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A Hierarquia em Pomerol

31 de Janeiro de 2020

Embora tenhamos os tintos mais caros entre a elite de toda região bordalesa, Pomerol não dispõe de uma classificação oficial até hoje. Em 1855, época da primeira grande classificação dos vinhos bordaleses, Pomerol gozava de pouco prestígio e o grande rei Petrus não havia nascido. 

Com cerca de 800 hectares de vinhas, Pomerol é menor que qualquer comuna famosa do aristocrático Médoc. As propriedades são muito pequenas, sendo a maioria com menos de dez hectares. A uva praticamente é uma só, a sensual Merlot, complementada por pequenas proporções de Cabernet Franc e eventualmente, uma pitada de Cabernet Sauvignon. Nessas condições Pomerol tem um ar borgonhês dentro de Bordeaux.

Embora a Merlot assuma um papel de maciez, aparando as arestas no corte bordalês, aqui em Pomerol ela assume uma postura diferente, mais estruturada, criando um poder de longevidade aos vinhos, sobretudo quando falamos do rei Petrus. Aliás, Parker define três grupos de Pomerol bastante distintos em estilos. O primeiro, do time de cima, fica com Petrus, Lafleur e Trotanoy. São vinhos extremamente estruturados, longevos e com grande carga tânica. Lafleur por exemplo, é o único que consegue ombrear-se em estilo ao astro maior. Já Trotanoy, é o mais acessível dos três, embora com ampla capacidade de envelhecimento. 

96384eba-7f42-4730-9cf1-238a0925fb4e-1uma das grandes safras de Trotanoy!

Um segundo grupo de vinhos mais macios e abordáveis, estão como exemplo os chateaux L´Evangile e La Conseillante, mais próximos do que conhecemos como Merlot propriamente dito. Finalmente, um terceiro grupo de Pomerol que se parece mais com os vinhos do Médoc. Aqui a proporção de Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon é mais acentuada, embora a Merlot continue sendo majoritária. O famoso Vieux Chateau Certan (VCC) é o exemplo mais emblemático.

Em termos de classificação, nada oficial até o momento, mas assim como na região de Sauternes, o todo poderoso Yquem é considerado soberano na região, o rei Petrus tem o mesmo prestígio entre os principais Pomerol. Assim como Yquem, Petrus deu fama à região, sobretudo a partir da segunda metade do século passado. 

Existem muitas tentativas de classificação onde escritores famosos deram seus palpites e justificativas. Falando de Parker, um dos maiores conhecedores da matéria, vamos a um estudo recente baseado em notas dos principais chateaux.

pomerol 1995 a 2008

classificação técnica entre 2016 e 1995

pomerol 2

La Violette e Hosanna são grandes destaques

Sem nenhuma surpresa, o primeiro lugar ficou com Petrus, um tinto muito estruturado, mas que demanda tempo para seu total desenvolvimento. Outro fator impeditivo é seu preço, sempre muito alto.

Com média de notas praticamente encostada no astro maior, L´Eglise Clinet surpreende outros potenciais candidatos ao segundo posto com um vinho baseado em Merlot e com enorme potencial de envelhecimento.

img_6906Lafleur, o grande rival de Petrus!

Em terceiro lugar sem nenhuma surpresa, o grande Lafleur. Talvez o único da turma a bater de frente com o Petrus, sobretudo por sua austeridade e longevidade. Tem alta porporção de Cabernet Franc no corte num vinho enigmático.

Com as vinhas reavivadas recentemente, La Violette voltou a brilhar com notas altíssimas. Um vinho 100% Merlot de rendimentos muito baixos e alta concentração. É necessária a decantação para safras jovens, bem como para as mais antigas com muito sedimentos. São apenas 1,68 hectare de um vinho impactante, assumindo o quarto lugar.

Do mesmo produtor de Vieux-Chateau-Certan, Le Pin é um vinho de boutique com produções baixíssimas, entre 600 e 700 caixas por safra. Um vinho 100% Merlot de alta classe e concentração. As safras 82, 89 e 90, são históricas. Em termos de preços, até mais caro em algumas safras do que seu grande rival Petrus. Fica em quinto lugar.

