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Minha Seleção 2018 ABS-SP

28 de Novembro de 2018

Como um dos Diretores de Degustação da ABS-SP, neste artigo faço uma seleção dos dez melhores vinhos degustados na entidade ao longo de 2018. Alguns dos critérios escolhidos foram preço acessível, disponibilidade do produto, originalidade, e uma seleção com vários tipos de vinhos. É evidente que se trata de uma escolha pessoal onde alguns outros vinhos também interessantes ficaram de fora. Enfim, os dez escolhidos seguem abaixo.

1. Huet Vouvray Pétillant Brut 2007

Este é o único espumante da lista, e ainda assim um Pétillant (pouquíssimo gás dissolvido no vinho). Essa era a maneira tradicional de se elaborar Vouvray na chamada Old School. Apelação importante do Loire onde reina a casta Chenin Blanc. O produtor dispensa comentários, Domaine Huet. Esse vinho, a princípio um branco tranquilo, é engarrafado com algum açúcar residual natural, muito comum na região. Com o passar do anos em adega, ele adquire uma pequena quantidade de gás dissolvida, resultado de lenta fermentação daquele açúcar residual pelas leveduras naturais presentes no vinho. O resultado é um vinho extremamente gastronômico, de rica textura, e leve efervescência das borbulhas. Aromas elegantes e complexos denotando mel de flor de laranjeira, maracujá, amêndoas, e notas de pâtisserie. Pode ser uma bela opção para entradas com foie gras ou patês de caça, especialmente aves. Um vinho que vale no mínimo, pela curiosidade. Importadora Premium (www.premiumwines.com.br). 

2. Viña Aquitania Sol de Sol Chardonnay 2009

Se não for o melhor, está entre os melhores Chardonnays chilenos. Mais do que ser muito bom, provou que pode envelhecer bem, pois este exemplar com quase dez anos, estava em seu esplendor. Ainda muito rico em frutas tropicais, madeira bem integrada, e um equilíbrio notável. Tem um estilo europeu, bem diferente do que se espera de um vinho chileno. Já um clássico do Chile, é elaborado com uvas do frio Valle de Malleco, bem ao sul do país. Importadora Zahil.

ABS 2018 RICCITELLI SEMILLON

Descorchados: 92 pontos

3. Matias Riccitelli Old Vines Sémillon 2017

Um branco que foge totalmente dos padrões argentinos, velhas vinhas de Sémillon plantadas no anos 70 na fria região da Patagônia, bem ao sul do país. O vinho é amadurecido por seis meses em barricas  (60%) e tanques de concreto (40%). O contato com as leveduras após a fermentação por algumas semanas, confere textura e complexidade ao conjunto. Bela riqueza aromática, mesclando ervas, mel, baunilha, e pêssegos. Sempre macio, sem perder o fresco. Notável persistência aromática. Importadora Winebrands.

 

números 4 e 6

4. Travaglini Gattinara DOCG 2012

Travaglini é a grande referência quando falamos de Nebbiolo da DOCG Gattinara. Localizada bem ao norte da denominação Barolo, seus vinhos primam muito mais pela elegância e sutileza, do que pela potência. Com toques florais e de alcaçuz, este tinto é muito equilibrado e elegante. Seus taninos são delicados para a casta em questão, além de expansivo em boca. Preço bem razoável para Nebbiolos deste porte. Importadora World Wine.

5. Cantina Cellaro Due Lune IGT 2013

Com a Sicilia em voga, este é o segundo de uma série de italianos da lista. Um corte clássico da ilha com Nerello Mascalese predominando (70%) e Nero d´Avola como coadjuvante (30%). O vinho passa cerca de oito meses em barricas francesas. Um tinto moderno, mas de muita tipicidade, com bom poder de fruta, toques tostados elegantes, florais, e chocolate escuro. Bem balanceado em boca, taninos de boa textura, e final bem acabado. Preço bem honesto para o que oferece. Importadora Casa Flora.

