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Latour: O Senhor do Médoc

4 de Agosto de 2019

Se você pudesse perguntar a um grão de Cabernet Sauvignon o que ele queria ser quando crescer, a resposta só poderia ser esta: um Chateau Latour. Não há local no mundo onde a Cabernet Sauvignon se sinta mais à vontade do que os vinhedos de Latour. Especialmente sua maior parcela denominada L´Enclos com 47 hectares de vinhas, grande parte antigas, tem uma pedregosidade e uma capacidade de drenagem singulares. Estudos de solos no Médoc ligados à viticultura apontam esta parcela como a melhor da região, onde o desenvolvimento da Cabernet Sauvignon é pleno, gerando vinhos de grande estrutura e longevidade. Um Latour de boa safra é capaz de vencer décadas na adega, numa evolução lenta e espetacular. 

Outro fator de destaque neste Chateau é sua incrível regularidade safra após safra. Mesmo naquelas consideradas mais problemáticas como 2002, por exemplo, Latour se mantem sóbrio, bem equilibrado, justificando seu posto de um verdadeiro Premier Grand Cru Classé. 

Outro fator que corrobora para esta consistência é seu segundo vinho denominado Les Forts de Latour, criado em 1966, o mais valorizado e respeitado dentre todos os segundos vinhos do Médoc, podendo envelhecer magnificamente. Para se ter uma ideia do fato, a safra 2010 ainda em evolução tem 97 pontos Parker. 

 

Chardonnay em duas versões

Para iniciar os trabalhos, um par de brancos Chardonnay de estilos e propostas completamente diferentes. O americano Peter Michael Belle Côte 2012 com 99 pontos é intenso em aromas e persistente em boca. Feito a la Bourgonge, fermenta e estagia em barricas francesas com periódicos bâtonnage (revolvimento das borras). O vinho estava um pouco evoluído para sua idade, mas sem sinais de oxidação. O pessoal não gostou muito do vinho e com razão. Ele é muito invasivo, quase doce, faltando finesse. Muitas vezes, a intensidade, potência, extração excessiva, atrapalham a harmonia do conjunto. Muito longe da elegância dos grandes brancos da Borgonha.

Por outro lado, o Chablis básico do Drouhin também não encantou. Embora muito equilibrado e fresco em boca, não tinha aquela tensão e mineralidade dos grandes Chablis. Questão de um terroir mais privilegiado e rendimentos mais baixos no vinhedo. Muito longe dos mestres Dauvissat e Raveneau.

img_6447notem o álcool destes vinhos (12,5%)

Neste embate acima, duas grandes safras de Latour dos anos 90. Os dois vinhos tem corpo e estrutura dos grandes Bordeaux sem álcool excessivo. Notem a graduação de 12,5% de álcool, fator raro nos tintos da atualidade, provando que outros componentes como extrato e taninos, têm sua devida importância.

O Latour 96 tem a fruta exuberante e a graciosidade desta safra. Embora em tenra idade, é bastante agradável de beber, mesmo para padrões normalmente austeros de Latour. O vinho tem um belo equilíbrio, aromas ainda primários, e muito longo em boca. Safra que vai evoluir bem em adega. Já o Latour 90, mais evoluído, com seus toques terciários de couro fino e caixa de charuto. Não é tão longo  e estruturado como o 96, mas é muito prazeroso, embora possa ser adegado com tranquilidade. Essas duas safras convém decanta-las com pelo menos duas horas antes de servir. 

 

pratos consistentes e ricos em sabor

Para acompanhar essa maravilhas, um ossobuco com risoto zafferano, ficando muito bem com o Latour 90, mais macio. Já o contrafilé Angus, uma carne mais consistente e suculenta, aderiu melhor à trama tânica mais evidente do Latour 96. O almoço deu-se no restaurante Nino Cucina, sempre lotado, com atenção especial do experiente sommelier Ivan, patrimônio da Casa.

img_6448como é bom um Latour 82 !

A grande estrela do Chateau, Latour 82 nota 100, ficou para brilhar sozinha, sem comparações. Um dos melhores Latour de toda história, já muito prazeroso de ser tomado. Contudo, ainda está em evolução e terá certamente um platô amplo de estabilização por décadas. A fruta é deliciosa e muito presente com seus quase 40 anos de idade. Os taninos são abundantes e muito finos. O álcool e a acidez são perfeitamente balanceados ao conjunto, num final longo e muito bem acabado. Sempre um grande prazer em revê-lo!

 

Porto e Tiramisú, bela dupla!

Nada melhor para encerrar uma refeição com Latour que um Porto Vintage de uma grande Casa e uma grande safra. Eis que surge um Graham´s Vintage Port 1963. Ele está cotado entre os três melhores Portos desta safra, junto com o Noval Nacional e o Fonseca. E olha que não é pouco, pois 63 é uma safra mítica. É seguramente um dos cinco melhores Vintages do século XX.

Tomar um Vintage antigo é sempre uma experiência única. Este com seus quase 60 anos, já tem seus taninos todos polimerizados, o álcool perfeitamente integrando ao conjunto, e os aromas lindamente desenvolvidos. Um licor de frutas escuras intenso, marcante. Os aromas de ervas, especiarias, além de notas empireumáticas de café e chocolate, permeavam a taça. Um final longo e expansivo nos convidava para mais uma taça. Ficou divino com o Tiramisú da Casa, um dos melhores da cidade, sobretudo pela harmonia de texturas e sabores. Um belo final de tarde!

Agradecimentos intensos aos confrades pela companhia e generosidade, sobretudo ao nosso Presidente com garrafas sempre impecáveis. Nota de destaque ao Doutor Ricardo pelo Porto histórico, clamando por participações mais frequentes no grupo. Que Bacco sempre nos proteja!

La Tâche: a Tarefa Divina

27 de Junho de 2019

Degustar um La Tache é sempre momento de reverência. Um vinho cheio de energia, opulência, mais óbvio que seu arquirrival Romanée-Conti, mas sempre grandioso. Da família DRC, é o mais superlativo, entregando generosidade, profundidade, além da elegância e mistério dos vinhos de Vosne. Foi o que aconteceu num belo jantar entre amigos numa vertical do mito contemplando anos de várias décadas. La Tache tem um rica história que começa com seu vinhedo original de 1,43 ha, acrescidos posteriormente com os vinhedos Les Gaudichots de 4.63 ha. Ver artigo la tache .

4f8bbd62-141c-4d5e-bd3d-b2785ea5b246um arsenal de taças

Para iniciar os trabalhos, nada como champagne da Belle Époque, Perrier Jouet Rosé 2005 em Magnum. Um champagne mantendo a elegância da Maison com partes equivalentes de Chardonnay e Pinot Noir. Passa pelo menos cinco anos sur lies, antes do dégorgement. Perfeito para aguçar as papilas.

img_6223uma noite mágica!

Enquanto isso, time em campo já perfilado. Parece que o camisa 10 vai ser o 76, mas haverá belas surpresas. Afinal, treino é treino, e jogo é jogo. Flights às cegas.

