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Wine Spectator e mais Top Ten

20 de Novembro de 2018

Os cem melhores vinhos do ano de 2018, segundo a revista Wine Spectator. Relação sempre polêmica envolvendo a qualidade do vinho em si (nota), disponibilidade no mercado (número de caixas) e preço por garrafa, ou seja, o difícil é ter nota alta, grande produção e preço baixo. Poucos conseguem esta proeza. (www.winespectator.com).

De toda a relação, temos 30 americanos (a revista é americana), 20 italianos, 18 franceses, 8 espanhóis, 3 portugueses, 5 australianos, 4 neozelandeses, e o restante entre chilenos, argentinos, alemães, austríacos, sul-africanos, um de Israel, e um grego.

Dos americanos, sempre vinhos caros e praticamente indisponíveis no Brasil, a relação ratifica que as regiões da Califórnia (Napa, Sonoma, e Costa Sul), Oregon e Washington, sempre fornecem grandes vinhos que devem ser provados e comprados no exterior.

Dos italianos, a região da Toscana sobretudo, foi grande destaque com Chianti Classico e Brunello, embora um siciliano dentre os Top Ten.

Dos franceses, grande destaque para os bordaleses da safra 2015, uma das melhores dos últimos anos na Europa, e para os tintos do Rhône, especialmente Chateauneuf-du-Pape.

Da península ibérica, Espanha sempre com tintos instigantes e do lado português, destaque para a ótima safra 2016 no Douro com Vintages clássicos e de grande longevidade. Temos dois grandes Portos na lista.

De resto, a Oceania (Australia e Nova Zelândia) garfou nove exemplares, além dos outros países citados acima com participações pontuais.

Diante da lista completa, Vinho Sem Segredo seleciona seus Top Ten sem maiores pretensões, e de maneira nenhuma, subestimando a lista oficial. São também grandes vinhos, envolvendo além das notas, gosto pessoal.

1. Warre Vintage Port 2016

14° colocado na lista oficial com 98 pontos, Warre é a casa inglesa mais antiga em Vinho de Porto desde 1760. É logico que abri-lo agora é um imperdoável sacrilégio. Um vinho cheio de energia com taninos massivos e muita coisa a se desenvolver. Para os que estarão aqui em 2050, será um dos grandes Portos a atingirem o apogeu. Importadora Decanter.

wine spectator san felice chianti classico

2. San Felice Chianti Classico 2016

19° colocado na lista oficial com 94 pontos, este Chianti Classico custa somente 17 dólares no exterior. San Felice é um dos mais tradicionais produtores de Chianti Classico localizado em Castelnuovo Berardenga, próximo a Siena. Foi o pioneiro dos supertoscanos com o tinto Vigorello, lançado no mesmo ano do Sassicaia em 1968. Seus toques minerais e de tabaco são clássicos neste distinto terroir. Importadora Via Vini.

3. Roederer Estate Brut Anderson Valley

27° colocado na lista oficial com 93 pontos, este espumante é dos melhores da América com a chancela da Maison Louis Roederer. Com vinhedos localizados em Anderson Valley, próximo a Mendocino, região costeira bem ao norte da Califórnia, o vale absorve a tradicional neblina do Pacifico, provocando grande amplitude térmica. Neste blend clássico, temos Chardonnay (60%) e Pinot Noir (40%) com pelo menos dois anos sur lies (contato com as leveduras) antes do dégorgement.

wine spectator chateau-branaire-ducru 2015

4. Chateau Branaire-Ducru St Julien 2015

33° colocado na lista oficial com 94 pontos, este é um dos belos Grand Cru Classe da safra 2015. Nada a ver com o Chateau Ducru-Beaucaillou, outro ótimo Saint-Julien, Branaire-Ducru é um quatrième classificado de 1855. Blend composto por Cabernet Sauvignon (dois terços), Merlot (praticamente um terço), e pequenas porcentagens de Cabernet Franc e Petit Verdot. O vinho estagia entre 16 e 20 meses em barricas francesas (65% novas). Uma boa compra no exterior frente a outros chateaux mais famosos.

5. Descendientes de J. Palacios Bierzo Pétalos 2016

35° colocado na lista oficial com 92 pontos, este é um clássico da notável região de Bierzo, a noroeste da Espanha. Com seu relevo montanhoso e solo de pizarras (espécie de ardósia fragmentada), Bierzo molda tintos instigantes com a casta Mencia, cheio de pureza e mineralidade. Um dos grandes terroirs da Espanha. Importadora Mistral a bons preços.

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6. Henri Bourgeois Sancerre Les Baronnes 2017

46° colocado na lista oficial com 92 pontos. Um dos melhores produtores da apelação Sancerre, Henri Bourgeois molda Sauvignon Blanc  típicos do Vale do Loire. Les Baronnes é um de seus vinhedos, gerando brancos de ótimo frescor para nosso verão. Sem passagem por madeira. Importadora Grand Cru.

7. Domaine des Baumard Quarts de Chaume 2015

52° colocado na lista oficial com 98 pontos, este é um clássico botrytisado do Vale do Loire. Para quem está cansado de Sauternes, Quarts de Chaume é uma apelação clássica de Anjou com a casta Chenin Blanc. Vinho de grande delicadeza, complexidade, e longevidade. Importadora Mistral.

wine spectator hamilton russell chardonnay

8. Hamilton Russell Chardonnay Hemel-en-Aarde Valley 2017

57° colocado na lista oficial com 93 pontos, Hamilton Russell é sinônimo de Borgonha na África do Sul. Com vinhedos situados na fria região litorânea de Walker Bay, banhada pela corrente de Benguela, seus Chardonnays fermentados e amadurecidos em barricas francesas, são complexos, equilibrados e expansivos. Importadora Mistral. 

wine spectator auguste clape cornas

9. Auguste Clape Cornas 2015

77° colocado na lista oficial com 98 pontos, Auguste Clape é referência absoluta na apelação Cornas, maldosamente mencionada como “Hermitage dos pobres”. Tinto de grande força, personalidade, e longevidade. Seus vinhedos ficam num anfiteatro localizados a sul da apelação Hermitage com uma exposição solar fora de série para o perfeito amadurecimento das uvas Syrah. Para quem tem muita paciência em adegar. Importadora Mistral.

10. Henri Gouges Nuits-St-Georges Clos des Porrets 2015

79° colocado na lista oficial com 95 pontos, Henri Gouges personifica o lado mais masculino de Nuits-St-Georges, vasta comuna com muitas expressões de terroir. Clos des Porrets é um monopólio de pouco mais de três hectares. Tinto musculoso, tânico, e de grande longevidade. O lado mais viril da Pinot Noir. Importadora Zahil.

Enfim, uma lista com cinco franceses de diferentes procedências. A outra metade com vinhos pouco conhecidos do grande público, de preços variados, e muitos deles encontrados no Brasil, embora a preços nem sempre convidativos. Para aqueles que têm a oportunidade  de irem ao exterior, uma bela chance de prova-los a preços honestos.

 

 

 

Chateauneuf-du-Pape e Arredores

1 de Novembro de 2018

Em recente degustação na ABS-SP,  tivemos vinhos do Rhône-Sul, em especial, Chateauneuf-du-Pape, uma das mais famosas apelações da França. No quadro abaixo, informações importantes sobre terroir e dados estatísticos.

terroir da apelação

http://www.europeancellars.com/more-than-just-la-crau/

O link acima permite ampliar bem o mapa proposto para melhor visualização. Em primeiro lugar, as treze cepas autorizadas da apelação com amplo domínio de vinhos tintos que por sua vez, é protagonizado em seu famoso corte pela uva Grenache (quase 75% de participação). São 3200 hectares de vinhas repartidas em cinco comunas. Mais de 90% da produção são de vinhos tintos. A França exporta dois terços desta produção. Um dos vinhos franceses mais conhecidos internacionalmente. Os solos são muito variados e podem ser representados por quatro tipos principais: galets roulés (ovos de pata), típicos da região, arenosos, calcários, e grés rouges, uma espécie de arenito. Vamos então, às cinco principais comunas deste complexo terroir.

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Chateauneuf-du-Pape

É a maior área com solos de grande diversidade, mas em sua maioria com as famosas pedras que caracterizam a região. Isso transfere muito calor às vinhas, permitindo uma completa maturação das uvas. Nos setores mais periféricos da comuna há mais ênfase em areia e argila, dependendo de localizações mais específicas. 

Courthézon

Região nordeste da apelação com maior área, depois de Chateauneuf-du-Pape descrita acima. Aqui predomina solos arenosos e de arenito sobretudo, onde o Chateau Rayas reina absoluto. Em meio a um terroir único cercado de bosques, é considerado o Borgonha da apelação com vinhas antigas exclusivamente de Grenache.

