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Louis XIII: Excelência em Cognac

5 de Julho de 2016

Pessoalmente, reputo o Cognac como o destilado mais fino que conheço. Já falamos do assunto diversas vezes neste mesmo blog sob várias perspectivas. No entanto, este artigo trata de uma joia neste universo de sofisticação, o famoso Cognac Louis XIII, obra-prima da Maison Rémy-Martin. Quem quiser provar uma dose desta preciosidade, deve desembolsar cerca de oitocentos reais no restaurante Emiliano por um preço super honesto, por incrível que pareça.

cognac louis xiii

decanter de confecção artesanal

Mas o que é realmente um Louis XIII? Quais os detalhes? Qual seu nível de exclusividade? É o que tentaremos esclarecer no artigo abaixo. Para começar, em sua composição temos a mistura (blend) de aproximadamente 1200 (mil e duzentas) aguardentes com idades entre 40 e 100 anos. Mesmo nos melhores Cognacs, esses números descritos são bem mais modestos.

O terreno

No exótico terroir de Cognac, as melhores áreas de vinhas se distribuem de maneira concêntrica de dentro para fora como se fossem polígonos, conforme figura abaixo:

cognac regiões

Grande Champagne: o Suprassumo

Embora nos grandes Cognac tenha a menção Fine Champagne, que por si só, já é um privilégio, a expressão significa que as uvas do respectivo blend provem da mistura entre Grande Champagne e Petite Champagne, dois dos melhores terroirs. Entretanto, Louis XIII parte de vinhas totalmente (100%) e exclusivamente localizadas em Grande Champagne.

Neste solo de Grande Champagne de base calcária, uma espécie de giz, a drenagem é excelente, proporcionando um estável armazenamento de água para as vinhas em grandes profundidades, deixando a superfície seca. Com um clima marítimo ameno, é a melhor área de Cognac.

A destilação

Após a colheita das uvas exclusivamente de Grande Champagne, é elaborado o chamado vinho-base para posterior destilação. Esse vinho deve ser pobre em álcool e de grande acidez, condições “sine qua non” para um grande Cognac.

O rendimento na destilação é bem baixo, outro fator de encarecimento da bebida. São necessários dez litros de vinho-base para a elaboração de um litro de Cognac.

No momento da destilação, começa já uma seleção rigorosa para o nascimento de um Louis XIII. Embora todo o vinho-base parta de vinhas da região de Grande Champagne, após a destilação, as várias partidas não são as mesmas e portanto, darão produtos sutilmente diferentes. Nesta hora, o Mestre de Adega com seu nariz Absoluto, deve separar o joio do trigo com um detalhismo extremo, pois trata-se de aguardentes ainda não lapidadas com 70% de álcool. Em média, de mil amostras testadas, apenas uma dúzia será destinada à elaboração de um Louis XIII. Pode parecer bobagem ou exagero, mas dentro da colheita de uvas, setores do vinhedo possuem qualidades e características especiais, além do adequado grau de maturação das uvas que não é uniforme, exigido para este fim.

A mistura

Se você achou difícil até aqui, agora vem o “pulo do gato”, o segredo da mistura, do blend. Na definição do Louis XIII no começo do artigo, falamos em cerca de 1200 aguardentes misturadas, mas não todas de uma vez só. Demora um século para completar a magia. É um trabalho de paciência, disciplina e devoção. Aquela aguardente saída do alambique e minuciosamente pinçada dentre milhares de amostras, é apenas um feto que será ao longo do tempo muito bem lapidado até transformar-se numa verdadeira joia.

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assemblage: trabalho de perfumista

Portanto, faz-se uma primeira mistura de várias aguardentes, de várias partidas, de várias safras, sempre com o padrão altissimo de um Louis XIII. Esta primeira mistura vai compor mais um barril a ser envelhecido.

O envelhecimento

Etapa importantíssima em todo o processo que diz respeito à lapidação propriamente dita deste magnifico Cognac. Eles são envelhecidos em toneis de madeira chamados “Tierçons” com capacidade de 560 litros. Três toneis destes era a capacidade de transporte numa carruagem da época. A madeira provem da floresta de Limousin, caracterizada por apresentar carvalho de alta porosidade e rico em taninos.

cognac tierçon

tierçon: lento repouso da bebida

Esses toneis são monitorados ano após ano pelo mestre da adega para sua perfeita evolução. De tempos em tempos, as misturas são feitas com muito critério mantendo o padrão de perfeição, ou seja, selecionando todos os lotes com o que há de melhor. Aos 50 anos, cerca de 300 aguardentes foram misturadas e provavelmente já deve ter ocorrido alguma transição entre os mestres de adega, passando seu legado. Após 75 anos, essas misturas podem chegar a 700 aguardentes e novamente, talvez mais uma transmissão entre os mestres. Por fim, com 100 anos, a obra está terminada. O mestre atual é responsável pela decisão final de engarrafamento, mas com a certeza que este trabalhou começou lá atrás, antes de seu próprio nascimento.

Próximo artigo, mais detalhes, mais sofisticação, mais Louis XIII!

Borgonhas à Mesa

29 de Junho de 2016

Quando Borgonhas são bem escolhidos é preciso comemorar, divulgar, enfim, marcar o evento, pois este desafio costuma ser frustrante. Neste encontro com dois grandes amigos no restaurante Emiliano, tudo correu “comme il faut”. Da entrada ao cafezinho, só boas surpresas. Aliás, comida de primeira num ambiente tranquilo e sem filas.

de sousa zoemie cuvee precieuse

Preciosismo em Blanc de Blancs

O champagne que abriu os trabalhos cumpriu sua função com maestria, fazendo o papel de um verdadeira Blanc de Blancs: leveza, frescor e papilas estimuladas. Embora no rótulo não tenha a menção Blanc de Blancs, apenas cuvée Precieuse, trata-se de uvas 100% Chardonnay de vinhedos Grand Cru nas comunas de Avize, Cramant e Oger, todas na sub-região da Côte des Blancs. Champagne muito delicado, perlage e mousse adoráveis, com um final limpo e estimulante. Perfeito!. Importado pela Decanter.

puligny-montrachet les perrieres

Puligny de Terroir

Com o prato de entrada, um Puligny-Montrachet do produtor Louis Carrillon & Fils extremamente bem elaborado. O Premier Cru Les Perrières, vinhedo de pouco menos de um hectare, faz a transição para a comuna de Meursault. Isso fica bem nítido no vinho, onde percebemos um nariz de Puligny, mas a textura em boca é mais para Meursault. Num estilo elegante, o trabalho de bâtonnage é muito bem feito em barricas, sendo uma pequena porcentagem delas, novas. Fruta delicada, leve toque amanteigado da malolática enriquecido com notas  de especiarias, fez um par perfeito com prato de ravioli de vitela em molho de manteiga e sálvia (foto abaixo). Além dos aromas e sabores se complementarem, a sintonia de texturas foi perfeita.