9e2984f5-32e8-4b72-8954-4e52bb5bd42aa imponência de uma bela adega

A degustação seguiu em quatro flights com três safras cada um. Como tivemos dois 88 e dois 00, eles foram separados entre os flights provando que em safras antigas, vale a garrafa e não exatamente a safra. Um dos 88 estava claramente cansado, enquanto o outro permitia uma análise mais apurada. Já os dois safra 2000 brilharam, mostrando o lado feminino deste Monopole DRC.

img_6229dada a largada …

De cara, a grande surpresa da noite, La Tache 1981, safras dos amigos Pedro e Ivan. Um tinto que envelheceu maravilhosamente numa garrafa muito bem conservada. Os aromas de adega úmida, toques terrosos, de especiarias,  e notas de chá, permeavam a taça. Tudo que se espera dos grandes vinhos de Vosne. Não é uma safra potente, mas de uma elegância ímpar. Levou o flight com folga. Já o 94, um vinho mais duro, viril, de acordo com os taninos da safra. É resistente ao tempo e precisa de pratos suculentos para equilibra-lo. Por fim, o 88 prejudicado. Claramente cansado, não permitiu uma  abordagem mais precisa.

img_6230mais uma bela surpresa neste 2000

Neste flight, o segundo 88 estava mais inteiro. É uma safra dura, difícil, mas já está devidamente evoluído. Mostra um lado mais masculino do La Tache. Já o 89, um vinho adorável, de taninos docéis. Não é um vinho de tanta potência, mas muito prazeroso. Por úlitmo, o belo La Tache 2000. Um vinho extremamente delicado com toques florais, lembrando um Saint Vivant. Um vinho de muita energia e frescor, mostrando que delicadeza também pode ser marcante. Vinho de grande profundidade, equilíbrio, e longevidade. Vai fácil em mais dez anos de adega.

Expressões opostas de uma mesma uva

Uma pausa para brancos, e que brancos! Num clima frio e austero, Raveneau faz um Chablis de exceção, verdadeira referência para esta nobre apelação que traz mineralidade e tensão a um branco cheio de energia. Já o DRC no sagrado santuário de Montrachet, mostra opulência, maciez, com plenos sabores e longa persistência. Aqui a diferença entre os terroirs não precisa ser explicada. As taças falam por si.

Isa e suas criações …

Para acompanhar essas maravilhas, a anfitriã Isa nos brindou com um caldo de morilles para os flights iniciais do La Tache, enaltecendo os toques terciários dos vinhos. Já para a dupla de brancos, vieiras magistralmente ao ponto, estavam à altura dos grandes brancos da Borgonha.

img_6232flight equilibrado

Voltando à cena, este foi o flight mais equilibrado, embora o 2000 tenha dado mais um show. A safra 97 assim como 89, gerou vinhos de grande prazer, sem arestas, e muito agradáveis. No caso do 97, parece ter um pouco mais de extrato e estrutura. Ainda deve evoluir bem. Terminando com o 2001, este chega muito perto do 97. Um vinho ainda em evolução, mas com futuro promissor. No momento, ainda um pouco misterioso. Afinal, estamos falando de La Tache, um vinho que evolui por décadas. 

img_6234grandes promessas

Neste último flight, mais promessas que plenos prazeres, tendo claramente um infanticídio, La Tache 98. Uma safra de evolução lenta, um pouco duro no momento, e aromas ainda difíceis de se abrirem. No entanto, tem um bela estrutura para longa guarda.  Entre os 93 e 96, percebemos claramente a diferença de uma grande safra e outra de taninos mais duros como 93. Um vinho de grande extrato, mas que deve ser lapidado pelo tempo, amansando um pouco esses taninos um tanto nervosos. Já o 96 tem taninos e energia de sobra para galgar altos voos, mas a qualidade destes taninos é a diferença entre o couro rustico e a pelica. Uma textura prazerosa em boca neste 96 que merecidamente tem notas entre 94 e 97 pontos. O grande La Tache da noite em termos potenciais. 

a apoteose

Deixamos para o final, o La Tache 1976, um senhor de 43 anos e uma bela história de vida. Não teve como não lembrar do 81, o primeiro vinho do primeiro flight. Sem tecer comparações, pois obras de arte não se comparam, este senhor tem os traços da idade revelados em aromas terciários incríveis, pacientemente moldado pelo tempo. A boca é harmoniosa sem ser potente, mas com final tocante  e bem acabado. O silêncio depois de toma-lo diz tudo.

Para arrematar os últimos flights e este belo jantar, foi servida uma leitoa assada em seu próprio molho com couve e purê de banana da terra. A Isa realmente se superou!

combinação divina

final à francesa: prato de queijos

Fazendo um parêntese, entremeando o jantar foi servido uma porção de foie gras in natura com calda de caramelo e flor de sal. Nem precisa falar que acompanhou divinamente um belo Sauternes em garrafa double Magnum da histórica safra 2001. Nada mais, nada menos, que Chateau Climens, rei de Barsac. Embora de sub-regiões contiguas, os vinhos de Barsac costumam ser mais delicados que os untuosos Sauternes. Este em especial é 100% Semillon e um estágio em barricas por cerca de 20 meses. A delicadeza e profundidade deste vinho são marcantes com notas de mel, pâtisserie, e toques florais. Além do foie gras,  o vinho arrematou bem a sobremesa, p prato de queijos, e o final de prosa à mesa.

Agradecimentos a todos os confrades, especialmente aos anfitriões da casa que tão bem nos receberam. Degustação que deixará saudades, motivando os confrades a manter o alto nível dos temas que se segundo rumores, será Le Pin. Que Bacco nos ilumine!

Verão na Borgonha

12 de Janeiro de 2019

Começando os trabalhos no Ano Novo, a confraria se reuniu em temperaturas altas no restaurante Bela Sintra, Jardins. Clamando por vinhos mais refrescantes, é dada a largada com três Chablis de estilos diferentes, mostrando uma faceta única da Chardonnay no extremo norte da Borgonha.

tudo que se espera de um Chablis

Chablis não é fácil porque não é óbvio. É como a Gisele Bündchen. Sua beleza não está em traços perfeitos, mas sim num conjunto de olhar e personalidade marcantes. É isso, Chablis é cortante, mineral, agudo, sem rodeios, e um grande parceiro de ostras e frutos do mar in natura. Raveneau e Dauvissat são ortodoxos, personificam este estilo sem concessões. Este Grand Cru da foto acima da estupenda safra 2002 tem 98 pontos com louvor e pelo menos mais dez anos em adega. Uma aula de Chablis.

outros estilos

Continuando na rota dos Grands Crus, mais dois Chablis de estilos diferentes. Billaud-Simon à esquerda, excelente produtor, faz um Chablis puro, floral, com mineralidade, mas sem o impacto de Raveneau. Ele é mais macio, mais condescendente, mais fácil de gostar. Muito equilibrado, tem um público cativo. Já Drouhin à direita, um Chablis bem mais redondo, um toque de barrica, mais aromático, acidez mais atenuada, lembrando um pouco, um branco de Beaune. Tem seus adeptos, mas foge de sua essência.