Orange

Região norte da apelação com seus solos aluviais vermelhos misturando argila, areia e pedras em proporções variáveis. Terroir do Chateau de Beaucastel, um dos mais emblemáticos da apelação.

Bédarrides

Região a leste da apelação, imediatamente ao sul de Courthézon. Solos parecidos com Orange, de tendência mais arenosa. Tem como chateau emblemático o Domaine du Vieux Telégraphe.

Sourgues

Região sul da apelação com solo parecido a Orange, rico em ferro. Clos des Papes e Chateau Fortia ficam no limite deste terroir.

Quanto aos Chateauneufs degustados, foto acima, o da esquerda apresenta um estilo clássico já com perfil evoluído, no ponto de ser bebido. Esses vinhos baseados em Grenache costumam evoluir relativamente rápido em garrafa, sobretudo quando de uma safra não tão boa como 2012. São vinhos que não devem ser decantados para aeração.

Quanto ao vinho da direita, Domaine Lafond, tem um estilo mais extraído e moderno, com uma aporte mais evidente de madeira. Seu equilíbrio é feito por cima, destacando-se uma boa estrutura tânica, além do nível alcoólico de 15 graus. Um vinho potente, um tanto fechado, necessitando de alguns anos em adega. Deve evoluir bem nesta ótima safra 2015 por pelo menos dez anos.

Apesar da fama da apelação, é bom frisar que Chateauneuf du Pape tem vinhos muito irregulares e muitas vezes de negociantes. Portanto, o prestigio e idoneidade do produtor tem um peso enorme na qualidade dos vinhos, justificando integralmente o glamour entre seus aficionados.

Outras apelações próximas a Chateauneuf-du-Pape podem ser belas alternativas ao astro maior, sobretudo se o preço estiver em jogo. Seguem algumas delas com certas particularidades.

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Gigondas e Vacqueyras

Antigas comunas da apelação Côtes-du-Rhône Villages, adquiriram apelações próprias com o tempo. Gigondas conquistou a apelação em 1971 num terroir único em torno de Dentelles de Montmirail com 1200 hectares de vinhas. Solos com base calcária permeados por argila e areia. A Grenache é amplamente dominante no corte, seguida pelas uvas Syrah e Mourvèdre. Bela alternativa a Chateauneuf-du-Pape, numa ótima relação qualidade/preço.

No caso de Vacqueyras, ganhou status de apelação em 1990 num terroir próximo a Gigondas com 1400 hectares de vinhas. São terrenos mais arenosos e menos acidentados em relação a Gigondas. Continuando a comparação, as uvas amadurecem mais cedo e os vinhos são mais acessíveis na juventude, sem grande estrutura como Gigondas, na maioria dos casos.

Os dois tintos degustados acima, vide foto, demonstram as características de cada uma das apelações. No caso da esquerda, Gigondas 2013, mostra um vinho com taninos evidentes e marcantes. Tem um estilo mais viril, mais masculino, vislumbrando mais alguns anos de guarda para desenvolver aromas e polimerizar taninos.

No caso do Vacqueyras 2015, vinho à direita, mostra muita concentração de frutas escuras, toques florais, evidenciando toda sua juventude. Delicado em boca, mostra taninos sedosos, boa maciez, e álcool relativamente equilibrado. É evidente que merece alguns anos de guarda, embora possa evoluir relativamente rápido em garrafa. Um belo exemplar de boa tipicidade.

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Rasteau

Uma apelação um tanto confusa, pois nasceu como um dos VDN (Vin Doux Naturel) da região com as uvas Grenache de parreiras antigas, gerando um vinho tinto fortificado semelhante ao Banyuls da região de Roussillon. Atualmente, são apenas 22 hectares de vinhas com rendimentos muito baixos.

Mais recentemente, em 2010, esta apelação adquiriu nome próprio dentro da apelação Côtes-du-Rhône Villages, elaborando vinhos tintos secos à base de Grenache, complementada pelas uvas Syrah e Mouvèdre, principalmente.

O vinho acima degustado abriu o painel, mostrando o equilíbrio e franqueza de aromas da bela safra 2015. É um vinho relativamente simples, longe de ser complexo, mas muito equilibrado. Esta vivacidade e juventude são fatores extremamente agradáveis para seu consumo imediato.

Segue abaixo a relação de vinhos degustados com seus respectivos preços e importadoras, essas destacadas em parênteses.

  • Châteauneuf-Du-Pape Clos de L’ Oratoire des Papes 2012 – (Vinci) = R$ 548,02
  • Domaine Raspail-AY Gigondas 2013 – (Premium) = R$363,84
  • Châteauneuf-Du-Pape Roc Epine 2015 – Domaine Lafond – (Tahaa) = R$ 348,50
  • Delas Frères Vacqueyras 2015 – importadora (Grand Cru) = R$ 229,90
  • Rasteau AOC 2015 – M. Chapoutieur – (Mistral) = R$219,97

Cabernet Franc: Corte ou Varietal?

4 de Outubro de 2018

Das chamadas castas francesas internacionais, talvez a Cabernet Franc seja a mais injustiçada e menos badalada. Na França, onde seu cultivo é de longe o mais expressivo em termos mundiais, as regiões de Bordeaux e Loire se destacam, embora de forma relativamente discreta. Tanto na margem esquerda, como na margem direira, a Cabernet Franc é minoritária no chamado corte bordalês. Na região do Loire, apelações como Chinon, Bourgueil, e Saumur-Champigny, mostram seu lado varietal.

cheval blanc cabernet francCheval Blanc: alta porcentagem de Cabernet Franc

Bordeaux

Segundo dados oficiais do site bordalês (www.bordeaux.com), o cultivo da Cabernet Franc é praticamente 10% de toda a área de uvas tintas da região. No corte de margem esquerda onde há o predomínio da Cabernet Sauvignon, sua participação é em média de 10 a 15% do total. Já na margem direita, o mais comum é vermos algo como 80% Merlot e 20% Cabernet Franc. Exceções como Chateau Cheval Blanc, Ausone, Angelus e Chateau Lafleur em Pomerol, contam com um blend em torno de 50% em Cabernet Franc. Coincidência ou não, são Chateaux irrepreensíveis. 

É muito comum as pessoas compararem a Cabernet Franc com a Cabernet Sauvignon, dizendo ser a primeira uma uva de menor estrutura e menos expressiva. Na verdade, a participação da Cabernet Franc no corte de margem esquerda é bastante relevante em termos de aroma e elegância. Em boca, fornece frescor e certo equilíbrio em álcool, aparando as arestas da Cabernet Sauvignon. Já na margem direita, procura fornecer mais estrutura e mais nervo combinada à Merlot, cepa geralmente majoritária.

Em termos de clima e solo, a Cabernet Franc gosta do sol em climas mais frescos. Seus solos preferidos são argilo-calcários ou franco-arenosos, preferencialmente com presença de pedras ou cascalho. Afinar um bom ano com as condições acima descritas parece ser os maiores desafios para sua perfeita maturação.

loire mapa_LI

terroir da Cabernet Franc em azul

Loire

Na junção das sub-regiões de Anjou e Touraine, o clima fica mais ensolarado e menos sujeito ao frio e umidade vindos do litoral a oeste. O solo argilo-calcário em grande parte com algumas variações de sílica e areia, completam o terroir para o bom cultivo da Cabernet Franc poder se expressar nas apelações Chinon, Bourgueil e Saumur-Champigny (vide mapa acima).

Estes tintos no Loire assumem um perfil bastante gastronômico, já que seus componentes são bem equilibrados. Taninos e álcool comedidos, além de uma bela acidez e frescor. Seus aromas são sutis e nada dominantes. Tudo isso em conjunto, permite a combinação com pratos elegantes, dando espaço para a delicadeza e harmonia entre sabores e aromas. Pratos com cogumelos, especiarias e carnes tenras, são ótimas parcerias com esses vinhos.

Além da França

A Cabernet Franc em todo mundo soma em torno de 54 mil hectares de vinhas, sendo aproximadamente 36 mil só na França. Em seguida, Itália, Estados Unidos, Hungria e Chile, são as maiores áreas de cultivo, embora com números bem mais modestos.

