Posts Tagged ‘montrachet’

O vinho e a guerra

20 de Setembro de 2026

A história da família Drouhin mostra a resistência de produtores de vinho ao nazismo e os desafios do mundo de hoje


Eram pouco antes das seis da manhã de 7 de junho de 1944, quando batidas fortes na porta de uma casa de Beaune fizeram todos os moradores acordarem. A família Drouhin não tinha dúvidas de que do lado de fora estavam oficiais nazistas. Os Drouhins tinham ouvido da possibilidade de uma prisão iminente.

Durante o período entre as guerras, como reservista do exército francês, Maurice tinha sido incumbido pelo governo francês de acompanhar delegações militares a Washington, com o intuito de persuadir os Estados Unidos a abandonar sua política de isolamento. Durante a segunda guerra mundial, realizava missões especiais periódicas e mantinha contato com amigos do exército norte-americano. Nunca revelou a natureza exata dessas missões aos filhos, mas encontrava-se frequentemente com o General Douglas MacArthur, principal comandante das forças dos Aliados na região do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

Esse histórico já havia custado caro. Em agosto de 1941, Maurice fora detido e levado para uma prisão nos arredores de Paris, onde permaneceria por seis meses até sua libertação, em 13 de fevereiro de 1942. O pretexto oficial das autoridades de ocupação fora a descoberta de um velho revólver enferrujado da Primeira Guerra Mundial esquecido em uma gaveta. A razão real, no entando, era o monitoramento ostensivo do serviço secreto alemão, que suspeitava de suas atividades contra o governo de Adolf Hitler.

Maurice Drouhin

Foi justamente atrás das grandes que a história da Borgonha quase tomou outro rumo. Durante uma das visitas da esposa, Pauline, à prisão em 1941, ela o informou de que metade (50%) do lendário Domaine de la Romanée-Conti fora colocada à venda. Sendo a Maison Joseph Drouhin a maior distribuidora dos vinhos daquela propriedade à época, abria-se a oportunidade histórica de adquiri-la. Maurice, contudo, temia que a compra de um ativo tão vistoso em plena ocupação atraísse ainda mais a atenção e o confisco por parte dos Weinvorsteher (os “barões do vinho” encarregados pelo Terceiro Reich de saquear as adegas francesas). Preferiu declinar, reconta Christophe Thomas, diretor de exportação dos vinhos da família Drouhin na Borgonha, presente em São Paulo essa semana em uma degustação dos vinhos, importados pela Mistral.

Quando a Gestapo voltou à sua porta naquela manhã de junho de 1944, Maurice sabia que não haveria uma segunda chance na prisão. Eles não tinham mais suspeitas. Agora a ordem era executá-lo. Sem hesitar, Maurice enfiou a mão debaixo da cama e agarrou uma maleta com roupas e objetos pessoais. Ele mantinha essa bolsa pronta havia dois anos — desde sua libertação em 1942, depois da primeira e até então única prisão. Achava que os alemães tentariam prendê-lo novamente devido às suas atividades na Resistência.

Sem tempo, apenas murmurou “eu te amo” para Pauline. Desceu silenciosamente a escada em direção à adega de vinho. Parte das cenas está descrita ainda mais em detalhes no livro Vinho e Guerra, de Don e Petie Kladstrup, Cia das Letras, e em uma entrevista do filho Robert ao podcast I´ll drink to That, de Levi Dalton.

Para ganhar tempo para o marido, Pauline abriu a janela. Viu vários oficiais da Gestapo acompanhados de soldados armados. Eles tinham descoberto que Maurice passava segredos para os aliados. Uma sentença de morte tinha sido expedida. Quando os oficiais ordenaram que abrisse a porta para falarem com Maurice, Pauline disse que o marido tinha ido para Paris a negócios. Não acreditaram. Ordenaram a abertura da porta. Vasculharam todos os cômodos, abrindo armários, revirando roupas, a cozinha, banheiros, os quartos e espiando debaixo das camas.

Enquanto os soldados reviravam a casa, guiado pela chama de uma vela, Maurice conseguiu escapar de seu quarto para as adegas da família Drouhin, um labirinto de quilômetros de passagens subterrâneas do século XIII. Movido pelo medo de ser executado, procurou freneticamente por uma portinha secreta de madeira escondida. Ao encontrar, girou a maçaneta e saiu para uma outra rua de Beaune, no coração da Borgonha. Olhou o nome da rua: paradis, em português “paraíso”. Morava na rua l´enfer, o inferno. Sorriu da ironia. Sem nenhum alemão à vista, desapareceu.

