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O brinde de James Bond e as vinhas que desafiaram o tempo

9 de Outubro de 2026

Em Pauillac, na região de Bordeaux, uma menina guardava rótulos. O pai trabalhava no Château Mouton Rothschild, que desde 1945 encomenda a cada safra o desenho do rótulo a um artista. Miró, Chagall, Braque, Picasso e Francis Bacon passaram pela faixa de papel colada acima do nome do château. Morgane Renaud, diretora da Champagne Bollinger, colecionava essas folhas. Em Bordeaux, aprendeu cedo, o vinho também se lê pela etiqueta.

Depois veio a Millésima, empresa que compra e revende para o mundo os vinhos mais caros de Bordeaux. Veio então a vontade de trabalhar numa região menor e mais artesanal, nas palavras dela. Há dois anos e meio está em Aÿ, a vila da Champagne onde fica a Bollinger. Numa conversa de uma hora em São Paulo, em evento da importadora Mistral, contou onde estaciona o carro: ao lado de um dos dois vinhedos murados, os clos, de onde sai a Vieilles Vignes Françaises, o champanhe mais raro da casa.

O nome diz quase tudo: vinhas velhas francesas. Quase toda videira plantada hoje na Europa é uma planta montada. A parte de cima, que dá a uva, é europeia; a raiz é de origem americana. A troca foi imposta por um pulgão quase invisível a olho nu, a filoxera, que chegou à Inglaterra em 1863 com mudas trazidas da América e, na mesma década, apareceu no sul da França. O inseto vive na raiz, crava ali o sugador e provoca inchaços que matam a planta em poucos anos. As videiras americanas evoluíram ao lado dele e aguentam o ataque; as europeias, não. A saída foi enxertar a uva europeia sobre raiz americana.

Na Champagne, a praga foi identificada em agosto de 1890. Em 1911, os focos somavam 6.500 hectares, mais da metade das vinhas que ainda não tinham sido enxertadas. O replantio mudou a cara da região. Até ali, as videiras cresciam “en foule”, em multidão, sem fileiras, e se multiplicavam por mergulhia: o agricultor dobrava um ramo ainda preso à planta, enterrava-o, e dali nascia uma videira nova. O vinhedo replantado ganhou fileiras e arames, por onde passava um cavalo puxando o arado. Rendeu mais uva com menos trabalho. Na Bollinger, a troca por raízes americanas levou mais de vinte anos, segundo a casa.

Dois pedaços de terra ficaram de fora desse rearranjoSomam cerca de 3.100 metros quadrados, menos da metade de um campo de futebol. Ali as videiras seguem sobre as próprias raízes e plantadas como antes de 1890. A cada ano, os ramos que deram fruto são dobrados e enterrados, com três brotos de fora; no ano seguinte, sobem como plantas novas, descreveu o crítico britânico Jamie Goode, que visitou as parcelas. Cada planta nova é cópia da anterior, e a vinha se renova sem nunca ser arrancada. O resultado é um mato de cerca de 30 mil pés por hectare, contra uma média de 8 mil na região, segundo Tom Stevenson, na World of Fine Wine. Sem fileiras, não há por onde passar trator. A terra é trabalhada à mão, com ajuda de um cavalo. No relato de Goode, um hectare comum pede 500 horas de trabalho; as duas parcelas muradas, 1.500. Morgane admite que a produção é pequena: entre 700 e 2 mil garrafas por safra.

Ninguém sabe ao certo por que a filoxera poupou as duas parcelas. “É um mistério”, disse a Goode o viticultor da casa, Gilles Descortes. A Bollinger aposta nos muros, que “parecem proteger” as vinhas. Stevenson lembra que o inseto se dá mal em solo muito arenoso, mas o de Aÿ tem argila. Havia uma terceira parcela, a Croix-Rouge, de 16 ares. A filoxera apareceu ali em 1998, e 2004 foi a última safra em que suas uvas entraram na garrafa, segundo Stevenson. Morganne diz que a casa faz tudo para que as outras duas não sigam o mesmo caminho.

