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REcomeçar com Pablo Morandé

11 de Outubro de 2016

Um enólogo do nível de Pablo Morandé, chileno que desbravou o vale frio de Casablanca, tem todo o direito de ousar, fazer coisas novas, desafiadoras. Enfim, recomeçar, reinventar. Foi com esse propósito que a importadora Grand Cru promoveu mais um evento enogastronômico, mostrando vinhos da Bodegas RE, de produção bastante artesanal.

Com larga experiência enológica, Pablo discorreu sobre o tema e seus vinhos com a naturalidade que só anos de janela podem proporcionar. O ponto central é expressar de maneira criativa um par de uvas que normalmente apresentam-se como varietais no mercado, visto que são uvas ditas internacionais.

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indicação no rótulo de terroir frio: Coastal Wine

Mescla aproximadamente mezzo a mezzo entre Chardonnay e Pinot Noir, ambos de Casablanca, zona chilena fria e costeira. A cor é muito particular indo para um tom perolado, quase um vin gris ou aqueles rosés provençais bem clarinhos. Isso deve-se ao fato de uma curtíssima maceração das cascas da tinta Pinot Noir.

O vinho mostra aromas limpos e elegantes de frutas brancas delicadas como pêssego, toques florais e algo de pâtisserie, dado pelo contato prolongado com as leveduras, quase dois anos. Em boca é muito equilibrado com um belo frescor de entrada. Logo em seguida, vem a maciez dando harmonia ao conjunto. Boa persistência com final agradável e estimulante.

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corte ousado: Pinot Noir e Moscatel

Esse é uma brincadeira de Pablo dando uma pitada aromática de Moscatel Rosado (5%) à séria Pinot Noir (95%). O resultado é um rosé de coloração delicada, uma espécie de salmão com toques rosados. Tanto aromática, como gustativamente, as sensações lembram a Pinot Noir. Contudo, a comumente invasiva Moscatel dá um delicado toque cítrico de limão siciliano bem interessante. É mais macio e encorpado que o primeiro vinho, mas ainda assim com bom frescor.

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entradas do almoço

Como exercício de enogastronomia, as entradas acima foram acompanhadas pelos vinhos até então descritos. O camarão empanado pela crocância, fritura e textura mais delicada, combinou melhor com o RE Chardonnoir, proporcionando um belo frescor final, limpando o paladar. Já o crostini de salmão defumado e cream cheese caiu melhor com o RE Pinotel, vinho de mais textura e poder aromático. Mesmo assim, ambos os vinhos enfrentaram bem as entradas, mostrando versatilidade na harmonização.

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elegância ousada

Misturar Pinot Noir (40%) com Syrah (60%) não é para qualquer um. Este é um exemplo da vinificação em cofermentação, ou seja, as uvas são fermentadas juntas, ao mesmo tempo. É um conceito de blend diferente onde os aromas e sabores se fundem, proporcionando uma maior integração entre as uvas. De fato, parece uma uva nova onde os toques defumados e apimentados da Syrah fundem-se aos aromas florais e de sous-bois da Pinot Noir. O mosto é fermentado em ânforas que segundo Pablo, geram vinhos naturalmente bem extraídos e macerados com uma manipulação mínima.

De fato, trata-se de um vinho elegante, taninos bem moldados, e muito gastronômico. Acompanhou bem um agnolotti de foie gras e um stinco de cordeiro com polenta trufada. Com a massa, o corpo e textura de ambos (vinho e prato) estavam perfeito, além de um delicado toque animal do vinho complementar bem os sabores do foie gras. Já o stinco só não foi perfeito porque a estrutura do prato estava um pouco acima do vinho. No entanto, os toques terciários do vinho escoltaram bem os aromas trufados.

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concentração e personalidade

Aqui Pablo aproveita as vinhas antigas do vale do Maule, mesclando Syrah (90%) e uma pequena porcentagem de Carignan (10%). Num terroir mais continental, percebe-se a musculatura do vinho. Sua cor é mais intensa e concentrada. Os aromas de frutas escuras, toques defumados e de ervas, são bem harmoniosos, também resultados da cofermentação. Fica bem claro a personalidade da Syrah de clima mais quente com um toque rustico da Carignan. Final bem equilibrado e persistente.

Em resumo, valeu a experiência de provar vinhos originais, desfrutando da competência e reputação de um dos grandes enólogos chilenos que marcou definitivamente sua história no país, Pablo Morandé. Além de belos vinhos em si, mostraram-se bastante versáteis à mesa, razão maior de sua função social. Todos os vinhos da Bodegas RE são importados com exclusividade pela Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Terrunyo: Terroir, Identidade, Tipicidade

31 de Julho de 2016

Do ponto de vista técnico aliado a um preço justo, a linha Terrunyo do grupo chileno Concha Y Toro é um dos projetos mais interessantes para quem busca vinhos com alma e identidade. No vasto portfólio da vinícola, esta linha tem a designação ultra premium ou Fine Wine Collection, ficando abaixo somente de ícones como Don Melchor, Carmin de Peumo e Gravas del Maipo.