IMG_5529terroirs distintos, mas fascinantes

Deixando Chablis, vamos ao sul da Côte d´Or, em busca dos brancos de Beaune. Um embate extremamente didático de um grande produtor numa bela safra como 2010. Comtes Lafon faz Meursault à perfeição com um didatismo de livro. Na comparação, já a cor é mais rica que o Montrachet. Seus aromas são mais óbvios e intensos. Em boca, a opulência da comuna, a maciez, os toques amendoados e amanteigados, quase gorduroso. Já o grande Montrachet, muito mais tenso, mais reservado, dono de uma acidez altiva e um equilíbrio dos grandes vinhos. Ainda em evolução, será certamente um dos grandes Montrachets desta safra. Por hora, Meursault-Charmes é realmente um charme e sedução. Não há vencedores.

pratos entre vinhos

Entre uma conversa e outra, alguns pratos do almoço escoltando os vinhos. A salada de bacalhau com grão-de-bico ficou bem apropriada para a dupla de brancos de Comtes Lafon (Montrachet e Meursault), enquanto o ensopado de cordeiro com arroz do próprio molho acompanharam bem os bordadeses (Margaux e Pauillac). Vinhos comentados abaixo.

IMG_5530não é fácil peitar Rousseau!

Sem dúvida, a disputa mais surpreendente do almoço, já entrando nos tintos da Borgonha. A safra 2015 dispensa comentários com praticamente 200 pontos na mesa. O Chambertin estava mais jovem na cor com lindos reflexos violáceos. Um nariz delicado, floral, confirmando na boca taninos sedosos e uma estrutura delicada. Tudo indicava ser um Vosne-Romanée. Enquanto isso, La Romanée à direita, mais evoluído em cor e nariz, já com alguns aromas complexos, algo terroso mais marcante. Boca mais potente que seu oponente com taninos presentes, embora muito finos. Longa persistência e com muito a evoluir, mostrou de fato porque é um nota 100. Desbancou Rousseau quase que por nocaute.

A propósito, La Romanée tem alcançado notas altíssimas nas últimas safras, tentando desbancar o mito Romanée-Conti, literalmente seu vizinho. Sua área de vinhas de menos de um hectare, um verdadeiro jardim, é praticamente a metade de seu oponente. Uma briga de titãs!

IMG_5533hierarquia e safra são importantes!

O fecho do almoço tinha que ser bordalês em outra disputa extremamente didática. Do lado de Pauillac, Duhart-Milon 2001, um Grand Cru Classé fora do primeiro escalão. Tendo em conta uma safra mais precoce, este tinto tinha todo os terciários de Pauillac desenvolvidos com tabaco, ervas, e toques animais no aroma. Boca bem resolvida com taninos totalmente polimerizados. Já o grande Margaux, mostra que a evolução de Premier é bem mais lenta, sobretudo na sisuda safra de 1986. Um tinto que beira a perfeição, mas ainda está longe dela. Precisa de mais tempo em garrafa para desenvolver aromas e amaciar taninos. No momento, sua decantação é obrigatória. 

a complexa rotulagem alemã

Na hora da sobremesa, um Riesling alemão apareceu para compor o quadro. Normalmente, a doçaria portuguesa é bem carregada no açúcar, dificultando um pouco a harmonização. Entretanto, a Sericaia do Alentejo, um pudim delicado à base de leite e ovos, é muito bem executada no Bela Sintra, e seu açúcar residual é bem mais comedido. Foi uma das chaves para uma boa harmonização com o vinho, o qual tem açúcar residual perceptível, mas sem exageros, sobretudo por sua incrível acidez para contrabalançar. 

Markus Molitor é um dos mais respeitados produtores do Mosel com um código próprio na cápsula de seus vinhos. A cápsula branca indica um vinho mais seco ou menos doce, a cápusla esverdeada com um nível acima de açúcar, e finalmente a cápsula dourada, definitivamente doce. Mas as armadilhas não param por aí. Neste rótulo acima de cápsula branca, teoricamente menos doce, existe outra classificação de um a três asteriscos (***), indicando crescente nível de maturação da uva e consequentemente de açúcares. Realmente, é difícil entender os alemães. Para completar, Auslese é um grau de doçura intermediária entre o Kabinett e Trockenbeerenauslese.

IMG_5536uma das grandes eaux-de vies!

Passando a régua, uma linda homenagem de Manoel Beato a mim com este Bas-Armagnac maravilhoso datado com minha safra de 1959. Para completar, depois de longa tempo em madeira, foi engarrafado em 1987, ano de nascimento de minha única filha, para comercialização. Só o lado emocional, já vale a experiência. Contudo, sendo o mais técnico possível, é uma aguardente primorosa em seus aromas, profundidade, e equilíbrio. Coisas que só tempo molda à perfeição. Obrigado amigo!

Enfim, está dada a largada 2019 em busca dos melhores vinhos. Que a frequência dos confrades seja a mais intensa possível, aumentando nossos números ano a ano. Obrigado a todos pelo carinho e generosidade, vislumbrando grandes encontros em breve. Saúde a todos!

Efeito Premox

10 de Setembro de 2018

Todos sabemos que os melhores vinhos brancos secos do mundo estão na Borgonha, sobretudo os ligados a um nome mágico chamado Montrachet. É lógico que Rieslings alemães, alguns brancos do Loire, do Rhône, podem entrar nesta briga, mas a Chardonnay na Borgonha assume apelações fantásticas como Corton-Charlemagne, Chevalier-Montrachet, Batard-Montrachet, assim como o inimitável Chablis.

Um das características destes vinhos é envelhecer com propriedade, embora em tenra idade já sejam deliciosos. Contudo, a condição de guarda é uma das razões que os diferenciam da maioria de outros Chardonnays. É exatamente este ponto o motivo de nosso artigo. Por que Borgonhas tão jovens já parecem oxidados e sem estrutura para envelhecer em adega?

Esse fato tem ocorrido nos últimos anos mesmo com produtores de destaque como Domaine Leflaive, Coche-Dury, e Domaine Leroy, por exemplo. Brancos de prestígio e preços nas alturas decepcionando consumidores fieis que jamais acreditariam em tal fato se eles mesmos não fossem as principais vítimas.

Para tentar elucidar o fato, vamos falar do efeito Premox (Premature Oxidation). Sabemos que os brancos da Borgonha são fermentados e amadurecidos em barricas de carvalho, tendo um certo contato com o oxigênio em sua construção como vinho. Esses fatores em linhas gerais contribuem para uma certa resistência à oxidação e portanto, permitindo a eles uma longa guarda em adega.

Os efeitos Premox provavelmente têm explicação no vinhedo e na cantina, sendo praticamente descartados os problemas de vedação e conservação do vinho. Segundo especialistas como Dra Valérie Lavigne de Bordeaux que estuda o efeito Premox em vinhos brancos há mais de dez anos, alguns fatores de campo e de cantina atuam no problema, sobretudo quando somados, contribuindo para uma vida relativamente curta do vinho.

wine folly massal-selection-clonal-selection-vines-preferência pela seleção massal

Fatores de campo (vinhedo)

  • baixos rendimentos das vinhas somados ao estresse hídrico, potencializado em anos secos, podem baixar os níveis de nitrogênio no solo reduzindo a presença de uma substância chamada glutationa presente nas uvas, responsável por combater a oxidação.
  • seleção clonal x seleção massal. A seleção clonal é feita em laboratório detectando certos tipos de parreiras com produção baixa e resistência a doenças de forma destacada. A seleção massal é praticada de longa data na viticultura, selecionando algumas parreiras naturalmente e tentando replica-las no vinhedo em meio a outras parreiras de características diferentes. Nesta ultima técnica natural a concentração de taninos (substância antioxidante) nas uvas é notavelmente superior.
  • níveis excessivos de maturação das uvas, aumentando o teor de açúcar e diminuindo a acidez natural. Desta prática resulta a frase: três semanas a mais no vinhedo rouba um década ou mais na adega.