Encerrando a primeira parte, a bela acidez deste branco garante uma boa longevidade. Foi decisiva no equilíbrio gustativo, contrapondo com maestria sua agradável maciez. Final de boca rico e complexo. Importado pela Mistral.

ravioli de vitela restaurante emiliano

leveza e sutileza de sabores

Mantendo o nível do branco, este Premier Cru de Vosne-Romanée (foto abaixo) fez bonito. Michel Gros elabora este belo tinto no vinhedo Aux Brûlées de vizinhanças nobres como Cros Parantoux, Richebourg e Les Souchots. São apenas 63 ares, pouco mais de meio hectare, em solo pedregoso e sub-solo calcário. O vinho amadurece em média 18 meses em carvalho, sendo de 50 a 80%  barris novos para os tintos Premier Cru com este, dependendo da safra. Em particular, 2005 foi excelente na região. Reflete-se em todo o vinho, a começar pela cor de intensidade marcante. Seus aromas de cerejas escuras e um toque agradavelmente defumado são dominantes. Em boca, um equilíbrio fantástico, onde a estrutura de taninos é marcante e presente. Contudo, são taninos de alta qualidade e de textura inigualável. Certamente, esses componentes vão permitir uma longa guarda, pelo menos mais dez anos.

aux brulees premier cru 2005

a sagrada comunhão de produtor, terreno e safra

O prato abaixo, um leitão assado em seu próprio molho guarnecido de mil-folhas de batatas, garantiu o bom casamento. Os sabores do assado e da própria carne ligaram-se perfeitamente ao vinho. Além disso, o corpo, textura e intensidade de sabores estavam sintonizados. A agradável gordura entremeada à carne foi devidamente combatida pela precisa acidez do vinho. Realmente, uma harmonização de detalhes.

leitao assado restaurante emiliano

precisão no ponto do assado

Em resumo, a enogastronomia foi praticada em alto nível com pratos e vinhos de grande precisão e singularidade. Poucas vezes este feito é atingido, embora na maioria dos casos, pratos e vinhos estejam bem representados individualmente. Mas é isso, geralmente quando as expectativas são mais comedidas, as surpresas costumam aparecer. Nesta noite, rondamos a perfeição. Obrigado aos amigos!, verdadeiros especialistas da Terra Santa.

Beato e o ano 1964

26 de Junho de 2016

Eu não tenho dúvida que Manoel Beato, marco da sommellerie no Brasil, é muito melhor que seu próprio ano. De fato, 1964 não é um ano de grandes emoções na maioria das regiões vinícolas mundo afora. Mesmo em Bordeaux, a margem esquerda ficou prejudicada devido à chuvas inesperadas na época da colheita. Contudo, a margem direita talvez seja o oasis neste caos mundial. Pomerol e Saint-Emilion produziram tintos excelentes. Só para dar dois exemplos, Petrus foi quase perfeito com 99 pontos RP, e Cheval Blanc com 96 pontos RP. Provavelmente, se já não os tomou, Beato certamente realizará mais este feito. Enfim, vamos aos vinhos da comemoração.

margaux 1964gaja 1964

os bons velhinhos

creme com morilles restaurante oui

creme com morilles

O prato acima de entrada foi uma excelente opção para acompanhar vinhos velhos, já evoluídos. A delicadeza dos cogumelos e do creme não arranharam de forma alguma a fragilidade e sutileza dos bons velhinhos.

De inicio, tanto o Barbaresco de Gaja (genérico, não aqueles de vinhedo), como o Chateau Margaux, ambos 1964, estavam em seus últimos suspiros. Percebe-se o pedigree de ambos, mas sabemos que seu auge passou, deixando a boca seca, sem a vibração da fruta. Houve também a presença de um dos maiores DRCs, Romanée-St-Vivant 1978, tinto de grande complexidade e esplendor. Entretanto, a garrafa estava com problemas e acabou sendo uma decepção. Tudo caminhava em trevas …

monfortino 1971

Barolo de raça

De repente, eis que surge o vinho do almoço. Um dos maioires Monfortinos de todos os tempos, safra 1971 (98 pontos RP), embora o 1964 não fosse uma má ideia, também com boa cotação. Um Barolo para homens, não para meninos. Imponente, marcante, viril, e com uma complexidade impar, emanando cacau e o clássico toque alcatroado. Está no seu melhor momento, embora sem sinais de decadência, clamando pelas belas trufas brancas de Alba. Uma maravilha!

rioja alta 904 1964

um dos maiores da história

Contudo, Manoel ainda tinha alguns trunfos na manga. Deu-nos o privilegio de provar um dos grandes clássicos de Rioja, o fenomenal La Rioja Alta Gran Reserva 904 de seu ano, 1964. Outra maravilha que ombreou-se ao monstro do Piemonte, só que pelo lado da delicadeza e elegância. Um verdadeiro Borgonha espanhol com seus toques empireumaticos de caramelo, bala de cevada, especiarias doces, e fruta ainda deliciosa e vibrante. Estes dois tintos acompanharam muito bem o rico Cassoulet (foto abaixo) preparado especialmente para o evento no restaurante Oui, sempre com pratos surpreendentes.

cassoulet restaurante oui

prato de sustância

Fazendo um parêntese neste grande tinto espanhol, o Gran Reserva 904 é composto basicamente de Tempranillo de vinhas antigas com um pitada de Graciano, outra uva local. O vinho amadurece pelo menos quatro anos em barricas de carvalho americano com várias trasfegas semestrais. Neste procedimento, o vinho se oxigena periodicamente e ao mesmo tempo, é clarificado naturalmente, não deixando sedimentos na garrafa. É um processo semelhante ao estilo Tawny no vinho do Porto. Nesta safra especificamente de 1964, tem 97 pontos RP. Enfim, um grande fecho antes de passarmos às sobremesas.

l´ermita priorato 2013

o suprassumo do Priorato

No meio do caminho apareceu o tinto acima para uma avaliação, um verdadeiro infanticídio. O mítico L´Ermita de Alvaro Palacios do Priorato, safra 2013. Proveniente de parreiras centenárias com a uva Garnacha, tem uma pitada também de Cariñena (Carignan francesa). Pela expectativa de um vinho de cem pontos, esperávamos mais, principalmente em termos de corpo, já que é uma característica marcante da região. De fato, está muito novo, mas tenho ressalvas quanto à sua estrutura para a longevidade e pontuação que se espera. Façam suas apostas.