Com vinhedos muito próximos a Petrus, Hosanna assume o sexto lugar. Suas vinhas foram usadas para outros chateaux na região num passado recente. Em 1999 parte do vinhedo foi para a família Moueix e desde então, o chateau assume incrível regularidade e precisão. O blend  é composto por 70% Merlot  de vinhas velhas e 30% Cabernet Franc plantadas na década de setenta. Um vinho elegante e sedutor.

Em sétimo lugar, Chateau Trotanoy é classicamente um dos rivais de Petrus, juntamente com Lafleur. Sua posição nesta tabela deve-se a uma certa irregularidade nas safras. No entanto em algumas, consegue superar o astro maior. Pertence a família Moueix. Importado pela Clarets (www.clarets.com.br). 

img_7072uma das safras mais perfeitas do astro-rei

Em oitavo lugar, Vieux-Chateau-Certan é classicamente um dos grandes da região, na elite de Pomerol. Com participação das Cabernets no corte, este chateau tem um viés de margem esquerda, lembrando algo do Médoc. Algumas safras perfeitas e com preços bem convidativos, dada a fama da região. A safra de 90 é extremamente prazerosa e um dos destaques deste grande ano.

Um dos mais antigos chateaux em Pomerol, L´Evangile assume o nono lugar. No começo do século passado era considerado um vinho de elite juntamente com Petrus e Vieux-Chateau-Certan. Tem um corte clássico com 80% de Merlot e 20% Cabernet Franc. Suas vinhas estão localizadas próximas a Saint-Emilion, bem perto de Cheval Blanc. Apesar de certa irregularidade nas safras, é um vinho sedutor e que envelhece bem.

Em décimo lugar, Chateau Clinet é um dos mais antigos da região. Muito bem localizado, tem uma das vinhas de Merlot mais antigas, plantadas em 1934, conhecida como ¨La Grand Vigne”. Tem uma porcentagem importante de Cabernet Sauvignon para padrões da região. A partir de 2004, mudanças importantes nas vinhas e na cantina, elevaram seu padrão de qualidade.

Comentado em detalhes os dez primeiros tintos deste estudo recente de Parker, os outros dez chateaux incluem nomes de peso como La Conseillante, La Fleur-Petrus e Latour à Pomerol. Enfim, um estudo recente, técnico, e que mostra a elite desta região modesta em tamanho, mas com alto grau de qualidade.

Outras tentativas de classificação foram sugeridas por dois famosos Master of Wine, Clive Coates e Mary Ewing-Mulligan´s. O primeiro um inglês famoso por sua especialidade na Borgonha. Já a segunda é uma autora americana ligada a vários órgãos internacionais, entre eles, Wine & Spirit Education Trust.


Clive Coates

First Growth: somente Petrus.

Outstanding Growth: L´Evangile, La Fleur-Petrus, Lafleur, Latour à Pomerol, Trotanoy e Vieux Chateau Certan.

Exceptional Growth: Le Pin, Certan de May, Clinet, La Conseillante, Clos L´Eglise, La Fleur de Gay e Gazin.

Very Fine Growth: Hosanna, Bon-Pasteur, Le Gay, Nenin, entre outros.


Mary Ewing-Mulligan´s

Class One: Petrus e Lafleur.

Class Two: Trotanoy, L´Evangile, Vieux Chateau Certan, L´Eglise Clinet, Clinet, La Fleur-Petrus, Clos l´Eglise, La Conseillante, Certan de May, Latour à Pomerol, Nenin e La Fleur de Gay.

Class Three: Petit-Village, Feytit-Clinet, Rouget, Bon-Pasteur, La Croix du Casse, Gazin, Grave à Pomerol, Hosanna, Le Gay e La Croix de Gay.


Percebe-se que estas classificações não são tão técnicas quanto a de Parker. Entre outros fatores, entra em conta a história e tradição do chateau. Hosanna tem classificação discreta nos dois casos por ser um fenômeno recente na história. O mesmo podemos dizer de La Violette, um chateau extremamente jovem. O próprio Latour à Pomerol bem classificado, foi grande em outras épocas de safras mais antigas. Certan de May acompanha este raciocínio. Le Pin por ter surgido como “vinho de garagem”, tem pouco impacto numa classificação tradicional.

Enfim, tentamos dar uma ideia dos principais chateaux da região, enfatizando não só a tradição, mas o progresso na região em fazer vinhos modernos e impactantes. Numa coisa todos concordam, Petrus continua sendo o Rei!

