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Chateau Pavie em pedacinhos

10 de Março de 2018

Já comentamos neste blog a filosofia de terroir no pensamento bordalês em elaborar vinhos. Como é de praxe, cada chateau tem uma intrincada divisão parcelar baseada em variedades de uvas e tipos de solo, ou seja, há várias parcelas de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, e Merlot, de um modo geral. Essas parcelas são vinificadas separadamente e em seguida, é formatado o blend do chamado Grand Vin e de seu respectivo segundo vinho, vide artigo Bordeaux em Segundos.

Num agradável almoço no restaurante Nino Cucina, tivemos a rara oportunidade de avaliar com precisão a força dessas parcelas na composição de um grande Chateau, no caso Chateau Pavie, um Premier Grand Cru Classe de Saint-Emilion, entre os quatro melhores na categoria A. Os outros são Cheval Blanc, Ausone, e Angelus.

A família Perse é proprietária além do Chateau Pavie, do Chateau Pavie-Decesse e do Chateau Bellevie-Mondotte, todos em Saint-Emilon. O mapa abaixo, mostra a divisão parcelar destes chateaux com atenção especial às parcelas mencionadas Clusière. Clique no link abaixo da imagem para uma visão mais detalhada.

chateau pavie vignoblehttp://www.vignoblesperse.com/fr/chateau-pavie/carte

Voltando à história do Chateau, a família Perse comprou o Chateau La Clusière em 1997, propriedade esta encravada entre os chateaux Pavie e Pavie-Decesse. Entre 1998 e 2001, portanto quatro safras, Chateau La Clusière foi engarrafado sob a supervisão da família Perse, sendo a safra 2000, lendária com 100 pontos. A partir de 2002, os 2,5 hectares de vinhas 100% Merlot com média de idade de 55 anos de La Clusière foram incorporadas na elaboração exclusivamente do Chateau Pavie.

A grande brincadeira do almoço e por sinal, extremamente didática, foi comparar lado a lado, Chateau La Clusière e Chateau Pavie, ambos da safra 2000, e ambos com 100 pontos.

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200 pontos em jogo

Nesta safra mítica de 2000, La Clusière foi elaborado em quantidades mínimas, apenas 10 barricas, totalizando 3000 garrafas. O rendimento de 12 hectolitros por hectare é algo absurdo somente comparável ao Chateau d´Yquem, um vinho que por suas características, enquadra-se neste tipo de rendimento. Além disso, este tinto foi fermentado em barricas novas e amadurecidos nas mesmas por 22 meses.

Para o Chateau Pavie, estamos falando em 37 hectares de vinhas sendo 65% Merlot, 25% Cabernet Franc, e 10% Cabernet Sauvignon. A idade média das vinhas é de 43 anos e a produção média por safra de 70 mil garrafas. O vinho passa entre 18 e 32 meses em barricas, sendo de 70 a 100% novas.

Devidamente apresentados, vamos à luta!. Nocaute já no primeiro round. La Clusière 2000 mostrou de cara uma concentração de sabores incrivelmente persistentes. Taninos de rara textura, deslizando como rolimãs na boca. Evidentemente, está longe de seu auge, ainda por apresentar aromas terciários fantásticos, mas já mostra a que veio. Do outro lado, Chateau Pavie 2000 bem mais pronto, e até mais prazeroso de ser tomado no momento. Pode certamente evoluir em adega, mas não tem a concentração de seu oponente. Isoladamente e sem comparações, um vinho delicioso e encantador.

Conclusão, um borgonhês classificaria La Clusière como Grand Cru e Chateau Pavie como Premier Cru, vinificados é claro, separadamente. Voltando à realidade bordalesa, a incorporação de La Clusière ao Chateau Pavie só enriqueceu o blend ou assemblage, como dizem os franceses. Não foi só o incremento de La Clusière ao Pavie. Seis hectares do Pavie-Decesse foram incorporados ao Grand Vin Pavie, todos vinhedos da família Perse. Embora a junção de parcelas na elaboração dos grandes chateaux extingam preciosidades como La Clusière, por outro lado, reforçam a consistência e regularidade safra após safra do chamado Grand Vin. Questão de ponto vista e filosofia.

