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O ônibus da Nutella que quase esvaziou Barolo

19 de Outubro de 2026

Nas colinas do Piemonte da década de 1980, alguns ônibus corporativos tinham apelido. Roberto Bruno, diretor comercial da Fontanafredda, lembra que os veículos que subiam as colinas para recolher os jovens dos vilarejos tinham a cor do Ferrero Rocher e que todos os chamavam de Super Crema. Desciam para Alba, para a fábrica de chocolate. Quem não embarcava neles pegava a estrada para Turim em direção às linhas de montagem da Fiat. “Ninguém queria ficar lá no Piemonte”, diz Bruno, que trabalha na região há quarenta anos e há 35 anos na vinícola histórica de Serralunga d’Alba, cujos rótulos são importados pelo Grupo Wine.

O apelido tinha origem. Supercrema era o nome do creme de avelã e cacau que a Ferrero lançou em 1949 e que, em 1964, passou a se chamar Nutella. A empresa criou o transporte gratuito para quem morava fora de Alba. Na memória de Bruno, o mesmo veículo levava os rapazes para longe das vinhas, que viviam uma crise histórica.

Em março de 1986, garrafas de vinho tinto com a uva Barbera e de branco saídas da cantina Ciravegna chegaram ao mercado com metanol acima do limite legal. O álcool metílico servia para alcançar o teor alcoólico mínimo a custo baixo. Segundo a revista Gambero Rosso, morreram 23 pessoas e 153 foram intoxicadas, com muitos passando meses em internações. Os responsáveis pela vinícola foram condenados à prisão. Durante meses, o Piemonte apareceu no noticiário estrangeiro ao lado da palavra veneno.

Depois do escândalo vieram as colheitas ruins. Choveu na hora errada. Os anos de 1991 e 1992 terminaram sob chuva em setembro quando era época de as uvas florescerem, 1993 repetiu o padrão no fim da colheita e, em 1994, a chuva prolongada comprometeu a maior parte da produção. Foram quatro anos seguidos de Barolo sem estrutura para envelhecer, vendido a quem ainda comprava. Foi nesse intervalo, conta Bruno, que ele pensou em largar o vinho e o cargo na Fontanafredda. “Será que não havia um outro trabalho e uma outra área para ganhar dinheiro?”

Diante de safras difíceis ou da busca por vinhos mais acessíveis e macios para o mercado global (especialmente os EUA e o Reino Unido), ressurgiram discussões naqueles anos sobre se a região deveria abrir margem para tolerar pequenas porcentagens de outras uvas (como a Barbera) para corrigir acidez ou amaciar taninos jovens, ou se o 100% Nebbiolo deveria ser rigidamente blindado. “Os produtores mantiveram as regras e isso se provou acertado, porque preservou a história.”

A propriedade onde ele está há 35 anos está ligada à história do vinho dos reis, como é chamado o Barolo, epíteto dado não à toa. Kerin O’Keefe reconstrói a origem no livro Barolo and Barbaresco (University of California Press, 2014). Carlo Alberto, rei da Sardenha, já fazia Barolo nas propriedades reais de Verduno e Pollenzo quando abdicou, em 1849. O filho, Vittorio Emanuele II, parava nas estrebarias de Fontanafredda para trocar de cavalo durante as caçadas. Decidiu plantar Nebbiolo ali e instalar na propriedade os dois filhos que teve com a amante, Rosa Vercellana, a Bela Rosin. Fundou a propriedade em 1858, começou a plantar em 1864 e registrou as terras em nome das crianças, Maria Vittoria e Emanuele Alberto. Um documento no Arquivo de Estado de Turim menciona um “Barolo 1865” e um “Nebiolo Barolo 1868”, com a uva grafada com um b a menos. Os trabalhadores recebiam em moedas de ouro e em mantimentos.

Em 1887, segundo O’Keefe, a vinícola abriu a adega ao público, antes de qualquer outro produtor da região. Ganharam medalhas de ouro em Bruxelas, em 1888, e em Berlim, em 1892. Em 1915 a propriedade empregava duzentos homens, cujas mulheres e filhos moravam ali. A propriedade construiu escola, igreja e um forno comunitário e custeava a previdência dos empregados.