batonnage wine follyas borras protegem o vinho

Fatores de cantina (vinificação)

  • prensagem delicada das uvas (prensas pneumáticas) extraem menos material corante das uvas, inclusive taninos (antioxidantes).
  • intervalo relativamente longo entre a fermentação alcoólica e a malolática pode contribuir para o Premox, período em que o vinho fica menos protegido de fatores oxidativos.
  • não abrir mão da técnica de bâtonnage que consiste em deixar o vinho em contato com as borras (leveduras mortas), aumentando assim sua resistência a processos oxidativos.
  • utilizar o SO2 (dióxido de enxofre) de forma coerente e precisa nas várias etapas de vinificação. É um poderoso antioxidante e bactericida. 
  • maior porcentagem do carvalho novo na vinificação pode aumentar a resistência contra a oxidação.

Mediante os fatores acima citados, problemas como vedação das garrafas e armazenamento inadequado só potencializam a questão. No entanto, sozinhos não são determinantes no efeito Premox.

premox 1988-oxidation

as várias tonalidades de cores nos Borgonhas

Um dos aromas característicos do Premox é algo que lembra Sherry ou Jerez, advindos do Sotolon, substância derivada do acetaldeído, uma espécie de oxidação dos álcoois do vinho. Seus aromas podem lembrar mel, curry e amêndoas. 

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Premox: apelações nobres

No painel acima, Meursault-Perrières 2008 e Meursault-Genevrières 1995, completamente oxidados (premox). Na foto seguinte, Louis Jadot Chassagne-Montrachet 2007, também oxidado. Experiências do passado.

Na foto abaixo, um dos grandes vinhedos de Madame Leflaive, les Pucelles. Muitas decepções na safra 1999.

premox puligny montrachet

cuidado com a safra 1999, alto risco premox

Para aqueles que apostam nos grandes brancos da Borgonha como vinhos de guarda capazes de vencer longos anos em adega, prefiram os anos clássicos de boa safra, onde as condições de campo parecem ser mais seguras. Evitem anos muito quentes com grande estresse hídrico, capazes de iludirem os mais desavisados com seus aromas sedutores quando muito novos, quebrando o encanto em pouco anos de vida. Como exemplo de anos recentes, os brancos borgonheses 2009 mostram claramente vida mais curta, comparados aos brancos de 2010, uma safra clássica.

O assunto é polêmico e vasto à medida em que as experiências se sucedem e mais especialistas lançam novas teses. Para aqueles que possuem várias garrafas ou caixas de determinados vinhos de mesma safra, convém monitora-los de tempo em tempo e observar o fenômeno pessoalmente, se for o caso. De todo modo, novas técnicas de cultivo e vinificação solucionam determinados problemas, a despeito de vez por outra, aparecerem alguns efeitos colaterais.

Que os Borgonhas continuem dando muitas alegrias a que os têm e conserva. Por enquanto, o saldo histórico deste tipo de vinho é amplamente favorável, confirmando seus lugares cativos nas melhores adegas do mundo.

Chablis: Decifra-me

4 de Março de 2017

O vinho branco mais incompreendido, embora mundialmente conhecido. Copiado descaradamente mundo afora, torna-se patético. Mesmo dentro da apelação, a maioria usufrui de seu prestígio fonético, sem no fundo compreende-lo. Não basta a partitura, é preciso a interpretação precisa. Pode-se aceitar alguns intérpretes, mas nenhum chegou à dimensão de dois maestros: Dauvissat e Raveneau. 

É difícil explicar Chablis, quase impossível. Mas quando se sente, não precisa explicar. A sutileza, o nervo preciso, os aromas quase etéreos, o sabor pulsante sem ser agressivo. A essência sem máscaras, sem subterfúgios. Se terroir parece algo inexplicável, Chablis personifica este conceito como nenhum outro território de vinhas.

Chablis é tão exclusivo, é tão pessoal, que seu território dentro da Borgonha é separado, é descontinuo. Está a meio caminho entre Champagne e a nobre Côte d´Or. O clima é frio, rigoroso, tenso. O solo, uma benção divina, uma mistura judiciosa de argila e calcário, culminando no que chamamos Kimeridgiano (Kimméridgien), fosséis marinhos calcinados no marga, característicos das porções de terra das vinhas Grands Crus da região.

Essa precisa geologia exige ao máximo de seu intérprete (vitivinicultor), tanto na condução das vinhas, como sobretudo, na vinificação em cantina. Esta pureza não pode ser perdida, não pode ser camuflada, não pode ser destorcida. Esses segredos parecem ser seguidos à risca pelos maestros (Dauvissat e Raveneau).

Dauvissat

Não estamos falando de Caves Jean et Sébastian Dauvissat e nem de Domaine Jean Dauvissat. Estamos falando de René & Vincent Dauvissat. Proprietário de 12 hectares de vinhas perfeitamente localizadas entre Premier Cru (6 ha), Grand Cru (2,7 ha) e o restante de apelação Chablis, elabora 80000 garrafas por ano. A idade média das vinhas é alta, em torno de 40 anos.

A fermentação e amadurecimento do vinho é feita com madeira inerte. Barricas entre 6 e 8 anos de idade. A micro-oxigenação é importante para o Chablis, quebrando sua dureza, sua austeridade. Vincent vai mais longe, utilizando 10% de madeira nova, uma perigosa ousadia. A malolática ocorre de maneira espontânea.

dauvissat-la-forest

apenas rótulos diferentes

Os rótulos acima podem causar confusão, contudo trata-se do mesmo vinho quando em safras idênticas. É apenas uma divisão familiar na impressão dos rótulos. No entanto, a cuvée é a mesma. Particularmente, o rótulo clássico à esquerda é meu preferido.

Seus vinhos aliam pureza, força e profundidade. Destaque para o Premier Cru La Forest, um vinho fora da curva para sua categoria. Mesmo seus Chablis comunal e Petit Chablis provem de vinhas muito bem localizadas, diferenciando-se em muito dos demais nessas categorias.

Pormenorizando a informação, as vinhas de seu Petit Chablis ficam muito perto do Grand Cru Les Clos, uma de suas estrelas, num setor mais alto da encosta. São as ultimas uvas a serem colhidas a cada colheita. Já as vinhas de seu Chablis comunal ficam adjacentes ao badalado La Forest, um super Premier Cru. Detalhes que fazem a diferença.

Raveneau

Domaine François Raveneau tem a mesma filosofia de rival no bom sentido da palavra, fidelidade ao terroir. Vinhas antigas, muito bem localizadas e um trabalho importante de barricas inertes para uma bem-vinda micro-oxigenação. Muitas das barricas tem uma particularidade de tamanho, tendo metade da capacidade das barricas normais. São chamadas “feuillettes”. Numa sintonia fina, digamos que Raveneau elabora um Chablis um pouco mais cortante que Dauvissat. Contudo, é uma impressão pessoal. São 50000 garrafas por ano.