IMG_4383.jpgjuventude e plenitude lado a lado

Mas nem só de Pavie vive o homem. Outros mimos estiveram presentes no almoço. A começar por dois borgonhas brancos divinos, cada qual na sua idade, no seu terroir, e na genialidade de seus produtores. Primeiramente, Meursault Charmes Premier Cru 2015 de Domaine Roulot. Um Meursault com a impressão digital deste grande produtor que pode até não ser o melhor na apelação, mas certamente esbanja elegância e personalidade em seus vinhos. Um Meursault que equilibra divinamente tensão, acidez, e nervo, com textura, refinamento e equilíbrio fantásticos. Uma de suas marcas registradas, um toque cítrico meio alimonado, combinou perfeitamente com a massa abaixo, envolvendo lagosta e molho de limão.

IMG_4385.jpgNino Cucina: limão, manjericão e lagosta

O segundo branco, Domaine Leflaive Chevalier-Montrachet Grand Cru 1995. Um monumento à Borgonha, o melhor Chevalier indiscutivelmente, sobretudo nesta linda safra de 1995. Envolve toda a complexidade do Montrachet,  mas sempre com uma leveza elegante, nunca pesado, textura na medida certa, e que aromas!. Um festival de tostados, frutas secas, mel, e outras notas indescritíveis. Tomar um branco da Madame é sempre um momento de contemplação.

IMG_4386.jpgA sublimação da denominação Toro

Para continuar o almoço, só mesmo um Toro como da foto acima para manter o nível. Este da safra 2004 é a expressão máxima da pouco conhecida apelação Toro, próxima a Ribera del Duero. A bodega Numanthia proprietária deste vinho, é uma referência da região e um dos maiores mitos de toda a Espanha. Este exemplar trabalha com vinhas pré-filoxera com mais de 120 anos. Aqui nessas paragens, a Tempranillo assume o nome de “Tinta de Toro”. A concentração deste vinho devido a baixíssimos rendimentos é tal, que é preciso utilizar 200% de carvalho novo francês para domar esta fera, ou seja, nos 20 meses passados em barricas novas, no meio do caminho o vinho é trasfegados para novas barricas novas. O resultado com seus já 14 anos é de um vinho jovem, sem nenhum traço de evolução na cor. Apesar de seus 14,5° graus de álcool e toda essa montanha de madeira, o que ser percebe é uma riqueza de fruta imensa num equilíbrio fantástico. Foram elaboradas 4350 garrafas nesta safra com rendimentos de 1200 quilos por hectare, menos de um quilo por parreira. Um vinho delicioso, ainda com bons anos em adega.

IMG_4387.jpgPaleta cozida à baixa temperatura

O prato acima, de uma rusticidade elegante, caiu muito bem com este tinto espanhol cheio de alma. Paleta cozida à baixa temperatura com molho do assado e feijões brancos.

uma combinação dolce

Encerrando os trabalhos, talvez o melhor Tokaji 4 Puttonyos que provei. O número de Puttonyos tem a ver com o grau de botrytisação do vinho (25 quilos de uvas botrytisadas para cada 136 litros de vinho). A doçura deste vinho fica entre 60 e 90 gramas de açúcar residual por litro. Disznókó é um dos melhores produtores e a safra 1993 tem grande destaque. Com seus mais de 20 anos, o vinho está inteiro, sublime, com seus toques de mel, damascos, curry, e notas de esmalte. Combinou divinamento com o gorgonzola dolce da foto, num contraponto entre açúcar e sal, doce e salgado, além das texturas cremosas se entrelaçarem.

Agradecimentos ao amigos presentes, em especial ao nosso Maestro, por garimpar estas preciosidades bordalesas. O Termanthia e o Tokaji complementaram a festa, fruto da generosidade de um querido confrade vindo especialmente de Nova Iorque. Saúde e brindes a todos!

Bordeaux em Segundos

25 de Fevereiro de 2018

Os Chateaux bordaleses na chamada margem esquerda além de aristocráticos, são de dimensões muito maiores que as propriedades de margem direita, notamente Pomerol e Saint-Emilion. Estamos falando de uma relação de um para dez em termos de áreas, onde a noção de micro parcelas fica pulverizada. É neste contexto, que surge a ideia do chamado segundo vinho do Chateau, e em alguns casos, até o terceiro.