A Primeira Guerra levou milhares de homens às trincheiras. A colheita ficou com as mulheres, as crianças e prisioneiros austríacos. O granizo de 1917 destruiu parte da safra. Houve mudanças no comanda da empresa logo depois do fim da guerra. Os novos donos demitiram a maioria dos trabalhadores e voltaram à mezzadria, a parceria agrícola que O’Keefe descreve como resquício feudal. Em 1930, a Fontanafredda quebrou. Dois anos depois, o banco Monte dei Paschi di Siena, credor da vinícola, assumiu o controle. Quando a Itália virou uma República, os bens da realeza foram confiscados. O banco, da Toscana, manteve seu controle sobre a vinícola.

Sob o banco, a vinícola passou a vinificar separadamente, a partir de 1964, os melhores crus de Barolo. Para comprar uva além da própria, recorria aos intermediários. como Bruno Giacosa, um dos mais famosos produtores de vinho da Itália. Roberto Bruno diz que Giacosa conhecia cada terreno daquelas colinas como poucos, levava a uva das famílias às vinícolas mesmo nos anos em que ninguém queria comprar e tinha os contatos que os pequenos produtores não tinham. Antes de assinar alguns dos Barolos e Barbarescos mais disputados do século, Giacosa mantinha o mercado de uva funcionando. Por isso é reverenciado até hoje por muitos.

Nos anos 1980, enquanto vizinhos transformavam vinhedo em rótulo próprio, a produção da Fontanafredda estagnou. Na década seguinte, o nome passou a ser sinônimo de vinho de gôndola de supermercado. Em 1996, segundo O’Keefe, os gestores do Monte dei Paschi admitiram que banqueiros não sabiam tocar uma fazenda e contrataram o agrônomo Giovanni Minetti para refazer vinhedo, adega e imagem. Vieram mudanças. A vinícola encampou o movimento de criar espumante de alta qualidade a partir das colinas, um segmento que tem crescido, segundo Roberto Bruno.

Em 2008, Oscar Farinetti, dono da Eataly, e o sócio Luca Baffigo compraram o controle num negócio que avaliou a propriedade em 90 milhões de euros, segundo a revista Wine Spectator. Hoje a empresa informa ter 120 hectares de vinhedos com certificação orgânica. “Vivi a realidade em que a gestão era quase estatal e depois da aquisição, são dois momentos bem diferentes, ali era engessado, hoje se ganhou flexibilidade”, diz Bruno, cuja rotina é marcada por cerca de 200 voos por ano. “Antes era dificílimo vender barolo ou os vinhos do piemonte, hoje a realidade é outra.”

Em 2016, a Vietti, tradicional vinícola de Castiglione Falletto, um dos 11 terroirs cujas uvas integram a denominação de Barolo, foi comprada por uma família dos Estados Unidos. O valor não foi divulgado. O jornal La Stampa falou em cerca de 55,6 milhões de dólares. Bruno diz que hoje seria muito mais. “Um hectare pode valer mais de 2 milhões de euros, grupos de luxo da França e outros países estão de olho.”

A reviravolta econômica reescreveu a paisagem humana: se antes havia êxodo rumo às linhas de montagem de chocolates ou carros, hoje se vive uma explosão turística que inverteu o fluxo migratório. A região passou a atrair profissionais do exterior e de outras partes do país para sustentar a cadeia enogastronômica, diz Bruno. A guinada reflete-se na infraestrutura erguida nas últimas décadas, com dezenas de hotéis boutique e uma densidade maior de alta cozinha — contando hoje com cerca de 15 restaurantes estrelados pelo Guia Michelin em um raio de apenas 20 quilômetros ao redor de Alba.

Os barolos de Luciano Sandrone

13 de Junho de 2025

Quando a unificação italiana ocorreu na metade do século XIX, promovida pela Casa de Savoia, um vinho ganhou projeção à mesa entre os nobres: o barolo, feito com as uvas Nebbiolo, colhidas no Piemonte, norte do país. Escolhido pela dinastia real italiana, foi batizado como o vinho dos reis ou o rei dos vinhos.

Assim como as dinastias, o mais famoso vinho da Itália tem passado por transformações, seja pela emergência de uma nova geração de produtores, seja com os impactos das mudanças climáticas e dos preços cada vez mais elevados das terras, o que tem despertado a atenção de olhares estrangeiros.

