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A nova Alemanha:

22 de Junho de 2026

Em 1912, quando o Titanic zarpou de um porto em Southampton rumo a Nova York, espumantes e brancos da uva Riesling rivalizavam em prestígio e preços com os mais famosos rótulos da França na carta de vinhos da primeira classe. O posterior naufrágio marcou um ponto de inflexão para o vinho alemão: duas guerras, a guerra fria e um erro de marketing levaram a uma derrocada.

Se os noruegueses criaram uma bem-sucedida estratégia de propaganda e tornaram o salmão um peixe comido de Tóquio a São Paulo, os alemães erraram feio. Responsável por até 60% das exportações viníferas da Alemanha, a invasão das garrafas azuis de Liebfraumilch acabou marcando negativamente a imagem do vinho alemão mundo afora. Muitos, até hoje, torcem o nariz, associando esses vinhos à imagem de um líquido doce, barato e industrial. Uma dor de cabeça assegurada.

Foto: Nadia Jung @nadiajungfotografia

Gradualmente a história tem mudado. Baseado em Rheinhessen, no sudoeste alemão às margens do rio Reno, uma região que para o vinho alemão é o que Bordeaux é para a França, Moritz Kissinger pertence a uma geração que busca incorporar as raízes da tradição trazendo inovações. Em 2018, assumiu parte das terras da família, cultivadas há quatro gerações, mas vinificadas e vendidas com o rótulo da propriedade apenas a partir de seu pai.

Depois de estudar vinhos na França, mais especificamente na Borgonha e no Jura, decidiu trabalhar com Chardonnay, uma uva que faz sucesso mundo afora, mas cujo histórico na Alemanha é recente. A legislação alemã proibia até o meio dos anos 1990 o uso da uva em vinhos de qualidade certificados pelo órgão de controle. A barreira legal foi vencida em 1994.

Moritz aproveitou uma coincidência climática: o aquecimento global tornou a Alemanha menos fria. Regiões que antes não amadureciam Chardonnay completamente agora produzem vinhos com a acidez vibrante típica de climas frescos, mas sem a dureza de outrora. Isso permite criar vinhos com frescor mineral e que às cegas podem parecer franceses.

Com videiras plantadas em 1994, Moritz começou a vinificar uma parcela de um hectare de Chardonnay. O primeiro vinho saiu em 2020. O resultado atraiu a atenção. Uma das maiores lojas de vinhos da Alemanha chamou Moritz de garoto prodígio, o The New York Times fez matéria sobre o renascimento do vinho alemão e destacou o Chardonnay dele.

O vinho chamou a atenção ainda de Jasmin Bähr, que tinha trabalhado como sommelière em Paris e estudado vinho na Borgonha e na Alsácia. Começaram a namorar. Casaram-se ano passado: a vinícola agora passou a se chamar Kissinger Bähr. O Chardonnay continua sendo um dos principais destaques do portfólio.

Agora os vinhos ganharam mais tempo de maturação, com dois invernos antes do engarrafamento e de chegarem ao mercado. Ganham mais complexidade. Tecnicamente, aproximam-se do estilo de grandes borgonhas, que descansam longamente sobre as borras para ganhar estabilidade e textura sem precisar de filtragem pesada. “Quis fazer Chardonnay porque eu achava que era possível fazer um de qualidade na Alemanha e a uva me encantou na França”, diz Moritz, que esteve em São Paulo essa semana em evento da importadora Maison Sirino, que recebeu recentemente uma nova remessa dos vinhos.

Mas o Chardonnay foi apenas o começo. Moritz queria ir mais longe: resgatar uma glória ainda mais antiga. No início do século 20, a Alemanha não era apenas um grande produtor, mas o maior mercado consumidor de espumantes do mundo. O prestígio era tanto que casas de Champagne francesas foram fundadas por alemães (Krug, Bollinger, Mumm, Piper-Heidsieck).