Numa escala ainda menor, Argentina, Espanha, e Uruguai, mostram interessantes exemplares, os quais serão comentados logo abaixo. No Brasil como curiosidade, é a décima casta mais plantada com números bastante modestos. Para aqueles que quiserem experimentar um bom Cabernet Franc nacional, a vinícola Valmarino tem exemplares consistentes. O terroir de Pinto Bandeira, local da vinícola, apresenta clima apropriado. O problema é a dificuldade de encontra-los em lojas por São Paulo, por exemplo. Maiores informações: http://www.valmarino.com.br

norte espanha mapa_LI

 norte da Espanha

Origem

A Cabernet Franc pertence à família das Carmenets como a Cabernet Sauvignon, Merlot, Carmenère, Petit Verdot, entre outras. A marca registrada desta família é o típico aroma de pirazinas (lembra pimentão verde) que seus vinhos exalam, fruto de um inadequado amadurecimentos destas castas. Aliás, a Cabernet Franc deu origem a várias de sua família como a Merlot (Cabernet Franc com Magdeleine Noir), Cabernet Sauvignon (Cabernet Franc com Sauvignon Blanc) e Carmenère (Cabernet Franc com Gros Cabernet).

No entanto, a origem da Cabernet Franc parece ser mesmo basca, num cruzamento natural das uvas Morenoa e Hondarribi Beltza. Esta última cepa elabora alguns vinhos tintos na região basca (norte da Espanha) sob a denominação Txakoli ou Chacoli. No mapa acima, esta região está assinalada em vermelho.

Em recente degustação, pudemos avaliar alguns exemplares  com Cabernet Franc, tanto em corte, como em pureza.

boa relação qualidade/preço

(importadoras Decanter e Vinci)

No flight acima, dois exemplares por volta de cem reais. O da esquerda, um espanhol da Catalunha, denominação Pla de Bages (vide mapa acima em vermelho). Um corte inusitado de Cabernet Franc (60%) e Tempranillo (40%). Duas uvas que se respeitam muito, originando toques de frutas frescas, especiarias e um leve tostado, provavelmente pela breve passagem por madeira. Um vinho fácil de ser bebido, servindo como aperitivo e pratos leves de entrada. Já o exemplar da direita, um Cabernet Franc 100% do Uruguai com passagem por barricas francesas. Um tinto de corpo médio com nariz elegante, lembrando um Bordeaux nos aromas. Um vinho macio, de persistência aromática mediana, mas bastante honesto para seu preço. O Uruguai costuma ter bons exemplares desta cepa, sobretudo de algumas videiras antigas.

semelhança de estilos

(importadoras Grand Cru e World Wine)

Não é fácil encontrar no Novo Mundo exemplares de Cabernet Franc com estilo Vale do Loire nas apelações clássicas de Chinon, Bourgueil, ou Saumur-Champigny. O da foto acima à esquerda, trata-se de um Cabernet Franc argentino do Valle de Uco, mais especificamente de Guatallary, zona fria e de grande altitude (1350 mts) com solo calcário. Um vinho de grande pureza aromática lembrando framboesas, toques florais e de pimenta. Um vinho macio e de tanicidade delicada. No vinho à direita, um típico Chinon do ótimo produtor Pierre Breton. O perfil aromático é muito semelhante  e também um ótimo equilíbrio gustativo. A diferença em boca está na tanicidade mais acentuada do Chinon, vislumbrando alguma guarda em adega. Um embate interessante, mostrando mais uma vez a força do terroir nos vinhos de Novo Mundo.

corte bordalês em ação 

(ambos da importadora Mistral)

Neste ultimo flight, dois cortes bordaleses com participação um pouco mais acentuada da Cabernet Franc em 25%, lembrando que a maioria dos Bordeaux ficam em média entre 10 e 15% de Cabernet Franc. Neste Bordeaux à esquerda da ótima safra 2015 temos um vinho equilibrado, aromas típicos de frutas escuras, especiarias, ervas, e um toque de couro. Taninos dóceis e bem resolvidos. À direita, um corte bordalês italiano do ótimo produtor da Lombardia, Ca´del Bosco com a mesma proporção de Cabernet Franc. Embora um ano mais velho, safra 2014, o vinho parece menos pronto que o bordalês com taninos bem aparentes e em maior quantidade. Embora ainda possa evoluir em garrafa, seus taninos apresentam textura um pouco rugosa. Só o tempo dirá se a evolução aromática compensará a devida polimerização destes taninos. Um vinho interessante, mas com o dobro de preço do exemplar bordalês.

Enfim, alguns ensaios provando vinhos que fogem à nossa rotina. Para aqueles que tiverem a sorte e o bolso para voos mais ousados, seguem alguns exemplares de rara complexidade: El Enemigo Aleanna Guatallary e Pulenta Estate Gran Cabernet Franc (argentinos), Morlet Family (americano), Matarocchio da Tenuta Guado al Tasso (italiano) e Alzero da vinícola Quintarelli (italiano do Veneto). Por último, o melhor Cabernet Franc do Loire dos irmãos Foucault, Clos Rougeard. Um vinho de longa guarda sob a apelação Saumur-Champigny. Nas palavras de Charles Joguet, grande produtor de Chinon: Há dois sois no Loire, um que brilha para todos, e outro que brilha para os irmãos Foucault. Resta conferir …

30 anos de Importação

12 de Fevereiro de 2018

Em 1985 aproximadamente, quando comecei a tomar vinho, o mercado da bebida era extremamente restrito, sobretudo com os importados. O vinho nacional com algum destaque de qualidade tinha marcas como Granja União, Adega Medieval, e Velho do Museu. As marcas mais comerciais vinham da vinícola Aurora e o forte marketing da antiga Almadén. Realmente, fui um herói. Que dureza!

A partir da safra 1999, uma das grandes do vinho brasileiro, um grupo de produtores na serra gaúcha começava a fazer história do moderno vinho nacional. Dentre esse pioneirismo, podemos destacar a vinícola Miolo com seu Lote 43, e a vinícola Pizzato com seu incrível Merlot, ambos da safra 99.

No setor de importados, Cusiño Macul Antigas Reservas reinava absoluto nos anos 80 como grande tinto chileno. Logo chegou Don Melchor para fazer concorrência e o Casa Real da Viña Santa Rita era mais difícil encontrar. Não vou falar daquela aberração da garrafa azul e nem dos tintos portugueses rústicos e duros. O vinho Verde na época é que salvava algumas situações em dias mais quentes acompanhando pescados. Do lado italiano, os Chiantis eram muito fracos em qualidade, embora sempre gastronômicos. Da França, vinhos de negociantes como Barton & Guestier, inundavam o mercado com vinhos insípidos das apelações Bordeaux e Rhône, sobretudo. A Espanha se salvava com bons Riojas sem grandes variedade de marcas. Em resumo, cenário muito diferente da atualidade, onde o Brasil a despeito de preços escorchantes, tem um leque de opções dos mais variados países, produtores destacados em suas respectivas denominações, portfolio diversificado em grandes importadoras, não devendo nada para países de primeiro mundo.

Retrospectiva dos importados

As primeiras grandes importadoras como Maison du Vin, Expand, Silmar, Gomes Carrera, Casa Prata, Aurora, entre outras, trabalhavam como podiam num mercado ainda fechado. Saudades em especial pela Maison du Vin com vinhos impecáveis. Belos Bourgognes, Vega-Sicilia, Trimbach da Alsácia, e bela seleção da África do Sul.

Australianos

A importadora Mistral trouxe o grande nome australiano chamado Penfdolds no final dos anos 80 antes da importadora KMM, especializadas em vinhos australianos, chegar em 1992.

Alentejanos

Em 1998, a Adega Alentejana mostra uma outra face do vinho português através de seu proprietário, Manuel Chical. Vinhos modernos, macios, e de grande aceitação. Sem dúvida, o Alentejo abriu portas para outras regiões portuguesas e para a modernização geral do país no setor vitivinícola.

Nova Zelândia

Em 1999, tivemos a inauguração da Premium Wines, importadora referência nos belos vinhos neozelandeses. Os vinhos brancos, sobretudo o Sauvignon Blanc, ganhou uma nova roupagem e muitos adeptos no consumo desta novidade.

Argentina

A chegada dos vinhos Catena no Brasil pela Mistral somada à inauguração da importadora Grand Cru em 2002, permitiram que os brasileiros descobrissem a nova e moderna indústria de vinhos argentinos. Até então, os vinhos eram muito tradicionais e obsoletos.