Um dos capítulos da história dos últimos 50 anos de barolo e do vinho italiano é escrito pela família de Luciano Sandrone, cuja filha, Barbara, esteve recentemente em São Paulo, em evento da importadora Clarets. Quando a família Sandrone se mudou para a cidade de Barolo, tornou-se vizinha de Giacomo Borgogno, um dos mais famosos produtores da região. O pai de Luciano era carpinteiro, mas alergia ao pó de madeira e horas vendo o vinho sendo feito no vizinho levaram Luciano à enologia.

Aos 18 anos, bateu à porta do vizinho e conseguiu um emprego na linha de frente da produção de Giacamo Borgogno. Começou a guardar dinheiro e em 1977, aos 30 anos, comprou uma parcela de videiras em Cannubi Boschis, um pedaço de terra reputado pelos barolos ali plantados.

Um ano depois, em 1978, na sua garagem, começou a vinificar 1500 garrafas, mantendo em paralelo seu trabalho de enólogo nas vinícolas de Giacomo Borgogno e Marchesi di Barolo. “Ele precisava de dinheiro e queria fazer seus vinhos, seguir um caminho próprio e isso coincidiu com mudanças no cenário”, recorda-se Barbara.  

O vinho italiano no início dos anos 1980 começou a mudar. Em 1981, foi lançada a primeira Vinitaly, feira realizada na Itália com a intenção de reunir produtores de diferentes regiões do país e compradores de todos os países. Os vinhos de Luciano agradaram a compradores dos Estados Unidos e Suíça.

Em paralelo, a nova geração de viticultores adotava novas técnicas. Na maneira tradicional, os produtores usavam grandes toneis de madeira para envelhecer o barolo buscando obter garrafas que evoluíssem por anos. Já a nova geração buscava vinhos mais acessíveis na juventude e mais precisão na colheita e na adega. Luciano se tornou o que a literatura enológica chama de “barolos boys”, um movimento que chacoalhou a região, buscando incorporar novas tecnologias, tornando até hoje difícil definir a tênue linha entre modernistas e tradicionalistas.

Manteve um pé no moderno e outro na tradição. Barolos eram fermentados por até 30-50 dias, o que gerava vinhos extremamente tânicos e duros na juventude. Sandrone reduziu esse tempo para cerca de 10-12 dias, com controle rigoroso de temperatura, preservando o frescor da fruta e suavizando os taninos.  Entre os toneis dos tradicionalistas e as barricas francesas de 228 litros de modernistas, ficou no meio caminho: com barris de 500 litros para envelhecer seus vinhos.

Em 1990, um de seus vinhos recebeu 100 pontos, a nota máxima dada pelo crítico norte-americano Robert Parker. O reconhecimento fez com que pudesse se concentrar apenas em sua vinícola, que em 1999 deixou a garagem e ganhou espaço próprio.

Luciano morreu em 2023. Antes, em 2017, fez uma alteração histórica no seu rótulo mais famoso: Cannubi Boschis foi batizado de Aleste, a junção dos nomes da terceira geração, Alessia e Stefano, filhos de Barbara. Alessia trabalha na vinificação, Stefano estuda economia agrária. Integram a terceira geração da vinícola familiar, cuja produção é de pouco mais de 140 mil garrafas. “Sempre foi uma preocupação manter a produção familiar”, diz. O ambiente mudou nas últimas décadas.

Um hectare de terra em Barolo custa milhões de euros e atrai o olhar de empresários do mundo todo em um ambiente que tradicionalmente estava nas mãos de agricultores. “Por enquanto a região tem conseguido manter suas raízes, mas há muitos empresários que cobiçam a região para fazer vinhos”, diz Barbara.

Não é a única ameaça. O aquecimento global tem mudado não apenas a data das férias da família, mas também trazido outras preocupações: redes de proteção têm sido colocadas para evitar que a irradiação solar provoque manchas nas videiras e traga doenças. Ainda não é possível avaliar a nova técnica. “Nos últimos três anos, foi uma sucessão de eventos, um ano teve muita chuva, em outro, muito sol, em outro granizo”, afirma. A data de colheita em um ano pode ser em outubro, em outro, em novembro.

