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Adegas fechadas

7 de Abril de 2026

A convivência entre quem cria e quem julga tem limites às vezes indefiníveis, seja no vinho, seja em outras áreas. No fim dos anos 1950, Paulo Autran deixou a educação de lado. Após Paulo Francis criticar reiteradas vezes, em suas colunas sobre teatro, a atriz Tônia Carrero, Autran esperou o momento para contra-atacar. Em uma peça em que só participava do final, viu o jornalista na plateia. Depois de a cortina descer e o público ir embora, aproximou-se de Francis e o chamou. O jornalista virou o rosto, Autran desferiu uma cusparada. “Cuspi com prazer”, relembrou o ator anos depois, enquanto o jornalista se arrependeu da briga.

No mundo do vinho, essa hostilidade manifesta-se de outras formas. O mais famoso crítico do mundo de Baco, o advogado Robert Parker, coleciona histórias. Em 1986, Parker viajou para a Borgonha. Visitou o Domaine Fourrier, cuja maior parte das videiras é em Gevrey Chambertin, um dos vinhos preferidos de Napoleão. Experimentou os vinhos. Sugeriu a Jean-Claude Fourrier que utilizasse mais madeira em seus vinhos, para torná-los mais exuberantes. Foi convidado a se retirar da propriedade. “Meus vinhos, suas críticas”, relatou o filho de Fourrier ao podcast I´ll drink to that.

A vingança de Parker veio meses depois, em sua publicação aos assinantes: uma crítica afirmando que a vinícola tinha uma das adegas mais sujas da Borgonha e que nada de bom poderia sair de lá. O resultado? O mercado americano fechou as portas e safras inteiras ficaram encalhadas nas caves por anos.

A hostilidade nem sempre fica nas palavras. Segundo relato em O Imperador do Vinho, de Elin McCoy, em Bordeaux, o gerente do Château Cheval Blanc, Jacques Hébrard, assistiu impassível a seu cachorro atacar Robert Parker após uma avaliação desfavorável. Na publicação, Parker tinha qualificado a safra 1981 de uma das mais famosas propriedades da França como “decepcionante e medíocre”. Quando o crítico pediu um curativo para a perna, Hébrard entregou-lhe uma cópia do texto e vociferou: “foi isso que você escreveu!”.

Essa disputa de poder ocorre também entre os próprios críticos pela hegemonia do paladar. A safra 2003 foi marcada por um calor intenso na França. A canícula provocou problemas em diversas regiões vinícolas com uvas que perderam acidez em muitos casos. Em Bordeaux, o Château Pavie tinha passado por uma modernização radical. Tornou-se o marco zero de uma disputa de paladares entre os dois lados do oceano Atlântico.

Jancis Robinson, crítica do Financial Times, deu nota 12 de 20 pontos para o Pavie 2003, descrevendo-o como ridículo e excessivamente maduro por assemelhar-se não a um vinho seco, mas a um fortificado, tão poderoso que tinha perdido qualquer elegância. Dos Estados Unidos, Robert Parker reagiu classificando a avaliação de Robinson como um golpe maldoso. Parker sugeriu que Robinson era movida por preconceito britânico contra o estilo moderno da propriedade. Fizeram as pazes anos depois, mas os paladares continuaram distintos.

As polêmicas estão longe de ficarem concentradas na França. Antonio Galloni, que trabalhou com Parker antes de fundar o site Vinous, especializou-se em vinhos italianos. Suas notas determinam o preço de mercado. Em novembro de 2015, Galloni estava preparado para viajar para o Piemonte degustar barolos e barbarescos das safras dos dois anos anteriores. Pediu horário para visitar a vinícola Aldo Conterno, uma das mais tradicionais produtoras de Barolo. A resposta foi que eles não poderiam recebê-lo, pois estariam fora todo o mês. Mas Galloni disse que viu muitas pessoas visitarem a vinícola sem problemas. Respondeu aos assinantes. “Não é o meu primeiro rodeio.”

Comprou as garrafas em uma loja na Itália. Degustou os vinhos. Respondeu com notas baixas para os barolos 2013 de Aldo Conterno, reclamando do uso de madeira nos vinhos e disse que havia um punhado de outros produtores que poderiam oferecer vinhos excelentes a preços menores. Foi banido de visitar a vinícola, suspensão vigente até hoje. Ele continua comprando os vinhos em enotecas. Aumentou suas notas.