6. Castellare di Castellina Chianti Classico 2014

Dos vários toscanos degustados ao longo de 2018, este Chianti Classico chamou a atenção pela elegância e por seu preço honesto. Madeira bem colocada, aromas típicos da Sangiovese, e taninos muito bem moldados. Seu belo frescor o torna muito gastronômico. Vinícola tradicional da região histórica de Castellina in Chianti. Importadora Mistral.

 

números 5 e 7

7. Chateau Fayau Bordeaux Superieur 2015

Premiando a bela safra 2015 de tintos bordaleses, este Chateau relativamente simples, mostrou tipicidade, equilíbrio, elegância, e sobretudo bom preço. Neste típico corte bordalês, uma expressiva porcentagem de Cabernet Franc presente, dá um toque a mais de elegância ao conjunto. Pronto para ser tomado. Importadora Mistral.

8. Vinhas da Ciderma Grande Reserva 2007

Nas últimas degustações do ano, apareceu este belo tinto do Douro com castas locais, esbanjando classe e vivacidade. Embora já com dez anos de evolução, não denuncia a idade. Muita fruta no aroma, toques resinosos e de alcaçuz com taninos de ótima textura. Madeira bem equilibrada e bela expansão em boca. Ótimo momento para ser apreciado. Importadora Premium.

 

números 9 e 10

9. Quinta do Noval Porto LBV Unfiltered 2009

Podemos considera-lo como um mini-vintage, tal a concentração e qualidade deste Porto. Cor retinta, aromas de frutas escuras, toques florais, de torrefação e algo mineral. Seus taninos são densos e muito bem construídos. Doçura e equilíbrio notáveis, além de uma bela persistência aromática. Convém decanta-lo para aeração e também na separação dos sedimentos, já que não é filtrado. Dentro da categoria LBV é dos mais distintos. Importadora Adega Alentejana (www.alentejana.com.br).

10. Alois Kracher Noble Reserve Trockenbeerenauslese 

Finalizando a lista, um belo vinho botrytisado da Áustria. O produtor Alois Kracher é referência na região de Burgenland, famosa pela regularidade em propiciar o fenômeno da “podridão nobre”. Num corte inusitado de Welschriesling (Riesling Itálico), Chardonnay, e Traminer, o vinho é maturado em grandes toneis de madeira inerte. Com 195 g/l de açúcar residual, sua doçura é perfeitamente equilibrada por uma revigorante acidez. Os aromas marcantes de Botrytis, mel, flores, e pêssegos, são notáveis. Untuoso em boca e de grande persistência aromática. Pela complexidade e estilo de vinho, tem um preço bem convidativo na importadora Mistral. Vale lembrar, neste tipo de vinho estamos falando em meia-garrafa.

Passando por vários tipos, estilos, preços, e regiões de vinhos, espero que esta lista possa ajuda-los nas compras e presentes no fim de ano com a aproximação das festas e comemorações. As safras e preços podem ter sido alteradas ao longo do ano, mas nada que prejudiquem a qualidade e indicação destes vinhos. A maioria varia entre 150 e 300 reais. Aproveitem!

Final Masterchef 2018: Harmonização

2 de Agosto de 2018

Como de costume, Vinho Sem Segredo harmoniza o menu da prova final do programa Masterchef da Band. E mais uma vez esclareço, é apenas um exercício de enogastronomia. Aqui não há defesa ou ataque ao programa, criando polêmicas. A despeito das críticas, as quais concordo com muitas delas, o programa é um sucesso. A sucessão de temporadas ininterruptas fala por si.

Considerações feitas, vamos aos pratos. O candidato Hugo optou por um menu mais ousado e criativo, trilhando um caminho mais arriscado. Já Maria Antonia, não saiu dos clássicos, ficando numa zona de maior conforto. Mesmo assim, esqueceu ingredientes importantes para as receitas e houve falhas notáveis na execução dos pratos. A justificativa do prêmio foi o sabor. Enfim, questão de ponto de vista.