O imperador Guilherme II instituiu imposto sobre o vinho espumante com objetivo de financiar a construção da frota de guerra imperial. O imposto sobrevive até hoje. A pressão tributária, somada às crises do pós-Guerra, forçou os produtores a reduzir custos para o espumante acessível à classe média. Isso levou ao uso generalizado da fermentação em grandes tanques de aço, um método mais barato e rápido, em vez do lento e trabalhoso método tradicional, em que cada garrafa fermenta individualmente, como na Champagne.

Depois de um estágio na Champagne, Moritz voltou com a vontade de vinificar espumantes com uvas locais e feitos com mais de 18 meses sob leveduras, o que aumenta a complexidade. Busca ainda usar uvas de Chardonnay, Pinot Blanc e Pinot Noir e de safras diferentes. “A Alemanha tem potencial para bons espumantes”, afirma Moritz.

Agora Moritz e Jasmin trabalham juntos na vinícola, que ganhou nova dimensão. Desde 2024, eles conseguiram arrendar algumas parcelas de Riesling nos melhores trechos de terra da região. Produzem ali cerca de mil garrafas em cada um dos terroirs. A expansão se deu sobre a terra chamada de “encosta vermelha”, um paredão de solo avermelhado que despenca em direção ao rio Reno. É tão íngreme (declives de até 70 graus, como uma rampa de skate radical) que trator não sobe. Tudo é feito à mão, do plantio à colheita.

Mas essa verticalidade é o que permite que as videiras capturem a luz solar refletida pelo espelho d’água do Reno, garantindo maturação em um clima que, de outra forma, seria hostil. “Os vinhos têm uma mineralidade distinta”, afirma Jasmin. “Os vinhos carregam o sabor característico do solo e da luz que se reflete na parcela”, afirma ela.

A chegada de Jasmin trouxe outras inovações: ela ajudou a tornar os vinhos ainda mais gastronomicamente versáteis. A decisão de estender a maturação para dois invernos passa por essa percepção: vinhos de prestígio precisam de tempo para integrar a acidez. Jasmin foi peça-chave na decisão de expandir para o Riesling na encosta vermelha, com vinhos de minúscula produção. Agora o casal também irá trabalhar uma parcela especial de pinot noir, buscando um tinto elegante e mineral, cuja primeira safra ainda deve levar dois anos para chegar ao mercado. Nas encostas onde só as mãos alcançam, o vinho alemão volta à tona em várias versões.

(Lembrando que vinhosemsegredo tem revista, em pdf, que pode ser solicitada por:

https://vinhosemsegredo.com/revista-digital-vinho-sem-segredo/

O nome da uva

27 de Março de 2026

Em 1985, o cineasta francês Jean-Jacques Annaud precisava de um mosteiro histórico para filmar seu próximo longa-metragem – Nome da Rosa, baseado no livro homônimo do escritor italiano Umberto Eco. Fez sua equipe vasculhar a Europa à procura de um que tivesse sido construído havia séculos antes. Detalhes faziam a diferença. Para se preparar, Annaud leu centenas de livros e contratou Jacques Le Goff, um historiador especialista na época medieval, como consultor histórico de produção.

Depois de muita procura, chegaram ao Kloster Eberbach, abadia cisterciense fundada em 1136 às margens do Rheingau, um pedaço de terra hoje famoso pelos rieslings. Sean Connery – o eterno James Bond – chegou pouco depois da seleção da locação, para encarnar Guilherme de Baskerville, o religioso que investiga mortes misteriosas num mosteiro beneditino no século XIV. As câmeras filmavam os interiores da abadia. Do lado de fora, estavam os vinhedos. Mas eles não eram de riesling.

O ano em que passa a trama é 1327. A uva Riesling tem sua primeira documentação registrada em 13 de março de 1435. Entre o ano da trama de Eco e a primeira prova documental da existência do Riesling há um intervalo de mais de um século.