Fonte: https://www.wineberserkers.com/t/vinous-scoring-on-aldo-conterno-vendetta-or-reality/140779/63?page=4

Em outras artes, a hostilidade entre críticos e criadores também é histórica. A crítica de cinema Pauline Kael, que fez história na The New Yorker, colecionou cartas de ódio de alguns de seus resenhados. Ridley Scott disse que, depois de um comentário dela, nunca mais leu crítica nenhuma. David Lean afirmou que Kael o impediu de filmar por 14 anos. Nenhum deles conseguiu silenciá-la e nem arranhar sua credibilidade.

O cenário atual do mundo do vinho, porém, torna a independência um ativo raro. Com o Guia Michelin controlando a publicação fundada por Parker e a Vinous de Galloni lucrando com eventos de produtores que ela mesma avalia, a linha entre a crítica isenta e os negócios torna-se cada vez mais turva. Como no teatro de Autran, nas linhas de Kael ou nas adegas, a verdade às vezes aparece quando as cortinas se fecham ou a porta da vinícola se tranca.

Retrospectiva 2021

17 de Dezembro de 2021

O ano de 2021 está chegando ao fim e 2022 vem aí, esperemos que não seja mais um ano da marmota. Muitas novidades chegaram ao mercado brasileiro e chegarão ainda mais a partir de janeiro, com destaque a estrelas piemontesas, como Burlotto e Roagna, assim como borgonhas raros, casos dos brancos de Coche Dury.

Chegou a hora de fazermos uma seleção daquilo que chamou a atenção das papilas gustativas. Vamos à lista sem nenhuma pretensão:

Restaurante: Lobozó. A pandemia foi cruel com muitos restaurantes e bares. Alguns fecharam as portas. Outros conseguiram se manter, mas na média geral as porções ficaram menores, ingredientes nobres perderam espaço e a conta ficou ainda mais salgada. No meio de muita areia em um amplo deserto, há alguns oásis, um deles é o Lobozó, na Vila Madalena, comida brasileira com gosto, preço e qualidade em um ambiente despojado. Dos arrozes ao frango recheado, passando pelo frango frito de entrada, tudo tem sabor.

Vinho do ano: Granbussia 2001. Poderi Aldo Conterno faz alguns dos melhores vinhos do planeta vitis, molda nebbiolos que mesclam longevidade, potência e elegância, uma rara combinação. Mescla de 70% de Romirasco, 15% de Cicala e 15% de Collonello, Granbussia é o topo da cadeia da vinícola, que, depois da morte do patriarca em 2012, é comandada pelos três filhos: Giacomo, Roberto e Franco. Os três não perderam o rumo, mantiveram a busca pela excelência, expressa em um número: a família poderia produzir mais de 200 mil garrafas, mas eles, num ano bom, produzem 80 mil garrafas. Esse Granbussia 2001 é um vinho que começa a deixar a adolescência, tem ainda fruta vibrante e um leve toque floral, com um fundo de sous bois que ainda ganhará com o envelhecimento toques nobres de trufas brancas.

Novidades:Novidade de borbulhas:

Uma das melhores novidades que chegaram ao Brasil nesse ano foram as champagnes Barrat Masson pela @uvavinhos. Essa aqui tem 70% de chardonnay e 30% de pinot noir, aromas de manteiga, maçã verde, mineralidade sempre presente. Gastronômico, profundo, delicioso. Na pré-venda são pechinchas.

A segunda novidade vem do terroir mais procurado pelos conhecedores. Vinhos brancos da Bourgogne estão cada vez mais caros. Nos próximos anos, se o bolso continuar o mesmo, será importante ficar de olho em regiões menos badaladas, como a Côte Chalonaise. Ali existem muitos ótimos terroirs, como Rully, que nas mãos de Dureuil Janthial faz grandes vinhos. Vêm pela @claretsbrasil

Qualidade preço

A Wines4U tem um dos mais caprichados portfólios do mercado brasileiro, com vinhos muito bem selecionados e com ótimo preço. Uma dica preciosa são os beaujolais do Domaine Chermette, três estrelas na revista de vinhos da França e um dos preferidos de John Gilman. O Trois Roches é uma beleza, duro é aguentar e separar uma garrafa para envelhecer, tamanho o prazer que ele proporciona hoje. Na mesma wines4U, palmas para os albarinos de Rias Baixas de Alberto Nanclares, ambos gastronômicos e instigantes.