Com grande potencial de envelhecimento, os barolos são vinhos que ganham com anos ou décadas de adega. A nova geração tem paciência? “Sim, mas temos visto que muitos nos Estados Unidos, depois da pandemia, passaram a dar menos atenção à enogastronomia. O vinho italiano ganha muito com a comida. Já os asiáticos estão cada vez mais atentos a combinar sua culinária com nossos vinhos”, diz Barbara, que depois do Brasil tem viagem marcada para o Japão. A garagem da família Sandrone ganhou o mundo.

Retrospectiva 2019

31 de Dezembro de 2019

Ano de muita fartura e alta qualidade. Foram mais de 500 garrafas de alto nível, todas elas sonho de consumo de muito enófilos. Safras históricas como Sassicaia 85, Mouton 45, Hermitage La Chapelle 78, Yquem 21, entre outros.

e94bf8c2-35f1-42b2-bf54-174f55cc3aa8a nata DRC em grandes safras!

Separando por tipos, poderíamos fazer várias seleções num mundo ideal. Foram muitas borbulhas, brancos, tintos, Yquens, e grandes Portos.

img_6902rótulo dourado: Um dos melhores P3 da história!

Champagne

Foram muitos entre Krug, Cristal e Dom Perignon, os champagnes que mais prevaleceram nos encontros. No entanto, o destaque fica para o Dom Perignon P3, não disponível no Brasil. Com mais de 20 anos sur lies, esta maravilha tem uma cremosidade e delicadeza sem igual. Amplo, perfeito, num final de alto acabamento.

img_7081-1um dos mais exclusivos desta apelação numa safra perfeita

Brancos

Embora alguns riesling e grandes Bordeaux brancos tenham desfilados, os brancos da Borgonha reinaram absolutos com produtores do quilate de Roulot, Coche-Dury, Leroy, Domaine Leflaive, Ramonet, entre outros. Para os Chablis, Raveneau e Dauvissat jogam na Premier League.

img_7079-1uma promessa e a safra perfeita, 1970

Tintos

Embora os grandes Bordeaux e os espetaculares borgonhas possam dar conta do recado com folga, os tintos do Rhône, os cult wines americanas, e alguns italianos, completaram a lista dos grandes tintos degustados. 

Escolher alguns dos Bordeaux é tão difícil que as injustiças são inexoráveis. Poderíamos citar a turma de 82 como Latour, Pichon Lalande, Le Pin, entre outros tantos. Para destacar algum, vamos de Petrus, o Bordeaux mais enigmático e difícil de atingir o ponto ideal. Uma garrafa perfeita de Petrus 70 com seus quase 50 anos, justifica plenamente a fama deste mítico vinho. Totalmente acessível, sedutor, mas com uma força e estrutura que nenhum outro Merlot é capaz de alcançar.

img_5880Cros-Parantoux: lieu-dit criado por Jayer

Dos Borgonhas, o assunto fica ainda mais complicados. Produtores com Rousseau, Mugnier, e Ponsot, fazem verdadeiras obras-primas, sobretudo em safras espetaculares como 85. Destaque especial para o Hospices de Beaune Mazis-Chambertin de Madame Leroy 1985. Um vinho para sonhar. Menção especial para o mestre Jayer com seus Cros Parantoux e Richebourg, degustados algumas vezes neste ano. Para falar dos DRC, vamos ficar com o La Tache, um vinho completo que representa com louvor a prole, bem mais simpático que o sisudo Romanée-Conti. Não estarei vivo para confirmar, mas o La Tache 99 será um dos grandes borgonhas daqui a 20 ou 30 anos, justificando as palavras de Hugh Johnson: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

img_7001Jaboulet e Chave: o epítome em Hermitage

Da parte do Rhône, vinhos pouco degustados este ano, comparativamente, a trilogia Guigal continua impecável. Dos Hermitages, La Chapelle de Jaboulet e Cuvée Cathelin de Jean Louis Chave, chegam à perfeição, sem muito espaço para os demais produtores. Os La Chapelle 90 e 78 são inesquecíveis. O primeiro uma promessa, o segundo uma realidade. São vinhos viris que demandam décadas de amadurecimento.  Dos Cuvée Cathelin, a safra de 90, a primeira que deu origem à série, é perfeita e difícil de ser ombreada.