Recordando o processo, no Chateau Margaux por exemplo, temos quase 100 hectares de vinhas plantadas com Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot. Para cada um destes varietais, temos várias micro parcelas espalhadas na propriedade. Esses parcelas são colhidas e vinificadas separadamente. Em seguida vem o estágio crucial para a montagem do Grand Vin. A equipe enológica do Chateau se reúne exaustivamente compondo o blend das várias parcelas de cada um dos varietais. Isso era comandado com maestria até  pouco tempo atrás pelo saudoso Paul Pontallier, que nos deixou recentemente. Desta seleção rigorosa, nasce o Grand Vin. As amostras que foram rejeitadas para este fim, comporá o chamado segundo vinho. No caso de Margaux, existe agora um terceiro vinho.

Este foi exatamente o propósito da degustação que será descrita abaixo, num agradável almoço no restaurante Gero. Já de pronto, devo dizer que as conclusões tiradas neste evento não devem ser generalizadas para todos os Chateaux bordaleses, pois os quatro vinhos provados nesta ocasião eram de grandes safras e de Chateaux excepcionais. Afinal, quase 400 pontos estavam na mesa!

6eba4821-dd75-427c-bced-711188e508da.jpgtexturas compatíveis

Antes porém, uma pausa para abertura dos trabalhos. Talvez o branco mais austero de toda a Alsácia, Clos Sainte-Hune da Maison Trimbach, um Riesling seco de extrema mineralidade. Este provado da safra 2004, estava surpreendentemente pronto, já que trata-se de um branco de grande guarda. Seus aromas cítricos e destacadamente defumados foram muito bem com um atum marinado. As texturas de ambos (prato e vinho) casaram-se perfeitamente. O vinho apresentou ótimo equilíbrio e um final de boca extremamente persistente.

b4597437-e2c9-46ab-b950-588b4e4ea5ff.jpgdistância considerável neste embate

Único embate de margem direita, Cheval Blanc tem uma propriedade considerável em termos de área, 41 hectares, para padrões em Saint-Emilion. Nesta safra, apenas 55% do vinho elaborado passou pelo crivo de Grand Vin. O rigor deste julgamento se traduz na taça com ampla superioridade deste Cheval com 99 pontos. Gostaria de uma explicação de Mr. Parker pela não perfeição do vinho. Embora com décadas pela frente, este Cheval mostra uma elegância impar, própria dos grandes vinhos. Seus taninos, seu equilíbrio, e sua expansiva persistência, faz dele um dos grandes Chevais da história. Já o Petit Cheval, mostrou-se muito prazeroso para o momento, uma das vantagens dos chamados segundos vinhos. Nota-se sutis aromas de pirazinas (pimentão), advindo sobretudo dos Cabernets, fruto de uma maturação imperfeita de alguns setores das vinhas. Isso claro, numa sintonia fina, comparado a seu astro maior. De todo modo, um belo vinho para ser apreciado sem comparações. Nota 87 de Parker, um pouco rigorosa.

gero latour 2000

Latour: vinhos consistentes

Aqui uma disputa acirrada, pois Les Forts de Latour é o melhor segundo vinho de todo o Médoc, opinião quase unânime da crítica. De fato, é uma maravilha. Bem mais acessível que o todo poderoso Latour, seus aromas de cassis, couro e notas minerais permeiam a taça. Pode ainda evoluir por bons anos em adega. Voltando à maxima onde a comparação é cruel, o Latour 2000 é uma muralha de taninos em multicamadas de extrema finesse. Seus aromas de pelica, frutas escuras, e grafite, são marcas registradas do senhor do Médoc. Seu platô de evolução está estimado para 2060. Um monumento!

risoto e cordeiro para os Bordeaux

Acima, alguns dos pratos que valorizaram o desfile de belos Bordeaux. O risoto de funghi porcini casou muito bem com a textura delicada e os aromas terciários do Margaux 90, por exemplo. Já o carré de cordeiro tinha a fibrosidade e suculência exatas para um La Mission 2000 ou o Latour de mesmo ano com seus taninos presentes.