mousse de mascarpone restaurante ouicarolina com creme patissiere

dueto de sobremesas

Com as sobremesas, outras duas belas surpresas de acompanhamento. Um SGN (Sélection des Grains Nobles) da Alsácia da Maison Hugel 1988 com a uva Gewurztraminer. Uma profusão de aromas envolvendo lichias, flores, mel, resinosos e toda a complexidade dada pela ação da Botrytis. Fez um belo par com a mousse de mascarpone. Logo em seguida, um raro Porto Branco Colheita 1964 da casa Krohn, combinou muito bem com a carolina recheada de crème pâtissière, sobretudo em termos de texturas.

hugel sgn gewurztraminerkrohn branco colheita 1964

Contrastes e Semelhanças difusas

Outro parêntese para esses vinhos, raros e de safras antigas. O alsaciano SGN (Sélection des Grains Nobles) é a categoria máxima em vinhos doces na região, partindo de uvas botrytisadas. A safra 1988 é uma das mais reputadas nesta classificação. Já o também raro Colheita Branco é ainda mais exclusivo que o próprio Colheita Padrão, elaborado com as tintas do Douro. Para este Branco, somente as uvas brancas da região participam do blend. A cor com o envelhecimento adquire um topázio bem particular, enquanto os aromas são mais delicados e sutis que o Colheita tradicional. O ponto alto do equilíbrio e longevidade desta rara categoria é sua incrível acidez.

Em suma, não poderíamos esperar outra coisa do Manoel, do que gratas surpresas. Mesmo num ano complicado, ele soube como ninguém pinçar preciosidades no vasto mundo de Bacco, mostrando a incrível diversidade desta bebida, e raridades poucas vezes degustadas. Além disso, pratos bem pensados para a ocasião com harmonizações sutis. Vida longa Manoel! Parabéns!

Clos de Tart: Um Terroir de Séculos

21 de Junho de 2016

Grande noite entre amigos num jantar no restaurante Emiliano (Hotel). Lugar tranquilo, elegante, e serviço eficiente. Dois grandes vinhos nos esperavam, um branco italiano de Abruzzo e um tinto enigmático da Côte de Nuits, comentados abaixo.

clos de tart

a estrela da noite

De saída, não podíamos baixar o nível, um clássico champagne Deutz Extra-Brut para acariciar as papilas, iniciando os trabalhos. Preço honestíssimo na carta do restaurante, 315 reais. Acompanhou muito bem o couvert e uma cortesia da casa, um bolinho crocante recheado com carne de pato. A bela acidez do champagne combateu bem a deliciosa gordura da fritura. Uma harmonização clássica.

deutz extra brut

A precisão alemã em Champagne

bolinho de pato desfiado

mimo de entrada: fritura com pato desfiado

O branco à nossa espera é uma marco da vitivinicultura italiana, Azienda Valentini Trebbiano d´Abruzzo 2010. A uva Trebbiano normalmente não inspira grandes expectativas. Contudo, trata-se de algo especial. A vinícola é cuidadosa em seu plantio e condução da vinha, além de uma vinificação bem artesanal e sem malabarismos. As leveduras naturais permitem uma fermentação natural e sem pressa. O vinho matura em botti (toneis de grandes dimensões) inertes da Eslavônia.

valentini trebbiano

branco de extrema distinção

Este exemplar foi decantado por longas horas, chegando à mesa com aromas límpidos e sabores bem equilibrados. Notas cítricas e de frutas brancas estão bem presentes, sugerindo carambola. Nuances de especiarias e frutas secas também podem ser percebidas. Em boca, sua acidez é marcante, vislumbrando bons anos de guarda. Equilibrado e com final longo. Vinho de grande distinção e exótico.

Os pratos abaixo fizeram par com este branco, destacando-se as vieiras. A textura e o agridoce do prato levantaram o sabor do vinho, deixando um final bem harmonioso. Já a salada de polvo que parecia uma combinação certeira, pecou pelo excesso de maresia não combatida pelo vinho, embora o prato estivesse muito bem executado. Harmonização é isso: treino é treino, jogo é jogo.

vieiras uvas passas

vieiras frescas com molho de uvas passas e alcaparras

salada de polvo defumado

salada de polvo defumado com molho de limão siciliano

Agora o ponto alto do jantar, o enigmático Clos de Tart da comuna de Morey-St-Denis. Pessoalmente, coloco este tinto em pé de igualdade com Domaine Ponsot Vieilles Vignes (vinho sugerido no último campeonato mundial de sommeliers na Argentina, safra 1945), e o todo poderoso Romanée-Conti. Abaixo, seguem alguns detalhes da fera.

clos de tart 2007

um tinto secular

O mito Romanée-Conti é sempre reverenciado entre outras coisas por sua história milenar através dos séculos. Nesta trajetória, ele nunca esteve sozinho. Clos de Tart, tinto da comuna de Morey-St-Denis, trilhou caminho parecido desde o ano 1141 pelos monges cistercienses, melhor dizendo, freiras. Num vinhedo murado com pouco mais de sete hectares, as uvas são colhidas e vinificadas separadamente em seis parcelas com solos diferentes. A idade média das vinhas chega a 60 anos com algumas centenárias. O replantio paulatino das mesmas é feito com muito critério, pois trata-se de um patrimônio viticultural de grande valor. A opção de desengaçar as uvas ou não depende das condições de maturação das mesmas, conforme a característica  da safra. O vinho estagia em barricas novas pelo menos por dezoito meses. A adega do domaine possui condições naturais excelentes de armazenamento com temperaturas inalteradas em torno de 13ºC e umidade relativa do ar por volta de 75%. O estilo Clos de Tart costuma ser comparado entre a elegância de um Musigny e força de um Chambertin.

É o maior vinhedo Grand Cru individual da Borgonha, ou seja, somente um proprietário. Assim como Romanée-Conti, é um Monopole. Como as condições de safra variam bastante, falaremos do vinho provado do ano 2007. Embora seja um infanticídio, a safra 2007 é caracterizada pela precocidade, gerando vinhos mesmo na juventude, relativamente acessíveis. Os rendimentos neste ano foram de 27 hl/ha (hectolitros por hectare) e o estagio em barricas novas foi de dezoito meses.