Encontrar bourgognes tintos de bom preço é difícil. Maranges é um terroir pouco badalado, mas as mãos habilidosas dos irmãos Chevrot poderão torná-lo um domaine baladado como o de Sylvain Pataille em Marsannay. Maranges fica ao sul de Beaune. Seus tintos são muito mais reputados que os brancos. Nas palavras de Clive Coates, produzem-se ali vinhos “honestos, robustos e rústicos, no melhor sentido”. Pablo e Vincent Chevrot são o principal nome desse terroir. Sur le Chêne é um dos vinhedos que têm ganho atenção da crítica francesa e inglesa. Vêm pela Anima Vinum.

Vinhos italianos são uma bela opção quando o assunto é enogastronomia, eles crescem com comida. A Italy Import tem trazido algumas ótimas opções. Destaco duas delas. Uma é o Chianti Classico 2018 de Riecine, que mostra toda a versatilidade e elegância da sangiovese, parceiro perfeito de pastas al sugo. Na mesma Italy Import, destaque-se o barbera de principiano ferdinando, uma barbera festiva, com acidez intensa, que faz salivar e pensar no molho de macarrão que o acompanhará. O produtor faz ainda caprichados barolos.

Retrospectiva 2019

31 de Dezembro de 2019

Ano de muita fartura e alta qualidade. Foram mais de 500 garrafas de alto nível, todas elas sonho de consumo de muito enófilos. Safras históricas como Sassicaia 85, Mouton 45, Hermitage La Chapelle 78, Yquem 21, entre outros.

e94bf8c2-35f1-42b2-bf54-174f55cc3aa8a nata DRC em grandes safras!

Separando por tipos, poderíamos fazer várias seleções num mundo ideal. Foram muitas borbulhas, brancos, tintos, Yquens, e grandes Portos.

img_6902rótulo dourado: Um dos melhores P3 da história!

Champagne

Foram muitos entre Krug, Cristal e Dom Perignon, os champagnes que mais prevaleceram nos encontros. No entanto, o destaque fica para o Dom Perignon P3, não disponível no Brasil. Com mais de 20 anos sur lies, esta maravilha tem uma cremosidade e delicadeza sem igual. Amplo, perfeito, num final de alto acabamento.

img_7081-1um dos mais exclusivos desta apelação numa safra perfeita

Brancos

Embora alguns riesling e grandes Bordeaux brancos tenham desfilados, os brancos da Borgonha reinaram absolutos com produtores do quilate de Roulot, Coche-Dury, Leroy, Domaine Leflaive, Ramonet, entre outros. Para os Chablis, Raveneau e Dauvissat jogam na Premier League.

img_7079-1uma promessa e a safra perfeita, 1970

Tintos

Embora os grandes Bordeaux e os espetaculares borgonhas possam dar conta do recado com folga, os tintos do Rhône, os cult wines americanas, e alguns italianos, completaram a lista dos grandes tintos degustados. 

Escolher alguns dos Bordeaux é tão difícil que as injustiças são inexoráveis. Poderíamos citar a turma de 82 como Latour, Pichon Lalande, Le Pin, entre outros tantos. Para destacar algum, vamos de Petrus, o Bordeaux mais enigmático e difícil de atingir o ponto ideal. Uma garrafa perfeita de Petrus 70 com seus quase 50 anos, justifica plenamente a fama deste mítico vinho. Totalmente acessível, sedutor, mas com uma força e estrutura que nenhum outro Merlot é capaz de alcançar.

img_5880Cros-Parantoux: lieu-dit criado por Jayer

Dos Borgonhas, o assunto fica ainda mais complicados. Produtores com Rousseau, Mugnier, e Ponsot, fazem verdadeiras obras-primas, sobretudo em safras espetaculares como 85. Destaque especial para o Hospices de Beaune Mazis-Chambertin de Madame Leroy 1985. Um vinho para sonhar. Menção especial para o mestre Jayer com seus Cros Parantoux e Richebourg, degustados algumas vezes neste ano. Para falar dos DRC, vamos ficar com o La Tache, um vinho completo que representa com louvor a prole, bem mais simpático que o sisudo Romanée-Conti. Não estarei vivo para confirmar, mas o La Tache 99 será um dos grandes borgonhas daqui a 20 ou 30 anos, justificando as palavras de Hugh Johnson: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

img_7001Jaboulet e Chave: o epítome em Hermitage

Da parte do Rhône, vinhos pouco degustados este ano, comparativamente, a trilogia Guigal continua impecável. Dos Hermitages, La Chapelle de Jaboulet e Cuvée Cathelin de Jean Louis Chave, chegam à perfeição, sem muito espaço para os demais produtores. Os La Chapelle 90 e 78 são inesquecíveis. O primeiro uma promessa, o segundo uma realidade. São vinhos viris que demandam décadas de amadurecimento.  Dos Cuvée Cathelin, a safra de 90, a primeira que deu origem à série, é perfeita e difícil de ser ombreada.

