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O tempo em uma taça: a história da família Gaja

16 de Abril de 2026

Há marcas italianas que ultrapassam fronteiras. Os bólidos da Ferrari cruzam estradas mundo afora, executivos assinam cheques vestidos de ternos de Giorgio Armani com gravatas Marinella, mulheres calçam sapatos Sergio Rossi e carregam bolsas Gucci. No mundo do vinho, o nome que carrega o mesmo peso simbólico é Gaja — quatro letras que se tornaram sinônimo de elegância, precisão e personalidade.

A história começou em 1859, quando Giovanni Gaja, produtor de uvas em Barbaresco, fundou uma pequena vinícola para abastecer o restaurante da família. O vinho era feito para acompanhar os pratos simples servidos à mesa, mas logo se percebeu que era melhor que a comida.

A saga ganhou densidade em 1935, quando o neto, também chamado Giovanni, assumiu a direção. Dois anos depois, em 1937, tomou uma decisão que parecia trivial: colocou o nome da família em letras grandes no rótulo. Num tempo em que os vinhos piemonteses e até franceses eram anônimos, vendidos a granel, esse gesto foi quase uma revolução silenciosa.

Quando o jovem Angelo Gaja chegou à vinícola em 1961, o Piemonte ainda seguia a tradição. Trouxe o inconformismo dos novos tempos. Determinou que só vinificaria uvas de vinhedos próprios, cortando a dependência de terceiros. Nos anos 1950, a vinícola vendia vinhos de Barolo https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/da-garagem-para-o-mundo/  produzidos com uvas compradas, contou Francesco Giardino, diretor de vendas da Gaja, que esteve no Brasil esta semana em evento da importadora Mistral.

Pouco depois, Angelo viajou aos Estados Unidos, onde trabalhou brevemente em restaurantes e conheceu produtores que faziam vinhos no nível dos franceses. Voltou impressionado com a forma como o vinho era comunicado — com clareza, orgulho e emoção — e decidiu que os rótulos italianos também precisavam ter voz, história e identidade. A viagem reforçou ensinamentos recebidos aos 11 anos.

Ainda menino, Angelo brincava no pátio da casa da família, quando a avó Clotilde Rey — que fora professora na Savoia e que todos chamavam de Tildìn — o chamou de lado. De temperamento forte e olhar severo, Clotilde o fitou e perguntou:
“Angelo, o que você vai fazer na sua vida?”
O garoto, sem saber responder, ficou em silêncio. Clotilde esperou, depois completou:
“Você tem de se tornar um artesão.”
Essas palavras ficariam gravadas em sua memória. Mais tarde, ela explicou o que queria dizer com isso:
“Fare, saper, far fare, far sapere — fazer; saber como fazer; ensinar os outros a fazer; e comunicar o que se faz.”
Para ela, o vinho era um gesto de arte, mas também de ética e transmissão. Décadas depois, Angelo diria que cada garrafa que produziu foi, de alguma forma, uma tentativa de honrar aquela conversa.

Clotilde também conheceu, nessa mesma época, um menino curioso que perambulava pelos vinhedos vizinhos: Mino Carta https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/as-memorias-gustativas-e-olfativas-de-mino-carta/ . A família Carta havia se refugiado, no início dos anos 1940, no Piemonte, durante os bombardeios da guerra. Mino perambulou pelos vinhedos locais e guardou a lembrança da mulher de voz firme que lhe falava da terra e da paciência do vinho. Anos mais tarde, já no Brasil, Mino se tornaria um dos maiores entusiastas dos vinhos Gaja. Frequentava o restaurante Massimo, em São Paulo, muito mais pela carta de vinhos do que pela comida, e sempre se emocionava ao recordar as colinas de Barbaresco.

Nos anos 1960, Angelo começou a colocar em prática a filosofia herdada da avó. Em 1964, comprou o vinhedo Sorì San Lorenzo, cuja primeira safra, em 1967, inaugurou uma nova era no Barbaresco. Depois viria o Sorì Tildìn, homenagem à própria Clotilde, e mais tarde o Costa Russi. Com eles, Gaja reforçou no Piemonte a ideia de vinhos de vinhedos únicos, até então algo típico da Borgonha.