Na abadia, os monges seguiam rigorosamente a regra de São Bento, focada na oração, silêncio e trabalho manual e intelectual. Cada um recebia uma hemina de vinho por dia — cerca de 0,27 litros. O que os monges do Kloster Eberbach bebiam era Elbling, uma cepa de origem provavelmente romana e que foi a uva mais cultivada na Alemanha por muitos séculos. Hoje a principal produção é de Riesling, a uva que fez a fama da Alemanha no mapa múndi enológico. (Os vinhos de Kloster Eberbach chegam ao Brasil pela importadora Weinkeller, que receberá em breve novos rótulos da safra 2022, como esse ótimo riesling trocken).

Eco, que não escolheu o cenário, nunca comentou a ironia. O autor sempre manteve uma postura de prazer à mesa. À revista italiana Gambero Rosso, Stefano Delfiore, dono de uma enoteca histórica, em Bolonha, que fechou as portas no início de 2026 depois de décadas no mesmo ponto, contou recentemente que Eco chegava ali por volta do meio-dia e quinze, logo após as aulas na universidade. Preferia uma taça de vinho branco a tinto. Mas não abria a carta. Deixava-se guiar pela sugestão da casa, preferindo uma taça de vinho branco e a boa conversa ao rigor técnico das safras. (Uma sugestão é o roero arneis de Bruno Giacosa, importado pela Mistral e já resenhado em algumas resenhas ao longo dos anos no site).

Entre vinhedos históricos da Alemanha e o balcão de uma enoteca em Bolonha, a trajetória de Umberto Eco revela que, na literatura como na mesa, a verdade nem sempre está no rótulo e na conta de um hotel... Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/o-nome-da-uva/. O conteúdo de CartaCapital está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente de CartaCapital vivo e acessível a todos

Semiólogo, Eco investigava a cultura e hábitos. Tinha uma teoria do café ruim. Em uma de suas crônicas à imprensa italiana, dedicou seu texto ao café que se assemelhava a uma lavagem. Mapeou os lugares onde era servido em quantidade: prisões, vagões-leitos, hotéis de luxo. Aplicou Max Weber à receita: o bule de porcelana projetado para derramar metade do café nos croissants e o restante nos lençóis.

Se na ficção Eco lidava com pergaminhos, pêndulos, labirintos, na vida real travava batalhas contra a pressa e as falhas da modernidade.  No mesmo ano em que Annaud filmava no Kloster Eberbach, Eco lançou Como viajar com um salmão, um livro com curtas crônicas que passeiam por diversos temas – de comida de avião a futebol. Na crônica que dá nome ao livro, relata a compra de um salmão defumado em Estocolmo. O peixe é embalado em plástico. A missão é fazer com que chegue a Londres, onde ele ficaria por três até voltar à Itália. 

Quando chegou ao hotel de luxo reservado pelo seu agente literário, Eco desconfiou que o plano seria mais difícil que o previsto inicialmente. Famílias inteiras estavam acampadas no saguão, viajantes enrolados em cobertores dormiam em meio às suas bagagens. Um sistema computadorizado foi instalado e, antes que todas as falhas pudessem ser eliminadas, ele sofreu uma pane de duas horas.

Quando a confusão se desfez, foi ao quarto. Retirou tudo do mini refrigerador e colocou o salmão que tinha comprado. Achou que tudo estava certo. No dia seguinte, ao retornar ao quarto depois de andar por Londres, se deparou com o peixe em cima de uma mesa e garrafas de bebidas dentro da geladeira. Repetiu o procedimento tirando tudo de dentro e recolocando o salmão. No dia seguinte, voltou a ver o peixe sobre a mesa, dessa vez com um aroma que já denunciava má conservação.

Reclamou na recepção, mas ninguém entendeu nada. Eco entendeu menos ainda ao receber a conta. Havia garrafas de whisky, gin, águas, três meias-garrafas de champanhe, latas de cerveja e garrafas de vinho branco e tinto. O computador o tinha cobrado como se ele tivesse bebido tudo aquilo, mesmo ele apontando que tinha sido erro do sistema de computador. “Agora meu editor está furioso e pensa que sou um aproveitador crônico. O salmão não está comestível. Meus filhos insistem para que eu reduza a bebida.”