Viveu escondido quatro meses nos edifícios dos Hospices de Beaune até a libertação da cidade pelas tropas americanas em setembro de 1944, segundo recordou sua neta, Véronique Drouhin, em entrevista à revista inglesa Decanter. Nessa época, o Hospices de Beaune ainda funcionava como um hospital de caridade gerido por freiras católicas (a madre superiora não apenas concordou em abrigar Maurice, como também levava mensagens entre ele e sua esposa.) A ajuda delas fez com que, depois da guerra, Maurice doasse dois hectares de seus melhores vinhedos de Beaune ao Hospices, em agradecimento pelas freiras terem salvado sua vida.

A guerra está presente na vida dos Drouhins por outro episódio, diz o diretor de exportação da vinícola, Christophe Thomas. Na primeira guerra mundial, em uma trincheira, Maurice conheceu o Marquês de Laguiche, proprietário de um dos mais cobiçados e caros vinhedos do planeta vitis: Montrachet, o mesmo que a personagem de Grace Kelly oferece ao fotógrafo interpretado por James Stewart em Janela Indiscreta.

Ficaram amigos e anos depois selaram, com um aperto de mãos, um acordo que fez e faz os Drouhins terem o vinhedo para vinificarem um dos mais famosos brancos do mundo. O acordo de mão durou décadas. Virou formal há cinco anos. “Ouvimos que um grupo de luxo ia almoçar com eles e então resolvemos formalizar”, afirma Thomas.

Christophe Thomas, diretor de exportação

Os grupos de luxo, aliás, estão mudando a região, que desde o filme Sideways está no topo da lista entre enófilos do mundo. Recentemente, o grupo que detém a famosa champagne Louis Roederer, cujo rótulo mais famoso é a Cristal, acertou a compra da vinícola familiar Pierre Damoy, em uma transação avaliada por algumas revistas especializadas em 300 milhões de euros. “Os preços das terras na Borgonha estão nas alturas, não temos condições de comprar mais nenhum grand cru”, diz Thomas.

As mudanças climáticas também têm alterado a dinâmica. Em 2024, chuva, geada, tempo nublado fizeram a vinícola ter perdas de 90% de seus rótulos, uma perda maior que a média da região, de 75%. A redução na colheita não muda a visão da vinícola. “Nós estamos há anos em agricultura biodinâmica e isso é um norte, as raízes ficam mais profundas e permitem que tenhamos videiras mais sadias. Quem a pratica tem grama ao redor dos vinhedos, isso ajuda a ter plantas melhores”, diz.

O grupo foi um dos pioneiros ao investir na área no fim dos anos 1980, depois de um dos membros da família, que gostava de pescar, ter notado que havia poucas minhocas no solo de um dos vinhedos mais famosos da vinícola. A dificuldade em encontrar iscas para uma pescaria levou a investigar mais a fundo o que estava acontecendo, um pulo para iniciar estudos. “No início, alguns ficaram reticentes, mas depois, ao longo dos anos, se viu que era o futuro”, diz Thomas. O paladar do novo consumidor tem mudado também. Um exemplo é a procura crescente por vinhos brancos, com destaque para Chablis, onde a vinícola começou a investir há duas décadas, quando a onda de consumo ainda não tinha crescido.

Se nas décadas de 1940 e 1910 a continuidade da vinícola foi testada pela violência geopolítica e pelas arbitrariedades do Terceiro Reich, o século XXI impõe outros desafios: a inflação vertiginosa dos ativos alimentada por conglomerados globais de luxo e a volatilidade extrema de um clima em mutação.

Ramonet rima com Montrachet

9 de Novembro de 2020

Pierre Ramonet, ou père Ramonet, foi uma das figuras lendárias do mundo do vinho. Suas histórias saborosas recheariam livros. Uma das melhores, contada em detalhes por Clive Coates em uma de suas bíblias sobre a Bourgogne, se passou em 1978,quando Ramonet, com seu pulover, calça baggy e boina, entrou no escritório de um advogado em Beaune. Era um homem da terra. Não gostava de formalidades, de falar ao telefone, nem de escrever cartas. Nunca enviava amostras de seus vinhos aos críticos. A razão era simples: nunca viu os Troisgros, Bocuse ou qualquer chef estrelado do Michelin mandar quentinhas para os críticos dos guias. Se alguém quisesse beber seus vinhos, que fosse a Chassagne.

