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Tintos da Borgonha: Top Ten

23 de Junho de 2016

Tempos atrás fiz um ranking pessoal dos melhores tintos de Bordeaux provados ao longo de mais de 20 anos. Agora, chegou a vez dos tintos da Borgonha. É sempre uma escolha difícil, até porque a memória nos trai. Em todo caso, segue abaixo alguns vinhos com a ressalva ao longo do tempo de serem modificados. De qualquer modo, são vinhos especiais, e que dificilmente irão decepcionar aqueles que experimentarem. É bom frisar também, que não sou um especialista na matéria, mas alguém já disse: o gosto é soberano!

la tache 1990

Hug Johnson: Um dos melhores vinhedos sobre a Terra

A ordem da lista não significa prioridades ou escala de pontuação. Evidentemente, são vinhos sob meu critério, acima de 95 pontos, ou seja, obras de arte.

  • DRC Romanée-Conti 1985

vinho difícil que precisa de tempo. acho que com seus mais de trinta aninhos mostra suas verdadeiras virtudes.

  • DRC La Tâche 1990

normalmente, agrada mais que o mito acima na maioria das vezes.

  • DRC Romanée-St-Vivant 1978

um vinho de sonhos. É o meu preferido do Domaine e nesta safra, extrapola as expectativas.

  • Henri Jayer Cros Parantoux 1988

aqui é um homenagem ao monstro sagrado da Borgonha, Henri Jayer. Poderia ser outra safra ou qualquer um de seus tintos. A delicadeza e longevidade desses vinhos não tem descrição a meu ver.

  • Clos de Tart

Novamente, independe da safra. particularmente, as safras 88 e 96 são magnificas. Um dos poucos da Borgonha capazes de encarar o mito (Romanée-Conti).

  • Domaine Jacques-Frédéric Mugnier Chambolle-Musigny Premier Cru Les Amoureuses

Independente da safra, mas com este produtor. você não completará a Borgonha sem ter provado esta obra-prima. A linha tênue que separa o encantamento da mediocridade, só Mugnier chegou mais perto.

  • Domaine Ponsot

Independente de safra, seus Grands Crus Clos St Denis e Clos de La Roche, todos vinhas velhas, são de uma profundidade impar. O silencio depois da prova é inevitável.

  • Domaine Rousseau

Seus Chambertins são espetaculares. Difícil escolher um. Até seu Premier Clos St-Jacques é inesquecível.

  • Domaine Méo-Camuzet

Seus Grands Crus Richebourg e Clos de Vougeot são raros, caros e divinos. A essência de Vosne-Romanée.

  • Domaines Michel Lafarge e/ou Marquis D´Angerville

Uma homenagem aos tintos da Côte de Beaune com dois domaines espetaculares. Não são Grands Crus, mas seus Volnay topo de gama são de uma delicadeza impar. Lafarge, mais feminino. D´Angerville, mais viril. Premiers Crus como Clos des Chênes, Chateau des Ducs e Clos des Ducs, são sensacionais e podem envelhecer dignamente.

clos te tart 2007

Terroir de séculos

Reparem que com exceção do último vinho, todos os demais são da Côte de Nuits, berço espiritual da Côte d´Or e por conseguinte, de toda a Borgonha. Todos são Grands Crus distribuídos pelas famosas comunas de Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny, Morey-St-Denis e Chambertin.

richebourg meo camuzet

exclusividade: menos de meio hectare

Além dos Premiers Crus da Côte de Beaune como última indicação, Les Amoureuses também inclui-se nesta classificação. Contudo, este tinto por si só, já é uma exceção.

henri jayer cros parantoux

o mito engarrafado

Há uma lacuna nesta classificação que precisa ser explicada. Os vinhos do Domaine Leroy. Infelizmente, os vinhos tintos do Domaine e não da Maison Leroy ainda não os provei. O branco Corton-Charlemagne é divino. Penso que os tintos devem seguir o mesmo caminho. Como disse, uma lista como essa jamais pode ser definitiva. A fila anda …

mugnier les amoureuses

a epítome da delicadeza

Todos esses vinhos são tintos de guarda que precisam pelo menos dez anos para se expressarem plenamente, alguns bem mais, especialmente Romanée-Conti, Clos de Tart e Domaine Ponsot.

