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Alejandro Vigil: desafios incessantes

4 de Maio de 2026

Alejandro Vigil pretende escrever um livro de contos. Um deles começa com uma garrafa de Saint Felicien 1997, bebida, no fim dos anos 1990, com sua esposa, Maria, e um casal de amigos, em um restaurante em Mendoza, sua terra natal.

A Argentina vivia a dolarização da sua economia: um peso equivalia a um dólar. Na carta de vinhos, a garrafa saía por cerca de 80 pesos. Resolveram se apertar no orçamento e comprar o vinho. Era um vinho histórico: no início dos anos 1960 foi o primeiro na Argentina a ser feito com uma única uva e destacar no rótulo a variedade.

Quando terminaram a garrafa, Vigil brincou dizendo que um dia iria trabalhar na vinícola. Era a brincadeira de quem ainda não sabia exatamente o que queria, mas já sabia o que admirava. Em 2001, foi contratado pela Catena Zapata, cuja história no mundo enológico ajudou a revolucionar a viticultura sul-americana e posicionar o vinho argentino da Europa aos Estados Unidos, da Ásia ao Oriente Médio.

Vigil chegou ao trabalho com histórico de ter liderado no Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária, a Embrapa argentina, um projeto de laboratório de análise de solo. Começou a mapear como altitude e composição mineral se traduziam em características distintas no Malbec; à época, uma uva tratada como trivial, sem o prestígio posterior. Foi essa expertise técnica que o levou à Catena Zapata, contratado para desenvolver um trabalho de caracterização de parcelas, como os franceses havia séculos faziam.

Mendoza é uma terra de extremos, onde a cordilheira dita as regras e o granizo pode acabar com o patrimônio em minutos. Vigil mostra o braço arrepiado ao recordar-se de estar em casa, quando tinha oito anos e o céu desabou no momento do jantar em um dia do fim de dezembro. O som das pedras de granizo batendo no teto de chapa de zinco era ensurdecedor, um prenúncio de ruína. Até hoje o som volta quando ele se recorda da noite maldormida. A família plantava tomates e batatas principalmente; aquela era a subsistência do ano, a dez dias de ser colhida. Enquanto o menino Vigil se desesperava diante da destruição branca que cobria o campo, seu avô manteve-se calmo.

“Aprendi o que era resiliência sem saber que a palavra existia no dicionário”, conta Vigil, emocionado. No dia seguinte à tempestade, o avô levantou-se como se nada tivesse ocorrido. A avó lhe disse que era um dia de trabalho como outro. Não houve lamento ou paralisia. Eles simplesmente caminharam até o campo devastado e começaram a preparar o solo novamente. A terra criava e também destruía. A lição mostrou que seu destino estava ligado a ela: a terra o atraía tanto que ele, que jogou rugby profissionalmente em adolescente, trocou os campos por vinhedos.

No início dos anos 2000, o mercado internacional estava dominado pelo estilo que Robert Parker havia consagrado e Michel Rolland propagava: vinhos concentrados, com extração máxima e muito carvalho novo. Vigil conhecia pouco de vinho, mas tinha contato com vários produtores por seu trabalho no estudo do solo. Sabia que a Argentina podia trabalhar vinhedos como os franceses ressaltando diferenças de altitudes e solos. Suas referências se ampliaram na Catena, quando o dono, Nicolás Catena, reservou um orçamento para que Vigil pudesse beber rótulos de diversos países para ampliar suas referências. A dolarização da economia ajudava nisso. Vigil ainda gastava parte do salário para buscar ainda mais novidades.

Bebia naquele momento muitos vinhos dos Estados Unidos e de Bordeaux, depois vieram os Borgonhas e aí seu mundo se abriu. “Eu tinha a referência de vinhos encorpados, depois vi que havia elegância e sutilezas que eu desconhecia. Isso contribuiu para a ideia de caracterizar as diferenças do solo argentino.”

O salto na carreira veio no fim dos anos 2000. Nicolás Catena pediu a alguns dos colaboradores que fizessem um corte de cabernet sauvignon e malbec para que ele experimentasse. Seria a primeira vez que um vinho de mescla de uvas ganharia tratamento especial de madeira e lançamento badalado no exterior: um vinho elegante com ares de Bordeaux. Catena bebeu às cegas dez vinhos e escolheu a amostra de Vigil. O rótulo chegou ao mercado, ficou na preferência de críticos em uma degustação às cegas com rótulos franceses famosos e levou Vigil ao cargo de enólogo chefe de Catena.