Na adega, o trabalho continua manual. O vinho fermenta em barricas velhas de carvalho, que chegam da Maison Chanson, em Beaune, na Borgonha, empresa do grupo, depois de quatro ou cinco anos de uso. As garrafas são giradas e abertas à mão para expulsar o depósito de leveduras e descansam anos antes de sair. Nada disso é invenção da Bollinger. Até 1890, era assim que se plantava em toda a Champagne. A fileira, o arame e o enxerto chegaram como remédio contra uma praga e ficaram como regra, porque rendiam mais. A casa mantém em 31 ares o que a região abandonou em milhares de hectares e paga por isso em horas de trabalho e em garrafas que não passam de 2 mil. O vinho de hoje, feito com técnicas de hoje, sai de uvas cultivadas como no tempo em que Jacques Bollinger fundou a casa.

A história de quase 200 anos traz outros trunfos. Repousam cerca de um milhão de garrafas magnums de reserva, garrafas de 1,5 litro com safras antigas. Morgane as compara ao tempero de um cozinheiro: entram em pequena dose na champagne de entrada da casa. Estima-se que algo de 5% a 10% da mistura.

A Bollinger se apresenta como a menor das grandes casas de Champagne e como a casa do Pinot Noir, a uva tinta que responde por 60% do Special Cuvée, seu champagne de entrada. A série PN, 100% Pinot Noir, põe no rótulo uma vila e um ano. A mesma uva tem na casa um endereço mais antigo. A Côte aux Enfants, encosta de 4 hectares junto a Aÿ, estava dividida entre mais de 50 donos quando Jacques Bollinger, neto do fundador e marido de Lily, começou a comprá-la. Reuniu as parcelas entre 1926 e 1934.

A encosta já foi chamada de “Côte aux Enfers”, a encosta do inferno, por ser muito íngreme; o nome atual viria das crianças, as únicas que subiam por ela sem esforço, segundo a revista World of Fine Wine. Do lado sul sai um tinto sem bolhas, feito à moda da Borgonha, com cachos inteiros, e engarrafado só nas safras que a casa considera excepcionais. Uma dose de 5% vai para o champanhe rosé safrado. Do lado noroeste, mais fresco, sai desde a safra 2012 um champanhe, lançado em 2022.

A casa é mais vinícola cuja história teve um capítulo central assinado por uma mulher. Elisabeth “Lily” Bollinger assumiu a casa com a morte do marido, Jacques, em 1941, e a dirigiu por três décadas. Em 1967, lançou ao mercado uma invenção sua: um champagne inovador envelhecido por anos sobre suas borras. Foi um grande sucesso. Normalmente, após a segunda fermentação em garrafa (que cria as bolhas), o Champagne permanece sobre as borras (leveduras mortas) por um período determinado – geralmente três anos para não-vintage, mais para vintage. Depois desse tempo, faz-se o dégorgement (desgorgamento): remove-se a borra, adiciona-se o licor de expedição e a garrafa é imediatamente comercializada. Lily Bollinger inverteu a lógica. O vinho permanece sobre as borras por muito mais tempo – às vezes uma década ou mais – desenvolvendo muito mais complexidade.

Nasceu a R.D., sigla de “recém-degolado”: champanhe que passa anos em contato com as leveduras e só tem o depósito retirado perto da venda. A primeira foi a safra 1952, lançada em 1967, segundo o crítico Charles Curtis, da Decanter. Dela saiu também a Vieilles Vignes Françaises, com a safra 1969. Morganne conta que Lily gostava de acompanhar seus champanhes com tournedos Rossini, medalhão de filé com foie gras e trufa. Em 1961, ao Daily Mail, deu a frase pela qual é lembrada: bebia champanhe quando estava feliz e quando estava triste, às vezes sozinha, e em companhia por obrigação; fora isso, nunca tocava nele, “a menos que estivesse com sede”.