img_6044Harlan: O Latour das Américas

Dos americanos, difícil bater um Harlan Estate, o Latour das Américas. Dominus, o mais bordalês dos americanos, sempre uma boa pedida. Dos exóticos e espetaculares vinhos com inspiração no Rhône, a butique Sine Qua Non faz coisas surpreendentes e fora da curva. Nenhum país do Novo Mundo chega perto destes vinhos. O grande problema é que são caros demais, mais caros até que os originais franceses.

img_5639obras-primas dos irmãos Conterno

Da parte italiana, a briga dos irmãos Conterno está sempre em voga. Dos Monfortinos, o Barolo de escola clássica, menção especial para o 99, ainda muito vigoroso, e o sedutor 78 com seus terciários pedindo trufas. Da parte de Aldo Conterno, o Granbussia 2006 é uma grande promessa, enquanto o badalado 90 faz jus à fama. O 1988 é surpreendente e merece mais fama do que tem. Quanto a Angelo Gaja, sua trilogia continua mágica e seu Barolo tem alto refinamento. Em resumo, uma pitada da classe francesa na Itália, sem contar com seu branco Gaia & Rey, o Borgonha da Itália. 

a evolução perfeita e a promessa da juventude

Yquem e suas safras

Nos vinhos doces, alguns alemães desfilaram, bem como alguns Tokaji, mas o destaque ficou para os inúmeros Yquens degustados. Basicamente, há dois tipos de Yquem. Aqueles mais clarinhos, novos, com toda a força da juventude. Normalmente até seus vinte anos de idade. Daí pra frente, as cores vão ficando mais escuras, mais amarronzadas, equilibrando mais os açucares e ganhando complexidade aromática.

raridades em safras históricas

Portos

Dos fortificados, os Vintages foram os mais prestigiados. Nomes como Taylor´s, Graham´s, Fonseca, e Quinta do Noval, foram os mais degustados. Menção especial para o Noval Nacional, elaborado com parreiras pré-filoxera e de produção diminuta. Alguns Madeiras notáveis devem ser lembrados, sobretudo do século dezenove.

Enfim, um pouco do que foi degustado neste ano com alguns dos vinhos lembrados neste artigo. Outros tantos poderiam ser mencionados e ainda assim, injustiças seriam cometidas. Graças a Deus porque a fartura imperou. Esperemos que 2020 seja tão farto, generoso, e magnífico como 2019 que já deixa saudades. 

Feliz Ano Novo!

Briga de Barolos, trufas e muito mais

17 de Dezembro de 2019

Nos últimos eventos de 2019 grandes vinhos desfilaram em mesas refinadas onde as trufas brancas sempre roubam a cena. Entre champagnes, brancos, e tintos, destaque para os Barolos e bordeleses, os vinhos antigos se harmonizando com as trufas. Mais do que Barolos e Barbarescos para combinarem com elas, a idade do vinho e seus aromas terciários são a chave ideal para a combinação perfeita.

estilos diferentes e encantodores

Dois champagnes de luxo abrindo o jantar onde a composição de Chardonnay e Pinot Noir não difere muito, mas os estilos são bem diferentes. Normalmente, há uma leve predominância de Chardonnay no corte do Dom Perignon, o qual tem estilo mais leve, mais delicado, belo frescor e ótimo equilíbrio. Esses 19 anos não se mostraram na taça, tal a extrema juventude demonstrada.

Do lado do Cristal 2009, um champagne de mais corpo e estrutura com leve predominância da Pinot Noir sobre a Chardonnay. Longo em boca, começando com belo frescor e logo em seguida, uma cremosidade notável. Um champagne muito gastronômico.

tartar de salmão e vieiras

A leveza e acidez do tartar de salmão caiu muito bem com a textura e o frescor do Dom Perignon. Uma harmonização estimulante, sempre refazendo o paladar. Do lado das vieiras grelhadas, acompanhando foie gras e trufas, o champagne precisava ser mais rico e estruturado. A maciez e os aromas do Cristal foram muito bem com os sabores do prato.