Entradas 

HugoCamarão ao molho de tucupi

O camarão é cozido no vapor, preservando a delicadeza do crustáceo. O sabor  e a presença do tucupi é que vai nortear a harmonização. O prato de Hugo é rico em ervas e especiarias. O único senão do prato foi a falta de um elemento crocante para acompanhar o caldo. Para harmonizar, escolhemos um vinho também inovador e contemporâneo de origem eslovena do produtor Simcic Marjan da importadora Decanter. É um branco elaborado com a uva Sauvignonasse, sinônimo da antiga Tocai Friulano, envolvendo maceração e contato sur lies. Um vinho de rica textura, muito aromático, e destacada mineralidade, sem nenhum contato com madeira. Este vinho levanta os sabores do prato, preservando a sutileza e personalidade do mesmo.

Maria Antoniaragu de cogumelos, ovo mollet e trufas

Na entrada acima de Maria Antonia, nada de novidade, absolutamente clássico. O prato foi bem executado com cogumelos bem temperados, ovo no ponto correto, e as trufas dando um charme final. O óbvio e clássico na harmonização é um Bourgogne Blanc com certo grau de evolução, enfatizando seus aromas terciários. Outro clássico já não tão comum, seria um Chateau Grillet, o melhor da apelação Condrieu com a uva Viognier, de alguns anos de adega. As trufas agradecem …

Pratos Principais

HugoRagu de coelho com pirão de leite

Mais um prato moderno do finalista Hugo, mostrando boa técnica na execução. Um ragu clássico com ervas e especiarias no molho, mas com inovação no pirão de leite. Pirão este onde a farinha de mandioca vai engrossando o leite aos poucos. Um prato saboroso e delicado ao mesmo tempo. O vinho para a harmonização deve acompanhar esses aromas e delicadeza. Nada melhor que o Chianti Classico Castello di Ama da importadora Mistral. Um tinto super equilibrado que só vai valorizar o prato.

Maria Antoniapappardelle com ragu de ossobuco de vitela

Outro clássico italiano proposto por Maria Antonia com algumas ressalvas. Ela esqueceu de acrescentar tomates ao molho e perdeu a mão na confecção da massa caseira. O que a salvou foi o sabor do molho e a farofa de tutano com pão ralado. Um prato rico de sabores, pedindo um tinto de personalidade. Saindo um pouco das regiões clássicas italianas, um tinto da Sicilia do lado do Etna com seu solo vulcânico, pode ser uma boa pedida. A uva Nerello Mascalese molda belos exemplares na região. A importadora Casa Flora tem um exemplar chamado Due Lune, mesclando as uvas Nerello Mascalese e Nero d´Avola. Um vinho marcante, saboroso e de madeira elegante.

Sobremesas

Hugotorta de maça e sorvete de cumaru

Mais um prato inovador do finalista Hugo, uma torta de maçã desconstruída com sorvete de cumaru. É uma sobremesa com muito pouco açúcar e um sorvete relativamente neutro. Seguindo a modernidade de seu menu, vamos de Icewine para esta sobremesa. É uma especialidade canadense, dificilmente encontrada no Brasil. É um vinho doce que vai bem com sobremesas leves, com frutas frescas, e com sorvetes de um modo geral. Geralmente, eles usam uma uva híbrida chamada Vidal. Um vinho não muito doce, muito boa acidez, e de sabor delicado. Eventualmente, pode ser encontrado no empório Santa Luzia.

Maria Antoniasorvete de mascarpone, biscuit, e calda de chocolate

Na sobremesa proposta por Maria Antonia outro clássico, Tiramisu,  mas desta vez desconstruído, dando um toque de modernidade. Pena que o sorvete desandou e a calda que deveria ter café, foi mais um esquecimento da finalista. De todo modo, os sabores estavam corretos, e foram primordiais para sua vitória. Continuando no classicismo, a harmonização pensando no lado italiano fica com o Recioto della Valpolicella. É a versão doce do grande tinto do Veneto, Amarone. Com sobremesas à base de chocolate é um vinho certeiro, sem ser muito doce. Outra opção italiana interessante seria um Marsala dolce, o mais famoso fortificado siciliano.