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a grande cuvée de Raveneau

Se Dauvissat tem La Forest, Raveneau tem Montée de Tonnerre, empatados na categoria Premier Cru. Mais uma disputa acirrada entre esses dois gigantes. Um dos detalhes nesta comparação é que as vinhas do La Forest fica num setor mais frio que as vinhas do Montée de Tonnerre. Portanto, as uvas amadurecem mais lentamente. Daí decorre, em anos mais frios La Forest pode ser muito austero, enquanto que em anos mais quentes tem a vantagem de ser mais equilibrado que seu concorrente. Sutilezas na hora de comprar.

Bernard Raveneau, atual comandante, diz que seus vinhos envelhecem muito bem. Questionado sobre seu vinho numa ilha deserta, mencionou seu Montée de Tonnerre 1969 como excepcional e inesquecível.

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taça bordalesa

Além da temperatura correta, em torno de 10° centígrados, a taça correta é fundamental. Esqueça as taças bojudas, tradicionais para os brancos da Côte de Beaune (Montrachet, Puligny, Chassagne). Vá com a mesma taça utilizada para Riesling, Sauvignon Blanc do Loire, uvas que geram vinhos de grande acidez e mineralidade. A acidez fica mais contida, os aromas mais finos, e a harmonia final agradece.

Pratos como salmão marinado, peixes au beurre blanc (molho branco ácido) e trutas com amêndoas, podem acompanhar bem um típico Chablis, calibrando sua categoria (Grand Cru, Premier Cru ou comunal), a característica da safra, e finalmente seu estágio de evolução, sua idade.

Infelizmente, Raveneau e Dauvissat não são encontrados no Brasil. Como opções confiáveis, temos produtores como Billaud-Simon e William Fèvre disponíveis nas importadoras Mistral e Grand Cru, respectivamente.

Enogastronomia na Praia: Parte I

28 de Dezembro de 2016

O cenário praiano é sempre convidativo, havendo uma conjunção de descontração, belas paisagens, clima de alto astral, e total entrega ao prazer e relaxamento. Quando se pensa em bebidas, e digo, bebidas alcoólicas; cervejas, batidas, drinks, e tudo que possa refrescar com boas doses de gelo, são as mais lembradas. Para aqueles que não abrem mão dos vinhos, certos cuidados devem ser tomados. A melhor dica é acompanhar as comidas típicas à beira mar, que são à base de peixe e frutos do mar, com vinhos bem sintonizados. Neste cenário, brancos, espumantes e rosés, roubam a cena. Neste artigo, trataremos em detalhes do assunto, mostrando vinhos degustados em águas caribenhas.

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Raveneau: excelência em Chablis

No primeiro almoço em Saint Barth, ilha pertencente à França cuja a capital é Gustavia, já nos deparamos com um Raveneau, referência absoluta em Chablis. Na foto acima, trata-se de um Premier Cru Vaillons da ótima safra 2002. Apesar de seus mais de dez anos, veja a cor deste Chablis com seu inconfundível esverdeado. Jovem ainda, fresco, cheio de vitalidade, e seus toques minerais e cítricos marcantes. É vinho para pelo menos mais dez anos. Concentração e persistência notáveis.

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Camarões cozidos e salada de algas

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peixes no vapor e legumes variados

Os dois pratos acima foram um deleite para este Chablis. Pureza de aromas e sabores, toques marinhos e cítricos destacados, texturas delicadas, todos componentes perfeitamente compatíveis com as características do vinho. O vinho desfilou entre os pratos, ora mostrando seu lado mais cítrico, mais incisivo; ora mostrando seu lado mineral, mais complexo. E sempre deixando um final limpo e fresco. Em suma, é a comida simples valorizando um grande vinho.

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devidamente refrescado com os queijos

Terminando a refeição com um pouco mais de intensidade e reconfortando o paladar com algo mais macio, uma tábua de queijos variados e um estupendo Porto Graham´s 30 anos, uma categoria especial de Tawny. Servido refrescado, seus aromas elegantes de frutas secas, toques empireumáticos, especiarias, ervas, e notas balsâmicas, inundaram o palato, combatendo a gordura e cremosidade dos queijos. Um final marcante, mas sem exageros.

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queijos intensos e gordurosos

Embora possa parecer exagerado, uma tábua de queijos mais intensos (livarot, taleggio, saint paulin, …) pode finalizar bem uma refeição que primou pela delicadeza e uma cadência sempre com sensações estimulantes. É bom no final quebrarmos esta sequência com algo mais macio e reconfortante.

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cenário ideal para o descanso

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quebrando regras

À noite, num ambiente mais festivo, Champagne. Perrier Jouet Cuvée Belle Époque em garrafa Double Magnum, regando os vários pratos e entradas à base de peixes e frutos do mar. Taça de festa, também.



Já no segundo dia da viagem, almoço na praia. O ambiente descontraído e comidas variadas pedem um vinho eclético. Nada melhor que um bom rosé da Provence. Neste caso, Domaines Ott, um clássico provençal em sua bela garrafa lembrando uma ânfora.

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mar de Saint Barth

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Chateau Romassan em Double Magnum

Este chateau situado em Bandol, é um dos três do Domaines Ott com vinhedos na Côtes de Provence.  Um rosé um pouco mais estruturado com predominância da casta Mourvèdre, complementada por Cinsault, Grenache e Syrah. A safra 2015 é bastante fresca com toques florais, cítricos e de especiarias perfumadas.

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comidinhas variadas para um rosé

Nas fotos acima, percebemos a versatilidade do rosé enfrentando pratos de propostas diferentes. O sashimi como elemento in natura e forte mineralidade, a fritura do camarão empanado, e a textura delicada de anéis de lula gigante. Todos esses elementos encontram eco neste rosé onde temos acidez, textura adequada, e sabor suficiente para os pratos, sem ser invasivo.

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barca completa direta do mar

Já na mesa do restaurante, uma barca com tudo que tem direito, sushi e sashimi dos mais variados, saladas, picles, e toda sorte de temperos frescos e estimulantes. Uma festa para os sabores do rosé, o qual acompanhou inclusive, todos os aperitivos envolvendo atum fresco.

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bela safra 2001

À noite, em temperatura mais amena, fomos para um tinto quase provençal, Chateau de Beaucastel 2001, acompanhando um tagliatelle com molho branco à base de morilles e ervas. Os toques de evolução do vinho com notas balsâmicas, defumadas, pimenta e ervas, casaram muito bem com os aromas e sabores do prato. Boa pedida, fugindo um pouco dos peixes e frutos do mar.

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tagliatelle com morilles e ervas

Beaucastel é referência quando se fala na apelação Chateauneuf-du-Pape, sul do Rhône. Ele trabalha com as treze cepas permitidas, dando prioridade às uvas Grenache e Mourvèdre. Em seguida, a Syrah, finalizando com pequenas proporções das demais uvas. Costuma ser acessivel mesmo jovem, mas envelhece muito bem.

Hora de dormir com o remanso do mar …

Entre tintos, brancos, secos, doces …

17 de Novembro de 2016

Belos exemplares degustados recentemente, envolvendo uvas diversas, regiões, denominações e safras diferentes. Para começar, duas feras da Borgonha, lado a lado, cada qual especialista em seu terroir específico. Iniciando os trabalhos, Raveneau Valmur Chablis Grand Cru 2009 (foto abaixo).