Espanhóis 

Há cerca de 20 anos, chegava ao Brasil uma leva de vinhos espanhóis modernos através da importadora Peninsula. Mesmo em regiões tradicionais como Rioja e Ribera del Duero, produtores inovadores começavam a se destacar com vinhos surpreendentes.

importação de vinho 2015

Chile

Embora o Chile desde sempre mantenha a dianteira no setor de importações brasileiras no quesito vinho, sua penetração e crescimento aconteceu de maneira natural e progressiva. O grupo Concha Y Toro, um dos gigantes mundiais, garante absoluta supremacia no mercado de importados com vinhos bastante diversificados, desde aqueles muito simples e de preços módicos, até grandes ícones como Don Melchor e Carmin de Peumo. A oferta dos mais importantes produtores chilenos é vasta e notadamente pulverizada entre as importadoras brasileiras.

França e Itália

Assim como no caso chileno, França e Itália participam do mercado brasileiro de vinhos de longa data. É bem verdade que na maioria dos casos e sobretudo em termos de volume, a qualidade deixa a desejar com um mar de Lambruscos, Chiantis, Valpolicellas, de péssima qualidade. Do lado francês, não fica por menos, Bordeaux, Rhône e Bourgogne comercializados pelos chamados Négociants, deixam muitos consumidores com má impressão dos vinhos franceses. 

Evidentemente, numa escala minimalista, várias importadoras trazem vinhos sofisticados, premiados, e da mais alta qualidade dentre esses dois países. Para destacar uma só importadora, há muito tempo no mercado, temos a Cellar desde 1995, pinçando produtores artesanais e exclusivos, sob a batuta do expert Amauri de Faria.

Estados Unidos

Muita gente se surpreende quando descobre que os Estados Unidos são o quarto maior produtor mundial de vinhos e está entre os três maiores importadores da bebida. Os grandes produtores americanos estão entre os melhores do mundo, mas seus preços são proibitivos. Os vinhos mais acessíveis também são relativamente caros. Com isso, as importações brasileiras de vinhos americanos foi sempre discreta e sem grandes atrativos. É preciso pesquisar as poucas ofertas interessantes que existem.

alemanha importaçõesescalada da garrafa azul (1993 a 1996)

Alemanha

Depois de tanto tempo, ainda há resquícios da péssima imagem deixada pela garrafa azul. E muitos consumidores participaram deste mico. A Alemanha faz grandes vinhos brancos, sobretudo com a casta Riesling. Há boas ofertas no mercado, mas seu consumo é decepcionante, visto a qualidade e singularidade de seus vinhos. Importadoras como Decanter e mais recentemente Vindame, primam por ótimos produtores.

Uruguai e África do Sul

Países  que sempre tiveram presentes nas importações brasileiras, embora sem grandes destaques. Os vinhos sul-africanos há muito tempo frequentam as prateleiras das principais importadoras e lojas de vinhos. Mesmo no início dos anos 90, importadoras como Expand e Maison du Vin, possuíam um portfolio invejável de grandes produtores premiados da África do Sul. Houve em certos períodos um consumo e interesse do consumidor mais acentuados, mas a longo prazo os vinhos não vingaram como previsto.

O mesmo ocorreu com o Uruguai e seus Tannats. Apesar da proximidade, a produção é pequena e a dependência da casta ícone, restringiu os consumidores a um estilo de vinho robusto, nem sempre muito bem compreendido. Isso tem mudado em tempos mais atuais, inclusive com a aceitação de belos vinhos brancos. Um mercado em ascensão. 

Perspectivas

O Chile parece conquistar seu posto de primeiríssimo lugar, sem riscos. Grupos vinícolas como Concha Y Toro, Viña Santa Rita, e Viña San Pedro, tem grande penetração em nosso mercado nas mais variadas faixas de preço.

Portugal cresce a passos largos com a modernização de seus vinhos nas principais regiões vinícolas do país. Enquanto Alentejo e Douro garantem a qualidade de vinhos com forte  valor agregado, a região de Lisboa busca uma fatia cada vez maior com vinhos de preços altamente competitivos. A história que envolve os dois países, Brasil e Portugal, contribuem para uma aceitação bastante forte e natural.

Argentina e Espanha têm espaço para crescer. Do lado argentino, o desenvolvimento de micro regiões  e um foco maior nas questões de terroir podem despertar cada vez mais o interesse do consumidor. Do lado espanhol, a busca por vinhos mais autênticos trabalhados com baixos rendimentos, geram cada vez mais vinhos interessantes e de preços relativamente competitivos. A versatilidade da Tempranillo nos vários terroirs espanhóis é uma arma poderosa neste objetivo.

Em suma, pelo menos 50% do mercado de importados parece destinados a Chile e Argentina. A outra metade, Espanha e Portugal incomodam cada vez mais os gigantes tradicionais, França e Itália.

 

Espumantes à mesa

27 de Dezembro de 2017

Na passagem do ano, os espumantes são inevitáveis, nem que seja para brindar. Mas como já dissemos, eles vão muito além do brinde. Se bem escolhidos, acompanham com competência as mais diversas receitas. Para exemplificar, vamos a três pratos que podem perfeitamente encerrar o ano de maneira surpreendente. 

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Bacalhau de forno e uma cuvée sofisticada

Não importa a receita, é um prato de sabores marcantes que agrada inclusive os carnívoros. Aqui, o espumante precisa ter presença, estrutura. Se você simpatiza com o vinho nacional, vá de Victoria Geisse Cuvée Sofia em garrafa Magnum, o melhor espumante brasileiro. Ele tem frescor, complexidade, estrutura, para acompanhar qualquer receita de bacalhau. São 48 meses de contato sur lies, fornecendo textura e sabores de acordo com o prato. Importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

leitao assado restaurante emilianogramona imperial 2010

Leitão assado com um belo Cava 

Os portugueses já sabem o caminho. Nada como um belo espumante para limpar a gordura do prato e harmonizar os sabores crocantes da pele pururucada. Neste caso, vá de Cava Gramona Imperial, um Gran Reserva com 60 mesese sur lies. Complexidade, acidez vibrante, textura magnifica, e um final com aromas tostados, bem de acordo com os sabores do prato. Importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br). Se você não abre mão dos portugueses, a pedida é Murganheira, o melhor de Portugal. Importadora Epice (www.epice.com.br). 

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Risoto de Carne Seca com Abóbora

Pode ser o risoto tradicional com a técnica italiana, ou um arroz de forno com carne seca e abóbora. Aqui um vinho laranja ou um Tokaji 3 Puttonyos  de estilo tradicional são parceiros perfeitos. Como estamos falando de espumantes, vamos ser tão exóticos quanto o prato. Vá de champagne Jacques Selosse Exquise Blanc de Blancs Sec, lembrando que o termo Sec quer dizer algo de açúcar residual. Um champagne de Gourmandise, pleno de sabores, aromas, e mineralidade. O lado moelleux do vinho casa perfeitamente com a doçura da abóbora e se contrapõe ao toque salgado da carne seca. A acidez da bebida contrasta com a gordura do prato, enquanto seus sabores marcantes casam-se perfeitamente com a riqueza de sabores do prato. Uma harmonização ousada e inesquecível.     

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belas opções para o risoto

Gravner é simplesmente  o pai  dos vinhos laranjas. São vinhos fermentados em ânforas com as cascas e tudo que tem direito. Passa alguns meses neste contato intenso e posteriormente, estagia cerca de seis anos em botti (grandes toneis eslavônios). Pela cor do decanter, dá pra ter uma ideia da criança. Um vinho mastigável e cheio de aromas.

Como o risoto da foto era relativamente delicado, o Franciacorta Ca´del  Bosco Vintage 2003 deu conta do recado. Com predomínio de Chardonnay, o blend é complementado com Pinot Bianco e Pinot Nero. Passa 48 meses sur lies antes do dégorgement. Já com toques de envelhecimento, o vinho base tem estrutura para encarar o prato. Seus toques tostados e de frutas secas como damascos, casam perfeitamente com os sabores do risoto.

combinação para fechar o almoço

Encerrando o almoço, este chocolate escuro com flor de sal complementou muito bem o Madeira Malmsey 10 anos da Blandy´s. A doçura de ambos foi bem balanceada, mas o ponto alto foi o contraponto da acidez do vinho como o toque salino do chocolate. 

embate de gigantes

Zacapa XO é um rum guatemalteco espetacular. Cheio de aromas e sabores, tem um lado quase doce e um final extremamente agradável e untuoso. Por outro lado, Talisker 10 anos é um Single Malt poderoso e de grande austeridade. Num estilo absolutamente distinto, sua persistência aromática é notável. Mesmo com toda a riqueza  do rum, Talisker ainda consegue supera-lo em potência, tendo um final arrebatador com o trio de cubanos abaixo, sobretudo os potentes Partagas Salomones e Cohiba Behike 56.