Em resumo, pratos de sabores e texturas variadas, ora num estilo mais moderno, ora num estilo clássico. Seja como for, há sempre vinhos para escolta-los adequadamente, enriquecendo a refeição e dando sentido à enogastronomia.

Os vinhos de 2017

1 de Dezembro de 2017

Fazendo um apanhado das várias degustações realizadas na ABS-SP em 2017, seguem algumas dicas e lembranças de vinhos nos seus mais variados estilos e preços, até já pensando nas festas de fim de ano que se aproximam. São avaliações estritamente pessoais que seguem abaixo, separadas por estilos e tipos de vinhos.

Espumantes     

Esse é o tipo de vinho que não pode faltar nesta época do ano, embora em várias oportunidades, lembramos sempre de sua versatilidade e compatibilidade gastronômica nas mais variadas situações.    

grand cru tasting 2017 geisse cuvee sofia magnum

Dos nacionais: Cave Geisse com larga vantagem. Não importa qual, um espumante de alta qualidade com informações úteis de safra e data de dégorgement. Importadora Grand Cru.

Dos Internacionais: num preço intermediário, os Cavas apresentam boas ofertas em várias importadoras. Menção especial aos Gramonas, importados pela Casa Flora.

Dos Champagnes: as opções são imensas, sobretudo se preço não for problema. Em todo caso, Deutz da Casa Flora, Jacquesson da Franco Suissa, e  Pierre Gimonnet para quem não abre mão de um delicado Blanc de Blancs, são belas opções. Este último, da importadora Premium.

Brancos leves

Aqui, fugindo totalmente daquele tipo de branco do “inho”. Levinho, gostosinho, equilibradinho, e assim vai. São brancos que possuem leveza, elegância, mas com profundidade e equilíbrio. 

Henri Bourgeois Sancerre Le MD de Bourgeois 2014 – Grand Cru

Fritz Haag Riesling Trocken 2015 – Grand Cru 

Brancos estruturados

abs tondonia blanco 2000

Lopez de Heredia Viña Tondonia Reserva 2000 – Vinci

Baseado na casta Viura ou Macabeo, este branco passa por um trabalho de barrica excepcional. Embora longamente amadurecido, a madeira se funde completamente ao vinho, protegendo-o da oxidação e enaltecendo a fruta e riqueza aromática. Pessoalmente, esta bodega elabora os melhores brancos de longa guarda de toda a Espanha. O melhor branco degustado em 2017.

Rosés

Quando se fala em rosés, fala-se em Provence. Não há nada que se compare à elegância e tipicidade desses vinhos. Portanto, qualquer compra desses rosés entre 100 e 150 reais, dificilmente não satisfará. 

antinori scalabrone

Antinori Scalabrone Rosé 2015 – Winebrands

Aqui temos uma das poucas exceções de rosés que valem a pena. Belo trabalho da Tenuta Guado al Tasso mesclando Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah, sem interferência da madeira. Um rosé de presença em boca, muito gastronômico, um pouco mais encorpado que os provençais, mas muito bem feito. Um salada de polvo com toques de ervas e especiarias é uma bela harmonização.

Tintos leves

Novamente aqui, aquela conotação de profundidade, meio de boca, embora com graça e delicadeza.

Marziano Abbona Dolcetto di Dogliani Superiore Papà Celso 2013 – Mistral

Não é um Dolcetto barato, mas está longe de ser comum. Parreiras antigas, rendimentos baixos, são fatores determinantes para um tinto de grande concentração de sabor. Tanicidade moderada, muito macio, mas com ótimo frescor. É perfeitamente comparável ao Dolcetto do Roberto Voerzio, outro grande produtor piemontês.

Antonio Saramago Risco tinto 2013 – Vinissimo

Um vinho relativamente barato e sem grande sofisticação, mas extremamente bem feito. Equilibrado, fruta bem colocada, frescor na medida certa. Vinho de destaque para o dia a dia e muito gastronômico.