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Valmur: um dos Grands Crus de Chablis

Embora seja uma safra relativamente nova e muito badalada, mostra-se incrivelmente precoce e sobretudo, atípica. Aquela acidez cortante, aguda dos grandes Chablis, é muito mais esmaecida, dando lugar a um toque frutado destacado pouco comum neste tipo de vinho. E olha que estamos falando de um Raveneau, o epitome nesta apelação francesa. De todo modo, não deixa de ser um vinho brilhante, muito bem equilibrado, e de final bem acabado.

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Chevalier Leflaive: What Else?

A segunda fera, foto acima, resume a perfeição de uma apelação em todos os sentidos: produtor, vinhedo, e safra. Domaine Leflaive é o grande nome de Chevalier-Montrachet na excepcional safra 2005. Ainda jovem, mas extremamente prazeroso para consumo. Aromas intensos de tudo que a família Montrachet é capaz de proporcionar. Frutas, especiarias, tostado fino, mineral, entre outros aromas. Em boca, aquela sutil leveza que o diferencia de um Montrachet sem de maneira alguma, ser um demérito. Pelo contrário, pessoalmente, adoro este lado mais vivaz e ligeiro. O equilíbrio e a persistência aromática são quase indescritíveis. Felizes daqueles  que tiverem esta chance!

Nota: uma das explicações desta leveza do Chevalier em relação ao Montrachet é dada pela altitude do terreno (Chevalier está acima de Montrachet), aliada à forte pedregosidade de Chevalier, proporcionando uma textura de solo mais leve, mais aerada.

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tartare de pato com morilles

O prato acima preparado pelo Nino Cucina foi bem com os dois brancos acima. A carne de pato e a delicadeza do cogumelo entrelaçaram-se bem com a força, elegância e acidez dos brancos. Ora, o Chablis com sua acidez realçava o prato, ora o Chevalier entrava com sua força e complexidade enriquecendo a combinação.

A safra 2006 em Bordeaux, especialmente na margem esquerda, quase nem é mencionada. Muito provavelmente, foi e ainda é ofuscada pelo monumental ano 2005. Entretanto, preste atenção em alguns exemplares do Médoc. É uma safra de qualidade, sem ter que esperar longos anos para seu apogeu. Foi o caso deste Calon-Segur 2006, foto abaixo. Aromas típicos com notas de frutas escuras, minerais, e erva finas. Em boca, aquela acidez que marca a tipicidade da comuna, taninos presentes, e muito bem equilibrado. O que realmente falta é aquele meio de boca, próprio das safras espetaculares. De todo modo, preço relativo e precocidade são bons atrativos.

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ótima referência de Saint-Estèphe

Montevetrano é o grande tinto do sul da Itália quando se trata de um vinho moderno, calcado na internacional Cabernet Sauvignon. Complementado por Merlot e uma pitada de Aglianico (10%), é praticamente um corte bordalês da Campania. Seu mentor, o grande Ricardo Cotarella, uma espécie de Michel Rolland italiano, tem feeling para este tipo de vinho. De estilo encorpado, combinando bem com o jeito sulino, é um dos preferidos de Robert Parker que o chamou de “Sassicaia of the South”.

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Montevetrano: Sassicaia do sul da Itália

Neste exemplar safra 2004 (foto acima), mostra todo seu vigor com seus 12 anos de vida. Muita concentração de fruta, especiarias, notas defumadas e de chocolate. Sucedeu bem o Calon Segur descrito acima, acompanhando carnes como um bife de chorizo grelhado.

A riqueza dos vinhos doces do Loire é um capitulo à parte, sendo o grau de doçura um ponto importante de diversidade, desde os menos doces, até paulatinamente aos intensamente doces. Apelações como Coteaux du Layon, Bonnezeaux, Quarts de Chaume, e Vouvray, baseadas na casta Chenin Blanc, mostram vinhos delicados e absolutamente profundos. São os que mais se aproximam do estilo alemão e ao mesmo tempo, lembram a bela acidez dos vinhos húngaros Tokaji. O ponto em comum entre eles é a Botrytisação, ou seja, o ataque do fungo Botrytis Cinerea que resumidamente gera vinhos de muita complexidade aromática, muito equilibrados, de muito frescor, e de texturas únicas.

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Chenin Blanc Botrytisado

No exemplar degustado da bela safra 2005 (foto acima), este Quarts de Chaume do Chateau de Suronde, apresenta rendimentos por volta de 10 hectolitros por hectare, 18 meses em barricas de carvalho, e várias passagens no vinhedo, colhendo seletivamente as uvas botrytizadas. O resultado é um vinho que se assemelha a um bom alemão doce entre a categoria Beerenauslese e Trockenbeerenauslese,  ou se preferirem, um Tokaji entre 5 e 6 Puttonyos.

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Tatin de Pêssegos

Acompanhou maravilhosamente uma Tatin de pêssegos, tanto na similaridade de sabores, como também de texturas. As notas de mel, cera, e caramelo, eram notáveis no vinho, sempre mantendo um enorme frescor.

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Vintage: Datas de safra e engarrafamento obrigatórios

Existem Vintages e Vintages para a categoria máxima em Vinho do Porto, mas 1994 está certamente no rol das melhores safras do século XX. Felizmente, tenho o privilegio de ter provado vários 94 em suas várias fases de evolução até agora. Não foi diferente com este Graham´s 1994 com 96 pontos. É uma safra que está saindo da infância agora, de evolução muito lenta. Não sei se vou ter tempo para ver seu apogeu. Atualmente, mostra com muita intensidade notas de licor de jabuticaba, especiarias, chocolate e um traço mineral. Muito equilibrado e de final bastante longo.

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Torpedos, sempre ótimas pedidas

Acompanhou muito bem esta dupla de Puros, Montecristo n°2 e Bolívar Belicosos. As melhores harmonizações ocorreram no segundo terço do Montecristo, mais potente que este Bolívar, que por sua vez, ficou melhor na sua fase final com o Porto.

Outra combinação muito boa com este Vintage foi o pão de mel. Textura, chocolate e os toques de especiarias deste bolinho delicioso, estavam bem balanceados com a força e complexidade do vinho, valorizando ambos. Enfim, outras experiências virão …

Temas de Degustação

29 de Janeiro de 2016

Ao longo do ano, inúmeras confrarias programam seus temas para serem realizados em datas previamente divulgadas entre os participantes. Existem as famosas Verticais (um determinado vinho em várias safras), Horizontais (uma denominação de vários produtores numa mesma safra), Varietais (uma determinada uva), Regionais (geralmente regiões clássicas da Europa), e assim por diante. No entanto, certos temas podem ser polêmicos e muitas vezes surpreendentes. Nesto contexto, vamos explorar abaixo alguns desses embates.

1 – Pouilly-Fumé x Chablis

Apesar de estarem em jogo uvas diferentes, Sauvignon Blanc e Chardonnay, a mineralidade e textura de ambas apelações francesas podem confundir. Preferencialmente com safras novas, ou seja, vinhos jovens, esta disputa pode ser bastante acirrada. É evidente que particularidades de determinados produtores devem ser avaliadas para proporcionar um equilíbrio justo e confundir os degustadores.