Clos de Tart: Um Terroir de Séculos

21 de Junho de 2016

Grande noite entre amigos num jantar no restaurante Emiliano (Hotel). Lugar tranquilo, elegante, e serviço eficiente. Dois grandes vinhos nos esperavam, um branco italiano de Abruzzo e um tinto enigmático da Côte de Nuits, comentados abaixo.

clos de tart

a estrela da noite

De saída, não podíamos baixar o nível, um clássico champagne Deutz Extra-Brut para acariciar as papilas, iniciando os trabalhos. Preço honestíssimo na carta do restaurante, 315 reais. Acompanhou muito bem o couvert e uma cortesia da casa, um bolinho crocante recheado com carne de pato. A bela acidez do champagne combateu bem a deliciosa gordura da fritura. Uma harmonização clássica.

deutz extra brut

A precisão alemã em Champagne

bolinho de pato desfiado

mimo de entrada: fritura com pato desfiado

O branco à nossa espera é uma marco da vitivinicultura italiana, Azienda Valentini Trebbiano d´Abruzzo 2010. A uva Trebbiano normalmente não inspira grandes expectativas. Contudo, trata-se de algo especial. A vinícola é cuidadosa em seu plantio e condução da vinha, além de uma vinificação bem artesanal e sem malabarismos. As leveduras naturais permitem uma fermentação natural e sem pressa. O vinho matura em botti (toneis de grandes dimensões) inertes da Eslavônia.

valentini trebbiano

branco de extrema distinção

Este exemplar foi decantado por longas horas, chegando à mesa com aromas límpidos e sabores bem equilibrados. Notas cítricas e de frutas brancas estão bem presentes, sugerindo carambola. Nuances de especiarias e frutas secas também podem ser percebidas. Em boca, sua acidez é marcante, vislumbrando bons anos de guarda. Equilibrado e com final longo. Vinho de grande distinção e exótico.

Os pratos abaixo fizeram par com este branco, destacando-se as vieiras. A textura e o agridoce do prato levantaram o sabor do vinho, deixando um final bem harmonioso. Já a salada de polvo que parecia uma combinação certeira, pecou pelo excesso de maresia não combatida pelo vinho, embora o prato estivesse muito bem executado. Harmonização é isso: treino é treino, jogo é jogo.

vieiras uvas passas

vieiras frescas com molho de uvas passas e alcaparras

salada de polvo defumado

salada de polvo defumado com molho de limão siciliano

Agora o ponto alto do jantar, o enigmático Clos de Tart da comuna de Morey-St-Denis. Pessoalmente, coloco este tinto em pé de igualdade com Domaine Ponsot Vieilles Vignes (vinho sugerido no último campeonato mundial de sommeliers na Argentina, safra 1945), e o todo poderoso Romanée-Conti. Abaixo, seguem alguns detalhes da fera.

clos de tart 2007

um tinto secular

O mito Romanée-Conti é sempre reverenciado entre outras coisas por sua história milenar através dos séculos. Nesta trajetória, ele nunca esteve sozinho. Clos de Tart, tinto da comuna de Morey-St-Denis, trilhou caminho parecido desde o ano 1141 pelos monges cistercienses, melhor dizendo, freiras. Num vinhedo murado com pouco mais de sete hectares, as uvas são colhidas e vinificadas separadamente em seis parcelas com solos diferentes. A idade média das vinhas chega a 60 anos com algumas centenárias. O replantio paulatino das mesmas é feito com muito critério, pois trata-se de um patrimônio viticultural de grande valor. A opção de desengaçar as uvas ou não depende das condições de maturação das mesmas, conforme a característica  da safra. O vinho estagia em barricas novas pelo menos por dezoito meses. A adega do domaine possui condições naturais excelentes de armazenamento com temperaturas inalteradas em torno de 13ºC e umidade relativa do ar por volta de 75%. O estilo Clos de Tart costuma ser comparado entre a elegância de um Musigny e força de um Chambertin.

É o maior vinhedo Grand Cru individual da Borgonha, ou seja, somente um proprietário. Assim como Romanée-Conti, é um Monopole. Como as condições de safra variam bastante, falaremos do vinho provado do ano 2007. Embora seja um infanticídio, a safra 2007 é caracterizada pela precocidade, gerando vinhos mesmo na juventude, relativamente acessíveis. Os rendimentos neste ano foram de 27 hl/ha (hectolitros por hectare) e o estagio em barricas novas foi de dezoito meses.