No final da década de 1970, Angelo ousou novamente: plantou Cabernet Sauvignon em solo de Nebbiolo. O pai, Giovanni, ao saber da novidade, suspirou: Darmagi! — “que pena”, em dialeto piemontês. O filho transformou o lamento em batismo: o novo vinho se chamaria Darmagi. “Os rótulos buscam destacar histórias da família, como Darmagi ou como Sorì Tildìn”, contou Francesco Giardino, diretor de vendas da Gaja. “Cada vinho carrega um fragmento de memória, uma emoção transformada em garrafa.”

Nos anos 1980, Angelo decidiu realizar um sonho antigo do pai. Em 1988, comprou dois vinhedos em Serralunga d’Alba — Marenca e Rivette —, áreas de Nebbiolo de grande prestígio que dariam origem ao Sperss. O nome, em dialeto piemontês, significa “saudade”, e traduzia um sentimento que seu pai, Giovanni, carregara por toda a vida. Quando jovem, Giovanni trabalhara por alguns dias na vinícola da família, em Barbaresco, sob o olhar severo da mãe, Clotilde Rey. Ali, tudo era disciplina: horários rígidos, silêncio à mesa, longas jornadas de colheita e toque de recolher antes das 20 horas. Respeitava a mãe, mas sentia falta de leveza. Por isso, ao ter a chance de trabalhar por algumas semanas em Serralunga d’Alba, em uma propriedade vizinha, a experiência foi libertadora.

Ele lembrava com carinho daquelas quinze noites em que, após o trabalho, os jovens colhedores se reuniam para rir, cantar e beber o vinho da casa até tarde, sob o ar fresco das colinas. Longe da rigidez de Barbaresco, Giovanni descobriu que o trabalho com a terra também podia ser alegria.

Décadas depois, Angelo ouviu tantas vezes o pai contar essas lembranças que decidiu transformá-las em vinho, relembrou Angelo em entrevista a Levi Dalton no podcast “I´ll drink to that”. Comprou o mesmo pedaço de terra que inspirara o pai e lançou o primeiro Sperss em 1988. “Foi o vinho que fiz por ele”, diria mais tarde. Por trás da potência e dos taninos firmes, há uma história simples: a de um filho que devolveu ao pai um lugar de felicidade.

Depois vieram os brancos, Gaja & Rey e Rossj-Bass, dedicados à avó Clotilde e à filha Rossana, reafirmando a ideia de que o vinho, em Gaja, é sempre uma forma de contar histórias familiares. Em 2015, a família deu mais um passo em direção ao futuro com a compra de vinhedos em Alta Langa, região de altitude e clima frio, onde ergueram uma vinícola dedicada exclusivamente a brancos. É a visão de que o aquecimento global traz desafios e necessidade de se buscar geografias mais adaptadas, mas o saldo dos efeitos das mudanças climáticas tem sido positivo, com melhor maturidade das uvas a cada safra. “A safra 2021 é histórica”, diz Giardino. “Ela mostra o equilíbrio perfeito entre frescor, elegância e maturação.”

Do Piemonte, a visão se expandiu ainda mais para o sul. Em 2017, Angelo e sua filha Gaia Gaja anunciaram o projeto IDDA, parceria com o produtor Alberto Graci no Etna, na Sicília, um terreno influenciado pela presença do maior vulcão ativo da Europa. “IDDA”, no dialeto siciliano, significa “ela” — uma referência à montanha e à força feminina da natureza. Lá, a Nebbiolo dá lugar às uvas Nerello Mascalese e  Carricante, em vinhos que traduzem energia, mineralidade. O projeto, ao mesmo tempo moderno e ancestral, é o novo capítulo da saga Gaja.