Na crônica “Como Comer num Avião”, cataloga com rigor as comidas admissíveis e inadmissíveis durante turbulência — costeleta empanada, carne grelhada, queijo, frango assado do lado permitido; espaguete ao molho de tomate, parmegiana de berinjela, consommé quente do lado proibido. Eram outros tempos de viagens aéreas.

Umberto Eco morreu em fevereiro de 2016. Em fevereiro desse ano, dez anos depois, a Antica Drogheria Calzolari, sua enoteca favorita em Bologna, fechou as portas. A concorrência vitimou o estabelecimento comercial do autor. Ficaram as histórias, as crônicas e os livros.

A Alemanha da Cave Leman

28 de Maio de 2024

Há 100 anos, quando se ia jantar no Ritz e se folheava a carta de vinhos, os preços de rieslings alemães se destacavam, com cifrões mais altos que os franceses, fossem eles da borgonha ou do rhône. Chamada pelos críticos de rainha das uvas, a riesling, com seu alto potencial de envelhecimento e versatilidade ímpar sobre a mesa, ganhava páginas em vários restaurantes mundo afora.

Vieram os anos 1960 e 1970 e os vários Liebfraumilch começaram a ganhar as gôndolas do mundo, chegando a alcançar perto de 60% de todos os vinhos exportados pela Alemanha. Em grande maioria, os produtores usavam Müller-Thurgau, Kerner, Sylvaner e quase nada, ou nada, de Riesling, em vinhos que custavam pouco, eram leves e doces e deixaram milhões de consumidores com a ideia de que vinho alemão não era sinônimo de qualidade. Aqui no Brasil a garrafa azul fez vítimas também.

Se a França e principalmente a Borgonha vivem hoje o ápice da popularidade, com uma vertiginosa ascensão de preços, a Alemanha, apesar de uma alta de preços nos últimos anos, é hoje o mais subestimado produtor de vinhos do planeta vitis. Foi isso que conversávamos na última segunda-feira de maio de 2024 em meio a rótulos tedescos importados pela @caveleman, de Marcio Morelli, que está construindo um portfólio de vinhos alemães que fará história no país.

Há estilos, mãos, filosofias e terroirs tão diferentes, que se comprova que a qualidade não está apenas na riesling, mas em chardonnay e pinot noir. No princípio, a única intrusa na degustação: champagne, Marie Courtin, Efflorescence, safra 2017, terroir da Côte des Bars (Aube). Dominique Moreau criou a casa em 2005 em um terroir com fama para a produção de pinot noir, videiras de 45 anos.

Dominique faz vários cuvées, mas a maior parte de sua pequena produção é dividida entre seus cuvées Résonance e Éfflorescence, a primeira fermentada em aço inoxidável e envelhecida por 24 meses sur lattes (período de tempo no qual as garrafas de Champagne ficam armazenadas em posição horizontal, como parte do processo de produção que inclui a segunda fermentação, chamada na região de prise de mousse), e o último é fermentado e envelhecido em barricas usadas, seguido de 36 meses sur lattes. Dominique Moreau faz belos vinhos, sempre extraindo um lado elegante e floral em suas criações (a rosé Indulgence é obrigatória). Na Éfflorescence, o lado floral delicado está ali. Tentaria harmonizar com codornas e morilles.

Da Champagne vamos para a Alemanha. Primeira parada: Rheingau. Hans Josef Becker, apelidado de Ha-Jo. São pouco mais de dez hectares de uvas, 80% delas riesling, com produção tradicional, mantidas em contato com as leveduras o máximo de tempo possível. “Meus vinhos são ricos e potentes, não precisam de açúcar residual”, disse ele a Stephan Reinhardt, no excelente “The Finest Wines of Germany”. O Spatlese trocken Wallufer Walkkeberg er 2012 tem um aroma que mescla maracujá, mel, toque floral e na boca a mineralidade da pedra de ardósia. Harmonizaria com as ostras do Baru Marisqueria. Que beleza de riesling!

