência marítima, com temperaturas médias um pouco mais altas. Mais de sessenta porcento da produção chilena vem destas demarcações. É bom ressaltar que estas áreas podem ser um tanto heterogêneas, pois a proteção da cordilheira da Costa é bastante variável em termos de topografia e altitude, além de composição de solos diversos. A emblemática uva chilena Carmenère encontrou em Cachapoal, um dos vales nestas áreas, seu terroir ideal, mais especificamente em Peumo. A sintonia entre a influência climática parcial da costa e solos com umidade adequada são fatores primordiais para seu pleno e difícil amadurecimento.

 Esquema do terroir chileno

Já as áreas em laranja representam os vinhedos em encostas nos sopés dos Andes. Aqui basicamente temos a produção dos grandes tintos chilenos baseados em Cabernet Sauvignon de classe internacional. Para a perfeita maturação desta casta tardia, além do solo pedregoso de origem aluvial, os dias são ensolarados e as noites frias, proporcionando grande amplitude térmica. De fato, ao anoitecer, correntes geladas descem das montanhas (Andes), inundando os vinhedos. Basicamente, este terroir concentra-se no chamado vale Central, tendo o Alto Maipo como destaque.

Portanto, em safras chilenas mais recentes poderemos encontrar essas informações adicionais das novas zonas, inclusive com seus respectivos logos, conforme a primeira ilustração acima. Quanto a novos vales que eventualmente poderão surgir, os mesmos serão devidamente enquadrados nas novas denominações.