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Chablis e Pouilly-Fumé: mesmo tipo de taça

2 – Pessac-Léognan x Saint-Émilion

Bordeaux de margens opostas, mas que guardam certas semelhanças. Os tintos de Pessac-Léognan são os mais abordáveis na juventude e os que amadurecem mais cedo em comparação com as demais comunas da margem esquerda. A proporção de Cabernet Sauvignon costuma ser menor no corte, dando mais destaque ao Cabernet Franc e Merlot. Do outro lado, Saint-Émilion têm vários tintos com boa presença de Cabernet Franc no corte, além da onipresente Merlot. Portanto, são vinhos com corpo, textura e poder de longevidade parecidos, proporcionando uma disputa bem bacana.

3 – Pommard x Barolo

Novamente, uvas, regiões, e países diferentes, defrontando Pinot Noir e Nebbiolo. Pommard costuma gerar borgonhas com certa rusticidade, apesar de muita força e poder de envelhecimento. Neste raciocínio é que os poderosos e viris Barolos podem proporcionar uma batalha equilibrada, gerando dúvidas e conclusões confusas.

4 – Riesling Alsacianos secos x Alemães Trocken

Aqui o segredo é calibrar o teor alcoólico e o açúcar residual dos vinhos alemães. Quando estamos na categoria Trocken (seco) aí sim, os vinhos podem ficar bem parecidos. A região francesa da Alsácia se não for a única, é certamente a que mais se aproxima do padrão alemão de vinhos. Disputa interessante.

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Vertical: La Tâche

5 – Supertoscanos 100% Sangiovese x Brunellos

O detalhe acima quanto à soberania da Sangiovese nos Supertoscanos é fundamental, já que a ideia de deste termo é muito genérica e pouco elucidativa. É bem verdade, que apesar de tratar-se da mesma uva, a Sangiovese na região do Chianti Clássico apresenta um clone diferente com relação ao terroir de Brunello di Montalcino, conhecida localmente como Sangiovese Grosso. Sobretudo quando os vinhos têm uma certa evolução em garrafa, a briga fica bem acirrada.

6 – Corte Bordalês Americano x Bordeaux Margem Esquerda

Aqui a inspiração é o inesquecível desafio de Paris em 1976. Talvez a degustação mais famosa do mundo pelas consequências inevitáveis na época. O corte bordalês, embora seja reproduzido em várias regiões e países, só mesmo os Estados Unidos são capaz de confrontar os grandes tintos bordaleses de margem esquerda. Estou me referindo aos tintos de Napa Valley com alto grau de sofisticação. É evidente que precisam ser escolhas que priorizem a elegância, o equilíbrio, e não a potência e explosão de aromas. Stags´ Leap  Winery provou e ratificou isso.

bordeaux 61

Horizontal: Bordeaux 1961

7 – Pauillac x Saint-Julien

As apelações acima na chamada margem esquerda de Bordeaux são contiguas. Daí, a extrema semelhança dos vinhos. Embora Saint-Julien não tenha nenhum Premier Grand Cru Classe, seus Deuxièmes são de tirar o fôlego. Só para dar dois exemplos, temos Léoville Las Cases e Ducru-Beaucaillou. O primeiro tendendo para um estilo Latour (Pauillac) e o segundo, para um estilo elegante (Lafite). Dá o que falar este embate.

8 – Vouvray x Rieslings Alemães

Novamente, disputa entre uvas: Chenin Blanc e Riesling. Vouvray é uma das mais famosas apelações do Loire, gerando vinhos delicados e com diferentes graduações de açúcar residual (sec, tendre e moelleux). Neste contexto, os Rieslings alemães das categorias Kabinett, Spätlese e Auslese, apresentam o mesmo perfil. A mineralidade, a textura em boca, também são semelhantes. Embora aparentemente “frágeis”, o poder de longevidade destes vinhos é notável. Enfim, uma aula de delicadeza e elegância.

grandes espanhois

grandes espanhóis

9 – Barbarescos x Barolos

Aqui temos regiões muito próximas trabalhando com a mesma uva, Nebbiolo. Sabemos a priori, que os Barbarescos são menos complexos e menos longevos que seu concorrente mais ilustre. Contudo, não podemos esquecer de produtores mais modernos que dão força a estes vinhos, assim como temos vários estilos dentro da denominação Barolo. Portanto, se bem escolhidos, a briga é boa.

10 – Sauternes x Barsac

Duas apelações muito próximas separadas pelo rio Ciron elaborando os grandes vinhos doces bordaleses. Em resumo, podemos dizer que os vinhos de Barsac por questões de terroir, são mais elegantes e menos untuosos que os Sauternes. Entretanto, há Sauternes com perfis mais delicados, sobretudo quando a porcentagem de Sauvignon Blanc aumenta no blend com a Sémiilon, sempre majoritária. Esses detalhes, põem mais lenha na fogueira.

Em resumo, são temas apaixonantes, mas de custo elevado. Normalmente, mais interessantes para grupos que já têm uma longa estrada no mundo do vinho e portanto, mais experiência para avaliar este tipo de degustação, pois os vinhos devem ser bem escolhidos para o objetivo final ser atingido. De todo modo, há principiantes que gostam de trilhar caminhos diferentes dos habituais. Afinal, são nos erros que aperfeiçoamos os acertos.

Festas: sugestões de vinhos

10 de Dezembro de 2015

Nesta época do ano é normal as pessoas procurarem dicas, conselhos, informações sobre vinhos. Seja para consumo próprio ou presentear, as opções são inúmeras. Infelizmente, os preços não ajudam. Com a alta do dólar e também de impostos, a equação está cada vez mais difícil de ser resolvida. Portanto, vinhos que realmente valem a pena indicar estão na faixa entre R$ 100,00 e 200,00 reais.  E olha que não estou falando em sofisticação, pois nesta área o céu é o limite.

Segue abaixo uma relação para vários tipos da bebida, desde entrada até sobremesas, cafés, charutos, etc …

Cave Geisse: bela surpresa

Espumantes e champagnes

  • Cave Geisse (espumante nacional entre os melhores, se não for o melhor). veja site abaixo, na própria vinícola, ou na Ville du Vin.
  • Chandon Brasil (sempre consistente, fácil de encontrar e preços razoáveis). Várias lojas de bebidas em São Paulo.
  • Cava (tradicional espumante espanhol). Raventós da Decanter e Gramona da Casa Flora, sempre confiáveis.
  • Champagnes (é uma questão de gosto e estilo. Louis Roederer, Gosset, Deutz e Larmandier têm preços honestos. Evidentemente, acima da faixa de preço no início do artigo). Importadoras Franco-Suissa, Grand Cru, Casa Flora e Cellar, respectivamente.