img_6044Harlan: O Latour das Américas

Dos americanos, difícil bater um Harlan Estate, o Latour das Américas. Dominus, o mais bordalês dos americanos, sempre uma boa pedida. Dos exóticos e espetaculares vinhos com inspiração no Rhône, a butique Sine Qua Non faz coisas surpreendentes e fora da curva. Nenhum país do Novo Mundo chega perto destes vinhos. O grande problema é que são caros demais, mais caros até que os originais franceses.

img_5639obras-primas dos irmãos Conterno

Da parte italiana, a briga dos irmãos Conterno está sempre em voga. Dos Monfortinos, o Barolo de escola clássica, menção especial para o 99, ainda muito vigoroso, e o sedutor 78 com seus terciários pedindo trufas. Da parte de Aldo Conterno, o Granbussia 2006 é uma grande promessa, enquanto o badalado 90 faz jus à fama. O 1988 é surpreendente e merece mais fama do que tem. Quanto a Angelo Gaja, sua trilogia continua mágica e seu Barolo tem alto refinamento. Em resumo, uma pitada da classe francesa na Itália, sem contar com seu branco Gaia & Rey, o Borgonha da Itália. 

a evolução perfeita e a promessa da juventude

Yquem e suas safras

Nos vinhos doces, alguns alemães desfilaram, bem como alguns Tokaji, mas o destaque ficou para os inúmeros Yquens degustados. Basicamente, há dois tipos de Yquem. Aqueles mais clarinhos, novos, com toda a força da juventude. Normalmente até seus vinte anos de idade. Daí pra frente, as cores vão ficando mais escuras, mais amarronzadas, equilibrando mais os açucares e ganhando complexidade aromática.

raridades em safras históricas

Portos

Dos fortificados, os Vintages foram os mais prestigiados. Nomes como Taylor´s, Graham´s, Fonseca, e Quinta do Noval, foram os mais degustados. Menção especial para o Noval Nacional, elaborado com parreiras pré-filoxera e de produção diminuta. Alguns Madeiras notáveis devem ser lembrados, sobretudo do século dezenove.

Enfim, um pouco do que foi degustado neste ano com alguns dos vinhos lembrados neste artigo. Outros tantos poderiam ser mencionados e ainda assim, injustiças seriam cometidas. Graças a Deus porque a fartura imperou. Esperemos que 2020 seja tão farto, generoso, e magnífico como 2019 que já deixa saudades. 

Feliz Ano Novo!

Briga de Barolos, trufas e muito mais

17 de Dezembro de 2019

Nos últimos eventos de 2019 grandes vinhos desfilaram em mesas refinadas onde as trufas brancas sempre roubam a cena. Entre champagnes, brancos, e tintos, destaque para os Barolos e bordeleses, os vinhos antigos se harmonizando com as trufas. Mais do que Barolos e Barbarescos para combinarem com elas, a idade do vinho e seus aromas terciários são a chave ideal para a combinação perfeita.

estilos diferentes e encantodores

Dois champagnes de luxo abrindo o jantar onde a composição de Chardonnay e Pinot Noir não difere muito, mas os estilos são bem diferentes. Normalmente, há uma leve predominância de Chardonnay no corte do Dom Perignon, o qual tem estilo mais leve, mais delicado, belo frescor e ótimo equilíbrio. Esses 19 anos não se mostraram na taça, tal a extrema juventude demonstrada.

Do lado do Cristal 2009, um champagne de mais corpo e estrutura com leve predominância da Pinot Noir sobre a Chardonnay. Longo em boca, começando com belo frescor e logo em seguida, uma cremosidade notável. Um champagne muito gastronômico.

tartar de salmão e vieiras

A leveza e acidez do tartar de salmão caiu muito bem com a textura e o frescor do Dom Perignon. Uma harmonização estimulante, sempre refazendo o paladar. Do lado das vieiras grelhadas, acompanhando foie gras e trufas, o champagne precisava ser mais rico e estruturado. A maciez e os aromas do Cristal foram muito bem com os sabores do prato.