A marca está também nos livros de Ian Fleming e nos filmes de 007. O vínculo formal veio de um encontro, em 1978, entre Christian Bizot, sobrinho de Lily, e o produtor Albert Broccoli. A Fortune registrou em 2019 que não houve dinheiro. Morgane acrescenta que também não houve contrato: foi um aperto de mãos. Em fevereiro de 2025, a Amazon, de Jeff Bezzos, assumiu o controle da franquia, antes da família Broccoli. O próximo filme terá direção de Denis Villeneuve e ainda não tem ator anunciado. A Bollinger, diz Morgane, negocia sua presença agora com os novos donos e espera, “como o mundo inteiro”, para ver o que vem.

A Alemanha da Cave Leman

28 de Maio de 2024

Há 100 anos, quando se ia jantar no Ritz e se folheava a carta de vinhos, os preços de rieslings alemães se destacavam, com cifrões mais altos que os franceses, fossem eles da borgonha ou do rhône. Chamada pelos críticos de rainha das uvas, a riesling, com seu alto potencial de envelhecimento e versatilidade ímpar sobre a mesa, ganhava páginas em vários restaurantes mundo afora.

Vieram os anos 1960 e 1970 e os vários Liebfraumilch começaram a ganhar as gôndolas do mundo, chegando a alcançar perto de 60% de todos os vinhos exportados pela Alemanha. Em grande maioria, os produtores usavam Müller-Thurgau, Kerner, Sylvaner e quase nada, ou nada, de Riesling, em vinhos que custavam pouco, eram leves e doces e deixaram milhões de consumidores com a ideia de que vinho alemão não era sinônimo de qualidade. Aqui no Brasil a garrafa azul fez vítimas também.

Se a França e principalmente a Borgonha vivem hoje o ápice da popularidade, com uma vertiginosa ascensão de preços, a Alemanha, apesar de uma alta de preços nos últimos anos, é hoje o mais subestimado produtor de vinhos do planeta vitis. Foi isso que conversávamos na última segunda-feira de maio de 2024 em meio a rótulos tedescos importados pela @caveleman, de Marcio Morelli, que está construindo um portfólio de vinhos alemães que fará história no país.

Há estilos, mãos, filosofias e terroirs tão diferentes, que se comprova que a qualidade não está apenas na riesling, mas em chardonnay e pinot noir. No princípio, a única intrusa na degustação: champagne, Marie Courtin, Efflorescence, safra 2017, terroir da Côte des Bars (Aube). Dominique Moreau criou a casa em 2005 em um terroir com fama para a produção de pinot noir, videiras de 45 anos.

Dominique faz vários cuvées, mas a maior parte de sua pequena produção é dividida entre seus cuvées Résonance e Éfflorescence, a primeira fermentada em aço inoxidável e envelhecida por 24 meses sur lattes (período de tempo no qual as garrafas de Champagne ficam armazenadas em posição horizontal, como parte do processo de produção que inclui a segunda fermentação, chamada na região de prise de mousse), e o último é fermentado e envelhecido em barricas usadas, seguido de 36 meses sur lattes. Dominique Moreau faz belos vinhos, sempre extraindo um lado elegante e floral em suas criações (a rosé Indulgence é obrigatória). Na Éfflorescence, o lado floral delicado está ali. Tentaria harmonizar com codornas e morilles.

Da Champagne vamos para a Alemanha. Primeira parada: Rheingau. Hans Josef Becker, apelidado de Ha-Jo. São pouco mais de dez hectares de uvas, 80% delas riesling, com produção tradicional, mantidas em contato com as leveduras o máximo de tempo possível. “Meus vinhos são ricos e potentes, não precisam de açúcar residual”, disse ele a Stephan Reinhardt, no excelente “The Finest Wines of Germany”. O Spatlese trocken Wallufer Walkkeberg er 2012 tem um aroma que mescla maracujá, mel, toque floral e na boca a mineralidade da pedra de ardósia. Harmonizaria com as ostras do Baru Marisqueria. Que beleza de riesling!