Uma Seleção de Bordeaux

13 de Abril de 2019

A proposta foi a seguinte: trazer sua melhor garrafa de Bordeaux dos anos 80 e 90 para uma degustação às cegas. Foram onze garrafas abertas, formando uma verdadeira seleção onde o menos cotado pelos confrades, ainda assim, era craque frente aos inúmeros chateaux que desfilaram nestas duas décadas. Vamos então à escalação: Goleiro (Mouton 99), zaga (Leoville Las Cases 86, Mouton 83, Mouton 89), volantes (Vieux-Chateau-Certan 90, Beychevelle 82), meio de campo (Cheval Blanc 86, Chateau Certan de May 82), atacantes (Haut Brion 86, La Mission Haut Brion 89, Angelus 95). Um esquema com três zagueiros, dois volantes, sendo um de contenção e outro de ligação, um meio de campo criativo, e um ataque com centroavante goleador e pontas que voltam para marcar.

img_5972Mouton acessível, embora possa ser guardado

Como todo bom goleiro, foi degustado isoladamente. Um Mouton acessível, bem de acordo com a característica da safra. Taninos bem moldados, os toques de café e chocolate que caracterizam o chateau, além de um belo equilíbrio em boca. Um goleiro ainda em formação, mas com belo potencial pela frente. Nota 92 (RP).

img_5968uma zaga segura

Leoville Las Cases, zagueiro consagrado, mas vindo de contusão (bouchonée), ainda assim mostrou sua classe. De fato, era para ser o vinho da almoço com uma estrutura e cor extraordinárias, 100 pontos Parker. Infelizmente, uma garrafa comprometida. Em compensação, a dupla de Moutons supriu a deficiência do ilustre zagueiro. O Mouton 83 no nariz tinha lindos toques de cogumelos, mais precisamente funghi porcini seco. Já o Mouton 89 tinha uma boca deliciosa, de acordo com a sensual safra 89. Taninos sedosos e textura glicerinada. Notas 90 e 93 de Parker para os Moutons 83 e 89, respectivamente.

img_5965grandes safras em Bordeaux

Nesta dupla de volantes, Vieux-Chateau-Certan estava mais contido, cobrindo a zaga. Este vinho costuma ser surpreendente nesta safra de 90, mas não era das melhores garrafas. É um margem direita diferente, lembrando a estrutura tânica dos vinhos do Médoc pela presença de certo destaque das uvas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Já o Beychevelle 82 é aquele volante que sai para o jogo. A safra 82 é o grande ano deste chateau de Saint-Julien. Especialmente esta garrafa estava muito bem adegada. O vinho tinha uma força extraordinária com frutas escuras presentes, notadamente o cassis. Um vinho de muito vigor e com vida pela frente.

img_5966outras grandes safras em Bordeaux

Neste meio de campo, Chateau Certan dá seus passes corretos, mas o Cheval Blanc bate um bolão. É o camisa 10 do time com imensa criatividade. Mesmo numa safra dura como 86, o vinho é de uma elegância ímpar. Em boca, esbanja equilíbrio e suavidade. Persistência aromática longa e expansiva. Voltando ao Chateau Certan, é um vinho que tem o charme de Pomerol numa bela safra. Tem uma boa estrutura tânica, embora seus taninos sejam um tanto rústicos para esta categoria de vinho. Notas: Cheval Blanc 86 (RP 93) e Chateau Certan 82 (RP 93).

img_5970ataque incisivo

Neste ataque de peso, os atacantes Haut-Brion e La Mission não estavam num grande dia. Opinião de muitos confrades com a qual não concordo. Haut Brion 86 tinha notas marcantes de chocolate amargo, cacau, e um toque terroso. Já o La Mission, 100 pontos Parker, é um vinho suntuoso, de grande poder aromático, boca ampla, e longa persistência aromática. De certo que as garrafas poderiam não ser as melhores, mas estavam longe de serem defeituosas. Enfim, são duas grandes safras de chateaux fora de série. Em compensação, em dias de atacantes pouco inspirados, eis que surge o goleador de quem menos se esperava, Angelus 95. Um vinho ainda novo, mas com uma bela estrutura. Taninos potentes e finos, bom corpo, e muito bem equilibrado. Tem muito poder de fruta, toques tostados e minerais de grande classe. Goleou de lavada seus dois companheiros de flight, supostamente superiores. Notas: Haut Brion (RP 93) e (RP 94). 