Como o próprio nome diz, Terrunyo busca a essência de um vinho visando conjugar de maneira harmônica: solo, clima, cepa e homem. Embora a linha conte com cinco vinhos varietais, os mais conhecidos são: Sauvignon Blanc, Carmenère, e Cabernet Sauvignon. Em cada um deles, um terroir específico, baseado no novo conceito chileno, conforme esquema abaixo:

terroir chileno

terroir: três zonas distintas

No mapa acima, percebemos zonas distintas, conforme a influência do oceano pacífico e das cordilheiras da costa e dos andes. As zonas mais frias em azul, mostra os vinhedos sob influência direta do pacífico com ventos e águas muito geladas. As zonas em verde, são chamada entre cordilheiras, onde a cordilheira da costa, mais baixa, impede a influência direta do pacífico nos vinhedos, criando uma zona mais temperada. Por fim, as zonas dos andes em laranja, com influência direta da cordilheira homônima, onde a amplitude térmica (diferença de temperaturas entre dia e noite) é muito destacada. O esquema abaixo, ajuda a entendermos melhor estas situações.

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esquema dinâmico com as latitudes

O quadro acima é dinâmico conforme nos deslocamos de norte a sul no terroir chileno. Em determinadas latitudes, a influência da cordilheira da costa é mais presente, rechaçando o ar frio vindo de oeste do pacífico. Em outras latitudes, esta proteção da cordilheira da costa é menos eficiente e portanto, o ar do pacifico encontra mais penetração continental. Já os vinhedos nas encostas da cordilheira dos andes, um paredão de quatro mil metros, absorve o ar frio à noite que desce pelas montanhas, contrastando com os dias ensolarados durante o período de maturação da uvas. É a chamada amplitude térmica.

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Terrunyo Sauvignon Blanc

Já no rótulo, percebemos as especificações do produto. A menção Costa indica um sub-região de vale frio, no caso, Casablanca. Em seguida, a localização do vinhedo, Cuartel 5 – Los Boldos. O solo é composto de argila escura e logo abaixo rocha decomposta em granito. A influência climática do pacífico é decisiva para o amadurecimento lento das uvas. A colheita é toda setorizada sendo feita em três etapas distintas.

A vinificação procura além da tipicidade, todo o frescor das uvas, sem qualquer interferência da madeira. Elaborado em aço inox com posterior contato sur lies (sobre as leveduras). O vinho mostra-se elegante e de muita personalidade com notas cítricas, herbáceas e minerais. Em boca, apresenta bom volume de incrível frescor. A maciez complementa o conjunto, onde novamente nas sensações finais o frescor aparece num final limpo e estimulante. Destaca-se também a mineralidade com um sutil toque de salinidade. O equilíbrio entre álcool e acidez é notável.

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Terrunyo Cabernet Sauvignon

Menção no rótulo: Andes. Vinhedo: Pirque (Cuartel Las Terrazas) e uma pequena parcela em Puente Alto, ambos no alto vale do Maipo. Solo aluvial rochoso de excelente drenagem. Clima influenciado pela cordilheira dos andes com grande amplitude térmica. Zona excelente para Cabernet Sauvignon. Colheita entre final de abril e começo de maio para perfeita maturação das uvas.

Vinificação com longa maceração e amadurecimento por catorze meses em barricas francesas. Tinto de cor intensa, aromas de frutas negras, notas minerais, de ervas, e toques tostados. Encorpado, taninos firmes, equilibrando bem o álcool. Bom potencial de guarda.

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Terrunyo Carmenère

Menção no rótulo: Entre Cordilleras. Vinhedo Peumo, cuartel 27, localizado no vale Cachapoal. Aqui o solo é argilo-limoso, retendo uma certa umidade. O clima ameno prolonga ao máximo a maturação tardia da Carmenère, sendo as uvas colhidas no mês de maio. Há uma pequena porcentagem de Cabernet Sauvignon no corte, fornecendo mais estrutura ao conjunto. A vinificação cuidadosa é complementada por um amadurecimento de doze meses em barricas francesas.

Tinto de cor profunda com reflexos violáceos. Os aromas transmitem grande frescor lembrando cerejas negras, toques florais, chocolate escuro, e sobretudo de especiarias como a pimenta negra. Em boca, mostra-se encorpado, equilibrado e com grande frescor. Persistente, taninos presentes e notas minerais.

Trata-se de um dos grandes Carmenères do Chile, principalmente por dois fatores. Primeiramente, pela vinhas serem plantadas em terroir adequado para um perfeito amadurecimento dos frutos. Em segundo lugar, a atenção em colher as uvas no momento certo, conferindo taninos de grande qualidade.

Os vinhos são distribuídos no Brasil pela própria Concha Y Toro com especial canal de vendas nas lojas Ville du Vin, tanto em Alphaville, como na loja do Itaim, São Paulo. Para maiores informações: http://www.villeduvin.com.br

Salada de Trilha com Laranja: Que Marravilha!