Segunda parada: wasenhaus. Christoph Wolber e Alexander Götze administram essa vinícola em Staufen, ao sul de Freiburg i. Amigos desde os estudos de enologia em Beaune, na Borgonha, fundaram a propriedade em 2010. Trabalharem por lá em grandes domaines como Pierre Morey, Comte Armand, De Montille e Leflaive, e decidiram regressar à Alemanha, onde criaram a Wasenhaus . Escolheram a região vitivinícola de Baden, num vale que os separa das montanhas francesas dos Vosges e dos vinhedos da Alsácia. A primeira safra Wasenhaus é 2016. Em pouco tempo, eles fizeram barulho. Diga-se de passagem: aqui não são apenas os tintos que merecem mergulho, o chardonnay é uma beleza, com uma mineralidade instigante ao fundo, feito para frutos do mar e para a comida do Sororoca ou o ótimo peixe do Virado.

No capítulo tintos, o grand ordinaire é um glou glou delicioso, extremamente perigoso, com um claro defeito: deveria ser em garrafas magnums. O spatburgundner 2021 é um belo vinho, elegante e às cegas também provocaria confusão em uma degustação com pinots franceses. Pureza de fruta, pitangas, elegância. Põe no seu caderninho, virão outros rótulos dessa casa, que merecerá post à parte porque aqui nós estamos falando de um dos produtores de elite da Alemanha.

O estilo da Wasenhaus é bem diferente do clássico de Martin Wassmer, o que prova que Marcio Morelli vai aos poucos compondo uma sinfonia de notas que ao fim criam uma melodia de se aplaudir de pé. Dois destaques de Wassmer: o excelente Schlatter, que em 2018 está pronto (apesar de que em três a cinco anos ele ganhará toques terciários bem instigantes) e em 2019 ainda esbanja juventude. Hedonismo agora ou amanhã? A 391 reais se torna uma excelente qualidade preço. Harmonizaria com o shoulder de wagyu do Virado.

No nível grand cru, a contraposição entre Castellberg 2015 e o 2014 Maltesergarten, dois belos pinots, com minha preferência recaindo sobre o último, um terroir que fica entre a floresta negra e o vale do reno. Com dez anos de vida, ainda está na juventude, tem um final de boca que mostra profundidade e, claramente, demonstra por que a Alemanha é o mais subestimado dos produtores de vinhos brancos e tintos do planeta vitis.

Que os átrios e os ventrículos de Marcio Morelli continuem pulsando e fazendo com que a Alemanha chegue ao Brasil em sua melhor forma. Os apreciadores de Baco só podem agradecer. Virão ainda muitas novidades da Cave Leman, de Baden a Franken. Se Adolar Herman fez história nos anos 2000, agora um sobrenome italiano escreverá as linhas tedescas por aqui.

Prost!

Jacquesson, a arte dos irmãos Chiquet

30 de Janeiro de 2021

Quem acompanha o site e o instagram sabe que uma champagne sempre aparece aqui e ali em posts, harmonizações e recomendações. Fundada em 1798, em Châlons-sur-Marne, Jacquesson era uma das estrelas da Champagne no século XIX, mas em 1920, quando foi comprada por um negociante de vinhos que mudou a sede para Reims, passou décadas em declínio. A virada se deu em 1974, quando Laurent e Jean-Hervé Chiquet compraram a tradicional Maison e levaram sua sede para Dizy.

Laurent e Jean Hervé Chiquet

Os vinhedos estão todos em Grande Vallé e na Côte des Blancs com algumas compras adicionais nesses mesmos terroirs. Uma das marcas das champagnes feitas por aqui é que elas são vinificadas em grandes barris de madeira, o que rende complexidade e mais aromas. Uma das inovações da casa foi a criação da linha 700. Na Champagne, a tradição era que a casa safra as maisons buscassem imprimir mais seu estilo no que está sendo oferecido do que um espumante que retratasse o ano. Quem busca uma Bollinger NV sabe o que encontrará, ano sim, ano não. Os Chiquets foram por outro caminho. A pequena produção (cerca de 300 mil garrafas por ano) comparada às grandes marcas dificultava criar uma linha que imprimisse todos os anos o mesmo estilo. Havia ainda mais. “Nós começamos a perceber que estávamos fazendo um blend pior que poderíamos fazer. Não tinha sentido”, disse Jean-Hervé Chiquet a Peter Liem no excelente livro “Champagne”.