Segunda parada: wasenhaus. Christoph Wolber e Alexander Götze administram essa vinícola em Staufen, ao sul de Freiburg i. Amigos desde os estudos de enologia em Beaune, na Borgonha, fundaram a propriedade em 2010. Trabalharem por lá em grandes domaines como Pierre Morey, Comte Armand, De Montille e Leflaive, e decidiram regressar à Alemanha, onde criaram a Wasenhaus . Escolheram a região vitivinícola de Baden, num vale que os separa das montanhas francesas dos Vosges e dos vinhedos da Alsácia. A primeira safra Wasenhaus é 2016. Em pouco tempo, eles fizeram barulho. Diga-se de passagem: aqui não são apenas os tintos que merecem mergulho, o chardonnay é uma beleza, com uma mineralidade instigante ao fundo, feito para frutos do mar e para a comida do Sororoca ou o ótimo peixe do Virado.

No capítulo tintos, o grand ordinaire é um glou glou delicioso, extremamente perigoso, com um claro defeito: deveria ser em garrafas magnums. O spatburgundner 2021 é um belo vinho, elegante e às cegas também provocaria confusão em uma degustação com pinots franceses. Pureza de fruta, pitangas, elegância. Põe no seu caderninho, virão outros rótulos dessa casa, que merecerá post à parte porque aqui nós estamos falando de um dos produtores de elite da Alemanha.

O estilo da Wasenhaus é bem diferente do clássico de Martin Wassmer, o que prova que Marcio Morelli vai aos poucos compondo uma sinfonia de notas que ao fim criam uma melodia de se aplaudir de pé. Dois destaques de Wassmer: o excelente Schlatter, que em 2018 está pronto (apesar de que em três a cinco anos ele ganhará toques terciários bem instigantes) e em 2019 ainda esbanja juventude. Hedonismo agora ou amanhã? A 391 reais se torna uma excelente qualidade preço. Harmonizaria com o shoulder de wagyu do Virado.

No nível grand cru, a contraposição entre Castellberg 2015 e o 2014 Maltesergarten, dois belos pinots, com minha preferência recaindo sobre o último, um terroir que fica entre a floresta negra e o vale do reno. Com dez anos de vida, ainda está na juventude, tem um final de boca que mostra profundidade e, claramente, demonstra por que a Alemanha é o mais subestimado dos produtores de vinhos brancos e tintos do planeta vitis.

Que os átrios e os ventrículos de Marcio Morelli continuem pulsando e fazendo com que a Alemanha chegue ao Brasil em sua melhor forma. Os apreciadores de Baco só podem agradecer. Virão ainda muitas novidades da Cave Leman, de Baden a Franken. Se Adolar Herman fez história nos anos 2000, agora um sobrenome italiano escreverá as linhas tedescas por aqui.

Prost!

Botrytis Cinerea

19 de Janeiro de 2020

Os vinhos botrytisados sempre foram os preferidos entre os vinhos doces pela peculiar transformação que passam os cachos de uvas durante o período da ocorrência do fenômeno. Fenômeno este que ocorre em algumas poucas regiões do planeta associado às condições climáticas bem específicas. Deve haver uma alternância de insolação e névoa com a natural umidade da região, geralmente  na presença de rios neste conceito de terroir.