Tintos estruturados

Cantine Cellaro Due Lune IGT 2013 – Casa Flora

Um italiano da Sicilia que mescla as uvas Nero d´Avola e Nerello Mascalese com muita fruta, taninos bem moldados, e bom contraponto de acidez. Bom corpo, persistente, e bem equilibrado.

Rupert & Rothschild Classique 2012 – Zahil

Para quem gosta do estilo bordalês clássico, este sul-africano tem elegância e equilíbrio. De corpo médio, é um vinho normalmente pronto para o consumo e muito gastronômico.

Clarendon Hills Bakers Gully Syrah 2009 – Vinissimo

Eta australiano bom!. Sempre com vinhos muito equilibrados, este Syrah não foge à regra. Bela fruta, taninos polidos, e muito frescor. Vinho com profundidade e persistência.

Quinta Vale Dona Maria VVV Valleys 2013 – World Wine

Um exemplo de elegância e robustez no Douro. Taninos abundantes, mas muito bem trabalhados, além do belo frescor. Bom corpo, sem ser cansativo. Um belo tinto para os assados de fim de ano.

Chateau Haura Graves 2014 – Casa Flora

Uma homenagem acima de tudo a Denis Dubourdieu, grande enologista bordalês, falecido recentemente. Muita tipicidade de Graves com seus toques terrosos e balsâmicos. Belos taninos, elegante, e muito equilibrado. Tudo que um bom cordeiro espera.

abs zambujeiro

Terra do Zambujeiro 2012 – Casa Flora

Um dos grandes tintos do Alentejo sem ter que pagar uma fortuna por isso. Blend bem balanceado com Alicante Bouschet, Trincadeira, Aragonês, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. Tem o toque na medida de barricas francesas. Grande concentração, maciez, e persistência aromática. 

Pesquera Crianza 2013 – Mistral

Para aqueles que não podem ter um Vega-Sicilia, Pesquera é muito mais que um consolo. Tempranillo elegante de escola tradicional de Ribera del Duero. Toques balsâmicos com a maestria exata da barrica. Fino, elegante, e muito consistente a qualquer safra.

grand cru tasting 2017 bodegas mauro

Bodegas Mauro 2014 – Grand Cru 

Mariano Garcia sabe dar o toque exato de modernidade num vinho que está fora da nobre denominação de Ribera del Duero, sem perder suas raízes. Longe da rusticidade taxada para este tipo de vinho, seu Tempranillo é pura elegância, profundidade, e muita personalidade. Sempre um porto seguro.

Pulenta Estate XI Gran Cabernet Franc 2013 – Grand Cru 

Este produtor argentino apresenta uma consistência impressionante em seus vinhos, desde os mais simples, até seus ícones, como este belo Cabernet Franc. Embora seus Malbecs sejam dignos de nota, uma homenagem a esta cepa sempre relegada a segundo plano. Vinho elegante, equilibrado, fugindo do lugar comum.

abs stonyridge 2008

Stonyridge Larose 2008 – Premium 662 reais

Não é um vinho barato, mas vale cada centavo. Em termos de Brasil, é difícil um autêntico Bordeaux de margem esquerda batê-lo nesta faixa de preço (seiscentos reais). Um nariz complexo, taninos muito finos, e longa persistência. Apesar da idade, tem muita vida pela frente. É imperativo decanta-lo para uma boa apreciação. Um neozelandês de peso. Sem dúvida, o vinho do ano.

Vinhos doces

abs carcavelos

Villa Oeiras Carcavelos Branco Blend 10 anos – Adega Alentejana      

Carcavelos é uma denominação nos arredores de Lisboa quase extinta. Graças a alguns visionários como Villa Oeiras, temos uma faísca de esperança em sua manutenção. O fortificado preferido de Marques de Pombal, embora sua contribuição para o Vinho do Porto seja imensa. Este 10 anos apresenta concentração, frescor, e longa persistência aromática. Lembra de certo modo alguns Madeiras.