Nos anos 2000, após uma viagem à Borgonha com a família Catena, mais uma guinada em sua carreira. Ao visitarem produtores famosos de brancos, Vigil compreendeu que o Chardonnay não era sobre madeira, mas sobre a capacidade da uva de traduzir as características de um solo específico. Na volta, resolveu escolher sete parcelas diferentes de solo e altitudes e plantar com a uva Chardonnay. Cinco anos depois do plantio, duas parcelas deram resultados. Dali nasceram ícones como o White Bones e o White Stones.

Simultaneamente, mudava a filosofia com o Malbec. Menos intervenção, colheitas que respeitavam o frescor e um abandono progressivo da madeira nova. “Menos era mais”, resume. O ano de 2011 aparece como o ponto de inflexão, quando a vinícola parou de homogeneizar as parcelas e passou a tratá-las como únicas.

Vigil tem hoje duas tatuagens nos braços — uvas e os nomes dos seus dois filhos. Percorre até 700 quilômetros por dia durante a colheita para provar uvas em campo. Tem 25 anos de dados das mesmas parcelas anotados na cabeça. Não usa computador? Não anota num bloco de notas? “Assistentes anotam, quando precisa.”

Além de pensar em um livro de contos, está escrevendo um livro técnico, mas recusa o título de que escreverá sobre o terroir argentino. “Terroir precisa de 500 anos”, argumenta. Prefere falar em identidade.

Mantém a curiosidade como método e a negação do impossível. “Quando entrei na Catena, ouvi muitos falarem que nunca poderíamos fazer um Chardonnay importante,  nunca sairia um Cabernet Franc de qualidade. Hoje me dizem que não é possível fazer um Nebbiolo. Isso me motiva.”

No Vale de Uco, Nebbiolo, uma uva do norte da Itália, já está plantado a 1.600 metros. Vigil admite que provavelmente não verá o resultado final de muitos dos experimentos em sua plenitude, já que podem levar décadas. Mas ele sabe que as raízes das videiras, que hoje estão a 50 centímetros, chegarão a quatro metros de profundidade em algumas décadas. Como o avô que plantava tomates no dia seguinte ao granizo, Vigil trabalha para o futuro. “A raiz vai ficando”, diz ele. “É o que fica.”

Ficou famoso em 2018, quando a publicação de Robert Parker deu duas notas cem pontos para dois de seus vinhos. Foi o primeiro sul-americano a conquistar essa menção. Ele estava dirigindo pelas estradas do interior de Mendoza com sua esposa, quando recebeu a mensagem do importador da Dinamarca felicitando. O celular não pegava bem. Ele só entendeu quando conseguiu uma área com sinal. Chorou por uma hora relembrando sua história. “Pontos não são nada, mas mostram um vinho que provocou emoção em alguém em um momento”, diz ele, que já ganhou vários prêmios internacionais. Quando entrou em 2001, metade da produção era de cabernet sauvignon, 30% de chardonnay e o restante de malbec. Hoje, a malbec predomina, com 50%.

Além de produzir vinhos em sete regiões da Argentina e estar ao lado da mulher em dois restaurantes estrelados em Mendoza, resolveu se aventurar do outro lado do Atlântico. Seu projeto na Espanha, o El Reventón, é onde ele “tira férias trabalhando”. “É uma vinícola pequena, eu então uso as mãos na colheita, tenho uma relação ainda mais próxima com os vinhedos e estou perto de Madrid, onde percorro restaurantes e pratos, essa busca de harmonias me atrai.”

Ele dorme? “Pouco, mas ontem dormi sete horas”, diz na manhã da segunda-feira da entrevista. Vem para São Paulo seis vezes por ano, mais que Buenos Aires. Pretende agora tirar férias no Brasil em julho e levar a família para Fernando de Noronha. Talvez o livro de contos comece a ser escrito ali.

Pessoas, Vinhos e Festas

12 de Dezembro de 2019

As pessoas que gostam de vinho geralmente têm seus limites para compra-los. Nesta época do ano, Natal e Ano Novo são momentos que permitem provar algo novo, algo diferente, às vezes acima daquilo que bebemos no dia a dia. Pensando na questão, vamos imaginar três tipos de pessoas que efetivamente existem  e movimentam este mercado de vinhos cada vez mais pungente.