Mostrou-se acessível, após horas de decantação. Sua cor é das mais intensas dos tintos da Côte de Nuits. Os aromas de rosas, especiarias e um toque de alcaçuz são de grande delicadeza. Na evolução, aromas terrosos, de fumo, e notas de charcuterie (embutidos), são mais presentes. Boca ampla, estrutura de taninos marcantes, equilíbrio perfeito, fazendo antever longos anos de guarda. Um tinto marcado pela  força, profundidade, sempre permeado por uma elegância impar. Aqui percebe-se a grandiosidade de um Borgonha.

codorna recheada cogumelos e foie gras

prato da noite à altura do vinho

A escolha do prato de acompanhamento foi unânime; uma codorna assada, recheada com cogumelos e foie gras, guarnecida com risoto de alecrim e molho do próprio assado. Um prato lembrando vagamente Festa de Babette (les cailles en sarcophage escoltada por Clos de Vougeot). Harmonização muito boa em termos de textura, refinamento e sabores sintonizados. A delicadeza do risoto sendo o alecrim uma erva marcante, foi muito feliz, além da complexidade do molho do assado. Enfim, o vinho sentiu-se valorizado.

contrate de chocolate

contraste de chocolate

interpretação de chocolates

interpretação de chocolates

Finalizando o jantar, duas sobremesas instigantes adoçaram maravilhosamente o paladar, conforme fotos acima. O contraste de chocolate marca pela ousadia em defrontar o doce do chocolate com o caramelo salgado. O sorvete de cumaru (semente de uma árvore da Amazônia) lembra um pouco o sabor da baunilha. Já a interpretação de chocolates é um deleite ao paladar, mostrando várias texturas, técnicas e doçuras crescentes em sabor.

petits fours emiliano

Emiliano: petits fours

partagas salomones

Salomones: o tabernáculo do Havana

Por fim, um mimo de saída. Belos e saborosos petits fours que valem por uma sobremesa, acompanhando o café. A noitada continuou com Havanas de gente grande, Partagas Salomones. Puros sublimando a habitual força e potência da marca. Sabores marcantes e muita conversa …

Encontro Mistral: Parte II

12 de Junho de 2016

Continuando o desfile de vinhos, o Encontro Mistral proporcionou muitas surpresas, confirmações, e diversidade nos vinhos. Segue mais uma série deles.

mas de daumas gassac

Mas de Daumas Gassac

Quem não se lembra do filme Mondovino quando o senhor Aimé Guibert torceu o nariz para a invasão de fortes grupos vinícolas no Languedoc com a missão única e exclusivamente de ganhar dinheiro sem se preocupar com o contexto da região. Pois bem, é em sua propriedade que nasceu o grande tinto do sul da França, mesclando novos conceitos, mas sem abrir mão de suas raízes. O chamado “Grand Cru” Mas de Daumas Gassac fez fama rápida na crítica especializada sob a batuta do mítico enólogo bordalês, Émile Peynaud. Não tardou muito, para a versão em branco trilhar o mesmo caminho.

Este 2011 provado no encontro, confirma a classe, elegância e complexidade esperadas. Baseado fundamentalmente na casta Cabernet Sauvignon, e uma pequena porcentagem de inúmeras outras castas, o vinho apresenta estrutura e firmeza para vários anos em adega. Deve ser obrigatoriamente decantado.

felsina chianti classico rancia

Fattoria di Fèlsina

Dentro do Chianti Classico, há várias sub-regiões de destaque. Especialmente a sul, perto de Siena, temos a sub-região de Castelnuovo Berardenga, moldando Chiantis elegantes e de característica mineralidade. Indiscutivelmente, Fattoria di Fèlsina personifica esta região com grande tradição. Todos seus tintos de modo geral são marcantes, típicos e originais. O grande destaque para muitos é o notável Chianti Classico Riserva Rancia, extremamente consistente, ano após ano.

Este 2008 degustado no encontro, mostra muita estrutura, taninos bem moldados e um frescor notável. O termo Rancia, trata-se de um vinhedo especial da propriedade de parreiras antigas, criteriosamente replantadas ao longo do tempo. Para ser ter uma ideia, não é qualquer Brunello que pode ombreá-lo. Um verdadeiro clássico da Toscana.

santadi terre brune

Santadi: Terre Brune

Quando falamos em Sardegna, sul da Italia, pensamos nos tintos baseados na uva Cannonau, também conhecida como Garnacha (Espanha) ou Grenache (França). De fato, são tintos emblemáticos com alguns muitos bons e típicos da ilha. Entretanto, há um superstar elaborado com a uva Carignano (Carignan na França). Estamos falando de Terre Brune da vinícola Santadi, um Carignano del Sulcis, plantado em Sulcis, noroeste da ilha. Tinto de grande força, raça, e taninos poderosos.

O provado no encontro, safra 2007, é ainda uma criança. Bela estrutura, taninos em profusão, e muito longo em boca. Tinto que certamente vai evoluir, mostrando grande complexidade. Para quem ainda não provou, a surpresa é sempre impactante.

Porto Graham´s

Uma das cinco melhores casas do Porto, Graham´s esbanja concentração e elegância em seus vinhos. Seus Vintages são notáveis, embora toda a linha mantenha uma consistência impressionante. Dois destaques nesta prova: Quinta do Vesúvio Vintage 2007 e Porto Graham´s 20 anos. Estilos diferentes, mas igualmente ótimos.

quinta do vesuvio vintage

destacado aroma de violetas

Embora Quinta do Vesúvio seja outra propriedade, está ligada ao mesmo grupo da Graham´s. Este Vintage safra 2007 é super concentrado, potente, mas ao mesmo tempo, macio e convidativo. Seus aromas incríveis de violetas remetem à comparação com o destacado Quinta de Vargellas, propriedade da Taylor´s de muito prestígio. Vai evoluir certamente por décadas.

graham´s 20 anos

belos aromas e equilíbrio

Por fim, um Graham´s com indicação de idade, no caso, 20 anos. É uma bela fase dos chamados Tawnies, onde temos uma fruta madura, quase passa, ainda vibrante, mas com forte presença das frutas secas e seus toques empireumáticos.  O equilíbrio de açúcares e acidez é fundamental nesta categoria de vinho. E é exatamente isso, que faz a diferença nas grandes casas.

vale do meão vintage port

Porto mantendo o nível da casa

Quinta do Vale Meão sempre foi um dos redutos que o saudoso Fernando Nicolau de Almeida usufruía para uvas de alta qualidade na composição do mítico Barca Velha. Com a independência da Quinta a partir dos anos 90, o principal vinho da casa de nome homônimo mostrou toda sua qualidade, ratificando sua importância e participação no pioneiro dos vinhos de mesa do Douro de alta estirpe. Seu segundo vinho, Meandro, também confirma seu pedigree.