Estava no escritório do advogado porque as famílias Milan e Mathey-Blanchet tinham decidido vender suas parcelas em Le Montrachet, o mais cobiçado terroir de chardonnay do mundo, com uvas do lado de Puligny-Montrachet suficientes para quatro barris e meio de vinho. Mal se sentou à cadeira. Começou a tirar notas dos bolsos e deixou o dinheiro em cima da mesa. “Acho que está tudo aí.”

La Boudriotte é um terroir de 1,2 hectares, com uvas com mais de 40 anos de vida.

Em uma visita à Bourgogne, Noël Ramonet confirmou a veracidade da história e ainda disse que o pai tinha apreço especial também pelo premier cru “Les Ruchottes”, com algumas vinhas com mais de 60 anos de idade.

Mais que uma figura com histórias saborosas, Pierre Ramonet era um profundo degustador e um viticultor de mãos cheias. Construiu, em 1920, um domaine com uma constelação de grandes rótulos, que chegarão em breve ao Brasil pela importadora Clarets. Do bourgogne ao Montrachet, tudo é bom. Hoje o domaine é tocado pelos dois filhos: Jean Claude e Noël, sendo o primeiro que põe o nome nos rótulos, o segundo fica mais à frente do cuidado das vinhas. A divisão teria ocorrido em razão de um câncer que afetou Noël, mas já há algum tempo ele estaria curado.

No mundo dos vinhos brancos, há aqueles que hoje não os envelhecem por conta de eventuais problemas de premox ou os que são crentes em dias melhores. Se você jogar nesse segundo time e der tempo às garrafas, com sorte, terá grandes momentos ao abrir esses vinhos que ganham muito com o tempo em adega, com uma paleta gustativa e aromática complexa, profunda e hedonística. Flores, frutas secas, toque de mel, salinidade, ondas de sabores que vão e vêm.

Em outras famílias, seria um grand cru…

Boudriottes, Caillerets e Ruchottes são três premiers crus muito bem moldados pelo domaine, mas o último é o grande destaque. Como dito anteriormente, père Ramonet tinha muito orgulho desse rótulo em especial, não apenas pela qualidade do terroir, mas por motivos emocionais. Foi a primeira parcela que ele comprou em 1938. Foi a partir dali que ele começou a galgar os passos que o levariam a um curto elogio de Clive Coates. “Ramonet está para os vinhos brancos como Jayer está para os tintos.”

Ruchottes é um vinhaço, profundo, longo, cativante, muda em goles, conquista no aroma, persevera na boca por minutos. “Parece um grand cru”, disse Noël há três anos, em viagem à Borgonha. Mas e os grands crus? Infelizmente, não tive ainda o prazer de degustá-los, mas carrego comigo, depois de ler muitas degustações às cegas, que Le Montrachet dos Ramonet rima com perfeição.

Père Ramonet dizia que, com seu Batard, poderia ser servido foie gras ou lagostins, mas o Montrachet merecia ser degustado solitariamente, de forma meditativa.

Chegar aos céus exige contemplação.

Briga de Barolos, trufas e muito mais

17 de Dezembro de 2019

Nos últimos eventos de 2019 grandes vinhos desfilaram em mesas refinadas onde as trufas brancas sempre roubam a cena. Entre champagnes, brancos, e tintos, destaque para os Barolos e bordeleses, os vinhos antigos se harmonizando com as trufas. Mais do que Barolos e Barbarescos para combinarem com elas, a idade do vinho e seus aromas terciários são a chave ideal para a combinação perfeita.

estilos diferentes e encantodores

Dois champagnes de luxo abrindo o jantar onde a composição de Chardonnay e Pinot Noir não difere muito, mas os estilos são bem diferentes. Normalmente, há uma leve predominância de Chardonnay no corte do Dom Perignon, o qual tem estilo mais leve, mais delicado, belo frescor e ótimo equilíbrio. Esses 19 anos não se mostraram na taça, tal a extrema juventude demonstrada.

Do lado do Cristal 2009, um champagne de mais corpo e estrutura com leve predominância da Pinot Noir sobre a Chardonnay. Longo em boca, começando com belo frescor e logo em seguida, uma cremosidade notável. Um champagne muito gastronômico.

tartar de salmão e vieiras

A leveza e acidez do tartar de salmão caiu muito bem com a textura e o frescor do Dom Perignon. Uma harmonização estimulante, sempre refazendo o paladar. Do lado das vieiras grelhadas, acompanhando foie gras e trufas, o champagne precisava ser mais rico e estruturado. A maciez e os aromas do Cristal foram muito bem com os sabores do prato.