A DT, cujo dégorgement é bem tardio, tem um contato sur lies de quase dez anos, o dobro da 738 normal

Com a percepção de que o foco em ano resultava em vinhos inferiores ao que poderiam fazer sem essa amarra, os irmãos buscaram consistência. A partir da safra 2000, eles descartaram a cuvée Perfection e lançaram a 728. Por que o número? O ano de 2000 representou a safra 728 desde a fundação da Maison.

A linha, importada pela Delacroix, é consistente do início ao topo, com espumantes refinados, gastronômicos, intensos, complexos e que têm alto potencial de envelhecimento.

A linha 700, a mais recente disponível no Brasil é a 743, é originada de dois vinhedos Grands Crus e três vinhedos Premiers Crus. O vinho-base é elaborado em madeira, naturalmente inerte, para não passar aromas ao vinho. As uvas são: Chardonnay de Avize Grand Cru; Pinot Noir do Ay Grand Cru e Dizy Premier Cru; Pinot Meunier de Oiry Grand Cru e Hautvillers Premier Cru. A primeira fermentação é em grandes barricas de carvalho, envelhecendo sobre as borras por 36 meses, misturando com vinhos de reserva (33%) e a segunda fermentação em garrafa segundo o método Champenoise. A 743 talvez seja a melhor que eu bebi. Mais aberta que a 742. Para se achar no ano em que o rótulo é baseado, basta somar dois ao número da linha: 742 é de 2014, a 743 de 2015.

Manifesto dos Chiquets

A Jacquesson ainda produz uma DT, cujo dégorgement é bem tardio, prevendo um contato sur lies de quase dez anos, o dobro da 738 normal. Enseja um vinho complexo, profundo, com uma mineralidade digna de um champagne especial. Com muita vida pela frente.

Em linguagem bourguignone, o rosé é um Chambolle feito na Champagne. São menos de dez mil garrafas vindas de Dizy, um vinhedo Premier Cru situado no Vallée de la Marne, sendo Terres Rouges (lieu-dit) uma área de somente 1,35 hectares exclusivamente de Pinot Noir, plantada em alta densidade, 11500 pés por hectare. O solo é escuro e pedregoso misturando argila e calcário. O vinhedo fica junto à Montagne de Reims em seu setor sul. O vinho-base é vinificado em madeira inerte (foudres de chêne). Trata-se de um rosé de saignée e não de assemblage, este último, mais comum em Champagne. Na verdade, este saignée é muito delicado, quase um pressurage direct. O dégorgement leva normalmente cinco anos, mantendo um longo contato sur lies. Extremamente seco com apenas 3,5 gramas/litro de açúcar residual, dentro do padrão extra-brut. Apesar de 100% Pinot Noir, é um champagne delicado, elegante e muito vivaz tanto em fruta, como no próprio frescor. As notas de frutas vermelhas (groselhas, framboesas) e de alcaçuz estão bem presentes.

Na linha das especiais, há um rótulo absolutamente grandioso: Champ Caïn, cuja primeira safra se deu em 2002, com vinhedos plantados em 1962. A safra 2004 foi bebida em almoço no fim do ano passado. Colhida em 4 de outubro daquele ano, resultou em 9012 garrafas e 500 magnums. O degorgement foi feito em fevereiro de 2013 depois de oito anos sur lies. Chardonnay elegante, refinado, extremamente delicado, expansivo, medidativo, destacando o terroir excepcional de Avize.  Que champagne! Ou melhor, que champagnes!