Para acompanhar esta seleção, o conceituado restaurante Picchi preparou um menu com pratos criativos e bem apropriados aos vinhos envelhecidos de Bordeaux.

sabores surpreendentes

Os pratos acima, lâminas de funghi porcini fresco grelhadas com pinoli, parecendo lâminas de berinjelas, estavam ótimas. Já a polenta cremosa com escargots no molho rôti, tinha muitas ligações de sabores com os tintos envelhecidos. Belos pratos!

Na foto abaixo, a massa Picchi, tradicional da Casa com molho de linguiça, e um dos melhores tiramisus na qual a foto, dispensa comentários.

tradicionais da Casa

final surpreendente

Finalizando o evento, uma bela Grappa di Sassicaia envelhecida em toneis de carvalho francês, acompanhando alguns mimos do restaurante no serviço de café. Uma Grappa sedosa, grande classe, e longa persistência.

Agradecimentos finais a todos os confrades pela companhia, boa conversa, e imensa generosidade de todos. Que Bacco nos proteja e nos guie sempre nos melhores caminhos dos grandes vinhos! Abraços a todos!

 

 

Bordeaux e seus anos Dourados

16 de Julho de 2018

Os anos 80 foram ótimos para Bordeaux, especialmente com a mítica safra de 82, uma das melhores do século XX. Tirando 84 e 87, safras de poucas emoções, o restante tem muita coisa boa. Neste almoço, demos atenção à dobradinha 89/90, anos de vinhos gloriosos com bom potencial de guarda. Difícil afirmar taxativamente a superioridade de um desses dois anos, embora a safra 90 desperte maior glamour. Entretanto, 89 pode surpreender e ganhar esta disputa. Tire suas próprias conclusões com os vinhos abaixo.

img_4864la vie en rose …

Como de costume, algumas borbulhas para atiçar as papilas são bem-vindas, ainda mais com um Dom Pérignon Rosé 2003. Neste exemplar, temos 60% de Pinot Noir e 40% de Chardonnay. Nesta porcentagem de Pinot, temos uma parte de vinho tinto, dando a nuance e intensidade do rosé. É o chamado Rosé de Assemblage (5 a 20% de vinho tinto). Estilo elegante, muito frescor, mousse presente e cremosa. Tem um lado gastronômico, capaz de acompanhar muitos pratos à base de peixes, aves, e frutos do mar.

img_4869o terroir explica as diferenças

Voltando aos caldos bordaleses, vamos ao primeiro flight, o mais desigual em evolução e estrutura dos vinhos. Afinal de contas, tínhamos o rei Petrus na parada, um tinto sempre de estrutura e longevidade monumentais. Aqui percebemos de fato a força do terroir. Como é possível obter um Merlot com tamanha estrutura tânica, força, e austeridade. Nesta safra 90, temos um Petrus de 100 pontos com previsão de apogeu para 2054. Um tinto com uma força extraordinária  de frutas escuras, notas de cacau, chocolate, especiarias, e um toque terroso. Taninos massivos e extremamente finos. É imperativo decanta-lo por pelo menos duas horas. O infanticídio do almoço, sem dúvida. 

Vieux Chateau Certan 90 fez um par gracioso ao lado de sua Majestade, mostrando bela evolução ao longo de seus 28 anos. Um tinto pleno de aromas com um toque de margem esquerda, já que seu blend comtempla além da Merlot, Cabernet Franc, e Cabernet Sauvignon, pouco usual nestas paragens, nas seguintes proporções respectivamente: 65 a 70% Merlot, 25% Cabernet Franc, 5 a 10% Cabernet Sauvignon. Encontra-se no auge de sua evolução com toques de tabaco, couro, ervas finas e notas balsâmicas. Muito prazeroso neste momento. Os mesmos proprietários do badaladíssimo Le Pin, outro Pomerol de destaque.

img_4871embate de gigantes!