Na foto acima, falamos de uma outra estrela da casa, seu Porto Vintage. O vinho provado mostrou além de elegância e profundidade, um frescor pouco habitual, principalmente tratando-se de um terroir de clima quente, como é o Douro Superior. Outro fator importante, é a predominância no corte da nobre casta Touriga Nacional (60%), fornecendo classe e estrutura ao conjunto. É um Porto que impressiona pela elegância, equilíbrio e poder de longevidade.

Encontro Mistral: Parte I

9 de Junho de 2016

Atualmente, é muito comum as grandes importadoras de vinho promoverem encontros entre suas principais marcas e seus clientes ou potenciais consumidores. Quem começou tudo isso, bem lá atrás, foi a importadora Mistral, referência em grandes rótulos no cenário mundial.

Sempre com grande público, é difícil pinçar um grupo de vinhos em meio a tantos expoentes. Em todo caso, sob alguns critérios como novidade, curiosidade, bom preço, além da qualidade do produto, separamos alguns rótulos em destaque.

Gaía

Não confundir com Gaja, o grande nome do Piemonte também importado pela Mistral. Neste caso, estamo falando da Grécia, terra dos vinhos lá na Antiguidade. Quem já leu o livro do grande sommelier italiano, Enrico Bernardo, campeão mundial em Atenas na Grécia, pode verificar sua menção ao belo Vinsanto da ilha de Santorini. Elaborado com a uva autóctone Assyrtiko, é um vinho que deve ser conhecido. Original, concentrado, muito equilibrado, e longo em boca. Precisa ser um toscano muito bom para poder ombreá-lo. E digo mais, em termos de qualidade e com preço bem menor, é o que mais se assemelha aos Vinsantos do consagrado produtor toscano de Montepulciano (não a uva e sim, o vilarejo), o excepcional Avignonesi, também trazido pela Mistral.

vinsanto gaia

Ilha de Santorini (Santa Irene)

Não deixe de provar o exótico branco Thalassitis, 100% Assyrtiko, totalmente seco. Proveniente de parreiras antigas cultivadas num sistema peculiar em forma de cesto, é um branco extremamente seco, mineral, e de grande frescor. Lembra por esta mineralidade, os brancos de Chablis e alguns Rieslings. Ótimo com peixe in natura (sashimi) e caviar.

anima negra

Ànima Negra

O nome é estranho, exótico e misterioso, como os vinhos deste produtor espanhol da ilha de Mallorca. Trabalhando com várias uvas autóctones, os vinhos têm distinção e caráter. Em especial, o vinho Àn, isso mesmo, Àn, é elaborado com a tinta Callet de parreiras muito antigas. Com rendimentos baixíssimos (300 gramas por planta), o vinho apresenta grande concentração, força, mineralidade, além de muito equilíbrio. Quem diz que passa 18 meses em barricas francesas novas? Uma beleza! e na adega, vai longe … Prove, arrisque, saia da casinha.

quarts de chaume

Domaine des Baurmard

Baumard é um dos grandes nomes do Loire na sub-região de Anjou, elaborando brancos da casta Chenin Blanc, tanto secos como doces. Secos, na apelação Savennières e doces botrytisados, especialmente na apelação Quarts de Chaume. Vinho de bom corpo, mas não tão invasivo como Sauternes. Bela acidez, muito equilibrado e delicado. Pode envelhecer por décadas. Seus Savennières também são confiáveis.

brundlmayer

Weingut Bründlmayer

Produtor austríaco de exceção com brancos muito bem cotados. A casta típica do país é a agradável Grüner Veltliner, além de Rieslings surpreendentes. Os dois brancos provados com Grüner Veltliner provêm da mesma região, em torno da cidade de Langelois a 70 km de Viena. O primeiro denominado Berg Vogelsang, tem os vinhedos situados em baixas altitudes, proporcionando vinhos mais macios. Já o segundo, sob a DAC Kamptal, parte de vinhedos em terraços com maior altitude, gerando vinhos mais frescos, mais agudos. É bem perceptível esta diferença. A propósito, DAC é uma espécie de denominação de origem austríaca.

O terceiro branco é um Riesling de Kamptal. Com aromas bem típicos da casta (toque mineral), sua textura fica entre os rieslings alemães, um pouco mais magros, e os alsacianos, mais encorpados. Pode ser uma boa descoberta para quem gosta de Riesling. Foto acima dos três vinhos.

brundlmayer riesling

Riesling com doçura peculiar

Agora falando em vinhos doces, o da foto acima, é um Riesling de vinhedo (Heiligenstein) cujo solo é de origem vulcânica. Trata-se de um Beerenauslese (uvas botrytisadas) com 11º de álcool e pouco mais de 160 gramas de açúcar residual. Elegante, delicado e super equilibrado. Divino com torta de maçã.

kracher eiswein

Eiswein: vinho do gelo

Fechando os vinhos doces, temos o rótulo acima, um Eiswein do produtor Kracher, referência em vinhos botrytisados austríacos na região de Burgenland. Esta região é a maior concentração de Botrytis do planeta devido a um lago raso e de grandes dimensões (área de exposição) que aliado a condições climáticas especificas, proporcionam o bom desenvolvimento da Botrytis com uma consistência invejável, ano após ano. Este exemplar mescla as uvas Grüner Veltliner e Welschriesling (riesling itálico) num vinho de ótima acidez e álcool equilibrado, combatendo bem o destacado açúcar residual. Especificamente no Eiswein, não há botrytis. As uvas são colhidas congeladas com alta concentração de açúcar. Na prensagem das mesmas, o gelo fica na prensa e temos um mosto intensamente doce e ácido para a fermentação.

pesquera reserva

Pesquera Reserva

Durante muito tempo, os vinhos de Alejandro Fernandez ficaram à sombra do mito Vega-Sicilia, também importado pela Mistral. Ribera del Duero de grande categoria, a bodega Pesquera molda tintos elegantes, bem equilibrados em todas as categorias; Crianza, Reserva e Gran Reserva. A uva é a onipresente Tempranillo, conhecida localmente como Tinto Fino. Este Reserva Especial provado esbanja classe e equilíbrio. Um verdadeiro clássico da “Milla do Oro” (região nobre de Ribera).

pesquera dehesa

grande pedida em Tempranillo

Saindo um pouco da badalação, o grupo Pesquera é proprietário da bodega Dehesa La Granja, situada fora da zona de Ribera del Duero, sob a denominação Vinos de la Tierra de Castilla y León. Este Cosecha 2006 provado no encontro, mostrou-se com muita fruta, madeira equilibrada e final persistente. 100% Tempranillo com 24 meses de roble americano, e mais 12 meses em repouso na bodega. Praticamente, as exigências de um Reserva. Bela compra.