Domaine Paul Mas Maury Mas des Mas 2011 – Decanter

Os fortificados franceses se apegam muito ao Banyuls, esquecendo de um concorrente ilustre chamado Maury, de localização mais interiorana na área de Roussillon. Também elaborado com Grenache, segue o mesmo padrão de vinificação do famoso vinho do chocolate. Com certa passagem por madeira, lembra os típicos Tawnies portugueses da linha Reserva. Bela alternativa às opções cotidianas.

Quando se vê já se passou um ano, quando se vê já se foram vinte e sete anos de ABS-SP. Agora é tarde demais para ser reprovado. Mário Quintana estava certo …

O Mezzogiorno repaginado

11 de Maio de 2017

Na chegada do inverno, procuramos sempre por tintos mais robustos, mais intensos, mais quentes, bem de acordo com a culinária de sabores e molhos marcantes. Neste contexto, os vinhos do sul da Itália devem ser lembrandos, fugindo um pouco dos encorpados Cabernets. Tannats e Malbecs do Mercosul. Além de originais, autênticos, como todo os italianos, são muito gastronômicos.

Há décadas passadas, esses tintos foram sempre desprezados, e extremamente discriminados pelos próprios italianos, sobretudo a turma do norte, onde Barolos e Barbarescos sempre foram os vinhos mais nobres e elegantes. Contudo, os tempos mudaram. O sul da Itália abriu mão da quantidade, reavaliando suas vinhas, seus altos rendimentos, e sua vinificação arcaica. Atualmente, a turma do norte tem mais volume no cômputo geral dos vinhos, algo impensável em outras épocas. O mar de Proseccos, Lambruscos e Soaves atualmente, depõem negativamente à tão promulgada superioridade qualitativas desta região setentrional mais abastada.

Campania

Antes de falar dos tintos, vamos enfatizar os brancos desta região. Sem dúvida, tanto Greco di Tufo, como Fiano di Avellino, são brancos que dignificam o sul da Itália. Sempre muito frescos, originais, e gastronômicos, muitos deles são agraciados com tre bicchieri, pontuação máxima do mais tradicional guia de vinhos italiano. As uvas são Greco e Fiano, respectivamente.

Os tintos baseados na potente uva Aglianico, podem envelhecer com dignidade. A nobre denominação Taurasi é seu terroir mais clássico. Entretanto, outras denominações menos restritivas moldam tintos modernos, indo de encontro ao gosto internacional dos consumidores. Enfim, escolhendo bem os produtores, tem tintos muito bons para o inverno, de todos os gostos e bolsos.

ABS irpinia aglianico

equilíbrio e tipicidade

O tinto acima vem de uma denominação mais genérica em torno da DOCG Taurasi chamada Irpinia. Apresenta boa fruta, álcool relativamente discreto para os padrões da região e pouco invasivo no sentido gastronômico. Safra 2010 já com seus seta anos, pronto para consumo.

Puglia

Já foi um máquina de fazer vinhos, embora tenha ainda uma produção considerável. Faz cerca de 15% de todo vinho italiano. De relevo praticamente plano, lembrando uma mesa, a proximidade do Adriático e do mar Jônico, refresca um pouco o sol implacável no tempo de maturação das uvas. Seus tintos baseados nas uvas Primitivo e Negroamaro principalmente, moldam vinhos densos, cheios de fruta, chegando até a uma sensação de doçura. Os preços geralmente apontam para os vinhos mais profundos e concentrados. A denominação Primitivo di Manduria é a mais badalada no momento.

ABS primitivo cinquanta

as famosas vinhas velhas

Para aqueles amantes de tintos densos, encorpados, cheios de fruta, chegando até parecerem doces, este é o tinto a ser procurado. Um vinho musculoso, macio, lembrando a densidade de um Porto. A concentração se explica pelo emprego de parreiras com mais de 50 anos, rendendo apenas um quilo por planta. Carnes ensopadas com molhos vigorosos e sabores agridoces são grandes parceiras, sobretudo nesses dias de inverno mais intensos.