Mais de 160 anos depois, a vinícola fundada para acompanhar pratos simples tornou-se um ícone global, uma marca que sintetiza o espírito italiano de unir tradição e vanguarda. Um vinho Gaja carrega a essência do luxo discreto: o domínio do tempo. E, como lembrava Mino Carta, que atravessou a vida com uma taça de Barbaresco nas mãos, sempre que podia, “há vinhos que não se bebem — se contemplam.”

Briga de Barolos, trufas e muito mais

17 de Dezembro de 2019

Nos últimos eventos de 2019 grandes vinhos desfilaram em mesas refinadas onde as trufas brancas sempre roubam a cena. Entre champagnes, brancos, e tintos, destaque para os Barolos e bordeleses, os vinhos antigos se harmonizando com as trufas. Mais do que Barolos e Barbarescos para combinarem com elas, a idade do vinho e seus aromas terciários são a chave ideal para a combinação perfeita.

estilos diferentes e encantodores

Dois champagnes de luxo abrindo o jantar onde a composição de Chardonnay e Pinot Noir não difere muito, mas os estilos são bem diferentes. Normalmente, há uma leve predominância de Chardonnay no corte do Dom Perignon, o qual tem estilo mais leve, mais delicado, belo frescor e ótimo equilíbrio. Esses 19 anos não se mostraram na taça, tal a extrema juventude demonstrada.

Do lado do Cristal 2009, um champagne de mais corpo e estrutura com leve predominância da Pinot Noir sobre a Chardonnay. Longo em boca, começando com belo frescor e logo em seguida, uma cremosidade notável. Um champagne muito gastronômico.

tartar de salmão e vieiras

A leveza e acidez do tartar de salmão caiu muito bem com a textura e o frescor do Dom Perignon. Uma harmonização estimulante, sempre refazendo o paladar. Do lado das vieiras grelhadas, acompanhando foie gras e trufas, o champagne precisava ser mais rico e estruturado. A maciez e os aromas do Cristal foram muito bem com os sabores do prato.

Montrachet e camarões

O Montrachet Bouchard Pére & Fils em formato Imperial foi o suficiente para regar o jantar. Mesmo com seus 15 anos de idade, o vinho era de um frescor impressionante. Não está no time de cima dos grandes Montrachets, mas é muito elegante e equilibrado. Tem um estilo mais leve e agudo lembrando produtores como Leflaive e Ramonet num nível evidentemente um pouco abaixo. Com a cremosidade delicada do bobó de camarão, a harmonização ficou perfeita.

duas imperiais em momentos distintos de evolução

Os grandes formatos, no caso imperial, ficaram como o Mouton 1975 e o Margaux 95. No caso do Mouton, um vinho maduro, de corpo médio, não muito longo em boca, mas muito equilibrado e com todos os terciários de um grande Pauillac, caixa de charutos, café, e ervas finas. 

Para o Margaux 95, um vinho ainda em transição, saindo da juventude e começando a entrar na maturidade. Mais encorpado que o Mouton, maior carga tânica, embora de alta qualidade, e mais longo em boca. Os aromas florais, de sous-bois, e toques minerais, eram evidentes. Deve evoluir bem por mais vinte anos. Exemplo de um grande Margaux.

pratos de carne consistentes

Um filé mignon na mostarda com molho rôti para o Mouton 75 acompanhado de cuscuz marroquino. A mostarda tem a propriedade de equilibrar vinhos mais novos e ao mesmo tempo, levantar o sabor de vinhos mais maduros. Já para a costela cozida lentamente e defumada de sabores consistentes era exigido um vinho de maior corpo e estrutura. O Margaux 95 deu conta do recado. Sua densidade e tanicidade cairam muito bem. 