Entre vinhos e destilados

1 de Junho de 2016

Há pratos que nos deixam em dúvida quanto à harmonização. É bem verdade que para um determinado prato, cabe uma série de vinhos bem escolhidos, os quais proporcionarão sensações diferentes. Foi o que ocorreu neste embate com os vinhos abaixo, acompanhando um pappardelle ao molho de funghi porcini, guarnecido com frango ao forno com mostarda em grão e salvia.

vougeot premier cru

localização privilegiada

O exemplar acima trazido pelo especialista e amigo Roberto Rockmann, foi pinçado num vinhedo Premier Cru (Les Petits Vougeots) cercado por alguns astros de primeira grandeza como Musigny, Les Amoureuses e Clos de Vougeot. Delicado, elegante, taninos bem moldados e madeira quase imperceptível, na medida justa. Buscou enaltecer o lado mais sutil do prato com toques de sous-bois e florais.

clo de l´olive 2005Chinon de vinhedo na bela safra 2005

O tinto acima trata-se de um vinhedo específico do produtor Couly-Dutheil chamado Clos de L´Olive na ótima safra 2005. A apelação Chinon trabalha com a temperamental Cabernet Franc em latitudes limites para seu bom amadurecimento. Aqui o corpo do vinho e sua estrutura tânica  privilegiaram mais a textura tanto da massa, como do prato. O sabor do funghi e os toques de mostarda e salvia, também tiveram boa sintonia com o vinho que por sua vez, apresentava aromas terrosos, herbáceos e de especiarias, notadamente a pimenta. Enfim, a preferência é uma questão de gosto. Muito provavelmente, se degustados isoladamente, não deixariam as dúvidas criadas pela situação exposta.

fita ao molho de funghi porcinipappardelle ao molho de funghi porcini

Encerrando a refeição, tivemos uma tábua de queijos nacionais bem frescos, trazidos direto do produtor (Serra das Antas) com destaque para o Camenbert, Pont L´eveque e Taleggio, nesta ordem crescente de sabores. Para acompanhar os queijos, tivemos damascos, figos secos, e o original Vinsanto grego da ilha de Santorini. Este exemplar da safra 2004 é elaborado com a uva autóctone Assyrtiko de grande acidez e mineralidade. As parreiras plantadas em forma de cesto num solo vulcânico têm mais de sessenta anos, gerando vinhos de grande concentração e profundidade. Seus apenas 9º (nove graus) de álcool e ótima acidez foram contrabalançados por quase 300 g/l (trezentos gramas por litro) de açúcar residual. Aromático, denso e persistente.

vinsanto sigalas

Vinsanto: Os italianos o chamavan de Vin Pretto

torta de limão

torta de limão

A sobremesa acima é outra bela combinação com este Vinsanto grego. A acidez do vinho e seu açúcar residual garantem a força do prato, além das texturas, sabores e corpo de ambos estarem sintonizados.

Como ninguém é de ferro, o gran finale já fora da mesa, ficou para os puros abaixo, Partagas Lusitanias, um dos mais cultuados clássicos de Havana. A pegada, força, e potência desta marca é emblemática. No formato double corona, o primeiro terço começa com uma traiçoeira suavidade que vai intensificando-se sem que você perceba, feito uma sucuri que vai lentamente asfixiando a vítima. Pronto, você está enrolado. Um final de terço inesquecível onde só os destilados nobres podem ombreá-lo.

partagas lusitanias

Partagas Lusitanias: double corona de raça

O primeiro destilado foi o ótimo Knockando (em gaélico quer dizer pequena colina negra) 12 anos da safra 2002. Normalmente, essas indicações de idade referem-se a uma mistura de partidas (solera) onde a idade mais jovem do blend tem o numero de anos indicado. Este Malt Whisky de Speyside é macio, de boa presença em boca e o característico fundo de mel e ervas. Como curiosidade, este malt whisky faz parte do conhecido blended Scotch J&B (Justerini & Brooks).

knokando 12 anos

Single Malt de safra

O segundo destilado trata-se de um rum agrícola envelhecido da ilha de Martinica. O termo agrícola refere-se ao rum obtido somente com o calda da cana de açúcar, e não o melaço. Este V.S.O.P. envelhece quatro anos em madeira, sendo um ano em madeira francesa de Limousin (a mesma floresta para madeira do Cognac), e três anos em madeira americana de Bourbon Whiskey (Kentucky). Bebida de bom corpo, marcante, e persistente. Foi bem no terço final.

rum clement

Os velhos runs do Caribe

Vinhos diferentes, saindo do trivial, e destilados distintos cumprindo o mesmo papel no acompanhamento de puros. Tudo no seu devido tempo e sem conflitos entremeando os pratos. A mesa e o copo agradecem.

Pratos, Vinhos, Harmonizações

28 de Maio de 2016

Num apanhado dos últimos eventos, vinhos e pratos surpreendentes merecem destaques. Os pratos do artigo são de um jantar oferecido pelo amigo Patrick Delfosse, grande conhecedor de Puros, música (especialmente Jazz) e obras de arte como quadros, esculturas, peças de decoração.

Muito dos vinhos são de um belo evento da Qualimpor com a divulgação competente de Gabriela Galvêz, onde além dos vinhos tivemos uma série de azeites portugueses e queijos nacionais diferenciados.

creme brulee salgado

entrada super original

A entrada acima surpreendeu a todos, criação da amável Emilie no jantar do amigo Patrick. Um crème brûlée salgado à base de salmão defumado, ou seja, a textura do creme lembrava o doce original, mas com o sabor salgado e um defumado bem elegante. A fina camada de açúcar tostado fez um contraponto muito interessante. Para este prato, sugiro um Vouvray Sec Tendre (com leve açúcar residual) ou um Riesling alemão do Mosel categoria Spätlese. Bela combinação, sem marcar muito o paladar. O copo trata-se de um creme de ervilha suave que não interfere na harmonização.

aperitivo suze

cocktail: fond de culotte

O coquetel acima chamado de fond de culotte é mistura de Suze, água com gás e creme de cassis. A proporção dos ingredientes gera bebidas diferentes. Um pouco mais de água com gás deixa o drink refrescante, enquanto um pitada apenas de cassis não o deixa muito doce. A propósito, Suze é um bitter de origem francesa criado em 1889. Agradavelmente amargo.