Os primeiros vinhos botrytisados ocorreram na Hungria na famosa região de Tokaj por volta do ano 1600. Em 1730 começa a classificação dos vinhedos em Tokaj. Em seguida, a região alemã do Reno apresentou o fenômeno no final dos anos 1700. Praticamente na mesma época, a famosa região francesa de Sauternes e Barsac é abençoada com esta ocorrência, sendo o grande Yquem o pioneiro.

botrytis cinerea indicestransformações químicas importantes

Pela tabela acima percebemos que as uvas ganham açúcar por perderem água durante a perfuração do fungo nas cascas das mesmas. O fungo se alimenta tanto dos açúcares como dos ácidos das uvas, sobretudo o ácido tartárico. Em resposta ao ataque invasor, a planta produz mais resveratrol e há um aumento de ácido málico, o mais agressivo dentre os demais. Num balanço final, a uva ganha maior teor de açúcar com proporcional ganho de acidez. Este é o grande trunfo dos vinhos botrytisados. Apesar de doces, são muito bem equilibrados pelo frescor.

Há uma série de outras reações químicas, proporcionando aromas, sabores e texturas, bem típicos deste tipo de vinho. A produção de glicerol tem grande destaque, fornecendo maciez e untuosidade extras. A formação de ácido glucônico é um parâmetro inconteste e comprovativo do ataque de Botrytis. O aumento do ácido acético proporciona os famosos aromas de esmalte e acetona. A formação de Sotolon, uma lactona que fornece os aromas de caramelo, maple syrup (mel do Canadá) e curry, são presentes neste tipo de vinho. Os tióis, substâncias que se formam durante o processo agregando enxofre, fornece aromas cítricos e de frutas exóticas.

Botrytis pelo Mundo

A França se destaca neste tipo de vinho não só pela região de Sauternes, mas na Alsace com a especificação SNG (Selection des Grains Nobles) e também no Loire com várias apelações com Bonnezeaux, Quarts de Chaume, e Coteaux du Layon. Cada qual com suas características e peculiaridades, intrínsecas ao respectivo terroir.

sauternes e outros francesesdiferenças de componentes que marcam estilos

A tabela acima mostra parâmetros importantes nos vinhos botrytisados da França e países do Novo Mundo. Dá pra perceber que os Sauternes têm bom teor alcoólico, enquanto os alsacianos e os vinho do Loire têm mais leveza e frescor. Os vinhos do Novo Mundo têm mais dificuldades em encontrar o equilíbrio ideal. Mesmo assim, há bons exemplares que separam a joio do trigo. Os Sémillon australianos de Riverina costumam ser bastante confiáveis. Os sul-africanos da vinícola Nederburg são boas pedidas. Importados pela Casa Flora.

Na região de Sauternes há sempre a rivalidade entre os vinhos de Sauternes e Barsac, comunas vizinhas, separadas pelo rio Ciron. No perfil geológico abaixo percebemos que o subsolo calcário apresenta diferenças na superfície. As vinhas de Barsac estão sobre areia vermelha, o que fornece mais leveza e sutileza ao vinho. Já as vinhas de Sauternes estão sobre argila, cascalho e um pouco de areia, fornecendo mais corpo e robustez aos vinhos.

sauternes e barsac geologiacomunas que fazem a fama da região

Entre o seleto grupo de vinhos da região, Chateau Climens lidera a turma de Barsac com um vinho 100% Sémillon. Já o mítico Yquem é rei dos Sauternes numa liderança absoluta. Na classificação bordalesa de 1855 há espaço para os vinhos da região com os 27 chateaux mais reputados, classificados em dois grandes grupos, Premier e Deuxième Cru Classé. 

Alemanha e Hungria

Países de grande tradição em vinhos botrytisados, a Alemanha se destaca nas regiões de Rheingau e Mosel, enquanto a Hungria é famosa pelos belos Tokaji.

botrytis hungria e alemanha

Na tabela acima percebemos que há ocorrência da Botrytis em vários níveis de amadurecimento das uvas. Mesmo um Szamorodni, um vinho relativamente seco, há botrytis de forma parcial. É evidente que os Aszú levam a fama da região e são muito mais complexos. O ápice fica mesmo com o grande Eszencia, um vinho com pouquíssimo álcool e extrema acidez para compensar uma montanha de açúcar que chega facilmente acima de 500 g/l, números assombrosos.