Sicilia

Se tem uma região no Mezzogiorno onde a renovação chegou pra valer, esta região é a Sicília, a maior ilha do Mediterrâneo. Outrora baseada no vinho fortificado Marsala, a Sicília hoje é premiada por seus tintos robustos, modernos e cheios de personalidade, baseados sobretudo nas uvas Nero d´Avola e Nerello Mascalese. Enquanto a primeira é um pouco mais eclética, indo desde de vinhos frutados e de consumo imediato, até alguns tintos de guarda como por exemplo, Don Antônio, importado pela Ravin (www.ravin.com.br), a Nerello Mascalese tem estrutura para vinhos mais complexos e de guarda, transmitindo toda a mineralidade dos solos vulcânicos nas cercanias do Etna.

ABS sicilia due lune

duas grandes uvas sicilianas

No tinto acima, uma fusão interessante de concentração, potência, e estrutura para bons anos de guarda. Enquanto a Nero d´Avola entra com muita fruta e maciez, a Nerello Mascalese, passificada no pé (ainda na vinha), mostra toda sua força, sobretudo nos taninos presentes e bem moldados. Um tinto que dignifica as raízes da ilha sem abrir mão da modernidade dos vinhos atuais.

Basilicata e Calabria

Nessas duas regiões acima, a modernidade não foi tão impactante como nas acima já citadas. O tradicionalismo  e as raízes destes locais estão ainda muito presentes. A Calabria é comandada em termos de qualidade pelo respeitado produtor Librandi. O potencial da região é certamente muito mais vasto do que seu tradicional e tosco tinto Cirò baseado na uva Gaglioppo.

Já a Basilicata, prende-se à denominação Agliancio del Vulture, a mesma uva da vizinha Campania. A altitude gera a devida amplitude térmica para equilibrar uvas perfeitamente maduras. Aqui, a mão do produtor pode trilhar por caminhos mais tradicionais ou alternativas mais modernas.

Sardegna

A famosa ilha de veraneio de alguns bilionários teve na história uma importante influência espanhola, trazendo para essas terras uvas como Garnacha (localmente chamada de Cannonau) e Cariñena (Carignano para os italianos). Essas duas tintas parrudas encontraram na ilha sol suficiente para uma perfeita maturação. Seus vinhos são densos, encorpados, e com uma agradável rusticidade, bem de acordo com pratos de sabores rústicos e selvagens. Não podemos esquecer de um grande branco da ilha agradabilíssimo, o DOCG Vermentino di Gallura. Fresco, vibrante, e intenso, acompanha bem pratos de peixes e crustáceos, grelhados ou in natura. Outro branco curioso é a Vernaccia di Oristano, uma espécie de Jerez da ilha que combina muito bem com massas aromatizadas com botarga (ovas secas de tainha).

ABS argiolas sardegna

tradição com competência

O vinho acima, retrata fielmente um clássico Cannonau di Sardegna. Aquela fruta exuberante típica da Garnacha, seus toques balsâmicos e cheios de especiarias. Um tinto agradavelmente quente, moldado em tonéis de madeira apenas para a devida micro-oxigenação. Um cabrito assado com ervas e batatas ao forno é um grande parceiro para este representante sardo.

Nos últimos tempos o tinto Carignano ganhou status, deixando para trás o tradicional Cannonau di Sardegna, elaborado em toda a ilha. A denominação Carignano del Sulcis atingiu seu ápice no grande tinto Terre Brune da vinícola Santadi. Investimentos do poderoso grupo envolvendo Tenuta San Guido (Sassicaia) e Cantina Santadi também faz sucesso com seu tinto Barrua, sofisticando o padrão da ilha.

Enfim, mais uma opção para tintos de inverno e principalmente, para estarem à mesa acompanhando os pratos mais calorosos. Aí, é só acender a lareira …

Marsala: Estilos e Denominações

23 de Setembro de 2013

Embora seja um vinho praticamente esquecido nos dias de hoje, o Marsala é o mais famoso e emblemático fortificado da Itália. Sua fama deteriorou-se devido à utilização do mesmo na cozinha para várias receitas clássicas. Somado a isto, as falsificações e imitações completaram um cenário até certo ponto injusto,  pois os grandes Marsalas têm tradição e qualidade. A foto abaixo mostra a melhor denominação do Marsala, em sua versão Vergine.