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um trio de respeito

O que dizer desta trinca maravilhosa!. Ainda com o restinho de Madeira, iniciamos a fumaça azul com Bolivar Belicosos, Partagas Salomones, e Cohiba Behike 56. Evidentemente em potência, o Belicosos está num nível abaixo, mas de uma elegância ímpar. O Behike mantem esta elegância, ganhando força e potência.  Já o Salomones, um duplo figurado com ring 57 é um verdadeiro canhão de sabores e aromas. O rum de modo geral, acompanhou bem os três charutos, mesmo em seus respectivos terços finais. Contudo, no caso do Salomones, só mesmo o Talisker deu conta do recado.

Bela maneira de encerrar 2017. Feliz Ano Novo a todos!

Os vinhos de 2017

1 de Dezembro de 2017

Fazendo um apanhado das várias degustações realizadas na ABS-SP em 2017, seguem algumas dicas e lembranças de vinhos nos seus mais variados estilos e preços, até já pensando nas festas de fim de ano que se aproximam. São avaliações estritamente pessoais que seguem abaixo, separadas por estilos e tipos de vinhos.

Espumantes     

Esse é o tipo de vinho que não pode faltar nesta época do ano, embora em várias oportunidades, lembramos sempre de sua versatilidade e compatibilidade gastronômica nas mais variadas situações.    

grand cru tasting 2017 geisse cuvee sofia magnum

Dos nacionais: Cave Geisse com larga vantagem. Não importa qual, um espumante de alta qualidade com informações úteis de safra e data de dégorgement. Importadora Grand Cru.

Dos Internacionais: num preço intermediário, os Cavas apresentam boas ofertas em várias importadoras. Menção especial aos Gramonas, importados pela Casa Flora.

Dos Champagnes: as opções são imensas, sobretudo se preço não for problema. Em todo caso, Deutz da Casa Flora, Jacquesson da Franco Suissa, e  Pierre Gimonnet para quem não abre mão de um delicado Blanc de Blancs, são belas opções. Este último, da importadora Premium.

Brancos leves

Aqui, fugindo totalmente daquele tipo de branco do “inho”. Levinho, gostosinho, equilibradinho, e assim vai. São brancos que possuem leveza, elegância, mas com profundidade e equilíbrio. 

Henri Bourgeois Sancerre Le MD de Bourgeois 2014 – Grand Cru

Fritz Haag Riesling Trocken 2015 – Grand Cru 

Brancos estruturados

abs tondonia blanco 2000

Lopez de Heredia Viña Tondonia Reserva 2000 – Vinci

Baseado na casta Viura ou Macabeo, este branco passa por um trabalho de barrica excepcional. Embora longamente amadurecido, a madeira se funde completamente ao vinho, protegendo-o da oxidação e enaltecendo a fruta e riqueza aromática. Pessoalmente, esta bodega elabora os melhores brancos de longa guarda de toda a Espanha. O melhor branco degustado em 2017.

Rosés

Quando se fala em rosés, fala-se em Provence. Não há nada que se compare à elegância e tipicidade desses vinhos. Portanto, qualquer compra desses rosés entre 100 e 150 reais, dificilmente não satisfará. 

antinori scalabrone

Antinori Scalabrone Rosé 2015 – Winebrands

Aqui temos uma das poucas exceções de rosés que valem a pena. Belo trabalho da Tenuta Guado al Tasso mesclando Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah, sem interferência da madeira. Um rosé de presença em boca, muito gastronômico, um pouco mais encorpado que os provençais, mas muito bem feito. Um salada de polvo com toques de ervas e especiarias é uma bela harmonização.

Tintos leves

Novamente aqui, aquela conotação de profundidade, meio de boca, embora com graça e delicadeza.

Marziano Abbona Dolcetto di Dogliani Superiore Papà Celso 2013 – Mistral

Não é um Dolcetto barato, mas está longe de ser comum. Parreiras antigas, rendimentos baixos, são fatores determinantes para um tinto de grande concentração de sabor. Tanicidade moderada, muito macio, mas com ótimo frescor. É perfeitamente comparável ao Dolcetto do Roberto Voerzio, outro grande produtor piemontês.

Antonio Saramago Risco tinto 2013 – Vinissimo

Um vinho relativamente barato e sem grande sofisticação, mas extremamente bem feito. Equilibrado, fruta bem colocada, frescor na medida certa. Vinho de destaque para o dia a dia e muito gastronômico.

Tintos estruturados

Cantine Cellaro Due Lune IGT 2013 – Casa Flora

Um italiano da Sicilia que mescla as uvas Nero d´Avola e Nerello Mascalese com muita fruta, taninos bem moldados, e bom contraponto de acidez. Bom corpo, persistente, e bem equilibrado.

Rupert & Rothschild Classique 2012 – Zahil

Para quem gosta do estilo bordalês clássico, este sul-africano tem elegância e equilíbrio. De corpo médio, é um vinho normalmente pronto para o consumo e muito gastronômico.

Clarendon Hills Bakers Gully Syrah 2009 – Vinissimo

Eta australiano bom!. Sempre com vinhos muito equilibrados, este Syrah não foge à regra. Bela fruta, taninos polidos, e muito frescor. Vinho com profundidade e persistência.

Quinta Vale Dona Maria VVV Valleys 2013 – World Wine

Um exemplo de elegância e robustez no Douro. Taninos abundantes, mas muito bem trabalhados, além do belo frescor. Bom corpo, sem ser cansativo. Um belo tinto para os assados de fim de ano.

Chateau Haura Graves 2014 – Casa Flora

Uma homenagem acima de tudo a Denis Dubourdieu, grande enologista bordalês, falecido recentemente. Muita tipicidade de Graves com seus toques terrosos e balsâmicos. Belos taninos, elegante, e muito equilibrado. Tudo que um bom cordeiro espera.

abs zambujeiro

Terra do Zambujeiro 2012 – Casa Flora

Um dos grandes tintos do Alentejo sem ter que pagar uma fortuna por isso. Blend bem balanceado com Alicante Bouschet, Trincadeira, Aragonês, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. Tem o toque na medida de barricas francesas. Grande concentração, maciez, e persistência aromática. 

Pesquera Crianza 2013 – Mistral

Para aqueles que não podem ter um Vega-Sicilia, Pesquera é muito mais que um consolo. Tempranillo elegante de escola tradicional de Ribera del Duero. Toques balsâmicos com a maestria exata da barrica. Fino, elegante, e muito consistente a qualquer safra.

grand cru tasting 2017 bodegas mauro

Bodegas Mauro 2014 – Grand Cru 

Mariano Garcia sabe dar o toque exato de modernidade num vinho que está fora da nobre denominação de Ribera del Duero, sem perder suas raízes. Longe da rusticidade taxada para este tipo de vinho, seu Tempranillo é pura elegância, profundidade, e muita personalidade. Sempre um porto seguro.

Pulenta Estate XI Gran Cabernet Franc 2013 – Grand Cru 

Este produtor argentino apresenta uma consistência impressionante em seus vinhos, desde os mais simples, até seus ícones, como este belo Cabernet Franc. Embora seus Malbecs sejam dignos de nota, uma homenagem a esta cepa sempre relegada a segundo plano. Vinho elegante, equilibrado, fugindo do lugar comum.

abs stonyridge 2008

Stonyridge Larose 2008 – Premium 662 reais

Não é um vinho barato, mas vale cada centavo. Em termos de Brasil, é difícil um autêntico Bordeaux de margem esquerda batê-lo nesta faixa de preço (seiscentos reais). Um nariz complexo, taninos muito finos, e longa persistência. Apesar da idade, tem muita vida pela frente. É imperativo decanta-lo para uma boa apreciação. Um neozelandês de peso. Sem dúvida, o vinho do ano.

Vinhos doces

abs carcavelos

Villa Oeiras Carcavelos Branco Blend 10 anos – Adega Alentejana      

Carcavelos é uma denominação nos arredores de Lisboa quase extinta. Graças a alguns visionários como Villa Oeiras, temos uma faísca de esperança em sua manutenção. O fortificado preferido de Marques de Pombal, embora sua contribuição para o Vinho do Porto seja imensa. Este 10 anos apresenta concentração, frescor, e longa persistência aromática. Lembra de certo modo alguns Madeiras.

Domaine Paul Mas Maury Mas des Mas 2011 – Decanter

Os fortificados franceses se apegam muito ao Banyuls, esquecendo de um concorrente ilustre chamado Maury, de localização mais interiorana na área de Roussillon. Também elaborado com Grenache, segue o mesmo padrão de vinificação do famoso vinho do chocolate. Com certa passagem por madeira, lembra os típicos Tawnies portugueses da linha Reserva. Bela alternativa às opções cotidianas.