P1 – pessoas que têm certa dificuldade em comprar vinhos caros que podem comprometer seu orçamento. Vez por outra, se arriscam numa garrafa mais sofisticada.

P2 – pessoas que estão acostumadas a comprar bons vinhos, mas não podem comprar os ícones mundiais ou vinhos que atingem grande prestígio com preços alarmantes.

P3 – pessoas que buscam alta qualidade sem se importar com preços. Normalmente, frequentam grandes leilões internacionais e negociam grandes adegas particulares.

Feitas as descrições, vamos a algumas sugestões para as festas, sugerindo os tipos de vinhos mais procurados para estas ocasiões.

flutes-de-champagne

Borbulhas

Para o grupo P1, a melhor dica é ficar com os espumantes nacionais. É o nosso melhor tipo de vinho e tem preços interessantes comparados à concorrência. Cave Geisse, Pizzato, Valduga, e Chandon, são produtos seguros. Saindo um pouco do comum, o Chandon Excellence é uma boa experiência com preços um pouco mais elevados.

Para o grupo P2, Cavas mais sofisticados com longo tempo sur lies (contato com as leveduras) são muito interessantes. O espumante Ferrari, pessoalmente o melhor da Itália, é sempre uma pedida certa. Os belos Franciacorta, italianos da Lombardia, também devem ser lembrados.

Para o grupo P3, vamos falar só de champagne, a perfeição das borbulhas. E aí as opções são muitas. Nas cuvées de luxo, Dom Perignon, Cristal, todos da Krug, e Bollinger RD, são perfeitos. Dos champagnes fora do circuito conhecido, Jacquesson e Agrapart merecem ser conhecidos. Para os mais exóticos, Jacques Selosse dá um banho de enogastronomia.

tender de natal

Para o Tender

Tradicional nas mesas brasileiras, esta iguaria é uma peça de pernil cozida e defumada. Geralmente ele é servido com molho agridoce e frutas no acompanhamento. De todo modo, é uma entrada, um prato relativamente leve, mas saboroso. É claramente um cenário para vinhos brancos de certa doçura. 

Para o grupo P1, os moscatéis nacionais, tipo Asti Spumante, são os mais certeiros, bom e barato. Como o Brasil dispõe de alta tecnologia na vinificação, estes espumantes são muito bem feitos, não devendo nada aos comerciais e originais italianos, na maioria das vezes.

Para o grupo P2, podemos pensar nos belos Torrontés argentinos, especialmente os de Salta. Alguns vinhos da casta Viognier com toques florais podem dar certo. Uruguai e Argentina tem bons exemplares. Gewurztraminer é outra pedida, embora a baixa acidez seja um problema. Procure por safras mais novas.

Para o grupo P3, os Riesling alemães com vários graus de doçura são ótimos, especialmente os do Mosel, mais leves. A Alsace é a opção francesa mais confiável. No vale do Loire, os Vouvray com vários graus de doçura são muito interessantes, incluindo os espumantes, Fines Bulles ou Péttilant com a uva Chenin Blanc. O produtor Huet é referência absoluta.

peru de natal

Para o Peru

Peru, Chester, e todas as aves natalinas de carnes brancas e macias se incluem neste contexto. A carne em si é relativamente neutra. O molho e acompanhamentos são o que calibram melhor a escolha do vinho. Tanto branco como tinto podem acompanhar este prato. 

Para o grupo P1. Um bom Chardonnay nacional como da Pizzato é uma bela opção. Na Argentina e Chile também há opções em conta. Como a carne tem pouca gordura, um bom Chardonnay fornece maciez ao conjunto. O grande problema são o molho e os acompanhamentos que podem ser agridoces. Neste caso, o Chardonnay deve ser bem frutado ou partir para um intenso Gewruztraminer. Se a opção for por um tinto, um bom Pinot Noir resolve o problema. A serra Catarinense tem bons exemplares, assim como no Chile. Alguns bons Cabernet Franc nacionais são opções interessantes. Em resumo tintos de certa leveza e taninos moderados.