Encontro de Barolos e Barbarescos

img_7121Com 30 anos já podemos pensar em trufas

Pena que o Monfortino 88 estivesse levemente prejudicado, algo de bouchonné, embora pudéssemos notar sua grande estrutura. Um vinho de escola tradicional onde os toques terciários de trufas, alcatrão e notas terrosas, ficam bem salientados. Já o Granbussia 88 de Aldo Conterno estava surpreendentemente jovem pela idade, mas com lindos toques de evolução, sem perder a fruta. Foram muito bem com os pratos de trufas.

ravioloni e risoto zafferano

O ravioloni recheado de castanhas e porcini com queijo bel paese estava divino, sobretudo complementado pelas trufas brancas. Já o risoto zafferano é um clássico que dispensa comentários também com trufas raladas. Nem é preciso dizer que esses Barolos evoluídos harmonizaram muito bem. É bom frisar que não basta ser Barolo ou Barbaresco, o vinho precisa estar evoluído para dar liga na harmonização.

img_7127safras históricas de Monfortino

O Monfortino da esquerda não aparece na foto, mas é safra 1985 em formato Magnum. Embora já esteja no auge para ser bebido, esta garrafa está muito bem conservada, podendo evoluir por mais alguns anos. Um Barolo de raça, taninos possantes, e aromas etéreos. Tem 96 pontos. Já o Monfortino 1978 é um  Barolo histórico com 98 pontos e plenamente evoluido. Os toques terrosos, de trufas e alcatrão são didáticos. Para a maioria do pessoal, foi o vinho da degustação.

img_7126o Mestre Angelo Gaja

Aqui no mesmo ano 1989, vê-se claramente a diferença entre Barolo e Barbaresco num mesmo produtor. O Barolo é mais encorpado, mais tânico, mais viril. Agora um Barolo de Angelo Gaja tem uma classe a mais que é difícil de explicar. Uma finesse de aromas e taninos, além de um equilíbrio sensacional e fino acabamento. O Costa Russi, uma das três joias de Gaja é tão fino e delicado que nem parece italiano. Pode coloca-lo no meio de Borgonhas da apelação Pommard que passa fácil. Um tinto encantador com notas florais, de alcaçuz, cerejas escuras em licor, e muita mineralidade. Sensacional dueto!

Yquem e os queijos

Passando a régua, uma double Magnum de Yquem 1999 com vinte aninhos. Já em plena maturidade, um Yquem clássico, untuoso, cheio de botrytis, mel, damascos, caramelo e frutas exóticas. Muito equilibrio e de final longo. Para esta safra temos 13,8 graus de álcool e 128 gramas de açúcar residual por litro. Um prato de queijos de sabores intensos como Serra da Estrela, Brillat-Savarin e outros franceses, caiu como uma luva com o Yquem, fechando a refeição.

Que o Ano Novo comece tão farto quanto o crepúsculo do ano que se encerra com belos vinhos, boa mesa, e muita confraternização entre amigos. Saúde!

 

Os polêmicos Top 100 WS

19 de Novembro de 2019

Finalmente, a lista dos 100 melhores vinhos da revista americana Wine Spectator. Sempre muito polêmica, suas notas mexem com os preços dos mais bem pontuados. Como sempre, a premiação se concentra nos americanos, franceses, e italianos. Espanha e Portugal em números modestos, e o restante, na maioria Novo Mundo, completam a lista. Todos os vinhos: http://www.winespectator.com 

Além dos Top Ten já anunciados e comentados em artigo anterior, segue minha lista Top Ten baseada na lista dos 100 melhores anunciada. Escolhi dez vinhos dentre os noventa abaixo do Top Ten.

wine spectator moccagatta barbaresco

Moccagatta Barbaresco Bric Balin 2015 

97 pontos (11° colocado)

Barbaresco de estilo mais moderno. O vinhedo Bric Balin tem vinhas desde 1957 até 1985 com 3,4 hectares. O vinho passa cerca de 18 meses em barricas francesas. Sempre muito bem pontuado, tem corpo e ótimo poder de fruta. Importadora Vinci.

wine spectator huet le mont demi sec

Domaine Huet Vouvray Demi-Sec Le Mont 2018

95 pontos (15° colocado)

Huet é referência absoluta na apelação Vouvray com a uva Chenin Blanc no Loire. O vinhedo Le Mont parte de um terroir pedregoso (sílex) em meio a argila. O vinho tem 17 g/l de açúcar residual em perfeita harmonia. Excelente para pratos delicados e agridoces. É a versão alemã dos brancos franceses. Importadora Premium.