Quando se vê já se passou um ano, quando se vê já se foram vinte e sete anos de ABS-SP. Agora é tarde demais para ser reprovado. Mário Quintana estava certo …

Importadoras Pioneiras

26 de Setembro de 2017

Os vinhos importados no Brasil têm história recente, pelo menos em maiores volumes e consistência de remessas contínuas. Dentro deste contexto, vale a pena recordar algumas importadoras pioneiras, sobretudo aquelas que priorizaram e se especializaram em determinados países até então inusitados em nosso mercado. Antes delas, uma menção especial para algumas que já se foram e deixaram saudades como Maison du Vin, Saveurs de France, Silmar do saudoso Silvio Rocha, Gomez Carrera, Callaz & Silvestrini e tantas outras.

monte do pintor 2005

um dos primeiros alentejanos no Brasil

Adega Alentejana

Em 1998, Manuel Chical, atual proprietário desde sempre, trouxe para o Brasil os vinhos alentejanos nunca vistos em nosso meio. Foi sucesso imediato, tal a agradabilidade destes vinhos na época. Por serem macios, frutados e acessíveis, mesmo em tenra idade, os paulistas sobretudo, receberam muito bem a novidade com mercado cativo até hoje. Destaque para o sóbrio e único Mouchão, um dos pilares da enologia alentejana. http://www.alentejana.com.br

KMM Armagh_2008

Um dos maiores Shiraz australianos

Importadora KMM

Embora a importado Mistral tenha trazido os espetaculares australianos da Penfolds, a importadora KMM com Marli Predebon sempre no comando desde 1992, construiu um portfolio invejável de grandes marcas deste país exótico. Sempre com vinhos bem pontuados, fieis ao terroir australiano, e de preços bem ecléticos, atingindo diversos padrões de consumidores. http://www.kmmvinhos.com.br

Premium Rippon Pinot Noir

Pinot Noir neozelandês de destaque 

Importadora Premium

Esta importadora mineira, sempre liderada pelos competentes Orlando Rodrigues e Rodrigo Fonseca, trouxeram em 1999 as primeiras levas de vinhos neozelandeses da melhor qualidade. Com portfolio variado e de preços para todos os bolsos, os brancos da Nova Zelândia caíram nos gosto brasileiro. O cuidado na escolha de produtores sempre foi preocupação fundamental desses sócios até hoje firmes no mercado. http://www.premiumwines.com.br

grand cru pulenta estate

vinhos sempre consistentes

Importadora Grand Cru

Embora atualmente esta importadora não tenha sua imagem focada somente nos argentinos, sua origem em 2002 marcou a entrada de grandes produtores deste país no auge de sua expansão vitivinícola. Evidentemente, eles continuam em destaque, mas o portfolio da importadora diversificou-se demais, tornando-se na atualidade uma das maiores do país com várias lojas em São Paulo e demais capitais. http://www.grandcru .com.br

tastevin muscat beaumes de venise

ótima qualidade e preço bem camarada

Importadora Club du Taste-Vin

Com 36 anos no mercado, esta importadora exclusiva para vinhos franceses é liderada desde sempre por François Dupuis, residente no Rio de Janeiro. Com presença bem mais enfática no público carioca, os paulistas também se abastecem com seus vinhos. A ideia é garimpar rótulos franceses não muito badalados a bom preço das principais regiões produtoras. Sempre fiel ao projeto original, só trabalha com vinhos franceses. http://www.tastevin.com.br

cellar alphonse mellot

Sancerre de personalidade

Importadora Cellar

Criada em 1995 e dirigida até hoje com mão de ferro pelo expert Amauri de Faria, esta importadora não introduziu os vinhos franceses e italianos propriamente no Brasil, mas sem dúvida nenhuma, deu e dá uma aula de como selecionar vinhos deste países de uma complexidade e diversidade ímpares. Seus rótulos primam por uma seleção de grande distinção e preços proporcionalmente bastante honestos. http://www.cellar-af.com.br

peninsula abadia retuerta

bodega de referência 

Importadora Peninsula

Há quase 20 anos no mercado, esta importadora se especializou em grandes vinhos espanhóis. Seu fundador e atual proprietário, Javier Dias Rabarain, prima por rótulos de grande destaque no cenário espanhol, tanto na escola mais tradicional, como no lado mais modernista. Menção especial a Juan Suárez Rodriguez, hoje não mais presente na empresa, pela enorme contribuição na divulgação do vinho espanhol. http://www.peninsulavinhos.com.br

expand renato ratti

Lançado na Expand, agora na Ravin

Importadora Expand

A grande importadora de vinhos nos anos 90 com um portfolio invejável, perfilando grandes vinhos do mundo, inclusive o mítico Romanée-Conti. Quem a sucedeu no mesmo porte e no desfile de grandes rótulos foi a importadora Mistral, até hoje com grande destaque no cenário nacional. Como não falamos dos vinhos sul-africanos, vale destacar a seleção impecável que a Expand dispunha na época com pelo menos meia dúzia de rótulos do mais alto nível.

Atualmente, importadoras como Mistral, Vinci, Decanter, Grand Cru, World Wine, Casa Flora, Zahil, e mais algumas lideram grande parte do mercado nacional. Mas isso é uma outra história para um artigo específico.

Enfim, um apanhado geral de como começou os vinhos importados no Brasil e ao mesmo tempo uma homenagem a essas importadoras pioneiras com fotos emblemáticas de cada uma delas. Todas elas continuam suas atividades, naturalmente com a ampliação de seu portfolio, mas sem perder a origem de suas convicções. Se solidificaram, conquistaram mercado e  fidelizaram clientes, fazendo do Brasil, especialmente na região sudeste, um dos países com maior diversidade em rótulos internacionais. Portanto, o amante de vinho brasileiro pode ficar tranquilo em ter a seu alcance uma grande diversidade de estilos, países, e as principais regiões no mundo do vinho. O grande empecilho é o preço com os escorchantes impostos praticados em nosso país. Mesmo os nossos vinhos, o vinho brasileiro, não foge das garras predatórias de nossa legislação.

Grand Cru Tasting 2017

8 de Junho de 2017

Mais um grande evento proporcionado pela importadora Grand Cru na belíssima Casa da Fazenda, no Morumbi. Muita coisa pra provar e como sempre, não deu tempo para tudo. De todo modo, seguem abaixo alguns vinhos pinçados sob vários critérios; qualidade evidentemente, preços interessantes, exotismo, dentre outros.

Borbulhas

Cave Geisse como sempre, dando o tom da festa. Que espumante bem feito, enchendo de orgulho os brasileiros. Informações precisas nos contra rótulos tais como: safra, data do dégorgement, e açúcar residual, normalmente com 6g/l, bem abaixo dos limites legislativos. Dependendo da complexidade e do seu bolso, as opções são elaboradas de 12 em 12 meses sur lies. A de 48 meses sur lies provada em Magnum, Cuvée Sofia, mostra um equilíbrio e complexidade ímpares.

grand cru tasting 2017 geisse cuvee sofia magnum

um espumante nacional a ser batido

Entre Proseccos, Cavas, e Franciacorta, fica o destaque para o Brolese Extra Brut Rosé da Tenuta Villa Crespia em Franciacorta. Muito fresco, aromático, de estilo leve, tratando-se de um rosé. Prevalência de Pinot Nero no corte juntamente com Chardonnay. 30 meses sur lies confere a esta cuvée a necessária complexidade sem nenhuma interferência de barrica.

grand cru tasting 2017 brolese rose franciacorta

Pinot Nero e Chardonnay

Por fim, os belos champagnes Billecart-Salmon. De estilo elegante e muito frescor, seu rosé é um dos clássicos neste tipo de champagne. Destaque também para seu vintage 2006, mostrando complexidade e textura cremosa. Enquanto este rosé pode ser grande parceiro com sushi de atum, o vintage 2006 pode escoltar aves ou lagostas em molhos suavemente cremosos de cogumelos.

grand cru tasting 2017 billercar salmon vintage 2006 e rose

a diversidade em champagne

Brancos

Vários estilos, regiões e uvas. Começando pelos mais frescos e verticais, vamos aos dois da foto abaixo, em seus respectivos terroirs. O Rias Baixas Albariño, mais leve, bom frescor e textura agradável,  quebrando um pouco aquela acidez aguda. Já o Pioneer Block da vinícola Saint Clair, provem de um dos setores chamado Arthur, setor 24. A exuberância de fruta tropical aliada ao grande frescor, faz deste branco um exemplo típico de Sauvignon Blanc moderno da sub-região de Marlborough, nordeste da Ilha Sul neozelandesa.