Mostrou-se acessível, após horas de decantação. Sua cor é das mais intensas dos tintos da Côte de Nuits. Os aromas de rosas, especiarias e um toque de alcaçuz são de grande delicadeza. Na evolução, aromas terrosos, de fumo, e notas de charcuterie (embutidos), são mais presentes. Boca ampla, estrutura de taninos marcantes, equilíbrio perfeito, fazendo antever longos anos de guarda. Um tinto marcado pela  força, profundidade, sempre permeado por uma elegância impar. Aqui percebe-se a grandiosidade de um Borgonha.

codorna recheada cogumelos e foie gras

prato da noite à altura do vinho

A escolha do prato de acompanhamento foi unânime; uma codorna assada, recheada com cogumelos e foie gras, guarnecida com risoto de alecrim e molho do próprio assado. Um prato lembrando vagamente Festa de Babette (les cailles en sarcophage escoltada por Clos de Vougeot). Harmonização muito boa em termos de textura, refinamento e sabores sintonizados. A delicadeza do risoto sendo o alecrim uma erva marcante, foi muito feliz, além da complexidade do molho do assado. Enfim, o vinho sentiu-se valorizado.

contrate de chocolate

contraste de chocolate

interpretação de chocolates

interpretação de chocolates

Finalizando o jantar, duas sobremesas instigantes adoçaram maravilhosamente o paladar, conforme fotos acima. O contraste de chocolate marca pela ousadia em defrontar o doce do chocolate com o caramelo salgado. O sorvete de cumaru (semente de uma árvore da Amazônia) lembra um pouco o sabor da baunilha. Já a interpretação de chocolates é um deleite ao paladar, mostrando várias texturas, técnicas e doçuras crescentes em sabor.

petits fours emiliano

Emiliano: petits fours

partagas salomones

Salomones: o tabernáculo do Havana

Por fim, um mimo de saída. Belos e saborosos petits fours que valem por uma sobremesa, acompanhando o café. A noitada continuou com Havanas de gente grande, Partagas Salomones. Puros sublimando a habitual força e potência da marca. Sabores marcantes e muita conversa …

Vinhos da Arca de Noé: Parte II

9 de Março de 2016

Saindo da arca de nosso Noé, segue agora o desfile de tintos, e que tintos!. Evidentemente, começamos pelos borgonhas. Na mais, nada menos, que DRC (Domaine de La Romanée Conti) e Madame Leroy. Em seguida, um ilustre intruso do Rhône (Jean Louis Chave). Na parte bordalesa, dois pares de margem direita (Clinet, Le Pin e Petrus), e finalmente, dois pares da margem esquerda (Latour e Haut-Brion). Então, vamos a eles!

leroy clos de la rocheElegância: marca inconteste de madame Leroy

Clos de La Roche é um dos Grands Crus de Morey-St-Denis. Tinto de raça e certa austeridade, mas nas mãos de Madame Leroy tem uma graciosidade ímpar. O 2001 mais típico, taninos macios, aromas minerais e de rosas muito bem delineados. 2003 mais robusto, concentrado, típico da safra. Taninos mais presentes e muito persistente no final de boca. Bela interpretação das duas safras.

la tache e richebourg

Safra e vinhos esplendorosos

Quando estamos diante de um DRC da safra de 90, precisamos de um minuto de silêncio para cair a ficha. Alguém ja disse que La Tâche é um dos maiores vinhedos sobre a terra. E não há dúvida, o vinho é de uma complexidade e equilíbrio em boca quase indescritíveis. Contudo, ainda não está totalmente pronto. Há alguns mistérios a serem desvendados. Por isso, neste momento, o Richebourg torna-se mais prazeroso. Nariz com toda a complexidade da Pinot Noir e boca absolutamente macia, deliciosa. Momento importante da degustação.

chaves hermitage

O melhor Hermitage: com ou sem H

Dizem que o grande Hermitage vem de produtores que mesclam um maior número de vinhedos da apelação. Pois bem, Jean Louis Chave possui o maior número de “Climats” para fazer esta mescla. Embora o Cuvée Cathelin à esquerda da foto seja um cuvée de partidas mais concentradas escolhidas a dedo,  seu Hermitage clássico à direita me agrada mais. Talvez por estar mais pronto. Contudo, estamos diante de um par sensacional da irrepreensível safra de 90. Os aromas de frutas escuras, minerais e de especiarias invadem nosso palato.