gero margaux e pavillon 90

padrão elevado de segundo vinho

Neste embate, mais um vinho perfeito, Margaux 1990 com 100 pontos consistentes. Aí é difícil peitar. Mesmo para este Pavillon Rouge 90, vindo diretamente do Chateau de uma coleção privada, faltou fôlego para chegar ao Grand Vin. O Margaux 90 é deslumbrante com seus aromas de couro e sous-bois, fruta delicada, e rico em toques balsâmicos. Em elegância se equipara ao Cheval Blanc 2000 acima descrito. O Pavillon Rouge até que tentou, mas se deparou com um dos grandes Margaux da história. Novamente, tomado sozinho, sem comparações, é um belíssimo vinho cheio de elegância e muito prazeroso aromaticamente.

gero la mission 2000

disputa muito acirrada

Neste último flight, mais um vinho de 100 pontos, o fabuloso La Mission Haut-Brion 2000. Em termos de estilo, potência, bem semelhante ao Latour 2000, mostrando toda a sua força. Um verdadeiro infanticídio, já que seu platô está estimado para 2050. Um vinho musculoso, cheio de frutas negras, toques minerais terrosos e defumados. Uma montanha de taninos a ser domada pelo tempo. Amplo em boca com um equilíbrio notável. Seu par La Chapelle 2000, segue o mesmo estilo, um pouco menos imponente. Foi a disputa mais acirrada entre as duplas, na distância entre o Grand Vin e seu respectivo segundo vinho.

Enfim, belos vinhos de grandes safras e de Chateaux irrepreensíveis. Fica a lição que os chamados Grand Vin são realmente espetaculares, mas que tem no preço e na paciência em espera-los na adega, seus maiores empecilhos. Por outro lado, os segundos vinhos são bem prazerosos para abate-los mais jovens, apesar de seu bom potencial de guarda.

96 pontos com louvor!

Passando a régua, um Chateau d´Yquem 1976, uma das grandes safras desta maravilha. Com seus 42 anos de idade, entra numa fase de bouquet sublime com notas de café, marron-glacê, e toques de cítricos confitados. Um equilíbrio e uma expansão notáveis, acompanhando de forma impecável um creme de mascarpone e chocolate. Lembrando que 1976 é grande ano na Alemanha para vinhos botrytisados.

gero tokaji szamorodni

estilo meio seco

O vinho acima vale a pena um comentário. Trata-se de um Tokaji Szamorodni que não faz parte da família Aszú, onde o índice de uvas botrytisadas é relativamente alta em vários níveis (3, 4, 5, 6 Puttonyos). Neste caso, Szamorodni significa uvas colhidas naturalmente com algum índice de botrytisação, ou seja, menor porcentagem de uvas botrytisadas vai para um estilo mais seco, dry, ou Száraz em húngaro. Portanto, tem um sabor meio seco semelhante a um Jerez Amontillado. Muito bom para patês de caça, aperitivos e queijos de personalidade. Um vinho que apesar da idade, mais de 20 anos, tem estrutura e vigor para bons anos em adega.

gero behike 52

 o melhor Robusto da atualidade

Finalizando a tarde, alguns Behike 52 para esfumaçar as conversas em meio a Cognacs e Grappas. Behike é a linha super luxo da Cohiba elaborada em três bitolas. Esse 52, ring do charuto, é considerado o melhor Robusto atualmente, já tendo ganhado como melhor Puro do ano em 2010 pela Cigar Aficionado.

Agradecimentos aos amigos e confrades em mais uma experiência fantástica com caldos bordaleses. Vida longa aos companheiros de copo e mesa num ano que promete fortes emoções. Aos ausentes o alerta, o campeonato é de pontos corridos. No final do ano vai fazer falta. Abraço a todos!

Entre Brancos e Tintos

15 de Fevereiro de 2018

As tonalidades de cores onde se define um vinho rosé são inúmeras. Desde um vin gris quase branco, até um clairet, vinho bordalês da Idade Média quase tinto, os rosés têm cores das mais surpreendentes.

roses cores

nuances variadas

Provavelmente, os primeiros vinhos do mundo eram rosés por uma questão de lógica. As uvas brancas e tintas podiam ser misturadas na fermentação, e não havia um controle preciso da maceração das cascas. Portanto, não havia o vinho branco como conhecemos, calcado em extrema tecnologia, e nem o vinho tinto de cores acentuadas, fruto de uma extração e macerações prolongadas. O esquema abaixo mostra a lenta e progressiva evolução do vinho.

origem do vinho

evolução do vinho

Vin Gris

Trata-se de um rosé bem pálido, fruto de uma maceração bem curta, geralmente com as uvas Pinot Noir e/ou Gamay como no Gris-de-Toul, apelação francesa de Lorraine, ao lado da Alsácia.