Montrachet e camarões

O Montrachet Bouchard Pére & Fils em formato Imperial foi o suficiente para regar o jantar. Mesmo com seus 15 anos de idade, o vinho era de um frescor impressionante. Não está no time de cima dos grandes Montrachets, mas é muito elegante e equilibrado. Tem um estilo mais leve e agudo lembrando produtores como Leflaive e Ramonet num nível evidentemente um pouco abaixo. Com a cremosidade delicada do bobó de camarão, a harmonização ficou perfeita.

duas imperiais em momentos distintos de evolução

Os grandes formatos, no caso imperial, ficaram como o Mouton 1975 e o Margaux 95. No caso do Mouton, um vinho maduro, de corpo médio, não muito longo em boca, mas muito equilibrado e com todos os terciários de um grande Pauillac, caixa de charutos, café, e ervas finas. 

Para o Margaux 95, um vinho ainda em transição, saindo da juventude e começando a entrar na maturidade. Mais encorpado que o Mouton, maior carga tânica, embora de alta qualidade, e mais longo em boca. Os aromas florais, de sous-bois, e toques minerais, eram evidentes. Deve evoluir bem por mais vinte anos. Exemplo de um grande Margaux.

pratos de carne consistentes

Um filé mignon na mostarda com molho rôti para o Mouton 75 acompanhado de cuscuz marroquino. A mostarda tem a propriedade de equilibrar vinhos mais novos e ao mesmo tempo, levantar o sabor de vinhos mais maduros. Já para a costela cozida lentamente e defumada de sabores consistentes era exigido um vinho de maior corpo e estrutura. O Margaux 95 deu conta do recado. Sua densidade e tanicidade cairam muito bem. 

Encontro de Barolos e Barbarescos

img_7121Com 30 anos já podemos pensar em trufas

Pena que o Monfortino 88 estivesse levemente prejudicado, algo de bouchonné, embora pudéssemos notar sua grande estrutura. Um vinho de escola tradicional onde os toques terciários de trufas, alcatrão e notas terrosas, ficam bem salientados. Já o Granbussia 88 de Aldo Conterno estava surpreendentemente jovem pela idade, mas com lindos toques de evolução, sem perder a fruta. Foram muito bem com os pratos de trufas.

ravioloni e risoto zafferano

O ravioloni recheado de castanhas e porcini com queijo bel paese estava divino, sobretudo complementado pelas trufas brancas. Já o risoto zafferano é um clássico que dispensa comentários também com trufas raladas. Nem é preciso dizer que esses Barolos evoluídos harmonizaram muito bem. É bom frisar que não basta ser Barolo ou Barbaresco, o vinho precisa estar evoluído para dar liga na harmonização.

img_7127safras históricas de Monfortino

O Monfortino da esquerda não aparece na foto, mas é safra 1985 em formato Magnum. Embora já esteja no auge para ser bebido, esta garrafa está muito bem conservada, podendo evoluir por mais alguns anos. Um Barolo de raça, taninos possantes, e aromas etéreos. Tem 96 pontos. Já o Monfortino 1978 é um  Barolo histórico com 98 pontos e plenamente evoluido. Os toques terrosos, de trufas e alcatrão são didáticos. Para a maioria do pessoal, foi o vinho da degustação.

img_7126o Mestre Angelo Gaja

Aqui no mesmo ano 1989, vê-se claramente a diferença entre Barolo e Barbaresco num mesmo produtor. O Barolo é mais encorpado, mais tânico, mais viril. Agora um Barolo de Angelo Gaja tem uma classe a mais que é difícil de explicar. Uma finesse de aromas e taninos, além de um equilíbrio sensacional e fino acabamento. O Costa Russi, uma das três joias de Gaja é tão fino e delicado que nem parece italiano. Pode coloca-lo no meio de Borgonhas da apelação Pommard que passa fácil. Um tinto encantador com notas florais, de alcaçuz, cerejas escuras em licor, e muita mineralidade. Sensacional dueto!

Yquem e os queijos

Passando a régua, uma double Magnum de Yquem 1999 com vinte aninhos. Já em plena maturidade, um Yquem clássico, untuoso, cheio de botrytis, mel, damascos, caramelo e frutas exóticas. Muito equilibrio e de final longo. Para esta safra temos 13,8 graus de álcool e 128 gramas de açúcar residual por litro. Um prato de queijos de sabores intensos como Serra da Estrela, Brillat-Savarin e outros franceses, caiu como uma luva com o Yquem, fechando a refeição.