Um dos grandes alemães da Decanter

Vinhos brancos

  • Rieslings alemães (importadora Decanter tem boas opções).
  • Chablis William Fèvre (importadora Grand Cru).
  • Sauvignon Blanc (Terrunyo da Concha Y Toro, vinícola Pericó de Santa Catarina e Jackson Estate da Nova Zelândia, importadora Premium). A linha Concha Y Toro é encontrada na Ville du Vin.
  • Chateau Reynon e Clos Floridene (dois bordeaux da Casa Flora)
  • Chardonnay (Catena Alta da Mistral  e De Martino Quebrada Seca da Decanter)

Bierzo e a uva Méncia

Vinhos tintos

  • Rioja de vários tipos (Crianza, Reserva e Gran Reserva). Rioja Alta da importadora Zahil, CVNE da Vinci e Luis Cañas da Decanter).
  • Tintos de Bierzo (região espanhola pouco conhecida. Boas opções na Decanter e Grand Cru).
  • Chianti Classico (Castello di Ama da Mistral, Fontodi da Vinci, e Felsina Berardenga da Mistral).
  • Tintos do Douro (Quinta do Crasto, Quinta do Noval, Niepport).
  • Malbecs da Argentina (Catena da Mistral, Viña Cobos da Grand Cru, Noemia da Vinci e Achaval Ferrer da Inovini).
  • Merlots nacionais (Miolo Terroir, Pizzato DNA 99 e Desejo da Salton). Encontrados em boas lojas de bebidas.
  • Chateau Giscours 2009 Margaux – Grand Cru Classe – importadora Cellar
  • Chateau Sociando-Mallet 2009 – Haut-Médoc – importadora Cellar
  • Vinícola Rippon (grande Pinot Noir da Nova Zelândia). Importadora Premium.

Tawnies e Charutos

Portos, fortificados e colheita tardia

  • Porto Fonseca Bin 27 (Mistral ou Casa Santa Luzia)
  • Burmester Tawny Jockey Club (Adega Alentejana)
  • Quinta do Noval LBV Unfiltered (Grand Cru)
  • Jerez: Emilio Lustau da Ravin e Hidalgo da Mistral
  • Morandé Late Harvest da Grand Cru
  • Chateau Haut-Bergeron Sauternes da Cellar

Se você pensar em vinhos franceses ou italianos, a escolha natural é a importadora Cellar. A seleção é ótima e os preços não são abusivos. Responsável: Amauri de Faria.

Porto Fonseca e champagne Louis Roederer são encontrados na Casa Santa Luzia. Os nacionais acima mencionados, também.

Importadoras

Em Grandes Vinhos não há preconceito de cor

24 de Abril de 2015

Mais um encontro memorável entre amigos, e vinhos deslumbrantes. O responsável pelo almoço foi o Barolista e Borgonhês Roberto Rockmann, e que vinhos! Um Chablis inesquecível e um Barolo fora da curva. Mas antes de entrarmos nestes detalhes, vamos nos ater à sequência do almoço. De cara, o champagne abaixo, um belo rosé Laurent-Perrier, uma das especialidades da Maison.

Perlage e vivacidade notáveis

Traindo os belos Jerezes, champagne rosé combina muito bem com os insuperáveis presuntos Pata Negra. Na falta de champagne, um belo Cava Rosé cumpre bem o papel. A acidez equilibra a gordura da iguaria e seus aromas e sabores vão de encontro ao toque frutado do jamon. A sensação refrescante da harmonização prepara o paladar para o seguimento da refeição.

Dois rótulos para o mesmo prazer

A partir da foto acima, a coisa começa a ficar séria. Na apelação Chablis existe uma hierarquia inquestionável. Os produtores e primos, Dauvissat e Raveneau, são incontestes. Bem depois, puxam a fila três ou quatro bastante confiáveis e finalmente, os duvidosos, inconstantes, que muitas vezes decepcionam a maioria que cria expectativas com o glamour da apelação. O exemplar em questão era o Chablis da direita, safra 2008, um Premier Cru La Forest, decantado vinte e quatro horas antes de sua apreciação. E como fez bem esta decantação! A mineralidade, os tostados de avelã e sua salinidade, eram admiráveis. A sutil maciez advinda de um trabalho bem executado de bâtonnage (revolvimento das borras) lhe dá um acabamento incrível frente à avalanche de acidez em seu primeiro contato. A persistência e o final de boca são indescritíveis. A trouxinha de salmão abaixo casou perfeitamente com a mineralidade do vinho, além do casamento de texturas. Só para encerrar o capítulo Dauvissat, os dois rótulos acima trata-se do mesmo vinho, dependendo do mercado de exportação. Dado importante para uma compra segura.

Pureza de sabores entre vinho e prato

Antes de passarmos ao vinho principal, uma confirmação taxativa sobre a harmonização dos grandes Malt Whisky de Islay com salmão defumado. O alto teor de turfa é responsável por esse casamento. Os aromas medicinais do malte casam perfeitamente com a maresia do peixe. O malte escolhido foi o grande Laphroaig Ten Years Old. Inclusive serviu como Sorbet para limpar o paladar para a próxima etapa.

Mantendo o alto nível, agora entramos no tabernáculo da denominação Barolo. Este é um tinto piemontês que cativa muitos fãs mundo afora com seus produtores preferidos. Contudo, sejam quais forem, ninguém supera os irmãos Conterno, Aldo e Giacomo Conterno, em suas respectivas aziendas. O da foto abaixo degustado com muitas horas de decantação, vem da bela safra 1996 e um vinhedo único denominado Cicala. A cor ainda muito bem conservada, anunciava a impecável forma desta garrafa. Seus aromas eram de uma delicadeza incrível mesclando florais, terrosos, alcaçuz e notas magistralmente defumadas. Boca muito bem equilibrada com taninos de rara textura. Acompanhou magnificamente uma Rabada oferecida pelo anfitrião que ficou à altura do vinho. Simplesmente, um Barolo inesquecível.

Um Barolo de outro planeta

Castelnuovo Berardenga: um terroir único

Para acompanhar a rabada na eventual falta do Barolo, tivemos um toscano Fontalloro 1998 do sul do Chianti Classico, mais especificamente de Castelnuovo Berardenga. A cantina Félsina é extremamente fiel a este terroir. Um 100% Sangiovese em plena forma, mas naturalmente abaixo do monstro piemontês. Seus aromas de cerejas em licor, toques defumados, minerais (terroso) e de funghi, ajudaram a finalizar o prato e principalmente, arrematar um queijo Comté devidamente afinado. Pessoalmente, um dos melhores queijos franceses, originário da região do Jura.

Cores toscanas e piemontesas

A taça acima da esquerda trata-se do Fontalloro com preenchimento de copo mais denso e cor menos evoluída. A taça da direita pertence ao Cicala com cor menos densa no centro da taça e mais atijolada nas bordas. Como as idades dos vinhos são muito próximas (96 e 98), fica patente a quantidade discreta de antocianos nos vinhos piemonteses, perdendo a cor com mais facilidade, embora seus taninos sejam poderosos. Numa degustação às cegas, esse pode ser um dado importante.

Vista Alegre: um 30 anos sempre consistente

Com a tarde caindo, é hora das sobremesas. Várias tortinhas; de maça, pera e banana. O Tawny acima com seus toques a frutos secos, confitados e o característico caramelo, complementou bem os doces citados. É sempre um Porto muito consistente neste estilo com muita tipicidade. Bem equilibrado em álcool e açúcar residual, termina com um final muito agradável e elegante. Presente do doutor César.

Já no começo da noite, chega a hora da conversa na varanda. Como a temperatura estava mais para verão que outono, o drink cubano Mojito entrou em ação com vários Puros de respeito. Bolívar Belicosos, Partagas D4 e H. Upimann nº 2, encerraram a festa calmamente. Agradecimento aos amigos por mais este encontro inesquecível.


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