Para o grupo P2, podemos pensar em Chardonnay um pouco mais sofisticados do Chile. Sol de Sol da Viña Aquitania e Amelia do grupo Concha Y Toro são bem confiáveis. Os Chardonnay tops da Catena, Argentina, ficam no mesmo nível. Um bom Cava com pelo menos 24 meses sur lies é outra bela opção. A importadora Clarets traz o confiável Juves y Camps. Do lado dos tintos, Pinot Noir chileno dos vales frios são ótimos, especialmente os da Casa Marin importado pela Vinci. A Nova Zelândia prima por bons Pinot Noir. A importadora Premium é especialista no assunto.

Para o grupo P3, a Borgonha é a glória. Berço espiritual das duas uvas, Chardonnay e Pinot Noir, temos várias e ótimas opções. No caso dos brancos, Puligny-Montrachet, Chassagne-Montrachet e Meursault, são as melhores pedidas de acordo com o peso do prato. No caso dos tintos, comunas de vinhos mais leves como Volnay e Chambolle-Musigny são mais adequadas. Como alternativa ao Chardonnay, um ótimo Pinot Gris da Alsace é divino.

Para o Panetone, Rabanada e Frutas Secas

Para o grupo P1, novamente os moscateis nacionais fazem bonito com o panetone. Para a rabanada e as frutas secas, nada melhor que um bom vinho do Porto. Há muitas ofertas no mercado, dando preferência aos Tawny que vão melhor com a canela da rabanada e tem tudo a ver com as frutas secas.

Para o grupo P2, os moscateis continuam de pé com o panetone. Uma escolha mais sofisticada seria um bom Cava Sec com doçura adequada. Não estranhem, eu disse Sec. No caso do Porto, podemos partir para um Reserva, de nível e concentração maiores. Um Passito di Pantelleria para as rabanadas e frutas secas é uma opção original.

Para o grupo P3, o panetone é acompanhado de champagne Sec pelos mesmos motivos acima. Quanto ao Porto, podemos pensar na gama mais sofisticada de Tawny que são os de datas declaradas (10, 20, 30, 40 anos) ou o Porto Colheita com longo envelhecimento em pipas. Evidentemente os grandes Madeiras não estão de fora. Os Melhores Boal ou Malmsey são os de doçura mais adequada.

Enfim, tudo é festa e o que vale mesmo são os amigos e a família. Essas são apenas algumas sugestões neste vasto universo do vinho. Além disso, há outros pratos nas festas não abordados neste artigo como bacalhau, leitoa, pernil de cordeiro, e outras iguarias. Seguem alguns links deste blog para consulta: Espumante Brut, Carne de Porco, Arroz de Pato  / Harmonização: Ano Novo  /  Bacalhau e seus Vinhos

Boas Festas!

Bordaleses que Animam a Alma

25 de Agosto de 2018

Num agradável almoço no recém-inaugurado restaurante de carnes Ânima Mea (alma minha em latim), mesmos proprietários do Cór em Pinheiros, sob a supervisão do assador Renzo Garibaldi, alguns bordaleses desfilaram à mesa.

harmonização de frescor

Na espera dos confrades, um grande branco da América do Sul, White Stones da bodega Catena (foto acima). Um dos topos de gama da vinícola, este branco é elaborado com Chardonnay em elevada altitude (1500 metros) na região mendocina de Tupungato num vinhedo de apenas 2,5 hectares. Um branco de grande mineralidade e frescor num equilíbrio perfeito com modestos 13° de álcool. Muito harmônico e persistente, a madeira é imperceptível num vinho de grande distinção, apesar de fermentado e amadurecido em barricas. Sua acidez chega a quase 9 gramas por litro, índice de vinho-base em Champagne. A combinação com o prato ao lado; mexerica, molho de pepino e burrata, foi de grande frescor e leveza.

img_4998200 pontos na mesa

Após as preliminares, o ponto alto do almoço, carnes e tintos bordaleses. Comentar estes dois tintos é enaltecer a safra de 82 em terroirs consagrados como Saint-Julien e Pauillac. O Pichon Lalande 82 talvez seja o melhor Pichon já elaborado, tal a concentração e elegância deste vinho. Costuma bater às cegas o Mouton de mesma safra que já é um monumento. Infelizamente, esta garrafa em questão não é das mais gloriosas. Um dos indícios, era o nível do líquido um pouco abaixo do esperado, quase no ombro da garrafa. Mesmo assim, ele foi se abrindo aos poucos com alguma acidez volátil no início da degustação. Seus toques de tabaco e chocolates eram notáveis num vinho com o corpo e presença de um grande Pauillac.