Vergine: o Marsala imaculado

Deixando de lado a história deste vinho, criado no século dezoito, seu território situa-se na ilha da Sicília, sul da Itália, mais precisamente no extremo oeste da ilha onde localiza-se a cidade de Trapani. A denominação de origem controlada (DOC) pressupõe as uvas nativas brancas (Catarratto, Grillo, Inzolia ou Ansonica, e Damaschino) e tintas (Nerello Mascalese, Nero d´Avola ou Calabrese, e Pignatello ou Perricone).

Começando pelo Marsala Vergine, o mais reputado dentre todos os tipos, é sempre seco e elaborado somente com as uvas brancas permitidas. Em sua elaboração só é permitida a adição de aguardente vínica depois de todo o vinho-base ter sido fermentado. Portanto, seu sabor é sempre seco, com grande frescor (acidez) e envelhecido em botti (tonéis grandes) por pelo menos cinco anos. Na versão Vergine Riserva ou Stravecchio, o vinho permanece pelo menos dez anos em madeira. Aliás o envelhecimento em madeira para os Marsalas obedece o mesmo processo do sistema “Solera” em Jerez, ou seja, o vinho mais jovem é colocado na fileira mais alta das Criaderas, após ser sacado para a fileira imediatamente abaixo, e assim sucessivamente  até chegar na última fileira junto ao solo (Solera). Maiores detalhes, consultar tema sobre Jerez em vários artigos neste mesmo blog.

Os demais tipos de Marsala, inferiores ao supremo Marsala Vergine, apresentam denominações mais complicadas devido a seu processo de elaboração, como veremos a seguir. Primeiramente, é preciso definir os termos “Mosto Cotto” e “Mistella”. Mosto Cotto nada mais é que o mosto de uvas rico em açúcares aquecido ou fervido com o objetivo de transmitir cor e aromas ao vinho. Já a Mistella ou Sifone é o mosto de uvas rico em açúcares com adição de aguardente vínica, fornecendo doçura ao vinho. Tanto um como outro são adicionados aos demais Marsalas maculando o vinho, deixando de ser virgem. Posto esses conceitos, vamos aos demais termos mencionados nos rótulos das garrafas. 

Os principais termos nos rótulos acima

Os termos Oro, Ambra e Rubino referem-se à cor do vinho. No termo Oro, não há adição de mosto cotto, somente mistella, proporcionando uma cor menos carregada e mais viva. Já o termo Ambra, pressupõe a adição do mesmo, gerando uma cor mais acentuada. No termo Rubino, não há adição de mosto cotto, pois a predominância das uvas é tinta, sendo permitido no máximo 30% de uvas brancas. Na prática, funciona mais ou menos como o termo Ruby para os vinhos do Porto.

Outro conjunto de termos referem-se à quantidade de açúcar presente no vinho. São eles: Secco, Semisecco e Dolce. Conforme a porcentagem e a concentração de Mistella, teremos açúcares residuais até 40 gramas por litro para o termo Secco. De 40 a 100 gramas por litro para o termo Semisecco. E finalmente, acima de 100 gramas por litro para o termo Dolce.

Termos: Ambra, Superiore e Dolce

Por úlitmo, os termos referentes ao envelhecimento em madeira, tais como, Fine, Superiore e Superiore Riserva. O termo Fine subentende-se envelhecimento em madeira por pelo menos um ano. Já o termo Superiore, um afinamento de pelo menos dois anos em madeira. Finalmente, o termo Superiore Riserva pressupõe um envelhecimento de pelos menos quatro anos.

Maiores informações e detalhes sobre o Marsala, favor consultar o site oficial denominado Consorzio pella Tutela del Vino Marsala DOC (www.consorziovinomarsala.it).


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