Salmão Defumado e Gravlax

18 de Março de 2020

Dois dos mais pedidos tipos de salmão no mercado, restaurtantes e receitas. Amplamente difundido entre nós, geralmente como entrada e canapés. Há diferenças no preparo de ambos e evidentemente, nos vinhos a acompanhar.

salmão gravlax

Salmão Gravlax

É o processo nórdico, escandinavo de preparar o salmão. Os ingredientes são uma medida de açúcar, duas medidas de sal grosso, aneto ou dill e o salmão. Mistura-se os ingredientes, cobrir o salmão e deixa-lo por 48 horas na geladeira. Lava-se o salmão e pode fatia-lo finamente com faca apropriada, e servi-lo desde in natura, como em diversas formas, temperos e molhos.

Evidentemente, o frescor,  o gosto in natura do peixe, pede vinhos frescos, leves e de boa mineralidade. Os Sauvignons desta característica vêm sobretudo do vale do Loire são as primeiras escolhas. Alvarinhos, Albariños e Chablis, geralmente são muito minerais e de textura correta para o prato. Espumantes Blanc de Blancs e preferencialmente os champagnes são muito bem-vindos.

A madeira nesta caso não casa muito bem com a característica do peixe. Ela fica muito invasiva. Por outro lado, brancos sem madeira e de certa delicadeza são fracos para o prato. Penso que a mineralidade e a personalidade do vinho definem bem a questão.

Neste caso, os complementos mais pedidos são as pimentas aromáticas, ervas e mostardas não muito picantes. Raspas de limão e cítricos são bem-vindos. É uma entrada estimulante, aguçando as papilas gustativas para o que vem pela frente.

salmão defumado

Salmão Defumado

Esse é aquele salmão que compramos pronto e já embalado. Pode ser feito em casa, mas dá um certo trabalho. Normalmente, ele é previamente semicurado e posteriormente defumado com madeiras ou ervas. Esse toque defumado vai diferenciar o vinho em certas situações. É evidente que o grau de defumação, assim como o cozimento do peixe deve influir no resultado final. Estamos falando de um início Gravlax, seguido de leve defumação, sem comprometimento do peixe.

Esse toque mineral pendendo para o defumado, o branco Riesling é ideal. Se for o alemão, opte pelo estilo Trocken, bem seco, ou os alsacianos secos e minerais como Trimbach. Quanto mais envelhecido for o Riesling, maior o toque defumado apresentado, fugindo um pouco dos aromas florais e frutados.

Champagnes com longo tempo sur lies podem ser interessantes, pois a textura fica mais cremosa e os aromas mais complexos e intensos.

 Os Sauvignons de Bordeaux ou próprio corte bordalês branco me parece insuficiente para o prato. Tem um textura rica e falta um pouco de acidez ao conjunto.

Os Sémillons do vale do Hunter, Austrália, pode ser uma bela saída, pois são minerais e com o tempo em garrafa, desenvolvem aromas defumados muito interessantes.

Outra opção interessante é a uva grega Assyrtiko com mais de 60 anos de idade, plantada em vasos, na ilha de Santorini. Um vinho fresco, mineral, salino e de grande personalidade. Pode ir muito bem com o salmão defumado, inclusive o poderoso caviar.

No entanto, preste atenção na carga de madeira. Vinhos muito amadeirados e invasivos, podem deixar a combinação enjoativa e pouco estimulante. É sempre bom prestarmos atenção ao fato, deixando os toques defumados com a mineralidade  e outros aspectos de vinificação como tempo sur lies, por exemplo.

Uma combinação ousada seria o salmão defumado com Whiskies de Islay com forte teor de turfa, o que confere um casamento marcante e bem surpreendente.

salmao defumado e blinisa clássica receita de salmão defumado e creme azedo

Para suavizar o gosto do peixe defumado e até do próprio vinho, um dos acompanhamentos clássicos é o blinis com creme azedo (creme de leite e limão), substituindo com competência o clássico de blinis de caviar, tão caro em nossos dias.

Sempre é bom para uma entrada fresca e de personalidade como esses dois salmões, pensando em vinhos frescos, minerais, de boa personalidade. A Europa sempre sai na frente com exemplares clássicos.