Já o Gruaud Larose estava perfeito. Depois da mítica safra de 1961 para este tinto, este 82 é seu digno sucessor. Um Bordeaux envelhecido de livro com o cassis, tabaco, ervas finas, e um fundo mineral, tudo muito elegante. Equilíbrio perfeito, taninos de seda, e longa persistência aromática. Desta vez, o Pichon Lalande teve que admitir a derrota. Contudo, confrontando garrafas ideais, este Pauillac acaba mostrando sua força e nobreza.

riqueza de sabores

O Chef Geovane Godoy caprichou neste dois pratos, ricos em sabor. Esse arroz de pato (foto acima) numa versão espanhola, é feito com arroz de Valência à moda de uma paella com os sabores do pato e emulsão de chorizo, dando um toque defumado. A textura é sensacional. Já a metade maior do T-Bone, um dry-aged de 45 dias, é a especialidade da Casa. Este corte que é o contrafilé, combinou muito bem com os tintos, pois tem sabor e suculência para os taninos bordaleses. A concentração de sabores de um dry-aged e a ausência de sangue, embora o corte seja mal passado, deixa o visual e o paladar diferenciados, numa experiência que vale a pena. Você se satisfaz com quantidades menores, tal a riqueza de sabores.

img_5001esta assinatura impõe respeito!

Se você quiser provar um Cult Wine de Napa Valley de alma bordalesa sem pagar um fortuna, Dominus é a única escolha. Não que seja barato, mas comparado com seus concorrentes, os preços são bem atraentes. Prova disso, foi a naturalidade que ele encarou a degustação no meio dos dois bordaleses acima. Sem intimidação, embora ainda muito jovem, exibiu sua classe, presença e equilíbrio notáveis. Seus 98 pontos traduzem bem a equivalência com seus concorrentes franceses. As safras 91 e 94 são notáveis, provando a longevidade deste tinto. Colocado às cegas no meio de bordaleses, pode fazer um estrago e rever conceitos.

img_4999este rótulo é muito chique!

Como ainda estávamos com sede, deu tempo para esta criança acima, Clos de Tart 2001, o maior entre os Grands Crus de Morey-St-Denis. Um tinto de história milenar e um dos mais enigmáticos  da Borgonha. Embora decantado e numa paciente espera, ele não se abriu totalmente. Tanto na cor como nos aromas, ainda muito jovem. Muito aroma primário com toques florais e de cerejas escuras, seu lado terciário ainda muito tímido. E olha que 2001 não é daquelas safras poderosas que precisam de longo envelhecimento. Mas os mitos são assim, temperamentais e surpreendentes. Quem tiver paciência, pode ser inesquecível.

Terminado o almoço, mal sabia que o dia estava apenas começando. Convocado por nosso Maestro, tive que partir para o sacrifício. Alguns Puros exclusivos e algumas garrafas especiais como a da foto abaixo, o monumental Nacional 1963. Se não bastasse este ano mítico, um Quinta do Noval Nacional já é um ponto fora da curva.

O termo “Nacional” refere-se a parreiras pré-filoxera que têm rendimentos baixíssimos e produção inconstante. Este Porto em questão com mais de 50 anos exibe uma juventude extraordinária, confirmando sua imortalidade. É muito delicado em boca, fugindo daqueles Portos muito densos. Contudo tem uma elegância, uma harmonia, e profundidade, que marcam definitivamente a memória. Um verdadeiro Borgonha no mundo dos Portos. É mais ou menos o que o Soldera representa entre os Brunellos. Experiência marcante!

img_5007sobremesa inesperada!

A tarde caindo e os Puros surgindo. Numa seleção impecável da Casa suíça Gérard Père et Fils em caixas deslumbrantes em laca, Romeu & Julieta, H. Upamnn e Partagas, se apresentaram em vários sabores e bitolas. As seleções Reserva e Gran Reserva, partem de tabacos envelhecidos com uma complexidade aromática extra.

Puros com assinatura Gérard Pére et Fils

verdadeiras obras de arte

Como a noite é uma criança, que tal um Cognac para uma prova às cegas. Richard e Louis XIII é o que tem pra hoje (foto abaixo). Marcas topo de gama das Casas Hennessy e Rémy Martin, respectivamente, são verdadeiros objetos de desejo, tal sua exclusividade e singularidade de sabores. São verdadeiras joias que partem de uma seleção rigorosa de eaux-de-vie e longas décadas de envelhecimento em toneis de carvalho.