cubo de salmão

cubo de salmão em crosta de gergelim

O salmão fresco grelhado é um bom parceiro para vinhos com a uva Pinot Noir, sobretudo Sancerre tinto ou Borgonha. Apesar de peixe, sua carne escura, sanguínea e de textura firme, pede mais um tinto, desde que seja delicado em taninos e não muito invasivo. Este cubo de salmão estava crocante por fora e extremamente úmido em seu interior. Comme il faut!

williams selyem

Russian River: Côte d´Or de Sonoma

Que tal este Pinot para o prato de atum? William Selyem faz dessa uva uma cópia quase fiel à original. Muito bem balanceado, com elegância, e uma madeira criteriosamente dosada. Estilo fora da curva das inúmeras tentativas do Novo Mundo. Acesso e preços quase proibitivos.

tabua de queijos

queijos variados em todos os sentidos

A foto acima é um clássico num final de jantar francês. Os queijos têm como função finalizar o último vinho, além de dar sequência ao provável vinho de sobremesa ou outros que se seguiram. Um dos bons parceiros nesta hora é o vinho do Porto, principalmente quando a potência e a textura de certos queijos se fazem presentes.

taylor´s 30 anos

Taylor´s 30 anos: grande pedida nos tawnies da casa

Neste estágio, um 30 anos exige muito equilíbrio e complexidade. Se estes requisitos forem atingidos, então percebemos que a mão do homem foi sábia. Assim é dito: “Vintages estão nas mãos de Deus, Tawnies nas mãos do homem”. Portanto, é esta precisão do blend tanto em proporções, como na escolha dos vinhos de reserva certos, que foram bem envelhecidos e que por sua vez, tinham extrato e concentração para tal. É uma tarefa de perfumista. Importado pela Qualimpor (www.qualimpor.com.br).

taylor´s colheita 1966taylor´s 1994

Taylor´s: Colheita 66 e Vintage 94 – lado a lado

Continuando em Porto, continuando em Taylor´s, a foto acima mostra claramente como as categorias Tawny e Ruby podem sublimarem-se em Colheita e Vintage, respectivamente. O Vintage 94, já comentado várias vezes neste mesmo blog, vai maturando lentamente em garrafa, provado felizmente em vários momentos e estágios de evolução. Já este Colheita estagiado em cascos por 50 anos, mostra toda a complexidade e maciez que um Porto pode atingir. Lançamento da Taylor´s num bonito estojo pela Qualimpor, foto abaixo.  

taylor´s colheita 1966 (2)Colheita de altissimo nível

Para encerrar o assunto Taylor´s, temos este monumental Vintage safra 2011. Infelizmente, não estarei mais aqui para ver seu esplendor, provavelmente no final deste século. Escuro, denso, multifacetado em várias camadas de aromas. Precisa ser decantado por horas nos prováveis infanticídios que virão. Bom presente para seu neto que está nascendo agora, ou para aqueles em que o ano 2011 foi significativo e marcante.

taylor´s vintage 2011

Vintage: safra e engarrafamento obrigatórios no rótulo

ameal solo loureirogrande mineralidade

Quinta do Ameal é uma propriedade portuguesa na região dos vinhos verdes mais especificamente, na sub-região do Lima, cultivando a casta Loureiro. Pessoalmente, a melhor casta da região depois da gloriosa Alvarinho. Esta cuvée chamada Solo, expressa um vinho de grande mineralidade, equilíbrio e persistência. Vale apena ser provado. Importado pela Qualimpor.

quinta do crasto vinhas velhas

Um clássico nos tintos durienses

Finalizando o artigo, o tinto acima requer paciência e decantação na hora do serviço. Partindo de vinhas antigas (diversas castas, algumas centenárias), este tinto exibe alta concentração, tipicidade, e profundidade. Seus taninos são abundantes e finos. Requer muita paciência para seu lento desenvolvimento em adega. Deve ser obrigatoriamente decantado. Páreo duro em qualquer painel de alto nível do Douro.

Belle Époque: Parte II

22 de Maio de 2016

Após o desfile de toda linha Belle Époque, chegamos ao prato de carne, especialidade inconteste do restaurante Varanda Grill. E que carnes! dois Kobe beefs com diferentes cortes e diferentes graus de marmorização (gordura entremeada na carne). A harmonização segue abaixo.

perrier jouet menu

menu Belle Époque

Duo de Kobe – Tenderloin 5/6 e Strip Loin 7/8

Chateau Cos d´Estournel 1997

kobe beef

ponto perfeito da carne

cos d´estournel 1997

Bordeaux pleno de aromas

Nesta harmonização cabe uma explicação sobre os dois cortes de Kobe. Tenderloin é o nosso corte de filé mignon e Strip Loin é o famoso bife de chorizo (contrafilé). Os códigos 5/6 e 7/8 são os respectivos graus de marmorização da carne (gordura entremeada).

Embora os dois cortes estivessem divinos e macios, o contrafilé tende a uma trama de carne mais compacta, exigindo mais suculência. Daí, os vinhos mais tânicos e sobretudo mais jovens têm sua adstringência melhor trabalhada, tornando a harmonização mais agradável. No caso do vinho acima, pela polimerização praticamente concluída de seus finos taninos, o Tenderloin ficou mais adequado.

Agora um parêntese para este Bordeaux. Cortesia do impecável anfitrião João Camargo, este deuxième de Saint-Estèphe estava divino em termos de evolução e prontidão para ser tomado. Detalhes de conhecedor. A safra 1997 é um bom ano sem ser excepcional e tem características de precocidade. Esses dois fatores aliados aos seus praticamente 20 anos de guarda, entregam toda a elegância e complexidade que um Grand Cru Classé pode oferecer. Fruta deliciosa, toques de tabaco, ervas finas e uma nota animal extremamente elegante (bastidores de Jockey Club). Sensacional!

 Dessert by Giuliana Cupini

Belle Epoque Rosé 2005

abacaxi e sorvete de framboesao mesmo design da entrada

mousse de chocolate

mousse de chocolate

belle epoque rose

rosé de assemblage

As sobremesas, independente da harmonização, foram um show à parte. Executadas pela chef Giuliana Cupini, foram duas releituras servidas no jantar. A primeira foto lembra fielmente a entrada de vieira composta de mousse de coco, sagu de mirtilo, ovas de cereja e violeta cristalizada. Embora o sabor do coco não tenha muito a ver com o champagne, em termos de textura e acidez, a harmonização correu bem.