No sul da França há também o Gris de gris, elaborado com as uvas Grenache Gris ou Pinot Gris. Vinhos delicados, de cores pálidas.

vin gris

Vin Gris: cores pálidas

Oeil-de-Perdrix

Especialidade suíça da região de Neuchâtel elaborada com Pinot Noir por pressurage direct, extração bem delicada. Este estilo se difundiu na Alemanha e também na Bourgogne. Lembro-me muito bem de um Oeil-de Perdrix do Domaine Dujac, inesquecível.

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rosé delicado

O estilo White Zinfandel é a versão americana para este tipo de rosé. Na sua maioria, medíocre.

Tavel

Produto de longa maceração a frio entre 6 e 48 horas. Desta maceração em tanques, resulta o chamado jus de saignée ou jus de goutte que é drenado no processo. Em seguida, as uvas são prensadas dando origem ao jus de presse. A junção deste dois caldos (jus) é que dá origem ao Tavel que em seguida vai ser fermentado. O resultado é um rosé notadamente vivo e colorido. Rosé de corpo e muito gastronômico.

rose tavel

cores mais acentuadas que um Tavel

Clairet

Uma especialidade bordalesa que fica no limite entre um rosé  e tinto pálido. Era o Bordeaux da Idade Média apreciado pelos ingleses, já que na época os tintos finos tinham uma cor mais atenuada, semelhante aos melhores Bourgognes. O termo inglês se diz Claret. A diferença técnica é o tempo de maceração. Duas a três horas para um Rosé, e três a quatro dias para um Clairet pelo método saignée. 

bordeau clairet

quase um tinto leve

São pouco mais de 500 hectares da apelação Bordeaux-Clairet cultivados com as tradicionais cepas bordalesas. Vale pelo menos como curiosidade para sentir o gosto de outros tempos dentro de uma tecnologia moderna.

Tibouren

rose Tibouren

Cepa característica da Provença trazida pelos Romanos. Adaptou-se muito bem a vinhos rosés, fornecendo pouca cor, aromas interessantes para este tipo de vinho, e bom potencial de álcool. Geralmente é mesclado no corte provençal com outra uvas como Grenache, Cinsault, Syrah, entre outras. Destaque para o Clos Cibonne, vinícola provençal que tem na Tibouren, sua uva principal no corte.

vin rosé produção mundial 2015

cerca de 10% dos vinhos tranquilos são rosés

Em uma mesa eclética com várias opções de pratos, o rosé mostra-se muito versátil e gastronômico, adaptando-se a múltiplos sabores.

O vinho é fascinante entre outras coisas por isso. Apenas na tonalidade de cores, fruto de extração mais ou menos extensiva, proporciona estilos sutis e altamente gastronômicos, calcados na história e desenvolvimentos de regiões específicas.

Portanto, antes de julgar a cor de um rosé, atente para sua origem. Um pré-julgamento pode resultar em conclusões equivocadas. Na taça, está sempre a resposta. In vino Veritas!

Liger-Belair e sua nobre vizinhança

7 de Fevereiro de 2018

Dando prosseguimento ao artigo anterior na Maison Laurent (Uma noite com Paul Laurent), chegou a hora dos tintos, e que tintos!

ee58d5a7-dfaf-4e26-a9fb-3f7d22404360.jpgprova do crime

Domaines legendários desfilaram em vários flights em safras memoráveis. Com a orientação do Comte Louis-Michel Liger-Belair, presente no evento, a sequência de legendas será descrita abaixo, começando com duas safras de seu grande ícone, La Romanée Grand Cru com área pouco maior que 0,8 hectare. Ratificando novamente, a reportagem completa sobre o renascimento do Domaine Liger-Belair a partir do novo milênio, segue no link Domaine Liger-Belair: O novo milênio

IMG_4240.jpgsafras bem pontuadas, mas de estilos diferentes

O estilo Liger-Belair segue claramente o caminho da delicadeza, lembrando um Chambolle-Musigny. As duas safras degustadas, ainda muito novas, mostra vinhos bem focados na fruta, nos traços florais e de especiarias. O 2006 é um vinho mais agudo, mais vibrante em acidez, e é essa acidez que permitirá um longo envelhecimento. Toda a finesse de Vosne-Romanée. Já o 2007, é um vinho mais direto, mais aberto em aromas, e mais macio. Tem uma riqueza tânica importante, mas de ótima textura. É sem dúvida, o mais prazeroso para ser tomado no momento.