le pin e clinet

Pomerol em alto nível

A safra de 89 moldou grandes tintos em Bordeaux. E no caso de Pomerol, não podia ser diferente. Talvez tenha sido o flight menos acirrado do painel de tintos. Embora Clinet seja um belo Château, sobretudo nesta safra, a comparação é um pouco cruel. Le Pin esbanja elegância sem precisar usar força. É bem verdade que está mais pronto que seu concorrente, mas é extremamente prazeroso. Clinet ainda pode surpreender com mais alguns anos. É esperar para ver.

petrus 64 e 67

Raridade: Petrus em sua maturidade

Petrus é diferente de tudo em Pomerol. Talvez por isso reine isolado e chega a ser atípico para a apelação. Eu o chamo de Latour da margem direita. Embora com seus 50 anos, este par ainda tem pernas para andar muito. Vinho denso, muito estruturado e de longa persistência. Briga muito acirrada, mas pessoalmente, acho o 64 uma cabeça à frente.

latour 45 e 64

Latour: quase imortal

Falando em Latour, olha ele aí!. Os dois seguem o perfil do flight anterior. Densos, profundos, quase indestrutíveis. Toda a essência de Pauillac está nestas garrafas. O cassis, o mineral, a caixa de charuto, entre outros aromas. Pessoalmente, achei o 64 mais estruturado. Entretanto, pode ser a diferença de idade, já que 45 é um ano lendário. Na dúvida, fique com os dois.

bochecha de boi

último prato: bochecha de boi e purê de grão de bico

haut-brion 59 e 61

Haut-Brion: elegância ao extremo

Este último par pode não ter a estrutura, a pujança, o poder, de um Petrus ou um Latour, mas certamente sobra elegância. 1959, minha safra, era puro deleite. Tudo no lugar, tudo resolvido, e o melhor, num platô amplo de estabilidade. Nenhum sinal de declínio. O 1961, também com muito prazer, mas trazia a marca da safra. Ainda uma certa austeridade, com taninos presentes. Flight sensacional.

Calma, ainda não acabou. Temos a sobremesa, os charutos, e claro, mais vinhos. Mais um tempinho, no próximo artigo. Até lá!

Bourgogne: Confronto de Terroirs

1 de Dezembro de 2014

Discutir sobre a Borgonha é sempre prazeroso, instigante e sobretudo, sem conclusões definitivas, lembrando um pouco as infindáveis discussões sobre futebol, ou seja, não se chega a lugar algum. Dentro desta perspectiva, o tema de hoje pode ser interessante, principalmente para aqueles que estão iniciando no assunto. Um dos fatores que mais intrigam os degustadores é desvendar as peculiaridades de cada “climat”, termo muito típico para designar terroirs específicos nesta região. Só para ficar nas comunas mais famosas como Chambolle-Musigny, Vosne-Romanée, Pommard, Volnay, Chambertin, entre outras, os escritores, críticos e apaixonados por este vinhos, tentam marcar as principais características específicas de cada uma delas. Seguindo este raciocínio, podemos propor alguns paineis em dupla, comparando vinhos aparentemente diversos, distintos. Seguem abaixo alguns exemplos:

Côte d´Or: O coração da Borgonha

Volnay x Chambolle-Musigny

Num primeiro momento, temos uma comuna da Côte de Beaune (Volnay) e uma comuna da Côte de Nuits (Chambolle). Terroirs bem separados, já que na Borgonha, mesmo em vinhedos lado a lado, as diferenças podem ser marcantes.  O ponto principal a ser comparado é a delicadeza, a elegância e a sutileza destes respectivos vinhos. A priori, os vinhos de Chambolle parecem vencer o páreo. Teoricamente, teriam mais profundidade, poderiam ser mais marcantes. Só que treino é treino e jogo é jogo. Na prática, às cegas, dependendo do produtor, os respectivos terrenos e a filosofia do produtor, tudo pode mudar. Entretanto, vale a bincadeira. Dois belos Premiers Crus, lado a lado, um de cada comuna, às cegas. Como sugestão, um Chambolle do craque Mugnier e um Volnay do diferenciado Lafarge.

Pommard x Nuits-Saint-Georges

Força, personalidade e até uma certa rusticidade, marcam esses tintos robustos para padrões borgonheses. Pommard é também chamado o “Barolo” da Borgonha. Já o terroir de Nuits-Saint-Georges é mais complexo. A porção que me refiro é mais ao sul, mais afastado de Vosne-Romanée. Aqui sim, são vinhos robustos, mais duros na juventude, porém podem envelhecer maravilhosamente. Nas duas comunas não existem Grands Crus. Como disse, para padrões borgonheses, falta-lhes algo mais refinado numa sintonia mais ajustada. Proponho para Pommard, os produtores Domaine Courcel ou Comte Armand, e para Nuits-Saint-Georges, Henri Gouges ou Faiveley.