Quanto à foto abaixo da “vieira”, a ideia foi reproduzir a bela garrafa estilizada da versão Belle Époque. A composição se deu com mousse de chocolate com boa porcentagem de cacau e inserção de compota de framboesa. A cobertura de chocolate branco na cor rosé, além da flor e do beija-flor dourado, refletiram o design da garrafa. Novamente, apesar da harmonização não ser perfeita, os sabores de chocolate e principalmente a acidez da framboesa, equilibraram bem o sabor do champagne. O que pecou foi a falta de sintonia de texturas entre o prato e o vinho. Um Porto estilo Ruby seria perfeito. De todo modo, valeu a experiência ousada.

Parabéns à toda equipe da Pernod Ricard e também do Varanda Grill na execução e coordenação deste belo evento. Menção especial ao sommelier Tiago Locatelli, ao chef Fabio Lazzarini e a chef pâtissière Giuliana Cupini.

taça champagne

Taças de champagne: passado e presente

Um pouco mais de Perrier Jouët

Champagne de estilo delicado com sede em Épernay. No inicio do século passado, época da belle époque, seus champagnes eram muito prestigiados com exportações de mais de um milhão de garrafas. Em alusão a este áureo período, sua cuvée de luxo Belle Époque foi criada em 1964 e lançada no mercado em 1969.

Os vinhedos são praticamente todos grands crus nas três sub-regiões de Champagne:  Cramant e Avize (cote des blancs), Mailly (montagne de Reims), Aÿ e Dizy (vallée de la marne).

Como curiosidade, em 1856 a Maison lançou o primeiro champagne seco (sec), já que na época imperava o estilo doce. Com essa iniciativa, em 1876, a Inglaterra começou a pedir champagnes neste estilo sec que mais tarde abriu caminho para o termo Brut. Para se ter uma ideia, no século XIX (1882), os ingleses consumiam os champagnes mais secos com açúcar residual entre 22 e 66 g/l. Os americanos, um pouco mais doce, entre 110 e 165 g/l. Já os russos com inacreditáveis índices de açúcar entre 275 e 330 g/l, ou seja, um terço da garrafa era açúcar. Em nossos dias, o termo Brut admite açúcar até 12 g/l, sendo que muitas casas ficam bem abaixo deste valor.

Em 2009, foram degustadas champagnes Perrier Jouët antigas das safras 1825, 1848, 1858, 1874, 1906 e 1911. A safra 1825 mostrou-se surpreendentemente palatável e com ótima complexidade aromática. É considerado o champagne mais antigo com duas garrafas guardadas na Maison.

Atualmente, a Maison conta com 65 hectares de vinhas e uma produção anual em torno de dois milhões e quinhentas mil garrafas.

Belle Époque: Parte I

19 de Maio de 2016

Perrier Jouët Belle Époque deveria ser o champagne oficial do inesquecível filme Midnight in Paris, do mago Woody Allen, onde nas cenas de devaneio; a irreverência, o despojamento, a descontração, eram a tônica de memoráveis encontros. A começar pelo visual, a cuvée de luxo Belle Époque traz um pouco de tudo isso. Abaixo, a música tema, Si Tu Vois Ma Mère, Sidney Bechet.

https://youtu.be/bmVTnLR02Nc

Noite agradável no restaurante Varanda Grill com um belo desfile de champagnes Perrier Jouët em sua versão mais nobre, a cuvée de luxo Belle Époque em todos os estilos (Brut, Blanc de Blancs e Rosé). As presenças dos diretores do grupo Pernod-Ricard (distribuidor do champagne Perrier Jouët no Brasil), Quentin Meurisse e Clement Quilichini, abrilhantaram o evento. O Château Cos d´Estournel 1997, grande deuxième de Saint Estèphe, marcou presença acompanhando pratos de carnes nobres, o famoso Kobe beef.

Abaixo, o menu do jantar com as devidas harmonizações:

perrier jouet menu

Menu Perrier Jouët

Amouse-bouche: Vieira fresca

Nelle Epoque Blanc de Blancs 2000 (100% Chardonnay com nove anos sur lies)

vieira fresca

frescor e maresia

belle epoque blanc de blancs

delicadeza e mineralidade

Nesta harmonização, os sabores de maresia, a salinidade e acidez do molho e o picante do gengibre, vão de encontro às características de um Blanc de Blancs. Além da delicadeza de ambos (prato e vinho), a acidez  do champagne combate bem a maresia dos frutos do mar, a salinidade e a picância do gengibre, deixando um final rico e harmonioso.

Cappuccino de lula  e creme de batata

Belle Epoque Brut 2004 (50% chardonnay, 45% pinot noir, 5% pinot meunier). seis anos sur lies.

cappuccino de lula

prato bem executado

belle epoque 2004

exuberância de aromas

Esse foi o ponto alto das harmonizações, onde houve mais ousadia. Os sabores marcantes do molho e da lula embaixo da taça, acrescidos de uma textura delicada do creme de batata, tiveram a força precisa para este millésime rico em sabor. Esta safra teve a exuberância da fruta e um corpo acima do padrão, fatores decisivos no sucesso da harmonização, inclusive no equilíbrio de texturas entre prato e vinho. Superbe!

Pescada cambucu com legumes e crema de ervilha

Belle Epoque Brut 2002 (mesma composição do 2004)

pescada cambucu

frescor e delicadeza

perrier jouet 2002

uma grande safra clássica

Os champagnes millésimes marcam exatamente as características das safras. Esta bela safra de 2002 é enfatizada pela acidez e mineralidade com grande poder de longevidade. Tanto é verdade, que nesta prova não há nenhum sinal de oxidação, pelo contrário, muito frescor. O prato de peixe extremamente delicado, guarnecido por legumes e um creme sutil, foi o preâmbulo para fazer brilhar toda a riqueza e sutileza deste belo champagne.

Peito de pato com frutas do bosque

Belle Epoque Rosé 2005 (50% pinot noir, 45% chardonnay e 5% pinot meunier). Assemblage com vinho tinto (11% Pinot de Ambonnay e Aÿ). seis anos sur lies.

peito de pato com frutas de bosque

bela apresentação

perrier jouet rose

rosé delicado

O segredo nesta harmonização é o prato ter acidez suficiente para o vinho. Em preparações com pato, há sempre um toque de doçura no molho. Este fator desperta a acidez do champagne e ao mesmo tempo, ela deve ser nivelada com a acidez do prato. Com isso, a harmonização ganha frescor, sem descaracterizar o vinho. É bom frisar que o champagne deve ser rosé, pois é um vinho mais estruturado e de aromas sintonizados com carne vermelha. Este é um rosé de assemblage, ou seja, é adicionado uma pequena parcela de vinho tinto da região no vinho-base, sendo feita posteriormente a tomada de espuma na própria garrafa (champenoise).

Próximo artigo, mais Perrier Jouët à mesa.