Fizemos uma prova às cegas com tira-teima para eleger Louis XIII como melhor, mas a escolha é difícil e não conclusiva, tal o nível de complexidade destas bebidas. Na dúvida, fique com os dois. Aqui você entende exatamente o significado da expressão “Spirits”.

img_5008garrafas suntuosas!

Grappe de alto nível!

O sonho ainda não acabou. Agora entramos na especialidade do Maestro, o mundo das Grappe. Na verdade este da esquerda, é um destilado de vinho, o equivalente ao Cognac, segundo o conceituado produtor Jacopo Poli. Trata -se de um vinho Trebbiano di Soave de alta acidez que por sua vez é destilado e posteriormente afinado em madeira da Eslavônia, Limousin (França) e Allier (França). Sua qualidade é tal que bateu às cegas o Marc de Bourgogne Domaine Dujac de produção exclusiva. Deve ser servida entre 18 e 20°C em pequenas taças tipo tulipa.

Agora sim, uma Grappa in pureza do excelente produtor Nonino. É elaborado com uma uva rara do Friuli chamada Picolit, a qual faz um excelente vinho de sobremesa. Atinge 50º de álcool natural, graduação ideal para expressar as grandes Grappe. Aroma delicado lembrando Poire. Em boca é sutil e de grande profundidade. Deve ser servida segundo o produtor, a 12°C em pequenas taças tipo tulipa. 

Bem, já é quase meia-noite e carruagem vai virar abóbora. Agradecimentos aos confrades pelo belo almoço que já ficou distante, e em especial ao Maestro de grandes conversas e generosidade sem fim. Esperando novos encontros com muitos brindes. Saúde a todos!

Descorchados: Impressões Finais

16 de Abril de 2017

Prosseguindo com o evento Descorchados, não foi possível degustar todos os vinhos. Na verdade, faltaram muitos. De qualquer modo, dando uma última pincelada, vamos aos comentários finais.

Espumantes brasileiros

Além obviamente da Cave Geisse, vinícola comentada em artigo anterior, temos de destacar os espumantes da vinícola Décima, Pizzato e Casa Valduga, com vinhos bem equilibrados e uma linha ampla de escolhas. Pizzato e Décima, nem sempre são vinhos fáceis de encontrar. Já a Casa Valduga, tem normalmente uma distribuição mais pulverizada.

Argentina

Como falar da Argentina sem falar em Catena. Esta vinícola pioneiramente colocou o país no mapa dos grandes vinhos do mundo. Além disso, ao longo do tempo não se acomodou, continuou e continua trazendo belas novidades como os dois brancos abaixo.

descorchados catena brancos

a expressão do terroir

A foto acima mostra dois brancos do vinhedo Adrianna, uma espécie de Grand Cru argentino no Valle de Uco, mais especificamente em Gualtallary a 1450 metros de altitude. São duas parcelas de pouco mais de dois hectares cada uma, lado a lado com solos morfologicamente formado por pedras diversas. O vinho da esquerda, White Bones, apresenta na composição de solo, fósseis marinhos junto ao calcário, transmitindo uma particular mineralidade. Já o da direita, é rico em pedras calcárias ovaladas, também aportando mineralidade. Embora os dois passem por barricas francesas e tenham o mesmo trabalho de bâtonnage, White Bones é mais gracioso, flutua mais em boca, pendendo para um estilo mais feminino. Do outro lado, White Stones mostra mais densidade, embora com equilíbrio fantástico. Questão muito mais de gosto pessoal do que preconizar superioridade de um, ou de outro. Esses brancos foram pontuados acima de 95 pontos, safra 2013 para ambos.

descorchados nicolas catena

Um dos grandes Cabernets argentinos

Muita gente toma este vinho pensando tratar-se de um Malbec. Ledo engano, aqui temos 80% Cabernet Sauvignon e 20% Malbec de quatro vinhedos distintos e mais de 200 micro vinificações. O Cabernet em sua maioria vem de Agrelo dando força e estrutura. Já o Malbec e parte do Cabernet vem de Valle de Uco dos distritos de Gualtallary, Villa Bastias e La Consulta com altitudes entre 1000 e 1400 metros. Estas parcelas transmitem um frescor incrível ao vinho. A fermentação em barricas de carvalho francesas, além do amadurecimento nas mesmas por 24 meses amaciam e integram os taninos de uma maneira muito harmoniosa com a fruta. Persistente, estruturado e com grande poder de guarda. Um clássico.