Este segundo flight só foi decidido no fotochart. Dois dos grandes Montroses lado a lado, safras 89 e 90. Duzentos pontos sobre a mesa e um punhado de dúvidas quanto à identificação. É intrigante como Parker pontua o Montrose 90 com 100 pontos e uma (?) interrogação entre parênteses. De fato, é um vinho bem evoluído no nariz e bem resolvido em boca, mas aquele toque de curral, animal, é mais acentuado que o 89, dando margem à possível presença de Brettanomyces (contaminação desta levedura no vinho, perdendo o poder de fruta, e acentuando toques terciários nos aromas). A sensação é que este exemplar de 90 está pronto, sendo temeroso guarda-lo por muito tempo. Já o 89 mostrou-se superior, pelo menos pessoalmente. A fruta está mais presente, sem perder seus toques terciários. Ele parece um pouco mais encorpado e com maior estrutura tânica. Seu apogeu pode atingir o ano 2060, segundo Parker. Pessoalmente, acho um pouco exagerado. O tempo dirá, mas que é um baita vinho, não tenho dúvidas. 

VCC à esquerda, Petrus à direita

Alguns pratos do restaurante Gero escoltaram essa tropa de tintos. O Capeletti in Brodo fez uma parceria exótica com o Pomerol VCC 90. Seus aromas evoluídos e sua textura mais delicada caiu bem com o brodo.

img_4873as duas margens em confronto

No útimo flight, um embate da safra 89 com dois vinhos de comunas diferentes, Saint-Emilion e Pessac-Léognan. O primeiro vinho, Chateau Tertre Roteboeuf, é um Grand Cru de Saint-Emilion, mas não está no grupo de elite. Localizado próximo aos Chateaux Pavie e Troplong-Mondot, sua primeira safra deu-se em 1978, relativamente recente. Embora seus vinhos partam de um corte clássico para esta apelação (80% Merlot e 20% Cabernet Franc), seu estilo é mais austero, aproximando-se do famoso Ausone. A safra 89 degustada, é uma das melhores de sua história com 95 pontos. Percebe-se em boca um vinho estruturado com riqueza da taninos de textura muito fina. Seus aromas já com boa evolução denota fruta madura, notas de especiarias e chocolate, além de um toque mineral. Bem mais acessivel que seu parceiro no flight, o delicioso La Mission Haut Brion com 100 pontos consistentes.

Com boa proporção de Merlot no Corte, sendo a Cabernet Sauvignon a uva majoritária, é um Pessac-Léognan com toques de estrebaria, ervas finas, chocolate, tabaco, e tantos outros aromas. Embora evoluído e bastante prazeroso, tem muita elegância e vida pela frente. Particularmente, achei esta garrafa um pouco mais evoluída que a média. A despeito de seus 100 pontos, ainda acho seu eterno rival e vizinho Haut Brion, insuperável nesta memorável safra 89.

risoto e a famosa coteletta

Mais alguns pratos entremeando os vinhos. O risoto de parmesão com molho de rabada por cima foi muito bem com a dupla de Montrose. Os toques terciários dos vinhos além da força de sabores, complementaram bem a intensidade e personalidade do prato. Já a Coteletta Milanese foi muito bem com a elegância do La Mission Haut Brion 89.

img_4880

Neste embate doce, o grande Yquem brilhou nos dois anos, 89 e 90. Difícil comparar a complexidade e longevidade destes dois exemplares. O da safra 90 parece ser mais equilibrado em acidez e menos opulento. Vai na ala dos Yquems mais elegantes. Sua acidez certamente o levará muito longe em adega. Já o 89 é mais opulento, mais glicerinado, parece ter mais Botrytis. É uma questão de gosto, mas o 89 pessoalmente, é mais persistente em boca.

a competência no salão do mestre Ismael e o jovem sommelier Felipe

O creme de mascarpone com chocolate, foto acima, foi um bom complemento para os dois Sauternes, respeitando a compatibilidade de textura na harmonização. Um final de prova delicioso com mais esta especialidade bordalesa, os divinos brancos de Sauternes e Barsac.

Enfim, mais uma bela oportunidade de provar e confrontar os belos tintos de Bordeaux, onde Chateaux e safras permitem um cem números de experiências e combinações formidáveis. Agradecimento aos confrades por mais este momento, numa prova sempre recorrente de amizade e generosidade. Que Bacco nos proteja sempre!

Festa bordalesa com certeza!