IMG_4248.jpga essência de um bourgogne envelhecido

Safras antigas sempre serão polêmicas e jamais conclusivas, pois cada garrafa é uma história. A safra 1961 foi de baixos rendimentos e grande concentração, sobretudo para o astro maior, Romanée-Conti. Este exemplar é no mínimo hedonístico no sentido de apreciarmos todos os aromas terciários de um La Tâche envelhecido. As notas de cogumelos, adega úmida, sous-bois, estão todas presentes. Em boca, o ponto alto é o equilíbrio com todos os componentes em harmonia. Falta-lhe aquela expansão dos La Tache memoráveis, mas seu final de boca faz lembrar que em Vosne não existem vinhos comuns.

IMG_4245.jpga elegância em plena maturidade

A vantagem de provar este vinho é perceber sua plena maturidade numa safra sem grandes destaques. Clos de Bèze é o lado mais feminino de seu grande rival Le Chambertin. Nas mãos de Rousseau é que percebemos a importância do produtor nas safras menos badaladas. Aromas elegantes, taninos justamente extraídos, valorizando a delicadeza da fruta. Não é muito longo, mas seu equilíbrio é notável. Ótimo momento para ser abatido, já atingindo a maioridade. 

IMG_4259.jpgum pódio de campeões

A safra 1991 é sempre subestimada quando comparamos com 1990. Entretanto, há muitos exemplos de grandes surpresas, inclusive no La Tache 1991. Este exemplar especificamente, não se tratava das melhores garrafas. Entretanto, dava para perceber todo seu extrato e potencial, embora um pouco cansado. As melhores garrafas atingem 97 pontos, superando o próprio La Tache 1990. Mesmo assim, a força deste La Tache é impressionante com uma bela estrutura tânica. Seus aromas terciários já se impondo sobre a fruta, revela um final harmonioso, embora sem grande expansão.

Quanto aos dois Chambertins, temos uma diferença de quase uma década. Mais uma vez, 1990 não é aquele paraíso que imaginamos. Um vinho muito bem equilibrado, distinto, já com boa evolução em garrafa, mas falta-lhe algo para ser um dos grandes. Tanto é verdade, que outros Grands Crus do próprio Rousseau nesta safra, tiveram desempenho melhor. Não chegará perto do estupendo 1985, mas tirando as comparações, um Chambertin de livro.

Quanto ao 1999, este sim, tem punch e vigor para romper décadas. Um poder de fruta incrível, tenso em boca, e um extrato fabuloso. É preciso decanta-lo por pelo menos duas horas. Seus taninos ainda potentes, mas de extrema qualidade, pede carnes  consistentes como pato, por exemplo. Daqueles que provamos do Rousseau, é o que tem maior potencial de guarda.

3ba6cc11-f457-49fc-9df1-b97ac69ff267.jpgpoulet de bresse diretamente da França

Os tintos mais evoluídos da noite com aromas terciários notáveis, escoltaram muito bem um dos belos pratos do jantar, Poulet de Bresse aux Morilles. A ave com as perninhas escuras veio diretamente da França preparada nesta receita clássica, envolvendo creme de leite e os delicados cogumelos Morilles.

IMG_4251.jpglendas da Borgonha

Aqui entramos no ápice do jantar com quatro vinhos da safra 1985 de arrasar quarteirões. A maioria dos Echezeaux a princípio, não seria páreo para um Chambertin de Rousseau. Contudo, estamos falando de Henri Jayer, uma lenda da Borgonha. Este bruxo onde põe a mão vira ouro. Um vinho extremamente elegante, raçudo, que tem profundidade. Está delicioso para ser bebido no momento, mas sem nenhum sinal de cansaço.  