wine spectator castellare chianti classico

Castellare di Castellina Chianti Classico 2017

94 pontos (17° colocado)

Belo produtor de Castellina in Chianti, região clássica desta denominação. O vinho é baseado em Sangiovese com uma pitada de Canaiolo. Seu amadurecimento dá-se em tonéis de madeira francesa por sete meses. Sempre muito consistente e de muita tipicidade. Importadora Vinci. 

wine spectator guigal blonde e brune

Guigal Côte-Rôtie Brune et Blonde 2015

96 pontos (21° colocado)

Talvez o maior especialista na apelação Côte-Rôtie, Guigal elabora este vinho baseados nos vinhedos Côte Blonde (solo xistoso rico em sílica e calcário) e Côte Brune (solo rico em óxido de ferro). Os rendimentos são baixos e o blend é calcado na uva tinto Syrah com uma pitada da branca Viognier. Passa 36 meses em toneis de madeira, sendo 50% novos. Excelente pedida por preços honestos. Quem tem acesso à famosa trilogia (La Turque, La Mouline, e La Landonne) está no céu. Importadora Interfood.

wine spectator marques de murrieta reserva

Marques de Murrieta Rioja Finca Ygay Reserva 2015

92 pontos  (40° colocado)

Um clássico da Rioja com vinhos sempre consistentes. Nesta safra temos 80% Tempranillo, 12% Graciano, 6% Mazuelo, 2% Garnacha. Passa 18 meses em barricas de carvalho americano. Um vinho sedutor e marcante. Dignifica o estilo clássico dos grandes Riojas. Importadora World Wine.

wine spectator noval vintage 2017

Quinta do Noval Vintage Port 2017

98 pontos (53° colocado)

Uma das cinco melhores Casas do Porto, os Vintages da Noval são complexos e longevos. Nesta estupenda safra 2017 temos um Porto para esquecer na adega. Muito concentrado e estruturado para longo envelhecimento. Para quem não tem paciência, decanta-lo por ao menos quatro horas. Importadora Adega Alentejana.

wine spectator poliziano vino nobile

Poliziano Vino Nobile di Montepulciano 2016

92 pontos (54° colocado)

Poliziano é a grande referência quando se fala na denominação Vino Nobile di Montepulciano, a sul do Chianti Classico. Elaborado com 85% Prugnolo Gentile (Sangiovese) e 15% das uvas Canaiolo, Merlot, e Colorino. Passa entre 14 e 16 meses em madeira inerte de várias dimensões. Um toscano clássico. Importadora Mistral.

wine spectator maquis d´angerville

Marquis d´Angerville Volnay Champans 2016

95 pontos (67° colocado)

D´Angerville é juntamente com Domaine Lafarge as maiores referências na apelação Volnay. No caso de D´Angerville temos um lado mais viril de Volnay com vinhos aptos a longo envelhecimento. Geralmente passam de 15 a 18 meses em barricas francesas, sendo no máximo 20% novas. Champans trata-se de um de seus Premier Cru. Importadora Premium.

wine spectator pichon lalande

Chateau Pichon Lalande Pauillac 2016

97 pontos (97° colocado)

Um clássico de Pauillac, sempre pregando surpresas às cegas para os Premiers desta comuna. Um tinto muito sedutor, taninos sempre bem moldados, e embora possa ser acessível em tenra idade, envelhece com muita nobreza. Mais um dos grandes Bordeaux da ótima safra 2016. Várias importadoras podem tê-lo. 

wine spectator dominique piron morgon

Dominique Piron Morgon Côte du Py 2017

92 pontos (99° colocado)

Morgon é um dos Crus de Beaujolais do ótimo produtor Dominique Piron. Côte du Py é uma colina de solo granítico dentro da apelação Morgon com vinhas acima de 50 anos. Amadurecimento parcial em madeiras inertes de várias dimensões. Um Beaujolais diferenciado e muito gastronômico. Importadora Decanter.