Montrachet e camarões

O Montrachet Bouchard Pére & Fils em formato Imperial foi o suficiente para regar o jantar. Mesmo com seus 15 anos de idade, o vinho era de um frescor impressionante. Não está no time de cima dos grandes Montrachets, mas é muito elegante e equilibrado. Tem um estilo mais leve e agudo lembrando produtores como Leflaive e Ramonet num nível evidentemente um pouco abaixo. Com a cremosidade delicada do bobó de camarão, a harmonização ficou perfeita.

duas imperiais em momentos distintos de evolução

Os grandes formatos, no caso imperial, ficaram como o Mouton 1975 e o Margaux 95. No caso do Mouton, um vinho maduro, de corpo médio, não muito longo em boca, mas muito equilibrado e com todos os terciários de um grande Pauillac, caixa de charutos, café, e ervas finas. 

Para o Margaux 95, um vinho ainda em transição, saindo da juventude e começando a entrar na maturidade. Mais encorpado que o Mouton, maior carga tânica, embora de alta qualidade, e mais longo em boca. Os aromas florais, de sous-bois, e toques minerais, eram evidentes. Deve evoluir bem por mais vinte anos. Exemplo de um grande Margaux.

pratos de carne consistentes

Um filé mignon na mostarda com molho rôti para o Mouton 75 acompanhado de cuscuz marroquino. A mostarda tem a propriedade de equilibrar vinhos mais novos e ao mesmo tempo, levantar o sabor de vinhos mais maduros. Já para a costela cozida lentamente e defumada de sabores consistentes era exigido um vinho de maior corpo e estrutura. O Margaux 95 deu conta do recado. Sua densidade e tanicidade cairam muito bem. 

Encontro de Barolos e Barbarescos

img_7121Com 30 anos já podemos pensar em trufas

Pena que o Monfortino 88 estivesse levemente prejudicado, algo de bouchonné, embora pudéssemos notar sua grande estrutura. Um vinho de escola tradicional onde os toques terciários de trufas, alcatrão e notas terrosas, ficam bem salientados. Já o Granbussia 88 de Aldo Conterno estava surpreendentemente jovem pela idade, mas com lindos toques de evolução, sem perder a fruta. Foram muito bem com os pratos de trufas.

ravioloni e risoto zafferano

O ravioloni recheado de castanhas e porcini com queijo bel paese estava divino, sobretudo complementado pelas trufas brancas. Já o risoto zafferano é um clássico que dispensa comentários também com trufas raladas. Nem é preciso dizer que esses Barolos evoluídos harmonizaram muito bem. É bom frisar que não basta ser Barolo ou Barbaresco, o vinho precisa estar evoluído para dar liga na harmonização.

img_7127safras históricas de Monfortino

O Monfortino da esquerda não aparece na foto, mas é safra 1985 em formato Magnum. Embora já esteja no auge para ser bebido, esta garrafa está muito bem conservada, podendo evoluir por mais alguns anos. Um Barolo de raça, taninos possantes, e aromas etéreos. Tem 96 pontos. Já o Monfortino 1978 é um  Barolo histórico com 98 pontos e plenamente evoluido. Os toques terrosos, de trufas e alcatrão são didáticos. Para a maioria do pessoal, foi o vinho da degustação.

img_7126o Mestre Angelo Gaja

Aqui no mesmo ano 1989, vê-se claramente a diferença entre Barolo e Barbaresco num mesmo produtor. O Barolo é mais encorpado, mais tânico, mais viril. Agora um Barolo de Angelo Gaja tem uma classe a mais que é difícil de explicar. Uma finesse de aromas e taninos, além de um equilíbrio sensacional e fino acabamento. O Costa Russi, uma das três joias de Gaja é tão fino e delicado que nem parece italiano. Pode coloca-lo no meio de Borgonhas da apelação Pommard que passa fácil. Um tinto encantador com notas florais, de alcaçuz, cerejas escuras em licor, e muita mineralidade. Sensacional dueto!

Yquem e os queijos

Passando a régua, uma double Magnum de Yquem 1999 com vinte aninhos. Já em plena maturidade, um Yquem clássico, untuoso, cheio de botrytis, mel, damascos, caramelo e frutas exóticas. Muito equilibrio e de final longo. Para esta safra temos 13,8 graus de álcool e 128 gramas de açúcar residual por litro. Um prato de queijos de sabores intensos como Serra da Estrela, Brillat-Savarin e outros franceses, caiu como uma luva com o Yquem, fechando a refeição.

Que o Ano Novo comece tão farto quanto o crepúsculo do ano que se encerra com belos vinhos, boa mesa, e muita confraternização entre amigos. Saúde!