6 de Janeiro de 2014

Vamos começar o verão com muito sol, muita praia, e pratos leves e refrescantes. Para isso, nossa receita de peixe com Claude Troisgros em seu programa Que Marravilha!. O prato de hoje é Salada de Trilha com Molho de Laranja, conforme vídeo abaixo:

Receita

http://gnt.globo.com/receitas/Salada-de-trilha-com-laranja–veja-receita-de-Claude-Troisgros.shtml

Clique acima: receita e vídeo

Em termos de harmonização, vamos analisar os ingredientes e o modo de preparo. Esta profusão de ervas, alho, pimenta, e o molho de laranja, vão de encontro com os rosés da Provence, delicados aromáticos e muito frescos. O modo de preparo mescla o cozimento pelo molho quente de laranja sobre o peixe, mais a marinada por longas horas fazendo o efeito de um ceviche. Portanto, é um prato típico do verão, pedindo vinhos relativamente leves, bastante frescos e jovens. Quanto a outros rosés, sobretudo os do Novo Mundo, parecem-me um tanto pesados e dominadores, faltando um pouco de frescor. Como alternativa, temos alguns rosés da Itália (norte da Toscana, Veneto, Friuli e Alto Ádige) e do norte da Espanha (Navarra).

Domaines Ott: Excelência em rosés

Se a pedida for por espumantes, continuamos na linha de juventude e frescor. Podemos pensar em espumantes elaborados pelo método tradicional (espumatização na garrafa), mas sem um contato sur lies (sobre as leveduras) prolongado. Um leve toque de levedura, panificação, casa bem com os sabores dos cogumelos.

Para quem não abre mão dos tintos, procurar pelos mais leves, frescos e principalmente, com baixíssima carga tânica. Os Nouveaux de um modo geral podem surpreender. Denominações como Bardolino (norte da Itália, Veneto), Chianti Colline Pisane (estilo leve, mais próximo do litoral toscano), Beaujolais (Nouveau ou no máximo Villages), Sancerre tinto (elaborado com Pinot Noir), são alguns exemplos aceitáveis.

É evidente que brancos frescos e de boa acidez também vão muito bem. Por exemplo, um Sauvignon Blanc dos vales frios do Chile, Casablanca ou Leyda.

De resto, é curtir o verão que está só começando. Até a próxima!

Chile: Novas Zonas Vitiviniculturais

9 de Maio de 2013

Já falamos em artigos passados sobre particularidades do terroir chileno (vide artigo intitulado: Terroir Chileno). Recentemente, na metade de 2011, houve uma reformulação da nomenclatura dos atuais vales chilenos baseada no conceito de terroir. Pouco a pouco, o Novo Mundo vai detalhando seus territórios vitícolas e colocando os devidos pingos nos is. É um processo lento, natural e inexorável.

Logos das novas zonas nos rótulos das garrafas

Com a descoberta do vale de Casablanca por Pablo Morandé no início dos anos 80, novos vales surgiram ao longo do tempo, ampliando muito os horizontes, além do clássico vale Central.

No mapa acima, as áreas em azul representam os vales frios do Chile, onde as brisas geladas do Pacífico beneficiam uvas de maturação precoce como a Chardonnay, Sauvignon Blanc e Pinot Noir. Casablanca e San Antonio são exemplos clássicos.

As áreas em verde representam basicamente as planícies entre cordilheiras (da Costa e dos Andes), vide esquema abaixo. Essas áreas normalmente têm proteção parcial da influência marítima, com temperaturas médias um pouco mais altas. Mais de sessenta porcento da produção chilena vem destas demarcações. É bom ressaltar que estas áreas podem ser um tanto heterogêneas, pois a proteção da cordilheira da Costa é bastante variável em termos de topografia e altitude, além de composição de solos diversos. A emblemática uva chilena Carmenère encontrou em Cachapoal, um dos vales nestas áreas, seu terroir ideal, mais especificamente em Peumo. A sintonia entre a influência climática parcial da costa e solos com umidade adequada são fatores primordiais para seu pleno e difícil amadurecimento.

 Esquema do terroir chileno

Já as áreas em laranja representam os vinhedos em encostas nos sopés dos Andes. Aqui basicamente temos a produção dos grandes tintos chilenos baseados em Cabernet Sauvignon de classe internacional. Para a perfeita maturação desta casta tardia, além do solo pedregoso de origem aluvial, os dias são ensolarados e as noites frias, proporcionando grande amplitude térmica. De fato, ao anoitecer, correntes geladas descem das montanhas (Andes), inundando os vinhedos. Basicamente, este terroir concentra-se no chamado vale Central, tendo o Alto Maipo como destaque.

Portanto, em safras chilenas mais recentes poderemos encontrar essas informações adicionais das novas zonas, inclusive com seus respectivos logos, conforme a primeira ilustração acima. Quanto a novos vales que eventualmente poderão surgir, os mesmos serão devidamente enquadrados nas novas denominações.