Enfim, uma lista europeia, sem a presença dos americanos, pois estes últimos são inacessíveis em nosso mercado. Todos os vinhos listados tem importação no Brasil, embora não da safra específica mencionada. Como consequência, fica como sugestão para os vinhos deste final de ano.

De um modo geral, os Top 100 deste ano deram ênfase para os Cabernets e Pinot Noir americanos, os tintos da Toscana, especialmente Chianti Classico, e os Bordeaux da safra 2016.

Gaja e os Cabernets

6 de Julho de 2019

Em uma de suas explanações, Angelo Gaja faz uma analogia interessante entre as uvas Nebbiolo e Cabernet Sauvignon com os atores John Wayne e Marcello Mastroianni. Diz ele: se John Wayne (Cabernet Sauvignon) entrasse numa sala, ele ocuparia o centro da mesma em uma posição de destaque, sendo o centro das atenções numa figura muito carismática. Já Marcello Mastroianni (Nebbiolo), ficaria no canto da sala, meio introspectivo, sem se promover muito. De fato, apesar de grande ator, Marcello tinha o mérito de realçar as mulheres com quem trabalhava, deixando elas brilharem, enriquecendo as cenas. Assim é a Nebbiolo, uma uva que faz pensar, meio misteriosa, mas de grande brilho na enogastronomia, enaltecendo os pratos que a acompanha.

Foi exatamente este cenário que se apresentou num belo almoço com alguns Cabernets famosos do mundo e uma das joias de Gaja, seu vinhedo Sori San Lorenzo da ótima safra 97. Todo mundo só falou dos Cabernets que de fato eram maravilhosos sem darem muito bola para o estupendo Gaja. Comentaremos os vinhos oportunamente.

A propósito, Gaja faz um ótimo Cabernet no Piemonte chamado Darmagi. Um vinhedo escondido do seu pai durante certo tempo que quando descoberto, o velho Giovanni exclamou: Darmagi, em dialeto piemontês, que pena!

ótimo prato de inverno

Como sempre, aqueles branquinhos para aquecer os motores. Dois belos exemplares da Borgonha tanto em produtores, como em vinhedos e safras. Roulot é um monstro em Meursault. Seus vinhos estão cada vez mais valorizados e com toda a justiça. Esse exemplar do vinhedo Perrières 2009 tem 96 pontos mais do que justos. Um Premier Cru com caráter de Grand Cru. Uma elegância, uma sofisticação, e personalidade, marcantes. O vinho tem uma tensão e mineralidade incríveis sem perder aquela textura amanteigada dos Meursaults. Já o Chevalier de Niellon, excelente produtor, estava um pouco prejudicado, um pouco cansado. Vinho de grande elegância e presença, num equilíbrio perfeito com aquela textura mais delgada dos Pulignys. Talvez seja um problema de garrafa, mas seus aromas estavam evoluídos demais pelo tempo de safra. Essa polentinha com frutos do mar (foto acima) caiu muito bem para acompanhar a dupla de brancos.

img_6288um Cabernet de respeito!

Esse foi o vinho mais comentado do almoço, lembram, John Wayne, pois é. Pouca gente sabe que esta linha Estiba Reservada não tem nada de Malbec. É um corte de 85% Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc com 18 meses em carvalho francês novo. Um vinho servido às cegas que lembrou alguns franceses, americanos, australianos, chilenos, e tantos outros palpites. O fato é que Catena nesta alta gama de vinhos colocou a Argentina no pódio dos grandes tintos do mundo. Um vinho elegante, de grande personalidade, taninos finos, numa safra histórica na Argentina. Este vinhedo Agrelo faz parte de Lujan de Cuyo, zona alta do rio Mendoza, uma das mais prestigiadas e tradicionais do terroir mendocino. Solo pedregoso e aluvial tão propício ao cultivo dos Cabernets.

outro Cabernet de respeito

Saindo de Mendoza, vamos para Bolgheri, litoral toscano onde o marquês Mario Incisa dela Rocchetta realizou seu sonho de fazer um Bordeaux na Toscana com mudas de Cabernet Sauvignon trazidas do Chateau Lafite. Em 1968, sua primeira safra, Sassicaia mostrou ao mundo um vinho toscano de grande refinamento sem uma classificação oficial. Nascia assim o termo “super tuscan” ou  “supertoscano”. 