Do lado alemão, a Botrytis em Auslese é rara e mesmo no Beerenauslese (BA) é de forma parcial. Já os clássicos e raros Trockenbeerenauslese (TBA) o açúcar é compensado por uma rica acidez, ficando o álcool em segundo plano.

EQUILIBRIO VINHOS DOCES

No esquema acima, o equilíbrio dos vinhos doces é dado pela acidez, álcool e açúcar residual. No caso dos mais emblemáticos vinhos botrytisados, a região de Sauternes é mais destacada pelo nível de álcool de seus vinhos, embora o equilíbrio de açúcar e acidez seja quase sempre harmônico. Isso tem haver com as questões próprias de terroir da região envolvendo uvas, clima, e solos.  Em Sauternes os vinhos devem ficar entre 12 e 15% de álcool para um açúcar residual entre 100 e 175 g/l.

Na região de Tokaj, a uva Furmint tem enorme acidez, comandando o equilíbrio ao lado de açúcar e álcool. A exceção fica com o Eszencia, um vinho praticamente sem álcool onde acidez e açúcar alcançam níveis altíssimos. 

Por fim os Trockenbeerenauslese (TBA) com grande dificuldade em fermentar seus açucares, apresenta níveis de álcool relativamente baixos, porém com uma acidez marcante.

Em resumo, a predominância de certos componentes no equilíbrio de seus vinhos acaba por ajudar a diferenciar certos estilos de vinhos botrytisados, variando textura, corpo, e características próprias de cada um.

cacho botrytisadoBotrytis: ocorrência não uniforme

Na foto acima, percebemos que o ataque da Botrytis se dá aos poucos, secando e murchando as uvas. A colheita pode ser muito seletiva, dependendo da região. Em Sauternes, os melhores chateaux fazem várias passagens nos vinhedos, buscando a botrytisação perfeita. E este é um dos fatores diferenciais onde os rendimentos podem ser baixíssimos, na ordem de 15 a 20 hl/ha. No Chateau d´Yquem esses rendimentos giram em torno de 9 hl/ha. 

cacho totalmente botrytisadocacho totalmente botrytisado

Na região húngara de Tokaj, as uvas podem ser colhidas por cachos parcialmente botritisados como o tipo Szmorodni ou outro critério bem mais rigoroso, os tipo Aszú só com uvas totalmente botrytisadas. Aliás os chamados puttonyos são uma medida em peso das uvas aszú colhidas.

Neusiedler See – O Paraíso da Botrytis

Se tem um lugar onde a ocorrência da Botrytis é certeira, chama-se Neusiedler See, um lago na Áustria, região de Burgenland a leste do país. Este lago tem dimensões e profundidade muito peculiares. Sua extensão tem cerca de 36 quilômetros com uma laurgura variando entre 6 e 12 quilômetros. O que chama a atenção é sua profundidade média de apenas um metro, sendo o ponto mais fundo menos de dois metros. Isso faz com que a temperatura do lago se torne amena, sobretudo no verão, propiciando a tão benvinda névoa para o desenvolvimento da Botrytis. Portanto, todo o ano tem Botrytis. Resta saber se a safra é mais generosa ou não, dependendo do ano.

d628ac44-a8a2-48ea-8131-e7413531c862Kracher: o maoir nome em vinhos doces austríacos

O estilo austríaco se parece muito com o alemão. Falta um pouco mais de elegância e sutileza, mas mesmo assim, os vinho são muito equilibrados. O produtor Alois Kracher, referência na região, trabalha com diversas uvas entre as quais: Riesling, Scheurebe, Welschriesling (riesling alemão), Muskat (muscat ottonel), Chardonnay, entre outras.

Espero ter dado uma visão geral sobre os vinhos botrytisados. Sempre vinhos fascinantes, caros e raros. Entre nós do Mercosul, a vinícola chilena Morandé elabora seguramente o melhor vinho botrytisado da América. Trata-se do Morandé Edición Limitada Golden Harvest Sauvignon Blanc. Vale a pena!