Montrachet e camarões

O Montrachet Bouchard Pére & Fils em formato Imperial foi o suficiente para regar o jantar. Mesmo com seus 15 anos de idade, o vinho era de um frescor impressionante. Não está no time de cima dos grandes Montrachets, mas é muito elegante e equilibrado. Tem um estilo mais leve e agudo lembrando produtores como Leflaive e Ramonet num nível evidentemente um pouco abaixo. Com a cremosidade delicada do bobó de camarão, a harmonização ficou perfeita.

duas imperiais em momentos distintos de evolução

Os grandes formatos, no caso imperial, ficaram como o Mouton 1975 e o Margaux 95. No caso do Mouton, um vinho maduro, de corpo médio, não muito longo em boca, mas muito equilibrado e com todos os terciários de um grande Pauillac, caixa de charutos, café, e ervas finas. 

Para o Margaux 95, um vinho ainda em transição, saindo da juventude e começando a entrar na maturidade. Mais encorpado que o Mouton, maior carga tânica, embora de alta qualidade, e mais longo em boca. Os aromas florais, de sous-bois, e toques minerais, eram evidentes. Deve evoluir bem por mais vinte anos. Exemplo de um grande Margaux.

pratos de carne consistentes

Um filé mignon na mostarda com molho rôti para o Mouton 75 acompanhado de cuscuz marroquino. A mostarda tem a propriedade de equilibrar vinhos mais novos e ao mesmo tempo, levantar o sabor de vinhos mais maduros. Já para a costela cozida lentamente e defumada de sabores consistentes era exigido um vinho de maior corpo e estrutura. O Margaux 95 deu conta do recado. Sua densidade e tanicidade cairam muito bem. 

Encontro de Barolos e Barbarescos

img_7121Com 30 anos já podemos pensar em trufas

Pena que o Monfortino 88 estivesse levemente prejudicado, algo de bouchonné, embora pudéssemos notar sua grande estrutura. Um vinho de escola tradicional onde os toques terciários de trufas, alcatrão e notas terrosas, ficam bem salientados. Já o Granbussia 88 de Aldo Conterno estava surpreendentemente jovem pela idade, mas com lindos toques de evolução, sem perder a fruta. Foram muito bem com os pratos de trufas.

ravioloni e risoto zafferano

O ravioloni recheado de castanhas e porcini com queijo bel paese estava divino, sobretudo complementado pelas trufas brancas. Já o risoto zafferano é um clássico que dispensa comentários também com trufas raladas. Nem é preciso dizer que esses Barolos evoluídos harmonizaram muito bem. É bom frisar que não basta ser Barolo ou Barbaresco, o vinho precisa estar evoluído para dar liga na harmonização.

img_7127safras históricas de Monfortino

O Monfortino da esquerda não aparece na foto, mas é safra 1985 em formato Magnum. Embora já esteja no auge para ser bebido, esta garrafa está muito bem conservada, podendo evoluir por mais alguns anos. Um Barolo de raça, taninos possantes, e aromas etéreos. Tem 96 pontos. Já o Monfortino 1978 é um  Barolo histórico com 98 pontos e plenamente evoluido. Os toques terrosos, de trufas e alcatrão são didáticos. Para a maioria do pessoal, foi o vinho da degustação.

img_7126o Mestre Angelo Gaja

Aqui no mesmo ano 1989, vê-se claramente a diferença entre Barolo e Barbaresco num mesmo produtor. O Barolo é mais encorpado, mais tânico, mais viril. Agora um Barolo de Angelo Gaja tem uma classe a mais que é difícil de explicar. Uma finesse de aromas e taninos, além de um equilíbrio sensacional e fino acabamento. O Costa Russi, uma das três joias de Gaja é tão fino e delicado que nem parece italiano. Pode coloca-lo no meio de Borgonhas da apelação Pommard que passa fácil. Um tinto encantador com notas florais, de alcaçuz, cerejas escuras em licor, e muita mineralidade. Sensacional dueto!

Yquem e os queijos

Passando a régua, uma double Magnum de Yquem 1999 com vinte aninhos. Já em plena maturidade, um Yquem clássico, untuoso, cheio de botrytis, mel, damascos, caramelo e frutas exóticas. Muito equilibrio e de final longo. Para esta safra temos 13,8 graus de álcool e 128 gramas de açúcar residual por litro. Um prato de queijos de sabores intensos como Serra da Estrela, Brillat-Savarin e outros franceses, caiu como uma luva com o Yquem, fechando a refeição.

Que o Ano Novo comece tão farto quanto o crepúsculo do ano que se encerra com belos vinhos, boa mesa, e muita confraternização entre amigos. Saúde!