grand cru tasting 2017 rias baixas laxasgrand cru tasting 2017 sauvignon pionner block 2013

intensidades crescentes

Agora dois Chardonnays com frescor, boa textura e preços razoáveis, conforme foto abaixo. O da esquerda, da linha Max Reserva da Errazuriz, mostra um bom balanço entre fruta e madeira, além de frescor muito agradável. Já o da direita, um Chardonnay argentino de Valle de Uco, mostrando muita fruta e bela acidez. Textura um pouco mais delgada que o anterior, mas mantendo frescor em destaque. Preços, 129 e 89 reais, respectivamente.

chardonnays equilibrados

Fechando os brancos, o vinho abaixo vem do Douro com uvas locais: Viosinho, Rabigato, Códega e Gouveio. O vinho é fermentado e amadurecido em barricas francesas por nove meses com bâtonnage, aos moldes dos brancos da Borgonha. Branco de corpo, estrutura, fruta bem integrada com a barrica, textura densa, e longa persistência. Vinho para estar à mesa, e não para bebericar.

grand cru tasting 2017 van zellers branco 2014

branco gastronômico

Tintos

Começando com os tintos, logo de cara, Casanova di Neri. Que Brunello di Montalcino! profundo, equilibrado, complexo, e longo em boca. Mesmo seu Rosso, normalmente uma espécie de segundo vinho, partindo de parreiras mais jovens, bate muito Brunello por aí. Em resumo, se você vai gastar algum dinheiro com Brunellos, o caminho é este tendo o Rosso como bela alternativa. Realmente, um porto seguro.

grand cru tasting 2017 casanova di neri

altamente confiáveis

Nessa mesma linha de raciocínio, Bodegas Mauro nos mostra que denominação de origem por si só não quer dizer muita coisa. Um Vino de la Tierra digno das melhores mesas. Apesar de sair levemente da área demarcada de Ribera del Duero, está na famosa rota da “milla de oro”, trecho de aproximadamente 15 quilômetros onde se concentram as principais bodegas da região. Sempre muito equilibrado, sedoso, taninos finos, e longa persistência aromática. Vinho para ganhar degustações às cegas com figurões.

grand cru tasting 2017 bodegas mauro

o grande enólogo Mariano Garcia (doutor Vega-Sicilia)

Agora abaixo, dois estilos bem diferentes, mas igualmente interessantes de tinto. O da esquerda, um Cabernet Franc da Valle de Uco sem madeira em solo calcário. Expressão vibrante de fruta bem delineada, muito equilibrado, e com forte caráter mineral. Foge um pouco do perfil desta cepa no Loire, mas tem muita personalidade. Já o da direita, um Pinot Noir autentico de Novo Mundo, porém muito bem feito. Fruta exuberante com um suporte de acidez bem interessante. A madeira bem colocada apresenta somente 35% de barricas francesas novas. Com vinhedos bem localizados e solos apropriados à uva, é uma linha da Saint Clair (Pioneer Block), vinícola neozelandesa, que privilegia o terroir.

frescor e maciez em harmonia

Da Itália, duas expressões distintas entre sul e norte. O tinto da esquerda trata-se de um Nero d´Avola siciliano com uvas passificadas no pé, resultando num vinho rico em fruta, corpo, e maciez. Mesmo assim, mantem um bom frescor, num final marcante e equilibrado. Por 99 reais, vale a pena prova-lo. No tinto da direita, um clássico Barolo. Sem grande complexidade, mas com tudo no lugar, é bastante acessível para sua idade diante da habitual austeridade desses vinhos. Taninos afáveis e fruta bem presente. Por 269 reais para um Riserva, é um bom início para quem vai se aventurar nesta denominação cheia de meandros.

norte e sul da Itália com vinhos acessíveis

tintos doces: estilos bem diferentes

Na foto acima, enquanto o Porto Vintage à esquerda da bela safra 2011 esbanja força, estrutura e uma montanha de taninos, vislumbrando longa guarda, o tinto da direita em estilo colheita tardia, está muito mais pronto para ser apreciado. Sua doçura é encantadora com um frescor até certo ponto surpreendente. Ideal para queijos densos e curados, assim como frutas secas e passificadas como tâmaras, por exemplo. Voltando ao Porto, para consumi-lo neste momento, é imperativo pelo menos duas horas de decantação. Novamente, a diferença marcante e justificada nos preços: 149 reais para o Primitivo Dolce Naturale, e 699 reais para o Porto Vintage Churchill´s.

grand cru tasting 2017 grappa e bas armagnac

tudo vem da uva

Passando a régua, dois estupendos destilados (foto acima), já pensando nos Cohibas, Partagas e Bolívar, Puros de grande fortaleza. Primeiro, uma Grappa Riserva da exclusivíssima Tenuta Ornellaia, um dos cortes bordaleses mais prestigiados na elite dos grandes tintos. Cuidadosamente destilada, esta bebida passa ao menos três anos em barricas francesas da propriedade. Altamente recomendada sobretudo para o terço final de um Puro, seus aromas de fruta em caroço explodem na boca. Grande força e persistência aromática.

Seu par na foto, mostra um belo Armagnac envelhecido da melhor porção de seu terroir, Bas-Armagnac. O envelhecimento em toneis por 20 anos indica que a bebida mais jovem deste blend tem a data indicada. Macio, profundo e muito persistente. Digno de Puros como Montecristo nº2, Partagas Lusitanias ou Cohiba Behike.

Enfim, um breve relato dos muitos vinhos apresentados no evento, tentando abranger gostos e bolsos diferentes. Agradecimentos à importadora Grand Cru pelo convite, numa organização acolhedora e bem focada.

Mazzei: Chianti com muita história

25 de Maio de 2017

Quando uma vinícola estampa em seu rótulo a data de 1435, nos damos conta de quão antigo é o vinho na Toscana. Não fosse pela desorganização italiana na época, teríamos certamente em Chianti a primeira denominação de origem no mundo do vinho. Castello di Fonterutoli é um dos pilares sólidos na origem da denominação ¨Chianti Clássico”, situado em Castellina in Chianti. Juntamente com Radda in Chianti e Gaiole in Chianti, essas três sub-regiões formam o que chamamos de zona histórica do Chianti.

Pessoalmente, costumo brincar com a expressão “3F dos Chiantis”: Fonterutoli, Fontodi, e Félsina. Produtores de primeira grandeza nas zonas de Castellina, Greve e Castelnuovo Berardenga, respectivamente, todas situadas na área do Chianti Classico.

fonterutoli vinhedos

5 áreas – 73 vinhedos- 120 parcelas

A figura acima mostra o terroir diversificado dos vinhedos Castello di Fonterutoli em Castellina in Chianti, somando 117 hectares de vinhas. Em torno da edificação principal temos a área Fonterutoli com altitudes entre 420 e 550 metros, um dos fatores importantes na expressão da Sangiovese no Chianti Classico. O solo pedregoso é rico em Alberese (pedras de origem calcária) e Galestro (uma espécie de argila laminar). Essa composição de solo aporta ao vinho uma notável mineralidade (algo esfumaçado).

A segunda área, Siepi, empresta o nome a um dos ícones da vinícola, colecionador rotineiro de tre bicchieri. Um blend de Merlot e Sangiovese de muita concentração, exibe um ótimo balanço entre a maciez da Merlot e o nervo (acidez) da Sangiovese. De Fato, este terreno em menores altitudes (250 a330 metros) aliado a um solo mais argiloso, favorece o bom desenvolvimento da Merlot.

A terceira área Le Ripe, é uma zona bastante fresca e de altitude (entre 470 e 570 metros), localizada em Radda in Chianti em solo pedregoso, fornecendo frescor e aromaticidade aos vinhos.

A quarta área Belvedere com altitudes entre 290 e 400 metros, é rica em alberese. A combinação deste solo com altitudes medianas para o Chianti Classico fornece uma boa maturação das uvas, enfatizando concentração de cor sem perder o devido frescor.

Por fim, a área de Caggio com altitudes entre 270 e 370 metros em solo argiloso rico em scheletro (alberese e/ou galestro). Novamente, a combinação de solo e altitude gera vinhos mais densos, estruturados, ricos em taninos.