Que o Ano Novo comece tão farto quanto o crepúsculo do ano que se encerra com belos vinhos, boa mesa, e muita confraternização entre amigos. Saúde!

 

Bordeaux e sua evolução em garrafa

7 de Dezembro de 2019

Os chamados vinhos de guarda onde se incluem os Bordeaux naturalmente, passam por um processo longo de envelhecimento em garrafas na adega. É importante deixa-los descansar ao abrigo da luz e de vibrações, pois ocorre uma série de reações químicas dentro da garrafa. Em linhas gerais, os ácidos do vinho combinados com o álcool dissolvido na bebida, foram os chamados ésteres, substâncias muito aromáticas responsáveis  pelo chamado bouquet. Esse processo é longo e cíclico, onde novamente os ésteres se decompõem em água, componente presente em grande quantidade no vinho, para formar novamente ácidos e álcool que irão reagir novamente. É por isso que os chamados vinhos ex-chateau são tão valorizados, pois esta tranquilidade na adega, sem nenhuma interferência externa, garante a fidelidade do processo, sem interrupções. Portanto, eles evoluem mais lentamente mas principalmente, de maneira adequada.

Num ótimo jantar no restaurante Fasano, tivemos a oportunidade de testar vários Bordeaux em diferentes estágios de evolução. Experiência única e muito prazerosa. Antes porém, uma pausa para um champagne e um Montrachet divinos que iniciaram a festa dos bordaleses.

dégorgement em 2008

O brinde inicial já em alto nível, começou com um Dom Perignon Oenotheque 1996. Revisitado várias vezes, um champagne e safra excepcionais. Até 2008, as leveduras preservaram o vinho da oxidação. Daí em diante, uma lenta evolução em garrafa nas condições de uma boa adega. Um champagne de frescor incrível, dando um balanço preciso entre acidez e cremosidade. Seus aromas cítricos entremeados de mel e brioche são encantadores, mostrando bem a evolução dos grandes champagnes. Aliás, todas as cuvées de luxo são aptas a longo envelhecimento. Vale a pena!

mestre Beato em ação

Em seguida, uma double Magnum de Montrachet Marquis de Laguiche 2009. Joseph Drouhin é o maior proprietário de Montrachet com praticamente dois hectares das vinhas. Um Montrachet delicioso na bela safra 2009. Macio, amanteigado, toques de frutas secas e algo de compota de pêssegos. Muito envolvente em boca. Os Montrachets são fermentados em barricas e sofrem o processo de bâtonnage, no qual as borras são revolvidas constantemente no vinho, incorporando complexidade aromática e maciez. Um primor de vinho num ótimo momento para ser apreciado.

iguarias do Chef Luca Gozzani

Os pratos acima pedem brancos de grande estrutura como os Montrachets. São pratos intensos, de rica textura e finesse de sabores. À esquerda, um Wagyu crudo com lardo e um molho cremoso de queijo. Em seguida, um gnocchi gigante recheado com rabada e molho carbonara. Sobretudo a textura cremosa e rica de ambos os pratos se amalgamaram com a maciez e sabores do vinho. Espetacular!

img_7063poesia liquida

Dentre os grandes 61 bordaleses, certamemte Ducru-Beaucaillou está num seleto grupo de vinhos espetaculares. Após quase 60 anos de existência, o vinho atingiu um sublime grau de maturidade. Os aromas são de livro e espetaculares com todos os terciários dignos de um grande bordalês de margem esquerda. São notas sutis de cedro, adega úmida, cogumelos, nuances terrosas, café, o chamado cedar box, caixa de charutos, enfim, um profusão de aromas quase etéreos. Em boca, um equilíbrio perfeito com total polimerização dos taninos. Final de boca amplo e expansivo. Todos os protocolos de envelhecimento cumpridos. Um primor!

caminhos diferentes de evolução

Se existem dois vinhos de lenta evolução e excelente longevidade, ei-los acima representando as duas margens bordalesas. O Petrus 1970 é um dos mais perfeitos de toda a história com 99 pontos Parker. É um Petrus maduro e plenamente desenvolvido de aromas. Contudo, esta garrafa degustada estava abaixo das expectativas. Para começar, seu nível um pouco abaixo do normal, chegando quase ao ombro da garrafa. Seus aromas estavam até interessantes com muito terciário desenvolvido. Entretanto, a boca estava magra, meio sem vida, já com muita secura no final de boca, indício em que a fruta e vida do vinho estão se esvanecendo. Por isso que afirmamos: cada garrafa antiga é uma história!