Henri Gouges: Meu preferido de Nuits-St-Georges

Corton x Gevrey-Chambertin

Vinhos firmes, uma certa austeridade, um cunho másculo e novamente o antagonismo: Côte de Beaune x Côte de Nuits. Corton é a exceção. Único Grand Cru tinto da Côte de Beaune e Chambertin da Côte de Nuits, com o maior número de Grands Crus por comuna (são nove no total). Ambos geologicamente apresentam influência direta de um subsolo calcário, fornecendo finesse e elegância. Corton do produtor Chandon de Briailles e Chambertin do inacessível Rousseau. Na impossibilidade deste último, Domaine Trapet.

Embate de Gigantes

Vosne-Romanée x Morey-Saint-Denis

Aqui a proposta é mais ousada e até certo ponto, leviana. Comparar Vosne-Romanée com outros tintos da Borgonha pode ser para alguns um verdadeiro insulto. Contudo, como experiência vale. Um grande Bonnes-Mares, um Clos de Tart ou o grande Musigny, este último de Chambolle, podem ás cegas, surpreenderem degustadores até mesmo com os DRCs à mesa. Entenda-se DRC como os fabulosos Grands Crus da Domaine de La Romanée-Conti. Sem a presença de rótulos, os soberbos tintos de Vosne tornam o embate mais democrático.

Quase sempre uma surpresa às cegas

Enfim, esse é um dos caminhos divertidos para tentar compreender a Borgonha. É como as mulheres. É divertido, prazeroso, enriquecedor e necessário este contato, mas entende-las é uma outra história. Quanto mais estudamos, quanto mais formulamos teses, menos compreendemos. Eis é o fascínio.

Borgonha: Parte V

15 de Março de 2012

Prosseguindo ainda na famosa Côte de Nuits, falaremos sobre as comunas de Morey-St-Denis e Vougeot. A primeira engloba cinco Grands Crus: Clos de Tart, Clos St-Denis, Clos de Lambrays, Clos de La Roche e Bonnes-Mares. Este último, embora com a menor parte, divide-se entre Morey-St-Denis e Chambolle-Musigny.

Os tintos de Morey-St-Denis pendem mais para um estilo Chambertin, com algumas nuances diferenciadas e misteriosas. Clos de Lambrays tem este mistério, é o mais fechado entre os Grands Crus. Clos St-Denis é o mais delicado, feminino, enquanto Clos de La Roche é o mais firme, mais Chambertin. Por último, o espetacular Clos de Tart, talvez o preferido do meu amigo Roberto Rockmann. De fato, é um grande vinho, tendo um pouco de todas as facetas de seus Grands Crus vizinhos. Consegue aliar com maestria, elegância e potência. Boa alternativa de preço aos proibitivos tintos da Domaine de La Romanée-Conti.

Clos de Tart: Propriedade murada

Importadoras de ótimos produtores desta comuna: Clos de Tart (www.cellar-af.com.br), Domaine des Lambrays (importadora Grand Cru) e Domaine Dujac (Expand).

Côte de Nuits: tintos superlativos

A comuna de Vougeot, produtora de tintos e brancos, talvez seja a síntese do alto risco para quem se aventura em borgonhas, inclusive no seu polêmico Grand Cru, Clos de Vougeot. Com aproximadamente 50 hectares, trata-se de um latifúndio para padrões borgonheses, com cerca de 80 produtores. A posição do vinhedo na colina em termos de altitude e composição de solo aliada à filosofia de trabalho de cada produtor, gera vinhos bastante distintos em qualidade e estilo. Vai desde o medíocre ao sublime. Produtores como Méo-Camuzet, Grivot (ambos da importadora Mistral), e Chateau de La Tour (importadora Decanter) são altamente confiáveis.

Méo-Camuzet: Produção minúscula

Outras apelações e comunas como Fixin, Marsannay e Hautes-Côtes de Nuits não apresentam destaques, exceto por um ou outro produtor de produção minúscula. Composição de solo e altitude são alguns dos fatores desfavoráveis para o sucesso de seus vinhos. Em grandes safras, onde a maturação da uvas fica próxima do ideal, seus vinhos ganham alguns atrativos.

Por ora, faremos uma pequena pausa sobre a Borgonha, retornando em breve com novos artigos.


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