É dessa combinação de diferentes áreas, totalizando 120 parcelas com solos, altitudes e exposições diferentes, que nasce os vinhos Fonterutoli. Além disso, há um trabalho intenso de seleção clonal desenvolvido ao longo da história da vinícola, proporcionando vários clones diferentes de Sangiovese.

fonterutoli numero 10

fugindo do habitual

O rótulo acima mescla 90% Merlot e 10% Sangiovese, fugindo da denominação Chianti. Portanto, trata-se de um Toscana IGT. Vinho de bom corpo, maciez notável e taninos bem moldados. A presença da Sangiovese entrega um certo frescor ao conjunto. Seus 12 meses em carvalho aporta notas de baunilha, defumados e um leve toque animal. lembrando couro. O preço é mais um atrativo para conhece-lo.

fonterutoli chianti classico

o cartão de visitas da Casa

O tinto acima personifica a tipicidade de um grande Chianti Classico. Proveniente de 50 parcelas diferentes dos vinhedos acima citados, procura mesclar todas as características importantes deste complexo terroir. Passa 12 meses em carvalho francês, sendo apenas 40% de barricas novas. Bom corpo, frescor muito agradável, taninos bem trabalhados, e todos os toques típicos como violeta, cerejas, ervas e temperos, além de uma notável ponta mineral. É atualmente uma das melhores pedidas no mercado, sobretudo quando se pensa em preço nesta categoria de vinho.

fonterutoli gran selezione

expressão máxima deste terroir

Neste vinho acima, é selecionado o que há de melhor em seleção parcelar. Quase todo composto de Sangiovese (92%) com pequenas proporções de Malvasia Nera e Colorino, é um tinto de grande intensidade de cor. Seus 20 meses em barricas francesas, sendo 60% novas, fornecem um balanço incrível entre fruta, madeira e a devida micro-oxigenação. Sua estrutura e carga tânica de alta qualidade remetem a pensarmos em belos Brunellos. Complexo, persistente e moldado para bons anos em adega. A expressão Gran Selezione é relativamente nova e está hierarquicamente acima da denominação DOCG.

fonterutoli belguardo serrata

um tinto de Maremma

Saindo um pouco da região do Chianti Classico, vamos para a zona litorânea da Toscana, Maremma. Neste terroir de solo mais arenoso e altitudes mais baixas (entre 70 e 130 metros), nasce o tinto acima Belguardo Serrata, composto por Sangiovese (80%) e Alicante (20%). De corpo mediano, mais leve que o Chianti Classico, mantem o frescor da Sangiovese com taninos bem brandos. Os dez meses de madeira em seu amadurecimento apenas confere alguns toques defumados ao conjunto. Se comparado aos Chiantis, sua estrutura aproxima-se de um Chianti Colline Pisane, ou seja, um Chianti delicado. Ótima opção para pizzas e massas com molhos leves.

Em resumo, a família Mazzei tanto no tradicional Chianti Classico, como na inovadora Maremma, produz vinhos bem moldados, respeitando a tradição e terroir locais. Ainda existe uma terceira vinícola da família na Sicília, região sul da Itália, chamada Zisola.

Todos esses vinhos degustados e mais alguns outros presentes no portfolio da vinícola, são trazidos exclusivamente pela importadora Grand Cru com preços promocionais por algum tempo. http://www.grandcru.com.br

Chablis: Decifra-me

4 de Março de 2017

O vinho branco mais incompreendido, embora mundialmente conhecido. Copiado descaradamente mundo afora, torna-se patético. Mesmo dentro da apelação, a maioria usufrui de seu prestígio fonético, sem no fundo compreende-lo. Não basta a partitura, é preciso a interpretação precisa. Pode-se aceitar alguns intérpretes, mas nenhum chegou à dimensão de dois maestros: Dauvissat e Raveneau. 

É difícil explicar Chablis, quase impossível. Mas quando se sente, não precisa explicar. A sutileza, o nervo preciso, os aromas quase etéreos, o sabor pulsante sem ser agressivo. A essência sem máscaras, sem subterfúgios. Se terroir parece algo inexplicável, Chablis personifica este conceito como nenhum outro território de vinhas.

Chablis é tão exclusivo, é tão pessoal, que seu território dentro da Borgonha é separado, é descontinuo. Está a meio caminho entre Champagne e a nobre Côte d´Or. O clima é frio, rigoroso, tenso. O solo, uma benção divina, uma mistura judiciosa de argila e calcário, culminando no que chamamos Kimeridgiano (Kimméridgien), fosséis marinhos calcinados no marga, característicos das porções de terra das vinhas Grands Crus da região.

Essa precisa geologia exige ao máximo de seu intérprete (vitivinicultor), tanto na condução das vinhas, como sobretudo, na vinificação em cantina. Esta pureza não pode ser perdida, não pode ser camuflada, não pode ser destorcida. Esses segredos parecem ser seguidos à risca pelos maestros (Dauvissat e Raveneau).

Dauvissat

Não estamos falando de Caves Jean et Sébastian Dauvissat e nem de Domaine Jean Dauvissat. Estamos falando de René & Vincent Dauvissat. Proprietário de 12 hectares de vinhas perfeitamente localizadas entre Premier Cru (6 ha), Grand Cru (2,7 ha) e o restante de apelação Chablis, elabora 80000 garrafas por ano. A idade média das vinhas é alta, em torno de 40 anos.

A fermentação e amadurecimento do vinho é feita com madeira inerte. Barricas entre 6 e 8 anos de idade. A micro-oxigenação é importante para o Chablis, quebrando sua dureza, sua austeridade. Vincent vai mais longe, utilizando 10% de madeira nova, uma perigosa ousadia. A malolática ocorre de maneira espontânea.

dauvissat-la-forest

apenas rótulos diferentes

Os rótulos acima podem causar confusão, contudo trata-se do mesmo vinho quando em safras idênticas. É apenas uma divisão familiar na impressão dos rótulos. No entanto, a cuvée é a mesma. Particularmente, o rótulo clássico à esquerda é meu preferido.

Seus vinhos aliam pureza, força e profundidade. Destaque para o Premier Cru La Forest, um vinho fora da curva para sua categoria. Mesmo seus Chablis comunal e Petit Chablis provem de vinhas muito bem localizadas, diferenciando-se em muito dos demais nessas categorias.

Pormenorizando a informação, as vinhas de seu Petit Chablis ficam muito perto do Grand Cru Les Clos, uma de suas estrelas, num setor mais alto da encosta. São as ultimas uvas a serem colhidas a cada colheita. Já as vinhas de seu Chablis comunal ficam adjacentes ao badalado La Forest, um super Premier Cru. Detalhes que fazem a diferença.

Raveneau

Domaine François Raveneau tem a mesma filosofia de rival no bom sentido da palavra, fidelidade ao terroir. Vinhas antigas, muito bem localizadas e um trabalho importante de barricas inertes para uma bem-vinda micro-oxigenação. Muitas das barricas tem uma particularidade de tamanho, tendo metade da capacidade das barricas normais. São chamadas “feuillettes”. Numa sintonia fina, digamos que Raveneau elabora um Chablis um pouco mais cortante que Dauvissat. Contudo, é uma impressão pessoal. São 50000 garrafas por ano.

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a grande cuvée de Raveneau

Se Dauvissat tem La Forest, Raveneau tem Montée de Tonnerre, empatados na categoria Premier Cru. Mais uma disputa acirrada entre esses dois gigantes. Um dos detalhes nesta comparação é que as vinhas do La Forest fica num setor mais frio que as vinhas do Montée de Tonnerre. Portanto, as uvas amadurecem mais lentamente. Daí decorre, em anos mais frios La Forest pode ser muito austero, enquanto que em anos mais quentes tem a vantagem de ser mais equilibrado que seu concorrente. Sutilezas na hora de comprar.

Bernard Raveneau, atual comandante, diz que seus vinhos envelhecem muito bem. Questionado sobre seu vinho numa ilha deserta, mencionou seu Montée de Tonnerre 1969 como excepcional e inesquecível.

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taça bordalesa

Além da temperatura correta, em torno de 10° centígrados, a taça correta é fundamental. Esqueça as taças bojudas, tradicionais para os brancos da Côte de Beaune (Montrachet, Puligny, Chassagne). Vá com a mesma taça utilizada para Riesling, Sauvignon Blanc do Loire, uvas que geram vinhos de grande acidez e mineralidade. A acidez fica mais contida, os aromas mais finos, e a harmonia final agradece.

Pratos como salmão marinado, peixes au beurre blanc (molho branco ácido) e trutas com amêndoas, podem acompanhar bem um típico Chablis, calibrando sua categoria (Grand Cru, Premier Cru ou comunal), a característica da safra, e finalmente seu estágio de evolução, sua idade.

Infelizmente, Raveneau e Dauvissat não são encontrados no Brasil. Como opções confiáveis, temos produtores como Billaud-Simon e William Fèvre disponíveis nas importadoras Mistral e Grand Cru, respectivamente.


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