Por outro lado, o Latour 66 estava íntegro, com bela evolução, um dos melhores deste ano que foi um dos destaques da década. Os aromas são encantadores denotando couro, toques animais, e notas de torrefação. Em boca seus taninos são polidos e ainda presentes. Muito equilibrado com final bem acabado. Um belo vinho mostrando toda a longevidade e consistência dos grandes Latour.

img_7071estrelas da safra 82

Dois ícones da histórica safra de 82. Mouton 82 sempre deslumbrante com aromas sedutores, boca macia e expansiva. Hoje, ainda mais prazeroso que o Latour 82, ainda em franco desenvolvimento.Esta garrafa em particular estava perfeita. No lado de Haut Brion, um vinho mais delicado, mas igualmente exuberante em aromas. Percebe-se claramente em boca, que é um vinho mais delgado e menos rico que os grandes de Pauillac. Uma questão de terroir. Novamente, uma garrafa perfeita e extremamente prazerosa. Um embate de gigantes!

Latour 82 em formato Imperial (6 litros)

Durante o desfile dos bordaleses foi aberta um Imperial de Latour, regando as taças dos convivas periodicamente. Além da evolução do vinho em garrafa, um outro componente importante é o formato da mesma. Nos grandes formatos onde evidentemente a massa líquida é maior, o vinho se desenvolve mais lentamente. Foi o que aconteceu com esta Imperial perfeita, não só a garrafa, mas a safra também. Um Latour lendário que vai marcar história por muitas décadas como um dos mais perfeitos Latour. Aromas elegantes que denotam entre outras coisas um traço de couro, de pelica, inconfundível. A boca é ampla, generosa, com taninos ultrafinos e em profusão. É muito prazeroso para ser tomado agora, mas vai evoluir por décadas certamente.

Como prato de resistência, tivemos uma costela de Wagyu divinamente assada, soltando-se do osso com extrema maciez. Sua força, sua riqueza de sabores, combinaram muito bem com estes dois Pauillac, tanto Latour como Mouton, mas com o Mouton parece que o casamente foi perfeito num belo fecho de refeição.

a importância das taças

As taças acima são do  produtor austríaco Schott Zwiesel com design perfeito. A bordaldesa maior é a linha mais refinada, semelhante à linha top da Riedel Sommelier. No entanto, para Bordeaux maduros com alto grau de evolução, a taça menor ao lado faz mais sentido, pois os aromas e nuances são muito etéreos, podendo se perder numa taça maior. Tudo isso nos olhos atentos do mestre Beato.

Da mesma forma, Beato aliou de forma admirável uma mesma taça para Sauternes e champagnes. O formato tulipa à direita é perfeito para os aromas dos principais champagnes, sobretudo numa fase mais jovem e com mais frescor. Do lado dos Sauternes, este formato tulipa é muito próximo da taça sommelier da Riedel para este tipo de vinho. Uma escolha muito bem pensada.

img_7079Petrus em Magnum e formato standard (750 ml)

Novamente os Petrus, agora uma Magnum safra 1995. Embora já com seus mais de 20 anos, este é um Petrus clássico que demanda tempo para sua perfeita evolução. Ainda com muita fruta, poucos aromas terciários, e taninos muito finos e bem firmes. Tudo indica que seu apogeu será alcançado em 2050. Os grandes Petrus se enquadram perfeitamente naquele quadro de lenta evolução. Uma grande promessa com 96 pontos Parker.

queijos artesanais e Yquem

Fechando a noite, a  rica doçura de um belo Yquem. Essa safra 2003 é bastante generosa em aromas e textura em boca. Embora possa ser guardado sem maiores problemas, é um Yquem já de boa evolução com aqueles toques de caramelo escuro. Rico em Botrytis, mel e frutas mais exóticas, foi um deleite com uma seleção de queijos brasileiros artesanais. A cremosidade e intensidade de sabores dos vários tipos degustados casou perfeitamente com a riqueza do vinho. O casamente de textura entre a maciez dos queijos e a untuosidade deste Yquem foi um dos pontos alto na harmonização. Agora é dormir com os anjos!

Agradecimentos a todos os confrades pela companhia, generosidade, e o alto astral de sempre. Que 2020 seja repleto de sucesso e ótimos encontros com este. Que Bacco nos ilumine neste ano vindouro. Abraço a todos!