destaques no Valle de Uco

O vinho da esquerda é um Malbec bem temperado com Cabernet Sauvignon (25%) e Cabernet Franc (5%) na zona de Altamira, pela bodega Chakana. Os Cabernets lhe dão a estrutura sem tirar a essência da Malbec e o incrível frescor deste terroir frio do Valle de Uco. Fruta com vibração. No vinho da direita, Ayni, topo de gama da vinícola, é um Malbec mastigável com muita estrutura e frescor. Seu solo em Altimira apresenta calcário ativo, refletido de maneira inequívoca no caráter do vinho. 95 pontos pelo guia Descorchados.

descorchados enemigo

referência em Cabernet Franc

Com 85% Cabernet Franc e 15% Malbec, este tinto honra a tradição de Agrelo, zonal alta do rio Mendoza. Com poucos meses em toneis grandes de madeira, apenas para micro-oxigenar  o vinho, este tinto apresenta toda a elegância da Cabernet Franc com a graciosa fruta da Malbec. O talento do enólogo Alejandro Vigil é refletido em todos seus vinhos por sua paixão, sobretudo pela Cabernet Franc.

Chile

Neste passeio pelo Chile, o vale do Maule teve um destaque especial, mostrando seu clima bem temperado e um patrimônio precioso de vinhas antigas. Um clássico destas terras é seu Sauvginon Blanc Laberinto, foto abaixo.

descorchados laberinto sauvignon blanc

aromas selvagens

Este Sauvignon Blanc sempre mostrou bela acidez e toques marcantes de ervas, evidenciando um lado mais selvagem no vinho. Não há interferência de madeira e seu contato sur lies confere mais complexidade ao conjunto. Seu par tinto, um Pinot Noir da mesma região, é outro destaque na foto abaixo.

boa expressão da casta

Apesar de latitudes diferentes, Maule e Colchagua são vales relativamente frescos elaborando esses equilibrados tintos com a difícil Pinot Noir. Laberinto faz um vinho mais nervoso com esse lado selvagem, mas bem dosado com a barrica. Já o Casa Silva mantem a elegância da vinícola com fruta bem expressiva, frescor interessante e madeira na medida certa. Não são vinhos de alta complexidade, mas cumprem bem o papel de fazer um Pinot equilibrado, o que já é um grande mérito.

Carmenère: varietal e corte

Finalizando, esses dois tintos de alta pontuação. Os dois trabalham com a uva Carmenère, mas de maneiras diferentes. Maquis Viola, o da esquerda, é elaborado no Valle de Conchagua, terroir muito propicio para esta casta, complementado por 15% de Cabernet Franc. Um Carmenère de destaque bem trabalhado em barricas francesas, respeitando a maturação ideal desta indomável casta.

A apoteose fica para o Almaviva 2014, o melhor e mais clássico tinto chileno, de alta categoria e de respeito internacional. Um vinho que ronda sempre a casa dos 95 pontos, independente da safra. Para não deixa-lo muito afrancesado, a ideia da vinícola é sempre mesclar este tremendo Cabernet Sauvignon com uma boa dose de Carmenère, além de pitadas de outras cepas. A Carmenère acaba dando a personalidade chilena desejada. O vinho é magistralmente educado em barricas francesas novas, nunca invasivas. Além de tudo, envelhece bem por uns bons dez anos pelo menos.

Como última observação, o destaque apenas para os espumantes brasileiros, pode dar ao público menos informado que o Brasil só faz este tipo de vinho. Embora os espumantes sejam realmente nossa grande bandeira, atualmente temos tintos que mereceriam destaque, sobretudo com a casta Merlot. Sem entrar em marcas específicas, temos pelo menos um vinho de categoria internacional chamado Sesmarias (vinícola Miolo). Um blend feito na região da Campanha de alta classe, equilibrado, podendo ser comparado a muitas feras do Chile e Argentina, evidentemente às cegas. No mais, a América do Sul segue firme seu caminho em melhorar seus vinhos, definir terroirs, e descobrir novos rumos. A liderança de Chile e Argentina é indiscutível e merecida.