28 de Novembro de 2017

Dando prosseguimento ao inesquecível verão de 42, vamos agora entrar no time bordalês, liderado pelo rei Petrus. Para aquecer os motores, uma pequena prova às cegas: Montrose 89, Vieux Chateau Certan 90, e Mouton 90. É evidente que o Mouton deste ano ficou na rabeira. É misterioso como este vinho  consegue ser desapontador. O ano de 90 é maravilhoso, todos os outros Premiers têm pontuações altíssimas. Margaux é nota 100 e Latour outra maravilha, mas no caso do Mouton erraram a mão feio numa safra gloriosa. Tomado sozinho, é um vinho agradável, bem equilibrado, porém sem o punch de um grande Mouton. Isso fica muito claro quando comparado lado a lado com outros chateaux de mesmo ano. Falta meio de boca.   

gero margem esquerda

neste caso, a hierarquia se inverte   

Em compensação, O Montrose 89 é espetacular. Com notas sucessivamente aumentadas por Parker ao longo dos anos, Montrose tem a maciez e aquela explosão de frutas bem de acordo com a safra 89. Ele até chega a fugir um pouco de seu estilo mais austero e fechado. Tem grande presença em boca, taninos abundantes e ultra polidos, acidez na medida certa, e uma expansão final extremamente harmoniosa. O melhor de tudo, é que no ano seguinte repetiram a fórmula. Montrose 90 também é estupendo.

gero pomerol 89 e 90

o rei Petrus intimida os companheiros

O terceiro vinho, Vieux Chateau Certan 90 têm duas enormes vantagens. Esta muito prazeroso de ser tomado e tem um preço bem camarada para um Bordeaux 90 com aromas terciários. Ainda com um bom núcleo frutado, os aromas de tabaco e de couro são sedutores. Muito bem equilibrado, este Pomerol tem um certo jeitão de margem esquerda. Muito provavelmente, pela alta proporção de Cabernets, tanto Cabernet Franc, como Cabernet Sauvignon. Enfrentou bem o Montrose 89 (nota 100) por um preço bem abaixo. No máximo, metade do valor.    

gero bordaleses 89 e 90

a turma toda na foto

Após longa decantação, a magnum de Petrus 1989 foi servida. Na extensa fila de notas 100 do rei de Pomerol, Parker coloca o 89 no topo, junto com o 90 e 2000. Ao contrário do Montrose de mesmo ano, ainda não quer muita conversa. Troca algumas palavras e basta. Êta cara difícil!. O vinho tem uma força extraordinária. Parece que ele está preso numa camisa de força, pronto a explodir a qualquer momento. É por isso que Petrus é Pomerol, e não Merlot. Aquela montanha de taninos, aquela estrutura portentosa, não tem muita a ver com os Merlots comuns que esbanjam suavidade e maciez. Quem tiver paciência, estará diante de um dos maiores tintos já elaborados. Auge previsto para 2040. Proporcionalmente, bem mais acessível que o 90, um ano mais novo, com previsão para 2065. É meus amigos, o jeito é esquece-lo na adega.

gero linguine e ragu de coelho

linguine e ragu de coelho

Mais um belo prato do restaurante Gero, bela massa com molho substancioso. Sem modismos, sem frescura, comida com gosto de comida. Coisas de quem entendo do riscado.    

Por fim, ainda deu tempo de dar uma passadinha em 1978 com o fabuloso La Mission, outro colecionador de notas 100 de Parker. Este em questão tem 96 pontos com enorme vantagem de estar pronto e absolutamente delicioso. É sério candidato ao vinho da safra 78. Longe de qualquer indício de decadência, este La Mission tem aromas e sabores multifacetados com o típico tabaco, defumados, estrebaria, e outras cositas próprias de sua apelação Pessac-Léognan. O eterno rival e vizinho de parede do altivo Haut Brion. Parede é força de expressão, basta atravessar a rua.

Em resumo, uma aula de Bordeaux  com suas contradições e exceções. Senão vejamos, Montrose é um clássico Saint-Estèphe austero, mas a safra 89 quebra um pouco essa austeridade, dando suavidade ao vinho. Os dois de Pomerol fogem um pouco da costumeira maciez e feminilidade da apelação. Petrus, por características únicas de terroir e VCC, pela proporção de Cabernets.   

Ainda falando de Pomerol, este VCC 1990 seria mais austero com a maciça maioria de outros vinhos da comuna, sobretudo da precoce safra 89. Como ele bateu de frente com o Petrus 89, os papeis se inverteram. Ele virou a mocinha do casal. A situação faz o ladrão!

Senhores, caros confrades, mais uma vez meus agradecimentos. Essas aulas que vocês proporcionam valem muito mais que todos os livros e tratados sobre vinhos. Saúde a todos!