Agora, para tudo, tirem as crianças da sala. Estamos diante do maior Chambertin da história, este magnifico 1985 de Armand Rousseau, talvez só superado pelo mítico 1972. Um show de aromas, equilíbrio, texturas. Seus aromas terciários de caça se fundem magnificamente a frutas como cerejas escuras imersos em uma cadeia longa de taninos que parecem rolimãs. Suntuoso e inesquecível.

Clos de La Roche Históricos!

Novamente, a apoteose. Dois dos maiores Clos de La Roche da história de seus respectivos produtores, Dujac e Ponsot. Daria tudo para prova-los separadamente, pois a comparação é sempre cruel. Dujac, numa apresentação de gala com todos os adereços a que tem direito. Seus aromas de couro, notas empireumáticas, sous-bois, e uma boca aliando com perfeição a força desta apelação numa textura extremamente sedosa.

E finalmente, chega o grande vinho da noite, pelo menos pessoalmente. Um monstro chamado Ponsot. A força deste vinho, sua cor inacreditavelmente jovem, a vivacidade de suas frutas escuras, uma avalanche de taninos absurdamente polidos, e a mais pura sensação de alcaçuz emoldurando o conjunto. Dizem que  a safra 1971 é lendária, mas superar este exemplar é quase surreal. Apesar de extremamente prazeroso, ainda pode evoluir por pelo menos 15 anos, revelando quem sabe, seus mais profundos segredos. Enfim, uma aula de Clos de La Roche.

IMG_4261.jpguma década de evolução

Seguindo em frente, dois Chambertins classicamente duros, característica das safras 1988 e 1998. Na mais antiga, de 1988, os anos lhe fizeram bem. Taninos mais polimerizados, aromas mais desenvolvidos, mas um vinho de muita força. Vinho que pode ser guardado ainda, além de ser muito gastronômico. Harmonizou muito bem com o pato servido no jantar por sua estrutura rica. O de safra 1998 segue a mesma linha. Embora dez anos mais jovem, proporcionalmente é bem acessível, visto que apresenta uma estrutura menos portentosa que seu par. Certamente, terá uma trajetória mais curta quanto ao envelhecimento.

IMG_4260.jpga hierarquia prevalece

Aqui, um flight desigual, tanto na questão hierárquica, como na relevância das safras. A safra 1989 para o DRC Richebourg não teve o mesmo esplendor de 1988. Mostra-se um vinho amável, acessível, mas com uma estrutura um tanto frágil. Contudo, a prontidão e desenvolvimento de seus aromas e sabores o tornam muito prazeroso. Os toques terrosos e de cogumelos ficaram muito bem o Poulet de Bresse aux Morilles do jantar.

Por fim, sua majestade Romanée-Conti 1988. É impressionante a juventude deste vinho com seus 30 anos de vida, só comparável ao Ponsot Clos de La Roche acima descrito. Este vinho tem uma sobriedade quase irritante. Seu aroma tem sempre algo de misterioso, mas as rosas, a especiaria, a fruta bem colocada, estão lá. O que tem de potência no Clos de La Roche, sobra em elegância neste exemplar. A boca é harmoniosa, profunda, e persistente. Dá para ver na foto, que o Richebourg ficou meio intimidado …

fcabcab2-ad2b-4f2f-816f-f1760c603af0.jpgClimens 1929, o melhor da História

Em meio ao caos financeiro em Nova Iorque no ano de 1929, nascia o melhor Climens de toda sua história com 100 pontos. Chateau Climens é o rei de Barsac, região contígua a Sauternes, onde se elabora os vinhos botrytisados mais elegantes da região. Só a emoção de provar uma garrafa desta idade com as marcas do tempo, é motivo de sobra para contemplação. Pela cor âmbar escuro, lembra os grandes Tokaji Eszencia envelhecidos. A diferença marcante é a textura mais delgada deste Climens, sobretudo por conter bem menos açúcar residual que seu rival húngaro. De todo modo, os aromas e sabores de mel caramelado, damascos, cítricos cristalizados, e algo de curry, permeiam seu vasto espectro aromático, próprio dos vinhos imortais.  

Sem palavras para os agradecimentos, foram momentos mágicos onde a conversa fluiu solta em meio a uma gastronomia de alto nível, bem de acordo com os mais sagrados caldos da Côte de Nuits.

Se este for o tom do ano 2018, os Deuses do vinho estarão a postos para realizar os mais intangíveis desejos. Abraços a todos!