Nos exemplares acima, o 2008 com 97 pontos é um dos melhores Sassicaias já elaborados com muita maciez e taninos ultrafinos. Bom corpo, belo equilíbrio e um final persistente. No caso de 2005, a comparação chega a ser cruel. Não que 2005 não seja bom, mas perde para seu concorrente em refinamento. Seu taninos são mais duros e sua persistência é menor. Deve evoluir bem por mais alguns anos, tornando-se mais macio. De toda forma, Sassicaia segue sendo um dos grandes Cabernets do mundo.

belos pratos para tintos

O almoço no restaurante Gero seguiu na sequência de belos pratos para acompanhar os tintos como este Paccheri, espécie de rigatoni gigante, com um molho reduzido de carne com muito umami, saborosíssimo. O risoto de parmesão com pato desfiado também estava muito bem executado. Sempre contando com a gentileza e fidalguia do maître Ismael. 

Chateau Palmer em Magnum

Safra muito prazerosa e precoce, Palmer 98 esbanja elegância. Elaborado com 52% Merlot, 43% Cabernet Sauvginon, e 5% Petit Verdot, o vinho é macio em boca, taninos bem trabalhados, e um final bastante harmônico. Talvez sua nota não seja tão alta devido à persistência aromática não muito longa. Bom momento para bebe-lo, sobretudo acompanhando um lombo de cordeiro no próprio molho e purê de mandioquinha. Mais um belo prato do almoço. 

uma das joias de Gaja

Finalmente, chegamos ao esquecido Nebbiolo, lembra do começo, Marcello Mastroianni. Pois é, poucos comentaram deste belo tinto com 98 pontos e uma elegância impar. O melhor da década de 90. Sorì San Lorenzo faz parte da trilogia de vinhedos de Angelo Gaja em Barbaresco (Sori Tildin e Costa Russi são os outros dois). Notem que no rótulo a partir de 96, a denominação Barbaresco muda para Langhe, pois Gaja introduziu uma pitada de Barbera no blend de seu Nebbiolo. Para que isso fosse permitido, precisou mudar a denominação para Langhe, uma legislação mais moderna e mais branda para eventuais mudanças. De fato, o nome Gaja fala mais alto do que a pomposa denominação Barbaresco. 

Neste exemplar, um aroma refinado lembrando alcaçuz, notas tostadas, defumadas, e um toque terroso. Em boca é muito equilibrado com uma acidez refrescante. O vinho está vivo, sem sinais de decadência e taninos finíssimos. Acompanhou muito bem o cotechino com lentilhas, um embutido italiano dos mais refinados. Um tinto muito distinto lembrando vinhos franceses, especialmente os Côte-Rôtie do norte do Rhône, talvez com uma carga de taninos maior. Seguramente, um dos cinco melhores vinhos italianos. Gaja não brinca em serviço!

creme de mascarpone e chocolate para encerrar

Na foto acima, temos um Passito do mestre Quintarelli, talvez a maior referência na zona de Valpolicella. A partir de um blend de uvas Garganega, Sauvignon Blanc, Trebbiano di Soave, colhidas tardiamente e postas para secar (appassimento), o mosto fermenta lentamente, deixando um importante teor de açúcar residual. O vinho passa entre cinco e seis anos em pequenas barricas francesas. Um vinho já evoluído, inclusive na cor, com notas de frutas secas, mel e toques tostados. Pronto para ser tomado. Já seu oponente, o todo poderoso Yquem 89, esbanja frescor, exuberância, sem nenhum sinal de decadência. Vinho untuoso, muito equilibrado, e final extremamente longo. Belo fecho de refeição!

Só me resta agradecer aos confrades pela excelente companhia, boa conversa, e imensa generosidade. Com dois dos confrades de notável carinho pela Itália, o painel não poderia ser melhor. Que Bacco sempre nos guie nesta longa jornada de prazeres!